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sábado, 15 de janeiro de 2022

Como será o futuro?

 

Como será o futuro?

 por Antônio Wantuil de Freitas

Reformador (FEB) Novembro 1944

             Sob esse título, “Ave Maria”, jornal católico editado no Brasil, estampa um artigo especialmente escrito para a sua revista pelo padre Ricardo D. Liberali, que, de liberal, só tem o nome.

            Ao lado de uma infinidade de inverdades, com as quais procura embair os seus leitores, cita o referido padre dois casos em que os maridos abandonaram as esposas, para se juntarem a outras mulheres. Ao relatar o fato, o padre não diz os nomes das personagens, mas, apresenta-as como adeptas do Espiritismo e frequentadoras das pantomimas espiríticas e demoníacas, as quais, diz ainda o reverendo, podem levar o Brasil a ser escravo de satanás.

            Pelo nome, esse padre Liberali é companheiro daqueles que também tiveram pena da Abissínia e abençoaram as armas de Mussolini; e, pelos processos de que usa, para propagar a sua religião, é bem possível que ele seja a reencarnação de um dos “santos e sagrados sacerdotes da santíssima Inquisição”.

            Ainda que o fato seja real, não vemos por que motivo acusar uma religião de imoral e demoníaca, por lhe encontrar um ou outro adepto desnorteado. Seria o mesmo que nos basearmos nas atrocidades do catolicíssimo Lampião, que assistia a quatro ou cinco missas antes de efetuar os seus roubos, e que, após executá-los, dividia-os com as igrejas que lhe eram queridas.

            Por outro lado, o referido padre Liberali e o jornal que lhe publicou o “libelo”, além de fazerem baixar o nível do seu sacerdócio, com tais processos, deveriam ter-se lembrado de que esses espíritas, se existem, vieram do Catolicismo e, por isso, cansados estavam de saber, pelo noticiário de jornais brasileiros, que até mesmo os padres, “os representantes de Deus”, costumam, de quando em vez, abandonar a batina para seguirem as suas “confessandas”, solteiras ou casadas, ou, mesmo, com batina e tudo, e com elas viverem maritalmente.

            Quem tem telhados de vidro, reverendo...


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Aposentadoria para o demônio

 

Aposentadoria para o demônio

Tasso Porciúncula (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Março 1961

              Não obstante o carrancismo teológico, certos princípios e doutrinas vão sofrendo modificações impostas pela evolução dos tempos. Não importa a característica de cada um deles, porque, sem consistência nem fundamento, perderam já o poder que lhe outorgou, em outras épocas, o obscurantismo a serviço do clero no seio da grande massa pouco ilustrada.

            Resistindo desesperadamente ao progresso, a Igreja Católica tem, apesar disso, renunciado já a certas posições até então consideradas irremovíveis. Percebendo a grosseria de ideias e conceitos que a ignorância sustentou durante séculos, a Igreja tem procurado contorná-los, recorrendo para isso a toda a habilidade de que se julga capaz.

            Ninguém ignora a posição hostil que o Catolicismo sempre manteve em relação à Ciência. Ninguém pode esquecer as vicissitudes de ilustres sábios, num época em que era castigada com torturas e fogueiras a audácia de avançar uma nova proposição científica, ainda que comprovada pela experiência. Hoje, se não mais se ergam fogueiras, ainda os estudiosos e cientistas são muitas vezes forçados a dissimular seus pontos de vista ou a apresentá-los de forma pouco espírita para não sofrerem restrições ou perseguições da Igreja, feitas por meios indiretos, através do poder político do Estado a ela subjugado.

            O espírito de seita, comum a todos as religiões pouco afeitas ao espírito evangélico, que condena a intolerância, a descaridade, a desarmonia e o intento de represália, continua agindo no mundo, principalmente nos países que ainda não lograram assimilar inteiramente a verdadeira democracia e sentem a influência depressiva dos cleros em todos os setores de sua vida, inclusive, ou principalmente, no setor da educação do povo.

            Os anglicanos, segundo lemos em telegrama de Londres, divulgado no “Correio da Manhã”, do Rio, de 14 de Janeiro de 1961, resolveram aposentar o demônio, fantasma que, durante séculos e séculos, ajudou fraternalmente a conquista do homem inculto, tornando-se, por isso mesmo, colaborador valioso das diferentes igrejas. Diz o telegrama:

             “O novo catecismo anglicano não terá demônios. Ainda em Janeiro, as igrejas anglicanas de Canterbury e de York se reunirão separadamente para examinar importantes questões das trinais sociais e organizativas. Entre as reformas, o que está destinado a levantar memoráveis polêmicas é a do catecismo. No catecismo de 1662, lê-se: “Eu renunciarei ao demônio, e a todas as pompas, aos faustos e às vaidades deste iníquo mundo e ainda aos desejos pecaminosos da carne.” No catecismo de 1961, ler-se-á: “Eu renunciarei a tudo o que é errado e combaterei contra o mal.”

             Evidentemente, os anglicanos evoluíram,  concedendo aposentadori a ao demônio, cujo trabalho extenso e cansativo, durante anos e anos merece a recompensa de um descanso. Jamais o demônio deixou de cumprir a tarefa combinada com as igrejas, de assustar os pacúvios e de se intrometer na mente dos crédulos, de maneira a levá-los ao redil clerical. Sempre o demônio, ou o diabo, cumpria seu dever, ainda que algumas vezes, no afã de não desmentir as igrejas, desse a impressão de ser, em relação a Deus, equipotente.

            O Catolicismo já está farto de saber que a Humanidade não mais acredita nos malabarismos e mágicas atribuídas ao demônio. O “artista”, pela impossibilidade de apresentar novos “números”, acabou desacreditado. Mesmo o demônio católico já está cansado de tanto serviço.  Nunca teve férias, de modo que se torna justo, absolutamente justo, receba o prêmio de uma aposentadoria, ele que deisteressadamente prestou serviços imensos à Igreja e notadamente ao clero, sempre mais exigente e rabujento.

            Já Giovanni Papini, em “O Diabo”, pôs em destaque esse direito incontestável adquirido pelo diabo, Vejamos, por exemplo, este trecho do referido livro desse autor prestigiado pelo Catolicismo:

             “A doutrina da reconciliação total e final de todos os seres em Deus não faz parte do ensino da Igreja de Roma, mas quem conheça a história do pensamento cristão sabe que tem havido, aqui e além, pelos séculos afora, mudanças e enriquecimento em torno dos maiores dogmas da fé. Certas opiniões por muito tempo ensinadas foram, com o andar do tempo, obliteradas, senão condenadas; outras novas as substituíram e uma renovação análoga poderia e deveria repetir-se.

            “Até há alguns séculos, a ideia da chama devoradora dos homens – seja a das fogueiras seja a do inferno – não turbava a sencibilidade e a mente dos bons católicos.

            “Cristo amou os homens, inclusivamente os rebeldes e os corruptos e os bestiais, até ao ponto de morrer por nós de uma morte infame. Não poderá dar-se que Ele tenha querido libertar-nos da escravidão do Demônio na esperança de que os homens, por seu turno, possam libertar o Demônio da sua condenação? Não poderá dar-se que o Cristo tenha redimido os homens a fim de que estes, mediante o divino preceito de amar os inimigos, venham a ser dignos de sonhar um dia a redenção do mais funesto e obstinado Inimigo? Um verdadeiro cristão não deve ser injusto nem com os injustos, não deve ser cruel nem com os cruéis, mas deve ser tentador do bem mesmo com o mesmo tentador do mal. Devemos, pois, avizinhar-nos de Satã com espírito de caridade e justiça, não para nos tornarmos seus admiradores ou imitadores, mas com o propósito e a esperança de o libertarmos de si mesmo e, portanto, nós dele. Talvez ele não aguarde senão um movimento da nossa compaixão para encontrar em si a força de renegar o seu ódio, isto é, para libertar o mundo inteiro do senhorio do mal.”

             Embora dizendo o contrário, Papini defende essa valiosa criação da teologia católica, mas reconhece que, segundo o verdadeiro espírito cristão, ele merece ser tratado melhor... Por isso, escreveu todo um livro sobre o Diabo e sua desventura, ainda que, temeroso do anátema católico, pondera: “A doutrina da reencarnação total e final de todos os servos de Deus não faz parte dos ensinos da Igreja de Roma”... Pretende também amolecer um pouco a resistência dos bons católicos, ao lembrar que “até há alguns séculos a idéia da chama devoradora de homens – seja a das fogueiras, seja a do inferno – não turbava a sensibilidade e a mente dos bons católicos”. Será que os “bons católicos”, que permaneciam insensíveis diante das fogueiras da Inquisição, hoje sentiriam pena do pobre Diabo, anjo de luz decaído? Difícil dizer-se. A verdade, porém, é que tudo se dirige para a hora da reabilitação do “empertigado e peremptório racionalista”, no dizer de Papini.   

             Tanto mais, acrescenta o famoso escritor católico, “um verdadeiro cristão não deve ser malvado nem com os malvados, não deve ser injusto nem com os injustos, não deve ser cruel nem com os cruéis, mas deve ser tentador do bem mesmo com o tentador do ml. Devemos, pois, avizinhar-nos de Satã com espírito de caridade e Satã, não para nos tornarmos seus admiradores ou imitadores, mas com o propósito e a esperança de o libertarmos de si mesmo e, portanto, nós dele. Talvez ele não aguarde senão um movimento da nossa compaixão para encontrar em si a força de renegar o seu ódio, isto é, para libertar o mundo inteiro do senhorio do mal.”

             Se o Demônio, o Diabo, o Lúcifer, o Belzebu, o Satanás ou que outro nome tenha essa ficção da mitologia religiosa, alcançar a carta de indulto, que valerá por uma aposentadoria, com direiro a todos os vencimentos atrasados, poderá vir a ser, no futuro, um santo cheio de devotos, capaz de fazer mais milagre que muitos que erderam há longos anos a habilidade que notabiliza os mágicos teatrais...

            Não há de demorar muito, o Vaticano anunciará também certas medidas de “modernização” sendo, embora difícil, possível, que o demônio venha a receber, senão a aposentadoria integral, pelo menos férias periódicas, que o possibilitem a meditar acerca do inglório serviço realizado por conta da Igreja e risco do próprio diabo. A transigência não é uma virtude atribuível ao Catolicismo, quando seus dogmas ou seus princípios teológicos possam ser afetados. Acontece, porém, que o mundo continua caminhando para a frente. O povo está sendo cada vez mais esclarecido e verifica que as lendas clericais se esboroarão fatalmente, incapazes de suportar as verdades científicas e bem assim os esclarecimentos do Espiritismo.

            Quem quer que examine o catecismo católico, verá, sem esforço, a congérie de absurdos que ali se amontoam. Com o Papa ainda empenhado em realizar a união de todas as igrejas, embora todas elas se mostrem um tanto desconfiadas desse propósito unificador, pode ser que o diabo católico venha, dentro de futuro não muito remoto, a gozar dos benefícios que o Anglicanismo está desejando conceder ao seu demônio.


sábado, 27 de novembro de 2021

Erros religiosos da Humanidade

 

Erros religiosos da Humanidade

por Ismael Gomes Braga

livro: “Libertação” (Editora Ismael-Araras-SP, 1955)

             “A mesma gota caída do céu será pérola se recebida por uma rosa, ou lama se absorvida pelo pó”, disse Léon Denis, com respeito às revelações que o Céu nos remete, e concluiu que o Espiritismo será o que dele façam os homens, porque os bons saberão empregá-lo para o bem, mas os maus o corromperiam como tantas revelações anteriores que se tornaram flagelos para a Humanidade, apesar de sua origem divina.

            A primeira desventura do homem é seu espírito de seita que tudo conspurca e incendeia, porque ele tem n’alma quase somente germens de inferioridade e em tal terreno não podem medrar as sementes do bom e do belo. Só uma ínfima minoria de bons colhe todos os benefícios das revelações divinas.

            Deus nos envia Mestres sublimes que nos ensinam o caminho da luz para a felicidade. Uns poucos aceitam a revelação e voam para o alto, mas a maioria projeta suas próprias sombras sobre o terreno e têm de progredir lentamente pela força invencível da dor que a ninguém deixa para sempre abandonado à margem da evolução.

            Moisés recebeu e transmitiu ao povo ensinos de eterna sabedoria. Não nos esqueçamos que por ele veio ao mundo o Decálogo e vieram outras pérolas preciosas, como comentários aos Dez Mandamentos. São frases que ficarão eternas nas Escrituras e foram mais tarde confirmadas por Jesus, como o são hoje pela Terceira Revelação, mas em poucos corações se tornaram força viva tais ensinamentos. Vamos copiar aqui apenas três frases recebidas por Moisés: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco, e amá-lo-ás como a ti mesmo.” (Levítico, XIX, 34). “Ama ao teu próximo como a ti mesmo” (Levítico, XIX, 18). “Nem só de pão vive o homem.” (Deteronômio, VIII, 3).

            Estas frases foram repetidas por Jesus e o são incessantemente pelos nossos guias, porque constituem ensinos de aplicação eterna e universal. Os homens creram que tais palavras vinham de Deus e as conservam nos lábios até hoje, mas só nos lábios. No coração elas não viveram ainda.

            Bastariam os ensinos recebidos pela mediunidade de Moisés para guiarem a humanidade à luz e à ventura. Reflitamos sobre o versículo 33 do cap. XIX do Levítico, acima transcrito, para percebermos que ele não poderia ser de origem humana. Naquele tempo em que se faziam as guerras de extermínio contra os estrangeiros e só se poupava o estrangeiro vencido na guerra para vende-lo como escravo, uma ordem de amar o estrangeiro como a si mesmo só poderia ter descido de alta esfera espiritual, porque excedia de muito tudo o que o homem de então poderia pensar e sentir.

            Esses ensinos foram escritos 1300 anos antes de nossa era, ou seja, há mais de 3200 anos  e o que foi feito deles pelos crentes que o receberam?

            Fecharam-se num seita fanática que cometeu os mais absurdos crimes de religião contra os seus profetas ulteriormente aparecidos, inclusive contra o Divino Mensageiro que levaram à cruz do martírio. Cultivaram tristemente o ódio e conquistaram para si mesmos o ódio universal.

            Tais e tantos foram os crimes cometidos em nome da Lei, que a dor se tornou o processo necessário de evolução daquele povo que era destinado a guiar os outros no progresso espiritual, como se depreende do fato de haver-se tornado universal a Revelação por ele recebida.

            Acusando de heresia e condenando o divino Mestre, o Mosaísmo se afastou do Cristianismo e ficou estacionado; mas o Cristianismo aceitou a Revelação mosaica, tornando-o o grande divulgador do Velho Testamento.

            O que se tem dito do martírio do povo judeu, sob o ódio universal, em todos esses milênios, não é só indizível é até inconcebível.

            Implantou-se a Segunda Revelação, acentuando mais a Lei de amor universal e exemplificando-a com os mais sublimes scrifícios.

            A parte má e errada da religião – o espírito de seita – colocou os israelitas fora da Humanidade, quando o fundamento mesmo do Judaísmo é universal e deveria ter feito dos judeus os líderes religiosos mais queridos do mundo.

            Dentre os numerosos erros religiosos dos judeus, um de graves consequências foi o suporem que a Revelação Divina ficara encerrada no Velho Testamento, e nada mais Deus teria que dizer aos homens. Com esse tenebroso engano, ficaram eles encarcerados religiosamente num passado remoto, fora do tempo e do mundo, sem admitir nenhum progrsso na Revelação, nem a possibilidade de haver preciosas revelações por intermédio de outros povos. Repeliram o maior de seus profetas, o que vinha coroar a obra e dar cumprimento à Lei, realizar as profecias.

            Nasceu o Cristianismo em plena capital judaica, mas a religião oficial o repeliu e só os simples de coração o aceitaram. Perseguiram o Espírito mais sublime que já desceu à Terra; crucificaram-no e perseguiram seus discípulos e continuadores.  O Cristianismo que teria dado o máximo prestígio ao povo de Israel, foi exilado e só pode medrar no estrangeiro.

            Foi um erro religioso de tremendas consequências para os judeus essa violenta repulsa ao Cristianismo nascente. Eles perderam a liderança religiosa que lhes havia sido posta nas mãos, e tornaram-se uma pequena seita odiosa e sempre odiada no mundo, quando ela só deveria inspirar amor, amar e ser amada.

            O Cristianismo confirmou a Lei em tudo que ele possuía de divino; mas depois de três séculos se constituiu em Igreja oficial do Império Romano, adquiriu poder temporal, tornou-se religião obrigatória par todos os súditos do governo romano.

             Como religião oficial o Cristianismo recebeu todos os defeitos do Paganismo, já muito enraizados no povo, e perdeu seu próprio espírito que era todo de perdão e amor.

            Passou de perseguido a perseguidor e entrou a cometer todos os erros – para não dizer crimes – de religião imposta pela força do Estado. Toda a crueldade bárbara ressurgiu sacrilegamente em nome do cordeiro de Deus. Nessa involução, descendo sempre, dando pasto às mais vis paixões humanas, com o passar dos séculos o “cristianismo” estava transformado na mais monstruosa instituição que já possuíu a Humanidade. Era a Inquisição, o ódio desenfreado, apoiando a escravidão, cavando prisões subterrâneas, levantando os cavaletes de tortura, a roda, acendendo fogueiras para queimar vivos os seus “hereges”, assim classificados em processos odiosos de interesses políticos e econômicos inconfessáveis.

            Séculos e séculos de crimes monstruosos em nome da religião de amor e perdão incondicional!

           Vieram as Cruzadas, guerras de pilhagem e extermínio que duraram séculos, sob pretexto de “libertar” a Terra Santa... E tudo em nome do Cordeiro de Deus!

            Surgiu entre os árabes o Islamismo, agressivo, exclusivista, cruel, e até hoje mantém guerra “santa” contra o cristianismo das igrejas.

            Em todos esses séculos e milênios de tremendos erros religiosos, o progresso humano continuou sendo feito através da dor que felizmente nunca nos abandonou em nossos desmandos.

            Chegou o século da revolução contra a tirania do imperialismo religioso. Foi feita a Reforma religiosa que custou rios de sangue e levou à fogueira Espíritos sublimes. Basta lembrar a Noitada de S. Bartolomeu e a execução de Jan Huss, para sentirmos o preço da Reforma, o terror da reação de Roma contra a Reforma; mas a Humanidade já havia progredido bastante para a vitória da Reforma sobre grandes massas humanas, se bem que Roma continuasse dominando em muitos países do Ocidente, como se acha ainda.

            A Reforma e o progresso social conquistado palmo a palmo, forçaram finalmente Roma a se modificar e perder a força tirânica que exercia sobre o povo. Ainda em nosso século houve tentativa forte de restauração daquela força. Pelo célebre Tratado de Latrão, o fascismo restaurou o poder temporal da Igreja; mas foi de pouca duração essa restauração, porque o próprio fascismo foi extinto mais cedo do que a Igreja poderia supor.

            Essas conquistas sociais foram de caminhar lento. Três séculos depois de feita a Reforma, ainda a Inquisição conservava seu inteiro poder sobre Portugal, Espanha e outros países, e queimava impunemente os seus “hereges”, em processos tortuosos, nos quais predominava muito o interesse político e econômico.

            Com tantos erros cometidos através dos milênios, a religião se comprometeu duramente na consciência humana. Há numerosas pessoas que sentem um santo horror da palavra “religião”, como os judeus e outros povos sentem pavor no nome “cristianismo”, porque para esses povos “cristianismo” significa: prisões subterrâneas, torturas físicas e morais, fogueiras inquisitoriais, confiscação de propriedade, escravidão, lama da pior espécie.

            Agora ressurge a religião com a Terceira Revelação. Não desmente os seus princípios revelados através dos milênios, confirma-os.

            Diz-nos de novo o mesmo que já foi dito por intermédio de Moisés, dos Profetas, de Jesus, e, além de dizê-lo, traz-nos o depoimento dos “mortos”, todos eles afirmando que aqueles princípios de amor universal indicam o único caminho seguro para a subida ao céu.

            A grande diferença ente a Terceira Revelação e as duas que a precederam consiste em que as duas primeiras afirmavam  a eternidade da vida, enquanto que a Terceira demonstra essa eternidade e com ela a responsabilidade ilimitada: ninguém fica impune pelos crimes que comete; não há meios de burlar a lei de Deus.

            Pelos crimes religiosos cometidos no passado, temos muita razão de supor que os homens não criam na imortalidade e responsabilidade da alma; era um dogma inteiramente morto o da imortalidade. De agora em diante, a repetição por toda a parte dos fenômenos espíritas vai dando nitidez cada dia maior a essa verdade religiosa; a imortalidade da alma torna-se palpável e indubitável.

            Não aceitamos liteiramente a opinião de Léon Denis, citada no início deste artigo, porque a paciência dos nossos Maiores da Espiritualidade está hoje mais demonstrada do que no momento em que foram escritas aquelas palavras. Cremos que os homens não terão força de corromper o Espiritismo e rebaixá-lo como fizeram com as revelações anteriores, porque os Espíritos são incansáveis em seus esforços de nos ajudar, e porque a Humanidade já progrediu um pouco moralmente para não cair mais em erros tão grosseiros.

                                                                                   ***

            O Espiritismo terá que cumprir sua missão num mundo diferente daquele em que se desenvolveram as igrejas que cometeram grandes erros religiosos.

            Embora os princípios revelados do Judaísmo e do Cristianismo fossem universais, a Humanidade antiga vivia apartada em grupos sem comunicações constantes uns com os outros. A falta de transportes, de imprensa, de uma língua internacional popular insulava os grupos humanos que se desconheciam mutuamente. Nada havia de comum a toda a Humanidade. No presente e ainda mais no porvir, ao contrário, tudo será mais comum a toda a população do Planeta.

            Todas as distãncias já estão abolidas pelo rádio. O progresso do Esperanto já nos vai criando a mentalidade planetári, a consciência de solidariedade de todos os terrícolas. Quando se der o pleno desenvolvimento do Espiritismo, já as massas humanas possuirão uma língua internacional popular.

            As religiões antigas tinham, cada uma delas, sua língua internacional: o Judaísmo tinha o hebraico, a Igreja Católica tinha o latim, o Islamismo possuía o árabe, mas tais línguas só eram internacionais para pequeníssimas elites de alto nível cultural; o povo mesmo não possuía meios de compreender as Escrituras, sempre fechadas em línguas sagradas até a Reforma, quando a Bíblia passou a ser traduzida e divulgada entre os crentes.

            No porvir, as massas humanas mesmas possuirão uma língua realmente internacional e gozarão os benefícios da Revelação Progressiva e universal que se dará no planeta todo e chegará imediatamente ao conhecimento de todos.

            Seria pessimismo supormos que o Espiritismo venha a cair nos mesmos erros do passado. Isso não será possível; o progrsso não o permitirá.

            Temos encontrado nos meios espíritas, ultimamente, famílias de israelitas que teriam pavor de entrar em uma igreja católica; mas, através do Espiritismo foram conquistadas para o Evangelho. Uma das missões do Espiritismo, ao que nos parece, será recuperarmos para o Cristo o coração dos judeus, esse coração tão assustado pelo medo milenário das perseguições que supunham “cristãs” e que se diziam “cristãs”. Já com dois mil anos de atraso, mas na eternidade nunca é demasiado tarde.

 ***

             Os crimes religiosos do passado eram cometidos impunemente, porque a legislação humana não havia ainda classificado aqueles atos como crimes passíveis de punição pelos tribunais mesmo humanos. Hoje chama-se genocídio essa espécie de crimes cometidos contra um grupo religioso, uma nação, um partido. No caso da matança de judeus pelos nazistas, a ação foi classificada de genocídio e reuniu-se um tribunal internacional que julgou e condenou os responsáveis.

            A defesa dos acusados alegou que tais atos não eram crime, porque praticados de acordo com a legislação vigente na Alemanha que era uma nação soberana e podia decretar as leis que lhe aprouvesse. Mas os julgadores decidiram que acima das soberanias nacionais existem direitos humanos universais, cuja violação é crime, e assim foram condenados e executados os responsáveis. Houve um progresso na evolução do direito internacional e o sentimento de humanidade foi colocado acima das soberanias nacionais que cobriram tantos crimes no passado.

            Pode argumentar-se que esse reconhecimento dos direitos da criatura humana à liberdade, à vida, à crença, é de difícil execução, e como prova disso pode alegrar-se que o lançamento de bombas atômicas contra cidades japonesas, exterminando populações civis indefesas, seria um crime de genocídio, mas os responsáveis não foram julgados, porque não houve força legal suficiente para julgá-los. Se os Estados Unidos houvessem sido vencidos na guerra, certamente um tribunal japonês teria classificado o fato como genocídio, julgado e condenado os responsáveis, e meia dúzia de ianques teriam sido enforcados. Ninguém foi acusado, porque faltou força necessária ao julgamento em tribunal. Mas a consciência universal não absolveu os responsáveis: o mundo todo sente ódio contra os responsáveis, e os mais veementes protestos suriram dentro dos Estados Unidos. Houve outra espécie de condenção que apavora os responsáveis, e esta nos agrada mais do que a de Nurenberg, porque entrega o criminoso ao tribunal de sua própria consciência que é o mais forte de todos os tribunais.

            O povo dos Estados Unidos julgou os responsáveis pelas bombas atômicas sobre cidades indefesas do Japão e este julgamento é muito forte.

            Os erros religiosos da Humanidade são capítulo triste da História, mas não poderão reproduzir-se no porvir, nesse grande porvir que assistirá ao triunfo mundial da Terceira Revelação, ou seja do triângulo luminoso a que se têm referido os nossos guias:

                                                                             E

                                                                       E          E         

             Evangelho, Espiritismo, Esperanto: amor, luz, compreensão universal.

 


segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Reconstrução pelo Espiritismo

 

Reconstrução pelo Espiritismo

Editorial

Reformador (FEB) 1º de Dezembro de 1916

 Publicou a nossa modesta revista (1) algumas páginas de Ed. Schuré, após uma visita ao Santo sepulcro, sobrecarregado de símbolos e ornamentos, que a devoção acumulou durante séculos.

Jerusalém, antiga metrópole de judaísmo, onde se ostentava o templo de Salomão, assinalada pelo Calvário, ora debaixo da denominação turca, pode ser considerada como o lugar de confluência do mosaísmo, cristianismo e maometanismo.

O Sinédrio foi transferido, sob outra denominação, para Roma, mas o farisaísmo prolífico não perdeu o primitivo habitat; continuou a pompear em torno do Santo sepulcro como algures.

Os fariseus antigos não reconheceram o Messias, que transitava, doutrinando e fazendo o bem, pela região da Palestina. Os de hoje não compreendem o Cristo ressurrecto.

Transformaram a religião do espírito, da vida, do amor e da luz em grosseira religião da matéria, da morte e das trevas.

Vede os santuários resplandecentes de luzes, de ouro e pedraria, envoltos em ondas de perfume, com os seus sacerdotes, ricamente paramentados... Plena escuridão espiritual.

Depois de visitar, em sua majestosa simplicidade, a mesquita octaédrica de Omar, erguida no sítio profanado, segundo a narrativa evangélica, pelos mercadores expulsos, p eloquente autor d’Os grandes iniciados observa que a igreja, cultivando as exterioridades, embora sinta o solapamento de seus dogmas, zomba da ciência materialista e da filosofia agnóstica, que não conseguem eliminar o sentimento religioso. São forças que não podem incomodá-la. Tantas vezes tem triunfado da incredulidade e do negativismo!

Espíritos inquietos e estudiosos abandonaram de todo a religião, porque ela os não satisfazia, não dava solução aos problemas que os torturavam; oferecia-lhes, ao contrário, dogmas absurdos e fórmulas rituais inúteis. Não souberam ou não puderam talvez orientar-se nas grandes lutas íntimas.

Podem ser almas sequiosas de verdade e transviadas pela educação.

Precisam de fatos, como os que apresenta, em profusão, o Espiritismo, para que o plano espiritual lhes seja desvendado e esclarecido o problema do destino.

Simples questão de direção, de rumo...

Há outros que permanecem nas igrejas, adotando os seus ritos, porque lhes repugna a conclusão materialista. Podem vislumbrar a luz através das paredes do túmulo. Tem a intuição da outra existência, de onde vieram pela reencarnação. Não há argumentos de a+b que os convençam do contrário. Os dessa classe, que já adquiriram algum adiantamento espiritual, que não são adeptos de seitas religiosas por interesse ou fanatismo, podem apreender, com facilidade, a doutrina espírita que os fará progredir. Estão nas igrejas si et in quantum (se e em que medida), porque cultores do sentimento religioso, não haviam encontrado melhor solução. Sendo sinceros, serão, amanhã, espíritas. Deixarão as igrejas, as velhas fórmulas, que os embalaram, sem irritação, suavemente, atraídos pela luz da Nova Revelação.

Deste lado, tranquilos e confiantes, sem receios do inferno eclesiástico, já estão muitos, que orçam por milhões, vindos do romanismo, do protestantismo e de outras confissões religiosas; o que aliás não nos causa admiração, porque, sabemos, o progresso é uma lei para o indivíduo e para a coletividade.

 ***

 Trabalhavam ou agiam, “dentro de compartimentos estanques”, segundo a imagem empregada pelo escritor citado, a ciência e a religião, uma sem esperança e a outra sem provas, indiferentes ou antagônicas.

Métodos diversos, soluções diversas.

O Espiritismo se aproximou.

Todos aqueles que o estudam, sob os seus diferentes aspectos, sabem como ele colocou, acumulando provas, em face da ciência materialista, o problema fundamental d’alma humana, cujo destino ficou desvendado; sabem como, em consequência, o problema religioso perdeu a feição misteriosa e o caráter de sobre naturalismo, que o punha fora dos domínios da razão e da nossa pesquisa.

Assistimos, felizmente, não a um trabalho somente de demolição, como no século XVIII, mas a uma verdadeira obra providencial de reconstrução científica, filosófica e religiosa.

A guerra atual não a impedirá. (1ª Guerra Mundial)

Felizmente, para a humanidade.

(1)     ‘Reformador’ de 16 de julho de 1916


domingo, 30 de maio de 2021

Dogmas e mais dogmas

 

Dogmas e mais dogmas

por I. Pequeno (Antônio Wantuil de Freitas)

Reformador (FEB) Novembro 1946

             Enquanto os nossos irmãos protestantes não aceitam sequer a virgindade de Maria, os católicos dia a dia procuram conduzir aquele Espírito a uma categoria mais elevada. Depois de a apresentarem como mãe de Deus e de a subdividirem em tantas nossas -senhoras, quantas sejam necessárias aos interesses da Igreja, sob os mais extravagantes nomes, procuram agora convencer-nos, baseados numa lenda, de que Maria subiu aos Céus, tal qual Jesus, com o mesmo corpo apresentado entre nós.

             Referindo-se a esse culto prestado a Maria, em que a colocam em superioridade ao próprio Deus, por ser a genitora de uma das suas pessoas, disseram-nos os Espíritos que esse culto já ultrapassa ao que a Igreja rende ao próprio Cristo (Roustaing, lV-221); assim, diante dessa tendência do clero para deificar a Virgem, como já o fizeram com Jesus, julgamos necessário transcrever o que disseram os Espíritos, quanto à posição espiritual de Maria, extraindo alguns trechos da 3ª edição da obra “Revelação da Revelação”:

             - Maria era Espírito perfeito quando encarnou em missão: Perfeito, relativamente a nós, ao nosso planeta; não o era, porém, com relação aos mundos superiores. Espírito superior, de mui elevada hierarquia espírita, com relação a nós, não tinha ascendido ainda à perfeição sideral. (1-330).

            - Após uma encarnação fluídica num planeta mais adiantado que a Terra, encarnação sofrida como consequência de pequenina falta, retomou aquele Espírito o caminho simples e reto do progresso e até hoje o trilha, pois que ainda não chegou ao cume, à perfeição sideral. (1-333) ,

            - Conquanto não se ache ainda na categoria dos Espíritos puros, suas atuais encarnações estão de tal forma acima de nossas inteligências, que não podemos fazer dela do que sejam.

            Sabemos, porém, que Maria é um Espírito inferior, muito inferior a Jesus. (1-331).

            - O Senhor estava com Maria, mulher entre todas bendita, por ser, entre todas, Espírito muito puro no desempenho de uma missão na Terra. (1-369).

            - Recomendando João a Maria e esta aquele, Jesus deu o testemunho da sua solicitude pelos encarnados e homenageou os sentimentos que devem animar os filhos com relação aos pais, sentimentos que devem ligar a grande família humana. (IV-498).

            Como vemos, apesar do muito respeito e da muita estima que nos merece o elevado Espírito de Maria, ao qual temos recorrido muitas vezes, não podemos concordar com os dogmas da Igreja, dogmas que tendem a fazer da Virgem o que já fizeram com o Cristo, deificando-a igualmente.

            Os espíritas também dirigimos preces a Maria, como o fazemos igualmente aos nossos guias e protetores; porém, entre a nossa veneração à Virgem e a outros grandes Espíritos e a divinização que lhe quer dar a Igreja, vai um infinito, um abismo quase igual ao que existe entre a criatura e o Criador, ou entre um planeta e o Universo.

            Se assim continuarem, dentro de mais alguns séculos já não mais terão a Trindade, visto que se tornará necessário criar um novo termo, ao qual possam incluir as atuais três pessoas e mais o Espírito de Maria e talvez mesmo o de João Batista.

            Até lá, porém, o mundo já estará recristianizado. Os Espíritos já terão levado a verdade a todos os cantos da Terra, e os dogmas já não impressionarão a coletividade.


quinta-feira, 27 de maio de 2021

Sobre a graça e a predestinação

   

Sobre a graça e a predestinação

A Redação    Reformador (FEB) 16 de Janeiro de 1917

             Segundo a dogmática das igrejas – organizada quando a Terra era tida como o centro do universo – o destino da alma, depois de uma única existência no planeta, de minutos, de dias ou de anos, ficará, definitivamente fixado, a fim de ir o espírito para o céu, ou para o inferno. A primeira decisão divina, proferida no juízo particular post mortem, não poderá ser reformada no julgamento último e universal, quando, ao findar-se o mundo, houver a ressurreição da carne.

            As igrejas impõem, como dogmas, o pecado original, que maculou a humanidade, proveniente da suposta falta do casal edênico, ocasionada pela intervenção do diabo, sob a forma de réptil, e o resgate dessa falta, após alguns milênios, pela imolação, na Judeia, do próprio Deus Onipotente, sob a forma humana, como vítima propiciatória.

            Para a educação das almas exigem a observação de certos ritos e cerimônias.

            Não bastam.

            Torna-se ainda necessário a graça, que é um dom gratuito e sobrenatural, com diferentes classificações.

            A graça e a predestinação foram objeto de numerosas e renhidas discussões entre teólogos católico-romanos e protestantes, entre ortodoxos e heterodoxos.

            Roma entendeu, em oposição a certo fanatismo tacanho, que N. S. Jesus Cristo prometeu a salvação a todos os homens, sem exceção; mas decidiu, contra o pelagianismo (Da Wikipedia: doutrina de convicção dos pelagianos, segundo a qual o homem era totalmente responsável por sua própria salvação e que minimizava o papel da graça divina. De Pelágio da Bretanha.) antigo e moderno e de acordo com a sua política, que a graça é necessária para a salvação, considerando herética a proposição contrária.

            Está claro que os infiéis não podem obtê-la, senão pela conversão à igreja.

            Embora a graça, manancial fecundo no céu e na terra, seja um dom gratuito, dependente da vontade divina, dispões o Vaticano de expedientes vários, e que considera eficazes, para alcança-la e distribui-la, em doses convenientes e para diversos efeitos.

            Conforme doutrinam os teólogos, a graça se divide em habitual, que é permanente e santificante, e em atual, que é interior e exterior, suficiente e eficaz.

            Pode dirigir-se ao entendimento e à vontade; servir de preservativo, acompanhar o ato ou segui-lo, sendo, portanto, preventiva, concomitante ou subsequente...

 *

             Para Deus, o tempo, como nós o concebemos, não existe. Sendo onisciente, Ele conhece o destino de todos os homens.

            Não é nesse sentido que a predestinação figura neste artigo, ao lado da graça, e faz objeto das aludidas questões teológicas.

            Ensinam as igrejas que Deus predestina certo número de almas para a bem-aventurança eterna, cumulando-as de graças especiais. Formam esses mortais o grupo dos escolhidos do Senhor, por ato de sua vontade soberana, destinados, infalivelmente, ao céu, à felicidade eterna.

            A predestinação para as penas eternas teve também apologistas e sectários.

            Se o decreto de predestinação é absoluto e anterior à própria criação das almas, ou se é condicional e posterior a previsão dos méritos é grave questão, que não foi decidida pela igreja romana, continuando aberta entre os teólogos.

            Os reformadores religiosos do século XVI, que adotaram muitos dogmas da igreja papista, ligaram máxima importância aos do pecado original, da graça e da predestinação.

            Pelos Comentários sobre os Gálatas, de Lutero, e pelos Institutos de Calvino, podemos fazer ideia do sistema teológico dos reformadores.

            O homem é depravado e corrupto por natureza. Por si, por seu esforço, não pode salvar-se. Só o consegue pela graça que Deus concede aos eleitos, aos predestinados ao céu.

            Calvino levava as últimas consequências a sentença horrível que pesa sobre a humanidade, merecedora de condenação eterna.

 *

             À luz da Nova Revelação podemos examinar e apreciar essa velha dogmática, que tem pesado sobre a humanidade, estorvando-lhe o desenvolvimento.

            Podemos falar em predestinação e graça, sem dar-lhes a significação e sentido teológicos, sem a intervenção do sobrenaturalismo, que o sacerdócio costuma invocar, porque, arvorando-se em medianeiro, entre o céu e a terra, convém lhe figurar a Divindade como um poder arbitrário...

            Os espíritos progridem através de vidas sucessivas.

            No espaço, recebem instruções de seus guias, firmam resoluções, assumem compromissos, que tem de desempenhar durante a reencarnação. Estão predeterminados os sofrimentos e as provações, como os encargos e as missões.

            Eis aí a predeterminação.

            Podem os encarnados satisfazer os compromissos, como podem falir.

            Cumprindo-os, sabendo suportar as provações, executando a tarefa prometida ou a missão de que se encarregou, o encarnado atrairá influências benéficas, terá o amparo de seus guias espirituais, dos mensageiros divinos.

            Eis a graça.    


sexta-feira, 14 de maio de 2021

O falso cristianismo

 


O falso cristianismo – parte 1

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Agosto 1919

             É uma tarefa que se impõe àqueles em cujo pensamento ainda se não extinguiu o amor santo da verdade, - amor tão imprescindível quanto necessário ao estudo consciencioso dos fatos, o que MigueI Unamuno sintetizou nesta frase singela, porém profundo, e decisiva: cumpre recristianizar a humanidade.

            Com efeito, o dogmatismo católico, enxameado de preconceitos litúrgicos e de ritos, até agora nada mais fez do que desvirtuar por completo, deturpando-os, truncando-os, invertendo-os mesmo, os sublimes ensinamentos do Evangelho.

            Basta um pequeno confronto entre a doutrina que o meigo e bondoso galileu, - raio de sol descido, entre as indecisões e as trevas macabras de uma era de dissolutismo, à miséria terrena, pregou aos homens de seu tempo e às gerações vindouras, cheio de humildade e de fé, e o rol de abstrusos (ocultos) teoremas dogmáticos com que o paganismo vem, há quase dois mil anos, burlando a ingenuidade humana, para que, de pronto, se verifique a sinceridade da nossa afirmativa.

            A infalibilidade do papa e dos concílios, acumulando erros sobre erros e, sob a capa falsa dum simbolismo puramente material, engendrando interpretações exóticas, tem sido o grande cancro que, há dezenove séculos, corrompe, destrói e putrefaz o organismo cristão.

            De origem divina considera a Igreja aquilo que, sponte sua, (espontaneamente) os seus missionários criam e invertem com uma fertilidade inegavelmente pasmosa.

            Os sacramentos, por exemplo. Já Tertuliano, célebre orador sagrado, assim definia o que ele julgava santas virtudes dessas exterioridades inúteis e meramente materiais: “O corpo é lavado para que a alma fique limpa de suas nódoas. O corpo é ungido para que a alma seja consagrada. O corpo é marcado com um sinal para que a alma adquira fortaleza. O corpo recebe a imposição das mãos para que a alma seja iluminada pelo espírito santo. O corpo alimenta-se com a carne e o sangue de Jesus Cristo para que a alma se nutra com a substância de Deus.”

             Os sacramentos: - Estudemo-los, um por um.

            O batismo, sacramentum regenerations per aqua in verbo, (o batismo é o sacramento da regeneração pela água na Palavra) não nos traz a lembrança a fantasia, perversamente inquinada (contaminada) de verdades do pecado original, que em si não é senão um argumento a favor dos ateus, nas suas investidas iconoclásticas (destruidoras de imagens) contra a vontade divina?

            Que os padres o respondam.

 Nota do Blog:

Extraímos do site ‘Canção nova’:

“O santo batismo é o fundamento de toda a vida cristã, a porta da vida no Espírito, que abre o acesso aos demais sacramentos. Por meio dele, somos libertos do pecado e regenerados como filhos de Deus, tornamo-nos membros de Cristo, incorporados à Igreja e feitos participantes de sua missão: Baptismus est sacramentum regenerationis per aquam in verbo (o batismo é o sacramento da regeneração pela água na Palavra). Quando recebemos o sacramento do batismo, transformamo-nos de criaturas para filhos amados de Deus. Muitos pensam que os sacramentos, em geral, são obras eclesiásticas, ou seja, “invenções” da Igreja. Isso não é verdade, pois os sacramentos são, sem sombra de dúvidas, criados por Jesus Cristo, o próprio Deus Encarnado.”  !!!

             Retomamos o texto original de Fernando Coelho...

             Nada mais inverossímil do que um homem, pseudo enviado de Deus sobre a Terra, com meia dúzia de palavras ditas em mal latim poder expurgar de uma culpa outro homem que, reverente, se ajoelha a seus pés. Um centigrama de cloreto de sódio é o bastante (risum teneatis (risos)) para delir (desfazer) um grande pecado!

            O homem resgatará as suas faltes, manda a Santa Igreja, ante um cubículo de madeira, batendo hipocritamente sobre o peito. Ora, ela própria ordena que os seus crentes rezem, no momento da absolvição: “eu pecador me confesso a Deus...” Mas essa confissão não é feita diretamente a Deus. E a conclusão é lógica: a vaidade de um simples e miserável mortal querendo arrogar-se a prerrogativas divinas!

            A eterna fábula do sapo e da estrela...

            Cristo perdoou os pecados a Madalena; replicarão os reverendos, esquecidos de que “a graça não estava no que a igreja humana a fez consistir. Havia remorso sincero, profundo. Devia seguir-se a reparação, não infligida e dura como para os culpados incorrigíveis, mas feita com felicidade, com alegria, com vontade de reconquistar o progresso descurado e tornar ao entrar no amor do Senhor.” (*)

                 (*) “Quatro Evangelhos” de Roustaing.  

             Mais ridículo, entretanto; é o sacramento da comunhão. Combatido tenazmente dentro da própria igreja, absurdo, imoral, de uma infantilidade a toda prova, aos nossos olhos, ele é bem uma firme característica desse dogmatismo que combatemos.

            “O corpo alimenta-se com a carne e o sangue de Cristo para que a alma se nutra com a substância de Deus” disse o teólogo. Nenhum comentário nos sugere a leitura dessa proposição extravagante e grosseira.

            O orgulho da riqueza, esse mesmo orgulho que Kardec e Roustaing tão tenaz e lucidamente combateram, apontando-o como causa de grandes males, levou-a a invadir, abruptamente, o terreno da lei civil, copiando dos códigos puramente humanos e sem outra presunção que a de contrabalançar as prerrogativas dos cidadãos, dentro da esfera do Direito, prevenir o excesso, punir os abusos, equilibrar em suma a vida social dos povos, em contrato que nada mais é o casamento.

            Essa invasão da igreja, que também em outros terrenos se há feito notar, é um dos frutos da sua egoística sede de predomínio e expansão, cujos efeitos perniciosos o mundo começa, em boa hora, a repelir.

            Pelo sacramento da ordem as três palavras - accipite spiritum sanctum (recebei o Espírito Santo), proferidas por um bispo, são suficientes para investir o aspirante ao sacerdócio de poderes extraordinários, cujo intuito, embora disfarçado, é manter a hegemonia e a influência da Casta Jesuítica, outra prova evidente do orgulho clerical...

            Com uma simples unção do óleo está o enfermo aparelhado para gozar, per omnia secula (através de todos os séculos), as delicias incomparáveis da bem aventurança eterna...

            Resumindo, o que são, pois, esses sacramentos senão um verdadeiro fetichismo religioso? Di-lo a razão. Di-lo a verdade.

 O falso cristianismo – parte 2

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Novembro 1919

             O comércio de indulgências - O aparato com que se reveste o culto destoa violentamente da humilde simplicidade com que o praticavam os cristãos da era apostólica.

            Longe já vai o tempo em que os soldados de Diocleciano, ao demolirem um templo da Bitínia, apenas encontraram no interior da igreja os fiéis discípulos do Cristo um volume da Sagrada Escritura.

            Hoje, os templos estão abarrotados de altares, imagens, esculturas bizarras, pinturas de um paganismo excessivo, em que o nu das alegorias é um contraste sarcástico à cruz tosca e modesta.

            Nas sacristias, vende-se escapulápios, terços, fitas que curam moléstias, medalhas que dão indulgências, velas e palmas que, à moda dos talismãs, endireitam a vida dos que a têm torta...

            Há, porventura, alguma diferença entre a portaria de um convento e o gabinete de consulta de uma quiromante?

            O papa manda distribuir às incautas ovelhas do seu ingênuo rebanho pequenas figuras de cera, cuja fabricação é privilégio dos monges de Citeaux.

            São os agnus dei. Acresce que esses fetiches não custam aos fiéis apenas a vontade de possui-los... E é esse comercialismo indigno e revoltante que faz com que a igreja católica pareça mais um balcão em que os favores do Céu se regateiam a todo preço, do que uma religião destinada ao culto sincero do Altíssimo.

            A infalibilidade papal - Outro erro profundo que o falso cristianismo perpetrou, para a firmeza do seu poderio, é a medida violenta que o concílio do Vaticano, realizado aos treze de julho de 1870, sancionou contra o voto de quatrocentos e cinquenta e um dos seus membros.

            Roma sentia n necessidade imprescindível dessa inovação. Tinha ainda na lembrança o grito de revolta de Lutero, Zwinglo e de Calvino.  

            Amedrontaram-na as dissenções manifestas e frequentes que abalavam o seu trono.

            “Conhece-se os frutos pela árvore”, diz o Evangelho.

            Que frutos, perguntamos, a árvore desse método falso de interpretações poderia dar?

            A discórdia com seu cortejo de dúvidas e de heresias. Para o sossego, portanto, de Roma, a infalibilidade papal era coisa de absoluta necessidade, inadiável e urgente.

            Perigava a sua doutrina enferma. O próprio clero se recusava cumprir as ukases (decretos) do Santo Padre, não reconhecendo em Sua Eminência poderes maiores que o de simples apascentador de um grande rebanho.

            Daí o pavor de Roma trazendo como funesta consequência mais esse erro inominável, com desembaraço rotulado de divino.

            Melhor do que todos os nossos argumentos diz a cifra eloquente dos cardiais que recusaram o seu apoio à exigência orgulhosa da Sé Apostólica.  

            A luz da verdade, felizmente, já começou a brilhar, pura, aos nossos olhos.

            Ai de vós, escribas e fariseus!

 O falso cristianismo – parte 3

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Dezembro  1919

             O poder temporal do Papa - Como não deve doer na consciência dos que estudam, serenamente, desapaixonadamente, como nós, o dogmatismo católico, apenas impulsionados pelo amor da verdade e guiados pela norma do bom senso, o contraste amargo e triste entre a vida humilde do Cristo e o luxo nababesco com que se rodeia, aparatosamente, aquele que se inculca o príncipe da sua igreja na Terra!

            Não se compreende, com efeito, que uma religião puramente espiritual, de origem divina, subscreva com o aplauso do silêncio criminoso dos seus crentes o que se nos afigura como à qualquer pessoa, tão deprimente quanto ilógico e injustificável: o poder temporal do Papa.

            Será que Sua Eminência Reverendíssima não possa, do alto do seu régio trono pontifício, vestido de ouro e púrpura, cercado de baionetas pagas pelos óbolos dos incautos, apostolar as sublimes práticas de Jesus, senão com a sólida garantia de um governo e a consequente renda fabulosa do tesouro de um Estado?

            O Vaticano é um monumento que a soberba e o orgulho católicos ergueram, num delírio megalomaníaco de grandeza, a pomposa exterioridade material dos seus ritos.

            A perniciosa influência desse poder temporal, através das idades, é fato que os historiadores registram e os sociólogos documentam.

             A intervenção direta do papa em todas as questões meramente políticas que têm convulsionado o mundo, maximé na era negra dos tempos medievais, bem demonstra que Sua Eminência mais se preocupa com as pendengas das chancelarias do que com a salvação das almas do seu descuidado aprisco.

            As lutas entre Roma e os Imperadores da Alemanha, o modo porque o papa se imiscuía nas sucessões de tronos e negócios outros dos Estados europeus, a maneira porque fazia valer o seu prestígio na escolha dos governantes e na decisão dos intrincados casos da incipiente diplomacia de outrora, tudo isso vem provar que aos falsos apóstolos do Cristo mais convém os enredos dos gabinetes e dos paços reais que o exercício, modesto embora, porém mais glorioso e digno, missão que se lhe impunha o dever.

            Jesus pregou a bondade, a tolerância, o ensino pela palavra convincente e sincera. Mas no arquivo da histeria católica apenas datas rubras sobressaem.

            Contemplemos o passado.

            Na França, a matança de S. Bartolomeu, a perseguição bárbara e impiedosa àqueles que não rezavam pela cartilha de Roma, a luta contra os huguenotes, o sangue, a opressão, a tirania.

            Na Suiça, João Huss queimado vivo, sob o apupo da turba, que o apedrejava, e a inconsciência das multidões desvairadas.

            Na Itália, os Gibelinos perseguidos, acossados, expatriados.

            Dante, vítima das suas convicções políticas, sofrendo as agruras e o infortúnio de um exílio forçado.

            Na Áustria e na Alemanha, o mesmo horror.

            Na Espanha, a atmosfera é mais sombria, o quadro mais rígido, a impressão maia dolorosa e lancinante.

            É a Inquisição com seu cortejo de crimes abomináveis. Vítimas inocentes, mulheres e crianças indefesas morrendo entre suplícios que a imaginação infernal dos improvisados juízes de batina porfiava em tornar cada vez mais terríveis, num furor bestial de carnificina e de sangue.

            O luto nos lares, o pranto, a orfandade, a viuvez, a tristeza.

            Em Portugal, homens ilustres, sucumbindo, à sanha feroz dos inquisidores.

            Por toda a parte, enfim, um rastro vermelho de opressão e barbaria.  

            O quadro, porém, não está completo.

            Há alguma cousa ainda, a observar e a descrever.

            Olhemo-lo um minuto a mais.

            Aqui, Galileu obrigado a retratar-se, sob o peso da intolerância estúpida e da ignorância ameaçadora dos frades.

            Ali, Bartolomeu de Gusmão, jazendo numa masmorra de Toledo.

            Acolá, as obras de Kardec queimadas publicamente em Barcelona.

            A ciência premida.

            Os sábios injuriados, chacoteados, vilipendiados.

            Roma não quer a inteligência.

            Despreza-a, persegue-a, oprime-a.

            Nela vê uma arma terrível contra sua mentira.

            Daí, pois, o seu ódio sem limites.

            À voz de Pedro, o Eremita, e à palavra austera e grave de Urbano VI, toda a cristandade se levanta e se precipita, como uma avalanche feroz e brutal, contra o Oriente Muçulmano.

 O falso cristianismo – parte 4

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Dezembro 1919

             Vem a noite negra das cruzadas.  

            A fina flor da nobreza morre e fenece, longe das pátrias, nos campos inóspitos das terras maometanas.

            Burguesia e plebe pagam também ao Deus Moloch da intolerância papal o tributo de sua vida e do seu sangue. E, até agora, tantos séculos decorridos, nenhum sociólogo católico houve que demonstrasse as vantagens de ordem social e até mesmo comercial que essa tremenda campanha produziu.

            Conhecimentos dos costumes, hábitos e modos dos países do outro lado do Mediterrâneo, que tanto alegam os historiadores de sotaina?

            Nada valeu no progresso da época, pois a sua influência, se não foi nula, pelo menos foi pelo menos insignificante e banalíssima.  

            O papel da igreja, portanto, tem se limitado a propagar entre os homens o gérmen das dissenções, da discórdia, da intolerância, tão em desacordo com a fraternidade pregada pela doutrina do Cristo.  

            É o sistema do “crê ou morre”.

            Perniciosa, ao nosso ver, é a influência do papismo na marcha evolutiva da humanidade.

            Cumpre lembrar que Roma foi o baluarte mais poderoso do absolutismo e o esteio mais forte da prepotência tirânica das monarquias da Europa.

            As ideias libertárias, os sãos princípios democráticos tudo enfim que é hoje a base  

da organização civil e política dos povos cultos encontrou sempre pontífices romanos a  barreira mais difícil de transpor.

            Tão antipática era a atitude que a Santa Sé mantinha em face das justas reclamações dos povos, ansiosos de liberdade, que a revanche contra os padres atingiu ao auge da violência, como na Revolução Francesa e, ainda há pouco, na Revolução Portuguesa, excessos aliás condenáveis.  

            A arte moderna, a literatura profana, os grandes mestres, o teatro, as próprias invenções do engenho humano, as próprias leis, como as do matrimônio civil e da administração dos bens da igreja pelo Estado, tem contra si o ódio de Roma e os ataques furibundos dos oradores clericais. Mas a verdade é una e indivisível.  

            Apontamos fatos, e, estudando-os serenamente, sem paixão, despidos ou qualquer interesse baixo ou intuito inconfessável, tiramos conclusões que nos ditaram o raciocínio e a lógica.

            Mostramos o que é o papismo em si, com seus absurdos.

            Provamos a má influência da igreja sobre o movimento social do mundo em dezenove séculos.

            Dissemos, apoiados em fatos e documentos incontestes, quo tudo que há produzido a humanidade de benéfico e de útil encontrou sempre na igreja o seu mais feroz antagonista.  

            A época mais sombria e atrasada da história, a idade média, foi exatamente aquela em que mais poderosa se fez sentir a ação de Roma e dos papas.

            A humanidade como que parou, ou melhor, retrocedeu.

            E somente depois que se iniciou, nos gabinetes dos filósofos e nas velhas salas das universidades, a reação contra o clericalismo, foi que um impulso de progresso e de adiantamento observou-se no mundo.

 O falso cristianismo – parte 5

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Janeiro 1920

             O dogmatismo católico conduziu ao materialismo. A árvore maléfica de Roma não podia dar outro fruto que não o materialismo, desolador e triste. Verdade inconteste é essa que vimos de afirmar. Foi do conflito entre a ciência dos enciclopedistas, fátua e pedante, e o dogmatismo incoerente dos papas, orgulhoso e arrogante, que nasceram, com os primeiros sintomas da dúvida, o negativismo e a descrença. Roma levou a humanidade ao desconforto de um ceticismo funesto, como levou os sábios ao materialismo.

            A letra mata, o espírito vivifica”, exclamou Paulo na sua segunda epístola aos coríntios.  

            Foi dessa luta entre a razão ainda vacilante e a intolerância clerical que surgiram as hipóteses, às vezes infantis, as vezes ridículas, da ciência materialista.

            Roma coibindo os seus fiéis da leitura e discussão do texto das escrituras sagradas e, sobretudo das suas leis e bulas, exacerbou os homens.

            E como já tinha, séculos antes, produzido a Reforma, a dissenção no seio do seu próprio apostolado, não era de admirar que também produzisse o mais puro e desbragado materialismo.

            O homem deve raciocinar, estudar, fazer ideia de todas as coisas”, disse Lucas.            

            A Santa Sé, entretanto, não o entende assim. Prefere a letra ao espírito.

            Razão de sobra, pois, tinha Savage, na sua “Religião estudada à luz da doutrina darwinista, quando discorria: “se uma das acusações da igreja à ciência, é a que esta é materialista, ouso notar que a concepção eclesiástica da vida futura foi sempre e é ainda  materialismo puro.

            O corpo material deve ressuscitar e habitar um céu material.”

            A culpa, a grande culpa dessa dolorosa enfermidade, que é falta de Fé, cabe, pois

inteira a Roma.

            Mas a verdade começa de brilhar.

            A nova era se inicia radiante de consolação e de promessas.

            Cristo ressurge. O espiritismo é um fato que os sábios já atestam e confirmam.

            Seu ideal é nobre: a perfeição humana, por meio do amor, do estudo e da caridade.

 O falso cristianismo – parte 6

por Fernando Coelho

Reformador (FEB) Fevereiro 1920

             “O espiritismo é uma verdade” atestam milhares de sábios. Como toda a verdade, - luz cujo brilho imaculado os subterfúgios da treva em vão tentam obscurecer e empanar. - O espiritismo foi, é será por muito tempo – porfiosa (teimosa) e tenazmente combatido.

            Aos seus crentes, porém, pouco importa a zombaria dos céticos.

            Obra luminosa, é daquelas que, muito longe de envergonharem, enobrecem e estimulam.

            A verdade, objetivo dos que sinceramente analisam e estudam a Natureza, não é privilégio de nenhuma seita.

            Está franqueado a todos o seu caminho. Que os cientistas, pois, observem-na, examinem-na, escalpelem-na cuidadosamente, sem precipitação, e terão realizado, para benefício e consolo da humanidade, a mais nobre e útil das tarefas.

            Mas, zombar, sem provas nem documentos de valia, daquilo que se não conhece, pelo simples gozo de épater (chocar), é coisa intolerável.

            O espiritismo é uma verdade, dissemos. Surgiu no triste momento em que a ciência e religião, materialismo negativista e desolador e dogmatismo esdrúxulo e apavorante, se digladiavam a mão armada, no campo estreito de um duelo improdutivo.

            Na hora em que Schiller, desesperado, exclamava:

             “La guerre soit entre vous. L'union viendra trop tôt encore! C'est á la seule condition que vous restiez désunis dans la recherche, que la vérite se fera connaître!”

             A guerra esteja entre vós. A união virá muito cedo ainda. É a única condição de que permaneçais desunidos na pesquisa que a verdade se torne conhecida!”  (aceitamos sugestões para revisar esta tradução!).

             Na noite sem luar da descrença projetou, desde logo, um raio vívido de fulgor, iluminando as consciências e esclarecendo as almas. Pregando a humildade, a fraternidade, a caridade, levou aos lares pobres o alívio, a esperança, e o conforto.

            Aboliu o fanatismo, induzindo os homens à análise meticulosa dos fatos.

            Cortou pela raiz à árvore daninha da superstição, desfazendo a velha blague (pilhéria) do milagre, com a prova insofismável de que tudo que à imaginação se afigura estranho, obedece tão simplesmente a leis naturais, até há pouco apenas desconhecidas.

            Religião e ciência, da igualdade, do amor e do perdão, o espiritismo veio reformar o homem, rasgando lhe novos horizontes, abrindo-lhe os olhos à Verdade.

            O tempo dos dogmas passou. Passou a época pessimista das hipóteses A era que surge é a da realidade.  

            Não basta crer. É preciso estudar, inquerir, perscrutar os íntimos segredos do mundo visível e invisível que nos rodeia, para que a alma não resvale para o falso terreno da fantasia e da quimera. Aos sábios oferecemos o exemplo sadio, confortante, pleno de sinceridade, de Crookes, Lombroso, Richet, Wallace e tantos outros, que, para firmarem a respeito dos fenômenos espíritas uma opinião abalizada e segura, conscienciosamente os estudaram, tirando conclusões, anotando factos, guiados sempre pelo raciocínio e pelo critério o mais escrupuloso.

            Que melhores documentos para o espiritismo do que essas opiniões?