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quarta-feira, 3 de junho de 2020

"Cultos" espíritas / "Templos" espíritas




“Cultos” espíritas / “Templos” espíritas
Reformador (FEB) Agosto 1943

            Pelo que toca ao Cristianismo primitivo, uma observação se impõe a quem faz a leitura refletida do Novo Testamento: a da ausência completa de uma lei de culto. Jesus pratica a seu modo as festas judaicas; os judeus cristãos continuam a frequentar o templo de Jerusalém; mas, em parte nenhuma prega S. Paulo sobre essas festas, nem sobre esse culto aos gentios que ele converteu à fé em Jesus Cristo. Enquanto o Cristianismo foi perseguido, ninguém pensou, é obvio, em lhe consagrar edifícios, nem cultos públicos. As cerimonias cultuais e os templos só mais tarde surgiram, quando a conversão dos imperadores induziu a um Cristianismo mais exterior do que real toda essa multidão de idólatras, incapazes do “culto em espírito e verdade” que o Evangelho de S. João recomenda. (Padre ALTA, “O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigáriosEd. FEB).

quarta-feira, 19 de junho de 2019

A doutrina do Padre Alta



A doutrina do Padre Alta
Lino Teles (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Janeiro 1952

            Um dos livros notáveis deste século é, sem favor algum, O Cristianismo de Cristo e o dos seus Vigários, do Padre Mélinge, que o publicou com o pseudônimo de Padre Alta.

            Grande erudito e muito inspirado, conhecedor das línguas clássicas que guardam os originais e as primeiras traduções da Bíblia, isto é, hebraico, grego e latim, o ilustre sacerdote francês nos dá, em linguagem fácil, atraente, encantadora, uma quantidade enorme de ensinamentos do mais alto valor filosófico e religioso.

            O livro todo é formado de vinte conferências realizadas pelo autor e depois enfeixadas em volume de quatrocentas páginas. Sua imensa bondade ameniza de multo a crítica que tinha ele de fazer dos erros e desvios doutrinários cometidos primeiramente pelos judeus, organizados em ortodoxia, e, depois, pelos cristãos igualmente ortodoxos. Ortodoxia, explica-nos ele, quer dizer anátema, perseguição aos que pensem de modo diferente, é negação da lei de amor que forma o fundamento mesmo do Cristianismo. Consequentemente, uma ortodoxia cristã é. pois, uma contradição. Mais inconcebível, por certo, seria uma ortodoxia espírita, acrescentamos nós, porque, em Espiritismo, tudo é evolução e todos sabemos que a parcela de verdade que possuímos é muito incompleta, e por isso mesmo, multo mutável. Não podemos estabelecer limites ortodoxos nem mesmo para uma só pessoa, porque, pela evolução, essa mesma pessoa se tornaria herege um dia. Logo, arrepiam-se nos os cabelos quando vemos um espírita escrever a palavra "heresia" ou pretender de alguma sorte traçar limites ao pensamento.

            Nosso intento não é fazer a crítica do excelente livro do padre Alta mas simplesmente mostrar qual é a doutrina cristã que ele nos apresenta. Primeiramente, desentulha ele o espírito do Cristianismo de todo esse amontoado, dessa pirâmide imensa de interpretações, dogmas, doutrinas, comentários, sofismas, teorias, Interpelações, discussões teológicas. Vai conosco à fonte primitiva de onde jorra a água viva e não ao caudaloso rio que vem recolhendo em seu longo curso as impurezas de mil regatos lamacentos, de mil canos de esgoto. Lá, nessa fonte primitiva, o que encontramos é a vida mesma em todo o seu divino encanto. Não necessitamos do auxílio de intérpretes nem mediadores para entender e sorver o líquido vivificante desse manancial de vida eterna. Todas as dosagens da sabedoria médica aí são desnecessárias. A vida fala diretamente a todos os seres vivos uma linguagem inconfundível, sem palavras nem gramática.

            Esse Cristianismo do Cristo, desentulhado pelo Padre Alta, é tão atraente, tão encantador, tão natural, tão vivo, tão comunicativo que sobreviveu debaixo de todo esse aluvião de areia das sistematizações, das guerras religiosas, das lutas eclesiásticas. Não houve forças contrárias que o pudessem matar!

            É simplesmente a força invencível do amor em toda a sua pureza, em todo o seu ardor espiritual: o grande incêndio que veio abrasar a Terra e levantar os homens amortecidos, elevando--os para Deus, a fonte de todo o amor, a fonte mesma da vida
de todos os seres.

            O Cristianismo do Cristo é essa chama de vida que enche de ardor as criaturas e as liga ao Criador; que, transbordante de Vida e felicidade, ignora todas as dores, todos os sacrifícios; desconhece todos os temores e todas as dúvidas; não crê na morte nem poderia conceber a morte, porque é a vida eterna com o mesmo Criador da vida.

            Depois de desentulhar o Cristianismo primitivo, o Padre Alta se revela um pensador do século vinte e tem a bravura desassombrada de nos ensinar a lei das reencarnações sucessivas, rumo à perfeição; ensina-nos as influências que o Mundo dos Espíritos exerce sobre o nosso mundo; faz-nos um excelente curso de Espiritismo puro. Toda a sua doutrina é puramente kardeciana; mas vem revestida de grande autoridade, porque sai dos lábios de um sacerdote eruditíssimo em assuntos religiosos.

            Semelhante aos positivistas, o Padre Alta tem uma veneração imensa pelo Apóstolo doa Gentios. S. Paulo é para ele o único que compreendeu o universalismo do Cristianismo e soube defendê-lo contra todas as tendências judaístas dos outros apóstolos. Só ele teve a compreensão e a bravura de quebrar o círculo de aço que pretendia encadear o Cristianismo ao Judaísmo.

            Por isso mesmo, o Autor menciona a cada momento as Epístolas. Toma-as pelo documento mais autêntico de toda a Bíblia.

            Demonstra que a Incompreensão dos discípulos de Jesus era desconcertante durante toda a Missão terrena do Divino Mestre, e que a sua manifestação puramente espírita a Paulo, na estrada de Damasco, chamando-o para o apostolado, foi um momento de mais significação do que todos os esforços de Jesus em vida. Espírito ardoroso, o Padre Alta toma partido nos debates entre Paulo de Tarso e os outros apóstolos, demonstrando que toda a razão estava com Paulo e que os outros, se deixados entregues a si mesmos, teriam feito do Cristianismo universal uma simples seita do Judaísmo oficial.

            Comentando com grande inspiração os textos evangélicos, o Padre Alta nos demonstra que o narrador evangélico confundiu a profecia de Jesus sobre o fim do mundo com a outra profecia sobre a queda de Jerusalém, e reuniu as duas numa só narração, fazendo aparecer o disparate: "Esta geração não passará, sem que essas coisas se cumpram". A queda de Jerusalém, de fato, ocorreu somente 37 anos depois da crucificação de Jesus, no ano 70, logo, dentro daquela geração. Nunca havíamos encontrado explicação tão satisfatória para aquelas palavras.

            O Padre Alta proclama a doutrina da liberdade de pensamento, qual a entendia S. Paulo, interpretando os ensinos de Jesus. Só o amor religa os homens, só o amor é religião, mas não é possível impor-se o amor sob severas penas, como pretendem as ortodoxias. O amor só medra dentro da liberdade de consciência. Ortodoxia é uma forma de domínio, de escravização; pode ser uma arte, uma política, uma forma de administração, mas nunca uma religião. É de Paris que nos fala o Padre Alta, no ano cheio de liberdade de 1922. Não conheceu, portanto, as formas de tirania do pensamento que vieram depois de 1933 e chegaram a culminar em diversos países da Europa e notadamente na França. Suas teorias se confirmam na vida infeliz que os europeus estão levando em nossos dias.  

            Não nos queremos furtar ao prazer de repetir o apelo final que o Autor faz às igrejas para que regressem no Cristianismo de liberdade e vida. Eis as últimas linhas do livro:

            "O que digo com relação à Igreja Romana, digo-o das outras igrejas: que cada uma, na Vida que lhe é peculiar, facilite cada vez mais a livre expansão dos pensamentos e das obras e pense, em seguida, nas ouras igrejas que, juntas todas, compõem o jardim variegado do Catolicismo, isto é, do Universalismo. “Toda árvore que não dá bom fruto Será cortada e lançada ao fogo” diz Jesus Cristo, e “o fruto do Espírito é a Caridade, a alegria, a paz", diz S. Paulo aos Gálatas, não os anátemas recíprocos.

            "Os antagonismos das ortodoxias rivais obstam, sem dúvida, a esse preceito divino de paz e união fraterna; mas, um meio haveria, parece-me, de fazer que cessem as competições e que desaparecessem as divisões entre as igrejas. O Catolicismo Romano é reconhecido como sendo o de maior número de súditos conta, entre os que se dizem ao serviço do Cristo; que, pois, o papa de Roma convide fraternalmente, em nome do Cristo, os chefes supremos das outras igrejas para uma conferência fraterna numa cidade qualquer; que, depois de uma apresentação recíproca e de uma conversação afetuosa,  leiam juntos a Didaquê, catecismo cristão anterior a Constantino; que todos solenemente comprometam a não impor a seus fiéis nenhum outro dogma posterior a essa primitiva  dogmática; que todos, em seguida, abdiquem das suas pretensões rivais de superioridade recíproca; que cada um coloque seu nome numa urna, e um menino com os olhos vendados, tire à sorte o nome do predestinado que o Espírito de Deus escolher para reconstituir, com a livre cooperação dos outros, o Catolicismo verdadeiro, na simplicidade dogmática de S. Paulo, e a sua liberdade disciplinar ou científica, absolutamente alheio às disputas das escolas e dos concílios.

            "Somente a esse preço o Cristianismo se tornará o Catolicismo, isto é, Universalismo,  e cada árvore diferente do jardim do Cristo será a árvore prometida pelo Evangelho, onde os pássaros do céu farão seus ninhos, como diz S. Mateus, pássaros e árvores de espécies diversas.

            “Ouça quem tiver ouvidos de ouvir o que o Espírito diz às igrejas, pois que o tempo se aproxima!”  declara o Apocalipse.”

            Todos os estudiosos de Espiritismo deveriam não só ler, mas estudar muito calmamente os ensinos do Padre Alta, Ele é um grande reformador, um restaurador do Cristianismo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

31 e final. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'.




31

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris

Conclusão

            A progressão maravilhosa do número dos cristãos, quando o Cristianismo ainda se encontrava na sua simplicidade nativa, e as necessidades de organização disciplinar que daí resultaram desde o começo do segundo século, rapidamente fizeram surgir a atribuição de uma autoridade predominante a um bispo único em cada "igreja", isto é, em cada "fraternidade de eleitos", por pouco importante que fosse.

            Mais tarde, logo após a conversão de Constantino, a adaptação às condições geográficas e administrativas do organismo romano criou logicamente uma hierarquia entre os bispos de uma mesma provinda e ,os fez dependentes todos do titular episcopal do principal centro da província. Depois, o orgulho de dominação e as pretensões de inteligência que, entre os Gregos, ainda mais sutis do que os rabinos judeus, imediatamente suscitaram insensatas disputas teológicas, forçaram os imperadores a convocar os bispos para se reunirem em concílios e, até, com o intento de fazer que cessassem as disputas, a declarar obrigatórias, para todos os seus súditos, as definições metafisicas adotadas por maioria de votos.  Mais tarde, no Ocidente, para resistir aos ataques dos bárbaros e reorganizar o que aquelas disputas incessantemente desagregavam, a necessidade se fez sentir progressivamente de centralizar o episcopado reduzido a frangalhos e Roma estava logicamente indicada para centro natural dessa unificação reparadora.

            Desde então, os papas romanos, admiravelmente servidos pelas ordens monásticas, organizaram uma hierarquia e uma dependência administrativas, depois um ensino histórico e uma ortodoxia teológica que, finalmente, por um último concilio reunido em Roma no ano de 1870, deferiram a Pio IX e aos seus sucessores a infalibilidade doutrinária e a autoridade total. Pareceria haver nisso uma simples restauração da "lei de escravidão religiosa" que S. Paulo declarara abolida pela "lei de liberdade", que é o Novo Testamento notificado aos Gentios pelo Cristo, em oposição ao Judaísmo, e para, com efeito, dar corpo a essa ideia de contramarcha, todos os bispos, no dia da sagração, além da promessa de submissão absoluta ao Soberano Pontífice Romano, juram manter o Antigo Testamento, a par do novo. Tal, à primeira vista, a ideia, algum tanto opressiva, que fatalmente sugere o decreto de autocracia papal imposto ao Catolicismo Romano pelos fins do século XIX.

            Mas, em se refletindo, desde que se creia na inteligência divina e se leve em conta os obstáculos que lhe opõe a ininteligência humana, é de perguntar se esse recuo da liberdade cristã não seria análogo – em terreno muito outro - à retirada militar ordenada pelo general Joffre, para ir ter à primeira vitória do Marne, e se essa abdicação voluntária do episcopado católico nas mãos do Sumo Pontífice, Vigário putativo de Jesus Cristo, não poderia, dar, sob uma impulsão celeste, no estabelecimento do verdadeiro Cristianismo.

            Com o seu exército de bispos, padres, missionários, religiosos e religiosas, espalhados por toda parte e formados para lhe obedecerem como ao próprio Deus, o papa poderia, com efeito, produzir no mundo inteiro, com uma só palavra, o relâmpago e a eletricidade de obediência que acabariam num instante com todas as divisões, reconduzindo o Cristianismo à sua primitiva simplicidade: "Deus é o pai de todos os homens e todos os homens devem amar-se uns aos outros. Somente isto é religião, porque só isto religa os homens entre si. Tudo mais os divide; não é, pois, religião, mas política, arte ou ciência".

            Foi certamente para lhe dar o poder de efetuar essa volta à revolução religiosa que Jesus Cristo pregou no primeiro século da nossa era, que a evolução de dezenove séculos fez do papa o senhor absoluto na Igreja Católica Romana. "Que ele, pois, ouça, ele que tem ouvido!" Qui habet aures audiendi audiat! clama-lhe o seu Mestre, Jesus Cristo. Se ele não escutar a voz do Espirito e se obstinar em querer manter a escravidão à Letra, a Letra matará o Sumo Pontifice de Roma, como matou o de Jerusalém, porquanto a letra mata, o Espírito é que vivifica: Littera enim occidit. Spiritus autem vivificat. O Espírito, ao contrário, unificando sem tirania, nem monopólio todas as Igrejas, ainda hoje divididas por ortodoxias contraditórias, e reconduzindo-as à Didaquê primitiva, criaria enfim o verdadeiro Catolicismo: Catolicismo significa Universalismo.

            Ah! sou "uma voz que clama no deserto", vox clamantis in deserto. Creio, porém, firmemente, que o nosso século é o da passagem decisiva do Cristianismo para o desabrochamento que de modo claro o Cristo lhe assinalou, porquanto, segundo diz a parábola evangélica, a unidade de uma árvore tem que desabrochar numa multidão de ramos dissemelhantes em suas formas e variados nas suas direções, se bem que vivendo todos da mesma seiva. Esse desenvolvimento livre é necessário, para que o Cristianismo Romano dê flores, depois frutos, que o tronco único, embora plantado em Roma, não poderia produzir, acrescentando a parábola: para convidar e receber "os pássaros do céu", isto é, os intelectuais, que o tronco inóspito, erguido para o ar qual cepo, mal atraia e isso mesmo para galhos artificiais e para ninhos administrativos, com proibição absoluta de deixar que suas ideias se evolem e batam livremente as asas pelo espaço.

            O que digo com relação à Igreja Romana, digo-o das outras Igrejas: que cada uma, na vida que lhe é peculiar, facilite cada vez mais a livre expansão dos pensamentos e das obras e pense, em seguida, nas outras Igrejas que, juntas todas, compõem o jardim variegado do Catolicismo, isto é, do Universalismo. "Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo", diz Jesus Cristo, e "o fruto do Espírito é a caridade, a alegria, a paz", diz S. Paulo aos Gálatas (1), não os anátemas recíprocos.

            (1) Epistola aos Gálatas, V, 32.

            Os antagonismos das ortodoxias rivais obstam, sem dúvida, a esse preceito divino de paz e união fraterna; mas, um meio haveria, parece-me, de fazer que cessassem as competições e que desaparecessem as divisões entre as Igrejas. O Catolicismo Romano é reconhecido como sendo o que maior número de súditos conta, entre os que se dizem ao serviço do Cristo: que, pois, o papa de Roma convide fraternalmente, em nome do Cristo, os chefes supremos das outras Igrejas para uma conferência fraterna numa cidade qualquer; que, depois de uma apresentação recíproca e de uma conversação afetuosa, leiam juntos a Didaquê, catecismo cristão anterior a Constantino; que todos solenemente se comprometam a não impor jamais aos seus fiéis nenhum outro dogma posterior a essa primitiva dogmática; que todos, em seguida, abdiquem das suas pretensões rivais de superioridade recíproca; que cada um coloque seu nome numa urna e um menino, com os olhos vendados, tire à sorte o nome do predestinado que o Espírito de Deus escolher para reconstituir, com a livre cooperação dos outros, o Catolicismo verdadeiro, na simplicidade dogmática de S. Paulo, e a sua liberdade disciplinar ou científica, absolutamente alheio às disputas das escolas e dos concílios.

            Somente a esse preço o Cristianismo se tornará Catolicismo, isto é, Universalismo e cada árvore, diferente do jardim do Cristo será a árvore prometida pelo Evangelho, onde os pássaros do céu farão seus ninhos, como diz S. Mateus (2), pássaros e árvores de espécies diversas.

            (2) XIII, 32.

            “Ouça quem tiver ouvidos de ouvir o que o Espírito diz às Igrejas, pois que o tempo se aproxima!" declara o Apocalipse.

Sexta-feira Santa, 14 de Abril de 1922.

Doutor Alta
Padre

Fim


30. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'




30

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Evidentemente, a todos os funcionários eclesiásticos possuidores de um título elevado na organização atual do Catolicismo Romano sobram motivos para manterem as conquistas penosamente realizadas no curso dos séculos, do mesmo modo que a aristocracia e a realeza,
em França, nas vésperas da Revolução, tinham desculpa para se obstinarem em manter o regime do "bel prazer real", formulado por Francisco I e constituído sob Luís XIV.

            Como é, com efeito, que um papa gloriosamente reinante, quando celebra a missa pontifical em S. Pedro de Roma, trazendo à cabeça a tiara, naquela pompa mais que real aos adornos pontifícios, com a grandiosa corte de cardeais e prelados cobertos de ouro e púrpura, com um cortejo imenso de padres recamados e serviçais magníficos, numa atmosfera de adorações de toda a assistência, concentradas na sua augusta pessoa, poderia admitir que aquele Cristianismo deslumbrante, tão glorioso para ele papa, não seja o verdadeiro Cristianismo?

            Como é que um arcebispo, um bispo, ao celebrar suas funções eclesiásticas com a magnificência oficial; como é que um cura das ricas e nobres paróquias de Paris, recebendo de trinta a quarenta mil francos por um grande enterro ou um grande casamento, poderiam
imaginar que uma organização eclesiástica que lhes confere tais honras e honorários não seja a perfeição absoluta da organização eclesiástica? Considero-os, em realidade, desculpáveis em afastarem, com um sorriso de desdém, o livro, se porventura o encontrem, ainda que fosse o Evangelho de S. João, dedicado "ao papa de gênio que elevar a Igreja Católica, do Cristianismo
material ao Cristianismo espiritual"?

            Entretanto, Monsenhores, a Constituição romana da Igreja é uma criação humana in totum diferente da instituição divina. Demonstrei-o historicamente neste volume e vou demonstrar logicamente, em poucas palavras, que a fé que consiste em crer-vos ou crer nos vossos catecismos, não é de modo algum a fé. Ela mesma, ao demais, o prova, porquanto não produz em absoluto os milagres que Jesus Cristo promete à fé.

            Devo render-vos a homenagem de reconhecer que, nos vossos catecismos impressos, ainda ensinais que a fé, a esperança e o amor de Deus são "virtudes que se reportam diretamente a Deus". Mas, praticamente, segundo a formação ativa, por vós, dos vossos fiéis
passivos, o amor de Deus, sobretudo nas religiosas enclausuradas, se reporta diretamente à pessoa de Jesus Cristo, ou, ainda mais piedosamente, ao seu coração de carne. A esperança se reporta às indulgências que vos digneis de permitir ganhemos durante a nossa vida e se reporta igualmente ao número de missas que vos paguem por nós, depois da nossa morte. Quanto à fé, a que impondes sem nenhum respeito humano, consiste em crer sem exame no que denominais "os dogmas da fé"; pelo único motivo de que assim o ordenais. Contudo, o nosso ensino, objetar-me-eis, não é ensino nosso, é "o ensino da Igreja".

             Admirável abstração, sem dúvida, essa dama, "a Igreja", como esse senhor "o Estado", que nunca ninguém teve a honra de ver, senão nos seus representantes, de maneira nenhuma infalíveis.

             "- O Estado não é infalível, não! mas a Igreja é infalível, sim!"

            E seus representantes também o são? Ninguém o suspeitaria, garanto-vos. Mas, afinal, Monsenhores, devo crer no ensino da Igreja, não é? porque a Igreja é infalível. Evidentemente, toda a questão se resume nisso e não noutra coisa. Entretanto, porque, peço mo digais, devo crer na infalibilidade da Igreja?

            "- Porque...

            - Esta a questão embaraçosa, não é, Monsenhores?

            - Absolutamente! Deveis crer na infalibilidade da Igreja, porque a Igreja vo-lo ordena."

            - Sabeis, Monsenhores, que esse raciocínio é exatamente o que em lógica se chama "um círculo vicioso", isto é, uma burla, o oposto de uma razão. Se tratais com um espírito dotado de razão, comigo, por exemplo, ver-vos-eis compelidos a me demonstrar por meio da razão, do Evangelho, da História, que a Igreja, tal como sempre existiu, ainda existe sob os meus
olhos, é verdadeiramente divina e divinamente infalíveis. Eis-vos, portanto, forçados a recorrer à razão e à ciência, para me demonstrar que devo crer-vos; e eis-vos, pois, sob a base oficial que pretendeis impor à minha fé: "a autoridade da Igreja", obrigados a chegar à base única: a razão, isto é, a visão, por mim mesmo, do que motiva a minha fé, ou, seja, a luz. É
por aÍ, com efeito, que a minha fé se reportará a Deus, porque "Deus é luz" e a luz intelectual é a única manifestação de Deus à razão do homem.

            Em Direito, crer sem ver não é uma fé que se possa qualificar de divina; crer sobre a palavra dos homens, quaisquer que eles sejam, não é também uma fé a que caiba aquele qualificativo, mas confiança humana. Em matéria de fato, no tocante ao ensino religioso, essa confiança dos fiéis na palavra da sua respectiva Igreja - porquanto elas são muitas e se
excomungam umas às outras - gera, não a unidade nem a fraternidade, mas divisões, hostilidades e fanatismos, que de certo a autoridade da Razão não geraria. Nas ciências humanas, respeito às quais o aluno pode verificar materialmente as afirmações de seus
mestres, o ensino destes não poderia ser uma exploração; na ciência espiritual, porém, a fé por procuração, segundo declaração mesma da Igreja, não é, de modo nenhum, uma certeza. Porque, afinal, segundo vós outros, católicos romanos, a fé dos ortodoxos gregos ou russos nas suas Igrejas grega ou russa é um erro; entretanto, para eles, o motivo de fé é exatamente idêntico ao dos vossos fiéis: crer no que lhes ensina a Igreja deles.

            Círculo vicioso, manifestamente, e, portanto, o contrário de uma virtude; petição de princípio e, portanto, fonte de erros, não infalibilidade.

            Não há mister, em verdade, discutir todos os textos do Evangelho e todos os fatos da História, para demonstrar que nenhuma Igreja é infalível, nem a Igreja romana, nem as outras. Basta comprovar que todas são acordes em atribuir a Deus esta abominável crueldade: a condenação eterna.

            Renunciem, pois, todas à pretendida infalibilidade, que é uma tirania intelectual; voltem ao Cristianismo do Cristo, que unicamente pede a fraternidade entre todos, no amor do Deus único, Pai de todas as criaturas. Pelo que toca ao conhecimento de Deus, não peçais a cada um, senão "segundo a medida de fé que Deus mediu para cada um", escreveu formalmente São Paulo, "somente essa fé constitui uma adoração racional" (4). E Deus mede a cada um, diz Jesus, segundo a capacidade de cada um: unicuique secundum propriam virtutem ( 5).

            (4) Epístola aos Romanos, XII, 1 a 3.
            (5) Mateus, XXV, 15

            A missão do Clero não é impor a sua autoridade: Nolite vocari magistri, magister vester unus est Christus. (6). A missão do Clero é instruir-se cada vez melhor e devotar-se cada vez mais: Qui primus est inter vos fiat vester minister (7). Ele desceu a encosta dos arrastamentos humanos, é-lhe preciso subir a encosta por onde desceu. Transformar-se ou perecer, tal o dilema que o progresso da liberdade e da ciência impõe, a todas as Igrejas, em primeiro lugar à Igreja romana que, sendo a mais poderosa, tem maiores responsabilidades.

            (6) Idem, XXIII,10 
                (7) Idem, XXIII, 11


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

29. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'.



29

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Passou, felizmente! o tempo em que o Santo Padre Inocêncio XI - 1676 a 1689 - podia reduzir à fome o douto Baluze, para impedir que ele desse a lume os verdadeiros textos dos Concílios e dos Pais, modificados em Roma, a bem da autocracia pontifical. Já não podeis senão adornar com o título de "modernista" e privar amavelmente das suas funções eclesiásticas o padre que teve a audácia de verificar por si mesmo o ensino dos teólogos romanos e que, em consciência; se julga obrigado a proclamar o resultado de suas verificações, resultado que induziria, não, de certo, à supressão, mas a uma modificação séria da Igreja ensinadora, de acordo com as exigências da ciência verdadeira e do verdadeiro Cristianismo.

            Porque, aí é que está toda questão e não algures. E não podereis fugir-lhe! 

            As disputas teológicas, até ao século XVIII, se dispersavam sobre dogmas especiais, pouco acessíveis ao comum dos espíritos e cuja discussão oferecia aos intelectuais o único campo possível de exercício, na ausência total das preocupações práticas que desde há duzentos anos multiplicam as pesquisas de toda espécie e Desenvolvem todos os dias as ciências positivas. As questões abstratas, ao contrário, são completamente desprezadas nas nossas escolas superiores, onde tinham outrora o primeiro lugar. A Filosofia, a própria Psicologia, são quase estranhas aos nossos sábios, exclusivamente apaixonados pela Física, pela Química, pelas Matemáticas, a Mecânica, a Erudição, a Economia política e social. A Teologia, sobretudo, se tornou de todo indiferente ao reduzido número de intelectuais que ainda se conservam fiéis às práticas religiosas. O campo está, pois, completamente livre ao Clero, para propagar os ensinos e as práticas que entender convenientes à sustentação da sua autoridade, sem outra justificativa além desta autoridade Mesma: "a Igreja é infalível; todo católico tem que se submeter à Igreja, sem nenhum exame."

            Pela onipotência, pela infalibilidade centralizadas no soberano Pontífice, desde o Concílio do Vaticano em 1870, toda a questão da fé, para os católicos romanos, se concretizou nesta questão: que é a Igreja?

            "A Igreja é o que é e tal sempre foi: uma monarquia absoluta, em que todos os direitos pertencem ao Sumo Pontífice. Os súditos, esses têm o dever absoluto de crer o que se lhes ensina e de fazer o que se lhes ordena em nome do Sumo Pontífice!” afirmam e impõem aos seus fiéis todos os bispos, todos os sacerdotes e os teólogos da Igreja Católica Romana. "Conquanto nem todos os representantes da Igreja, confessamo-lo, sejam absolutamente perfeitos, esta constituição da Igreja atual é absolutamente perfeita e quem quer que, em nome da Ciência, se permita contestar as nossas afirmações é um revoltado, que lamentamos não poder queimar, como outrora queimamos Savonarola, e que vos ordenamos eviteis, proibindo-vos em absoluto que o escuteis ou leais."




segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

28. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'



28

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Presas, no entanto, da "dúvida metódica", que Descartes recomenda e a Razão ordena, muitos católicos, que não são crianças, tomaram da história oficial, quer da Teologia, quer da Igreja, e confrontando-a com os documentos originais e os fatos autênticos, viram-se forçados a reconhecer e ousam escrever que em muitos pontos importantíssimos as afirmações ou as negações do ensino obrigatório, chamado, por abstração, "ensino da Igreja", em absoluto diferem da verdade verdadeira. Demonstram, pois, constrangidos pela evidência, que a maneira romana de cultivar "a virtude da fé" é, realmente, muito diversa do que o dicionário define como virtude.

            Esses sábios escrupulosos, escrupulosamente documentados, mostram, por meio do Evangelho, a absoluta simplicidade da teologia de Jesus; assinalam, nas Epístolas e nos Atos, a diversidade de opiniões teológicas que existiu entre os apóstolos e a obstinada resistência de S. Paulo a S. Pedro, sobre uma questão fundamental, e o erro de toda a primitiva Igreja sobre "a Parusia". Notam a hesitante introdução, nas Escrituras canônicas, não só de um versículo da primeira Epístola Joanina (V, 8), como também de muitos livros que por longo tempo estiveram excluídos das mesmas Escrituras, e a eliminação tardia de muitas outros que os Padres ortodoxos, até S. João Damasceno, morto em 754, consideravam canônicos. Denunciam as lentidões do trabalho, todo humano, de que resultou, no século III, o Credo chamado "Símbolo dos Apóstolos".

            Pelos textos autênticos, os Concílios Ecumênicos, desde o primeiro até o oitavo, aparecem quais são, convocados, não pelo bispo de Roma, porém pelo imperador de Constantinopla e presididos por este ou por seus delegados. O bispo de Roma, durante séculos, não se arroga a primazia; conserva-se no rol dos patriarcas de Jerusalém, de Antioquia e de Alexandria e o cânon nº 28º do Concílio da Calcedônia, em 451, estabelece paridade entre o patriarca de Constantinopla e o de Roma. A querela do Monotelismo, sempre persistente até ao século VII, revela quão fraca era a autoridade dos Concílios Ecumênicos e do Papa romano, sobre a Sociedade Cristã, nas questões intelectuais, ao tempo em que os cristãos eram inteligentes. Foi a invasão dos bárbaros que acabou com essa livre discussão, trazendo desaparecer as Igrejas do Oriente. Ainda pior: durante todo esse extenso período, os dogmas, hoje fundamentais, sobre a Trindade e a pessoa do Cristo, permanecem indecisos e mudam de um Concílio para outro, de um Papa para outro Papa. Para a ciência autêntica, é, pois, uma forma inteiramente humana e relativamente recente, na Igreja dita católica, esse dogmatismo infalível e esse monarquismo absoluto que os teólogos romanos atribuem ao próprio Jesus Cristo.

            Coisa ainda mais desagradável: a erudição crítica dos manuscritos primitivos denuncia numerosas variantes, algumas bastante graves, de um manuscrito antigo para outro manuscrito, também antigo, das santas Escrituras e a falsidade positiva das Constituições apostólicas e das Decretais, que são a pedra angular sobre que repousa todo o edifício da Soberania Pontifícia. Os documentos e monumentos autênticos estabelecem, de século para século, sucessivamente, as origens e as datas, de modo nenhum apostólicos, dos diversos títulos e dos diversos poderes que, muito humanamente, por vezes até desumanamente, foram atribuídos ao papa de Roma, pelos Leão III, pelos Gregório VII, pelos Bonifácio VIII, pelos Benedito XII, pelos Pio IX.

            É na simples história, não acomodada, dos fatos, quão maior é ainda a desilusão! Monsenhor Duchesne, para escrever o seu livro, hoje desaparecido, sobre as "Origens do poder temporal dos papas", se viu forçado, pela verdade, a atravessar toda aquela lama dos amantes e dos filhos das Teodora e das Marúsia, elevados ao trono pontifício por essas repugnantes mulheres. Felizmente, ele está na idade da razão e de há muito possui o discernimento bastante para distinguir o divino do humano, em sua ciência religiosa. Mas, que perturbação para os espíritos dos jovens padres, educados numa fé ingênua com relação à sinceridade e à autoridade do ensino eclesiástico, quando, em documentos autênticos, leem a crônica, não fraudada, dos soberanos pontífices Sérgio III, Anastácio III, Lando, João X, Leão VI, Estêvão VI, João XI, Leão VII, Estêvão VIII, Marinho II, Agapito II, João XII, de 904 a 963, e mais tarde, de 1492 a 1503, a: vida borgíaca de "Sua Santidade Alexandre VI".

            Que surpresa, quando vissem o sábio Harnach, forçado pelos textos inegáveis, fazer de modo um pouco embaraçado, mas bastante sugestivo, a comprovação deste fato, que eu próprio claramente demonstrei, com relação ao século apostólico, em minha tradução, do grego, das Epístolas de S. Paulo: "Na linguagem corrente, em começo do segundo século, o bispo, mesmo o de Roma, nem sempre sobressaía, com muito relevo, do seu colégio de Assessores, como nem sempre o próprio clero se distinguia do conjunto da comunidade. Sendo muito intensa a vida social, tudo o que se fazia ou passava afetava mais ao grupo inteiro, do que aos seus chefes."

            Comprovando a diferença, com relação à Igreja atual, onde "a sociedade dos fiéis" não passa de um rebanho guiado por pastores cegamente submissos ao governo absoluto de um pastor supremo, o espírito capaz de refletir inquire como foi que o Cristianismo passou daquele regime de liberdade a este regime de escravidão. E, se levar avante suas pesquisas, que escândalo para um padre apaixonado pela verdade, que não cego pela ambição, a interpretação, sucessivamente tentada, sugerida e, afinal, imposta do - "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja!" interpretação que faz dessa primeira pedra da Igreja o construtor, o senhor absoluto da Igreja! Que estupefação diante dos falsos documentos inventados, peça por peça, para autorizar essa interpretação e, depois, diante das falsificações posteriormente operadas, com o mesmo fim, nas cartas de S. Cipriano, nos decretos de Calcedônia e, mais tarde, nas cartas de S. Pedro Damião!

            A educação nos grandes seminários e as sábias precauções do governo eclesiástico lograram, bem o sei, conservar os padres, até mesmo os inteligentes, estranhos a essas realidades da história autêntica. Mas, se a razão não fosse piedosamente atrofiada e santamente cultivada a irreflexão pela regra da vida canônica que lhes é prescrita, quantos pontos de interrogação e quantas conclusões não se deparariam aos espíritos capazes de dedução lógica, nesses longos e múltiplos interregnos assinalados pela lista dos papas, em Kraus ou em Funk-Hemmer, na tábua cronológica com que termina cada volume da História eclesiástica por eles escrita! Porque, em suma, se o Papa é tudo na Igreja e se esta nada é sem o Papa, que era a Igreja nesses interregnos? O que se seguiu à morte de Clemente IV durou perto de três anos, de 1268 a 1271. Pouco mais longe, em vez de zero papa, havia três papas que se excomungavam mutuamente, com todos os partidários de cada um. Onde estava a verdadeira Igreja nessas três Igrejas todas excomungadas?

            A conclusão ressalta evidente: a Igreja verdadeira, como a quis Jesus Cristo, tem um só Monarca, um único Mestre: o mesmo Jesus Cristo, Mestre Invisível Magister vester unus est Christus. Abaixo desse Mestre celestial, na Terra, na multiplicidade das nações diversas, das línguas, das organizações, das tradições, das compreensões e das incompreensões, são necessárias diversas hierarquias de administradores diversos, adaptadas a essas diversidades, e, entre elas, uma monarquia, segundo a palavra grega criada por Saint Yves d' Alveydre, isto é, uma Sociedade Cristã dos governantes, contrabalançando-se e equilibrando-se umas
às outras, sem nenhuma opressão, nem tirania. Se os Chefes, verdadeiramente cristãos, dos livres crentes do Cristo houvessem estabelecido assim a paz entre si, na verdadeira e simples religião do Cristo, em vez de se querelarem e excomungarem por motivo de rivalidades de ambições, de interesses e das questões científicas, a Sociedade das Nações não estaria por instituir-se, estaria criada; e a História, desde há séculos, seria outra coisa que não uma série lamentável de guerras, de explorações, de revoluções e de ruínas.

            A Igreja romana se gloria da sua unidade administrativa, que ela desejara impor a todas as Igrejas. Peço perdão, mas, se a unidade é desejável no domínio administrativo, impossível é a unidade no domínio intelectual; e, nas questões de fé, é de intelectualidade que se trata e não de ordem administrativa. A inteligência compreende como pode, não como se quer. Forçar os espíritos a crer, sob o pretexto de unidade de fé, é enganar-se de domínio, submetendo o espírito à força, que é lei da matéria.

            - Que magnífica árvore a nossa Igreja romana! Todos os ramos enxertados no mesmo tronco único! exclamam os teólogos romanos.       

            - Sem dúvida, Monsenhores, é admirável uma bela árvore. Mas, o que Jesus-Cristo quis é todo um jardim. Chegou mesmo a especificar que "toda árvore que não produz bons frutos será cortada e lançada ao fogo" (3). A diversidade das árvores pode multiplicar a  beleza, sem prejuízo da ordem. A vossa nova Eva, no jardim do Cristo, se apega obstinadamente à árvore do Absoluto, que é a Arvore do Bem e do Mal, que unicamente produz o pomo da discórdia: será expulsa do paraíso, se não renunciar ao seu absolutismo: A ordem, se se torna opressão, transforma-se em desordem; torna-se tirania a autoridade, se suprime a liberdade. A única unidade religiosa possível é a caridade: "Deus é Caridade!" diz de continuo o Novo Testamento e jamais li em parte alguma, nem mesmo no Antigo Testamento, que a fé exige a opressão da razão, ou que a mentira constitui meio de fazer que reine a verdade.

            (3) Mateus, III, 10; Lucas, III, 9.



sábado, 2 de fevereiro de 2013

27. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'


27

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


            Evidentemente, isso não podia durar, era muitíssimo pouco para o orgulho humano. Quando os sucessores dos apóstolos conseguiram, no Império dos Césares, tão grande número de adeptos que a um imperador acudiu a ideia de aliar-se-lhes para dispor de um exército mais numeroso do que o do seu competidor, o processo apostólico foi bem depressa substituído pelo sistema autoritário, que dos instrutores fez mestres. "Preservai-vos de fazer que vos chamem mestres. Vosso único Mestre é o Cristo", dissera Jesus aos seus apóstolos (2). Os funcionários do culto cristão, progressivamente organizados, segundo o modelo do sacerdócio judeu e, em seguida, de acordo com o do funcionalismo imperial, chegaram de pronto a querer ser, no domínio espiritual, o que eram os funcionários imperiais, no domínio político. Pouco a pouco foi crescendo, até tornar-se completo, o esquecimento da diferença absoluta que separa, da livre adesão espiritual, a lei de possessão imperial.

            (2) Mateus, XXIII, 10.

            Como eram súditos do Império e sujeitos aos funcionários e leis do Império os que nasciam no território do Império, o Clero, administrativamente organizado, decretou que os que nascessem no Império seriam súditos da Igreja oficialmente constituída e que os pais eram obrigados, sob penas severas, a submeter, pelo batismo imediato, o espirito inconsciente de seus filhos não só à fraternidade cristã, mas também à autoridade eclesiástica e à teologia oficialmente decretada por aquele oficialismo intelectual, ideia absolutamente genial, como autoritarismo, e que nunca viera aos déspotas, ainda os mais tirânicos. É que os apóstolos póstumos de Jesus se haviam tornado mestres, sem embargo da proibição formal do Mestre único, e se haviam atribuído, sem embargo da ignorância que os caracterizava, a função dos antigos mestres de filosofia, Com a infalibilidade a mais, para resolverem em nome
da sua autoridade, todas as questões metafisicas, políticas ou sociais. Assim sendo, entendiam que a obediência cega era a única lei capaz de unir todos os espíritos na divina luz. 

            Após dezoito séculos desse pseudo Cristianismo, os pseudo cristãos se hão tornado cada vez mais escravos dessa forma tirânica de unidade e de universalismo, mas com o deplorável resultado de se acharem cada vez mais divididos entre si e de cada vez mais se separarem deles e do seu falso cristianismo todos os espíritos animados de outro espírito que não o de escravidão e de outra maneira de ver, que não pondo uma venda sobre os olhos.

            É que, mais do que nunca, quebrando todas as resistências, o corpo eclesiástico logrou ser, ele só, a alma da Igreja. E a docilidade absoluta, imposta, sob ameaça de condenação eterna, a todos os católicos romanos, suprimiu tão completamente toda liberdade e toda possibilidade de protesto, da parte dos fiéis servos da ortodoxia papal, ainda que patriarcas e arcebispos, que o Soberano Pontífice Pio X pode, pela sua Encíclica de 1908 e pelo Moto proprio que a completou, proibir a todos os batizados, seus súditos espirituais, "a leitura de qualquer livro, sobre Filosofia ou História, que não fosse previamente revisto e aprovado pela Inquisição romana". E ainda mais apertada é a proibição, para os jovens aspirantes ao sacerdócio, de seguirem outros cursos, a não ser os das Universidades que Roma tenha instituído ou aprovado. “Com efeito, escreve aos bispos o cardeal secretário, não pode escapar a Vossa Grandeza que a integridade da fé dos jovens estudantes, ainda que sejam clérigos ou padres, está exposta, nas Faculdades civis, a perigos bastante graves... particularmente no que concerne aos cursos de História, de Filosofia e de matérias similares."

            "A integridade da fé", efetivamente, tal como a exige o ensino hoje imposto pelo Soberano Pontífice, consiste em que a Igreja é o Papa e que a única regra, em, todas as coisas, é a autoridade do papa; em que isso é de instituição divina, que sempre foi assim, desde Jesus Cristo, e que a infalibilidade papal é a garantia Infalível de todo ensino eclesiástico. Grave, de certo, seria o perigo, para todo estudante e para todo crente que procurassem informar-se com instrutores desinteressados, para saberem se essa afirmação interesseira é conforme à verdade. Proibição, pois, a todo súdito do papa romano, de conhecer, a respeito do papado romano, o que quer que não esteja controlado pelo papado romano!



26. 'O Cristianismo do Cristo e o dos seus vigários'.




26

 “O Cristianismo do Cristo
e o dos seus Vigários...
           
Autor: Padre Alta (Doutor pela Sorbonne)
Tradução de Guillon Ribeiro
1921
Ed. Federação Espírita Brasileira
Direitos cedidos pela Editores Vigot Frères, Paris


A questão decisiva

            Torna-se tirania todo direito que oprime os outros direitos, torna-se erro toda verdade que pretenda suprimir outras verdades. Sem dúvida, nem essa pretensão, nem esse fato são de temer, quer da parte da verdade, quer da parte do direito considerados em si mesmos, na abstração teórica. Não é, porém, com as abstrações que nos chocamos neste mundo; com as realizações é que nos temos de avir e as realizações dependem dos realizadores que, em geral, são muito menos perfeitos do que as abstrações. É o que se dá com esta abstração: o Cristianismo e com os seus realizadores, que são os cristãos.

            Em teoria, que a Religião? Que é o Cristianismo? Que é o Catolicismo?

            Religião significa: o que religa os homens a Deus; Catolicismo é uma palavra grega que significa Universalismo e, portanto, indica a religião universal capaz de ligar todos os homens ao mesmo Deus único e universal. Tal, precisamente, o Cristianismo original ou Cristianismo de Jesus Cristo, porquanto Jesus Cristo não pregou senão um único dogma, a unidade de Deus, Pai de todos os homens e em quem, por conseguinte, todos os homens são irmãos. Tudo o que vá além desta fórmula única não pode deixar de ser matéria de discussões e, portanto, objeto de ciência, não de religião.

            Se, para nos unirmos pela mesma fraternidade religiosa, houvéramos de esperar que todos tivessem a mesma compreensão do que é Deus e de todas as questões que se prendem a essa questão primária, fora mister aguardássemos que na Terra apenas um só homem restasse, porque, sendo único, talvez ele se achasse de acordo consigo mesmo. Mas, enquanto tal coisa não se dá, tarefa difícil já é persuadir aos homens que eles são todos irmãos, visto terem todos por pai o mesmo Deus único. Essa a razão por que Jesus limitou a esse único dogma a pregação universalista ou católica.

            "Ide pelo mundo e pregai isto a todos os homens!" disse Jesus Cristo a seus apóstolos. - "E se não nos escutarem? - Então, deixai de lado os que não vos escutem e ide a outros." A isto se cifrava a opressão ou a pressão que os apóstolos exerciam, ao tempo do Cristianismo primitivo (1).

            (1) Mateus, X, 14; Marcos, VI, 11; Lucas, IX, 5; Atos dos Apóstolos, XIII, 51.