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sábado, 6 de março de 2021

Não negues!

 

Não negues

por Antônio Túlio (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB)

             Os erros mais tristes da história são negações. Grandes homens, no domínio das afirmações, tornam-se ridículos ou monstruosos quando enveredam pelas sendas tenebrosas da negação.

            O glorioso e brilhante Santo Agostinho, que até hoje é farol inconfundível na filosofia cristã como afirmador, teve a desventura de se tornar negativista um dia e a sua negação até hoje é lembrada, fazendo-nos arrepiar os cabelos. Negou que existissem homens nossos antípodas (o que se situa em lugar diametralmente oposto), que pudesse existir um hemisfério habitado em oposição ao nosso e excomungou os partidários dessa teoria. Naquele tempo, não se possuíam provas bastantes da existência dos antípodas e muitos a negavam. Santo Agostinho foi dos que negaram e assim um grande homem fez uma grande estultícia (asneira). Hoje, quando até as crianças escutam a voz dos antípodas pelo rádio, lhes ouvem os relógios dar horas, podem visitá-los e ser por eles visitadas, todas as crianças estão aptas a compreender o que era incompreensível ao grande filósofo.

            Os mais prestigiosos e sábios contemporâneos de Sócrates lhe negaram os ensinos e o condenaram como herege; hoje, todos aceitamos como certos os ensinos do eminente filósofo e ficamos pasmos da ignorância dos seus contemporâneos.

            Os judeus mais versados nas Escrituras, no princípio da nossa era, negaram a doutrina de Jesus, que confirmava aquelas mesmas escrituras. De tal negação resultaram os crimes mais monstruosos da história: a condenação de Jesus e dos seus discípulos, a perseguição aos cristãos durante mais de três séculos.

            Os contemporâneos de Joana d'Arc negaram-lhe a missão e a levaram à fogueira dos hereges; porém, séculos mais tarde, tornou-se a Pucela (donzela) de Orleans - o ídolo do povo francês e foi canonizada como santa da Igreja.

            Os contemporâneos de Colombo negaram a existência da América e a possibilidade de chegar-se ao Oriente contornando o planeta, mas nem por isso o Novo Mundo deixa de ser uma gloriosa realidade.

            Os contemporâneos de Benjamim Franklin negaram a possibilidade de construir-se o para-raios; mas, nem por isso, nossas cabeças estão hoje menos defendidas por esse aparelho, tão simples quão eficiente.

            Os contemporâneos de Edison negaram o fonografo; mas, aí está ele com os mais relevantes préstimos, servindo de base a outras invenções preciosas.

            Os vizinhos da família Fox negaram as mensagens recebidas do outro mundo; mas, mesmo assim, o Espiritismo é uma grande realidade.

            Os filólogos do tempo de Zamenhof negaram a possibilidade de construir-se uma língua artificial; mas, o Esperanto é hoje uma língua em pleno funcionamento.

            Reconhecidos assim os perigos da negação, a insegurança em que fica o negador, seria muito aconselhável a prudência de não nos pronunciarmos negativamente em situação alguma. O silêncio é a atitude prudente, quando não podemos afirmar. Nossa ciência é demasiada pequena e muito mutável no tempo, para que possamos estabelecer limites seguros ao possível.

            Parece-nos impossível tudo quanto está além dos horizontes do nosso saber; mas, esses horizontes se deslocam diariamente, de sorte que amanhã poderemos possuir conhecimentos que revelem a coisa hoje negada. E realmente assim vem sendo.

            É muito fácil acertar-se, afirmando ou silenciando; mas, assumimos tremendas responsabilidades quando negamos. O espiritista não deveria negar nunca. Evitaria campanhas estéreis, ódios e graves erros. 

            Deixar em silencio um mau livro, por exemplo, para que o tempo se encarregue de anula-lo, é muito mais prudente do que lhe negar a doutrina e o meter no Index das obras proibidas.

            Os livros proibidos, realmente, não desaparecem em virtude da proibição, nem da maldição que caia sobre eles: reservam-se o direito de continuar vivos, se forem bons, ou morrem quando realmente são maus e não correspondem às aspirações de futuras gerações mais esclarecidas. Nunca é a negação que os destrói, sim a sua própria ruindade. Se as proibições pudessem matar livros, de certo nenhum dos Evangelhos teria chegado ás nossas mãos; não teríamos igualmente recebido a palavra de Sócrates através da pena de Platão, porque Jesus e Sócrates foram negados e condenados; logo, suas palavras foram proibidas pelas grandes forças de seu tempo.

            Na literatura espirita tem aparecido uma infinidade de livros ruins, sem nenhum valor, escritos por pessoas que só possuem entusiasmo e audácia; mas, esses livros morrem por si mesmos, sem nenhuma proibição, sem nenhum julgamento, porque não possuímos - graças a Deus - um corpo de censores, com autoridade para decidir por nós o que é bom e o que é mau. A seleção se opera pela lei natural: o que é bom sobrevive e o que é mau morre, mais cedo ou mais tarde, quando já não nasceu morto.

            Em via de regra, os nossos críticos não negam, não condenam, apenas guardam silêncio sobre o que acham ruim e muito excepcionalmente esclarecem um ponto que lhes parece erro grave contra a doutrina, mas sem imporem seus pontos de vista aos leitores. Estes conservam toda a liberdade de aceitar ou não o ponto de vista do autor ou do crítico.

            Só muito raramente algum espiritista tem a ilusão de possuir autoridade para condenar um livro, para inclui-lo nas obras proibidas e que se não podem ler. Nega-lhe a doutrina, acusa-o de heresia, abre campanha contra a obra e o autor, contra o editor, contra o tradutor; entretanto, a obra continua sua marcha para a vida ou para a morte, conforme seja boa ou má, e o tal julgador se torna apenas ridículo, visto supor-se com uma autoridade que ninguém lhe concedeu, investido de direitos que ninguém lhe reconhece. Logo, não há campo para os negadores dentro do nosso movimento.

Intuitivamente os espiritistas são contra os negadores e a favor dos afirmadores. O negador, mais cedo ou mais tarde, verifica que está exercendo um mandato que ninguém lhe conferiu, que se vai tornando ridículo, e envergonha-se de sua atitude negativista. Graças a Deus é assim. Os espíritas não são negadores, não são almas fechadas dentro de estreitas limitações. Ao contrário, são positivos, preferem construir mal, a destruir bem; e, por isso mesmo, realizam grandes obras, apesar de serem em tão pequeno número. Errar afirmando ou silenciando é menos mal do que errar negando, atacando, fulminando os que pensam de modo diferente, ou fazem coisa diferente. De negações, ataques, lutas destruidoras, o mundo já tem excesso em sua penosa história.

            Não é necessário negar o mal; cumpre afirmar o bem, o que vale o mesmo, mas evita lutas estéreis. Um filosofo hindu já disse que nas grandes línguas da Índia não existe a palavra “direito”, só existe a palavra “dever” que a substitui, mudando-se o sujeito da oração.

            Por exemplo, em vez de dizer: “O rei tem o direito de ser obedecido pelo povo”, diz-se: “O povo tem o dever de obedecer ao rei”; em vez de dizer-se: “O povo tem o direito de ser protegido pelo rei”, diz se: “O rei tem o dever de proteger o povo”. Pela falta da palavra “direito” naquelas línguas, dá-se uma alteração muito profunda na mentalidade: só se pensa em deveres a cumprir e não em direitos a reclamar. Não é o credor que tem o direito de receber, é o devedor que tem o dever de pagar suas dívidas.

            Se tivéssemos autoridade entre os nossos irmãos de propaganda espirita, ousaríamos propor-lhes uma alteração semelhante na linguagem: substituirmos sempre uma oração negativa por uma afirmativa, ou pelo silêncio. Por exemplo, em vez de dizermos: “Eu não gosto da guerra”, diríamos: “Eu gosto da paz”. Em vez de dizermos: “Eu não sou católico”, diríamos: “Eu sou espiritista”. Em vez de: “Ele não sabe o que diz”, diríamos: “Como todos nós, ele ainda tem muito que aprender”.

            Na aparência é uma puerilidade, puramente material, essa alteração em nossos modos de dizer; mas, na verdade, seríamos levados a adquirir novos hábitos mentais, lutando sempre para evitar as frases negativas e construirmos somente orações afirmativas. Com o tempo desapareceria dos nossos hábitos e, depois, dos nossos dicionários o adverbio “não”. Sabemos que seria difícil, porque há milhões de anos vivemos negando; contudo, justamente nessa dificuldade é que estaria a ginástica proveitosa para o nosso melhoramento.

            Aí fica a lembrança. Se algum dos nossos Irmãos a achar sensata, faça uma experiência em seus escritos, em suas palestras e, depois, comunique-nos os resultados.  Sir Oliver Lodge nos sugere eliminemos do dicionário a palavra “impossível” e tem razão; todavia, se conservarmos o adverbio “não” e dissermos: “Não é possível!” estaremos burlados do mesmo modo. Parece-nos que o que se faz preciso é lutarmos contra todas as formas de negação, a fim de sermos espíritos positivos, construtivos. Nosso grande mal tem sido a negação; contra esse mal temos que lutar sempre; temos que estar sempre em guarda.

            Toda a longa série de mandamentos negativos: Não furtarás, não matarás, não cometerás adultério, não levantarás falso testemunho, não cobiçarás as coisas alheias, fica substituída por um só, afirmativo: Ama a teu próximo como a ti mesmo.

            A fórmula negativa que dizia: “Fora da Igreja não há salvação”, o Sr. Allan Kardec opôs outra negação, porém, de ordem muito mais elevada, universal, antisectária: “Fora da caridade não há salvação”. Chegará, no entanto, o tempo em que esta fórmula do Mestre será substituída por outra ainda mais simples, como, por exemplo: “Quem ama está salvo”, ou “A salvação está no amor a todos os seres”, ou “Quem ama a Deus através de todos os seres já está salvo”.

            Preferimos a palavra “amor”, como realmente está no original do Evangelho, em vez de “caridade”, porque o sentido desta última se acha muito deturpado, implicando a ideia de esmola, assistência, pobreza, riqueza, quando, no sentido cristão, todos necessitamos desse afeto, dessa solidariedade humana, desde os mais ricos até aos mais pobres; quando, erradamente, se liga à palavra “caridade” a ideia de socorro econômico aos necessitados.


quarta-feira, 3 de março de 2021

Cuidado com as piranhas...

 

Cuidado com as piranhas!

por Manoel L. Veloso         Reformador (FEB) Maio 1942

             No Amazonas, muitas vezes, encontram-se piracemas (cardumes) de piranhas. Então, os que costumam viajar em canoa tomam muito cuidado para não mergulharem as mãos n’água, visto constituir isso grande perigo para quem assim procede, por serem esses peixes de uma ferocidade sem limites.

            Assim, também nós espiritistas devemos tomar muito cuidado, visto que o nosso barco, em grande movimento de navegação, segue neste momento pelo meio de uma grande piracema de piranhas. Os nossos adversários, que estão constantemente investindo contra o nosso barco, na esperança de que, por um descuido nosso, venha a virar, tornando-nos então nós uma presa fácil para o seu repasto feroz. Como o Espiritismo está em franca atividade, procuram, por todos os meios e artimanhas, jogar a sua grande obra abaixo.

            Portanto, devemos ter o máximo cuidado com os nossos atos, a fim de que as piranhas não encontrem meios de investir com êxito sobre nós.

            No momento que atravessamos e que se presta muito a intrigas, deveríamos deixar de lado certas disputas dentro de nossas fileiras, para tratarmos de elevar bem alto, principalmente diante das hostes adversarias, o conceito do Espiritismo.

            Devemos sempre medir os nossos passos, atos e costumes, a fim de que possam ser examinados.

            Ser espiritista é uma responsabilidade muito grande; portanto, é necessário ser espiritista não só nas horas em que se fala sobre a Doutrina, mas, em todas as 24 do dia.

                 Do blog: É sempre válido repetir sobre o cuidado que devemos ter em relação a disputas em nossas fileiras... 


Kardec e Roustaing

 

Kardec e Roustaing

por Indalício Mendes   Reformador (FEB) Maio 1943

             Em ”O Caminho” estimado órgão da "Tenda Espírita Mirim", deparamos, no seu número de abril último, subordinado ao título acima, com um bem lançado artigo da lavra do nosso distinto e esclarecido confrade Indalício Mendes, a quem pedimos, bem como a “O Caminho”, vênia para com ele enriquecermos as colunas de Reformador, transcrevendo-o nelas.

            É este o artigo:

             ... 14. Lembra-lhes estas coisas, conjurando-os diante de Deus que não tenham contendas de palavras que para nada aproveitam, senão para perverter os que as ouvem. 15. Esforça-te para te apresentar diante de Deus aprovado como obreiro que não tem de que se envergonhar, e que manejas bem a palavra da verdade.”  

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            “... 23. "Rejeita as questões absurdas e desassisadas (sem juízo), sabendo que elas provocam brigas, 24. Ora, o servo do Senhor não deve brigar, mas deve ser condescendente para com todos, capaz de ensinar, sofrido; 25, que corrija com mansidão aos que se opõem, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento para conhecerem a verdade.” - (Segunda Epístola de Paulo a Timóteo, cap. 2, versículo cit.)

             A situação do Espiritismo no Brasil exige, de todos os que se interessam pelo seu futuro, meticuloso exame e profunda meditação à cerca dos problemas criados pela inobservância dos Evangelhos. Os verdadeiros espíritas - e estes são tão reduzidos ... - precisam redobrar seus esforços para o reencaminhamento ao aprisco das ovelhas desgarradas pelos sentimentos inferiores que o orgulho e a vaidade inspiram.

            Nunca se viu tanto apego à polêmica, nas fileiras do Espiritismo, porque também nunca se observara tamanho desconhecimento da doutrina, nem tão lata ignorância das lições de amor e humildade que refulgem nas páginas piedosas dos Evangelhos.

            Urge que os “soi-disant” (supostamente) espíritas se compenetrem de seus deveres em face da doutrina do Espiritismo, que é toda amor, toda humildade, toda paz, toda caridade, enfim. Colocam-se fora dela - e contra ela, concomitantemente - aqueles que, em vez de empregarem esforços para praticá-la e difundi-la conscientemente, realizam espúria tarefa, empenhando-se em contendas fúteis e provocando situações malsãs, muito do agrado dos irreconciliáveis inimigos da Terceira Revelação.

            Está em moda combater J. B. Roustaing e “Os Quatro Evangelhos...” Perde-se, semeando a discórdia no meio espírita, valioso tempo que poderia estar sendo proficuamente utilizado na evangelização daqueles que tanto necessitam de amparo doutrinário. Entretanto, Allan Kardec, homem superiormente equilibrado, cioso da enorme responsabilidade, que assumira em face da humanidade contemporânea, do seu trabalho gigantesco, não anatematizou (contestou) a obra de Roustaing ainda que se manifestasse a respeito dela com indisfarçável prudência. Ele próprio escrevera na “Revue Spirite”: “Estas observações, subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra, que, de par com algumas coisas duvidosas, segundo o nosso ponto de vista, outras contém incontestavelmente boas e verdadeiras e será consultada com proveito pelos espíritas conscienciosos".

            Kardec, no trecho transcrito, ressalvou até que os "espíritas conscienciosos” consultariam com proveito a dita obra. E, quanto às restrições que fizera, provinham de sua opinião pessoal, tanto que lá está – “de par com algumas coisas duvidosas, segundo o nosso ponto de vista”. Tanto ele prezou “Os Quatro Evangelhos” que se preocupou com a forma material da obra, ao ponderar inequivocamente: “No nosso parecer, se, limitando-se ao estritamente necessário, houvera reduzido a obra a dois ou mesmo a um só volume, ela ganhara em popularidade”. É obvio que Allan Kardec pouco se importaria com a popularidade de "Os Quatro Evangelhos", se não estivesse convencido de sua utilidade para os estudos dos "espíritas conscienciosos”. É claro também que, não obstante a grande autoridade moral e intelectual do codificador, não se podem considerar todas as suas opiniões pessoais como que forradas de infalibilidade.

            Consideremos ainda o fato dele ter lealmente confessado: “O autor desta nova obra julgou dever seguir outra orientação: em lugar de proceder gradativamente, quis de um salto atingir o fim. Assim é que tratou de certas questões que AINDA NÃO JULGARAMOS OPORTUNO ABORDAR e a respeito das quais, portanto, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que as comentaram".

            Devemos olhar para Kardec e Roustaing com “olhos cristãos”, isto é, reconhecendo o valor do trabalho realizado por um e outro, porque ambos contribuíram para a elucidação dos Evangelhos. Kardec foi o grande pioneiro, o desbravador destemeroso que enfrentou as furiosas arremetidas do preconceito religioso do século XIX. Coube-lhe abrir o caminho para o esclarecimento espiritual da humanidade, permitindo-lhe a compreensão mais perfeita da vontade de Deus, através dos livros que deixou. Sofreu, como sofrem todos os apóstolos da verdade. Foi escarnecido, vilipendiado, perseguido, mas, encouraçado pela fé, nunca desertou o posto de honra, cumprindo sua elevada missão, ter dito, porém, a última palavra.

            Do mesmo modo, Roustaing, como continuador de Kardec, é digno do respeito dos “espíritas conscienciosos”, porque foi também um homem de excepcional valor moral e intelectual, deixando, em “Os Quatro Evangelhos”, a prova do seu amor à doutrina de Jesus, ali t explicada, com amplitude, em espirito e verdade.

            Roustaing deve ser estudado sem prevenções, mas com boa vontade e disposição serena. Sem tolerância nem humildade, sem amor nem caridade, o Espiritismo terá, a sobressaltar lhe o programa de ação evangélica, grupelhos de sectários, imbuídos do mesmo dogmatismo negativista que levou a ruina outras religiões.

            Pode e deve a criatura ser tolerante em face das opiniões alheias por mais opostas que sejam às suas próprias; ela (a tolerância) prescreve o respeito às crenças, aos gostos e tendências dos outros; porém, a ninguém impõe o silêncio diante do que lhe desagrade, ou seja compreendido de outro modo. Ao contrário, respeitando o indivíduo, inspirado pela bondade e pela justiça que ela em si contém, a maneira por que os outros exteriorizam seus sentimentos, a tolerância o obriga a considerar os outros como a si mesmo e a fazer-lhes tudo aquilo que lhes possa convir. Ora, o que convém a todo ente humano é aprender, progredir, evoluir espiritualmente, o mais rápido possível. E a tarefa dos que mais sabem é, ou deve ser, ensinar aos que sabem menos e a dos que mais bondade possuem dar lições praticas dessa bondade, para que os seus inferiores tenham um guia que lhes indique de que maneira devem proceder para também subir”. (Aguarod, "Grandes e pequenos problemas", págs. 100/1).

            O que primacialmente nos interessa a todos não é discutir se Jesus teve “corpo fluídico” ou “corpo carnal como o nosso”, durante sua passagem por este planeta, embora seja assaz conhecida a expressão de Paulo aos Coríntios, de que “nem toda carne é a mesma carne”. Há tempo para chegarmos lá. Em relação ao que nos falta aprender, nada ainda sabemos. Precisamos, sim - e os fatos atuais o comprovam - é de nos evangelizarmos, estudando em vez de discutirmos, perdoando em vez de condenarmos, pesquisando, primeiramente em nós mesmos, as imperfeições e lacunas que julgamos existir em nossos semelhantes. Toda essa grita se faz porque está sendo negligenciado o estudo metódico e atento dos Evangelhos. As censuras, as polêmicas, as discussões podem satisfazer à vaidade de alguns homens, porém, ferem a doutrina codificada por Allan Kardec e colidem com os preceitos de paz, amor e caridade que constituem a palavra de ordem de Jesus. Persistir nessa atitude anti-espirita será favorecer a negregados desígnios dos inimigos gratuitos que o Espiritismo tem, na terra e no espaço.

            Em vez de dissenção, preguemos a união, porque a família espirita é uma só, como uma só é a verdade. Só uma luta deve entusiasmar-nos: a luta pelo bem, sem nos esquecermos, todavia, de que “a humildade é a fonte de todas as virtudes”.

            Está-se procurando formar um antagonismo que jamais existiu entre Kardec e Roustaing, no que diz respeito à doutrina espírita. Desses que criticam e combatem “Os Quatro Evangelhos” quantos já leram e compreenderam essa obra superiormente elaborada e magistralmente desenvolvida'? O “ponto nevrálgico” de toda essa questão é o “corpo fluídico”, que, no entanto, interessa principalmente à parte científica do Espiritismo. Entre os espíritas, porém, é avultado o número dos que nunca leram todas as obras de Kardec e dos que, em, tendo lido algumas, não assimilaram seus ensinamentos. Entretanto, discute-se, faz-se bulha, põe-se em triste evidencia a falta de orientação verdadeiramente espirita.

            Sempre que houver algo de difícil compreensão para nós ou aparentemente absurdo, meditemos, pedindo a Jesus que nos ilumine entendimento. Nada se deve negar “a-priori”, porque muitas vezes poderá suceder seja nosso o erro, por não havermos ainda alcançado a maturidade intelectual e espiritual adequada para interpretá-lo acertadamente. Devemos não esquecer que “acima de tudo está a vontade superior, que pode ou não, em sua sabedoria, permitir uma revelação". (Kardec, “Obras póstumas”).

            A melhor maneira de seguir as instruções de Allan Kardec está em exemplificar a doutrina que ele codificou, tendo por norma invariável este seu lema “Trabalho, Solidariedade, Tolerância”- que muitos de seus pretensos defensores parecem desconhecer. A obra de Roustaing, pode, sem favor, ser incluída entre aquelas de Kardec, Léon Denis, Camille Flammarion, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, etc., opimos (excelentes) frutos de uma falange de trabalhadores assistidos pelos mensageiros do Cristo. Torna-se necessário que os espíritas sejam, pelo menos, espíritas, "espíritas conscienciosos", no dizer de Kardec, abandonando ideias sectárias, sufocando e destruindo em si tendências dogmáticas, jugulando inferiores impulsos que a doutrina desaconselha, se não quiserem ser apenas, como disse Jesus, “sepulcros caiados de branco por fora”.

            Somos todos Irmãos, devendo-nos auxílio reciproco. Se Jesus disse que a ninguém viera julgar, porque só Deus julga, porque pretendermos nós, os humanos, que nada valemos, ser maiores que o Divino Mestre? "Não julgueis a fim de não serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros; com a medida com que medirdes sereis medidos. Como é que vês um argueiro no olho do teu irmão e não percebes a trave no teu?" (Mateus, Vil, v. 1-3)  

            Os que procuram perturbar a paz do ambiente espirita atacando Roustaing a pretexto de defender Kardec, como se este houvera sido vítima de algum agravo, estão fora da doutrina, são contra ela, porque não a cumprem. Os piores inimigos do Espiritismo são aqueles que estão dentro dele, dizendo-se espíritas sem cumprir-lhe os princípios essenciais. Já é tempo de se suspender tão inglória conduta. Preguemos todos o Evangelho e não a cizânia, porque quem estiver em erro por ele responderá. Deixemos em paz o corpo de Jesus; atentemos, porém, para a sua doutrina de amor e caridade, porque dela é que virá a nossa salvação moral. Está em “O Evangelho segundo o Espiritismo”: “Não anatematizeis os que não pensem como vós". Porque não se procede assim? Nessa mesma obra confortadora e sublime, escrita por Allan Kardec, lê-se este conselho amigo de “O Espírito de Verdade”: “Espíritas! Amai-vos, este o primeiro ensinamento; Instrui-vos, este o segundo.”

            Em “Obras póstumas” também de Kardec, encontram-se estas outras palavras, tão oportunas para os que falseiam o espírito da doutrina: “O Espiritismo proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para si e para todo o mundo, respeita a convicção sincera e pede reciprocidade.”

            Se um cego se faz guia de outro cego, cairão ambos no fosso." (Mateus, XV. v. 14).

            Para esses “cegos” devemos implorar a misericórdia do Pai. São almas que se afastam do caminho iluminado dos Evangelhos, ovelhas que se transviam.

            Guias cegos, que coais um mosquito e engolis um camelo”, meditai.  


terça-feira, 2 de março de 2021

Falências...

                  

Falências...

por Arnaldo S. Thiago      Reformador (FEB) Março 1943

      Anda presentemente o mundo tão cheio de falências que já ninguém acredita noutra prestabilidade do gênero humano e de suas bizarras instituições, senão para justificar o ceticismo de um Anatole France, ou a ironia de um Voltaire...

            De tal modo se radicou, mesmo, nos ânimos essa ideia de generalizada falência, que um dos mais conspícuos e intrépidos cultores do Espiritismo, o nosso grande amigo Leopoldo Cirne (que, hoje, podendo melhor ouvir-nos e perscrutar o nosso íntimo, bem pode avaliar a estima que lhe consagramos) não trepidou em dar ao seu último trabalho – “O Anti-Cristo, Senhor do Mundo” - aquele subtítulo perfeitamente desastroso e de todo inconsequente – “A Falência do Espiritismo”!

            Regra geral, isto sim, o homem faliu em face do Cristianismo: faliu como intelectual, como estadista e como religioso. Mas, deduzir-se dessa dolorosa constatação que possa ter falido o Espiritismo, que é, sem dúvida, o Cristianismo restaurado em sua pureza, não é possível, nem justo.

            Os ouropéis de uma civilização abastardadora do caráter simples e sincero, que lhe devera ter inspirado a Doutrina do Cristo, é que engendraram a falência dos homens, reduzindo-os a uma situação de cativeiro infamante, de que nem sequer tentam libertar-se, porque a sua libertação implicaria grande esforço para se purificarem e desprenderem de hábitos rotineiros em que se comprazem todos, porque lhes fala mais alto aos sentidos essa modorra da consciência, do que à alma os clamores da mesma consciência, entorpecida por séculos de vida hipócrita e contaminada de abjeções tremendas.

            A ninguém, por isso, é possível prever as consequências do desmoronamento universal desta civilização edificada sobre o alicerce de fórmulas convencionais, tão contrárias à índole do Cristianismo, que aos próprios espíritas é sobremodo difícil vencer as dificuldades que se lhes deparam na prática da vida, para viverem de acordo com os princípios que sinceramente professam! Horresco referens! (tremo ao conta-lo!)

            Mas, por misericórdia de Deus, jamais se verificará a falência do Espiritismo - porque não é ele de estrutura humana e sim espiritual, isto é, os seus mentores são Espíritos livres das convenções sociais, que no momento oportuno sabem dizer as coisas como as coisas são e jamais como as aconselha a exigência do bom-tom e da harmonia fraterna - rotulagem triste com que se disfarçam personalismos presunçosos, a se apresentarem como garantes únicos das boas diretrizes doutrinarias ortodoxas.

            Devemos estar precavidos, pois que não podemos saber de que modo e a que horas chegará aquela justiça, aquele poder que surge subitâneo como o raio, no próprio dizer do Evangelho. O que é verdade é que a Civilização se contorce nas dores de um parto decisivo, de que nascerá para o Mundo ou um ciclo luminoso de conquistas alcandoradas do espírito humano, ou um doloroso ciclo de decadência (que seria simples repetição da História, aliás sempre a repetir-se) para expiação mais longa e profunda dos grandes crimes e dos pecados tremendos que, em geral, os homens estão a praticar destemerosamente, desde que se imaginaram os únicos competentes para lavrarem as suas próprias sentenças condenatórias ou absolutórias. Deus apenas deve assistir, impassível, ao desenrolar dos acontecimentos, dizem eles.

            E o Cristo continua, do alto da cruz, a suplicar: “Pai, perdoa-lhes, porque eles não sabem o que fazem.”

            O homem faliu, evidentemente em face da Lei Moral, do eterno Código divino. Mas, o Espiritismo, restaurador do puro Cristianismo, jamais falirá. Por amor do Cristo, irmãos, façamos um supremo esforço: unamo-nos, amando-nos, tolerando-nos, respeitando-nos e procurando amparar-nos reciprocamente, para que as nossas falências sejam reparadas e possamos todos voltar, humildes e arrependidos, ao redil das ovelhas do Mestre, pois que a falência não é somente de um, é de todos.


Pôncio Pilatos

 


Pôncio Pilatos

por Luciano dos Anjos       Reformador (FEB) Junho 1963

             Durante a chamada Semana Santa alguns filmes de conteúdo bíblico foram, como de tradição, projetados nas telas nacionais. Este ano tivemos uma safra nova e variegada, se bem não faltasse a representação, nos célebres “poeirinhas”, das cópias tragicómicas de “O Mártir do Calvário", horrível produção francesa de meio século atrás. “O Rei dos Reis” por nós já comentado nestas mesmas páginas, infelizmente não foi exibido novamente.

            Apesar dos muitos equívocos e distrações que continha, foi sem dúvida o melhor trabalho até hoje produzido no gênero. Assim, não podendo bisá-lo, como era de nosso desejo, fomos assistir à película “Pôncio Pilatos” (Ponzio Pilato), em apresentação na linha de cinemas do circuito Vital Ramos de Castro.

            Jean Marais faz o difícil papel do Procurador da Judeia, destacando.se ainda as interpretações de John Drew Barrymore, como Judas e Jesus, e mais Jeanne Crain, Basil  Rathbone, Letícia Roman, Massimo Serato, Ricardo Garone, Lívio Lorenzon e Roger Tréville. Dirigiram o espetáculo o americano lrving Rapper e G. P. Calligari. Trata-se duma co-produção ítalo-francesa da Glomer Film-Lux-CCF, dublada para o inglês e distribuída pela Condor Filmes. Técnica e artisticamente o filme é péssimo, horroroso, como veremos no final deste comentário. Por ora, analisemos os ângulos que mais interessam a nós e que dizem respeito, obviamente, ao enredo em si, à luz da verdade histórica e da Doutrina Espirita.

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             A cena de abertura mostra-nos Pilatos diante de César, em Roma, para onde fora mandado por Vitélio, governador da Síria, a fim de explicar seus desmandos na Palestina. Observe-se desde logo a preferência do roteirista pela hipótese da conversão de Pilatos ao Cristianismo, constante num evangelho apócrifo, porém a que melhor fere a sensibilidade do público pagante. Enquanto é asperamente inquirido por César, Pilatos recorda intimamente, todos os célebres acontecimentos em que estivera envolvido e, em torno deles que se desenrola o filme, num longo período de quase três horas de projeção, que vai desde as perguntas-condenação do imperador até a resposta-conversão do procurador.

            A “performance” de Pôncio Pilatos não parece corresponder fielmente à realidade histórica. Ao que se sabe, Pilatos foi administrador duro e pouco probo. Dão noticia disso os historiadores Filon e Flávio Josefo, bem como os próprios evangelistas. Numa carta de Agripa I referida por Filon, narra-se que ele era de índole inflexível, severíssimo, cruel e soberbo; que condenava à morte sem julgamento, deixava-se corromper e praticava intoleráveis iniquidades. Isto, sem conter a leviandade de seu caráter, desnudado na sensualidade delituosa, cuja melhor descrição, sem dúvida, vamos encontrar nas páginas extraordinárias do romance de Emmanuel intitulado “Há dois mil anos”. Aliás, o filme chega a mostrar um rápido flerte do Procurador' com uma plebeia, confirmando assim, embora insuficiente e insatisfatoriamente, essa repugnante facies da sua personalidade maculada pela viciação contumaz. Dizemos insuficiente e insatisfatoriamente, porque no filme essa passagem revela muito mais ingenuidade de sentimentos que propriamente alta traição à sua vida conjugal com Cláudia Prócula. Somente lendo Emmanuel podemos sentir o quanto era asqueroso o celebérrimo Governador Pôncio Pilatos.

            Em relação a Jesus, de fato ele busca subtraí-lo à condenação infamante que lhe preparam, lançando mão, para isso, de quatro expedientes. Primeiro, manda-o à presença de Herodes; depois, autoriza a flagelação, como simples castigo, pensando em libertá-lo logo após: em seguida, permite à multidão escolher entre Jesus e Barrabás, na expectativa de que escolhessem o Mestre; e, finalmente, a tentativa de mover o povo à piedade, apresentando-lhe o Cristo desfigurado e exclamando: “Ecce Homo!”; (Eis o homem!). Durante o julgamento a fita repete rigorosamente o texto evangélico e nisso vai muito a contento. Pilatos, na verdade, empresta pouca ou quase nenhuma importância à acusação dos sacerdotes e dos fariseus, eis que reconhece a falsidade deles. Procura colocar-se à margem do assunto, enviando Jesus a Herodes (Jo. XVIII, 31-38 e Lucas XXIII, 6 e segs.). Entre Pilatos e Herodes havia certa animosidade decorrente dum fato que por sinal o filme registra. Herodes escrevera a Tibério, no ano 27, pedindo-lhe que mandasse retirar do Templo os escudos dourados que Pilatos ali mandara colocar. O Imperador aquiesceu e deu ordem de transferi-los para o templo dedicado a Augusto, em Cesaréia. Isto fez que Pilatos se declarasse inimigo de Herodes. Contudo, a deferência com a qual o romano enviou o Nazareno ao Rei da Galileia deu motivo à mais completa reconciliação entre os dois. Todavia, como é sabido, Herodes devolve o Cristo para o seu tribunal e os chefes judaicos insistem então na condenação. Não obstante afirmar por três vezes a inocência de Jesus, Pilatos não se atreve a pô-lo em liberdade, com receio de desagradar aos judeus. Por isso tenta os quatro expedientes de que falamos acima. Os chefes judaicos, entretanto, crescem em audácia à vista da indecisão do Procurador e chegam ao extremo custo de ameaçá-lo de não zelar a autoridade de César, caso se negue a castigar Jesus com a morte (Jo. XIX,12). Pilatos, obedecendo então a uma superstição, lava as mãos diante do povo, a julgar que assim se purificava do crime de derramar sangue inocente. Em seguida, entrega Jesus aos seus inimigos para que o crucifiquem (Mat, XXVII, 15 e segs. e Luc. XXIII, 15 e segs.). Desta forma agiu para mostrar não ser por sua vontade que se ia praticar o crime. Variam, porém, as opiniões sobre o impulso que moveu Pilatos. Acreditam uns que ele teria imitado o costume dos romanos e dos gregos que imaginavam apagar as manchas de seus crimes lavando as mãos e, às vezes, o corpo todo. Outros, no entanto, com Orígenes, querem que Pilatos tivesse em mente acompanhar o costume dos judeus, segundo se compreende do Deuteronômio, quando refere à expiação do homicídio oculto nos seguintes termos:

            “Todos os anciães desta cidade, mais próximos do morto, lavarão as mãos sobre a novinha desnucada no vali, e dirão: As nossas mãos não derramaram este sangue, e os nossos olhos o não viram derramar-se. Assim, eliminarás a culpa do sangue inocente do meio de ti." (Dt. XXI, 6, 7 e 9.) O filme, nesta cena, mostra na bandeja um matiz sanguinolento que, se por um lado impressiona o espectador, por outro é dum mau gosto indizível. Recurso provinciano, artisticamente intragável e só apreciado pelos que se alheiam à boa arte e aos espetáculos de alto gabarito.

            A penúltima cena do celuloide é exatamente aquela em que Pilatos escreve de próprio punho (teria sido?) a inscrição a ser encimada na cruz do Crucificado. Nesse gesto, Pilatos quer revelar toda a sua indignação e o seu desprezo pelos chefes judaicos, recusando-se a modificar o texto quando lhe é solicitado (Jo. XIX, 22). Mais tarde (esse episódio é omitido no filme) acede facilmente a que José de Arimatéia retire o corpo de Jesus, visto estar determinado na lei romana que os parentes e amigos pudessem dar sepultura aos cadáveres dos condenados. E quando os príncipes dos sacerdotes e os fariseus vão ter outra vez com ele para que mande reforçar a guarda do sepulcro, mostra-se sobremaneira aborrecido e despacha-os imediatamente, dizendo apenas: “Aí tendes uma escolta; ide e guardai o sepulcro como bem vos parecer.” (Mateus, XXVII, 65)

            Uma tradição que se conserva em Jerusalém conta que Pilatos, além da inscrição colocada sobre a cruz, redigira uma sentença, cuja transcrição ainda hoje se divulga com algumas variantes. É muito possível que o fato seja autêntico, porquanto os sacerdotes não levariam o Cristo à crucificação senão devidamente resguardados da sua responsabilidade mediante um documente qualquer. Não andam certos - pelo menos do ponto de vista lógico - aqueles que querem ter sido apenas verbal a sentença de Pilatos. O documento a que nos referimos estaria assim redigido: “Ao décimo sétimo ano do Império de Tibério César, e vigésimo quinto dia do mês da Março, na cidade de Jerusalém, sendo Anás e Caifás Sacerdotes e Sacrificadores do Povo de Deus, Pôncio Pilatos, Governador da Baixa Galileia, assentado a Sede Presidial do Pretório, condena Jesus de Nazaré a morrer numa cruz entre dois ladrões. Visto que as grandes e notáveis testemunhas do Povo dizem: 1º) que Jesus é sedutor; 2º) que é sedicioso; 3º) que é inimigo da Lei; 4º) que se diz falsamente que é Rei de Israel; 5º) que se diz falsamente Filho de Deus; 6º) que entrou no Templo, seguido duma multidão, trazendo palmas na mão. Ordena ao Primeiro Centurião Quinto Cornélio que o conduza ao lugar do suplício. Proíbem-se todas as pessoas, pobres ou ricas, que impeçam a morte de Jesus. As testemunhas que assinaram esta sentença contra Jesus são: 1º) Danile Robani, fariseu; 2º) Tomás Zorobatel; 3º) Rafael Robani; 4º) Capet, homem público. Jesus sairá da cidade de Jerusalém pela Porta “Struenes”.

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             O filme ainda mostra duas passagens importantes, quais sejam, a introdução em Jerusalém das águias de César e a construção do Aqueduto com dinheiro do Templo. Flávio Josefo narra que Pôncio Pilatos fez o que nenhum procurador, antes dele, se atrevera: introduziu em Jerusalém bandeiras e escudos militares com a imagem de César a fim de abolir as leis judaicas, ameaçando de morte os judeus discordantes. Por outro lado, gastou na construção do Aqueduto, dinheiro destinado ao Templo e, como o povo protestasse, mandou vestir soldados à maneira judaica e distribuí-los entre a multidão - detalhe que o filme omite – levando consigo, escondidos, fortes azorragues com os quais maltrataram, fustigaram e mataram muitos judeus.

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             Pôncio Pilatos governou a Judeia mais quatro anos após a crucificação de Jesus, mostrando-se um administrador cada vez mais inepto e mais inapto. Chegou afinal ao extremo de mandar dispersar e matar uma multidão de Samaritanos que subiam ao monte Ganizim. Os habitantes de Samaria queixaram-se a Vitélio, Governador da Síria, o qual determinou a sua imediata deposição, ordenando-lhe ainda que se apresentasse a Roma a  fim de justificar-se perante o Imperador pelo genocídio de que os judeus o acusavam. A narrativa fílmica quer fazer supor que tais fatos haviam decorrido imediatamente após a crucificação do Cristo e motivados precisamente por este crime. Todavia, conforme dissemos, a verdade é que Pilatos ainda governou a Judeia por quatro longos anos e só é deposto pela matança provocada no monte Ganizim. Quando chegou a Roma, já Tibério havia morrido. O historiador Eusébio conta que Pilatos, caído em desgraça, acabou por suicidar-se. Segundo outros autores, teria sido condenado à morte, mais tarde, por Nero. E há ainda o evangelho apócrifo, aqui antes mencionado, que o dá como convertido ao Cristianismo e condenado à morte, ainda ao tempo de Tibério. O filme preferiu a sua conversão. Nós ficamos com Emmanuel, que apenas cita o seu suicídio, embora não firme nem confirme o ato da conversão. O suicídio teria ocorrido em Viena, nas Gálias, pelo ano de 39, quando Pilatos se lançou ao Ródano. Caio ou Calígula o tê-lo-ia exilado para aquelas terras.

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            Há no celuloide ainda duas interpretações que merecem comentadas: a de Barrabás e a dum tal Aaron ec Mezir, agiota que especulava com dinheiro dos romanos. Quanto a este, não sabemos onde os produtores da fita o foram buscar. Não nos consta ter sequer existido tal personagem. Muito menos com a importância que lhe querem emprestar, isto é, encarnando, em última análise, o verdadeiro responsável pela morte de Jesus-Cristo, tendo em vista o prejuízo que este lhe vinha causando aos negócios escusos, especialmente depois da expulsão dos vendilhões do Templo, local onde seus sequazes mercadejavam com melhores lucros, à sombra da fé. Positivamente foi a primeira vez que ouvimos falar nessa versão “a Ia manière” de “Wall Street”...

            Quanto a expulsão dos vendilhões, foi feliz, até certo ponto, a sua encenação. Jesus aparece apenas com a chibata na mão, sem usa-la porém. De nossa parte, preferimos aceitar com Bittencourt Sampaio (“Jesus Perante a Cristandade”. págs. 73/74, 4ª edição da FEB, 1932) que o episódio não existiu, explicando-se os acontecimentos na seguinte linguagem: “Colocai nas mãos do Divino Mestre um látego de luz; imaginai-o, mostrando-se em toda a sua grandeza, diante dos profanadores do templo; figurai a turba dos mercadores, caindo por terra, atônita e confusa, perante a grande luz que se irradiava do Divino Nazareno, e assim tereis o azorrague de que se serviu Jesus.!” Contudo, poderia ter ocorrido também que Jesus houvesse casualmente segurado uma corda (quantas não haveria no local!), parecendo aos demais, esse seu gesto inocente e desintencional, que buscara um fim premeditado. Simples detalhe do acaso mal interpretado pelos evangelistas e por todos os presentes ali então. A verdade é que as Escrituras não falam no uso do chicote. Apenas registram: “Tendo feito um azorrague de cordas, expulsou a todos do templo, bem como as ovelhas e os bois, derramou pelo chão o dinheiro dos cambistas, virou as mesas, e disse aos que vendiam as pombas: Tirai daqui estas coisas: não façais da casa de meu Pai casa de negócio.” (Jo. II, 15 e 16.) Anote-se ainda que, dos quatro evangelistas, apenas João fala desse azorrague. O filme, graças a Deus, também não mostra o Mestre fazendo uso dele, mas apenas empunhando-o. Ainda bem.

            Quanto a Barrabás, preferimos aceitar o que nos dizem dele, fortuitamente, Mateus, Marcos, Lucas e João, apresentando-o apenas como um preso famoso, participante dum motim e assassino dum homem. Falam também de sedição e não temos porque rejeitá-la, ainda que ocorrida em termos reduzidos e em proporções devidas. As hipóteses em torno do nome de Barrabás são várias. Há, por exemplo, os que admitem não ter ele sequer existido ao tempo de Jesus e que sua origem tem lugar apenas numa adaptação evangélica do Carabás dos soldados romanos sediados em Alexandria. Renan rejeitou inteiramente essa tese, pela considerar infundada. Outros, mais radicais, acham que Barrabás seria o próprio Jesus (!?). Por outro lado, seu tipo tem ganho diversos característicos segundo as obras mais conhecidas de Par Lagerkvist, de Lucien Descaves, de Emery Bekessy e de Sholem Asch. Orígenes diz que ele tinha o mesmo prenome do Mestre, isto é, Jesus Barrabás. "Salteador vulgar” é o termo empregado pelos evangelistas; possivelmente um dos muitos que participavam das constantes sedições contra o dominador romano. Daí, porém, à liderança política que o filme lhe reserva, vai uma distância quilométrica...

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             “Ponzio Pilato” não exibe - o que poderia ter feito bem, tratando-se de superprodução - a destruição da Torre de Siloé, acontecimento marcante, intimamente ligado à administração nefasta de Pilatos e referido por Lucas no capítulo XIII do seu Evangelho. Esconderam-se os judeus naquela torre depois de serem escorraçados do Templo, por ordem de Pilatos. Este, indignado com a resistência verificada, desesperou-se ao saber dessa teimosia, mandando derrubar a torre.

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             A figura de Caifás, na fita, ganha uma interpretação jamais imaginada por nenhum hermeneuta.

            De todo e drama ele se sai comodamente, transparecendo sempre ser um sacerdote magnânimo, munificente (generoso), ponderado, muito comedido e até interessado, paternalmente, em resguardar Jesus da morte. Mais ainda; surge melifluamente, como uma espécie de confidente do Mestre! Ora, que ele foi um hábil político, não duvidamos, pois soube manobrar com argúcia e maestria para arrancar de Pilatos a concatenação infamante. Suas boas intenções, narradas no filme, chegam a torná-lo ridículo, senão burlesco e caricato. Somente a preocupação de não desagradar ao Judaísmo de nossa época justifica tamanha distorção histórica.

            Caifás liderou a manobra sub-reptícia contra Jesus, submetendo-o a dois julgamentos; o primeiro, noturno (o filme aqui é autêntico), portanto, ilegal, contrário ao Direito judaico; o segundo, pela manhã do dia seguinte. Perante juízes venais e testemunhas compradas é que Jesus foi ignominiosamente condenado, aliás, conforme estava profetizado em Salmos, cap. XXVI, 9 e 10. Rui Barbosa, na sua “Coletânea Literária”, examinando o sumário de culpa de Jesus Cristo à luz do Direito, comenta que Caifás, interrogando o Nazareno acerca de seus discípulos e de sua doutrina, transgride “as regras jurídicas assim na competência como na maneira de inquirir”. As instituições hebraicas não admitiam tribunais singulares. “O acusado, - prossegue Rui – tinha jus ao julgamento coletivo, e sem pluralidade dos depoimentos criminadores não podia haver condenação. Se a sua prédica incorria em crime, deviam pulular os testemunhos diretos. Esse era o terreno jurídico. Mas, porque o filho de Deus chamou a ele os seus juízes, logo o esbofetearam. Era insolência responder assim ao pontífice. Sic respondes pontifici? Sim, revidou Cristo, firmando-se no ponto de vista legal; se mal falei, traze o testemunho do mal; se bem, por que me bates?”  

        Um julgamento, portanto, nulo de direito mas tornado válido pela abominável pressão exercida diretamente por Caifás e seus asseclas.

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             Não deslembremos a figura de Judas Iscariotes. Na fita, sua posição histórica até que está razoável, em que pese à sua péssima encenação artística. Trata-se dum obcecado (sem dúvida, um obsidiado também), dum irresponsável, dum espiríto - como sabemos, através das lições de Roustaing - que ambicionou mais do que podia realmente alcançar. Curioso, entretanto, é não terem registrado o suborno a que acedeu pelas trinta moedas de prata. Assim também é demais. Judas não é aquele monstro satânico pintado pela Igreja e repulsivamente malhado todos os anos; porém, não vamos ver na sua personalidade nenhum “santo incompreendido”, incapaz daquela venalidade de que nos falam os evangelistas e os historiadores. Ao que parece, contudo, não foi outra a intenção do produtor cinematográfico, omitindo afinal uma passagem que é a única, talvez, capaz de justificar a importância da encarnação de Judas à época do Cristianismo primitivo. Negar seu suborno é o mesmo que negar a existência de Judas.

 ***

             Quase no final da história fílmica, temos os trovões que se seguiram à rendição do Espírito de Jesus. Um rapidíssimo quadro, de no máximo três segundos e que terá passado despercebido a 99 por cento dos espectadores, mostra um eclipse do Sol, de permeio à revolta celeste. Vemos aqui uma vez mais a influência dos que não querem emprestar ao Cristo missão extra-humana. Assim, buscam explicar os fenômenos àquela época ocorridos, todos eles, como absolutamente normais e decorrentes, no caso da morte do Salvador dum simples eclipse solar. Allan Kardec, em “A Gênese”, pág. 326, 134ª edição da FEB, procura negar essa hipótese nos seguintes termos: “A duração de tal obscuridade teria sido a de um eclipse do Sol, mas os eclipses dessa espécie só se produzem na lua nova, e a morte de Jesus ocorreu na fase de lua cheia, a 14 de Nissan, dia da Páscoa dos judeus.” Kardec aventa rapidamente a possibilidade de terem sido os fenômenos provocados pelas manchas físicas que às vezes encobrem a superfície do Sol, sem entretanto aceita-la integralmente. Para ele, o eventual desprendimento dum fragmento de rochedo provocou agitação entre os discípulos ali postados ante a cruz, os quais teriam visto nesse fato “um prodígio e, ampliando-o, tenham dito que as pedras se fenderam" (“A Gênese”, pág. 321. ed. citada). É bem verdade que os fatos podem ser assim explicados; todavia, através de “Os Quatro Evangelhos” de J.B. Roustaing, inteiramo-nos de que todos aqueles fenômenos foram provocados por Espíritos encarregados das forças da Natureza. Os mesmos que antes fizeram parar a tempestade sobre o mar por ordem do Mestre. Aliás, Allan Kardec em “O Livro dos Espíritos”, pág. 281, 28ª ed. da FEB, refere esses Espíritos, dizendo: “Outros, finalmente, presidem aos fenômenos da Natureza, de que se  fazem os agentes diretos.”

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            Analisemos agora, para arrematar, alguns aspectos puramente técnicos e artísticos da película, conforme prometêramos no início deste artigo. Jean Marais é talvez o único que se salva, embora não seja bastante convincente quanto ao seu arrependimento. Sua figura porém foi bem escolhida e ele se desincumbe satisfatoriamente do difícil papel que lhe foi dado. Os demais vão muito mal. John Drew Barrymore, como Judas, está grotesco e exageradíssimo, principalmente nas cenas em que se põe a ouvir a voz de Jesus acusando-o por antecipação do crime que vai cometer. Seus gestos dramáticos fazem lembrar melhor as encenações de Hamlet a monologar com a caveira na mão. As batalhas foram filmadas todas em primeiro plano, possibilitando aos espectadores verificar que tanto judeus como romanos são interpretados pelos mesmos “extras”. Faltou gente para encher a tela, não obstante tratar-se duma superprodução... O tecnirama e o tecnicolor colaboraram para suavizar as imperfeições generalizadas. Como último parágrafo consignemos o mau gosto dos diretores, permitindo que John Drew Barrymore interpretasse os papéis de Judas e de Jesus ao mesmo tempo. 



segunda-feira, 1 de março de 2021

Em apoio da teoria Espírita

 


Em apoio da teoria Espírita

por M. Lemoine    Reformador (FEB) Agosto 1948

             Antes de Allan Kardec, os fenômenos supranormais, m sua generalidade, já podiam ser tidos como oriundos da intervenção dos espíritos, justificando-se assim, que desde a Odisseia de Homero até a Athalie de Racine, a literatura tenha oferecido numerosos exemplos de fenômenos espíritas.

            O enredo de Hamlet, de Shakespeare repousa inteiramente sobre a aparição que um fantasma: o do rei defunto que relatou ao filho haver sido morto por envenenamento, a ele reclamando vindita.

            Este drama, em que o gênio de Shakespeare se expande magnificamente, faz-nos lembrar o seguinte fato espírita ocorrido alguns anos antes da guerra: - um pastor grego, cuja morte despertou suspeitas, tanto que foram detidos dois inocentes, revelou, ele próprio, o nome de seu assassino!

            Que é sonho de Atalia, esta obra-prima de nosso imortal Racine, senão um sonho premonitório, em que espírito de um morto desempenha papel saliente:

           Minha mãe Jezabel a mim apareceu

Tal como ao morrer, pomposamente enfeitada:

Infortúnios não lhe abateram a altivez;

Ainda conservava o mesmo brilho afetado

Com que, cuidadosa, sempre ornava seu rosto

Para disfarçar o duro ultraje dos anos.

Disse-me, então: “Treme, filha digna de mim,

Sobre ti domina o cruel Deus dos Judeus... “

             Shakespeare, em Hamlet ou Macbeth; Corneille em Polyeucte, com o sonho de Paulina: Racine, em Athalie, os maiores nomes da literatura, não aguardaram que o século XIX surgisse, a fim de introduzirem em suas mais belas obras, como realidade indiscutível, a possibilidade das comunicações entre o nosso mundo... e o outro.

            Sabemos muito bem que há sessenta anos se formou uma escola que, admitindo autenticidade dos fenômenos supranormais, pretende, no entanto, atribui-los, unicamente, às faculdades extraordinárias de certas criaturas vivas: é a escola dos metapsiquistas. Esta escola esquece, ou, pelo menos, finge esquecer-se de que a fonte causadora do conhecimento supranormal indica, muitas vezes, por si mesmo, a sua origem. Semelhante à expressão de Vítor Hugo sobre a maledicência, essa fonte vem dizer-nos aqui: “Eu saio do espírito de tal” e o tal é um defunto que atende à nossa recordação.

            Longe de mim o pensamento de negar à Metapsíquica o seu valor próprio. Escrevi, há trinta anos, na Revista científica e moral de Espiritismo, de Gabriel Delanne: “Se a Metapsíquica não existisse, seria preciso inventá-la. Há, sem dúvida alguma, fenômenos supranormais, como a psicometria, ou a visão através dos corpos opacos, nas quais parece não haver intervenção de espíritos”.

            Agora, que em nome da ciência os metapsiquistas pretendam desmerecer os fatos de origem espírita, é uma tendência anticientífica contra a qual me insurjo.

            Nenhuma de suas teorias consegue justificar o aspecto que então assume o fenômeno e, por conseguinte, ninguém pode pretender explica-lo com argumentos de valor.

            Em sua bela obra "A Sobrevivência Humana", livro que todos os espíritas deviam conhecer, o grande físico inglês, Oliver Lodge, uma das glórias do Espiritismo, sugeriu a hipótese de um registro cinematográfico dos fatos do Universo à medida que eles se vão desenrolando.

            Mostra que assim seria possível obter-se uma explicação satisfatória acerca do conhecimento supranormal do passado, estando nele compreendidos os retratos morais dos desencarnados.

            Mas esta concepção engenhosa não explica nem os fatos premonitórios nem os casos de continuação da personalidade após a morte, e tão pouco explica os exemplos da atividade póstuma dos falecidos.

            As teorias metapsíquicas, qualquer que elas sejam, não poderão, por sua própria natureza, oferecer explicações satisfatórias no tocante à continuidade da personalidade de um morto, ou de sua atividade póstuma.

            Toda a teoria metapsiquista se relaciona com as faculdades dos vivos, ao passo que as atribuímos aos mortos.

            Na descoberta dos casos de atividade póstuma ou de persistência da personalidade é que vamos encontrar a demonstração cabal da sobrevivência.

            É o que desejo dar-vos a conhecer, ou relembrar-vos, através de alguns casos deste gênero.

            1) Após a morte de Dante Alighieri, em 1321, verificou-se o desaparecimento dos treze últimos cantos da Divina Comédia, sua imortal obra prima.

            Em vão foram eles procurados durante oito meses e já se ia perdendo a esperança de encontrá-los, quando Jacopo, filho mais velho do poeta, sonhando certa vez, viu seu pai vestido de branco. Jacopo lhe perguntou se ele inda vivia: “Sim, respondeu o poeta, mas a verdadeira vida e não a de vocês", O filho indagou, então, acerca dos treze cantos que faltavam. Pareceu-lhe, nesta altura, que seu pai o conduzia ao quarto em que costuma dormir, e, tocando em certo ponto da parede, disse-lhe: “Aqui se encontra o que tem sido procurado há já tanto tempo”. Ao despertar, Jacopo se dirigiu à casa de Pietro Giardino, amigo de Dante, a quem contou o sonho que tivera e ambos decidiram ir à antiga residência do poeta. Removeram a esteira de palha pregada à parede; cobria ela um esconderijo, de cuja existência todos ignoravam; aí encontraram vários papéis e, entre eles; estavam os treze cantos da Divina Comédia.

            O escrivão Boccace, que vivia quando da morte de Dante, soube desse caso por Pietro Giardino que fora testemunha ocular, e foi o próprio Boccace que o relatou em seu livro “Vida de Dante Alighieri”.

            2) De uma velha obra editada em Parme, em 1778, Le génie de Pétrarque, encontrada em casa de meus pais, extrai (página 94) as seguintes linhas:

            “O bispo de Lombez, Jacque Colonne, estava à testa de sua diocese, quando Petrarca, por seus poemas, foi coroado em Parme. Petrarca, que era seu amigo, viu o prelado em sonho: “Aonde ides, disse-lhe eu. - Volto a Roma, replicou o Prelado. Eu vos seguirei, retrucou Petrarca., O Bispo o dissuadiu suavemente, dizendo-lhe: "não, ainda não é tempo”. “Eu notei, disse Petrarca, que a sua fronte tinha a palidez da morte”. Solto um grito que me acorda. Assinalo o dia; escrevo sobre este sonho aos meus amigos, vindo a saber, enfim, que Jacques Colonne havia falecido precisamente no dia em que ele me apareceu em sonho”. “Petrarca não era supersticioso: este acaso singular não o tornou mais crente que Cícero por ter tido um sonho que se realizou”.