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domingo, 28 de novembro de 2021

Em defesa do Velho Testamento

 

Em defesa do Velho Testamento

por Alfredo C. de Farias

Reformador (FEB) 16 Maio 1937     

             Na literatura espírita, quer em livros ou jornais de propaganda doutrinária, fácil é deparar-se com frases e conceitos, em referência ao Velho Testamento que se não coadunam com a relevância da grande obra dada por Deus à humanidade. São frases e conceitos bem urdidos para causar efeito, quando, por melhor acentuar a desestima em que é tida a citada obra, não os acompanham outros cheios de irreverências e depreciações infundadas. É de admirar que a pena dos espíritas desconceitue uma obra que, além de ser um monumento de sabedoria oculta, a rfletir-se pelos séculos afora, é um dos maiores sustentáculos do edifício religioso erguido misericordiosamente no planeta pela Providência, apto a proporcionar benefícios morais e espirituais em todos os tempos. Alegam-se, em justificativa do seu desprestígio, as sinuosidades criminosas pelas quais ingressou a humanidade, seguindo os ditames colhidos ali. No entanto, não percebem, os que invocam, que qualquer que fosse a clareza do ensino moral, as gerações, idólatras por natureza, defeituosas em consequência de vícios e paixões arraigados, haveriam de seguir a trilha de seus predominantes e pervertidos pendores, agravando suas responsabilidades. É preciso, porém, ter-se em memóri que a luz mais pura, mais refulgente, nenhuma claridade dá aos cegos.  E cegos há os de corpo e de espírito. Sebre estes conceituou Jesus: “Vim a este mundo para exercer um juízo, a fim de que os que não veem vejam e os que veem se façam cegos.” (João, 9:39)

            Parece que há o propósito irrefletido de relegar-se a dita obra ao esquecimento, senão o de afastá-la das lides e fundamentos doutrináros trazidos pela Terceira Revelação. Assim, porém, não quer o preclaríssimo Diretor de nosso planeta e assim não querem os altos Espíritos que sob a sua orientação trabalham em prol do nosso progresso.

            O Velho Testamento não é obra de ficção, nem foi coordenado impensadamente. O homem é, bom ou mal grado seu, um instrumento do Criador. Dentro das suas deficiências e incorreções, segue sempre a diretriz que Ele, Pai amantíssimo, a tudo assinou no princípio das coisas.

            Do Velho Testamento, além de fluir a lei moral, acorde com as capacidades das sucessivas gerações, por uma exegese comum, seguida da interpretação em espírito, dimana a sabedoria dos fatos religiosos soberbamente produzidos e dos acontecimentos prodigiosos que nesse campo nos reserva o futuro.

            Como obra profética para dilatados tempos, outra mais perfeita não existe no mundo, capaz de lhe empanar o brilho.

            Foi, assim no sentido da lei moral, como também no de reservatório de edificntes premissas, consideradas igualmente leis, por traduzirem a ontade e os desígnios de Deus, que o querido Mestre sentenciou, quando em missão, na Palestina: “Não penseis que eu tenha vindo destruir a lei e os profetas; não os vim destruir, mas cumprir.” Com efeito, ele assim o fez durante toda a sua incomparável missão. Além do ensino moral, sabiamente ministrado, o Divino Mestre, para cumprimento dos anteriormente traçados na grande obra que hoje conhecemos sob o nome de “Velho Testamento”, surgiu entre os homens como israelita, tendo, por isso, que se ujeitar a um nascimento aparente, do seio de uma virgem da estirpe de Israel; teve que se sujeitar à consagração do Templo, no oitavo dia desse nascimento; teve que se referir, inúmeras vezes, às Escrituras, mostrando que a sua alta missão correspondia ao que se achava nelas escrito; teve que se transfigurar no Tabor para, apresentando-se ao lado de Moisés e Elias, comprovar a ligação da revelação que viera trazer ao mundo à primeira, de que foram instrumentos aqueles dois patriarcas: teve que se submeter à morte aparente na cruz e aparecer depois como ressurgido – tudo sempre no propósito de confirmar a lei, que define, em seus pontos essenciais, o papel que lhe coube desempenhar.

            Jesus jamais surgiria no planeta para confirmar mistificações, ou desmpenhar um ppel que não tivesse alcance grandioso e sumamente meritório. A sua revelação se liga estreitamente à revelação mosaica, com um cunho de unidade perene a completar-se através do Espiritismo: “Porque três são os que testificam no céu: O Pai, a Palavra e o Espírito Santo; e estes três são u. (I Epístola de João, 5:7)

            Jesus, confirmando a lei e os profetas, demonstrou, ainda, ser, para todos os tempos, a figura mais proeminente na sequência dos fatos e prescrições condicionadas naturalmente por ele próprio e gravadas nos anais dos povos, como imponente realização.

            Para a humanidade do futuro, o Velho Testamento será um relicário de verdades e sabedoria, existentes nos seus inúmeros simbolismos e alegorias, a envolverem conceitos e acontecimentos.  

            Referindo-se à sabedoria divina ali contida e encoberta pelo véu da letra, assim se expressou o elevado Espírito de Imperator pelo médium Stainton Moses: “Antes que possais atingir essas distãncias, contentai-vos com aprender que uma significação espiritual está oculta sob cada coisa, de que  Bíblia está repleta. As interpretações, definições e glosas humanas, são a crosta material que envolve a divina semente da Verdade. Se retirássemos a crosta, o tenro grão mucharia e feneceria. Contentemo-nos, pois, com indicar-vos até onde podeis compreender a Verdade palpitante, que não vedes sob a face exterior que vos é familiar. (“Ensinos Espiritualistas”, de Stainton Moses, Sessão XVIII)     

            A fim de demonstrar que nem tudo a Bíblia é de origem divina e que, portanto, há ali muita coisa refletindo o pensamento do homem, sendo por isso necessária umaintuição poderosa para uma inteligente separação, foi que também disse o mesmo Imperator: “Não temos necessidade de repetir que a Bíblia contém páginas que não concordam com o nosso ensinamento, sendo uma mistura de erro humano transmitido pelo espírito dos médiuns escolhidos; somente podereis conseguir isolar a verdad, julgando a tendência geral (Seção X). “Toda verdade está mesclada de erro; as fezes serão rejeitadas.” (Seção XXVII).

            Convém, do mesmo modo, dispensarmos atenção a estes dizeres de Allan Kardec:

            “Muitos pontos dos Evangelhos, da Bíblia e dos autores sacros em geral só são inteligíveis, precendo alguns, até, irracionais, por falta da chave que faculte se lhes apreenda o verdadeiro sentido. Essa chave está completa no Espiritismo, como já o puderam reconhecer os que a têm estudado seriamente e como todos, mais tarde, ainda melhor o reconhecendo.”

            Já é tempo, portanto, de reconhecermos que no Espiritismo está a chave para a compreensão exata desses muitos pontos do Velho Testamento. Neles naturalmente sobrepujam os símbolos e as alegorias, cujo meneio interpretativo parece que não agrada  a alguns confrades, donde, talvez, a ogeriza que votam ao Antigo Testamento.

            Embora se sustente e recoheça que a clareza é a característica dos ensinos da Terceira Revelação, julgamos que tal somente ocorre às lições morais, para melhoria de nossa conduta, pois, há muitas coisas sobre a vida ultra-terrestre que nos vem sob forma emblemática. Note-se ainda isto que diz Imperator: “É loucura sustentar-se a exatidão literal de qualquer ensinamento espírita” (Seção IX).

            Eis agora uma visão simbólica muito interessante. À entidade espiritual que a produziu certamente a apresentou para ser interpretada.

            Conhecemos uma senhora católica, mas sem fanatismo, humilde, boa e ignorante, que tem tido vários sonhos simbólicos. Há pouco tempo sonhou com uma barca, mas escura, navegando em céu borrascoso, no qual se viam alguns homens com vestes sacerdotais, trazendo nas cabeças “chapéus altos” (segundo ficou esclarecidos, tratava-se de mitras), a fazerem os maiores esforços para romper as nuvens escuras que circundavam a barca e lhes obstavam a marcha. Essa senhora narrava habitualmente os seus sonhos em casa de certa família, que os interpretava para o jogo do bicho. De uma feita urpreendemo-la a fazer a narrativa deste último.

            Não têm conta fatos análogos a estes, verificados por toda parte, especialmente no Brasil.

            Se os Espíritos ainda se valem do mistério dos símbolos e das alegorias para nos darem certos avisos, como impugnar uma obra constituída de modo análogo, cuja finalidade séria ficou provada com a confirmação do Messias?

            O futuro revelará o valor do Velho Testamento, assim como na atualidade está sendo revelado todo o valor do Evangelho. Demos tempo ao tempo.


Por quê?

 L. Zamenhof

Por quê ?

por Cristiano Agarido(Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Outubro 1946

                 Há oitenta anos o vibrante movimento espírita mundial, chefiado por Allan Kardec e veiculado numa grande língua de cultura universal, como era então o francês, parecia destinado a uma vitória imediata, dentro de poucos anos. Essa vitória próxima contra toda a oposição se evidenciava aos mais prudentes e Kardec, a encarnação mesma da prudência, como escreveu um sábio seu contemporâneo, escreveu em O Evangelho segundo o Espiritismo estas palavras de sublime otimismo:

             “O Espiritismo vem realizar, na éoca prevista, as promessas do Cristo. Entretanto, não o pode fazer sem destruir os abusos. Como Jesus, ele topa com o orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, os quais, levados às últimas trincheiras, tentam barrar-lhe o caminho e lhe suscitam entraves e perseguições. Também ele, portanto, tem que combater; mas, o tempo das lutas e e das persiguiçõe sanguinolentas passou; são todas as de ordem moral as que terá de sofrer e próximo lhe está o termo.  As primeiras duraram séculos; estas durarão apenas alguns anos, porque a luz, em vez de partir de único foco, irrompe de todos os pontos do globo e abrirá mais de pronto os olhos aos cegos.” (Cap. XXIII, parágrafo 17.)

             Ninguém poderia sensatamente pensar de outro modo em 1864, mas vemos hoje que a vitória está longe  e as lutas não cessaram em alguns anos  nem em vários decênios, mas terão de continuar por muito tempo. Quanto o mundo se modificou nesses oitenta anos, e na aparência para pior, porque as perseguições sanguinolentas +as ideias ressurgiram com o Comunismo e o facismo e banharam de sangue o Velho Mundo! Repugnante perseguição de raças trucidou milhões de seres humanos indefesos. De dois terços do território europeu o Espiritismo foi banido pela violência, sem admitir discussão alguma, e isso pelos dois grandes partidos em luta: Nazismo e Comunismo, ambos furiosamente materialistas. Sabemos que o mundo piorou só na aparência externa, porque a uma grande onda de mal sucede outra maior de bem e este conquista sempre o futuro. Por quê falhou assim a lógica mais severa?

            Bem simples e por isso mesmo muito difícil de aceitar-se a explicação.     

            A universalidade da língua francesa deu à França uma supremacia cultural indiscutível no século XIX e desencadeou os ciúmes nacionais dos imperialismos diversos e cada povo tentou elevar seu próprio idioma às culminâncias que havia atingido o francês. A língua única dadiplomacia foi violentamente afastada e todos os povos tentaram introduzir o seu idioma, chegando-se rapidamente a plena Babel  nas relações internacionais que por mais de um século haviam gosado os benefícios da unidade linguística  com o francês como língua diplomática mundial. Chegou-se ao absurdo de redigir tratados internacionais em tantas línguas quantos fossem os contratantes e todas elas como originais.

            Inglês, alemão, italiano, russo, espanhol, todas as línguas da Europa, foram impostas pelos diferentes  povos como possuindo direitos iguais ao francês e este caiu rapidamente das funções de língua de cultura mundial para o lugar de simples língua nacional de minorias.

            O Espiritismo sofreu toda a desarticulação da falta de uma língua comum. As mensagens descidas do Alto  ficaram limitadas a regiões linguísticas, a verdadeiras ilhas  inabordáveis para os outros povos. A Revelação continua sendo mundial, porque os Espíritos falam em todas as línguas do planeta, mas os homens estão privados da universalidade das comunicações e limitados exclusivamente às suas fronteiras linguísticas. Em vez de um Espiritimo mundial único, como ao tempo de Kardec, elaboram-se centenas de pequenos movimentos espíritas desligados uns dos outros  e ignorantes até da existência de outros núcleos. Surgem grandes médiuns , maiores do que existiam ao tempo de Kardec, mas sua obra provisoriamente  permanece  fechada em cada região lingística. Quem conhece na França a obra de Rosemary ou de Francisco Cândido Xavier? Nem os brasileiros conhecem  as obras da grande médium inglesa, nem os ingleses conhecem a dos nossos médiuns, e assim sucede a todos os povos. Falta a língua comum que reuna todo esse imenso tesouro, que, realmente, quando ligado em um todo, venceria o mundo  em poucos anos, como previa Kardec sem poder imaginar a falência da língua francesa, queda inteiramente imprevisível em 1864, mas totalmente consumada em 1919, quando, pela primeira vez, numa conferência de diversas Potências, o francês foi excluído, porque os estadistas declararam que não sabiam francês.

            A falta de um língua mundial de cultura que reuna tudo quanto recebem os médiuns espalhados pelo mundo, para restituir tudo a todos como patrimônio comum de todos e de cada um, retardou de modo impressionante o movimento espírita mundial; mas o que perdemos em um século reconquistaremos em outro para toda a eternidade futura.

            Já os espíritas iniciaram em escala mundial a obra do futuro. O Congresso Espírita Panamericano adotou o Esperanto como uma de suas línguas oficiais; na Inglaterra, fundou-se a Londona Esperanto-Spiritista Societo; no Egito, está-se trabalhando com ardor pelo Esperanto entre os Espíritas; no Brasil, a Federação Espírita Brasileira iniciou o duplo trabalho de divulgar o Esperanto entre os espíritas e o Espiritismo entre os Esperantistas, e neste sentido já publicou vintee poucos livros.

            Não sabemos quando, mas sabemos que um dia  situação erá muito melhor do que no tempo de Kardec; porque o Espiritismo terá uma língua mundial de todos e nela reunirá essa imponente biblioteca descida do Alto; são obras que se completam pela diversidade dos aspectos tratados pelos Espíritos, e, quando reunidas, terão a força necessária para se imporem irresistivelmente a todos os pensadores do mundo.

            Trabalhemos, pois, com a certeza de que o grande ideal está em marcha e seu eclipse será muto passageiro.

                 Do blog: 75 anos são passados da publicação deste artigo. O que foi feito do Esperanto?


sábado, 27 de novembro de 2021

Erros religiosos da Humanidade

 

Erros religiosos da Humanidade

por Ismael Gomes Braga

livro: “Libertação” (Editora Ismael-Araras-SP, 1955)

             “A mesma gota caída do céu será pérola se recebida por uma rosa, ou lama se absorvida pelo pó”, disse Léon Denis, com respeito ás revelações que o Céu nos remete, e concluiu que o Espiritismo será o que dele façam os homens, porque os bons saberão empregá-lo para o bem, asm os maus o corromperiam como tantas revelações anteriores que se tornaram flagelos para a Humanidade, apesar de sua origem divina.

            A primeira desventura do homem é seu espírito de seita que tudo conspurca e incendeia, porque ele tem n’alma quase somente germens de inferioridade e em tal terreno não podem medrar as sementes do bom e do belo. Só uma ínfima minoria de bons colhe todos os benefícios das revelações divinas.

            Deus nos envia Mestres sublimes que nos ensinam o caminho da luz para a felicidade. Uns poucos aceitam a revelação e voam para o alto, mas a maioria projeta suas próprias sombras sobre o terreno e têm de progredir lentamente pela força invencível da dor que a ninguém deixa para sempre abandonado à margem da evolução.

            Moisés recebeu e transmitiu ao povo ensinos de eterna sabedoria. Não nos esqueçamos que por ele veio ao mundo o Decálogo e vieram outras pérolas preciosas, como comentários aos Dez Mandamentos. São frases que ficarão eternas nas Escrituras e foram mais tarde confirmadas por Jesus, como o são hoje pela Terceira Revelação, mas em pouco corações se tornaram força viva tais ensinamentos. Vamos copiar aqui apenas três frases recebidas por Moisés: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco, e amá-lo-ás como a ti mesmo.” (Levítico, XIX, 34). “Ama ao teu próximo como a ti mesmo” (Levítico, XIX, 18). “Nem só de pão vive o homem.” (Deteronômio, VIII, 3).

            Esta frases foram repetidas por Jesus e o são incessantemente pelos nossos guias, porque constituem ensinos de aplicação eterna e universal. Os homens creram que tais palavras vinham de Deus e as conservam nos lábios até hoje, mas só nos lábios. No coração elas não viveram ainda.

            Bastariam os ensinos recebidos pela mediunidade de Moisés para guiarem a humanidade à luz e à ventura. Reflitamos sobre o versículo 33 do cap. XIX do Levítico, acima transcrito, para percebermos que ele não poderia ser de origem humana. Naquele tempo em que se faziam as guerras de extermínio contra os estrangeiros e só se poupava o estrangeiro vencido na guerra para vende-lo como escravo, uma ordem de amar o estrangeiro como a si mesmo só poderia ter descido de alta esfera espiritual, porque excedia de muito tudo o que o homem de então poderia pensar e sentir.

            Esses ensinos foram escritos 1300 anos antes de nossa era, ou seja, há mais de 3200 anos  e o que foi feito deles pelos crentes que o receberam?

            Fecharam-se num seita fanática que cometeu os mais absurdos crimes de religião contra os seus profetas ulteriormente aparecidos, inclusive contra o Divino Mensageiro que levaram à cruz do martírio. Cultivaram tristemente o ódio e conquistaram para si mesmos o ódio universal.

            Tais e tantos foram os crimes cometidos em nome da Lei, que a dor se tornou o processo necessário de evolução daquele povo que era destinado a guiar os outros no progresso espiritual, como se depreende do fato de haver-se tornado universal a Revelação por ele recebida.

            Acusando de heresia e condenando o divino Mestre, o Mosaísmo se afastou do Cristianismo e ficou estacionado; mas o Cristianismo aceitou a Revelação mosaica, tornando-o o grande divulgador do Velho Testamento.

            O que se tem dito do martírio do povo judeu, sob o ódio universal, em todos esses milênios, não é só indizível é até inconcebível.

            Implantou-se a Segunda Revelação, acentuando mais a Lei de amor universal e exemplificando-a com os mais sublimes scrifícios.

            A parte má e errada da religião – o espírito de seita – colocou os israelitas fora da Humanidade, quando o fundamento mesmo do Judaísmo é universal e deveria ter feito dos judeus os líderes religiosos mais queridos do mundo.

            Dentre os numerosos erros religiosos dos judeus, um de graves consequências foi o suporem que a Revelação Divina ficara encerrada no Velho Testamento, e nada mais Deus teria que dizer aos homens. Com esse tenebroso engano, ficaram eles encarcerados religiosamente num passado remoto, fora do tempo e do mundo, sem admitir nenhum progrsso na Revelação, nem a possibilidade de haver preciosas revelações por intermédio de outros povos. Repeliram o maior de seus profetas, o que vinha coroar a obra e dar cumprimento à Lei, realizar as profecias.

            Nasceu o Cristianismo em plena capital judaica, mas a religião oficial o repeliu e só os simples de coração o aceitaram. Perseguiram o Espírito mais sublime que já desceu à Terra; crucificaram-no e perseguiram seus discípulos e continuadores.  O Cristianismo que teria dado o máximo prestígio ao povo de Israel, foi exilado e só pode medrar no estrangeiro.

            Foi um erro religioso de tremendas consequências para os judeus essa violenta repulsa ao Cristianismo nascente. Eles perderama liderança religiosa que lhes havia sido posta nas mãos, e tornaram-se uma pequena seita odiosa e sempre odiada no mundo, quando ela só deveria inspirar amor, amar e ser amada.

            O Cristianismo confirmou a Lei em tudo que ele possuía de divino; mas depois de três séculos se constituiu em Igreja oficial do Império Romano, adquiriu poder temporal, tornou-se religião obrigatória par todos os súditos do governo romano.

             Como religião oficial o Cristianismo rcebeu todos os defeitos do Paganismo, já muito enraizados no povo, e perdeu seu próprio espírito que era todo de perdão e amor.

            Passou de perseguido a perseguidor e entrou a cometer todos os erros – para não dizer crimes – de religião imposta pela força do Estado. Toda a crueldade bárbara ressurgiu sacrilegamente em nome do cordeiro de Deus. Nessa involução, descebdo sempre, dando pasto às mais vis paixões humanas, com o passar dos séculos o “cristianismo” estava transformado na mais monstruosa instituição que já possuíu a Humanidade. Era a Inquisição, o ódio desenfreado, apoiando a escravidão, cavando prisões subterrâneas, levantando os cavaletes de tortura, a roda, acendendo fogueiras para queimar vivos os seus “hereges”, assim classificados em processos odiosos de interesses políticos e econômicos inconfessáveis.

            Séculos e séculos de crimes monstruosos em nome da religião de amor e perdão incondicional!

           Vieram as Cruzadas, guerras de pilhagem e extermínio que duraram séculos, sob pretexto de “libertar” a Terra Santa... E tudo em nome do Cordeiro de Deus!

            Surgiu entre os árabes o Islamismo, agressivo, exclusivista, cruel, e até hoje mantém guerra “santa” contra o cristianismo das igrejas.

            Em todos esses séculos e mil~enios de tremendos erros religiosos, o progresso humano continuou sendo feito através da dor que felizmente nunca nos abandonou em nossos desmandos.

            Chegou o século da revolução contra a tirania do imperialismo religioso. Foi feita a Reforma religiosa que custou rios de sangue e levou à fogueira Espíritos sublimes. Basta lembrar a Noitada de S. Bartolomeu e a execução de Jan Huss, para sentirmos o preço da Reforma, o terror da reação de Roma contra a Reforma; mas a Humanidade já havia progredido bastante para a vitória da Reforma sobre grandes massas humanas, se bem que Roma continuasse dominando em muitos países do Ocidente, como se acha ainda.

            A Reforma e o progresso social conquistado palmo a palmo, forçaram finalmente Roma a se modificar e perder a força tirânica que exercia sobre o povo. Ainda em nosso século houve tentativa forte de restauração daquela força. Pelo célebre Tratado de Latrão, o fascismo restaurou o poder temporal da Igreja; mas foi de pouca duração essa restauração, porque o próprio fascismo foi extinto mais cedo do que a Igreja poderia supor.

            Essas conquistas sociais foram de caminhar lento. Três séculos depois de feita a Reforma, ainda a Inquisição conservava seu inteiro poder sobre Portugal, Espanha e outros países, e queimava impunemente os seus “hereges”, em processos tortuosos, nos quais predominava muito o interesse político e econômico.

            Com tantos erros cometidos através dos milênios, a religião se comprometeu duramente na consciência humana. Há numerosas pessoas que sentem um santo horror da palavra “religião”, como os judeus e outros povos sentem pavor no nome “cristianismo”, porque para esses povos “cristianismo” significa: prisões subterrâneas, torturas físicas e morais, fogueiras inquisitoriais, confiscação de propriedade, escravidão, lama da pior espécie.

            Agora ressurge a religião com a Terceira Revelação. Não desmente os seus princípios revelados através dos milênios, confirma-os.

            Diz-nos de novo o mesmo que já foi dito por intermédio de Moisés, dos Profetas, de Jesus, e, além de dizê-lo, traz-nos o depoimento dos “mortos”, todos eles afirmando que aqueles princípios de amor universal indicam o único caminho seguro para a subida ao céu.

            A grande diferença ente a Terceira Revelação e as duas que a precederam consiste em que as duas primeiras afirmavam  a eternidade da vida, wnquanto que a Terceira demonstra essa eternidade e com ela a responsabilidade ilimitada: ninguém fica impune pelos crimes que comete; não há meios de burlar a lei de Deus.

            Pelos crimes religiosos cometidos no passado, temos muita razão de supor que os homens não criam na imortalidade e responsabilidade da alma; era um dogma inteiramente morto o da imortalidade. De agora em diante, a repetição por toda a parte dos fenômenos espíritas vai dando nitidez cada dia maior a essa verdade religiosa; a imortalidade da alma torna-se palpável e indubitável.

            Não aceitamos liteiramente a opinião de Léon Denis, citada no início deste artigo, porque a paciência dos nossos Maiores da Espiritualidade está hoje mais demonstrada do que no momento em que foram escritas aquelas palavras. Cremos que os homens não terão força de corromper o Espiritismo e rebaixá-lo como fizeram com as revelações anteriores, porque os Espíritos são incansáveis em seus esforços de nos ajudar, e porque a Humanidade já progrediu um pouco moralmente para não cair mais em erros tão grosseiros.

                                                                                   ***

            O Espiritismo terá que cumprir sua missão num mundo diferente daquele em que se desenvolveram as igrejas que cometeram grandes erros religiosos.

            Embora os princípios revelados do Judaísmo e do Cristianismo fossem universais, a Humanidade antiga vivia apartada em grupos sem cominucações constantes uns com os outros. A falta de transportes, de imprensa, de uma língua internacional popular insulav os grupos humanos que se desconheciam mutuamente. Nada havia de comum a toda a Humanidade. No presente e ainda mais no porvir, ao contrário, tudo será mais comum a toda a população do Planeta.

            Todas as distãncias já estão abolidas pelo rádio. O progresso do Esperanto já nos vai criando a mentalidade planetári, a consciência de solidariedade de todos os terrícolas. Quando se der o pleno desenvolvimento do Espiritismo, já as massas humanas possuirão uma língua internacional popular.

            As religiões antigas tinham, cada uma delas, sua língua internacional: o Judaísmo tinha o hebraico, a Igreja Católica tinha o latim, o Islamismo possuía o árabe, mas tais línguas só eram internacionais para pequeníssimas elites de alto nível cultural; o povo mesmo não possuía meios de compreender as Escrituras, sempre fechadas em línguas sagradas até a Reforma, quando a Bíblia pssou a ser traduzida e divulgada entre os crentes.

            No porvir as massas humanas mesmas possuirão uma língua realmente internacional e gozarão os benefícios da Revelação Progressiva e universal que se dará no planeta todo e chegará imediatamente ao conhecimento de todos.

            Seria pessimismo supormos que o Espiritismo venha a cair nos mesmos erros do passado. Isso não será possível; o progrsso não o permitirá.

            Temos encontrado nos meios espíritas, ultimamente, famílias de israelitas que teriam pavor de entrar em uma igreja católica; mas, através do Espiritismo foram conquistadas para o Evangelho. Uma das missões do Espiritismo, ao que nos parece, será recuperarmos para o Cristo o coração dos judeus, esse coração tão assustado pelo medo milenário das perseguições que supunham “cristãs” e que se diziam “cristãs”. Já com dois mil anos de atraso, mas na eternidade nunca é demasiado tarde.

 ***

             Os crimes religiosos do passado eram cometidos impunemente, porque a legislação humana não havia ainda classificado aqueles atos como crimes passíveis de punição pelos tribunais mesmo humanos. Hoje chama-se genocídio essa espécie de crimes cometidos contra um grupo religioso, uma nação, um partido. No caso da matança de judeus pelos nazistas, a ação foi classificada de genocídio e reuniu-se um tribunal internacional que julgou e condenou os responsáveis.

            A defesa dos acusados alegou que tais atos não eram crime, porque prticados de acordo coma alegislação vigente na Alemanha que era uma nação soberana e podia decretar as leis que lhe aprouvesse. Mas os julgadores decidiram que acima das soberanias nacionais existem direitos humanos universais, cuja violação é crime, e assim foram condenados e executados os responsáveis. Houve um progresso na evolução do direito internacional e o sentimento de humanidade foi colocado acima das soberanias nacionais que cobriram tantos crimes no passado.

            Pode argumentar-se que esse reconhecimento dos direitos da criatura humana à liberdade, à vida, à crença, é de difícil execução, e como prova disso pode alegr-se que o lançamento de bombas atômicas contra cidades japonesas, exterminando populações civis indefesas, seria um crime de genocídio, mas os responsáveis não foram julgados, porque não houve força legal suficiente para julgá-los. Se os Estados Unidos houvessem sido vencidos na guerra, certamente um tribunal japonês teria classificado o fato como genocídio, julgado e condenado os responsáveis, e meia dúzia de ianques teriam sido enforcados. Ninguém foi acusado, porque faltou força necessária ao julgamento em tribunal. Mas a consciência universal não absolveu os responsáveis: o mundo todo sente ódio contra os responsáveis, e os mais veementes protestos suriram dentro dos Estados Unidos. Houve outra espécie de condenção que apavora os responsáveis, e esta nos agrada mais do que a de Nurenberg, porque entrega o criminoso ao tribunal de sua própria consciência que é o mais forte de todos os tribunais.

            O povo dos Estados Unidos julgou os responsáveis pelas bombas atômicas sobre cidades indefesas do Japão e este julgamento é muito forte.

            Os erros religiosos da Humanidade são capítulo triste da História, mas não poderão reproduzir-se no porvir, nesse grande porvir que assistirá ao triunfo mundial da Terceira Revelação, ou seja do triângulo luminoso a que se têm referido os nossos guias:

                                                                             E

                                                                       E          E         

             Evangelho, Espiritismo, Esperanto: amor, luz, compreensão universal.

 

Do blog: A explosão das bombas em Hiroxima e Nagasaki deixaram muitos milhares de mortos e feridos. Foi a solução encontrada pelos USA para evitar a invasão, por terra, do Japão, o que traria, segundo estimativas da época, milhares de mortos do lado aliado (USA, Inglaterra etc.). Decisão difícil de ratificar e que foge do escopo deste blog.


Schiller e o Espiritismo

 

Schiller e o Espiritismo

por Michaelus (Miguel Timponi)

Reformador (FEB) Agosto 1948

                 Informação adicional com origem na Wikipedia – “Johann Christoph Friedrich von Schiller (Marbach am Neckar, 10 de novembro de 1759 — Weimar, 9 de maio de 1805), mais conhecido como Friedrich Schiller, foi um poeta, filósofo, médico e historiador alemão. Schiller foi um dos grandes homens de letras da Alemanha do século XVIII e, assim como Goethe, Wieland e Herder, é um dos principais representantes do Classicismo de Weimar, e é tido como um dos precursores do Romantismo alemão. Sua amizade com Goethe rendeu uma longa troca de cartas que se tornou famosa na literatura alemã.”

             Os fenômenos espíritas sempre existiram. O Velho e o Novo Testamento estão repeltos de exemplos, que cada qual procura interpretar á luz da sua seita ou do seu dogma.Cero é, porém, que tudo pode ser desfigurado pela linguagem humana, exceto o fato em si mesmo, porque este subsiste e se repete independentemente da nossa vontade.

            Kardec, pois, não inventou os fatos. Apenas os fixou, os estudou com seriedade e paciência. E da análise que empreendeu, sem nenhum juízo preconcebido, resultou a sistematização de uma doutrina.

            Farta é a literatura antiga, para não nos referirmos à contemporânea, em que os fenômenos espírits surgem através da concepção ou da inspiração de grandes e brilhantes escritores, a que hoje chamamos médiuns intuitivos.

            Não foi por acaso que Shakespeare advertiu, com as palavras de Hamlet, que no céu e na Terra há mais coisas do que as instruções dos nossos filósofos nas escolas.

            Não foi também por acaso que Schiller em o “Visionário” concebeu cenas interessantíssimas, fenômenos tipicamente espíritas, com a criação de uma personagem misteriosa, cheia de estranho poder, que outra coisa não era senão um excelente médium. E vemos uma passagem em que um abade desafia todo o “reino dos espíritos...”, mas que foge espavorido quando percebe o imenso poder da estranha personagem.

            Não posso furtar-me ao desejo de transcrever os seguintes trechos:

             “O marquês de Lanoj – tomou agora o príncipe a palavra – era na última guerra um brigadeiro francês e meu mui íntimo amigo. Na batalha de Hastinbeck recebeu uma ferida mortal; trouxeram-no para minha tenda, onde logo morreu nos meus braços. Estando já em luta com a morte, chamou-me: “Príncipe – começou ele – não tornarei  a ver minha pátria; sabei, pois, um segredo, de que ninguém, senão eu, tem a chave. Em um convento na fronteira de Flandres, vive uma...” e expirou.

            A mão da morte cortou o fio do seu discurso; eu o desejava aqui e ouvir a continuação”.

            “- Quem me chama? Disse esta segunda aparição?”

            E reconhecendo o príncipe, cheio de emoção, o marquês de Lanoj perguntou-lhe:

            “Quem vive no convento que tu me designaste?

            - Minha filha.

            - Como! Foste pai?

            - Ai de mim, que pouco o fui eu!

            - Posso fazer-te ainda algum serviço neste mundo?

            - Nenhum outro senão o de pensar em ti mesmo.

            - Que devo fazer?

            - Em Roma o saberás.

            Nesta ocasião uma nuvem negra de fumo encheu o quarto; e quando esta se dissipou, já não vimos a figura. Abri uma porta da janela. Era manhã.”

            É bom que se assinale que Schiller nasceu em 1759 e morreu em 1805. Vale dizer que muito antes da sistematização da Doutrina Espírita realizada por Allan Kardec, em 1857.

            Não quero afirmar de nenhum modo a sua adesão a uma doutrina ainda inexistente, mas apenas notar a tendência do poeta e dramaturgo para o espiritualismo, a ponto de levar os seus biógrafos à conclusão de que a sua obra possui um cunho quase metafísico.

            Na verdade esse traço predominante, pela lei natural da afinidade, foi o imã que o colocou junto de Goethe, na mais íntima convivência, formando assim  a dupla de poetas, dramaturgos e escritores de mais merecida fama na Alemanha.

            Mas essa inclinação não surge esporadicamente em seus dramas. Ao contrário, ela é persistente. Acompanha sistematicamente as suas interessantes personagens, fazendo-as falar uma linguagem considerada então como puro misticismo.

            No drama “Os Salteadores”, escrito em 1780, quando possuía apenas 21 anos de idade, e que, graças ao Esperanto, me foi dado ler, em magistral tradução de Zamenhof, Schiller aborda temas de profunda indagação filosófica, como se fosse, não um antepassado, mas um contemporâneo de Kardec.

            Ele põe na boca do chefe dos bandidos, que meditava profundamente, enquanto na noite silenciosa dormitavam no acampamento os seus homens, esta admirável página, que merece ser transcrita sem nenhum comentário:

             “Quem poderia garantir-me? Tudo é tão obscuro... labirintos confusos... nenhuma saída, nenhuma estrela para guia... se tudo acaba simultaneamente com o último suspiro, acaba então como um brinquedo de mal gosto de marionetes?... Mas para que essa desmedida aspiração à felicidade? Para que o ideal de uma perfeição que não se alcançou? A procrastinação de planos irrealizádos? Se a miserável pressão deste miserável objeto (ele tem a pistola apontada à cabeça) igula o sensato ao insensato, o corajoso ao covarde, o nobre ao patife? Existe sem dúvida uma tal harmonia divina em a natureza inanimada, porque pois existiria esta desarmonia em a natureza racional? Não, não! Existe alguma coisa mais, por isso não fui ainda feliz”.

            “(Guardando a pistola) Tempo e eternidade – confundidos no espaço de um momento! Chave terrível que fecha por detrás de mim o cárcere da vida e abre diante de mim a morada da noite eterna, - dizei-me, oh!, dizei-me, para onde me conduzireis?”

            “Seja como quizerdes, ó além sem nome, - somente me fique fiel este meu “eu”. A exterioridade é somente a casca de um homem – eu mesmo sou o meu céu e o meu inferno”.

            “Se me deixardes, para mim só, uma pequena parte do mundo reduzida a cinza, onde eu tivesse somente uma noite de solidão e um deserto eterno, então eu habitaria o deserto silencioso pelas minhas fantasias, e a eternidade dar-me-ía bastante tempo para analisar a imagem confusa da miséria universal. Ou acaso quereis, sempre por novos nascimentos e sempre por novos lugares de miséria, degrau após degrau, condizir-me ao nada? Acaso os fios da vida, tecidos para mim no além vida, eu não possa tão facilmente  dilacerar como esta? Podeis reduzir-me a nada, mas esta liberdade não podeis tirar-me. (Ele carrega a pistola. Subitamente para). Mas devo eu morrer pelo temor de uma vida tormentosa? Não, eu a sofrerei! (Ele lança fora a pistola). Que a tormenta se rompa de encontro ao meu orgulho! Eu a suportarei até ao fim.”

            Como se vê, através da meditação profunda, posta na cabeça da principal personagem do drama, surgem concepções intuitivas, que mais tarde iriam tomar corpo com o advento da revelação dada a Kardec. Nessas concepções não se encontram asserções definitivas em relação à tese espírita, mas sente-se que, através da força criativa do pensamento, as verdades eternas já sopravam fortemente as almas angustiadas na antevisão de um mundo espiritual, impreciso, incerto, misterioso...

            É constante e pertinaz a preocupação angustiosa de uma outra vida. “Para onde me conduzireis? País estranho nunca viajado! (... kien vi min kondukos? Fremda, neniam travojagita lando!)”.

            E assim, lendo “Os Salteadores” (La Rabistoj), na magnífica tradução de Zamenhof, pude ver mais uma vez compreender e observar que aquilo que hoje denominamos Espiritismo é tão velho como o mundo, brotando naturalmente da consciência humana como reminiscências quase impreceptíveis de uma vida anterior.


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Fora da caridade não há salvação

 

Fora da caridade não há salvação

por Arnaldo S. Thiago

Reformador (FEB) Maio 1940

                 Tomando por título deste nosso artigo a divisa do Espiritismo, de caráter universal, em contrste com a da “igreja pequena”, de intuitos restritivos e sectaristas, pretendemos chamar a atenção dos nossos confrades para as diferentes nuances da caridade, se é que se pode chamar caridade tanto ao ato meramente convencional de atirar um níquel ao chapéu do mendigo, sem a emoção íntima do sentimento, como ao sublime rasgo de abnegação de quem sacrifica a própria vida, para salvar a do próximo; tanto à ríspida vergastada da crítica que educa intimidando, como à divina delicadeza moral de quem adverte em segredo com os olhos narejados de lágrimas.

            Não confundamos coisas tão díspares. Para nós uma só é a caridade: a qe tem origem no sentimento do amor ao próximo, qualquer que seja a sua manifestação externa, mesmo a que fere os preconceitos em voga...

            Contudo, reconhecemos que restrito a mui raros espíritos, desprendidos das tibiezas e dos prejuízos humanos, é esse divino conceito da caridade, exemplificada pelo Cristo, que não desdenhava da companhia das mulheres de má vida e dos publicano, em quem muitas vezes encontrava mais nobreza de sentimentos e altaneria (capacidade de voar alto) moral, do que nos pretensos mestres da moral e dos bons costumes, fariseus hipócritas, a quem Ele vergastava com as suas palavra e admoestações veementes.

            Queremos falar da caridade, segundo o critério humano do testemunho dos atos. Neste domínio do terra-a-terra o que vemos é a proliferação da caridade material que gostaríamos de qualificar como predisposição ao bem e que consideramos, hoje mais do que nunca, em que o Estado chamou a si todas as funções de assistência social, dever comesinho do poder público, felizmente assim compreendido no atual momento histórico de nossa Pátria, com a assistência econômica ao trabalhador nacional e às respectivas famílias e com a multiplicação dos institutos de assistência – leprozários, hospitais, escolas, etc., etc.

            Essa caridade, porém, temo-lo comprovado frequentemente, envolve o conceito egoístico da retribuição do serviço prestado, seja em vaidade pessoal de haver dado, seja na escravisação do beneficiado ao doador generoso, seja na presunção pessoal de se constituir o doador em centro para onde convirjem todas as atenções dos mesmos beneficiados. Para esta caridade – infelizmente a mais apreciada até nos meios espíritas – não é necessário o sentimento dalma; basta dispor de recursos  de um coração vaidoso, temperado de altruísmo.

            Esta caridade não é a escola educadora do espírito para a grande renovação social que se prepara desde o advento do Consolador. Urge que se disponham as inteligências para a compreensão do Evangelho – escrínio da caridade moral.

            Tudo na vida do Cristo ressumbra delicadeza e verdade. Divina delicadeza moral em face da mulher adúltera: “Onde estão, mulher, os que te condenavam?... Eu também não te condeno. Vai e não peques mais.” Divina delicadeza moral diante da mulher de mal conceito, que lhe derramava perfume nos pés: “Porque muito amaste, perdoados serão os teus pecados.”

            Divina delicadeza moral para com aquela carinhosa Maria que lhe escutava as palavras, embevecida, ao ser repreendida pela irmã: “Marta, Marta! Que tanto te afadigas com as coisas mundanas! Maria escolheu a melhor parte e esta não lhe será tirada.”

            Sublime energia da Verdade, que admoesta os grandes, sem fraquezas perniciosas: “Ide dizer a Herodes, aquela raposa...”, “Nenhum poder terias sobre mim se ele não te viesse do Alto” (retrucando a Pilatos); ou admoesta os discípulos quando se deixam contaminar pelos prejuízos humanos: “Tira-te de diante de mim, Satanás...” (verberando a Pedro um mal conselho que este lhe dava.)

            Pois aí está a caridade do Cristo, a caridade que deve brilhar no coração de todos os seus servos de boa vontade: a caridade moral, que tem delicadezas divinas para com o pecador arrependido, para aquele que se humilha, que sofre e que chora; que é capaz de erguer-se em um ímpeto varonil para expulsar os vendilhões do templo, para profligar a dureza dos corações, arrostando todas as consequências, como o Cristo arrostou,a tal ponto que o úmico recurso que tiveram os magnatas do seu tempo, para se virem livres dele, foi condena-lo, com astúcia e venalidade, ao suplício da cruz...

            Ainda em deliquescência o caráter, o verdadeiro caráter religioso. O que se está constituindo novamente, a pretexto de renovação moral, é um novo acervo de prejuízos e de formalidades que deixam vazio o coração e estéril o sentimento.

            Mas, os dias próximos desnudarão a verdade. Novos levitas do Evangelho descerão do céu, a reencarnar na Terra; com eles expandir-se-á entre os homens um doce magnetismo que penetrará todas as almas, tornando-as sensíveis a todos os grande movimentos do coração humano: as viragos (mulher de hábitos masculinos) desertarão do planeta para outras estâncias mais consizentes com a sua grosseria inominável, e a mulher, a verdadeira mulher, voltará a ser na sociedade a flor divina da delicadeza moral, aquela que há de saber novamente construir o mundo à sua feição, restituindo ao homem a poesia da vida que essas viragos – elas próprias – destruíram com as suas atitudes contrárias à nobre missão da mulher na sociedade.

            Nesse dia, o homem não se envergonhará de ser delicado e deixará de fazer da sua inteligência apenas um instrumento de ironia... para disfarçar as agruras da vida!


Casos e Coisas

 

M. Quintão

Casos e coisas

por Manoel Quintão

Reformador (FEB) Janeiro 1940

                 Nota: Quem lê Quintão sabe que em seus textos são inseridas palavras de rara utilização. Se você se sente confortável para alterar nossas anotações feitas entre parênteses por favor, sinta-se à vontade. Envie-nos as devidas correções para o nosso email: gckauffman@gmail.com. e o texto será revisto. Grato. Gustavo

             Confrades solícitos e quiçá escandalizados escrevem-nos constantemente e nos enviam recortes de jornais, para que respondamos às críticas mais ou menos pitorescas, quando não parvas (pouco inteligentes), aí surgidas agora, como broto abortivo da campanha médico-clerical.

            Não se precatam (acautelam-se), esses amáveis confrades, de que o jogo é velho e feito sempre com as mesmas cartas. O que muda é a parceria, quando muda.

            Em se tratando do Parnaso de Além Túmulo, vale então dizer que essa crítica veio tarde e a más horas, pois esse livro, maravilhoso e único nos anais da bibliografia espírita, apareceu há oito anos, está na terceira edição quase esgotada e, por conseguinte, consagrado no conceito público.

            O público, é bem de ver, não se conta aqui pelas tasquinhas (pedacinhos) da peraltice literária, esfatiada ao gosto de mentalidades seminaristas e mais ou menos cavadoras de notoriedade, em achegas de revistas mais ou menos esportivas. Não é, tampouco, o que ajuiza de conta alheia. Esse público nós o damos sem ágio aos mercadores de roupas feitas, para que se vista à vontade e acompanhe o terço e a missa que melhor lhe saiba. Não temos a pretensão de aposentar Panurgo (designação irônica dos que só procedem por espírito de imitação.) Nosso público é de outra marca, não se improvisa, não se requesta. A convicção não se lhe faz ab extrinseco ( apresentar a fé impondo-se à alma unicamente do exterior e por via autoritária), mediante garabulhos (asperezas) de convicção, mas, ex intimis, (do mais íntimo...) em penhor de madureza espiritual, que os “Saint-Beuvesinhos” (Saint Beuve: crítico literário francês) de arribada (ato ou efeito de arribar, de chegar à margem) jamais poderiam conceber na sua psicologia materialista, salvo o paradoxo. Então, que querem os confrades missivistas? É deixa-los com a sua psicose e aguardar que o Tempo, o grande mestre da vida, se encarregar de lourejar (amarelecer) as searas, como quem sabe que não crê quem quer, mas, quem pode.

 *

             Pelo que nos diz respeito a nós, os do pariato (é um sistema de títulos da aristocracia, historicamente usado em muitos sistemas monárquicos de governo. O termo "pariato" tecnicamente se refere a um subconjunto do sistema completo de títulos da nobreza, e o significado varia de país para país.) intelectual no conceito deles detentores da ciência qye nem sempre é consciência e, menos ainda, consciência divina, o que importa é prismar a questão e fixá-la nos seguintes termos: Francisco Cãndido Xavier é uma criatura de carne e osso, não mítica, nascida, criada, educada ali assim em “Pedro Leopoldo”, onde vive pobre, modesta e virtuisamente. Todos os seus conterrâneos o estimam, exaltam-lhe as virtudes e sabem que ele não teve outra instrução além da rudimentar, ministrada em nossas escolas primárias, da roça. Precisando ganhar a vida, adolesceu (tornou-se adolescente), esfregando balcão de taverna e ainda hoje exerce um insignificante cargo de copista datilógrafo. Nunca teve dinheiro para comprar livros e, ainda que lhos ofertassem, não lhes sobraria tempo de os ler e, menos ainda, meditar.

            Não teve, outrossim, o convívio e o estímulo de rodas intelectuais e literárias, não foi tipógrafo, qual Machado de Assis, nunca fixou de plano qualquer problema filosófico, social, moral, científico ou religioso... Isso ele mesmo o diz, melhor que nós, no proêmio do Parnaso e é o que a crítica honesta competiria considerar antes de criticar.

            Pois bem: esse moço, que não escreve quando quer nem como quer, e nunca para ganhar dinheiro – pois que nada aufere da sua recolta (ato ou efeito de colher, recolher) mediúnica e os próprios elogios o constrangem e intimidam – esse moço nos vem dando de improviso, vertiginosamente, sem intermitência de quaisquer elucubrações embrionárias, ou de plano preconcebido, obras de relêvo literário, não somentte, mas de fundo filosófico e científico, só frutecentes ( que dê frutos) em cerebrações      (atividade mental) privilegiadas e adubadas de copiosa e intensa cultura.

            E na prosa como no verso afloram estilos, modismos, dialéticas, hermenêuticas pessoais inconfundíveis e mais – inconcebíveis, porque tudo isso ele ignora. É a História trabalhada em veios ricos de poderosa síntese, é o Romance entretecido em bastidores de fina tela psicológica, a preceito técnico, é a Filosofia condensada, pasteurizada à luz de todas as conquistas do pensamento humano.

            Em toda essa obra multifária (variada) e cambiante (modulada), desbordam teorias, fatos, doutrinas e conclusões, que o médium não ruminou, não poderia ter imaginado, induzido ou deduzido jamais. Alega-se que há falahs nessa obra? Perrfeitamente; mas, antes de tudo, é preciso focalizar no seu conjnto e atender às circunstâncias em que se nos ela oferece. Que nos dizem os críticos, por exemplo, desse alfabeto de cegos, coisa que o médium nunca viu, por ele grafado a ponta de alfinete? Que dizem da escrita invertida e, ao demais, em inglês, idioma desconhecido do médium? E das mensagens de caráter íntimo, concernentes a episódios remotos, totalmente ignorados do médium e esquecidos do consulente?

            Conosco mesmo, ainda há pouco, em sofrermos um acidente que nos levou ao leito por 30 dias, o médium vibrou a 650 km distante e deu o alarme com uma mensagem espontânea de Emmanuel (seu Guia-Espiritual), absolutamente sintonizada com o nosso estado de alma, reproduzindo ipsis verbis (literalmente) pensamentos nossos em face do acontecimento, quando, por si, nada sabia nem poderia presumir!

            São provas documentais, nítidas, incontáveis, que se não infirmam com paroleiras (imposturas) mais ou menos áticas (despojadas) e bizantinas (especulativas). Noutro país, elas seriam dignas de estudo conspícuo, qual o fizeram na Inglaterra a Sociedade Dialética de Londres e, na Frnaça, o Instituto Metapsíquico.

            Entre nós, com a nossa mentalidade moitante (brincalhona)-desportivo-carnavalesca, vai tudo à conta dos Pimentéis (?) e do ... “pastiche” (obra literária ou artística em que se imita abertamente o estilo de outros escritores, pintores, músicos etc.)

                Mas, como o “pastiche” pressupõe habilidade invulgar, cultura intelectual, tempo e, sobretudo, interesse, claro ou oculto, e nada disso ressalta da obra honesta do médium Xavier, já houve um preopinante que se saiu com esta: ou fenômeno genial inexplicável, ou pastiche inconsciente... Ouviram bem? – inconsciente! E aí tens, leitor confrade, uma charada sem conceito pata o teu conceito, que seria de lhe “dar com um gato morto até miar”, se o velho bichano não andasse por aí escondido com a cauda de fora. E que cauda, santo Deus!

            Portanto, convenhamos: é deixá-los examinar, até que lhes possamos repetir evangelicamente o quoerite et invenietis... (procure e você encontrará...)

            Mas até lá...