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domingo, 13 de dezembro de 2015

Quando amanhecer o dia...


           A brutalidade humana estigmatizou o Cristo de Deus durante todo o trajeto por Ele percorrido, nos 33 anos que passou entre nós. Chegado de regiões sidéreas, investido de tamanho poder que declarou a Pilatos que sua condenação só ocorria porque o Alto assim o desejava, tanto o início quanto o final de sua missão na Terra constitui-se, aos nossos olhos, em pomo de discórdia, especialmente se nos recordamos de que Ele é o selo da mansidão e da paz. Da manjedoura ao Getsêmani, do Getsêmani ao Gólgota, os homens rodearam-no de controvérsias, testaram-lhe a paciência que, em momento algum, demonstrou as fraquezas que nos são peculiares, atestando-lhe a genealogia completamente estranha à da raça humana. Renan, o grande historiador, diz que Ele foi tão grande que não pode localizar-se na corrente comum do tempo percebido pelo ser humano: dividiu a História em antes e depois. Dialogou com todo tipo de pecadores e criminosos, enfrentou o mundo de César, e não fraquejou em um só minuto. A grandeza inabordável de Jesus, como grandeza, não nos é acessível, embora o seja, e plenamente, como amor, que cobre uma multidão de pecados.

            Ainda hoje o seu nascimento perde-se entre discussões improdutivas e polêmicas acerbas, quando a grande realidade é que, primeiro, o que nos deve importar é a exemplificação que Ele nos legou, consubstanciada nas obras que empreendeu, e que não passaram nem passarão, como passou Jerusalém, no ano 70. Foi tão augustamente sábio que fez das hediondas perseguições de Nero e de Diocleciano motivo de difusão do Cristianismo; soube retirar da iniquidade o bem que socorre a própria iniquidade. Em segundo lugar, falávamos de polêmicas, o que nos importa não é o que Ele foi ou deixou de ser, mas o que Ele é. Em terceiro lugar, importa a nós que tudo se passou de acordo com a vontade Divina; que em Maria se fez, de igual modo, a vontade do Senhor; e que Ele veio para a salvação do mundo, que o não compreendeu, e não o compreende ainda. O Evangelho de Lucas, que alguns exegetas também consideram como sendo destinado aos Gentios, junto com o de Marcos, carregados de maior historicidade, o primeiro, como o sabemos, brotado na atilada mente paulina, de acordo com informações da própria Virgem Mãe, narra o que se passou na noite maravilhosa do nascimento do Rabi Galileu.

            A partir, muito depois, da transformação da água em vinho, durante as Bodas de Caná - o início da vida pública de Jesus - desabou sobre o Mestre uma intempérie de acusações falsas, incompreensões, acintes e absurdos, os quais somente a excelsa posição que ocupa poderia suportar.

            Com a ida do Senhor a Betânia, a ressurreição de Lázaro, e a refeição na casa de Simão, o leproso - que alguns estudiosos identificam com o próprio ressurrecto, o que não está provado - junto a Marta e Maria de Betânia, toda a intransigência dos homens deu as mãos, combinando atrocidades, no mais ominoso processo de que se tem conhecimento.

            Impossível a atribuição de culpa em separado a essa ou àquela facção: a verdade é que o gênero humano é o grande responsável pelo Calvário do Senhor. A grande verdade é que os interessados e autoridades que arquitetaram o evento não passam de símbolos da raça de que fazemos parte, a crucificada por excelência, e, ainda hoje, a prisioneira única do túmulo de onde Ele desapareceu. De um lado, a ira farisaica, a intransigência judaica, oferecendo denúncia formal contra o que, nascido em Belém, na Judéia, foi chamado Nazareno. A denúncia não foi por Judas desencadeada, mas o teve como pretexto, cuja traição contrariou a própria Lei Moisaica, tão defendida pelos lobos do Sinédrio, e que dispõe, no Levítico, XIX, 16: "Não te oferecerás a ti mesmo como testemunha contra a vida do teu próximo." Naquela hora, até mesmo o que já serviria de motivo para a dilapidação de Estêvão poderia ser relegado a plano secundário. Aquele homem precisava ser condenado e sumariamente executado... para segurança da mentira e da injustiça! De outro lado, a conivência temerosa, entibiada por parte da justiça romana que, chamada a atuar, viu-se forçada a confirmar a sentença, perante o ódio da populaça.

            Fraudes, dolo, erros essenciais: todo o negativismo precisou combinar-se para levar à morte, aos olhos dos homens, o Filho de Deus.

            Pôncio Pilatos, assustado diante do sonho de Cláudia, que o aconselhava a não arriscar a responsabilidade no julgamento de um justo, apela para os conselhos de Públio Lentulus, que - após afirmar que ninguém tinha Jesus na conta de conspirador ou revolucionário, em Cafarnaum, e que ele próprio, Lentulus, encarava suas ações, naquelas plagas, como as de um homem superior, caridoso e justo - sugere a Pilatos que envie o acusado ao julgamento de Herodes Ântipas, representante do governo da Galileia em Jerusalém. Lá, o Cristo é recebido com sarcasmo, informa-nos Emmanuel, veste a túnica alva, e tem assentada sobre a cabeça a coroa de espinhos, que não é de ferro ou bronze, ou qualquer outro metal, mas de uma planta espinhosa, que produz ardentíssima seiva. Reconduzido à presença de Pilatos, tendo enfrentado o sarcasmo da turba, Pilatos assegura que seu coração lhe diz que aquele homem nada havia feito. Como a multidão enlouquecida ameace invadir a mansão, Polibius sugere o açoite em praça pública, para que se saciasse a sede de condenação ali exibida. Mas, é impossível aplacar violência com mais violência, neutralizar o sangue com mais sangue. Após ter Jesus, durante os açoites, encontrado os olhos do Senador,... "que baixou a fronte, tocado pela imorredoura impressão daquela sobre-humana majestade", Públio retorna ao interior do palácio, contristado. Nesse momento, Emmanuel informa-nos que foi ele mesmo quem sugeriu uma espécie de permuta do Cristo por outro prisioneiro que já tivesse a sentença de morte irrecorrível.

            Pilatos sugere Barrabás... Mas, a multidão absolve Barrabás e quer Jesus crucificado. Pilatos lava as mãos (mais tarde, é o próprio Emmanuel quem informa que ele irá suicidar-se), e o Cristo marcha na direção do Monte da Caveira.

            Toda essa aparente coordenação falha por demonstrar ordem, e parece-nos válida a estupefação de Daniel Rops, ao dizer que não se consegue entender como tinha podido Ernest Renan deixar escrito que, no processo de Jesus, tudo transcorreu na mais absoluta ordem. Todo o procedimento iniciou-se com trevas, e não poderia terminar senão em trevas. O próprio Céu ratificou a escuridão moral da humanidade, cobrindo o mundo com trevas. E tudo se consumou assim... E tudo se iniciou assim!

            Marcado pela animalidade dos seus irmãos menores, marcou-os Jesus, indelevelmente. Seus sinais serão cicatrizes, enquanto em nós houver maldade; luzes, ao contrário, é o que restará de tudo, quando redimidos estivermos.

***

            Um evento contendo dois episódios chama-nos a atenção para o poder regenerador do Messias. Ambos os episódios são, mais uma vez, narrados pela noção de historicidade de Emmanuel, que, embora não seja aceito como fonte escrita de História, o que, de resto, ninguém consegue provar, é, para nós, o grande evangelizador, ao qual o futuro prestará mais respeitos. (1)

            (1) A própria História nega autenticidade à célebre lâmina descoberta em Nápoles, contendo artigos referentes ao processo da crucificação, um dos quais discrimina sedução à pessoa do Cristo (mesith - sedutor).

            O primeiro deles toca o problema da descrição dos traços físicos do Mestre. Historicamente, nada existe que nos leve a afirmar como fosse Jesus. Alguns hermeneutas pretenderam "interpretar" a passagem de Lucas, XIX, 1 a 4, de tal modo a que fôssemos levados a crer que Jesus, e não Zaqueu, era o que se estampava em estatura pequena. Uma efígie do Cristo parece estar insculpida numa antiga pedra, trazida de Constantinopla a Roma, e cuja influência se faz sentir quer sobre uma tapeçaria atribuída a Johann Van Eyck, quer sobre um medalhão, que se encontra em Poitiers, esculpido no século XVI. Alguns afirmam que, quando da Ascensão, os Apóstolos pediram a Lucas que criasse um quadro retratando o Senhor (2); e que, depois de três dias de preces e de jejuns, começando seu trabalho, Lucas viu aparecer o rosto sagrado. O caso de Verônica é também aventado, sendo que outros conhecedores dizem que ela é a mesma hemorroíssa, curada por Jesus, a qual, tentando pintar a fisionomia inesquecível, desespera-se e vê entrar Jesus, que vem pedir-lhe refeição, e que, enxugando o rosto com um pedaço de linho, nesse tecido deixa impressos os seus traços.

            (2) Trata-se, evidentemente, de uma lenda. Não temos noticia de que Lucas tenha estado presente à Ascensão.

            No entanto, é a célebre Carta de Lentulus que exige maiores atenções de nossa parte. Os estudiosos dizem não existirem evidências históricas desse Senador, mas nós sabemos que o "Larousse do século XX" registra a figura de Públio Lentulus Sura, que Emmanuel identifica como sendo ele mesmo, quando era avô daquele que seria o Senador. Isso é, de fato, uma pista. No entanto, os pesquisadores preferem ter a carta na conta de apócrifa.

            A carta é dirigida "ao Senado e ao Templo Romano", e vem sendo classificada como poética, e psicologicamente de grande efeito (3). Eis a descrição que nela se contém do Cristo:

            (3) De fato, a identificação de Públio Lentulus Sura é uma pista de localização de um tronco familiar. Na realidade, quanto à carta, existiram dezenas de Lentulus na ocasião, além de termos de considerar que o documento, se não pode ser dito como de Públio Lentulus, tampouco lhe pode ser negado historicamente. Existe, a rigor, um ponto apenas onde pode surgir dessemelhança válida: o Lentulus da carta diz-se Governador de Jerusalém. De um certo modo, coonestando a complexidade do assunto, convém ressaltar que há diversos textos para a mesma carta, e até mesmo nos jornais antigos - quando a reproduziam - poder-se-Ia, facilmente, detectar as diferenças.

            "É um rosto venerável, e de tal modo que aqueles que o encaram podem experimentar, ao mesmo tempo, temor e amor. Seus cabelos são da cor de avelãs maduras, lisos até quase as orelhas, com leve reflexo azulado, caindo sobre os ombros. A tez é cheia de vida; seu nariz e sua boca não têm defeitos. Tem a barba abundante, do mesmo tom que a cabeleira, não muito longa e dividida no queixo. É esguio, ereto, e suas mãos e seus braços são admiráveis." A carta, realmente bela, termina com a citação dos Salmos, XLV, 3: "É o mais lindo dos filhos dos homens!"

            Apócrifa ou não, ninguém melhor do que Emmanuel para resolver o problema. Vejamos. Flavia Lentulia padecia grave enfermidade. Lívia, a inesquecível Lívia, insiste com o Senador para que vá ter com o Messias de Nazaré. Ele acede aos rogos da esposa, embora ressalte que...  "Não procederei, todavia, conforme sugeres. Irei sozinho à cidade, como se me encontrasse em hora de simples entretenimento, passando pelo trecho do caminho que nos conduz às margens do lago, sem chegar ao cúmulo de abordar pessoalmente o profeta, de modo a não descer da minha dignidade social e política, e, no caso de sobrevir alguma circunstância favorável, far-Ihe-ei sentir o prazer que nos causaria a sua visita, com o fim de reanimar a nossa doentinha."

            Não foi sem lutas íntimas, orgulho contra humildade, que Lentulus se dirigiu ao encontro, após uma hora sobre as suas amargas cogitações íntimas (sic).

            O Senador esperava encontrar "homem simples e ignorante, dada a sua preferência por Cafarnaum e pelos pescadores". Esperava encontrar dificuldades, porque... "não lhe interessara o conhecimento minucioso dos dialetos do povo e, certamente, Jesus lhe falaria no aramaico comumente usado na bacia de Tiberíades". Eis que se encontrava inteiramente enganado! Apoiado num banco de pedras, começa a experimentar sensação nunca dantes sentida. Recorda-se dos menores feitos de sua vida terrestre, e parece ter abandonado temporariamente o corpo carnal. Experimentava êxtase, olfatava perfumes vindos do lago de Genesaré, o mar da Galileia, com mais ou menos vinte quilômetros de extensão, quando o Jordão está a 208 metros sob o nível do mar, e que pode ser atravessado em pouco mais de meia hora. Há, por ali, mimosas, jasmins e loureiros. Diz-se ser, ainda hoje, um dos
mais belos lugares da Terra.

            As palavras de Emmanuel levam-nos à conclusão de que ele, Públio Lentulus, encontrava-se desdobrado; e tanto é assim que, depois que tudo cessou, por volta das vinte e uma horas, o Senador despertava (sic). Já em estado de desdobramento,
estacara diante de seus olhos "personalidade inconfundível e única". Eis a descrição de Emmanuel, em confronto com a carta de Lentulus:

            "Tratava-se de um homem ainda moço, que deixava transparecer nos olhos, profundamente misericordiosos, uma beleza suave e indefinível. Longos e sedosos cabelos molduravam-lhe o semblante compassivo, como se fossem fios castanhos, levemente dourados por luz desconhecida. Sorriso divino, revelando ao mesmo tempo bondade imensa e singular energia, irradiava da sua melancólica e majestosa figura uma fascinação irresistivel."

            Mais adiante, Lentulus identifica "aquela criatura impressionante" ... "e torce misteriosa e invencível tê-lo ajoelhar-se na relva lavada em luar".

            Alguns estudiosos dizem que Jesus ria pouco mas, Emmanuel diz que Ele sorria, e não que Ele ria naquele momento. Não há, na narrativa do Espírito, qualquer menção à tonalidade azulada, se bem que ambas as narrativas falem em cabelos castanhos, porque a avelã madura é da cor de cabelos castanhos. Além disso, muito embora mencione fios castanhos, levemente dourados, logo a seguir referenda uma luz desconhecida, que, no atordoamento da presença do Cristo, e no estado de desdobramento, bem poderia ser azulada ou dourada. Além do mais, não poderia o azulado ser suave emissão magnética do Senhor, ao passo que o dourado seria o reflexo da luz solar em seus cabelos sedosos?..
           
            Nada parece estar em choque nas duas narrativas, e tudo leva a crer que elas são uma e só coisa, com pontos de vantagem para a dissertação mediúnica, que é o Espírito dando o próprio testemunho, ao passo que a carta bem poderia, em qualquer ponto, se fosse o caso, ter sido prejudicada, dessa ou daquela forma. Há praticamente uma identidade de vistas, e o problema da luz azulada ou dourada deixa de ser problema, enfocado à luz dos conhecimentos espíritas.

            Mais um ponto que autoriza a interpretação do desdobramento, enquanto lança por terra todas as suposições do Senador Públio Lentulus sobre a ignorância de Jesus, é o problema da comunicação entre os dois personagens, naquele dia. Das palavras de Emmanuel, depreende-se que Jesus não falou nem aramaico, nem siríaco, nem latim, nem linguagem alguma conhecida, mas "exclamou em linguagem encantadora, que Públio entendeu perfeitamente, como se ouvisse o idioma patrício, dando-lhe a inesquecível impressão de que a palavra era de espírito para espírito, de coração para coração". (Grifos nossos.) Mais adiante, Emmanuel diz que... "o profeta, como se prescindisse das suas palavras articuladas" (palavras essas de Lentulus), o que demonstra que, de fato, a comunicação era pelo veículo do pensamento, que, naquele instante, suplantava as barreiras dimensionais, para dizer ao Senador que... "ainda assim, meu amigo, não é o teu sentimento que salva a filhinha leprosa e desvalida pela ciência do mundo, porque tens ainda a razão egoística e humana; é, sim, a fé e o amor de tua mulher, porque a fé é divina... "

            Quebraram-se os elos... Lentulus ainda o veria no dia do açoite, sugerido por Polibius, para acalmar a turba insaciável. O tempo que se passou desde o desdobramento até ao êxtase, e deste ao despertar, por volta das vinte e uma horas, são a narrativa perfeita da rapidez do crepúsculo em todas as paragens da Terra Santa. Emmanuel chegou a ponto de, com toda a naturalidade, mostrar que uma hora após o percurso de uns trezentos metros (página 83), insensivelmente apoiado sobre o banco de pedras já mencionado, ... "um velário imenso de sombras invadia toda a região:..." e que... "o céu, àquela hora, era de um azul maravilhoso, enquanto as claridades opalinas do luar não haviam esperado o fechamento absoluto do leque imenso da noite."

            O leque imenso da noite fechou-se, sim, aguardando que o Senador Públio Lentulus despertasse ao toque caricioso do Messias. Quando nasceria o dia para o Patrício? Quando nascerá o dia para nós? Seremos daqueles que, ainda hoje, face a face com o Mestre, no Consolador Prometido, insistem em negá-lo renitentemente? E não digamos que se o víssemos transformar-nos-íamos imediatamente, porque é bem provável que tenhamos sido um dos que o viram, sem o ter descrito para a posteridade, para que a História duvidasse menos, a fim de que tudo nos fosse bem mais fácil, simplesmente porque estávamos ocupados em gritar: "Jesus!.. Jesus!.. Absolvemos Barrabás!.. Condenamos a Jesus!.. Crucificai-o!.. Crucificai-o!.."

Quando amanhecer o dia
Boanerges / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Abril 1976

Indalício Mendes assinou...


terça-feira, 19 de abril de 2011

A Mediunidade de Chico Xavier e a Crítica


A mediunidade de Chico Xavier e a Crítica
por  Sylvio Brito Soares
Reformador (FEB) Setembro 1967

            “Ao comemorarem agora, os quarenta anos ininterruptos de trabalhos mediúnicos de Francisco Cândido Xavier, acreditamos seria interessante lembrar uma crítica então feita no tocante a supostas inverdades contidas no romance escrito mediunicamente pelo Espírito de Emmanuel, e intitulado “Há dois mil anos...”

            Resumia-se essa crítica no fato de que jamais existiu Públio Lêntulus, uma das encarnações de Emmanuel, e que, portanto, jamais poderia ter sido ele ‘governador da Judéia’, ao tempo de Jesus.

            Foramos, na época, entrevistado a respeito pelo redator de um vespertino desta Capital, quando, então, tivemos ensejo de lhe prestar os seguintes esclarecimentos: Quem lê “Há Dois Mil Anos...”[1], verifica que, nesse romance, não há qualquer referência a Publio Lêntulus como governador da Judéia. É que o crítico ouviu cantar o galo, sem, entretanto, saber onde.

            Foi Públio Lêntulus, de fato, senador romano, mas, por motivos de ordem particular, viveu longos anos na Palestina. César, para justificar sua ausência de Roma, confiara-lhe missão especial, talvez de caráter reservado, permitindo-lhe, assim, direito à percepção de subsídios.

            Consta mesmo do relato de Emmanuel que Públio Lêntulus escrevera longa carta a um amigo seu residente na Capital dos Césares, com vistas ao Senado Romano, sobre a personalidade de Jesus, encarando-a serenamente, sob o restrito ponto de vista humano, sem nenhum arrebatamento sentimental.

            Por ocasião da célebre Páscoa do ano de 33, encontrava-se Públio Lêntulus em Jerusalém, quando Pôncio Pilatos, embaraçado com o julgamento de Jesus, solicitara ao Senador o obséquio da sua presença no palácio do governo provincial, a fim de solucionar um caso de consciência.

            Públio Lêntulus estava, pois, investido de amplos poderes, na qualidade de emissário de César e do próprio Senado; a ele, portanto, todas as autoridades da província, inclusive o próprio governador, eram obrigadas a prestar obediência.

            Até aqui, evidentemente, utilizamo-nos, apenas, dos subsídios históricos contidos no livro “Há dois mil Anos...”.

            Agora, preciso se faz esclareçamos que, durante os primeiros séculos do Cristianismo, os Pais da Igreja viviam desejosos, como era natural, de conhecer o retrato físico de Jesus. As informações que então colheram não foram satisfatórias, por imprecisas.

            Apelaram, por isso, para as profecias, e, mal interpretando o verdadeiro sentido do versículo 2 do capítulo LIII [2] de Isaías, concluíram eles ser Jesus completamente destituído de beleza física.

Na opinião de Celso [3], era Jesus de pequena estatura, feio e disforme.

Santo Agostinho [4] confessava: “Como seria o seu rosto, ignoramo-lo inteiramente.”

E diz Daniel-Rops [5] que, se tivermos em conta o rigor com que a ortodoxia judaica proscrevia qualquer representação da figura humana, pouco nos deve surpreender o fato de não poder ser encontrado o retrato autêntico de Jesus. E esperar-se das verdadeiras testemunhas - dos evangelistas - que nos descrevessem a aparência carnal do Mestre, é estar equivocado, tanto a respeito da psicologia deles como dos seus objetivos: não será significativo que a única descrição de Jesus, que se encontra nos quatro textos, é a do Cristo glorificado, no momento da Tranfiguração?
            Nestas condições, parece bastante inútil pretender retomar uma discussão que animou extraordinariamente a Igreja, sobretudo nos primeiros séculos, para saber se Jesus teria sido belo ou feio.

Ao passo...

que Justino, o Mártir [6], o diz ‘sem aparência, sem beleza e com aspecto desprezível;

que Irineu [7] (o mesmo que declarava ‘ignorada’ a imagem carnal de Jesus-Cristo) o classificava de ‘enfezado’;

que Orígenes [8] o tinha por ‘pequeno e sem graça’;

que Cômodo [9] fazia dele ‘uma espécie de escravo’, de figura abjeta’;

que certas lendas, mesmo, o davam como leproso, -

outros comentadores, pelo contrário, pronunciavam-se firmemente pela sua beleza, tais como

Gregório de Nissa [10],

João Crisóstomo [11],

Ambrósio[12],

Jerônimo e tantos outros.       
           
Clemente de Alexandria [13] exprimia, no entanto, uma profunda verdade, ao escrever:

 ‘Para nós que desejamos a verdadeira beleza, só o Salvador é belo’ e,

sob uma forma paradoxal, os apócrifos ‘Atos de Pedro’ [14] queriam, sem dúvida, dizer a mesma coisa: ‘era ao mesmo tempo belo e horrendo’. A verdade é que as duas teses procuravam dar força aos vaticínios da Escritura.

            Segundo consta do ‘Dictionnaire de la Bible’, de Vigouroux, teve início, em terras egípcias, uma forte reação no tocante ao físico de Jesus, tanto assim que a partir do século IV a crença de que Nosso Senhor fora o mais belo dos filhos dos homens tornou-se predominante.

            Mas, a bem dizer, faltava um documento autêntico, capaz de firmar, entre os cristãos latinos, a certeza de que o físico de Jesus não era, absolutamente, o então revelado por esses Pais da Igreja. Daí, sem dúvida, o haver surgido a idéias de forjarem a célebre carta conhecida como  ‘Epistola Lentuli’, e isto por saberem, naturalmente, que o senador Públio Lêntulus se encontrava na Ásia Menor na época em que Jesus fora crucificado.

            Note-se que essa carta continha inicialmente apenas a assinatura de Públio Lêntulus; mas, diz Vigouroux, sacerdote de Saint-Suplice, em seu aludido ‘Dictionnaire’, que os copistas, ignorando qual o título a darem ao suposto autor dessa ‘Epístola’, resolveram, sponte sua, colocar, uns, o procônsul, enquanto outros o de governador. E é perfeitamente explicável usassem esses copistas, naqueles tempos e indistintamente, tanto procônsul como governador, por serem tais palavras de sentido equivalente.

            Se consultarmos o Vocabulário Histórico-Geográfico dos Romances de Emmanuel’, de autoria de Roberto Macedo, vamos saber que procônsul quer dizer Propretor: governador de província romana, escolhido pelo Senado dentre cônsules e pretores. 

            De maneira que foi a própria Igreja que, de maneira apócrifa, declarou ter sido Públio Lêntulus governador da Judéia.

            Para o que acabamos de expender, servimo-nos das seguintes obras:
The Catholic Encyclopedia, sob os auspícios de The Knights of Columbus; Catholic Truth Comittee (Nova York); Enciclopedia Europeo-Americana, editores - Hijos de J. Espasa, Barcelona; La Grande Encyclopédie, editores H. Lamiraut & Cie., Paris; Dicitionnaire de La Bible, de Vidouroux; Jesus no seu Tempo, de Daniel Rops.

            Disse alguém que ‘há críticas e mesmo censuras que honram mais do que os elogios’. Assim, as críticas ao “Há dois mil anos...” serviram para mais realçar essa obra de indispensável valor literário e histórico, e também para evidenciar a refulgência do seu autor espiritual e a magnífica mediunidade de um Francisco Cândido Xavier.”


[1] Copyright 1939

[2] Is 53:2 ‘Cresceu diante dele como um pobre rebento enraizado numa terra árida; não tinha graça nem beleza para atrair nossos olhares, e seu aspecto não podia seduzir-nos.’

[3] Celso, o pagão (filósofo)~145 – 225  Filósofo erudito pagão de origem judia, que se colocou em defesa da religião vigente e que mais tarde viria a ser dita pagã. Escreveu Alezés lógos, ou Sermão verdadeiro (178), em que expôs sobre a religião pagã e sua reação ao messianismo judaico e cristão, tentando desacreditar a fé bíblica afirmando "A raíz do cristianismo é sua excessiva valorização da alma humana, e a idéia absurda de que Deus se interessa pelo homem". Infelizmente o prevalecimento posterior do cristianismo fez desaparecer o livro e o documento não foi conservado. A resposta do patrístico do cristianismo primitivo Origenes (185-253) se fez tardiamente (245-250), sob o título Katá Celsou (Contra Celso), em 8 partes, seguindo passo a passo ao texto. Fonte: Wikipédia.

[4] Agostinho de Hipona ou  Santo Agostinho (Tagaste, 13 de Novembro de 354-Hipona, 28 de Agosto de 430) foi um bispo, escritor, teólogo, filósofo, pai e Doutor da igreja católica. Agostinho é uma das figuras mais importantes no desenvolvimento docristianismo no Ocidente. Agostinho foi muito influenciado pelo neoplatonismo de Plotino. Ele aprofundou o conceito de pecado original dos padres anteriores e, quando o Império Romano do Ocidente começou a se desintegrar, desenvolveu o conceito de Igreja como a cidade espiritual de Deus (em um livro de mesmo nome), distinta da cidade material do homem Seu pensamento influenciou profundamente a visão do homem medieval. A igreja se identificou com o conceito de Cidade de Deus de Agostinho, e também a comunidade que era devota de Deus. Agostinho nasceu na cidade de Tagaste atual Souk Ahras, Argélia, e sua mãe, cristã, se chamava Mônica. Foi educado no Norte da África e resistiu aos pedidos da mãe para se tornar cristão. Vivendo como um intelectual "pagão", ele tomou uma concubina e se tornou um maniqueísta. Posteriormente se converteu para a Igreja Cristã, se tornou um bispo, e se opôs às "heresias", como a crença que as pessoas possuem a habilidade de escolher fazer um bem tão forte que poderia merecer a salvação sem receber a ajuda divina (pelagianismo). Fonte: Wikipédia

[5] Henri Daniel-Rops (Épinal, 19 de Janeiro de 1901 - Aix-les-Bains, 27 de Julho de 1965). Escritor e historiador francês. Seu nome verdadeiro era Henri Petiot. Fonte: Wikipédia

[6] Justino, também conhecido como Justino Mártir (100-165) foi um teólogo do século II.  Seu lugar de nascimento foi Flávia Neápolis, na Síria-Palestina, ou Samaria. Fonte: Wikipédia

[7] Ireneu de Lião, (ca. 130 — 202) foi um Padre da Igreja, teólogo e escritor cristão que nasceu, segundo se crê, na província romana da Ásia Proconsular - a parte mais ocidental da atual Turquia - provavelmente Esmirna. Fonte: Wikipédia

[8] Orígenes de Alexandria ou Orígenes de Cesaréia ou ainda Orígenes o Cristão (Alexandria, Egito c. 185- Cesaréia ou mais provavelmente Tiro, 253 d.C.) foi um teólogo, filósofo neoplatonístico patrístico. Um dos mais distintos pupilos de Amônio Sacas. Orígenes foi um prolífico escritor cristão, de grande erudição, ligado á Escola de Alexandria, no período pré-niceno.

Inspirados em Orígenes e na Escola de Alexandria, muitos escritores cristãos desenvolveram suas obras: Sexto Júlio Africano; Dionísio de Alexandria, o Grande; Gregório Taumaturgo, Firmiliano, bispo de Cesaréia (Capadócia); Teognosto, Pedro de Alexandria, Pânfilo e Hesíquio. Fonte: Wikipédia

[9] Cômodo Lúcio Aurélio Cómodo (português europeu) ou Cômodo (português brasileiro) Antonino (em latim: Marcus Aurelius Commodus Antoninus; Lanúvio, 31 de Agosto, 161 - Roma, 31 de Dezembro, 192) foi um imperador romano que governou de 180 a 192.  É frequentemente citado como tendo sido um dos piores imperadores romanos, tendo o seu reinado marcado o final da chamada era dos Cinco bons imperadores. Fonte: Wikipédia

[10] Gregório de Nissa (Cesaréia, Capadócia:330 -395): Teólogo, místico e escritor cristão. Padre da Igreja e irmão de Basílio Magno, faz parte, com este e com Gregório Nazianzeno, dos assim denominados Padres Capadócios. Fonte: Wikipédia

[11] João Crisóstomo, (349, Antioquia da Síria, hoje Antakya, no sul da Turquia - 14 de Setembro de 407) foi um teólogo e escritor cristão, Patriarca de Constantinopla no fim do século IV e início do V. Sua deposição em 404 produziu uma crise entre a Santa Sé e a Sé Patriarcal. Pela sua inflamada retórica, ficou conhecido como Crisóstomo (que em grego significa «boca de ouro»). Fonte: Wikipédia

[12] Ambrósio de Milão (Trier, Alemanha 340 - 4 de abril de 397),  foi bispo da atual Arquidiocese de Milão, e é considerado um dos Pais da Igreja. Foi ele quem ministrou o batismo a Agostinho de Hipona. É considerado um dos quatro máximos doutores da Igreja, aprendeu de Orígenes a conhecer e a comentar a Bíblia. Fonte: Wikipédia

[13] Clemente de Alexandria ou Tito Flávio Clemente (Atenas (?), c. 150 - Palestina, 215) foi um escritor, teólogo cristão grego nascido em Atenas. Pesquisou as lendas menos compatíveis com os valores cristãos. Sua abertura a fontes familiares aos não cristãos ajudou a tornar o cristianismo mais aceitável para muitos deles. Clemente foi um erudito numa época em que os cristãos eram geralmente pouco letrados e abertamente hostis a intelectuais. Fonte: Wikipédia

[14] Atos de Pedro - O texto datado do 2º século, é constituído de uma alegoria inicial, semelhante à descrita no Evangelho de Mateus, do negociante de pérolas (Mateus 13:44ss.) mas que aqui está vendendo uma pérola de grande valor. O negociante é evitado pelos ricos, mas os pobres vão a ele em grande quantidade, e descobrem que a pérola está guardada na cidade natal do negociante, "Nove Portões", e aqueles que quiserem a pérola deverão empreender a dura viagem até Nove Portões. O nome do negociante é Lithargoel, que traduzido é pérola, ou seja, o próprio negociante é a pérola. Por fim, o negociante se revela como sendo o próprio Jesus.




quinta-feira, 31 de março de 2011

'O Retrato de Jesus' 04/04




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O texto, conforme Leopoldo Cirne:
           
‘Retrato de Jesus’
            “Existe atualmente na Judéia um homem de uma virtude singular, a quem chamam Jesus Cristo; os bárbaros tem-no como profeta; os seus sectários o adoram como sendo descendido dos deuses imortais.
            Ele ressuscita os mortos e cura os doentes, com a palavra ou com o toque; é de estatura alta e bem proporcionada; tem semblante plácido e admirável; seus cabelos são de uma cor que quase se não pode definir, caem-lhe em anéis até abaixo das orelhas e derramam-se-lhe pelos ombros com muita graça, separados no alto da cabeça, à maneira dos Nazarenos.
            Sua fronte é lisa e larga, e suas faces são apenas marcadas de admirável simetria: sua barba, densa e de uma cor que corresponde à de seus cabelos, desce-lhe uma polegada abaixo do queixo e, dividindo-se pelo meio, forma mais ou menos a figura de um forcado.
            Seus olhos são brilhantes, claros e serenos.
            Ele censura com majestade, exorta com brandura; quer fale, quer obre, fá-lo com elegância e com gravidade. Nunca o viram rir; tem-no, porém, visto chorar muitas vezes.   
            É muito sóbrio, muito modesto e muito casto. Enfim é um homem que, por sua beleza e perfeição, excede os outros filhos dos homens.”

            Finalmente, apresentamos o texto em outra versão. Agora, de Gustavo Macedo:

            Vê-se agora na Judéia um homem de uma virtude singular, que chamam Jesus Cristo. Os judeus pensam que é um profeta, mas os seus sectários adoram-no como tendo descendido dos Deuses Imortais. Resuscita os mortos e cura toda a espécie de enfermidades, pela palavra ou pelo contato. É de estatura assaz alta e bem formado, de porte suave e venerável.
            Os cabelos são de uma cor a que eu não poderia facilmente comparar outros; caem anelados até embaixo das orelhas, donde se espargem pelos ombros, com muita graça dividindo-o no alto da cabeça, ao modo dos nazarenos.
            A sua fronte é lisa e espaçosa, as faces coloridas por um ligeiro rubor; o nariz e a boca conformados com agradável simetria.
            A barba, espessa, é da cor correspondente à dos cabelos. Descendo uma polegada abaixo do queixo e dividindo-se ao centro, toma pouco mais ou menos a configuração de uma forquilha.
            Os olhos brilham-lhe claros e serenos. Censura com majestade, exorta com mansidão. Ou seja que fale ou que proceda, fá-lo com elegância e gravidade.
            Nunca o viram rir, algumas vezes, o viram chorar. É muito moderado no seu todo, muito modesto e discreto. Finalmente é um homem que, pela sua singular beleza e divinas proporções, ultrapassa os filhos dos homens.”

                  Aqui chegamos. São muitas as variantes a pesquisar. Não que busquemos o texto original. Sabemos que, como os Evangelhos, o ‘Retrato de Jesus’ deve ter sofrido alterações, interpolações, supressões etc., além do que não tem a importância daqueles. Fica, porém, esse material à disposição de algum pesquisador que queira levar o assunto adiante pelo simples prazer de viver e reviver as coisas principais.

'O Retrato de Jesus' 03/04




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             Gustavo Macedo indica também, como referência, a nota do Padre Luiz Picard na “TRANSCENDENCE DE JESUS - CHRIST” tomo 1º, pag. 417”.
            A busca não parou aí. Ao reler a introdução que Elias Barbosa escreveu em “Entrevistas”, por Chico Xavier / Emmanuel (7ª Edição IDE - Agosto 1991), destacamos “... Emmanuel, ao tempo de Jesus, se chamou Publio Lêntulus, e ao que se sabe foi a única autoridade que efetuou perfeita descrição dele, o Cristo, através de célebre carta (1) publicada em numerosas línguas,...”
           Na chamada de rodapé, Elias Barbosa indica:
             ‘(1) Cf. Almerinda Rodrigues de Melo “Para  Conhecer e Amar Jesus”, 2ª Ed. 1936, autorizado por D. Duarte Leopoldo e prefaciado por Carolina Ribeiro; e Reynaldo Kunts Busch, “Padre Manoel da Nóbrega, Missionário e Educador”, São Paulo, 1970, pág. 28.’
            São nossas 4ª e 5ª fontes de pesquisa.
            Chegamos ao mês de outubro de 1996 e seguimos com  pesquisas no Reformador, iniciadas em 1903 e, até aqui, atingindo o ano de 1944 (Agosto), e nos deparamos com artigo de Sílvio Brito Soares sob título “Públio Lêntulus”. No corpo do artigo, Sílvio Brito Soares faz referência ao artigo publicado no ‘Diário de Notícias’ de 21 de julho de 1944, assinado por Silvano Cintra de Melo, que reproduzimos:
            “Em ‘La Grande Encyclopedie’ - tomo 22 - Editeur, H. Lamirault et Cie., Paris e ‘Enciclopedia Universal Ilustrada-Europeo-Americana”, tomo XXIX, Editores, Hijos de J. Espasa, Barcelona, lê-se o seguinte:
            “Públio Lêntulus - Suposto predecessor de Pôncius Pilatos, na Judéia, a quem é atribuída a autoria de uma carta dirigida ao Senado e povo romano, relatando a existência de Jesus Cristo.” A Enciclopédia espanhola adianta mais: “Por essa carta, Públio Lêntulus oferece pormenores sobre o aspecto exterior de Jesus e de sua qualidades morais, terminando-a com a afirmativa de que o Cristo era ‘o mais formoso dos filhos dos homens’. A origem deste documento é desconhecida; o certo é que foi impresso pela primeira vez na “VITA CHRISTI”, de Ludolfo Cartujano (Colônia, 1474)   e, pela segunda vez, na introdução das obras de Santo Anselmo (Nuremberg, 1491).
             A carta também se encontra referida na publicação ‘Lar Católico’, acreditadamente do ano 1940, em artigo do frei Benvindo Destefani.”
            As duas enciclopédias e a publicação ‘lar Católico’ são nossas 6ª, 7ª e 8ª fontes de pesquisa.
            Em Setembro de 1967, o Reformador (FEB) apresentava, à página 207,  artigo de Sylvio Brito Soares sob o título... “A Mediunidade de Chico Xavier e a Crítica”. É o que leremos a seguir:
            “Ao comemorarem agora, os quarenta anos ininterruptos de trabalhos mediúnicos de Francisco Cândido Xavier, acreditamos seria interessante lembrar uma crítica então feita no tocante a supostas inverdades contidas no romance escrito mediunicamente pelo Espírito de Emmanuel, e intitulado “Há dois mil anos...”
            Resumia-se essa crítica no fato de que jamais existiu Públio Lêntulus, uma das encarnações de Emmanuel, e que, portanto, jamais poderia ter sido ele ‘governador da Judéia’, ao tempo de Jesus.
            Fôramos, na época, entrevistado a respeito pelo redator de um vespertino desta Capital, quando, então, tivemos ensejo de lhe prestar os seguintes esclarecimentos: Quem lê “Há Dois Mil Anos...”, verifica que, nesse romance, não há qualquer referência a Publio Lêntulus como governador da Judéia. É que o crítico ouviu cantar o galo, sem, entretanto, saber onde.
            Foi Públio Lêntulus, de fato, senador romano, mas, por motivos de ordem particular, viveu longos anos na Palestina. César, para justificar sua ausência de Roma, confiara-lhe missão especial, talvez de caráter reservado, permitindo-lhe, assim, direito à percepção de subsídios.
            Consta mesmo do relato de Emmanuel que Públio Lêntulus escrevera longa carta a um amigo seu residente na Capital dos Césares, com vistas ao Senado Romano, sobre a personalidade de Jesus, encarando-a serenamente, sob o restrito ponto de vista humano, sem nenhum arrebatamento sentimental.
            Por ocasião da célebre Páscoa do ano de 33, encontrava-se Públio Lêntulus em Jerusalém, quando Pôncio Pilatos, embaraçado com o julgamento de Jesus, solicitara ao Senador o obséquio da sua presença no palácio do governo provincial,
a fim de solucionar um caso de consciência.
            Públio Lêntulus estava, pois, investido de amplos poderes, na qualidade de emissário de César e do próprio Senado; a ele, portanto, todas as autoridades da província, inclusive o próprio governador,
eram obrigadas a prestar obediência.
            Até aqui, evidentemente, utilizamo-nos, apenas, dos subsídios históricos contidos no livro “Há dois mil Anos...”.
            Agora, preciso se faz esclareçamos que, durante os primeiros séculos do Cristianismo, os Pais da Igreja viviam desejosos, como era natural, de conhecer o retrato físico de Jesus. As informações que então colheram não foram satisfatórias, por imprecisas. Apelaram, por isso, para as profecias, e, mal interpretando o verdadeiro sentido do versículo 2 do capítulo LIII de Isaías, concluíram eles ser Jesus completamente destituído de beleza física. Na opinião de Celso, era Jesus de pequena estatura, feio e disforme. Santo Agostinho confessava: “Como seria o seu rosto, ignoramo-lo inteiramente.”
            E diz Daniel-Rops que, se tivermos em conta o rigor com que a ortodoxia judaica proscrevia qualquer representação da figura humana, pouco nos deve surpreender o fato de não poder ser encontrado o retrato autêntico de Jesus. E esperar-se das verdadeiras testemunhas - dos evangelistas - que nos descrevessem a aparência carnal do Mestre, é estar equivocado, tanto a respeito da psicologia deles como dos seus objetivos: não será significativo que a única descrição de Jesus, que se encontra nos quatro textos, é a do Cristo glorificado, no momento da Tranfiguração?
            Nestas condições, parece bastante inútil pretender retomar uma discussão que animou extraordinariamente a Igreja, sobretudo nos primeiros séculos, para saber se Jesus teria sido belo ou feio. Ao passo que Justino, o Mártir, o diz ‘sem aparência, sem beleza e com aspecto desprezível; que Irineu (o mesmo que declarava ‘ignorada’ a imagem carnal de Jesus-Cristo) o classificava de ‘enfezado’; que Orígenes o tinha por ‘pequeno e sem graça’; que Cômodo fazia dele ‘uma espécie de escravo’, de figura abjeta’; que certas lendas, mesmo, o davam como leproso, - outros comentadores, pelo contrário, pronunciavam-se firmemente pela sua beleza, tais como Gregório de Nissa, João Crisóstomo, Ambrósio, Jerônimo e tantos outros.
            Clemente de Alexandria exprimia, no entanto, uma profunda verdade, ao escrever: ‘Para nós que desejamos a verdadeira beleza, só o Salvador é belo’ e, sob uma forma paradoxal, os apócrifos ‘Atos de Pedro’ queriam, sem dúvida, dizer a mesma coisa: ‘era ao mesmo tempo belo e horrendo’. A verdade é que as duas teses procuravam dar força aos vaticínios da Escritura.
            Segundo consta do ‘Dictionnaire de la Bible’, de Vigouroux, teve início, em terras egípcias, uma forte reação no tocante ao físico de Jesus, tanto assim que a partir do século IV a crença de que Nosso Senhor fora o mais belo dos filhos dos homens tornou-se predominante.
            Mas, a bem dizer, faltava um documento autêntico, capaz de firmar, entre os cristãos latinos, a certeza de que o físico de Jesus não era, absolutamente, o então revelado por esses Pais da Igreja. Daí, sem dúvida, o haver surgido a idéias de forjarem a célebre carta conhecida como  ‘Epistola Lentuli’, e isto por saberem, naturalmente, que o senador Públio Lêntulus se encontrava na Ásia Menor na época em que Jesus fora crucificado.
            Note-se que essa carta continha inicialmente apenas a assinatura de Públio Lêntulus; mas, diz Vigouroux, sacerdote de Saint-Suplice, em seu aludido ‘Dictionnaire’, que os copistas, ignorando qual o título a darem ao suposto autor dessa ‘Epístola’, resolveram, sponte sua, colocar, uns, o procônsul, enquanto outros o de governador. E é perfeitamente explicável usassem esses copistas, naqueles tempos e indistintamente, tanto procônsul como governador, por serem tais palavras de sentido equivalente.
            Se consultarmos o ‘Vocabulário Histórico-Geográfico dos Romances de Emmanuel’, de autoria de Roberto Macedo, vamos saber que procônsul quer dizer Propretor: governador de província romana, escolhido pelo Senado dentre cônsules e pretores. 
            De maneira que foi a própria Igreja que, de maneira apócrifa, declarou ter sido Públio Lêntulus governador da Judéia.
            Para o que acabamos de expender, servimo-nos das seguintes obras: The Catholic Encyclopedia, sob os auspícios de The Knights of Columbus; Catholic Truth Comittee (Nova York); Enciclopédia Universal Europeo-Americana, editores - Hijos de J. Espasa, Barcelona; La Grande Encyclopédie, editores H. Lamiraut & Cie., Paris; Dicitionnaire de La Bible, de Vigouroux; Jesus no seu Tempo, de Daniel Rops.
            Disse alguém que ‘há críticas e mesmo censuras que honram mais do que os elogios’. Assim, as críticas ao “Há dois mil anos...” serviram para mais realçar essa obra de indispensável valor literário e histórico, e também para evidenciar a refulgência do seu autor espiritual e a magnífica mediunidade de um Francisco Cândido Xavier.”