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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Geley: apóstolo da ciência cristã


Geley:
apóstolo da ciência cristã

Gilberto Campista Guarino
Reformador (FEB) Juho 1974

            Ideias novas constituem testes avançados para quem quer que ouse esposá-las. Em todos os tempos, em todas as regiões, houve dúvidas quanto à veracidade dos fatos; o raciocínio foi e continuará sempre a ser o grande  trunfo do espírito chegado ao reino humano. Mas, difícil faz-se de compreender que o homem se utilize desse raciocínio, atarrachando a própria consciência à baliza da negativa infundada. É atitude que contraria a própria essência da faculdade de discernimento. É profundamente estranha a verificação da atividade consciencial "lutando" por menos entender todas as coisas, por perder progressivamente a noção da própria vida. Felizmente, essa não é regra geral, embora digam que a exceção confirma a regra. Dentro da Ciência, preocupada com o esclarecimento da vida, do Universo, houve sempre e sempre haverá o legítimo cientista, isto é, aquele que, lançando mão dos métodos científicos, prossegue na pesquisa sem espírito prevenido, sem a má vontade dos falsos pesquisadores e com a lúcida atenção do cérebro e do coração.
           
            A antiga Metapsíquica que, na classificação de Charles Robert Richet - o genial descobridor da anafilaxia, pacifista emérito, estudioso do calor animal -, ocupa lugar de destaque no desenvolvimento do Século XIX, é, no seu conceito, "a ciência que tem por objeto os fenômenos físicos ou psicológícos devidos a forças que parecem inteligentes, ou a faculdades desconhecidas do espírito". Esse o Richet ainda não convicto da realidade do Espírito imortal, da sobrevivência do ser. Eis agora o mesmo cientista depois das pacientes pesquisas efetuadas na companhia de inúmeros estudiosos de grande mérito: "O mundo oculto existe. Correndo o risco de ser olhado por meus contemporâneos como um insensato, creio que existem fantasmas." ("Revue Spirite" de setembro de 1937, pág, 396.)

            Ora, o enunciador do conceito de metapsíquica, se não endossava a hipótese espírita, naquela época, não deixava de afirmar a existência de um espírito desconhecido, reconhecendo-lhe faculdades também desconhecidas. Atualmente, os seres que pareciam inteligentes já dão mostras de raros conhecimentos e, também, de "conhecimentos raros", e são eles mesmos que nos recordam sempre a importância das vidas desses primeiros pesquisadores, dedicadas inteiramente à tarefa do aclaramento da inteligência humana.

            Como introdução, cabe apenas citar os nomes de, por exemplo, Myers, Podmore, Hodgson, Aksakof, Bernheim, René Sudre, Ochorowsky, Delanne, Schrenck-Notzing e outros investigadores célebres, todos adeptos da Metapsíquica, alguns concluindo a favor da hipótese espírita, como Aksakof, Bozzano - o refutador de René Sudre e de Morselli -, e outros pugnando pela inverdade do Espiritismo, como o próprio René Sudre, autor de "Introdução à Metapsíquica Humana", obra de tristes raciocínios ditos científicos, mas de inusitado valor informático e histórico. Nessa pequenina lista de celebridades deixamos de incluir um dos mais famosos nomes, justamente pelo fato de ser ele a figura central do nosso estudo, e cujo cinquentenário de desencarnação se comemora este mês. Trata-se do Dr. Gustave Geley, antigo interno dos hospitais de Lyon, laureado pela Faculdade de Medicina da mesma cidade graças à sua obra "Des applications périphériques de certains alcaloïdes ou glucosides".

            Pelo que nos informa a "Revue Spirite", de 1924, o Dr. Geley reencarnou em 1868, em Montceau-Ies-Mines, França. Cursou a Faculdade de Medicina de Lyon, estabelecendo-se, posteriormente, em Annecy, já com farta bagagem de realizações, inclusive a precitada tese premiada.

            A vida de Geley era moldada pela mais absoluta integridade moral, sendo, inclusive, criatura profundamente estimada por seus amigos e conhecidos. Foi sempre um homem assaz acatado. Positivista, reencarnado em pleno século em que fervilhavam as asserções de Auguste Comte, Gustave Geley extraiu do Positivismo tudo quanto lhe poderia este conceder. Soube separar o joio do trigo, discernindo entre o que servia e o que não era de grande utilidade, os exageros distinguindo da realidade clara. É fato sabido, no Espiritismo, que - em nossa atual posição - o imperativo do mal é a válvula de libertação para a grande ala do bem; é por aquele que alcançaremos a paz interior. Pois, soube o Dr. Geley retirar do Positivismo tudo o que de bom lhe poderia ele conferir. Seu raciocínio moldou-se de forma altamente científica, jamais - aceitando o que pesquisado e provado não fosse. Isso foi a preparação de um trabalho importantíssimo, a ser futuramente desenvolvido com tanta propriedade e argúcia. E, já que falamos levemente em Positivismo, não será demais recordar, em favor das concepções espiritistas, que o próprio Comte pontilhou seus últimos momentos na terra de uma espiritualidade contundente.

            Em 1918, funda-se o Instituto de Metapsíquica Internacional, sendo Geley seu presidente até o ano de 1924, quando desencarnou em desastre aviatório. Os rumos que tomaria esse famoso Instituto nos levam a crer que Geley, de fato, precisaria de mais esse estágio a fim de compreender os posicionamentos de certos "cientistas" que, para desmascarar a "pantomima" espírita, não hesitaram em promover polêmicas acerbas e as mais chulas celeumas. Aqui, ainda uma vez, relembramos as diatribes de Morselli ao parecer espírita, diatribes essas tão veementemente bem destroçadas pela impressionante lógica de Ernesto Bozzano.

            Quando se examina a obra de René Sudre "Introduction à Ia Métapsychique humaine", Paris, Payot, 1926, bem se observa o espírito prevenido contra o que Geley apelidava de "hípothéses nouvelles" (hipóteses novas); dentre elas, situavam-se a exteriorização e a subconsciência. A primeira foi fartamente tratada pelo coronel Conde Albert de Rochas d' Aiglun. Da segunda, Geley e Myers retiraram todas as ilações compatíveis com as possibilidades da época, indo mesmo adiante. O que diferencia os dois sábios (que como tal não se consideravam) era, basicamente, a diferença de raciocínios: Geley é preciso ao extremo, de razões mais cristalinas que água sobre cristais de rocha. Myers não é tão acessível, às vezes apresentando suas opiniões de modo bastante prolixo. Diga-se, não podemos considerar tal coisa como propriamente um defeito. Além disso, é agradavelmente interessante notarmos o método de Geley, no qual há muito de intuição (contrariando até mesmo os ditames do Positivismo) , mas no qual essa intuição não é lúdida, e sim obediente aos caminhos da prudência, porque lhe são meio e não fim.

            Nessa Metapsíquica, que primou pela contestação gratuita e infantil - como no caso do próprio René Sudre, inteligente e perspicaz, porém apaixonado, mas que também encontrou a própria defesa e justificativa na aquilina visão de Charles Richet -, Geley desponta como figura de primeiro plano.

            Interessou-se especialmente pela MetapsíquIca Física. Nesse campo, examinou as produções do engenheiro polonês Ossowiecki, junto de Richet e de Sudre. Este último narramos extraordinária experiência a que assistiu com o médium. Sudre colocou dentro de um vidro opaco um bilhete no qual escreveu a seguinte frase de Pascal:

            "O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza; mas um caniço que pensa." Concentrando-se sobre o papel escrito, eis o que disse o médium:

            - "Isso concerne à humanidade... ao homem, melhor dizendo. .. :É uma criatura, a mais tola. .. :É algo do homem... Tenho a intuição da tolice. .. :É um provérbio. .. São ideias de um dos mais importantes homens do passado ... Pascal, eu diria.    O homem é fraco ... um caniço fraco ... mas ...fraqueza ... e também o mais pensativo dos caniços."

            No Congresso de Varsóvia, onde estavam Geley e René Sudre, Ossowiecki decifrou diante de numerosas pessoas um documento que havia sido preparado na Inglaterra, pelo investigador da Sociedade de Pesquisas Psíquicas inglesa, nessa época Mr. Dingwall.

            Geley, na sábia e quieta observação, deixava aos menos avisados a fúria do palavrório inútil. E prosseguia, ainda não satisfeito.

            Mais adiante, junto a Schrenck-Notzing, esquadrinhou os fenômenos de levitação de Willy, principalmente da última vez em que esteve em Viena, experiências essas levadas a efeito na casa do Dr. Holub, metapsiquista igualmente. As fotografias desses fenômenos podem ser encontradas no hoje raríssimo e ultra precioso livro de Schrenck-Notzing "Os Fenômenos Físicos da Mediunidade". Quando terminaram suas experiências com Willy, Geley estava convicto da autenticidade do ocorrido. As práticas eram realizadas sob a leve claridade de uma lâmpada vermelha, estando o médium vestido com uma roupa coberta de pontos fosforescentes, de modo que seu corpo permanecia totalmente visível nessa penumbra. Levitava horizontalmente e, como afirma René Sudre, "parecia carregado por uma nuvem invisível". Continuava levitando, até que atingisse o teto, lá permanecendo por volta de cinco minutos, a agitar as pernas atadas uma a outra. A descida, pelas narrativas que coligimos, era na igual velocidade da subida: ambas verificavam-se de modo relativamente brusco. Como vemos, não havia possibilidade de fraude.

            Em outra época, acompanhado de Charles Richet, presenciou os raros fenômenos de formações ectoplásmicas de animais, com o médium Guzik, também polonês. Geley narra por diversas vezes - inclusive nos anais do Instituto que dirigia - o estranho contato que lembrava o roçar da cauda de um cachorro no tecido de seus costumes, além da presença de outras formas de animais que exalavam o odor de fava.

            Nessa mesma etapa de sua vida, realizou e presenciou experiências de fluido mumificador, mumificando animais por meio de passes. A respeito, pronunciou profunda preleção, afirmando que mesmo os animais maiores conservavam-se tão bem quanto se houvessem sido empalhados. Além disso, notou que os parasitas microscópicos eram destruídos por essa ação fluídica, o que o levou a concluir que a ação fluídica do médium era microbicida indireta; indireta porque se processava graças ao reforço que emprestava aos tecidos. Foi assim que Geley ligou o fenômeno ao campo da Metapsíquica Curativa, o que é hoje amplamente difundido no Espiritismo Experimental. Nesse particular, os frescos egípcios demonstram a realidade do aproveitamento das forças magnéticas humanas na mumificação, onde, dentre outros componentes, eram aproveitadas a energia solar e a polaridade natural. Recentemente, nos Estados Unidos, hão sido realizadas experiências desse teor, com a conservação de pedaços de carne animal por muitos dias consecutivos, apenas com base na imposição das mãos.

            De 1922 a 1923, Geley conduziu sessões no Instituto de Metapsíquica Internacional, com Guzik e com Franeck Kluski. Essas sessões eram desenvolvidas sob as mais rigorosas condições: os médiuns estavam vestidos com roupa especial, amarrados nos pulsos e nas pernas e ligados aos assistentes por fios resistentes. Nessa empresa foram vistas súbitas luzes entre cortadas, voando numa certa altura, formando, depois, dois belos olhos. Ao lado desses olhos, esboçavam-se posteriormente traços luminosos, a formar um rosto; depois, surgia, perfeitamente visível, a cabeça. De repente, uma "voz rouca indefinível" (palavras de Geley) pronunciou em alemão "Guten Morgen". Nessas mesmas reuniões, luzes estranhas esvoaçavam sobre o piano do salão, fechado a chave, furtando-lhe quatro ou cinco sons subsequentes.

            Com Kluski, realizou também experiências de materializações de formas de animais, tendo visto a presença de enorme águia pousada sobre os ombros desse médium. Esse estranho animal, produzido também em sessão onde se achavam Richet e Geley, foi por eles chamado de Pitecantropo. Observaram ainda a materialização de um homem barbado, com voz rouca, que tocava o rosto dos presentes. Analisando a ocorrência, Geley chegou à conclusão de que esse homem não passava de criação do médium, a partir da exteriorização de ectoplasma (teleplasma, para Schrenck-Notzing; eflúvios ódicos, para Reichembach), uma vez que tal ser obedecia sempre aos pensamentos do sensitivo, não apresentando autonomia de vontade.

            Geley não se satisfazia com pouco, até que obteve os célebres moldes, também com Kluski, além das impressões na parafina, prenúncios da datiloscopia efetuada com as materializações obtidas com Anna Prado, no Pará. Nesses casos, mais uma vez entrou em cena a prudência. Colocava-se um balde repleto de água bastante quente ao lado de outro, pleno de parafina em fusão. A forma mergulhava - em geral braços ou pés - dentro de um e de outro, fazendo com que endurecesse a parafina. Depois desmaterializava o membro, sem partir a substância. Geley, já plenamente certificado da impossibilidade de qualquer fraude (as reuniões eram realizadas sob austeríssimas condições), resolveu adicionar ao banho de parafina determinada quantidade de colesterina, gordura que existe no sangue. Ao final do empreendimento, foi achada essa mesma substância nos moldes deixados.

            Nas primeiras sessões do Instituto de Metapsíquica, foram obtidos nove moldes, dos quais sete eram de mãos, um de pés e outro de queixos e lábios. O tamanho destes últimos era perfeitamente normal, estando os demais reduzidos de um quarto, se bem que apresentassem sempre as características de membros adultos. Geley observava, dentre outros aspectos, os pormenores da pele, idênticos aos de um membro "vivo".

            As mãos entrelaçadas e ligadas Geley só as obteve nas sessões de 1921 e 1922. Essas moldagens foram, quando examinadas por cinco peritos em moldes, consideradas não como sobremoldagens, mas "como moldes originais". Os peritos ficaram atônitos com a finura das paredes de parafina, jamais ultrapassando a espessura de um milímetro, perante o que afirmaram que apenas uma mão viva poderia ter servido de molde. Todos os artistas declararam-se impotentes para reproduzir ao que chamaram de obra de arte.

            Foi, no entanto, com Marthe Béraud (Eva Carrière) que Geley realizou o maior número de experimentações. Sua obra "Do Inconsciente ao Consciente" baseia-se em maior parte nos fenômenos observados com a sensitiva, que produzia materializações diminutas de rostos, mãos e cabeças inteiras. Eva Carrière submeteu-se a todas as exigências de Geley, em proveito da Ciência, razão pela qual o eminente cientista lhe dirigiu tocante agradecimento, apresentando-lhe o "muito obrigado" da parte dessa mesma Ciência. A médium era despida e vestida, a seguir, com um gabão negro, tendo essa roupa sido investigada por senhoras da confiança do Dr. Geley. Depois disso, era amarrada à cadeira, amordaçada e totalmente cerceada em seus movimentos, tendo a mão segura por Geley. O ambiente era iluminado por suave luz vermelha.

            Também experimentou a fotografia, com Kluski, tendo surpreendido um oficial, completamente fardado, que passou a insistir sobre as peculiaridades do barrete, dos botões do uniforme, dos cordões das botas, etc. Mesmo assim Geley afirmou peremptoriamente que "muito tinha ainda a aprender sobre esse assunto" ("Revista de Metapsíquica", 1925, pág. 30).

            Pelo pequenino resumo que efetuamos da experiência científica de nosso personagem, há alguns pontos que ressaltam a olhos vistos:

            - Geley era investigador intransigente;
            - buscava os resultados através de diversos sensitivos;
            - desse conjunto de fatos, partia em direção a uma possível resposta;
            - para atingir essa resposta, examinava todas as teorias já formuladas sobre o assunto; analisava-as, aceitando-as ou não;
            - escolhia as que primassem pela lógica;
            - com elas, à luz delas, enfocava o ocorrido,  concluindo - num segundo exame - sobre sua real procedência;
            - confrontava-as com o seu parecer;
            - tirava a "média" entre eles, procurando mostrar sempre os prós e os contras;
            - concluía.

            Só poderia agir desse modo um indivíduo cujo raciocínio e intuição funcionassem em obediência a determinado esquema evolutivo superior. Geley, por tudo isso, trouxe ao nosso conhecimento colaboração de difícil estimativa, contribuindo para a decisiva descoberta científica do espírito humano, com a final corroboração dos princípios espiritistas.

            Tendo pesquisado muito, até exaustivamente, formulou teorias necessárias ao entendimento da matéria, de modo a apresentar todas as contradições aparentes e possíveis, para depois destruí-las pela razão esclareci da. Resumiremos seu ponto de vista:

            A unidade da substância orgânica preocupou-o de modo assaz perceptível. Para Geley, o ectoplasma -- termo de eleição de Richet, não nos esqueçamos - é, em sua essência, um prolongamento fisiológico do médium. É a substância íntima, viva, componente do ser humano, extremamente sensível, úmida, coleante, viscosa, levemente acinzentada (atualmente, sabemos que a alvura dessa matéria é instável, dependendo quase sempre da condição evolutiva da entidade); em linguagem moderna, é o plasma biológico que compõe a criatura. Sua tessitura, para nós, varia de acordo com a evolução do ser, evolução essa que, para Geley, se faz através da gradativa expansão do ser, desde o estado de inconsciência até ao da consciência plena e abrangente, quando o Espírito passa a ser "um só com Deus". Nesse ponto - o da expansão consciencial progressiva -, recomendamos aos interessados o estudo das teorias de Myers, na obra "Human Personality", bem como a obra de André Luiz "Evolução em Dois Mundos". Ainda será interessante e altamente proveitosa a análise da obra de Gabriel Delanne, principalmente os brilhantes estudos a respeito do perispírito, suas propriedades funcionais adquiridas, seu amplíssimo desempenho na vida do Espírito, até que - purificado (ou puro desde o início) -, não precise ele de perispírito, no dizer de Max (Bezerra de Menezes), no excelente artigo "O Corpo Fluídico de Jesus", inserido em "Reformador" de março último. O ectoplasma, em outras palavras, é o próprio médium parcialmente exteriorizado. Mas, observou o cientista que essa substância é indiferenciada: não é nem tecido nervoso, nem tecido muscular, nem tecido conjuntivo; não é nem mesmo um amálgama celular. Ê substância única, que obedece a comandos de organização e de desorganização do ser subconsciente, podendo tomar todas as formas da vida, trazendo em si mesma o movimento da própria vida.

            Desejando estudá-Ia, Geley precisou estabelecer os campos limitados da Fisiologia, da Psicologia normal e da Psicologia anormal. Quanto a isso, enviamos o leitor à obra "O Ser Subconsciente". Do exame dessa tripla caracterização científica, ele começa por recordar que a Biologia normal nos demonstra que todo ser organizado provém de uma célula. De fato, teríamos a ordem normal estudada pela ciência. Mas - raciocinava --, em certos casos, observa-se o surgimento de uma borboleta, por exemplo, a partir de uma aparente desorganização: é a crisálida que se reduz a um amontoado de substância, com o desaparecimento de qualquer "figuração celular", em sua própria linguagem. Dessa massa aparece um outro animal, de novas características físicas e psíquicas. Era o estudo do cientista aplicando o método já exposto, inclusive a analogia, e mostrando no campo da própria natureza animal a base dos fenômenos ditos paranormais. Atualmente é a histólise do inseto (sucessão de destruições transformativas que levam a um outro estado natural), consistindo em verdadeira materialização, na qual o médium será a crisálida donde sai o "fantasma" (como se costumava dizer), que é a borboleta. O casulo representa o gabinete, destinado a proteger a operação complexa das formas materializadas.

            Assim raciocinando, Geley observou a importância prática do estudo da Fisiologia normal e anormal, explicando o conjunto de fatos ocorridos, bem como a Psicologia, também normal e anormal, lançando luzes sobre o aspecto psíquico do mesmo conjunto de fatos. Prosseguindo, viu que se toda essa gama notável de ocorrências obedecia a um sistema organizador ou desorganizador, que manipulava uma substância primordial única, dando origem a representações, não mais haveria razão para bipartir o campo científico: haveria apenas uma Fisiologia, a superior;  uma Psicologia, a de igual modo superior, cada uma delas atuando em seu campo, Era a chegada do homem aos sistemas de compreensão da unidade do próprio Universo. Novidade? Não. Geley dava exemplo da própria teoria: a penetração e expansão consciencial do Espírito no todo universal. Nós vivemos em meio a representações que estampam determinados estados, estados esses que obedecem às necessidades íntimas da evolução, abrindo ao homem imenso campo de atividade Intelecto-moral-espiritual. E é nesse próprio campo que a analogia nos apresenta a possibilidade de compreensão da riqueza de possibilidades, tanto do fenômeno humano quanto do sobre-humano, se assim nos podemos expressar. É preciso admitir a necessidade de um dinamismo superior que organiza, centraliza e dirige essa substância, para que se entenda a variedade impressionante produzida pela substância primordial, causa única, simples, e seus efeitos variados, de grande riqueza.

            Que força diretora será essa? Para Geley ela representa o ponto de união, precisamente aquele que justifica a unidade da ciência superior, englobando os aspectos menores: é a faculdade organizadora e desorganizadora do ser subconsciente, de Geley, e a ideia diretriz, de Claude Bernard. No entanto, a superioridade daquela lança sombras de esquecimento sobre a segunda. O ser subconsciente, liberado em determinados estados de exteriorização total, penetrando o mundo invisível, adquire amplo espectro de ação, não sendo efeito, mas causa. Destarte, a ideia diretriz seria elucubração do ser subconsciente, assim como a mente tem a norteá-la a emissão do Espírito consciente. É o mais englobando o menos.

            Aqui cabe citar outra peculiaridade do método geleyano: o mais pode o mais, atua sobre o menos. Assim, o Doutor pesquisa o fato complexo, onde se encontra subentendido e englobado o menos complexo: só se atém a este último no caso de ser imprescindível esse proceder. Como vemos, eis o papel da intuição, aliada à razão de que inicialmente falamos: encontrar, do melhor modo possível, o MAIS. Isso não é empírico: é produto de larga experiência científica, de observação arguta e percuciente, bem característica dos integrantes da grei dos defensores do esclarecimento humano.

            Em todo esse processo construtor há reparadores responsáveis pela manutenção da integridade do modelo. É precisamente a propriedade da substância una, movimentada pela faculdade organizadora da vontade. É esse ectoplasma a substância vital, "mantenedora e reparadora", no dizer de Gabriel Delanne. Chegamos, então, ao resultado: o ser humano é Espírito momentaneamente revestido de um corpo de carne, tendo como elo, entre Espírito e corpo carnal, o corpo perispiritual, que maneja - segundo a vontade  (a ideia do ser-Espirito) - a substância reparadora e mantenedora, que organiza ou desorganiza.  É  a ação do Espírito humano. Será isso o mediunismo? Não.

            Gustave Geley relembra que se essa faculdade é inerente ao Espírito humano presente na matéria da Terra, deverá também ser própria do Espírito humano momentaneamente liberto dessa matéria, em estado de erraticidade. O mediunismo seria, então, todo esse processo magnífico de apresentação de vida, com a movimentação dos recônditos do Espírito. e a utilização do fluido vital, através do períspirito (ele é o molde, não nos esqueçamos), segundo a vontade espiritual, tudo isso, dizíamos nós, elevado a campo muito mais amplo : o -- segundo. suas palavras, corroborando as de Myers - dos seres em presente evolução extraterrestre. Será isso, portanto, de um lado o animismo, ainda que no efeito físico, e, de outro, a mediunidade, isto é, a franca intervenção de um ser diverso do próprio médium, atuando sobre ele na criação física ou psíquica, não importa.

            Como vemos, isso significa programação de adesão e defesa dos princípios espíritas. Mas, como dissemos no Início, as ideias novas constituem-se em testes avançados para quem quer que ouse esposá-las. Veio a Fisiologia clássica explicando que o sono, um dos meios de exteriorização do ser, não passa de repouso dos centros nervosos. Mas, pergunta Geley: deixando de lado a intensidade emotiva de certos sonhos alegres ou tristes, que dizer das importantes manifestações do trabalho subconsciente? Isso é o suficiente para que se entenda que o repouso dos centros nervosos não explica nem mesmo os fenômenos anímicos, psicológica ou fisicamente. O trabalho do Espírito permanece autêntico, mais livre e amplo. Não se conseguiu, portanto, destruir a hipótese espírita.

            E sobre o mediunismo, Geley não mais se estendeu sobre as pesquisas Incomensuráveis levadas a efeito por toda parte, e - de acordo com suas próprias palavras -- "de modo conclusivo e irrefutável". Recordava, principalmente, "que somente as criaturas que não conhecem o tema (o mediunismo), nem teórica nem experimentalmente, continuam a negar os fenômenos dessa ordem; que esses fenômenos investem-se de uma objetividade facilmente demonstrável e não somente explicável pela fraude, pela ilusão ou pela alucinação; que nada têm de sobrenatural, podendo ser interpretados de modo perfeitamente racional e satisfatório".

            Como vemos, fraude, ilusão e alucinação (coletiva ou não) de há muito são desculpas esfarrapadas, instrumentos anacrônicos de refutação caprichosa da verdade.

            E o animismo (a exteriorização e a subconsciência) seria a explicação de todo o fenômeno mediúnico? Já por si só o animismo prova o Espiritismo: naquele estão em jogo forças espirituais, que não obedecem às secreções cerebrais ou aos humores glandulares, isto é, que não têm sua sede na matéria, embora possam por esta ser influenciadas. Além disso, só seria possível a total explicação se passássemos por cima de uma série infinita de pormenores. Em primeiro lugar, os fenômenos de exteriorização e de subconsciência -- para que explicassem o mediunismo – teriam de ter  impressionante desenvolvimento, não podendo estar (como dissemos) submetidos à constrição da matéria bruta; seria necessário que eles estivessem fora dela, com o que seriam Espíritos. Mas, admitamos que assim aconteça. Vejamos o que diz Geley em "O Ser Subconsciente":

            "Todos os fenômenos físicos podem ser explicados pela exteriorização, desde que se admita a complexa exteriorização de sensibilidade, força, matéria e inteligência, bem como de uma potente faculdade de organização e de desorganização sobre a matéria."

            Ora, raciocinamos nós, isso é impossível, dadas as limitações impostas ao Espírito pela matéria. Mas, prossigamos, admitindo que assim seja. Vejamos ainda Geley:

            "A subconsciência pode explicar a influência diretora dos fenômenos e todas as manifestações intelectuais, desde que se admita uma subconsciência superior bastante complexa, muito diferente da subconsciência clássica (recairemos na hipótese espirita), ainda mais diferente da consciência normal, por suas faculdades e por seus conhecimentos com frequência muito mais importantes e vastos, englobando completas personalidades múltiplas, ignoradas pela personalidade normal." (O parêntesis é nosso.)

            Haverá os que, em desespero, dirão: E as vidas passadas?

            Voltamos ao contexto espírita, mas, ainda assim, como explicar que alguém que, comprovadamente, não teve vivência no campo da Química ou da Física, consiga, em estado de transe, elaborar fórmulas inteiras, dissertando sobre elas? Ah - dirão -, pela conscientização progressiva!

            Mas, diremos nós, então estaremos no caminho da evolução, da evolução do Espírito, e não da matéria, porque a consciência é Espírito!

            Ouçamos Geley, mais uma vez:

            "Finalmente, sob a condição de atribuir à subconsciência superior extensas faculdades de leitura de pensamento e de clarividência (fenômenos que estão contidos na e explicados pela hipótese espírita), não logram explicar o conhecimento de tudo o que concerne aos Espíritos, cuja manifestação simula." (O parênteses é nosso.) "Relativamente à origem dos fenômenos, é necessário admitir-se um erro voluntário ou involuntário da subconsciência, uma vez que atribui aos Espíritos o que na realidade dela mesma promana."

            Ai está: Geley raciocinou dentro da Ciência e contribuiu com um verdadeiro conceito científico sobre o homem, o único que o Espiritismo pode apoiar: de qualquer lado por que se "ataque", topa-se com o Espírito, que vive e sobrevive, porque é imperecível, e, por ser imperecível, vive sempre. Mas, viverá sempre na contemplação beatifica, no ócio desesperador? Se trabalha na Terra, será o espaço lugar onde não exercerá suas faculdades? E se, mesmo trabalhando na Terra, não logra deixar de ser por agora imperfeito, só se pode concluir que viverá muitas vezes, aperfeiçoando-se moral, intelectual e espiritualmente, cada vez mais, em expansões da consciência, até que, no estado de puro Espírito, compreenda o Universo e o Criador.

* * *

            Para examinarmos a posição de Geley face à reencarnação, é necessário recorrermos à preciosa obra "O Ser Subconsciente".

            Na segunda parte do livro, iniciada a páginas 151, da terceira edição francesa, 1911, Paris, F. Alcan, o autor propõe um "esboço de filosofia idealista baseada nas novas noções". Há quem critique a apresentação do tema, achando que a posição poderia ser mais clara. Discordamos inteiramente desse parecer, que reflete a precipitação imperdoável ao homem de ciência. Quem quer que, atentamente leia (e estude) a abordagem do assunto - que encerra o livro com chave de ouro -, ali encontrará subsídios infindáveis para as mais diversas lucubrações, todas elas corroboradoras dos princípios contidos na codificação kardequiana. Geley foi de tocante clareza, e o tratamento que emprestou à teoria, confessamos, conduziu- -nos às lágrimas de emoção. Explicamos: não se trata de água com açúcar, nem - muito menos - que Geley tenha buscado as palavras de grande efeito, descambando para o terreno da banalidade. Muito pelo contrário - e o achará quem ler o
prefalado trecho -, foram precisamente a simplicidade e a concisão as responsáveis pela comunicação emotiva que, cremos nós, todos experimentarão.

            Seguindo fielmente seu método, obedecendo à progressividade do estudo, o escritor principia por estabelecer com nitidez as pontes entre o estudo anterior da Psicologia normal e anormal, de um modo geral, e a filosofia que pretende apresentar. De imediato, faz questão de lembrar que não é dogmático e que deixa ao tempo o julgamento de suas obras, mas que o dever de consciência lhe impõe a exposição e a conclusão a que chegou, após anos de minuciosas investigações. Evoca, em primeiro lugar, a presença no ser de princípios dinâmicos e psíquicos, todos independentes do funcionamento orgânico. Do mesmo modo, se esses princípios se separam desse organismo já durante a vida terrena, operando à revelia da matéria bruta, evidente que - na sobrevivência, que responde pela grandiosidade da própria Criação - tais princípios continuarão a existir, preexistindo também. Deixa bem claro, depois, que aceita a dupla evolução, terrestre e extraterrestre, a que se acha submetido o ser humano. Essa é, aliás, como já recordamos, a posição de Myers, em "Human Personality".

            Explica, a seguir, sua teoria da expansão do ser, do inconsciente ao consciente, a qual também responde à lógica criacionista, pois somente pela evolução constante, demorada e progressiva poderá o Espírito atingir o estado de felicidade. Para Geley, incontestavelmente, esse estado é certeza absoluta; e essa certeza, desde já, impõe à criatura o dever de zelar pela sua própria vida e pela dos semelhantes; pela sua própria honra e pela dos semelhantes; pelo seu próprio bem-estar e pelo do próximo; enfim, é uma verdade inegável, que impõe à humanidade inteira a noção de respeito mútuo.

            Surge, então, o problema do mal de modo inusitado: por um lado, importa a sua prática em atraso na marcha evolutiva e no consequente alcance da felicidade a que nos referíamos.
           
            Mas, por outro lado, desanuvia-se em muito o ambiente que cerca a vida humana, pela nitidez da concepção da transitoriedade desse mal, vestido - agora - do caráter ilusório e efêmero que é a sua realidade. "O mal - diz Gustave Geley - perde grande parte de sua pretensa importância, na filosofia da palingenesia." Será sempre reparável, tendo seus efeitos constantemente atenuados.

            Belíssima ilação de cunho eminentemente espiritista! A atenuação dos efeitos desse mal obedece aos imperativos da própria lei do bem. Quem não está recordado do conto em que um trabalhador de engenho tem um dedo decepado por complicada engrenagem e, chegando à reunião espírita que frequentava, ouve do mentor espiritual a declaração de que sua pena havia sido aliviada, em vista da reta conduta que havia sempre mantido, dedicando-se ao bem do próximo? ... Mas, que tivesse sempre em mente o fato de que justa era a ocorrência, vez que, em existência pretérita, colocara propositadamente o braço de subordinado nas engrenagens de outro engenho, obedecendo ao seu instinto de dominação, como desumano feitor! Além disso, quem esquece a resposta que os Espíritos dão a Allan Kardec, quando respondem a respeito da intenção de quem obra: "Deus vê mais a intenção." Aí mesmo reside a relatividade do mal, relatividade essa que só poderia ser resolvida pelo absoluto, porque este a ela subtrai qualquer manobra mais hábil com vistas a eternizar-se. Por isso justamente que, ainda que o quisesse, o homem não estacionaria, mas caminharia sempre. No campo científico, Geley - e muitos outros, como dissemos - incumbiu-se de proclamar tal verdade, comprovando-a quantas vezes foram necessárias.

            Ora, da transitoriedade e da relatividade do mal, eminentemente superável e destrutível pela construção do bem, o Doutor chega à conclusão de que:

            1. O mal é a medida da inferioridade dos mundos e dos seres.

            Isso, em outras palavras, acompanha o que proclamaram os Espíritos ao Codificador, quando com ele estudaram a evolução dos Espíritos e a escala evolucionista dos mundos, assunto também magistralmente tratado na obra "Os Quatro Evangelhos", de J.-B. Roustaing. O mal é consequência da imperfeição do Espírito, sendo a medida de seu estado íntimo, como Espírito.

            2. O mal é a condição que favorece a evolução.

            Nada de precipitações. Para o relativo (que somos e no qual vivemos), do qual faz parte a imperfeição maior ou menor (ver item anterior), o mal é consequência dos atos praticados. Se o erro é o mal, a partir da falência estamos no erro, e só pela vitória sobre ele conseguiremos a libertação final. É, em outras palavras, o que Léon Denis também assegura, quando confere à dor o papel de "reveladora sublime" e "grande libertadora". Quanto maior o erro mais amargo deverá ser o remédio; quem nega semelhante fato não aceita a lei de causa e efeito. Ora, dizemos nós, se o mal é medida da inferioridade dos mundos e dos seres, ele o será nos seres e nos mundos onde exista imperfeição. É o que "O Livro dos Espíritos" afirma. Se, aduzimos nós, não existir mal no Espírito, esse Espírito estará livre das imperfeições e a lei de causa e efeito será, para ele, muito mais suave, posto que em seus arquivos nada guardará que o possa incriminar. Isso posto, deduzimos que todos os Espíritos passam pelo estado de ignorância e de inocência, mas nem todos engrossam as fileiras do mal. Quanto a isso, enviamos os leitores à pergunta de número 120, de "O Livro dos Espíritos":

            120. "Todos os Espíritos passam pela fieira do mal para chegar ao bem?"

            R. "Pela fieira do mal, não; pela fieira da ignorância. "

            Aliás, é a única forma de compreendermos a justiça divina e, só assim, não há de fato privilégio. Sim, porque o livre arbítrio passa a ser inerente ao Espírito que deixou os reinos inferiores da Criação, tendo já penetrado o estado consciencial pleno. Essa a razão por que a resposta que os Espíritos deram a Kardec vem vazada nos seguintes termos:

            121. "Por que é que alguns Espíritos seguiram o caminho do bem e outros o do mal?"

            R. "Não têm eles o livre arbítrio? Deus não os criou maus; criou-os simples e ignorantes, isto é, tendo tanta aptidão para o bem quanto para o mal. Os que são maus, assim se tornaram por vontade própria."

            E esse o motivo por que o mal haverá sempre de ser opção, constituindo-se em escolha pura e simples que o Espírito realiza, depois que se ache investido do raciocínio, "precioso e perigoso dom", no dizer dos evangelistas em "Os Quatro Evangelhos".

            Eis aí o porquê da possibilidade da descida de Jesus ao nosso planeta. Sendo ele um só com o Pai, haurindo na fonte absoluta a mais perfeita integração com essa divindade una e única, só ele poderia, de acordo com sua pureza imaculada e com as leis que regem as esferas que assiste, trazer o exemplo do absoluto bem e do mais incontestado amor. Jesus, não nos esqueçamos, é um eleito, como bem o diz Emmanuel, em "O Consolador", resposta à pergunta de número 277: "é aquele que percorreu toda a escala evolutiva em linha reta, o que se elevou para Deus em linha reta, sem as quedas que nos são comuns, sendo justo afirmar que o orbe terrestre só viu um eleito, que é Jesus-Cristo".

            Daí Geley dizer que o mal é a medida da inferioridade dos mundos e dos seres: só haverá mal onde houver imperfeição; só existirá imperfeição nos seres falidos.

            Mais adiante, fala ele de um determinismo atuante em todo campo superior, onde cessa o livre arbítrio, o que - "prima facies" - poderá parecer estranho. Observemos, contudo, que todos os seres alcançam a perfeição, o estado de puros Espíritos. Ora, se todos o alcançam ele será um fim comum a qualquer um. É o determinismo do bem, a partir do momento em que o Espírito se decide pelo reto proceder, em que compreende integralmente o destino do Universo. Ele luta por integrar-se nessa realidade: se raciocina, parte rumo ao entendimento, e só ao entendimento. Logo - prova-o suficientemente o douto cientista -, existe um fim único, fatal por assim dizer, coroado da mais pura lógica, objetivo do Espírito humano, condição para que a essência espiritual caminhe sob a tutela dos Espíritos prepostos, enfim, razão por que brilha o sol e por que desabrocham as flores e chilreiam os passarinhos.

            Palingenesia! ... Que importam as palavras se tão imenso é o trabalho a realizar, se tão vastos os horizontes descortinados e se tão avassaladora é ainda a estupidez humana?!... Quem haverá de entender o espírito que fala das coisas do Alto, que mostra a verdadeira grandiosidade da ciência legítima, da ciência que deixa a pomposa cátedra universitária e desce ao nível da ignorância - em subida concessão -, por serem justamente os que estão no alto que podem descer ao nível das misérias humanas, sem contaminar-se irremediavelmente? O Dr. Geley entendeu a humanidade porque não compactuou com as estranhezas em que ela vegeta, e porque a compreendeu acima de tudo como indigente de pão de sabedoria e como mendiga da nobreza que caracteriza os espíritos sábios!

            Para isso, basta recorramos à sua síntese de consequências morais e sociais da filosofia da palingenesia; basta que isso se faça para que percebamos quem foi Gustave Geley. Diz ele, em arroubo de bondade:

            "Essas consequências se resumem em algumas prescrições: trabalhar, amar cada um ao próximo, auxiliar-se mutuamente. Rejeitar todos os sentimentos baixos e inferiores, tais como o egoísmo, o ciúme e sobretudo o ódio e o espírito de vingança.            

            Evitar tudo o que a outrem possa prejudicar. Não desprezar ninguém, não ver nos imbecis, nos iníquos e nos criminosos senão seres inferiores, toda vez que não sejam doentes; ser, por conseguinte, profundamente indulgente para com as faltas de outrem, e - na medida do possível - abster-se de os julgar; enfim, estender nossa piedade e nossa ajuda até aos animais, aos quais - no máximo possível - evitaremos o sofrimento e aos quais apenas em caso extremo daremos a morte. Os homens, quando compreenderem a infinita evolução, saberão conciliar os princípios da liberdade individual e da solidariedade social. Compreenderão que têm o direito ao livre desenvolvimento, mas que são rigorosamente solidários - nesse seu livre desenvolvimento - não só de seus semelhantes, mas de tudo o que pensa, de tudo o que vive, de tudo o que existe. As quimeras de hoje serão as esplêndidas realidades de amanhã."

            Aí, nesse pequenino trecho, está resumida toda a ideia de Geley a respeito da vida, do homem e da harmonia universal. O estudioso da Doutrina dos Espíritos não pode deixar de enxergar nesse manifesto pacifista o libelo contra as erupções de violência que povoam o mundo, espargindo sobre ele as nuvens venenosas da desconfiança e do ódio. A mensagem contida nas expressões edificantes dizem do ponto de vista do Doutor face às necessidades que povoam o íntimo da criatura, correspondendo às reais imperiosidades do espírito torturado pela inconsequência do mal. Geley foi apóstolo do bem na ciência rude que o homem criou. Ele respondeu ao ceticismo do negador gratuito com a imagem do equilíbrio que a moralidade elaborou e guardou no coração de cada um.

* * *

            Estamos diante de um missionário, de um homem que apreciava mais as ideias, a elas submetendo os fatos. A ideia palingenésica é "de soberana beleza e de radiante verdade". Contra ela nada podem os fatos miseráveis. Era ele um idealista puro, um intransigente defensor do homem. Não era místico, sempre dando preferência às ideias precisas e insofismáveis, mas sempre cuidando de procurar, em toda nova noção que surgisse, a marca da possibilidade, ainda que remota. Pode dizer-se, recordando a beleza da tese do Dr. Alexis Carrel, a respeito da oração, que Geley era adepto de Descartes, muito embora jamais houvesse conseguido esquecer Pascal.  A fé que possuía era absoluta, constantemente a serviço do raciocínio "rápido como flecha" (expressão de René Sudre) e preciso a toda prova.

            Enquanto, de um lado, aceita plenamente o monismo e concebe a evolução como "o passo de um dínamo-psiquismo potencial e inconsciente para um dínamo-psiquismo realizado e consciente", procura, por outro lado, humanizar a teoria pura e simples, apresentando seus resultados, com toda a beleza e grandiosidade que a causa guarda. Geley é um demolidor de estruturas vazias e obnóxias, mas um demolidor que, imediatamente, comparece ao campo da luta com o plano e com a proposta de paz e de reconstrução.

Extremamente preocupado com os transcendentes fatos da Psicologia normal e anormal, logrou obter pleno e justificado êxito em suas pesquisas, propondo novas concepções científicas da vida em sua ampla significação, tendo asseverado que "sob a claridade dessas noções tão simples (a palingenesia, a sobrevivência, a comunicação dos Espíritos, etc.) desaparecem todas as obscuridades da Psicologia normal e anormal". Considerava a sua teoria "idealista" como dotada de uma originalidade: a noção que expunha era científica e racional. Procurava entender sempre as necessidades da razão sob o prisma das imperiosidades do coração, porque considerava sempre (ainda que intuitivamente) que o homem era principalmente Espírito eterno. Essa a razão velada por que sua principal motivação dentro dos estudos que estendeu foi sempre a EVOLUÇÃO.  O raciocínio do cientista, insistentemente levando em consideração os apelos do sentimento puro (não confundamos com sentimentalismo), não poderia desprezar o móvel da bondade e o desejo de bem e de paz que dimana das elucubrações do indivíduo bem intencionado. Não podia conceber explicações puramente físicas para problemas que sabia pertencerem à estreita faixa da moral e da espiritualidade. Era um racionalista-intuitivo, bom senso autêntico e servidor fiel da seara científico-moral.

            O que se observa nessa pequena análise da época, da vida e da obra do Dr. Gustave Geley constitui a necessária resposta àqueles que se escudam por detrás de brasões de augusta sabedoria, repetindo jargões anacrônicos, adotando atitudes de superioridade só por não compreenderem o sentido imensurável do que os cerca. Esses estão ainda perdidos na própria pequenez, nadando na massa de água revolta do próprio espírito. São os negadores de Deus, os que pretendem encontrar no vazio do próprio ser as respostas que transcendem os conceitos mesquinhos que a ortodoxia negativista proclama. Outros, quiçá mais infelizes, postos em contato com a realidade passam a desempenhar o papel de cegos voluntários e voluntariosos, dizendo, quase em desespero: "Vejo, mas não posso crer!" Esses, por sua vez, perdem-se no ritualismo inútil e nas fórmulas ditas sacramentais, passam a ditar normas de salvação ou de desgraça irremissível, quando não adotam a ciência distorcida, ciência que responda às próprias distorções intimas. Oremos por eles todos, indiscriminadamente, e oremos também por nós, para que não venhamos a cair sob os golpes da ignorância, deixando naufragar o imenso navio cheio, não de ilusões, mas navegando no mar ilusionista da Terra, carregando a preciosa valise onde residem as esperanças humanas: concórdia e progresso.

            Os que refutam Allan Kardec não percebem que renegam toda a base do bem-estar espiritual do homem; os que combatem os seguidores de Kardec, esses também não tomam conhecimento de que destroem a própria segurança, embasada na certeza do progresso incessante.

            O estudo da obra de Geley conduz-nos à certeza de que o Espiritismo tem a verdade e de que essa verdade precisa encontrar campo dentro de cada espírita, para que venha à luz, alcançando os covis enegrecidos do mundo.

            Estudemos a obra de Geley com o espírito livre dos preconceitos e da má vontade e, talvez espantados, como aconteceu a René Sudre, venhamos a concluir: "Não é que ele é espírita?!"

            Apenas para arrematar: cremos que o próprio René Sudre, homem inteligentíssimo e cultíssimo, mas de espírito prevenido em relação aos estudos espíritas, talvez já tenha encontrado a oportunidade almejada para dar o seu testemunho em favor da verdade da sobrevivência da alma, na reencarnação de trabalho ininterrupto, onde alcançará o equilíbrio que perdeu na negativa odiosa da verdade.

***

            Quando, aos 14 de julho de 1924, tombava no desastre aviatório o corpo físico de Geley, junto desse mesmo corpo erguia-se vitorioso o Espírito imortal, que deu provas de entendimento ao mundo inteiro, não se envergonhando de pugnar pela verdade que foi o móvel da própria vida que viveu na Terra. Esse mesmo Espírito, das felizes regiões que habita, permanece derramando sobre os estudiosos do mundo as intuições edificantes, auxiliando, assim, na difusão da ciência cristã, da qual foi um inesquecível apóstolo. Enquanto no século XVIII a Bastilha tombava irremissivelmente, no século XIX e no início do século XX tombava a fortaleza do obscurantismo imediatista sob o sol da paz que o missionário cria. Aos 14 de julho, repetimos, tombava a Bastilha da carne, entoando o cântico de libertação: e o apóstolo da ciência, vindo em carne ao chão, alçava vôo, em Espírito, evoluindo, evoluindo, qual fora sua preocupação eterna!



Geley (espírito)

A grande retomada
Gustave Geley por A.I.M.
Reformador (FEB) Novembro 1971

(Mensagem psicográfica recebida pelo médium A. I. M., na reunião pública da Federação Espírita Brasileira, na noite de 25-5-71, no Rio de Janeiro, GB, quando presentes técnicos da Televisão Italiana, que haviam estado no Brasil para documentar o caráter do Espiritismo praticado em nosso país.)


            O mundo hodierno estará mais rico ou mais pobre? A contribuição da técnica, aperfeiçoando métodos, estabelecendo novos níveis de produção, tem realmente concorrido para a felicidade do homem na face do planeta? Quais as reais equações que a ciência e a tecnologia tem resolvido?
            Em verdade, tem a pesquisa de índole científica debelado inúmeras doenças. A tuberculose, a lepra tem sido banidas ou minimizadas, no sentido de fazer voltar o homem a um nível de saúde aceitável. Contudo, há de se registrar o surgimento de novas doenças, principalmente o recrudescimento das enfermidades mentais, cujos índices são os mais assustadores.
            A sociedade consumidora dos recursos únicos da materialidade tem conseguido, simplesmente, enganar-se a si mesma. A economia padrão, surgindo nos orçamentos cíclicos equilibrados, tem realmente proporcionado a distribuição das riquezas por um número cada vez maior de criaturas.
            Contudo, não há de se negar que o conforto abundante não tem garantido a sua meta de felicidade real.
            Encontra-se o mundo ante uma realidade maior, que precisa ser abordada.
            A técnica e a máquina têm, até agora, transformado os homens em coisas ou em autômatos.
            A cibernética e a automação têm produzido homens-robôs, em que o sentimento é racionalizado em termos de matemática e eletrônica. Encontra-se a humanidade diante de recursos imensos e, no entanto, o coração do homem se empobrece, a sua alma se enfraquece.
            A busca, todavia, continua.
            Os padrões de conforto tecnológicos, enquanto absorvidos sem a necessária digestão espiritual, intoxicam e fazem sucumbir o homem.
            O homem moderno precisa fazer a sua retomada. Esquecido dos valores que traz dentro de si mesmo - os do Espírito, do Amor e da Bondade - deixa-se desbaratar e soterrar pelos processos hedonísticos predominantes. Esses valores necessitam de ser revitalizados. Para tanto, os princípios espirituais hão de se basear no fenômeno em sua mais ampla acepção. Há de se dar base científica às conclusões de ordem filosófica e há de se consubstanciar a filosofia na moral ativa, a expressar-se no amor ao semelhante, no amor ao Bem e à Verdade.
            Na realidade, o homem moderno rejeita toda ideia que não traga o selo do bom senso, isto é, da Razão. É por tal razão que o conhecimento espiritual deve calcar-se em fatos e que esses fatos se tornem conceitos, a fim de serem Incorporados  ao conhecimento do homem como verdades incontestes.
            É por essa razão que os fenômenos mediúnicos, considerados pela psicologia oficial como paranormais ou parapsicológicos, ressurgem no mundo com o mesmo vigor de antanho. Os médiuns aparecem aqui e alhures. Não há uma pátria, não há uma cidade em que não se registrem fenômenos considerados paranormais. Em toda parte, nos países capitalistas ou nos de ordem socialista, entre brancos, pretos, amarelos e vermelhos, a presença do fenômeno é um fato. É que a mediunidade é uma nova forma de ser, que espera pelo concurso dos que hão de se dedicar, com sinceridade, ao seu estudo e metodologia.
            Há, contudo, de se reconhecer que o passado da história do Espiritismo faculta-nos uma visão bem ampla. Em conclusões tais como:
            Comunicação entre os vivos e os considerados mortos.
            A palingenesia.
            A habitabilidade dos mundos.
            A evolução eterna.
            A existência de Deus.
             A existência da alma Imortal.
            Eis a contribuição sintética do passado, que pede no presente o concurso da análise e do aprofundamento, para novas sínteses em níveis mais atualizados, ao lado das verdades consideradas permanentes, por se assentarem em leis eternas.
            A retomada se faz necessária e ela se fará, por certo, a despeito de qualquer força contrária.
            Por longo tempo ainda, as Interpretações serão as mais diferentes. Não Importa: a Verdade Espírita não teme o progresso científico. Aguarda, com esperança e com fé, que o homem avance nos seus estudos e nas suas conclusões.
            Por agora, o despertamento para as condições de comunicação. A telepatia ressurge em termos de utilização inclusive militar e de apoio a expedições científicas. Mas, os homens de amanhã descobrirão que essas forças devem ser usadas para o bem e para a união de todos os seres.
            A abordagem do mundo psíquico, através de aparelhos eletromagnéticos, registra a presença das forças ódicas, das energias ectoplasmáticas, fontes da vida subconsciente, onde reside a alma imortal.
            A retomada se efetivará porque a pesquisa espírita conduzirá o homem a uma filosofia religiosa que se reflita na moral, e, nesse dia, a Terra inteira rejubilar-se-á, pois terá encontrado a resposta de todos os séculos.
            O Amor, voltando ao reino dos mortais, responsabilizar-se-á pela união entre os homens, entre as nações. O Amor será a Cartilha Superior de todas as Nações, fazendo da Terra uma só família.
            A Terra não estará mais dividida entre blocos e regimes, pois, nesse dia a Religião Cósmica do Amor congregará num mesmo amplexo a Ciência, a Filosofia e a Moral. A Religião Cósmica do Amor será o grande depósito ou o grande legado a ser oferecido ao mundo feliz e regenerado de amanhã. Mas, para que esse mundo surja, é necessário que ele, primeiramente, nasça em cada coração. E nesse dia não mais temeremos a tecnologia e a megamáquina, porque ambas estarão sob o perfeito domínio do homem, pois o homem, consciente de que é um Espírito Reencarnado e Eterno, não se conformará em ser transformado em Coisa.
            E o Amor vencerá mais uma vez ...
            E o demônio do orgulho não prevalecerá na alma do homem renovado e feliz!

            Geley


O Pensamento filosófico do Dr. Geley

O pensamento filosófico
do Dr Geley
Hermínio C. Miranda
Reformador (FEB) Novembro 1971


            O pensamento e as experiências do Dr. Gustave Geley acham-se contidos nos
seus três livros básicos, nenhum, ao que eu saiba, traduzido para a nossa língua, São eles:
L'Être Subconscient ("O Ser Subconsciente"), cuja quarta edição é de 1919, De L'Inconscient
au Conscient ("Do Inconsciente ao Consciente"), 4ª edição, de 1921, e L'Ectoplasmie et Clairvoyance, ("Ectoplasmia e Clarividência"), publicado em 1924. A segunda das obras citadas traz uma referência a outro livro do Dr. Geley intitulado Les Preuves du Transformisme et tee Enseignements de la Doctrine Evolutioniste ("As Provas do Transformismo e os Ensinamentos da Doutrina Evolucionista"). Não tenho conhecimento dessa obra. Por sua vez, em L'Ectoplasmie et Clairvoyance o autor anuncia um volume complementar intitulado Genèse et Signification des Phenomènes Métapsychiques ("Gênese e Significado dos Fenômenos Metapsíquicos"). Ao que me consta, esta obra não chegou a ser editada; o Dr. Geley morreu pouco depois da publicação de L'Ectoplasmie et Clairvoyance, num desastre de aviação, ao retornar de uma viagem de estudos à Polônia.

            A partida algo prematura do eminente médico foi uma perda considerável para o desenvolvimento dos aspectos científicos e filosóficos da Doutrina Espirita. Certamente que há razões superiores para isso, mas não podemos deixar de lamentar a ausência de tão valoroso cientista, num momento em que trabalhava ativamente no coroamento da sua obra de pesquisador e de pensador profundo, lúcido e competente.

            Pretende este modesto artigo proporcionar ao leitor uma ideia geral, certamente que incompleta e superficial, do precioso trabalho do respeitável médico francês, de vez que seus livros são hoje raridades bibliográficas, mesmo na língua original em que foram escritos. Por uma feliz sequência de circunstâncias, consegui adquirir dois deles e obter de um bom amigo e confrade, por empréstimo, L'Être Subconscient, 5ª edição, 1926, lançada pela Félix Alcan.

*

GUSTAVE GELEY nasceu em Nancy,
na França, em 1865. Formado em Medicina
 pela Faculdade de Lyon, clinicou
até 1918 em Annecy, onde alcançou
grande reputação. Interessando-se pelos
fenômenos paranormais, a respeito deles
 publicou, em 1897, um “Ensaio de
revisão geral e de interpretação
sintética do espiritismo”.
 Suas melhores investigações, porém,
datam de 1916, com a médium Eva C.
(Carrière). Mme. Bisson colaborou
também nesses trabalhos. Em
1919 assumiu a direção do Instituto
Metapsíquico Internacional, onde
obteve fenômenos extraordinários
com o médium polonês de
materializacões Franck Kluski.
 Em 1922 e 1923 promoveu outra
série notável de sessões de ectoplasmia,
com o médium Jean Guzik, do que
resultou o histórico Manifesto dos 34,
assinado por eminentes homens de ciência,
médicos, escritores e peritos da polícia.
(A rigor, o Manifesto tinha 35 e não 34
assinaturas, o que se deveu a um erro
tipográfico). De 1921 a 1923 realizou,
quer em Varsóvia, quer em Paris,
experiências irrefutáveis com o
médium polonês Stephan
Ossowiecki. A obra experimental e
filosófica de Geley acha-se contida nos
seguintes livros, além do “Ensaio” acima
citado: “O Ser Subconsciente”, Paris,
1899; “Monismo Idealista e Palingenesia”,
 Annecy, 1912; “A Chamada Fisiologia
Supranormal e os Fenômenos de
Ideoplastia”, Paris, 1918; “Do
Inconsciente ao Consciente”, Paris, 1919;
A Ectoplasmia e a Clarividência”,  Paris,
1924. Geley desencarnou num acidente
de avião, em 1924, quando regressava a
Paris, após haver assistido, em Varsóvia,
a várias sessões com Franck Kluski.
Retirado dos destroços, ainda segurava
 sua valise, na qual se continham
fragmentos de moldes em parafina.
O avião era especial e fora fretado por Geley,
porque o piloto da linha Varsóvia-Paris se
negara a transportar a valise por conter
objetos “diabólicos e maléficos”.
L. A.


            Vê-se, pelas datas de publicação, que a obra do Dr. Geley fica a meio caminho, no tempo, entre nós e Kardec. De fato, quando, no fim da primeira década deste século, o genial médico iniciou a publicação de seus trabalhos, fazia exatamente meio século que Allan Kardec partira para o mundo espiritual. Estamos, agora, a meio século da quarta edição de De L'Inconscient au Conscient. É bem verdade que há uma contínua aceleração no processo evolutivo, pois que as conquistas científicas contém fatores de multiplicação geométrica, ao trazerem no bojo inúmeras tomadas para novas experimentações, inferências e combinações. Nesse ponto, é de justiça reconhecer, em certos aspectos a obra do Dr. Geley envelheceu, se comparada com a de Kardec. É natural que assim seja, pois a codificação lançou a estrutura do pensamento espírita, enquanto que os livros do Dr. Geley procuram particularizar alguns aspectos científicos que servem de suporte à belíssima concepção doutrinária do Espiritismo. Em outras palavras, o Dr. Geley estava condicionado ao contexto da sua época, como se diria hoje. Ele próprio lamenta, com frequência, o precioso tempo que perdia na contestação das mais pobres e ridículas doutrinas que, de vez em quando, entravam na moda e passavam a ser discutidas nos meios intelectuais como conquistas dignas do mais alto, apreço. Todas as suas obras, exceto L'Ectoplasmie
et Clairvoyance, começam com uma crítica brilhante, irresistível, às doutrinas da época. O interesse do Dr. Geley pelo Espiritismo não ocorreu muito cedo. Pesquisador e pensador essencialmente objetivo e frio, foi atraído, de início, pelo Positivismo de Auguste Comte, que exerceu profunda influência na sua formação intelectual. Não foi inútil a passagem do Doutor Geley pelo Positivismo. A doutrina de Comte é bem ordenada e boa disciplinadora do pensamento. Sua classificação das ciências - a conhecida escala enciclopédica - é inteiramente válida e permanente, faltando-lhe apenas o encaixe da Psicologia, que ele, teimosamente, recusou admitir no seu esquema, a despeito da insistência de John Stuart Mill, seu amigo e correspondente. O Positivismo despertou em Geley o hábito da segurança na exposição de suas ideias, nas quais não se encontra um pensamento supérfluo ou que não esteja bem escorado no fato pesquisado e observado. O verdadeiro horror que tinha Comte pelo improvado e pelo improvável levou-o à extrema aridez da sua doutrina, não obstante tantos méritos que ela, inegavelmente, possui. A exclusão da Psicologia, por certo, é um reflexo dessa ojeriza por tudo quanto pudesse cheirar a metafísico. Essa também a razão pela qual a ideia de Deus está ausente no pensamento de Comte. Daí porque falhou: Comte mostrou a casa, descreveu-a, morou nela, mas não quis, nem por um instante, tomar conhecimento da existência do Arquiteto que a projetou, construiu e mantém.

            Assim, quando o Positivismo começou a parecer-lhe insatisfatório, o Dr. Geley dele se retirou, utilizando-se, no entanto, do que tinha ele de aproveitável. A própria concepção básica de Geley, ou seja, a sua doutrina evolutiva da conscientização progressiva do ser, é conceito de grande pureza doutrinária espírita, que pode ser colocado numa estrutura positivista. É o que vemos nitidamente na escala enciclopédica a marcha continua do processo de alertamento da consciência espiritual. A escala comtiana está montada da seguinte maneira: Matemátioa, Astronomia, Física, Química, Biologia, Sociologia e Moral. O encaixe da Psicologia está certamente entre a Biologia e a Sociologia, mas Comte vivia obcecadamente ligado ao número sete e por certo não desejou admitir um oitavo degrau na sua escala, ainda mais que introduziria, a seu ver, condições metafísicas na sua doutrina. De qualquer maneira, sua classificação é uma escalada na direção da vida oonsciente.

            Com essa introdução, que já vai ficando um tanto longa, passemos ao exame da obra do Doutor Gustave Geley.

.........................................

            O seu primeiro trabalho, em ordem cronológica, é um resumo da Doutrina Espírita, que ele organizou para seu próprio uso, ou, como disse, para fixar suas próprias ideias a respeito do Espiritismo. Tão bom ficou, que alguns amigos convenceram-no a publicá-lo sob a forma de ensaio. Ao que eu saiba, é o único escrito do Dr. Geley traduzido para o português.

             O livro L’Être Subconscient chamou-lhe o autor "Ensaio de síntese explicativa dos fenômenos obscuros da psicologia normal e anormal".

            Depois de uma introdução à metodologia e à evolução da filosofia científica, entra. ele no estudo dos fenômenos psíquicos que constituem o objeto da psicologia normal e da anormal, no primeiro caso, as diferenças intelectuais e morais entre os seres humanos, as diferenças entre aquilo a que chamou hereditariedade ou atavismo psíquico e físico, a permanência da personalidade, os fenômenos psíquicos inconscientes e o sono. Quanto à psicologia anormal, estudou as neuroses, o chamado fenômeno das personalidades múltiplas, o hipnotismo, os fenômenos de materialização e desmaterialização, a telepatia e a mediunidade. Em seguida, no capitulo 3º, trabalha na interpretação das novas hipóteses que emerjam dos fenômenos observados, expondo, no capítulo 4º, uma teoria sintética de psicologia à base das novas noções. No 5º capítulo, examina as objeções levantadas, com a de Grasset, com que termina a primeira parte do livro. Na segunda, oferece o esboço de uma filosofia idealista à base das novas ideias contidas na fenomenologia observada. O capítulo primeiro cuida da doutrina palingenésica, e o segundo apresenta algumas induções - ele não lhes chamaria jamais de conclusões metafisicas. Seria impraticável, num trabalho de síntese como este, contido por rígidas limitações de espaço, aprofundar o estudo da obra de Geley; mas não podemos deixar de dar uma espiada nas suas conclusões, às páginas 134 e seguintes, da edição de 1926 de L'Être Subconscient.

            Acha o autor que o psiquismo humano dispõe de um “substrato fluídico" que serve de veículo à força, à sensibilidade e à inteligência subsconscientes. Geley chama a esse substrato ser subconsciente exteriorizável, porque, nas experiências e observações que teve oportunidade de estudar e realizar, verificou que essa contraparte fluídica do ser pode desligar-se do corpo físico sob condições e circunstâncias bem caracterizadas: hipnose, magnetização, sono, drogas ou desarranjos psíquicos, Vemos, assim, que o ser subconsciente não seria mais do que o perispírito da doutrina espírita, ao qual o Dr. Geley talvez desejasse emprestar uma terminologia mais neutra, que pudesse interessar o homem de ciência de seu tempo. A substância que compõe o ser subconsciente é "homogênea, inacessível aos sentidos normais, imponderável, capaz de atravessar obstáculos materiais, suscetível de ser projetada parcialmente, bem longe da pessoa(pág. 83). Por outro lado, “é visível aos sensitivos em estado de hipnose", e “no estado normal, a substância fluídica exteriorizável se irradia mais ou menos distante da periferia do organismo, mas não se exterioriza notavelmente senão nos estados hipno-mediúnicos" (mesma página).

            Qual seria, porém, a origem, a gênese do ser subconsciente? “O ser subconsciente exteriorizável - diz Geley, à pág. 94 - é o produto sintético duma série de consciências sucessivas que se fundem nele e que pouco a pouco o constituem". Em outras palavras: resulta de uma contínua estratificação de experiências, ao longo de inúmeras encarnações. Mais adiante, à pág. 101, o autor acrescenta alguns informes, ao declarar que o “ser subconsciente (alma e seu psiquismo superior) seria o eu real, a individualidade permanente, síntese das personalidades sucessivas transitórias, produto integral da dupla evolução terrestre e extraterrestre". Numa chamada, em seguida à palavra individualidade, Geley - sempre muito lúcido, claro e objetivo - esclarece bem o seu pensamento dizendo que “a palavra individualidade designará sempre o ser subconsciente, em oposição à personalidade, que representará o ser consciente normal". “Se desejamos, agora, resumir em poucas linhas a nossa concepção da psicologia - escreve à pág. 135 - diremos: a síntese psíquica é constituída de dois psiquismos de natureza e origem diferentes: “o psiquismo inferior", produto do funcionamento cerebral, e "o psiquismo superior", independente do funcionamento cerebral. Ao que chamamos consciência normal é o resultado da colaboração dos dois psiquismos, colaboração na qual o psiquismo superior desempenha o papel diretor e centralizador. Ao que chamamos consciência anormal é o resultado - da atividade isolada do psiquismo inferior (subconsciência inferior) ou do psiquismo superior; (subconsciente superior)".

            Nada impede, pois, que o psiquismo superior - ou seja, o Espírito - sobreviva à morte do corpo físico, pois ele independe do funcionamento cerebral, é capaz de funcionar sem o cérebro físico.

            Na segunda parte, no capitulo sobre a filosofia palingenésica, o Dr. Geley explica o problema do mal, obstáculo que nenhuma outra concepção é capaz de situar logicamente no pensamento humano. O mal, segundo o eminente médico francês, "é a medida da inferioridade dos mundos e dos seres", sendo no entanto, "condição que favorece a evolução”, pois que representa “a sanção dos atos individuais.”

            O livro termina com algumas páginas sobre o problema da evolução, que seria desenvolvido em maior profundidade no livro seguinte, De L'Inconscient au Conscient .

            É o que veremos a seguir.

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            O objetivo dessa obra, nas palavras introdutórias do autor, é o de "compreender, numa síntese mais completa e mais vasta, a evolução coletiva e a evolução individual".

            "Pretendi, antes de tudo - prossegue - fazer obra de síntese, e esta síntese deve ser considerada nela mesma, abstraídos os pormenores negligenciados ou voluntariamente omitidos. Não há, na verdade, uma só das questões aqui examinadas que não necessitasse, para ser aprofundada, do esforço de toda uma existência. Essa é obra própria dos analistas e eu a deixo nas suas mãos. A minha é completamente diferente, pois que visa, antes de tudo, à pesquisa ideal de uma vasta concepção de filosofia geral, baseada nos fatos."

            Esse é o programa de trabalho que ele desenvolve neste livro magnifico.

            A primeira parte da obra é dedicada ao estudo critico das teorias naturalistas clássicas da evolução, demonstrando de maneira irrespondível a insuficiência que elas revelam para fazer compreender a origem das espécies, a origem dos instintos, as transformações bruscas, criadoras de novas espécies, e a cristalização imediata e definitiva dos caracteres essenciais às espécies novas. Além disso, as doutrinas clássicas da evolução não resolvem a dificuldade geral, de ordem filosófica, que faz sair do simples, o complexo, e, do menos, faz sair o mais.

            Na segunda parte são tratadas as concepções clássicas da individualidade fisiológica e psicológica.

            Depois de analisar metodicamente as principais doutrinas evolucionistas propostas pelos pensadores do seu tempo, o Dr. Geley expõe a sua concepção do evolucionismo como um processo contínuo, no sentido da progressiva conscientização do Espirito.

            Para abreviar este trabalho expositivo e meramente informativo acerca da obra do grande médico francês, passaremos, sem nos deter, sobre sua critica às doutrinas de Darwin e Lamarck (ele considera esta última "infinitamente mais satisfatória" do que a de Darwin, ainda que com algumas lacunas e insuficiências).

            Crítica mais profunda e maciça é a que faz à obra de Bergson, especialmente (mas não unicamente) L'Evolution Créatrice ("A Evolução Criadora") , do eminente filósofo francês, seu contemporâneo. Aliás, quem desejar uma interpretação resumida e muito clara da obra de Bergson deverá recorrer ao texto de Geley, neste livro.

            Feitas as criticas mais importantes, começam a aparecer as primeiras conclusões preliminares, sempre em linguagem simples, desataviada, precisa, inequívoca. "Tudo se passa em Biologia - diz ele, à pág. 67 - como se o ser físico fosse essencialmente constituído por uma substância primordial única, da qual as formações orgânicas não são mais que simples representações."

            Isso porque, não apenas a formação do corpo físico, mas também a coordenação das diversas funções e a manutenção orgânica do ser exigem um comando único inteligente, imaterial, superior ao organismo físico e a ele sobrevivente. O perispírito é, pois, esse organismo superior, através do qual atua o Espirito sobre a matéria inerte.

            Aqueles que atribuem a genialidade a uma deformação, disfunção ou doença psíquica - e muitos ainda assim acreditam hoje - responde Geley de maneira irrefutável: "É contrário a tudo quanto nos ensina a fisiologia declarar que um órgão doente é capaz de dar produtos superiores aos do órgão sadio, sobretudo de maneira constante e regular. Há uma contradição insustentável, por exemplo, em declarar que a força intelectual genial é função da doença" (página 115).

            E, mais adiante (pág. 143), uma declaração positiva e sem rodeios ou meias-palavras: "Há, no ser vivo, um dínamo-psiquismo que constitui a essência do eu e que não pode absolutamente se reportar ao funcionamento dos centros nervosos. Esse dínamo-psiquismo essencial não é condicionado pelo organismo; muito ao contrário, tudo se passa como se o organismo e o funcionamento cerebral fossem condicionados por ele."

            Ampliando essa ideia apresenta, já à página 220, outra conclusão preliminar ao dizer o seguinte:

            "Numa palavra, temos de nos render à evidência: o complexo orgânico, o corpo, não possui qualidades definitivas e absolutas nem especificidade própria. Por sua origem, por seu desenvolvimento, por suas metamorfoses embrionárias e pós-embrionárias, por seu funcionamento normal, como por suas possibilidades ditas supranormais, pela manutenção da forma habitual, como pelas desmaterializações e rematerializações metapsíquicas, esse organismo é determinado por um dinamismo superior que o condiciona. Ele surge não mais como o indivíduo todo, mas simplesmente como um produto ideoplástico do que há de essencial no individuo, um dínamo-psiquismo que condiciona tudo, que é tudo. Em termos filosóficos, o organismo não é o individuo: ele não passa de sua representação."

            Quanto às origens do ser, "a individualização começa sempre que aparece, no inconsciente primitivo, um rudimento de consciência." "Desde que esse rudimento de consciência é adquirido, ele se torna indelével, e irá, dai em diante, se expandindo sem cessar, ao infinito."

            Quanto ao futuro, é lógico que, com o "derramamento do consciente no inconsciente, clareando este cada vez mais, chegará necessariamente um momento em que nada mais haverá de misterioso nem obscuro".

            Nesse ponto não haverá mais a separação entre consciente e inconsciente. "Tudo o que constitui o ser, como capacidades e como conhecimentos, todo o seu formidável passado lhe serão imediatamente acessíveis, integralmente, regularmente, normalmente. Mesmo as capacidades supranormais serão submetidas à vontade consciente. O ser subconsciente terá desaparecido: não existirá senão o ser consciente." (pág. 249).

            A sobrevivência do Espirito e a comunicabilidade entre encarnados e desencarnados é estudada a seguir, em algumas páginas lamentavelmente curtas. Evidente que era intenção do autor estudar o problema particular da mediunidade, da sobrevivência e da comunicação espírita em obras posteriores, mas antes que isso fosse possível desencarnou o eminente médico e cientista. Vejamos, porém, algo do que disse a respeito: "A manifestação de um "espírito desencarnado" no plano material, com a ajuda dos elementos dinâmicos e orgânicos sacados ao médium, surge imediatamente como uma inegável possibilidade." Hodgson, saído dum ceticismo absoluto, declarou, após doze anos de estudo, "que não havia mais lugar no seu espírito nem mesmo para a possibilidade de uma dúvida sobre a sobrevivência e a realidade das comunicações entre vivos e mortos; Hyslop, Myers e, recentemente (1920), O. Lodge proclamaram bem alto a mesma convicção" (pág. 277).

            E as conclusões, sempre presentes, sempre claras e lúcidas, em todas as obras de Geley:

            "Que importa, então, a morte? Ela não destrói senão a aparência, uma representação temporária. A individualidade verdadeira, indestrutível, conserva, assimilando-as, todas as aquisições da personalidade transitória; depois, banhada de novo por algum tempo nas águas do Lete (*) , vai materializar uma personalidade nova e continuar assim sua evolução indefinida. Sim, isso é o que a natureza nos ensina, muito claramente; e a natureza jamais mente!"
            (*) Lete - rio em que, segundo os gregos, se banhavam as almas dos mortos que se dirigiam às regiões infernais: o banho apagava as lembranças da vida. (Nota do autor do livro).

            Convém repetir aqui uma citação de Schopenhauer, feita lá no principio do livro pelo Dr. Geley: "Não compreendemos a linguagem da natureza porque ela é simples demais." O homem tem o péssimo hábito de complicar aquilo que é simples.

            O esquecimento do passado, um dos argumentos principais daqueles que procuram negar a reencarnação, é explicado nas seguintes observações: "A ignorância do passado, como a ignorância do presente, é um bem, um grande bem. Somente o ser idealmente evoluído poderá, sem inconveniente, conhecer toda a formidável acumulação de experiências, de sensações e de emoções, de esforços e de lutas, de alegria e de dores, de amor e ódio, de sentimentos baixos ou elevados, de sacrifícios ou de atos egoístas, de tudo, enfim, que se constituiu pouco a pouco sob suas personalidades múltiplas e as distinguiu e especializou passo a passo. Se tivesse, ainda que num clarão súbito, esse conhecimento formidável, o homem comum seria fulminado. Já lhe pesam bastante os seus erros e preocupações presentes. Como suportaria, por acréscimo, o peso das dores passadas, da tolice, da baixeza, das paixões animais que o agitaram, da monotonia incomensurável das vidas banais; os pesares das existências privilegiadas ou os remorsos das existências criminosas?" (pág. 319).

            Diante dessa imagem evolutiva da vida espiritual, no seu progressivo e incessante processo de alargamento da consciência à custa da redução, também gradativa, do inconsciente herdado do animal, a visão filosófica do Dr. Gustave Geley é uma visão otimista e feliz, segundo a qual "a realização progressiva do bem supremo emerge como evidência indiscutível". Nesse quadro, o mal tem apenas uma importância relativa e é sempre reparável; "a morte perde totalmente a característica de maldição que lhe foi cegamente atribuída pelo ser humano, na limitação de seus órgãos grosseiros e fechado no circulo da ilusão material". Ao contrário de ser a distribuidora de terrores insuportáveis, a morte é a grande libertadora, porque sem ela não seriam rompidas as cadeias que prendem o ser dentro das limitações de uma só existência. "Ela força o ser a abandonar, com um organismo usado, hábitos transformados em rotina estéril" (pág. 331).

            Examinaremos, por último, L'Ectoplasmie et Clairvoyance.

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            Nos dois livros precedentes de que acabamos de dar notícia, o Dr. Geley limitou-se praticamente à derrubada das doutrinas evolucionistas e psicológicas de seu tempo e à meticulosa montagem de seu sistema de concepções. Suas conclusões são as da Doutrina Espírita: preexistência e sobrevivência do Espírito; evolução através de uma série de encarnações; o inconsciente como depósito indelével das memórias de passadas vidas, independente das funções cerebrais; existência do perispírito, organismo vivo constituído de uma substância fluídica levíssima, mas com todos os recursos necessários à formação e manutenção do corpo físico; a morte, como simples processo de dissociação entre corpo e Espírito, de vez que o corpo não é mais do que a representação visível do ser real que é o Espírito imortal.

            Essas conclusões, de tão elevado alcance filosófico e moral, tinham seus suportes sólidos e irrecusáveis nos fatos constatados através de uma riqueza muito grande de fenômenos bem observados ao longo do tempo. Já àquela altura, primeira década do nosso século, dizia o Doutor Geley, com a sobriedade e convicção que o caracterizavam, que se dispensava de repetir monotonamente os fatos psíquicos, porque os tinha por suficientemente documentados e estabelecidos com muito critério na copiosa literatura científica da época. Foi a época de Crookes, William Barret, Oliver Lodge, Conan DoyleRichet, Bozzano, Santoliquido e muitos outros. Época de bons médiuns e bons pesquisadores. Tanto no L'Être Subconscient como no De L'Inconscient au Conscient, o Dr. Geley informa que deixou à margem a narrativa dos fatos não apenas por julgá-los suficientemente comprovados em outros livros que mereciam fé pública, como por entender que a intercalação de tais narrativas interferia com o fluxo e a unidade da sua exposição.

            Nisto se agarraram os críticos de sua obra para declarar que o grande médico, respeitável por todos os títulos, tinha concebido uma teoria muito complexa, de muito largo alcance, até mesmo revolucionária, baseada em “fatos insuficientemente estudados e estabelecidos". Sem argumentos nem conhecimentos para contestar a doutrina exposta - que é uma tradução, em termos estritamente científicos, das linhas mestras da Codificação Kardequiana - os críticos apelaram para a insuficiência da comprovação. Perguntavam, em última análise, onde e em que fatos fora o Dr. Geley buscar apoio para as suas teorias.

            Daí a razão de L'Ectoplasmie et Clairvoyance. Querem fatos? Aí os têm os críticos. E foram tão abundantes e tão bem documentados, que as conclusões filosóficas e os raciocínios científicos tiveram de ser diferidos para outro volume. L'Ectoplasmie et Clairvoyance é, pois, uma coletânea minuciosa, exata, irrespondível de fatos psíquicos observados pelos mais rigorosos métodos de controle científico: é uma verdadeira montanha de fatos. Ninguém mais poderia ignorá-los, a não ser por manifesta e teimosa má fé.

            Por isso, na introdução do seu livro, o Doutor Geley se refere à “oposição sistemática e apaixonada" que sofrem todas as descobertas científicas que surgem de repente e fazem explodir o tranquilo conhecimento adquirido, catalogado, consagrado e armazenado nas academias.

            Ia mais longe, porém. Seu livro, como repositório de novos fatos devidamente
comprovados, era totalmente confiado ao público sem nenhuma observação que procurasse atrair o leitor para conquistá-lo. Ele que julgasse por si mesmo, diante dos relatos, das fotografias, dos depoimentos, das atas, dos testemunhos mais insuspeitos dos homens, mas eminentes e desinteressados.

            “Minhas pesquisas - diz Geley - Tem sido apaixonada e violentamente contestadas;. jamais foram seriamente examinadas nem discutidas pelos adversários dos nossos estudos." (Grifos no original, à pág. 11).

            Aos que invocaram a ausência de documentação metapsíquica na sua obra, o Dr. Geley respondia assim: “Esse argumento repousa num erro de interpretação: a filosofia exposta em “Do Inconsciente ao Consciente" não assenta em fatos metapsíquicos. Esses fatos confirmam a minha filosofia, emprestam-lhe um apoio, a meu ver, decisivo. Eles não a condicionam de maneira alguma. Se eles fossem falsos ou inexistentes, minha filosofia poderia subsistir inteiramente tanto quanto a metafísica ou o sistema científico."

            Assim, “A Ectoplasmia e a Clarividência" não passa de “uma simples exposição de fatos. Não contém teoria, nem indução filosófica". Estas ficariam para o segundo volume que, ao que sabemos e infelizmente, não chegou a ser concluído, muito embora prometido para dentro de alguns meses.

            O plano do livro é simples. Uma parte cuida dos fenômenos que ele incluiu na Metapsíquica Subjetiva: telepatia, clarividência, premonições, escrita automática (psicografia), etc. A segunda parte do livro - a Ectoplasmia - cataloga os fenômenos a que hoje chamaríamos efeitos físicos, principalmente as materialização de seres humanos e de animais, fenômenos luminosos, moldagens, etc.

            O livro é abundantemente ilustrado com excelentes fotografias - 53 clichês fora do texto e 103 outras gravuras.

            Para os objetivos deste trabalho não há realmente muito que comentar acerca do livro, a não ser que dispuséssemos de espaço para examinar os fenômenos mais notáveis. Como já ficou dito, o livro é um maciço imponente e esmagador de fatos bem documentados, uma verdadeira mina para quem deseja um fenômeno bem comprovado, bem relatado e muito bem testemunhado. Existem atas assinadas por uma verdadeira constelação de gênios: Geley, Lodge, Flammarion, Santoliquido, Osty,  Marcel PrevostRené Sudre e muitos outros.

            Além desse fabuloso interesse documental, a obra oferece preciosas observações acerca da mediunidade, das condições de bom rendimento do médium, como se devem portar os experimentadores, como tratar o problema da iluminação das sessões, as medidas de controle que devem ser adotadas, o cuidado com as fraudes, etc.

            Tais conselhos e sugestões, de quem tão meticulosamente estudou a fenomenologia, são de grande interesse e inteiramente válidos até hoje. Pelo menos, esse texto deveria ser traduzido e divulgado, porque, com recomendações de tão seguro teor, muito teríamos todos nós que aprender na disciplinação das nossas experiências e contatos com o mundo espiritual, nas sessões práticas de Espiritismo.

            Na introdução a L'Ectoplasmie et Clairvoyance, começa o Dr. Geley por dizer que “A fase “heróica" da metapsíquica parecia ter chegado ao fim. Sem dúvida, a realidade dos fenômenos mediúnicos não é ainda aceita sem discussão nem reservas, mas não é mais negada sistematicamente." 

            Passados quase cinquenta anos, a roda do tempo chegou mais perto da marca final do milênio, que se encontra a apenas 29 anos: o espaço aproximado de uma geração. E não sei se, a despeito da dramaticidade da hora e da urgência que todos tem de, pelo menos, ter notícia desses fenômenos para decidir o rumo do pensamento, não sei se já chegou ao fim a fase heroica da fenomenologia psíquica. O que aconteceu foi que novos cientistas, com novos métodos, novos aparelhos e novas doses de ceticismo, recomeçaram tudo no terreno da experimentação psíquica e para isso inventaram também um novo termo mágico, ainda e sempre sacado ao velho e sempre belo idioma grego: Parapsicologia. E que adiantou? Depois de quarenta anos de pesquisa, retomada do ponto em que a deixou a antiga Metapsíquica de Richet, vieram dizer-nos que sim, que o ser humano possui realmente faculdades que escapam ao rígido enquadramento no tempo e no espaço e que, ao contrário do que afirmavam até há pouco muitos filósofos respeitáveis, há informações que vão ao intelecto ou de lá emergem sem a passagem obrigatória pelos sentidos físicos. Mas, meu Deus, disso já sabemos há 1 século! Desde a fase heroica - esta sim - em que Allan Kardec escreveu os livros da Codificação Espírita. Quem, depois dele, produziu algo melhor em Metapsíquica ou em Parapsicologia do que o excelente tratado intitulado «O Livro dos Médiuns"?


            Quanta luta, Senhor, para convencer o homem de que ele é muito mais do que parece, de que a morte não existe, de que o Espírito evoluí, sem cessar, do inconsciente para o consciente na direção de Deus!