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domingo, 9 de janeiro de 2022

O fim da pobreza

 

O fim da pobreza

por Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Fevereiro 1943


             A pobreza., as privações econômicas, a miséria são expiações e provas necessárias somente em mundos atrasados, verdadeiros purgatórios; como o foi a Terra até agora; são dores desconhecidas em mundos adiantados, onde só habitam Espíritos purificados. Pela evolução moral e intelectual dos homens, a pobreza desaparecerá da face da terra, porque o nosso planeta passará da categoria de mundo de expiações e provas, para a categoria de “mundo regenerador”.

             Este ensino dos Espíritos, que vem sendo repetido há oitenta anos, em múltiplas comunicações, está tendo a confirmação na progressão material. As descobertas da ciência, os triunfos da técnica, criando máquinas de produção cada vez mais rendosas, já permitem se produzam quantidades sempre maiores de todas as coisas necessárias à vida e ao conforto dos homens, ou, por outras palavras, a evolução intelectual do homem lhe vai permitindo vencer a pobreza e produzir tanta riqueza, que em certos momentos já o seu excesso causa perturbações. Igualmente a máquina de distribuição da riqueza.

            Criam-se novos veículos, novos meios de circulação dos bens por toda a superfície do planeta. Estabelecem-se assim a solidariedade econômica de todas as regiões pela permuta rápida e fácil de todos os bens materiais.

             Não necessitamos insistir sobre o aumento da riqueza da humanidade, porque está ao alcance de todos. embora nem sempre seja empregada para o bem. Por falta de evolução moral, mui frequentemente o homem emprega para o mal as forças ao seu alcance, causando sua própria infelicidade, em vez da felicidade. O aumento da riqueza é uma força muitas vezes usada com egoísmo, ocasionando grandes males. Para nos certificarmos disso, basta comparemos a quantidade de máquinas empregadas presentemente na guerra: navios, aviões, tanques, canhões, metralhadoras, com as armas usadas antigamente. Ver-se-á que a guerra moderna consome uma quantidade de riqueza com que não poderiam sonhar os guerreiros antigos.

          Apreciemos agora o que nos dizem os grandes Espíritos. Comentando o versículo do Evangelho em que Jesus disse: “Pobres tê-los-eis sempre convosco, ao passo que nem sempre me tereis a mim”, ditaram eles a Roustaing, em 1863, precisamente há oitenta anos, o seguinte:

           “Estas palavras do Mestre não foram compreendidas em espírito e verdade.

            “No que lhe concerne, ele alude ao seu aparecimento na terra, aos tempos e à duração desse aparecimento, para o desempenho da sua missão terrena, acorde aquela duração com as necessidades dessa missão. Alude também à duração da sua vida, humana ao ver dos homens.

            “Os que tomam sempre as suas palavras do ponto de vista das necessidades humanas, sem se lembrarem de que, antes de tudo, ele considerava as necessidades espirituais, falsearam estas: Pobres, tê-los-eis sempre convosco, atribuindo-lhe o pensamento, a afirmação, tão absurda e falsa, quão fatalmente retrógrada, de que a pobreza material há de ser sempre, eternamente, apanágio da Terra, da humanidade terrena.

            “Falando dos pobres da terra, Jesus não aludia especialmente àqueles que carecem de bens materiais, mas de todos quantos se encontram num estado de inferioridade qualquer, que necessita do auxílio, do concurso, do amparo dos homens de boa vontade. Suas palavras se referem às condições dos Espíritos, que uns são inferiores a outros em inteligência. Ele, pois, se referia não só aos que são materialmente pobres, mas também aos que o são moralmente e sobretudo aos pobres de inteligência.

            “No vosso planeta ainda inferior e em via de progresso, bem como em todos os outros igualmente inferiores, sendo a pobreza, tanto a material quanto a moral, uma consequência das provações, sempre haverá pobres de uma e outra categorias, até que esteja concluída a separação do joio e do trigo, isto é, que a depuração da Terra e da humanidade esteja completamente terminada pela separação dos bons e dos maus.

             “Lembrai-vos, porém, do que já diversas vezes temos dito: que da elevação de um planeta não decorre o nivelamento das faculdades.

             “Entre vós sempre haverá pobres, ainda quando do vosso mundo hajam desaparecido tanto a pobreza material, como a pobreza moral.

            Qualquer que seja o grau de depuração do planeta terreno, aí haverá sempre, num ponto ou noutro, Espíritos depurados, bons, mas menos adiantados do que outros. Esses são os intelectualmente pobres, aos quais os ricos em inteligência, em saber, darão com abundância o que possuem. Já temos dito e não devereis esquecer que, do ponto de vista intelectual, há sempre, entre os Espíritos, hierarquia, no tocante à ciência universal, mesmo quando todos tenham atingido a perfeição moral.

             “A pobreza material deixará de existir na Terra quando dentre vós desaparecerem todas as enfermidades morais que tendes de expiar renascendo continuamente. Despojei-vos, portanto, dos vossos vícios, quer advenham da carne, quer do Espírito, que deve dominar a matéria, pois que, do contrário, os felizes de hoje talvez sejam os pobres de amanhã.

             “O desaparecimento, a cessação completa da pobreza material, de maneira que cada um viva folgadamente do seu labor, será um sonho enquanto a vossa depuração moral não houver suavizado as vossas futuras expiações. As associações, as instituições de beneficência que mantendes são boas, porque provam em vós o desejo de fazer o bem, de socorrer vossos irmãos. Mas, sem desprezardes os socorros materiais, esforçai-vos por socorrer o moral dos homens. Podereis então dizer que a miséria material cessará no planeta terreno, quando dele for expulsa a miséria moral.

             “A esse tempo, prestando-se os homens mútuo e esclarecido auxílio, todos em comum trabalharão na obra comum. Quão longe, porém está essa era bendita em que haveis de entrar!

             “Preparai-vos, não obstante, para ela e fazei com esse objetivo todos os esforços, organizando, com os corações cheios de humildade e desinteresse, de justiça, de amor e de caridade, sociedades para o trabalho de ordem material, de ordem moral e de ordem intelectual. Que os “ricos” deem abundantemente aos “pobres” trazendo cada um a tais associações o tributo das faculdades de que possam dispor, a fim de que se espalhem e desenvolvam a educação e a instrução moral e intelectual, explicando aos homens e fazendo-lhes compreender: o amor a Deus acima de tudo e o do próximo como a si mesmos, as maneiras e os meios de praticarem esse duplo amor, de praticarem, observando a liberdade na ordem e a ordem na liberdade, o máximo de mutualidade, de solidariedade, de fraternidade, fonte e regra de todos os direitos e deveres, máximo que se formula nestes termos: um por todos e todos por um, em todas as associações, de qualquer natureza que sejam - comerciais, industriais, agrícolas, morais e intelectuais, compreendidas no rol destas últimas as literárias, as religiosas e as cientificas, em todas as esferas da atividade humana: individual, comum ou social.” (1)

             Como se vê, o caminho indicado pelos Espíritos é muito diferente do que pretendem seguir os partidos políticos e as lutas econômicas nas guerras de classe, porque ataca o mal pela raiz. A miséria moral tem que ser abolida em primeiro lugar, porque a miséria material é apenas um efeito daquela. Nem poderia ser de outro modo, visto que a reforma apenas externa seria mera ilusão. Conservando os mesmos vícios, os homens reconstituiriam sempre os mesmos males. O primeiro desses vícios a combater é o egoísmo que destrói todo o equilíbrio social. Fora de dúvida, porém, está que a pobreza desaparecerá da terra, E com a pobreza desaparecerão muitos outros males: ódios, lutas, opressão, traições, assaltos, prostituição, escravização, mercantilismo, jogo, suborno, fraudes, etc., etc.

             A pobreza moral ainda é grande mas a pobreza material já vai desaparecendo. Possivelmente, com o fim da presente guerra (*) igualmente se aproximará o fim da miséria material. Todas as energias, todos os elementos, toda a inteligência que estão produzindo material de guerra passarão a produzir nas indústrias de paz, e haverá o enriquecimento de todas as coisas necessárias à vida e ao bem-estar da humanidade. Será chegado o fim da pobreza. O mundo estará rico, porém, não feliz. A felicidade tem que ser conquistada mais lentamente. O enriquecimento do mundo será somente um passo a mais na conquista da felicidade.

 (1) Os Quatro Evangelhos, de J. B. Roustaing. Vol. III, pág. 385/7

  (*) Do blogueiro: Nosso prezadíssimo Ismael Gomes Braga colocou-se muito otimista neste trecho de sua bela mensagem. Estamos em 2022 mas ainda muito longe do cenário por ele descrito como possível para a nossa atualidade.

sábado, 1 de janeiro de 2022

O fim da pobreza

 

O fim da pobreza

por Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Fevereiro 1943

             A pobreza, as privações econômicas, a miséria são expiações e provas necessárias somente em mundos atrasados, verdadeiros purgatórios; como o foi a Terra até agora; são dores desconhecidas em mundos adiantados, onde só habitam Espíritos purificados. Pela evolução moral e intelectual dos homens, a pobreza desaparecerá da face da terra, porque o nosso planeta passará da categoria de mundo de expiações e provas, para a categoria de “mundo regenerador”.

             Este ensino dos Espíritos, que vem sendo repetido há oitenta anos, em múltiplas comunicações, está tendo a confirmação na progressão material. As descobertas da ciência, os triunfos da técnica, criando máquinas de produção cada vez mais rendosas, já permitem se produzam quantidades sempre maiores de todas as coisas necessárias à vida e ao conforto dos homens, ou, por outras palavras, a evolução intelectual do homem lhe vai permitindo vencer a pobreza e produzir tanta riqueza, que em certos momentos já o seu excesso causa perturbações. Igualmente a máquina de distribuição da riqueza.

            Criam-se novos veículos, novos meios de circulação dos bens por toda a superfície do planeta. Estabelecem-se assim a solidariedade econômica de todas as regiões pela permuta rápida e fácil de todos os bens materiais.

             Não necessitamos insistir sobre o aumento da riqueza da humanidade, porque está ao alcance de todos. embora nem sempre seja empregada para o bem. Por falta de evolução moral, mui frequentemente o homem emprega para o mal as forças ao seu alcance, causando sua própria infelicidade, em vez da felicidade. O aumento da riqueza é uma força muitas vezes usada com egoísmo, ocasionando grandes males. Para nos certificarmos disso, basta comparemos a quantidade de máquinas empregadas presentemente na guerra: navios, aviões, tanques, canhões, metralhadoras, com as armas usadas antigamente. Ver-se-á que a guerra moderna consome uma quantidade de riqueza com que não poderiam sonhar os guerreiros antigos.

             Apreciemos agora o que nos dizem os grandes Espíritos. Comentando o versículo do Evangelho em que Jesus disse: “Pobres tê-los-eis sempre convosco, ao passo que nem sempre me tereis a mim”, ditaram eles a Roustaing, em 1863, precisamente há oitenta anos, o seguinte:

             “Estas palavras do Mestre não foram compreendidas em espírito e verdade.

            “No que lhe concerne, ele alude ao seu aparecimento na terra, aos tempos e à duração desse aparecimento, para o desempenho da sua missão terrena, acorde aquela duração com as necessidades dessa missão. Alude também à duração da sua vida, humana ao ver dos homens.

            “Os que tomam sempre as suas palavras do ponto de vista das necessidades humanas, sem se lembrarem de que, antes de tudo, ele considerava as necessidades espirituais, falsearam estas: Pobres, tê-los-eis sempre convosco, atribuindo-lhe o pensamento, a afirmação, tão absurda e falsa, quão fatalmente retrógrada, de que a pobreza material há de ser sempre, eternamente, apanágio da Terra, da humanidade terrena.

            “Falando dos pobres da terra, Jesus não aludia especialmente àqueles que carecem de bens materiais, mas de todos quantos se encontram num estado de inferioridade qualquer, que necessita do auxílio, do concurso, do amparo dos homens de boa vontade. Suas palavras se referem às condições dos Espíritos, que uns são inferiores a outros em inteligência. Ele, pois, se referia não só aos que são materialmente pobres, mas também aos que o são moralmente e sobretudo aos pobres de inteligência.

            “No vosso planeta ainda inferior e em via de progresso, bem como em todos os outros igualmente inferiores, sendo a pobreza, tanto a material quanto a moral, uma consequência das provações, sempre haverá pobres de uma e outra categorias, até que esteja concluída a separação do joio e do trigo, isto é, que a depuração da Terra e da humanidade esteja completamente terminada pela separação dos bons e dos maus.

            “Lembrai-vos, porém, do que já diversas vezes temos dito: que da elevação de um planeta não decorre o nivelamento das faculdades.

            “Entre vós sempre haverá pobres, ainda quando do vosso mundo hajam desaparecido tanto a pobreza material, como a pobreza moral. Qualquer que seja o grau de depuração do planeta terreno, aí haverá sempre, num ponto ou noutro, Espíritos depurados, bons, mas menos adiantados do que outros. Esses são os intelectualmente pobres, aos quais os ricos em inteligência, em saber, darão com abundância o que possuem. Já temos dito e não devereis esquecer que, do ponto de vista intelectual, há sempre, entre os Espíritos, hierarquia, no tocante à ciência universal, mesmo quando todos tenham atingido a perfeição moral.

            “A pobreza material deixará de existir na Terra quando dentre vós desaparecerem todas as enfermidades morais. que tendes de expiar renascendo continuamente. Despojei-vos, portanto, dos vossos vícios, quer advenham da carne, quer do Espírito, que deve dominar a matéria, pois que, do contrário os felizes de hoje talvez sejam os pobres de amanhã.

            “O desaparecimento, a cessação completa da pobreza material, de maneira que cada um viva folgadamente do seu labor, será um sonho enquanto a vossa depuração moral não houver suavizado as vossas futuras expiações. As associações, as instituições de beneficência que mantendes são boas, porque provam em vós o desejo de fazer o bem, de socorrer vossos irmãos. Mas, sem desprezardes os socorros materiais, esforçai-vos por socorrer o moral dos homens. Podereis então dizer que a miséria material cessará no planeta terreno, quando dele for expulsa a miséria moral.

            “A esse tempo, prestando-se os homens mútuo e esclarecido auxílio, todos em comum trabalharão na obra comum. Quão longe, porém está essa era bendita em que haveis de entrar!

            “Preparai-vos, não obstante, para ela e fazei com esse objetivo todos os esforços, organizando, com os corações cheios de humildade e desinteresse, de justiça, de amor e de caridade, sociedades para o trabalho de ordem material de ordem moral e de ordem intelectual. Que os “ricos” deem abundantemente aos “pobres” trazendo cada um a tais associações o tributo das faculdades de que possam dispor, a fim de que se espalhem e desenvolvam a educação e a instrução moral e intelectual, explicando aos homens e fazendo-lhes compreender: o amor a Deus acima de tudo e o do próximo como a si mesmos, as maneiras e os meios de praticarem esse duplo amor, de praticarem, observando a liberdade na ordem e a ordem na liberdade, o máximo de mutualidade, de solidariedade, de fraternidade, fonte e regra de todos os direitos e deveres, máximo que se formula nestes termos: um por todos e todos por um, em todas as associações, de qualquer natureza que sejam - comerciais, industriais, agrícolas, morais e intelectuais, compreendidas no rol destas últimas as literárias, as religiosas e as cientificas, em todas as esferas da atividade humana: individual, comum ou social.” (1)

             Como se vê, o caminho indicado pelos Espíritos é multo diferente do que pretendem seguir os partidos políticos e as lutas econômicas nas guerras de classe, porque ataca o mal pela raiz. A miséria moral tem que ser abolida em primeiro lugar, porque a miséria material é apenas um efeito daquela. Nem poderia ser de outro modo, visto que a reforma apenas externa seria mera ilusão. Conservando os mesmos vícios, os homens reconstituiriam sempre os mesmos males. O primeiro desses vícios a combater é o egoísmo que destrói todo o equilíbrio social.

             Fora de dúvida, porém, está que a pobreza desaparecerá da terra. E com a pobreza desaparecerão muitos outros males: ódios, lutas, opressão, traições, assaltos, prostituição, escravização, mercantilismo, jogo, suborno, fraudes, etc., etc.

             A pobreza moral ainda é grande mas a pobreza material já vai desaparecendo. Possivelmente, com o fim da. presente guerra igualmente se aproximará o fim da miséria material. Todas as energias, todos os elementos, toda a inteligência que estão produzindo material de guerra passarão a produzir nas indústrias de paz, e haverá o enriquecimento de todas as coisas necessárias à vida e ao bem-estar da humanidade.

             Será chegado o fim da pobreza. O mundo estará rico, porém, não feliz. A felicidade tem que ser conquistada mais lentamente. O enriquecimento do mundo será somente um passo a mais na conquista da felicidade.

             (1) “Os Quatro Evangelhos”, de J. B. Roustaing, vol. III, pág. 385/7


sábado, 11 de dezembro de 2021

O Espiritismo é invencível

 


O Espiritismo é invencível

por I.G.B. (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Setembro 1961

                 Vamos copiar alguns tópicos do livro “Hipnotismo e Espiritismo”, do Dr. José Lapponi:

             “Existem em nós e em torno de nós forças que não conhecemos e que podem dar movimento à matéria inerte, e não as devemos negar “a priori”, pelo único motivo de não sabermos dar a razão delas.

            “Quando se acreditava que o mundo terminava nas colunas de Hércules, ai daqueles que se abstivessem em sustentar que, para além delas, havia outros continentes e outros mares?

            “Antes da (em outro setor) descoberta do microscópio, que nos revelou a existência de milhões de seres viventes, indicavam-se por limite absoluto da escala zoológica aqueles  que se mostravam como tal aos nossos débeis sentidos. Porque, pois, agora, recaindo no antigo pecado da obstinação, negar que acima do homem e fora de sua percepção vivem seres inteligentes que podem, em determinadas condições, dar prova da sua existência?

            “Na narrativa de Virgílio, ao falar de Eneias, que desce ao inferno para consultar a sombra de Anquises, verossimilmente apenas se esboçam cenas espiritistas. (Eneida, livro VI). Claramente Cícero nos diz que seu amigo Ápio mantinha frequentissimas conversações com os mortos.  E acrescenta que, no lago Averno, nas vizinhanças de Arpino, se fazia bem frequentes vozes “aparecerem, no meio da trevas, as sombras dos mortos, todas ensanguentadas.”

            “Plínio, senior, conta que Libone Druso foi morto por Tibério, por havê-lo perturbado quandoeste atendia a evocações de Espíritos, e que o grmático Ápio evocou a sombra de Homero para indagar sobre a sua pátria e seus genitores (“História”, XXX, 6). Columela fez menção do feiticeiro Dardano. A encantamentos, Horácio, mais de uma vez, faz alusão. E Suetônio nos refere que Augusto, tornado pontífice, fez queimar publicamente mais de dois mil livros que tratavam sobre encantamentos. Lucano, condiscípulo e rival de Nero, no livro 4º da sua “Farsália”, recorda a famosa maga de Tessália,  Eraton Cruda, “que aos seus corpos as Almas retornavam”.  

            “Por intermédio dele, obteve Sexto Pompeu o fim da inimizade entre seu pai e César. O divino Alighieri acolhe a tradição segundo a qual a famosa maga evocou mais tarde, em alguns dos seus trabalhos, a Alma de Vergilio, entãorecentemente falecido (“Inferno”, IX, 25-27).

             Di poca era di me la carne nuda,

            Ch’ella mi fece entrar dentro a quel muro,

            Per trarne um spirito del cerchio di Giuda.”

             Mais adiante, lemos:

             “Os gnósticos, difundindo muitas idéias de seus mestres,notadamente de Fílon e dos compiladores da “Talmude”, deram singular impulso à difusão das práticas espiritistas, as quais longamente persistiram depois, através da Idade Média.

            “No decurso do século XI, por malévolos contemporâneos foram acusados também de necromancia, quiça por motivo de sua doutrina, os pontífices romanos Benedito IX (1033-1044), Gregório VI (1045) e Gregório VII (1073-1076), que, pela “Crônica Uspergense” (1076), é chamado o maior mago de todos.”

            Mais Além:

            “Cecca Stabili di Ascoli (1251-1328) deveu em grande parte à sua doutrinas espiritistas a pira sobre a qual lhe mandaram findar seus dias.”

            Depois:

            “O conhecimento das práticas espiritistas durante a Idade Média é demonstrado ainda nas muitas lendas e histórias coetâneas; que estão plenas de narrativas, de invocações, de evocações de Espíritos, de demônios e de falecidos, de encantamentos, sortilégios e coisas parecidas.”

             Igualmente o glorioso astrônomo Giordano Bruno, queimado em 27 de Fevereiro de 1600, na Praça das Flores, em Roma, era espírita. Lemos na página 43:

            “Giordano Bruno (1550-1600) no seu “Candelaio”, mostrou-se fervorosamente convicto do possível contato dos vivos com os Espíritos.”

            Esta informação é extraída de Cantu, vol. V página 233, informa José Lapponi.

            Por fim, Lapponi nos dá uma lista imensa de grandes homens  contemporâneos seus que são espíritas. Nessa lista aparece o nome de J. B. Roustaing.

             É um grande cientista e católico incondicional quem nos informa com toda a clareza que o Espiritismo é invencível: tudo tem sido feito contra ele, mas inutilmente: ele progride sempre e se aprimora sempre. Com alguns médiuns brasileiros de hoje dá-nos o Espiritismo a mais bela Revelação na mais encantadora forma, em lindos romances e harmoniosos poemas que parecem destinados a romper séculos e milênios. Cria um movimento social de grnde projeção. Conquista os mais cultos professores de Universidade e os corações mais simples do povo, porque é todo amor e beleza. Nasce e renasce em todos os meios sociais, com ou sem rótulo espírita, e sem respeito algum pelo sectarismo humano. Tem seus servidores em ambos os sexos e em todas as idades. É um movimento acima da vontade do homem e, portanto, invencível através dos tempos.


domingo, 28 de novembro de 2021

Por quê?

 L. Zamenhof

Por quê ?

por Cristiano Agarido(Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Outubro 1946

                 Há oitenta anos o vibrante movimento espírita mundial, chefiado por Allan Kardec e veiculado numa grande língua de cultura universal, como era então o francês, parecia destinado a uma vitória imediata, dentro de poucos anos. Essa vitória próxima contra toda a oposição se evidenciava aos mais prudentes e Kardec, a encarnação mesma da prudência, como escreveu um sábio seu contemporâneo, escreveu em O Evangelho segundo o Espiritismo estas palavras de sublime otimismo:

             “O Espiritismo vem realizar, na época prevista, as promessas do Cristo. Entretanto, não o pode fazer sem destruir os abusos. Como Jesus, ele topa com o orgulho, o egoísmo, a ambição, a cupidez, o fanatismo cego, os quais, levados às últimas trincheiras, tentam barrar-lhe o caminho e lhe suscitam entraves e perseguições. Também ele, portanto, tem que combater; mas, o tempo das lutas e e das persiguiçõe sanguinolentas passou; são todas as de ordem moral as que terá de sofrer e próximo lhe está o termo.  As primeiras duraram séculos; estas durarão apenas alguns anos, porque a luz, em vez de partir de único foco, irrompe de todos os pontos do globo e abrirá mais de pronto os olhos aos cegos.” (Cap. XXIII, parágrafo 17.)

             Ninguém poderia sensatamente pensar de outro modo em 1864, mas vemos hoje que a vitória está longe  e as lutas não cessaram em alguns anos nem em vários decênios, mas terão de continuar por muito tempo. Quanto o mundo se modificou nesses oitenta anos, e na aparência para pior, porque as perseguições sanguinolentas e más ideias ressurgiram com o Comunismo e o facismo e banharam de sangue o Velho Mundo! Repugnante perseguição de raças trucidou milhões de seres humanos indefesos. De dois terços do território europeu o Espiritismo foi banido pela violência, sem admitir discussão alguma, e isso pelos dois grandes partidos em luta: Nazismo e Comunismo, ambos furiosamente materialistas. Sabemos que o mundo piorou só na aparência externa, porque a uma grande onda de mal sucede outra maior de bem e esta conquista sempre o futuro. Por quê falhou assim a lógica mais severa?

            Bem simples e por isso mesmo muito difícil de aceitar-se a explicação.     

            A universalidade da língua francesa deu à França uma supremacia cultural indiscutível no século XIX e desencadeou os ciúmes nacionais dos imperialismos diversos e cada povo tentou elevar seu próprio idioma às culminâncias que havia atingido o francês. A língua única dadiplomacia foi violentamente afastada e todos os povos tentaram introduzir o seu idioma, chegando-se rapidamente a plena Babel nas relações internacionais que por mais de um século haviam gosado os benefícios da unidade linguística com o francês como língua diplomática mundial. Chegou-se ao absurdo de redigir tratados internacionais em tantas línguas quantos fossem os contratantes e todas elas como originais.

            Inglês, alemão, italiano, russo, espanhol, todas as línguas da Europa, foram impostas pelos diferentes  povos como possuindo direitos iguais ao francês e este caiu rapidamente das funções de língua de cultura mundial para o lugar de simples língua nacional de minorias.

            O Espiritismo sofreu toda a desarticulação da falta de uma língua comum. As mensagens descidas do Alto ficaram limitadas a regiões linguísticas, a verdadeiras ilhas inabordáveis para os outros povos. A Revelação continua sendo mundial, porque os Espíritos falam em todas as línguas do planeta, mas os homens estão privados da universalidade das comunicações e limitados exclusivamente às suas fronteiras linguísticas. Em vez de um Espiritimo mundial único, como ao tempo de Kardec, elaboram-se centenas de pequenos movimentos espíritas desligados uns dos outros  e ignorantes até da existência de outros núcleos. Surgem grandes médiuns, maiores do que existiam ao tempo de Kardec, mas sua obra provisoriamente  permanece fechada em cada região lingística. Quem conhece na França a obra de Rosemary ou de Francisco Cândido Xavier? Nem os brasileiros conhecem  as obras da grande médium inglesa, nem os ingleses conhecem a dos nossos médiuns, e assim sucede a todos os povos. Falta a língua comum que reúna todo esse imenso tesouro, que, realmente, quando ligado em um todo, venceria o mundo em poucos anos, como previa Kardec sem poder imaginar a falência da língua francesa, queda inteiramente imprevisível em 1864, mas totalmente consumada em 1919, quando, pela primeira vez, numa conferência de diversas Potências, o francês foi excluído, porque os estadistas declararam que não sabiam francês.

            A falta de um língua mundial de cultura que reuna tudo quanto recebem os médiuns espalhados pelo mundo, para restituir tudo a todos como patrimônio comum de todos e de cada um, retardou de modo impressionante o movimento espírita mundial; mas o que perdemos em um século reconquistaremos em outro para toda a eternidade futura.

            Já os espíritas iniciaram em escala mundial a obra do futuro. O Congresso Espírita Panamericano adotou o Esperanto como uma de suas línguas oficiais; na Inglaterra, fundou-se a Londona Esperanto-Spiritista Societo; no Egito, está-se trabalhando com ardor pelo Esperanto entre os Espíritas; no Brasil, a Federação Espírita Brasileira iniciou o duplo trabalho de divulgar o Esperanto entre os espíritas e o Espiritismo entre os Esperantistas, e neste sentido já publicou vinte e poucos livros.

            Não sabemos quando, mas sabemos que um dia a  situação será muito melhor do que no tempo de Kardec; porque o Espiritismo terá uma língua mundial de todos e nela reunirá essa imponente biblioteca descida do Alto; são obras que se completam pela diversidade dos aspectos tratados pelos Espíritos e, quando reunidas, terão a força necessária para se imporem irresistivelmente a todos os pensadores do mundo.

            Trabalhemos, pois, com a certeza de que o grande ideal está em marcha e seu eclipse será muto passageiro.

                 Do blog: 75 anos são passados da publicação deste artigo. O que foi feito do Esperanto?


sábado, 27 de novembro de 2021

Erros religiosos da Humanidade

 

Erros religiosos da Humanidade

por Ismael Gomes Braga

livro: “Libertação” (Editora Ismael-Araras-SP, 1955)

             “A mesma gota caída do céu será pérola se recebida por uma rosa, ou lama se absorvida pelo pó”, disse Léon Denis, com respeito às revelações que o Céu nos remete, e concluiu que o Espiritismo será o que dele façam os homens, porque os bons saberão empregá-lo para o bem, mas os maus o corromperiam como tantas revelações anteriores que se tornaram flagelos para a Humanidade, apesar de sua origem divina.

            A primeira desventura do homem é seu espírito de seita que tudo conspurca e incendeia, porque ele tem n’alma quase somente germens de inferioridade e em tal terreno não podem medrar as sementes do bom e do belo. Só uma ínfima minoria de bons colhe todos os benefícios das revelações divinas.

            Deus nos envia Mestres sublimes que nos ensinam o caminho da luz para a felicidade. Uns poucos aceitam a revelação e voam para o alto, mas a maioria projeta suas próprias sombras sobre o terreno e têm de progredir lentamente pela força invencível da dor que a ninguém deixa para sempre abandonado à margem da evolução.

            Moisés recebeu e transmitiu ao povo ensinos de eterna sabedoria. Não nos esqueçamos que por ele veio ao mundo o Decálogo e vieram outras pérolas preciosas, como comentários aos Dez Mandamentos. São frases que ficarão eternas nas Escrituras e foram mais tarde confirmadas por Jesus, como o são hoje pela Terceira Revelação, mas em poucos corações se tornaram força viva tais ensinamentos. Vamos copiar aqui apenas três frases recebidas por Moisés: “Como o natural entre vós será o estrangeiro que peregrina convosco, e amá-lo-ás como a ti mesmo.” (Levítico, XIX, 34). “Ama ao teu próximo como a ti mesmo” (Levítico, XIX, 18). “Nem só de pão vive o homem.” (Deteronômio, VIII, 3).

            Estas frases foram repetidas por Jesus e o são incessantemente pelos nossos guias, porque constituem ensinos de aplicação eterna e universal. Os homens creram que tais palavras vinham de Deus e as conservam nos lábios até hoje, mas só nos lábios. No coração elas não viveram ainda.

            Bastariam os ensinos recebidos pela mediunidade de Moisés para guiarem a humanidade à luz e à ventura. Reflitamos sobre o versículo 33 do cap. XIX do Levítico, acima transcrito, para percebermos que ele não poderia ser de origem humana. Naquele tempo em que se faziam as guerras de extermínio contra os estrangeiros e só se poupava o estrangeiro vencido na guerra para vende-lo como escravo, uma ordem de amar o estrangeiro como a si mesmo só poderia ter descido de alta esfera espiritual, porque excedia de muito tudo o que o homem de então poderia pensar e sentir.

            Esses ensinos foram escritos 1300 anos antes de nossa era, ou seja, há mais de 3200 anos  e o que foi feito deles pelos crentes que o receberam?

            Fecharam-se num seita fanática que cometeu os mais absurdos crimes de religião contra os seus profetas ulteriormente aparecidos, inclusive contra o Divino Mensageiro que levaram à cruz do martírio. Cultivaram tristemente o ódio e conquistaram para si mesmos o ódio universal.

            Tais e tantos foram os crimes cometidos em nome da Lei, que a dor se tornou o processo necessário de evolução daquele povo que era destinado a guiar os outros no progresso espiritual, como se depreende do fato de haver-se tornado universal a Revelação por ele recebida.

            Acusando de heresia e condenando o divino Mestre, o Mosaísmo se afastou do Cristianismo e ficou estacionado; mas o Cristianismo aceitou a Revelação mosaica, tornando-o o grande divulgador do Velho Testamento.

            O que se tem dito do martírio do povo judeu, sob o ódio universal, em todos esses milênios, não é só indizível é até inconcebível.

            Implantou-se a Segunda Revelação, acentuando mais a Lei de amor universal e exemplificando-a com os mais sublimes scrifícios.

            A parte má e errada da religião – o espírito de seita – colocou os israelitas fora da Humanidade, quando o fundamento mesmo do Judaísmo é universal e deveria ter feito dos judeus os líderes religiosos mais queridos do mundo.

            Dentre os numerosos erros religiosos dos judeus, um de graves consequências foi o suporem que a Revelação Divina ficara encerrada no Velho Testamento, e nada mais Deus teria que dizer aos homens. Com esse tenebroso engano, ficaram eles encarcerados religiosamente num passado remoto, fora do tempo e do mundo, sem admitir nenhum progrsso na Revelação, nem a possibilidade de haver preciosas revelações por intermédio de outros povos. Repeliram o maior de seus profetas, o que vinha coroar a obra e dar cumprimento à Lei, realizar as profecias.

            Nasceu o Cristianismo em plena capital judaica, mas a religião oficial o repeliu e só os simples de coração o aceitaram. Perseguiram o Espírito mais sublime que já desceu à Terra; crucificaram-no e perseguiram seus discípulos e continuadores.  O Cristianismo que teria dado o máximo prestígio ao povo de Israel, foi exilado e só pode medrar no estrangeiro.

            Foi um erro religioso de tremendas consequências para os judeus essa violenta repulsa ao Cristianismo nascente. Eles perderam a liderança religiosa que lhes havia sido posta nas mãos, e tornaram-se uma pequena seita odiosa e sempre odiada no mundo, quando ela só deveria inspirar amor, amar e ser amada.

            O Cristianismo confirmou a Lei em tudo que ele possuía de divino; mas depois de três séculos se constituiu em Igreja oficial do Império Romano, adquiriu poder temporal, tornou-se religião obrigatória par todos os súditos do governo romano.

             Como religião oficial o Cristianismo recebeu todos os defeitos do Paganismo, já muito enraizados no povo, e perdeu seu próprio espírito que era todo de perdão e amor.

            Passou de perseguido a perseguidor e entrou a cometer todos os erros – para não dizer crimes – de religião imposta pela força do Estado. Toda a crueldade bárbara ressurgiu sacrilegamente em nome do cordeiro de Deus. Nessa involução, descendo sempre, dando pasto às mais vis paixões humanas, com o passar dos séculos o “cristianismo” estava transformado na mais monstruosa instituição que já possuíu a Humanidade. Era a Inquisição, o ódio desenfreado, apoiando a escravidão, cavando prisões subterrâneas, levantando os cavaletes de tortura, a roda, acendendo fogueiras para queimar vivos os seus “hereges”, assim classificados em processos odiosos de interesses políticos e econômicos inconfessáveis.

            Séculos e séculos de crimes monstruosos em nome da religião de amor e perdão incondicional!

           Vieram as Cruzadas, guerras de pilhagem e extermínio que duraram séculos, sob pretexto de “libertar” a Terra Santa... E tudo em nome do Cordeiro de Deus!

            Surgiu entre os árabes o Islamismo, agressivo, exclusivista, cruel, e até hoje mantém guerra “santa” contra o cristianismo das igrejas.

            Em todos esses séculos e milênios de tremendos erros religiosos, o progresso humano continuou sendo feito através da dor que felizmente nunca nos abandonou em nossos desmandos.

            Chegou o século da revolução contra a tirania do imperialismo religioso. Foi feita a Reforma religiosa que custou rios de sangue e levou à fogueira Espíritos sublimes. Basta lembrar a Noitada de S. Bartolomeu e a execução de Jan Huss, para sentirmos o preço da Reforma, o terror da reação de Roma contra a Reforma; mas a Humanidade já havia progredido bastante para a vitória da Reforma sobre grandes massas humanas, se bem que Roma continuasse dominando em muitos países do Ocidente, como se acha ainda.

            A Reforma e o progresso social conquistado palmo a palmo, forçaram finalmente Roma a se modificar e perder a força tirânica que exercia sobre o povo. Ainda em nosso século houve tentativa forte de restauração daquela força. Pelo célebre Tratado de Latrão, o fascismo restaurou o poder temporal da Igreja; mas foi de pouca duração essa restauração, porque o próprio fascismo foi extinto mais cedo do que a Igreja poderia supor.

            Essas conquistas sociais foram de caminhar lento. Três séculos depois de feita a Reforma, ainda a Inquisição conservava seu inteiro poder sobre Portugal, Espanha e outros países, e queimava impunemente os seus “hereges”, em processos tortuosos, nos quais predominava muito o interesse político e econômico.

            Com tantos erros cometidos através dos milênios, a religião se comprometeu duramente na consciência humana. Há numerosas pessoas que sentem um santo horror da palavra “religião”, como os judeus e outros povos sentem pavor no nome “cristianismo”, porque para esses povos “cristianismo” significa: prisões subterrâneas, torturas físicas e morais, fogueiras inquisitoriais, confiscação de propriedade, escravidão, lama da pior espécie.

            Agora ressurge a religião com a Terceira Revelação. Não desmente os seus princípios revelados através dos milênios, confirma-os.

            Diz-nos de novo o mesmo que já foi dito por intermédio de Moisés, dos Profetas, de Jesus, e, além de dizê-lo, traz-nos o depoimento dos “mortos”, todos eles afirmando que aqueles princípios de amor universal indicam o único caminho seguro para a subida ao céu.

            A grande diferença ente a Terceira Revelação e as duas que a precederam consiste em que as duas primeiras afirmavam  a eternidade da vida, enquanto que a Terceira demonstra essa eternidade e com ela a responsabilidade ilimitada: ninguém fica impune pelos crimes que comete; não há meios de burlar a lei de Deus.

            Pelos crimes religiosos cometidos no passado, temos muita razão de supor que os homens não criam na imortalidade e responsabilidade da alma; era um dogma inteiramente morto o da imortalidade. De agora em diante, a repetição por toda a parte dos fenômenos espíritas vai dando nitidez cada dia maior a essa verdade religiosa; a imortalidade da alma torna-se palpável e indubitável.

            Não aceitamos liteiramente a opinião de Léon Denis, citada no início deste artigo, porque a paciência dos nossos Maiores da Espiritualidade está hoje mais demonstrada do que no momento em que foram escritas aquelas palavras. Cremos que os homens não terão força de corromper o Espiritismo e rebaixá-lo como fizeram com as revelações anteriores, porque os Espíritos são incansáveis em seus esforços de nos ajudar, e porque a Humanidade já progrediu um pouco moralmente para não cair mais em erros tão grosseiros.

                                                                                   ***

            O Espiritismo terá que cumprir sua missão num mundo diferente daquele em que se desenvolveram as igrejas que cometeram grandes erros religiosos.

            Embora os princípios revelados do Judaísmo e do Cristianismo fossem universais, a Humanidade antiga vivia apartada em grupos sem comunicações constantes uns com os outros. A falta de transportes, de imprensa, de uma língua internacional popular insulava os grupos humanos que se desconheciam mutuamente. Nada havia de comum a toda a Humanidade. No presente e ainda mais no porvir, ao contrário, tudo será mais comum a toda a população do Planeta.

            Todas as distãncias já estão abolidas pelo rádio. O progresso do Esperanto já nos vai criando a mentalidade planetári, a consciência de solidariedade de todos os terrícolas. Quando se der o pleno desenvolvimento do Espiritismo, já as massas humanas possuirão uma língua internacional popular.

            As religiões antigas tinham, cada uma delas, sua língua internacional: o Judaísmo tinha o hebraico, a Igreja Católica tinha o latim, o Islamismo possuía o árabe, mas tais línguas só eram internacionais para pequeníssimas elites de alto nível cultural; o povo mesmo não possuía meios de compreender as Escrituras, sempre fechadas em línguas sagradas até a Reforma, quando a Bíblia passou a ser traduzida e divulgada entre os crentes.

            No porvir, as massas humanas mesmas possuirão uma língua realmente internacional e gozarão os benefícios da Revelação Progressiva e universal que se dará no planeta todo e chegará imediatamente ao conhecimento de todos.

            Seria pessimismo supormos que o Espiritismo venha a cair nos mesmos erros do passado. Isso não será possível; o progrsso não o permitirá.

            Temos encontrado nos meios espíritas, ultimamente, famílias de israelitas que teriam pavor de entrar em uma igreja católica; mas, através do Espiritismo foram conquistadas para o Evangelho. Uma das missões do Espiritismo, ao que nos parece, será recuperarmos para o Cristo o coração dos judeus, esse coração tão assustado pelo medo milenário das perseguições que supunham “cristãs” e que se diziam “cristãs”. Já com dois mil anos de atraso, mas na eternidade nunca é demasiado tarde.

 ***

             Os crimes religiosos do passado eram cometidos impunemente, porque a legislação humana não havia ainda classificado aqueles atos como crimes passíveis de punição pelos tribunais mesmo humanos. Hoje chama-se genocídio essa espécie de crimes cometidos contra um grupo religioso, uma nação, um partido. No caso da matança de judeus pelos nazistas, a ação foi classificada de genocídio e reuniu-se um tribunal internacional que julgou e condenou os responsáveis.

            A defesa dos acusados alegou que tais atos não eram crime, porque praticados de acordo com a legislação vigente na Alemanha que era uma nação soberana e podia decretar as leis que lhe aprouvesse. Mas os julgadores decidiram que acima das soberanias nacionais existem direitos humanos universais, cuja violação é crime, e assim foram condenados e executados os responsáveis. Houve um progresso na evolução do direito internacional e o sentimento de humanidade foi colocado acima das soberanias nacionais que cobriram tantos crimes no passado.

            Pode argumentar-se que esse reconhecimento dos direitos da criatura humana à liberdade, à vida, à crença, é de difícil execução, e como prova disso pode alegrar-se que o lançamento de bombas atômicas contra cidades japonesas, exterminando populações civis indefesas, seria um crime de genocídio, mas os responsáveis não foram julgados, porque não houve força legal suficiente para julgá-los. Se os Estados Unidos houvessem sido vencidos na guerra, certamente um tribunal japonês teria classificado o fato como genocídio, julgado e condenado os responsáveis, e meia dúzia de ianques teriam sido enforcados. Ninguém foi acusado, porque faltou força necessária ao julgamento em tribunal. Mas a consciência universal não absolveu os responsáveis: o mundo todo sente ódio contra os responsáveis, e os mais veementes protestos suriram dentro dos Estados Unidos. Houve outra espécie de condenção que apavora os responsáveis, e esta nos agrada mais do que a de Nurenberg, porque entrega o criminoso ao tribunal de sua própria consciência que é o mais forte de todos os tribunais.

            O povo dos Estados Unidos julgou os responsáveis pelas bombas atômicas sobre cidades indefesas do Japão e este julgamento é muito forte.

            Os erros religiosos da Humanidade são capítulo triste da História, mas não poderão reproduzir-se no porvir, nesse grande porvir que assistirá ao triunfo mundial da Terceira Revelação, ou seja do triângulo luminoso a que se têm referido os nossos guias:

                                                                             E

                                                                       E          E         

             Evangelho, Espiritismo, Esperanto: amor, luz, compreensão universal.

 


segunda-feira, 26 de julho de 2021

Conversando com seu próprio fantasma

Elliza Orzeszko

  Conversando com 
seu próprio fantasma

Por Lino Teles (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Outubro 1962

 

            Eliza Orzeszko é uma das maiores glórias da literatura mundial. Viveu na Polônia, de 1843 a 1910.

            Em seu excelente romance “Marta”, que teve a honra de ser traduzido para o Esperanto pelo Dr. L. L. Zamenhof e que assim se tornou um dos clássicos da língua internacional, narra ela a dolorosa situação de uma pobre mulher nascida na melhor sociedade varsoviana, onde viveu feliz até aos 24 anos, ficou viúva, pobre e sofreu horrores até a morte violenta, debaixo de um bonde.

            Marta era de moral irrepreensível e de fina educação social; ficou viúva com uma filhinha de quatro anos e não se pode adaptar a nenhuma profissão: todas as tentativas neste sentido lhe falharam, porque não tinha qualquer educação profissional. Todo o seu cabedal de conhecimentos era apenas para ornamentação de salões, e isso não basta como meio de vida.

           Em plena miséria, numa água-furtada, está ela meditando junto à filha condenada à fome e discute consigo mesma. Leiamos na página 104:

            “Diante dela, flutuando no espaço vazio, achava-se uma figura de mulher com mortal angústia no rosto, com o rubor da vergonha na fronte, com as mãos entrelaçadas. Era a sua própria figura, refletida no espelho de sua imaginação.

           “Então és tu – dizia Marta mentalmente ao seu fantasma que nascera de seu próprio espírito – então és tu aquela mesma mulher que tão heroicamente prometeu a si mesma e à sua filhinha trabalhar, por sua perseverança e energia varar caminho ente os homens e conquistar um lugar ao sol?  Que fizeste, pois, desde o tempo em que tomaste essas resoluções? Como cumpriste a promessa que fizeste das profundezas de teu espírito à sombra querida do pai de tua filhinha?

          “A figura de mulher começou a oscilar no ar como um ramo flexível sacudido pelos vendavais; em vez de qualquer resposta, ela bateu mais fortemente as mãos uma contra a outra e murmurou com lábios trêmulos: - Eu não tinha aptidões” Eu sou uma ignorante!

            “Ó criatura inepta! – exclamou Marta de si para si – es assim digna do nome de ser humano, se sua cabeça é tão néscia que não sabe bem o que pensar de si mesma, se tuas mãos            são tão fracas que não se podem resguardar com seus desvelos nem a cabecinha minúscula de uma pobre criança! Porque então te estimavam outrora? Poderias agora estimar-te a ti mesma?

            “A figura de mulher descruzou as mãos e com elas cobriu o rosto que se curvou profundamente”.

             Há desses momentos em que o Espírito olha objetivamente e julga com severidade seu corpo, sua personalidade humana, tão diferente do seu ideal eterno.

            Mais adiante, na página 220, a Autora descreve a cena tétrica da meninazinha exânime, sem tratamento, que, num delírio, estendendo os bracinhos para o espaço vazio, para o pai que morrera um ano antes, exclama: “Papai! Papai!, gemendo, sorrindo e rogando socorro. Esta cena é realmente espírita e de fatos semelhantes tratou Bozzano em “Aparições no Leito de Moribundos”.

            Repitamos: “Marta”, de Eliza Orzeszko, é uma das obras imortais da literatura universal, tendo-se, por felicidade, tornado obra clássica do Esperanto, estudada em todos os países.

            Do ponto de vista social, a educação da mulher progrediu muito depois do tempo em que Eliza Orzeszko escreveu esse livro de combate aos defeitos de nossa civilização contra o sexo feminino. A mulher hoje frequenta escolas profissionais, aprende a trabalhar, a ser economicamente livre, e não uma eterna criança indefesa ou escrava, como era há um século.

            A autora de ‘Marta” foi uma das preparadoras da sociedade futura.

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Ilusões da Propriedade

 

Ilusões da Propriedade

Cristiano Agarido (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Dezembro 1946

             O Espiritismo vem projetar nova luz sobre os problemas humanos e destruir velhas ilusões que infelicitavam os terrícolas. Um de seus ensinos nos demonstra que não temos propriedades materiais: somos apenas usufrutuários sem tempo determinado, em situação mais insegura do que o hóspede de um hotel, certo de poder permanecer no uso e gozo de seu apartamento durante a semana, paga adiantado. De todos os bens podemos ser despojados a qualquer momento pela morte ou, mesmo, antes dela, por imprevistos que desafiam toda a nossa perspicácia.

            Esse conhecimento ajuda-nos a libertar-nos da avareza que tantos males tem causado à Humanidade.

            Se na realidade da vida eterna é assim, o rico de hoje pode tornar-se o miserável de amanhã pela morte ou pela desapropriação imprevisível. Outro aspecto ainda existe, no domínio dessa ilusão, que merece nossa reflexão e vamos tentar esboçá-lo num rápido artigo.

            A vida moderna complicou a primitiva ideia de propriedade, positiva questão de força entre os antigos, tornando-a de tal complexidade que desafia a inteligência dos mais argutos e a força dos mais violentos. Em vez do saco de ouro foram criados os papéis simbólicos do ouro, confiados à guarda dos governos e sujeitos a desvalorizações parciais ou totais.  Vemos um país inteiro arruinado, com a moeda reduzida em seu poder aquisitivo a tão ínfimo valor que todas as rendas se tornam insuficientes à subsistência.   

            O preço de um prédio, poucos meses depois de vendido, não basta para pagar o aluguel de outro por um mês; os juros dos títulos, com os quais vivia confortavelmente uma família, tornam-se insuficientes e tem-se que vender tais papéis e seu produto desaparece rapidamente. É essa a situação hoje de muitos países europeus, mesmo de um dos vencedores da guerra. 

            Além dessas calamidades de ordem nacional, independentes da vontade de um povo inteiro, outra existem de natureza privada que merecem exame filosófico. As ações de sociedade anônima apresentam uma dessas modalidades. Há neste momento no Brasil muitas sociedades anônimas, cujas ações dentro de 24 horas perderam todo o seu valor positivo e passaram a representar valor negativo, isto é, são símbolo de dívidas a pagar e ninguém as quer em suas mãos, quando 24 horas antes mesmas ações tinham 300% de ágio. São empresas falidas por força de Decretos que determinaram sua proibição, em oposição a Decretos anteriores que as estabeleceram. Não interessam pormenores nem crítica a nenhum dos dois Poderes, um que criou, outro que exterminou tais empresas; só interessam os fatos positivos que produziram prosperidade passageira e ruína completa de alguns milhares de pessoas.   

            Há em nosso tempo pessoas que passam pela vida inteira em grandes negócios, em plena ilusão de riqueza, mas que na verdade nunca possuíram um ceitil. Todas as suas operações são financiadas por bancos e particulares, sob caução de papéis que realmente nada de duradouro representam, e tais e tantas são as operações de crédito que o autor do movimento chega à ilusão completa de que é rico e como tal vive muitos anos ou a vida toda e não raro constrói prédios, monta fábricas, torna-se um fator do progresso, elemento útil da sociedade em que vive.  Em qualquer momento de sua vida, porém, que a sua situação real fosse analisada, ele estaria insolvável. Viveu, trabalhou, fez muito bem ou muito mal, baseado em ilusões e cultivando esperanças de lucros que lhe permitissem tornar-se proprietário real e não somente depositário de bens alheios. 

            Toda essa confusão moderna contribui para nos esclarecer sobre a ilusão da vida material. Só os bens espirituais realmente nos pertencem e dentro dessa babel temos que ouvir a ressonância daquela advertência descida do céu: “Ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça, nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam.” (Mat. 6:20) 

            E, no entanto, não podemos fugir da sociedade em que vivemos e de submeter-nos às suas ilusões e complicações, sem nos tornarmos inteiramente inúteis a nós mesmos e aos outros! Existem grandes serviços a prestar, obras necessárias ao progresso do mundo e dos homens e só as podemos realizar dentro da situação existente. Por mais contraditória que seja a sociedade moderna, é ela o laboratório de grandes realizações. É ela o nosso campo de trabalho e não podemos fugir a todas as suas complicações e perigos sem cairmos na situação de servo infiel que enterrou os talentos com receio de perdê-los.

            A propriedade é uma ilusão, não podemos apegar-nos a ela, porque nos será retirada quando menos esperarmos; no entanto, sem ela não podemos realizar as obras que nos foram confiadas. Como sair do dilema?

            Parece-nos que o mal tem sido apenas de considerarmos efetivo o que é passageiro e de nos escravizarmos à propriedade em vez de empregá-la como serva, como instrumento de prestar serviços. Se a nossa finalidade clara for a de servir, todas as coisas em nossas mãos oferecerão meios de prestar serviços; não mais nos julgaremos proprietários de coisa alguma – o que seria funesta ilusão – mas somente administradores provisórios dos bens da Providência. Quando chegarmos à compreensão clara dessa função da propriedade, tornar-nos-emos administradores fiéis do tesouro do Pai, sentindo-nos responsáveis no emprego de toda e qualquer parcela dos bens que passam pelas nossas mãos. Seremos, então, instrumentos da Providência, e o mundo se transformará em paraíso. Longa será ainda a nossa luta para realizarmos essa mudança de mentalidade. Muitos serão os Missionários que terão que descer à Terra para nos ensinar e serem incompreendidos por nós em nossa timidez diante da pobreza. Essa timidez, essa falta de fé nos homens, sulcou fundamente o nosso Espírito durante muitas encarnações penosas e só com longos abalos, muita dor, conseguiremos libertar-nos de nós mesmos e vivermos para a obra divina.

            De qualquer sorte não nos insulemos num claustro, vivamos e lutemos na sociedade humana com todos os seus riscos e perigos.