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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

1981 - Centenário de Uma Perseguição



A "REVISTA DA SOCIEDADE ACADÊMICA DEUS,
CHRISTO E CARIDADE" HISTORIOU OS FATOS QUE
CULMINARAM, NO SEGUNDO IMPÉRIO, NA
PRIMEIRA PERSEGUIÇÃO AO ESPIRITISMO PÁTRIO:

1981 - ‘Centenário
de uma Perseguição’

(1881 – 28 de Agosto – 1981)

(Reformador Agosto 1981)

          I

"Os dirigentes atuais da Federação Espírita Brasileira, cônscios aos deveres que o Estatuto da Casa lhes impõe 
e das obrigações que têm para com o Anjo Tutelar da Pátria do Evangelho, procuram ser guardiães fiéis do incalculável patrimônio espiritual e moral que lhes foi confiado e, por isso, não transigem com os princípios da Doutrina codificada por Allan Kardec e nem com as diretrizes da Casa de Ismael, recusando, inclusive, dar qualquer agasalho a enganos ou a erros históricos, consciente ou inconscientemente cometidos, particularmente quando de autoria de pessoas que não se possam considerar insipientes."                            ("Reformador", 8/1978, pág. 268.)

            Aos estudiosos da Doutrina Espírita não escaparam, por certo, os extraordinários conceitos emitidos pelo Espírito Humberto de Campos, na obra "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", editada pela FEB, na qual o emérito escritor patrício desencarnado nos enviou do plano extra físico, onde moureja, instrutivas e consoladoras informações da nossa História, na qual falecem as maquinações e os perjúrios da má vontade humana,

            O nosso querido Humberto de Campos, jornalista e escritor consagrado que foi entre os terráqueos, após despir a roupagem carnal, não se homiziou nas prerrogativas do seu valor acadêmico, mas, valoroso como sempre, tornou-se um grande repórter da Espiritualidade, pesquisando e narrando nos episódios marcantes da História da nacionalidade, sem desvios ou mistificações, porque suas Informações foram colhidas na fonte augusta do Além, dando-nos a beber a linfa pura e cristalina da verdade, que não se coaduna com os transitórios e mesquinhos interesses humanos e que não obedece a outros princípios que não sejam aqueles que interessam á coletividade, sem medos ou subterfúgios.

            Na obra citada, em seu XXIII capítulo, intitulado "A Obra de Ismael", ele nos fala dos primeiros passos da Doutrina do Consolador nas Terras do Cruzeiro, sob a égide desse generoso Guia. São citados os humanitários médicos Bento Mure e Vicente Martins, que por volta de 1840, antes mesmo da Codificação, conheciam a mediunidade, o valor dos passes espirituais e magnéticos,  além de terem sido apóstolos da Homeopatia. A fulgurante divisa "Deus, Cristo e Caridade", inscrição sublime da alvinitente bandeira Ismaelina, serviu a ambos, via intuição, como elemento impulsionador de permanentes vitórias. Outros heróis anônimos e devotados seguiram lhes as pegadas, aliviando e curando aflitos e necessitados, sob as bênçãos de Jesus. Os fenômenos ocorridos com as irmãs Fox, em Hydesville (E.U.A.), de inestimável valor no campo fenomênico, repercutiram no Brasil, durante o Segundo Reinado.

            A intelectualidade da Corte, entusiasmada pelos notáveis acontecimentos, iniciou então seus estudos sobre a fenomenologia mediúnica, conquistando ardorosos adeptos, dentre eles o Marquês de Olinda e o Visconde de Uberaba. Treze anos após Hydesville, em 1860, despontaram os primeiros beletristas espíritas. Através do "Diário da Bahia", o Dr. Luís Olímpio Teles de Menezes, tendo a secundá-Io alguns colegas, repelia inverdades assacadas contra o Espiritismo, publicadas na "Gazette Médicale".

            Essa louvável atitude desses pioneiros do jornalismo espírita chegou até o Codificador, que se rejubilou com o acontecido, certo ficando da expansão universalista da novel Doutrina.

            O decesso do mestre lionês em 1869 não desencorajou os profitentes espíritas. A luminosa e bendita semente da Codificação extrapolara o Velho Continente e ainda naquele ano surgia o primeiro periódico espírita - "O Eco de Alérn-Túmulo" -, sob a firme direção de Luís Olímpio Teles de Menezes.  

            Por injunções materiais e sob a inspiração da Espiritualidade, a fim de que se agregassem num só núcleo os dispersos adeptos do Espiritismo, foi fundado em 1873 o "Grupo Confúcio", que teve vida efêmera, mas balizou o desdobramento em bases austeras do Cristianismo Redivivo, em terras brasileiras.

            Três anos após, exatamente em 1876, os elementos que não se dispersaram após a dissolução do "Grupo Confúcio", onde muitos foram envolvidos pela discórdia oriunda da invigilância, fundaram a "Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade", na qual pontificaram grandes vultos do Espiritismo pátrio, dentre eles: Francisco Leite de Bittencourt Sampaio, Doutor Adolfo Bezerra de Menezes e Antônio Luiz Sayão.

            Dai em diante, ou seja, a partir de 1876, acontecimentos vários, todos eles oriundos das imperfeições humanas, tumultuaram o ambiente da referida Sociedade, até chegar--se à fundação da "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade".

            Neste humilde e despretensioso escorço, não nos moveu qualquer intento de reescrever o que tão explicitamente foi estampado, na magnífica obra de autoria espiritual de H. de Campos, através da abençoada mediunidade de F. C. Xavier. Fizemo-Io como abordagem ao assunto que pretendemos enfocar - o centenário da perseguição ao Espiritismo no Brasil -, fato que se tornou patente no ano de 1881.

            Com a devida vênia, declaramos haver recorrido à obra já citada, e, para mais amplas e melhores elucidações quanto aos pródromos do Espiritismo pátrio, também nos valemos do primoroso artigo de Pedro Richard, publicado em "Reformador" de 15 de setembro de 1901 e inserido na Introdução da obra "Trabalhos do Grupo Ismael", de Guillon Ribeiro (no perlodo de julho de 1939 a dezembro de 1940), editada pela FEB (esgotada).

            Após esses esclarecimentos, eis-nos diante de fatos relevantes que bem configuram as atitudes cavitosas dos inimigos gratuitos dos espíritas, e a partir de 1881, pelas autoridades constituídas do Segundo Império, valendo sobremaneira relatar a veracidade dos acontecimentos quanto à perseguição, mas, de igual maneira, destacar-se a nobreza de caráter de Sua Majestade D. Pedro de Alcântara (D. Pedro II), que, embora discordando dos princípios doutrinários espíritas, não aconselhou, acolheu ou determinou qualquer ação penal contra os seus adeptos, mantendo-se dentro dos limites do Direito, da Justiça e da Razão.

            A essa altura já se pode sentir, claramente, a penetração do Ideal espiritista no Brasil, as dissensões até certo ponto naturais entre os seus primeiros trabalhadores, e o esforço angélico e permanente de Ismael, a fim de que a semente bendita do Cristianismo encontrasse condições de sobrevivência entre nós.

            Atingia-se, àquela época, indubitavelmente heroica, o momento das primeiras lutas, ante as arremetidas dos "aborrecidos da luz", encarnados e desencarnados, que açodadamente investiam para destruir a Terceira Revelação que surgia.

            Seria demasiado à História do Espiritismo o não topar no Brasil com detratores, malevolentes e arredios aos seus ensinamentos, porque o misoneísmo é fator intrínseco à natureza humana, e a ausência dessas refregas até desmereceriam a trajetória de quantos lutaram nas linhas de frente, pugnando não pela supremacia de seus ideais, mas pelo reconhecimento público dos mesmos, sempre lastreados nos ensinamentos cristãos, amparados na prece e na humildade, mas firmes e resolutos em defesa de suas
convicções.

            O advento da "Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade", fundada no Império do Brasil em 3 de outubro de 1879, e o consequente aparecimento de sua Revista, em janeiro do 1881, causador de um certo constrangimento, visto que era a Igreja Católica intimamente ligada ao Estado, não impediu o novo órgão de divulgação de manter bons níveis de contato social.

            Agindo com acerto, a 3 de outubro de 1880 inaugurava a referida Sociedade a sua Biblioteca, abrindo-a ao público e, ao mesmo tempo, constituindo-a fecho de ouro ao dia no qual se comemorava o seu primeiro aniversário de instalação.

            Pode verificar-se, compulsando-se o primeiro número da Revista da "Sociedade Acadêmica", que no seu dealbar a nova instituição manteve correspondência com sociedades espíritas de Paris e Buenos Aires; participou das exéquias de D. Pedro V, Rei de Portugal, aceitando convite da "Sociedade Caixa de Socorros D. Pedro V", em 11 de novembro de 1880. Relacionava--se, ainda, com o "Real Club Ginástico Português", o "Grande Oriente Unido do Brasil", além das Lojas Maçônicas "Liberdade e Fraternidade", "Abnegação”, "Gangareli do Rio", e a "Imperial Sociedade União Beneficente Vinte e Nove de Julho", "Congresso Ginástico Português", "Euterpe Comercial", "Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro" e "Sociedade Portuguesa de Beneficência". Fez-se representar, através de comissões, em atos religiosos e profanos, como: saimento e sufragação do Ilustre brasileiro José Maria da Silva Paranhos (Visconde do Rio Branco) e envio de felicitações à Família Imperial no 55º aniversário natalício do Monarca.

            Havia, portanto, extenso e intenso trabalho no campo das relações externas da Sociedade, objetivando, por certo, angariar leais simpatias, respeitadas as suas normas estatutárias de 30 de setembro de 1879, posteriormente homologadas.



II

            A seguir, verifica-se o envio de diversos Jornais à Sociedade, alguns oriundos da Corte, outros das províncias, todos encaminhados carinhosamente à encadernação. Por sua vez, a Revista da Sociedade era enviada a diversas redações, havendo, como se depreende, um natural Intercâmbio jornalístico.

            Dando expansão às suas atividades, foi criada uma "Sala de Leitura", à disposição do público, na Rua da Alfândega, 120, no horário compreendido entre 10 da manhã às 3 da tarde. Mais ainda: a Revista da Sociedade Acadêmica propôs-se a Inserir matérias de outras publicações, mesmo que infensa às suas Ideias. Obviamente, era uma forma do exercício prático e legitimo da liberdade de pensamento.

            Aliás, a esse respeito, ainda que de passagem, seria Interessante anotar-se que o referido órgão espírita, enviado a diversos co irmãos da imprensa, religiosa ou não, recebia tratamento cordial ou hostil segundo os destinatários. E quando dessas Inserções, ao servir-se de suas páginas para transcrições de noticias de outros hebdomadários, a Revista demonstrava o alto espírito democrático de que se achava imbuída. Exemplificando, vejamos o comentário da "Gazeta da Tarde", em 15 de fevereiro de 1881: "A Revista está escripta em bonito estylo e com bastante talento"; ao contrário, afiançava "O Cruzeiro" de 18 de fevereiro de 1881: "O Spiritlsmo, nome novo de uma crença antiga e transmitida através dos séculos, tem numerosos adeptos, como é natural em uma sociedade sem religião, que lança-se sempre no maravilhoso, e ja possue uma associação que encetou a publicação da Revista (etc., etc., etc.). Fica em nosso poder o 1º número e agradecemos."

            Tornar-se-ia cansativo citar-se aqui a maior parte do que foi escrito sobre o aparecimento do mensário que divulgava as luzes do Espiritismo e que, segundo se nos parece, se não possuía o mérito de mostrar publicamente o tríplice aspecto da Doutrina Espírita, tomando-a mais como Ciência, jamais se acovardou ante as arremetidas daqueles que negam e combatem aquilo que sequer conhecem.

            Diante deste quadro, pode verificar-se, no cômputo geral, naquelas eras primevas, que tinhamos alguns poucos adeptos, seguindo-se a legião dos complacentes ou até inimigos declarados e gratuitos.

            Exatamente neste ano de 1981 pode comemorar-se o primeiro centenário da perseguição aos espíritas em terras brasileiras.

            Se escapamos ao martírio físico e moral que as autoridades da época tentaram impingir aos bravos confrades pioneiros, isto se deveu à ação de um monarca dotado de imensa dignidade e senso de justiça - o Imperador do Brasil, D. Pedro II.

            Um dos fatos mais claros, que bem identificava o que pretendiam os nossos detratores, foi o que ocorreu na cidade de Areias, província de São Paulo, onde um grupo se amotinou contra as reuniões espíritas, que ali eram realizadas.

            Transcrevemos, a seguir, trecho sobre o assunto em tela: "E, desde que sejam ofendidos em seus direitos ou perseguidos de qualquer modo, a Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade cumprirá aquele dever sagrado, que se impoz, de advogar a causa da verdade contra o erro, da tolerancia contra o fanatismo; mesmo porque, perante o artigo 179 da Constituição que procuramos fazer respeitar, ninguém no Brazil póde ser perseguido por motivos de opiniões políticas ou religiosas, e portanto muito menos pelas scientificas; desde que respeitem a ordem e não ofendam a moral pública. Por isso não podemos passar sem um protesto o attentado de que foram victimas diversos cavalheiros e senhoras, que se achavam reunidos na residência do Sr. tenente-coronel Joaquim Silverio Monteiro Leite, na cidade de Arêas, província de São Paulo, na noite de 20 de março proximo passado."

            Tal ocorrência, em 1881, foi notória quanto à perseguição ostensiva movida por profitentes de outros credos, quem sabe até por simples arruaceiros, sempre dispostos a perturbar o sossego público. É bem crível que outras de Igual natureza tenham ocorrido pelo Brasil afora, embora não registradas, em face da ineficiência dos meios de comunicação então existentes.    

            Um caso assim ofereceria ao olhar público a sintomatologia evidente da má-vontade, do egoísmo declarado, gerador de outros mais audazes, se não houvesse um posicionamento defensivo por parte dos ofendidos. Entretanto, o que melhor se pode oferecer com relação ao  assunto enfocado é passar ao relato do ocorrido, quando a "Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade" foi diretamente perseguida pelas autoridades constituídas ao solicitar ela sanção do Governo Imperial às suas atividades.

            Relativamente aos fatos acontecidos, há que se destacar alguns "pareceres de Estado" sobre o assunto ESPIRITISMO, as contestações aos mesmos por parte da instituição requerente, de tudo resultando saber-se o que pensava o Governo Imperial da novel Doutrina, tanto quanto a digna, ponderada e corajosa posição assumida pelos semeadores do Cristianismo Redivivo há um século.

            Segundo se pode depreender da leitura da "Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade, às páginas 306, em seu ano I, 1881, outubro, nº 10, essa instituição podia funcionar normalmente, sem maiores problemas com as autoridades governamentais, pois estava amparada pelo Decreto-Lei nº 2711, de 19 de dezembro de 1860, do Governo Imperial, que permitia a existência social, sem cogitar-se de registros estatutários das Sociedades Científicas e Literárias. E, em verdade, tudo corria normalmente, sem maiores embargos, senão os causados por excitados e gratuitos detratores, quando a Sociedade houve por bem, baseada no artigo 42 de seus próprios Estatutos, requerer a aprovação destes, a fim de garantir a aquisição e direito de propriedade de um prédio, que serviria de local de reunião e preservação de seu acervo.

            Para isso, impetrou o requerimento necessário, de acordo com a legislação em plena vigência. Tendo o requerimento sido apresentado em 14 de novembro de 1879, para espanto dos requerentes, teve um precipitado despacho que foi publicado no "Diário Oficial" de 16 do mesmo mês (anotem, apenas dois dias após), com o seguinte teor: "Já foi indeferido em vista da consulta e Resolução Imperial de 22 de fevereiro do corrente ano."

            Ora, convenhamos, como se não bastasse tamanha rapidez a derrubar uma natural demora burocrática (protocolo do requerimento, análise e despacho do mesmo, etc.), ainda se indeferia algo que àquela data - 22 de fevereiro de 1879 - nem existia, pois fora fundada a 3 de outubro de 1879. Logo, indeferia-se o que não se tinha solicitado.

            Inconformada com tão Injusto indeferimento, que pecava na forma e no fundo, pôs-se a Sociedade em busca de seus direitos, tendo recebido apoio dos mais eminentes advogados do Foro, apoiada que se encontrava pelo Decreto-Lei nº 2711, da própria Constituição do Império. Como citou a Revista nessa ocasião, "os inImigos do Espiritismo dispunham de instrumentos dóceis na Secretaria do Império".

            Estava meridianamente claro que o Indeferimento se referia a outra instituição, que não a "Sociedade Acadêmica", que prosseguiu seus trabalhos normalmente.

            Com relação à marcha dos acontecimentos, assim se expressou sua Revista, Ano I, 1881, setembro, nº 9: "Entretanto, o Governo do Brasil, representado pela 2ª Diretoria da Secretaria do Império, na sua informação, pela secção do Conselho de Estado, no seu parecer, por um Ministro do Império, em seu despacho, e pelo Monarcha que o referendou, considera sociedade secreta um Grupo Spirita, a pretexto de não serem públicas as suas sessões."

            Com o Intuito de evitar mal-entendidos, eis que a Sociedade, a 22 de dezembro de 1880, participou ao Sr. Chefe de Polícia da Corte sua existência e funcionamento.

            Tudo parecia serenado, quando a Sociedade foi despertada por notícias alarmantes a seu respeito, publicadas em "O Cruzeiro" e "Jornal do Commerclo", a 22 de agosto de 1881, que informavam a seus leitores que o Chefe de Policia mandara sustar suas reuniões.

            A serena mas firme decisão da Sociedade foi a de comparecer ante o Sr. Ministro da Justiça, para saber da veracidade de tais fatos, tendo os seus Diretores sido tranquilizados por S. Exma.. Mas, às 12 horas do dia 30 de agosto de 1891, um Oficial de Justiça entregou à Instituição espírita uma intimação datada de 27 do mesmo mês, de parte do Dr. Alberto Fialho, 2° Delegado de Polícia da Corte no Rio de Janeiro, proibindo-a de reunir-se socialmente, "visto não estarem os seus Estatutos devidamente aprovados pelo Governo Imperial na forma do que dispõem os Capítulos 1º, 2º e 3º da Lei nº 2711, de 19 de dezembro de 1860".

            Fora abaixo a promessa de S. Exma. o Sr. Ministro da Justiça, que tanto tranquilizara a Sociedade; prevalecera o poder de polícia do Sr. Delegado e a Sociedade, que nada de secreta tinha, era tomada como tal, sem maiores pesquisas ou delongas, configurando-se o ilícito de uma perseguição malévola, pertinaz e desastrosa.

            Novamente a Sociedade voltou, em comissão, ao Sr. Chefe de Policia, que fez algumas concessões, as quais não a satisfizeram "in totum", pois "a Sociedade Acadêmica precisa, quer e há de ter uma posição definida; cônscia de seus direitos nada pede; exige tolerância e respeito mútuo. Em um povo livre, o cidadão, quer Individual, quer coletivamente, não pode ser obrigado a fazer senão o que as leis exigem".

            A partir desses acontecimentos, e por duas vezes, a "Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade" foi à presença de S. Majestade, D. Pedro de Alcântara, com intervalo de 15 dias entre ambas, com exposição de motivos, e nessas duas ocasiões ficou bem configurado o caráter adamantlno do Monarca que, sendo Infenso ao Espiritismo e assim o dizendo, aconselhou seus profitentes a buscarem outros estudos, mas, ante os argumentos legais que lhe foram apresentados, proibiu terminantemente qualquer perseguição à Doutrina Espírita.

            Adiante, citaremos trechos dos diálogos havidos entre a Diretoria da Sociedade e Sua Majestade D. Pedro de AIcântara, mas antes de fazê-Io achamos Interessante transcrevermos tópicos referentes ao Espiritismo, emitidos pelo "Conselho da Estado", pinçados de algumas publicações da Revista Acadêmica, Lendo-os, tem-se uma visão perfeita do estado de ânimo dos detentores do poder, que não perdiam oportunidade de combater o Espiritismo nascente em nossa terra.

            Citaremos, igualmente, as ponderações daqueles que defendiam o direito sagrado e inalienável de defender os postulados doutrinários que hoje nos irmanam, de maneira pacifica, buscando as grandes realizações do Espírito.


III

            “Alguns pareceres do Conselho de Estado e análise dos mesmos através da “Revista da Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade”.

            Nesta sequência do trabalho que vimos elaborando, os "Pareceres de Estado" serão citados entre aspas e as análises dos mesmos sem elas, a fim de melhor identificá-Ios; outrossim, é nosso intento lembrar que respeitamos a ortografia da época, procurando dar o mais perfeito cunho de autenticidade ao assunto em tela.

            "A Doutrina Spirita nega dogmas fundamentais do catholicismo."
           
            - o catholicismo official, no art. 278 do Código Criminal, só impõe como dogmas a existência de Deus e a immortalidade da alma, verdades aceitas e demonstradas pela sciencia spirita. Como é, pois, que a 2ª Diretoria da Secretaria do Império afirma que o Spiritismo nega dogmas fundamentais do Catholicismo?

            "Considerando pelo lado social não se póde deixar de reconhecer que o Spiritismo é uma doutrina funesta e extremamente perigosa."

            - De facto, para aqueles que querem crer que tudo se acaba com a vida corporea, o Spiritismo é funesto, porque os faz tremer ante essa terrível verdade - a continuação da existencia - tendo em perspectiva o sofrimento; é extremamente perigoso para os que só aspiram os gosos materiais, entregues de corpo e alma aos apetites da carne, engolfados nas paixões mundanas.

            "Tem se observado por toda parte que a pratica do Spiritismo corresponde inexoravelmente a manifestação de graves males, quaes os casos de suicidio, de loucura."

            - Esta proposição, contida n'uma informação da Secretaria do Império, devia ter por base as estatisticas; como, porém, estas contradizem tal asserção, ficaram sem citação.

            "Parece-me, pois, que não póde funcionar com autorisação do Governo uma Sociedade que se propõe a fins contrários à religião do Estado."

            Ninguém que esteja no inteiro uso da razão, livre de qualquer pressão extranha, dirá que praticar a caridade evangélica e contribuir para o progresso moral da sociedade é contrário à religião do Estado; e si na opinião do Governo o era em 1878, parece que mais tarde deixou de o ser, porque em 1880 o Governo approvou, pelo Decreto 7.907 os Estatutos da Sociedade Religiosa Igreja Evangélica Flumlnense, que, propondo-se a conduzir-se com os preceitos de Christo nas Escripturas Sagradas, não aceita a Igreja do Estado.

            "Encarada sob este ponto de vista, a pretendida sociedade deve reger-se pelas disposições do Código Criminal, art. 282 e da Lei de 3 de Dezembro de 1841, art. 49, parágrafo 39, pelo que só necessita da Inspeção da policia e não da auctorização do Governo."

            - Que essas disposições aproveitem às sociedades secretas; porém, a Sociedade Acadêmica Deus, Chrlsto e Caridade só se utilisará dellas, enquanto não for reconhecido seu melhor direito perante a lei.

            " ... Que haja pessoas ilustradas, e mesmo de boa fé, que acreditem em taes doutrinas,"

            - Isto prova que a secção do Conselho de Estado nenhum conhecimento tenha daquilo de que tratava; pois o Spiritismo não é matéria de simples crença, porém de acurado e profundo estudo, cousa de que facilmente se convencerá todo aquele que quizer, afirmamos que elle chega à alma por meio da percepção dos factos externos e não dos internos somente.

            Aqui estabelecemos uma parada nessa série de considerações (ou desconsiderações ao Espiritismo), por parte do Conselho de Estado do Governo Imperial e as respectivas respostas às mesmas elaboradas pelos confrades da época, na certeza de que ficou bem configurado o tentame coercitivo por parte das autoridades em Impedir a livre associação de cidadãos, para o estudo e divulgação da Doutrina Espírita, àquela altura, encarada mais como Ciência pelos seus profitentes, que mesmo apresentado e estudado sob seu tríplice
aspecto.

            Com a devida vênia dos irmãos leitores e segundo nosso modesto prisma ao analisarmos esses fatos que ocorreram há um século, desejamos despertar-Ihes a atenção para algo que medeia entre o curioso e o belo. Trata-se da descrição bem resumida de diálogos mantidos entre os representantes da "Sociedade Acadêmica Deus, Christo e Caridade" e Sua Majestade D. Pedro de Alcântara.

            Ante tantas Incompreensões, tantas idas e vindas, tantas contradições por parte daqueles que exerciam o poder legal, mas parecendo-nos que jamais se deram ao mero trabalho de ler atentamente os Estatutos da Sociedade que insistiam em proibir de funcionar ou deixá-Ia em constante vigilância desnecessária, limitando-lhe Inclusive o seu número de adeptos por reunião, resolveu-se Ir direto ao Monarca, última Instância a que se teve de recorrer, para preservar-se ao Espiritismo o direito sagrado e inalienável de vigir.

            Do primeiro encontro havido entre os representantes da Sociedade coagida e Sua Majestade - D. Pedro de Alcântara -, podem destacar-se os seguintes trechos:

            O Relator - A Diretoria da Sociedade Acadêmica pede vênia para depor nas mãos de Vossa Majestade Imperial esta exposição, corroborada pelos números de sua Revista até hoje publicados, esperando os sábios conselhos de Vossa Majestade.

            Sua Majestade - Eu não creio no Espiritismo; estou de acordo com as ideias do Parecer do Conselho de Estado.

            O Relator - Estamos convencidos de que Vossa Majestade protegerá a Sociedade Acadêmica, que está sendo, perseguida porque estuda o Espiritismo.

            Sua Majestade - Eu não consinto na perseguição; mas só protejo as ideias com que simpatizo.

            O Relator - Pedimos a proteção de Vossa Majestade para fazer reconhecer e respeitar o direito que temos de estudar.

            Sua Majestade - Os senhores têm o direito de estudar tudo; mas os aconselho que estudem outra coisa.

            O Relator - Nós estudamos tudo, inclusive a Constituição do Império.

            Como resultância desse primeiro encontro ficou acertado que D. Pedro de Alcântara leria a exposição da Sociedade, arquivada sob o nº 216, e que deveria voltar à sua respeitável presença, no prazo de oito a quinze dias, o que realmente ocorreu.

            Abaixo, são citados trechos desse memorável segundo encontro:

            Diretoria - Senhor! Vimos receber os sábios conselhos que tivemos a honra de solicitar de Vossa Majestade Imperial, a bem dos nossos direitos.

            Imperador - Procurem o Ministro do Império e entendam-se com ele.

            Diretoria - Dentre as petições que temos dirigido ao Governo, reclamando as garantias que a lei nos concede, algumas têm sido indeferidas, outras não têm tido despacho: e agora, como há dias viemos comunicar à Vossa Majestade, a Autoridade Policial julga-se habilitada para impor-nos a suspensão dos nossos trabalhos. Até então a perseguição era dissimulada; tornou-se ostensiva, há violência contra uma Associação, toda benéfica e ordeira, como provam todos os seus atos.

            Imperador - Mas o que é que os senhores desejam? Querem aprovação dos Estatutos? Eu estou com as ideias do Parecer.

            Diretoria - Perdoe-nos Vossa Majestade; mas, como demonstramos nas Revistas, cuja coleção acompanhou a representação que tivemos a honra de entregar à Vossa Majestade Imperial, esse Parecer não é aplicável a esta Sociedade; e só pedimos a aprovação dos Estatutos, porque determinando eles no Art. 42 a aquisição de prédios em que funcione a Academia Espírita com os Gabinetes, assim o cumpriremos; e desejamos garantir o direito de propriedade; pois que o direito de funcionar sem pedir aprovação dos Estatutos nos é garantido como Sociedades Científicas e Literárias.

            Imperador - Mas o Espiritismo não é ciência.

            Diretoria - Pedimos vênia à Vossa Majestade para ponderar que todos os fenômenos do Universo, sendo susceptíveis de observação e análise científica, os fenômenos espiríticos, embora qualificados de metafísicos e sobrenaturais não deixam por isso de ser fatos, e sendo submetidos ao estudo pelo método experimental, chega-se ao conhecimento das leis que os regem, e isso constitui a Ciência Espírita.

            Imperador – Ah! assim, desse modo sim, mas é melhor que ocupem o seu tempo com outros estudos.

            Diretoria - Foi para pedir à Vossa Majestade, zeloso das prerrogativas da Coroa, e o primeiro a dar o exemplo de obediência à lei, no cumprimento dos seus deveres, que nos proteja contra a perseguição.

            Imperador - Ninguém os perseguirá. Mas... não queiram agora ser mártires.

            Diretoria - Acreditamos que o século das luzes não é mais tempo de martírios; nem queremos o papel de mártires mas pedimos a tolerância, e solicitamos como prova de respeito à lei que os nossos Estatutos sejam aprovados, de acordo com o que preceitua o Decreto nº 2711.

            Ao término deste trabalho, no qual tentamos descrever, ainda que palidamente, alguns acontecimentos ocorridos em 1881, é de ressaltar-se o espírito pioneiro e indômito de confrades que, embora respeitando as leis vigentes no Segundo Império, jamais se curvaram às injustas perseguições que se Ihes tentou Impor, buscando no acrisolamento da Fé e da Virtude o refúgio seguro para as horas de intempérie, e lastreados no culto à Lei e à Ordem, conseguiram vitoriar-se publicamente no campo do Direito.

            Mas outra poderia ser a História, se a abençoada Pátria Brasileira, àquela época, não tivesse a governá-Ia o ínclito Imperador D. Pedro II, que, embora católico de berço e convicção, não titubeou em impedir as calamitosas e gratuitas perseguições à Doutrina Espírita, cuja semente aqui apenas germinava, dando à posteridade uma prova Incontestável de seu senso de justiça e amor ao próximo, inscrevendo mais uma vez o seu nome como verdadeiro paradigma no cenário político-histórico-social desta Nação que tanto amou, e cujos filhos até hoje o veneram, mercê de seus dotes pessoais de grandeza espiritual.

Iaponan Albuquerque da Silva


Nota da Redação - Em alguns trechos entre aspas, foi obedecida a grafia da época.





sexta-feira, 14 de outubro de 2011

3 / 3 'A Questão Roustaing'

‘A Questão Roustaing’
Parte III e Final

por  Iaponan Albuquerque da Silva
(Reformador Março 1983)

            Não ficamos - em nosso desiderato de trazer a público as provas documentais que eximem a FEB de qualquer culpa quanto às pretendidas deturpações e/ou interpolações em textos oriundos do Plano Espiritual - nas provas já publicadas nos dois números anteriores de "Reformador".

            Bem mais recente é a carta que Francisco Cândido Xavier enviou ao então Presidente Dr. Armando de Assis, em 30-10-1970, também reproduzida abaixo:









Finalizando

            Em reunião realizada no Grupo Espírita da Prece, na noite de 15 de junho de 1975, em Uberaba, Minas Gerais, dentre várias quadras poéticas de autores diversos, o médium Francisco Cândido Xavier recebeu esta que ora destacamos:

No fundo, a perseguição
Tem este claro sentido:
Favorece a promoção
Daquele que é perseguido.

Noel de Carvalho

            E é exatamente o que ocorre com a Casa. de Ismael, que com o perpassar do tempo vem colhendo os frutos sazonados do reconhecimento públíco do Movimento Espirita nacional. Firme e resolutamente ela defende e difunde a obra de AlIan Kardec, sem desprezar Roustaing.

            Há quem veja total. discordância entre a obra extraordinária do mestre Iíonês e o pensamento doutrinário contido no trabalho esclarecedor e de fé organizado por Jean-Baptiste Roustaing. Veem luta onde há Harmonia. Depreendem haver discórdia onde reina o primado da Concórdia. Abroquelam--se às pretensas ambiguidades, quando se sabe que a obra do Bem e do Amor, traçada pelos nossos Mentores Espirituais, visa à meta da Unificação em Cristo.

            No campo material, desejamos, de todo o coração, que jamais confundam a atitude sóbria da Federação Espirita Brasileira como sinônimo de tibieza em quaisquer de seus setores de atuação, assim como exoramos ao Pai Eterno bênçãos de paz e luz para quantos divirjam da programação de Ismael, que a Casa-Máter do Espiritismo procura executar. Os documentos probatórios visam antes a esclarecer aos de boa-fé, sinceros amigos da Federação, que polemizar com os aborrecidos sem razão.

            Um antigo refrão popular ensina-nos que "contra fatos não há argumentos" .

            Mas se após este aluvião de provas, especialmente documentais, ainda houver alguém ou alguns que insistam em teimar, que o façam. Isso, no entanto, não desviará a Federação Espírita Brasileira de manter-se fiel aos princípios contidos no seu centenário dístico - DEUS, CRISTO E CARIDADE. 

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

2 / 3 'A Questão Roustaing'

‘A Questão Roustaing’
Parte II / III

por  Iaponan Albuquerque da Silva

(Reformador Fevereiro 1983)

Provas Documentais

            Há muito tempo, decênios mesmo, a Direção da FEB detém a posse de documentos comprobatórios e confidenciais, que, se tivessem vindo a público, teriam anulado as acusações assacadas contra ela. Foi um excelente exercício de paciência. Cremos, entretanto, a repetir conceito espiritual aprendido de que "onde a verdade cala a mentira toma conta", ser agora o momento certo para expor a todos as provas documentais que a FEB retém no mais absoluto silêncio.

            E, se hoje o faz, a sua atitude visa mais a dar uma satisfação pública a quantos sempre a. seguiram e serviram lealmente do que responder a quantos se põem a falar do que não sabem.

            Como primeira peça fundamental de comprovação de fatos ante aqueles que acusam a Federação Espirita Brasileira de deturpar e interpolar trechos às mensagens oriundas do Plano Espiritual, através de médiuns de caráter ilibado, com fins tendenciosos no campo doutrinário, estampamos abaixo, foto mecanicamente, trechos da carta que o querido medianeiro Francisco Cândido Xavier escreveu, com seu próprio punho, ao então Presidente da Federação Espírita Brasileira - Dr. Antônio Wantuil de Freitas - em 25 de março de 1947

            Foi de autoria do citado médium Francisco Cândido Xavier, conforme se pôde verificar na reprodução fotomecânica, este lapidar trecho:




             "Não te incomodes com a declaração havida de que o trecho alusivo a Roustaing em "Brasil" foi colocado pela Federação. Quando descobrirem que a Casa de Ismael seria incapaz disso, dirão que fui eu. De qualquer modo, eles falarão. O adversário tem sempre um bom trabalho - o de estimular e melhorar tudo, quando estamos voltados para o bem. ( ... )" (25-3-1947).

             Quanto à elucidação dos fatos, nada mais sóbrio, mas intensamente pujante, que essa afirmativa..

            Nos idos de 1947, cogitou-se na FEB da tiragem de mais uma edição do livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho". O Dr. Antônio Wantuil de Freítas dirigiu-se em carta ao médium Francisco Cândido Xavier dizendo-lhe de alguns senões, de forma e não de fundo, existentes na 3ª edição, já em circulação, mas, como as anotações tinham sido de sua autoria, gostaria que aquele médium, caso concordasse, retificasse, com seu próprio punho, os originais da obra em tela, tendo recebido, através de carta datada de 24 de agosto de 1947, a seguinte resposta, abaixo reproduzidos fotomecanicamente, levando-se em conta a extensão da amigável missiva.




    

            É fácil depreender-se o quanto foram dignos, justos e imparciais o Dr. Wantuil de Freitas e o nobre medianeiro. Ambos cercando-se de precaução. a prelibar futuros ataques, que infelizmente sobrevieram, a posteriori.
            Entretanto, não ficaram aí nem a prudência do Dr. Wantuil, nem a solicitude abnegada do querido Chico Xavier. Por informação colhida junto ao Presidente Francisco Thiesen, podemos asseverar que a Casa de Ismael possui em seus arquivos um exemplar da 4ª edição da obra em epígrafe, contendo retificações vernáculas com a letra do médium Francisco Cândido Xavier, o que demonstra cabalmente que o Dr. Wantuil insistiu junto ao medianeiro no que concerne aos propósitos já expostos, tendo o mesmo anuído ao seu pedido. Os originais das cartas retro mencionadas estão em poder do Presidente Thiesen.     


domingo, 9 de outubro de 2011

1/3 'A Questão Roustaing'


‘A Questão Roustaing’
Parte I/III
por  Iaponan Albuquerque da Silva

(Reformador Janeiro 1983)

            “A rutilante face da Verdade Espiritual
emerge do oceano profundo e turvo da incompreensão humana,
dando-nos a cristalina imagem da origem do trabalho de fé de Roustaing,
emérito colaborador do mestre Allan Kardec."


            Eis que a Doutrina Espírita é, indiscutivelmente, fonte perene de libertação espiritual. Cristã em toda a sua essência, por ser o próprio Cristianismo Redivivo, como o têm comprovado todos aqueles que o estudaram de perto, de forma. acendrada, o Espiritismo - sublime neologismo do insigne mestre lionês - não se afasta um só instante da alma do vero Cristianismo, fazendo-nos relembrar a milenária e transcendental assertiva do Divino Rabi da Galileia:  "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará." (João, 8 :32.)

            Espiritismo é, pois, sinônimo de Cristianismo. Sem deturpar este, muito pelo contrário, revive-lhe a essência lúcida e pura, acrescentando sem maculá-Ia, clarificando-a sem distorcê-Ia, moldando-a às realidades e cerebrações do presente, sem ferir-lhe a seiva de seu milenar passado, com vistas a.o seu desdobramento, ação e pujança vitoriosa. no futuro. Em sua. magnífica obra codificadora, Allan Kardec taxativamente esclareceu aos pósteros o caráter evolucionista da Doutrina Espírita, que se casa naturalmente com a tese libertadora contida no Evangelho do Cristo. A verdade transcendentaI é irmã da verdade relativa presente entre nós, os Espíritos, vinculados à carne ou não, visto que ela - em toda a sua plenitude - é apanágio de Deus. Serve como fiel da balança, onde num dos pratos se encontra a Libertação e noutro a Evolução. Equilibradas ambas, marcharemos verticalizados para a plenitude da Verdade Eterna, que, como dissemos, está em Deus.

            A automação do presente e o caráter cibernético da civilização atual não nos devem assustar, pois o comando da parafernália moderna ainda é domínio do ser pensante.

            A expressão filosófica cartesiana - Cogito, ergo sum - expressa-se modernamente em tudo que nos cerca, deslumbrando-nos, mas convidando-nos, outrossim, à doutrinação da Fé junto ao cérebro humano, paradoxalmente, senhor e escravo de suas multifárias criações. A alma humana, enclausurada na carne, clama por libertação, que poderá ser encontrada na fé racional evolucionista, que a conduzirá a Deus.

            Eis por que o iluminado mentor espiritual Emmanuel nos conclama, os espiritistas, ao trabalho da doutrinação, apontando-o como “a caridade maior que se pode fazer aos que renteiam conosco".

            Neste introito caberiam outras considerações acerca do tema "Libertação"; deter-nos-emos apenas numa transcrição que se nos parece soberba, mesmo porque o aludido assunto traz como que o estigma de mediar entre o delicioso e o escorregadio, por facilitar o seu enfoque sob o aspecto político-social. Observem a poesia abaixo e encantem-se com a sua deliciosa filosofia:

O Escravo

(James Oppenheim – Do livro “Quatro mil anos de poesia” Coleção Judaica

Libertaram o escravo, rebentando as suas correntes...
Então, achou-se ele, como sempre, escravo,
Achou-se, ainda, acorrentado ao servilismo,
Achou-se, ainda, manietado à indolência,
                        ao ócio
Achou-se, ainda, limitado pela superstição
                        e o medo,
Pela ignorância, a suspeita e a barbárie...
Sua escravidão não se achava nas correntes
Porém nele...
Podem-se libertar somente os homens livres...
E não há necessidade disso:
Homens livres libertam-se a si mesmos.

Tradução: Zulmira Ribeiro Tavares

A Doutrina Espírita é libertadora sem ser libertária. Os seus ensinamentos doutrinários são oriundos do plano espiritual, cabendo a Kardec compilá-Ios e dar-lhes método pedagógico. Logo, é fácil depreender-se que o ensino espírita é fruto da Espiritualidade  Superior"; não há como atribuí-Io as cavilações humanas.

            Embora sem se constituir em  novidade, é de se relembrar que a obra basilar da Codlflcação Kardequiana, editada em 1857, intitula-se  "O Livro dos Espíritos", o que a liberta em definitivo da suspeita dos eternos detratores das Verdades Eternas, que estimariam ve-Ia chamar-se "O Livro dos Espíritas". 

            Embora seja assunto desagradável à Federação Espirita Brasileira - Casa-Mater do Espiritismo no Brasil -, vê-se a mesma, vez por outra, obrigada a vir a público a fim de rebater acusações gratuitas, que lhe são dirigidas por pessoas desavisadas, que se dizem cristãs e, muitas delas, espíritas militantes.

            Não é nosso desejo polemizar. Assim, enfeixamos o introito, recordando que este trabalho jornalístico tem mais a finalidade de explicar certos fatos aos fiéis seguidores da "Casa de Ismael", que lançar qualquer ataque ou resposta àqueles que dela discordam.

O Pomo da Discórdia

Remontemos a 1938. Nesse ano, como fruto sazonado do magnífico trabalho no campo editorial encetado pela Casa de Ismael, sob a firme direção do ilustre Dr. Luís Olímpio Guillon Ribeiro, o Departamento Editorial da Federação Espirita Brasileira trazia a lume a 1ª' edição do livro "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", psicografado por Francisco Cândido Xavier e tendo como autor o Espirito Humberto de Campos, "eminente homem de letras, desencarnado em 5 de dezembro de 1934", como se pode ler na capa da referida obra. Mais tarde, por motivos sobejamente conhecidos, o autor espiritual passou a assinar-se Irmão X, e vencida foi essa etapa de incompreensões dos que ainda mourejavam na carne com relação aos desencarnados.

            Entretanto, viriam outras batalhas, não mais no campo legal, onde ficou sobejamente comprovada a veracidade das comunicações e a lisura e desambição de médiuns e Diretores vinculados à Casa Máter, mas lutas - quase diriam os - portas adentro, pois Iniciadas por profitentes do Espiritismo. Esse tipo de luta, quando se esboça, é altamente danoso, porque causa prejuízos intensos e extensos às fileiras daqueles que têm por dever estudar e se amarem fraternalmente.

            Diz-se, geralmente, que a calúnia é a arma dos covardes, mas a dura realidade nos prova dia a dia que os caluniadores sentem prazer em praticá-Ia, confiantes em que, no mínimo. deixarão o respingo enodoante de sua maledicência sobre obras e nomes alheios.

            Criaturas de má-fé, visando mais à FEB e não com outro intento, passaram a insinuar, e mais tarde, em ataques ousados, a afirmar, que haviam sido feitas interpolações nos originais do livro em causa, visto não concordarem, em hipótese alguma, que o Espírito Humberto de Campos, através da psicografia de Francisco Cândido Xavier, afiançasse a seguinte expressão, que pode ser lida à página 158 da 1ª edição:

            "Segundo os planos de trabalho do mundo invisível, o grande missionário (Allan Kardec), no seu maravilhoso esforço de síntese, contaria com a cooperação de uma plêiade de auxiliares da sua obra, destacados particularmente para auxilia-lo, nas Individualidades de João Batista Roustaing, que organizaria o trabalho da fé; de Léon Denis, que efetuaria o desdobramento filosófico; de Gabriel Delanne, que apresentaria a entrada, científica, e de Camllle Flammarion que abriria a cortina dos mundos, desenhando as maravilhas das paisagens celestes e coadjuvando, assim, a codificação kardeciana, no Velho Mundo, dilatando-a com os necessários complementos."

            A citação do nome de Roustaing nesse trecho oriundo do plano espiritual foi o estopim da revolta, o pomo de discórdia, pois muitos confrades duvidaram da veracidade do texto. O nome de Roustaing catalisa, de há muitas décadas, a revolta daqueles que o julgam mistificador e/ou mistificado, por causa de sua obra "Os Quatro Evangelhos", editada em 3 volumes, pela primeira vez, em Bordeaux, no ano de 1866.

            É óbvio depreender-se que a ojeriza a Jean-Baptlste Roustaing deve-se à obra acima aludida, que Inúmeros confrades julgam incompatível com as de Allan Kardec, havendo entre as mensagens espirituais e conceitos expendidos por ambos enorme ambiguidade e conflitantes conceitos doutrinários, segundo afirmam.

            Há quem vá mais adiante, afiançando alto e bom som, que a Federação Espírita Brasileira, há muito tempo, vem defendendo e propagando Roustaing, em detrimento da obra codificadora de Allan Kardec. Eis ai um assunto de extrema delicadeza, que merece ser estudado e esclarecido, não à custa de falsos Informes, mas á luz da plena razão e do direito, a fim de que se informe aos desinformados, tentando fazê-Ios calar, não à força de imposições descabidas, mas pelo esclarecimento histórico e real dos fatos. os quais pretendemos narrar.

            Tornar-se-á necessário um flashback histórico de fatos relacionados ao assunto em tela a fim de que fiquem alertados os de boa vont ade, ainda que persistam a falar os eternos "pescadores de águas turvas".

O Compromisso com a Verdade

            A função específica do jornalista é informar, principalmente o repórter, mesmo que a informação venha a desagradar a este ou àquele ou magoar pretensos poderosos.

            Respeitada a ética da informação. evitando-se descambar para o campo do escândalo, o verdadeiro jornalista - obviamente nele incluso o espírita - tem um compromisso permanente com a verdade, bálsamo e consolo que há de acompanhá-Io até a sepultura e mais além, quando suas notas forem deturpadas ou quando atacarem de rijo sua dignidade pessoal. Por isso, colocamo-nos à vontade ao enfocar o assunto atual, que trata de injuriosos ataques à Casa de Ismael e a seus servidores mais abnegados.

            Aqui não tomaremos partido; apenas relembraremos fatos e provaremos com documentos a veracidade da nossa exposição. Ao leitor arguto e sincero caberá a decisão e a. responsabilidade do julgamento. Portanto, exporemos e comprovaremos. Aos que nos lerem com isenção de ânimo caberá a palavra final, mas desde já. nos regozijamos com a grata sementeira da verdade e com a colheita sazonada e magnânima daqueles que, silenciosamente ou não, hão de gratificar com o seu assentimento nosso despretensioso esforço de mostrar-lhes a real face da verdade de fatos irretorquíveis, até esta data silenciados a fim de que se evitassem maiores atritos, o que ainda é o nosso desiderato.

            Para que consigamos nosso intento será válido e até necessário recorrermos a transcrições de publicações transatas, de notória respeitabilidade, assim como estamparmos documentos autênticos, há décadas de posse da Federação Espirita Brasileira, fontes iniludíveis de defesa e provas incontestes da falta de veracidade dos conceitos contra ela emitidos, e que somente agora virão a lume, pela irrestrita necessidade de se comprovarem fatos de natureza histórica pertinentes ao movimento espírita em solo pátrio.

            Sem azedumes, revolta ou espírito de vindita isto será feito, mesmo porque a pesquisa é parte implícita desse tipo de trabalho rememorativo e histórico.

            Em "Reformador" de maio de 1966, à página 110, do trabalho intitulado "T'eles de Menezes e a obra de Roustaing " destacamos estes trechos;

            “Talvez os leitores desconheçam que "Os Quatro Evangelhos", de J. B. Roustaing,  por uma razão histórica decerto ditada pelo Alto, entraram no Brasil através do venerando pioneiro espírita baiano Luis Olímpio Teles de Menezes , o fundador da primeira Sociedade espirita em nosso País.

            "O Espiritismo dava, então, aqui, os primeiros passos, sempre progressivos. As obras de Allan Kardec eram estudadas em francês, e delas apenas parte da Introdução de "O Livro dos Espíritos" e "O Espiritismo na sua mais simples expressão" estavam trasladados em língua portuguesa. A Doutrina  que entre nós se difundia, e isto desde 1865, era marcadamente espírita-cristã, dando-se aos Evangelhos toda a sua importância basilar no edifício da Nova Revelação.

            "Teles de Menezes, na época o representante máximo da nova Doutrina em terras do Cruzeiro, recebia, então, no ano de 1870, diretamente de Roustaing, a primeira edição francesa de "Os Quatro Evangelhos".

            "No número 6, Maio de 1870, de O ECO D'ALÉM TÚMULO, o mais antigo órgão espírita surgido no Brasil, Teles de Menezes publicava, nas páginas 292 a 296, extensa e criteriosa crítica sobre o referido livro, da qual reproduziremos os trechos abaixo, ainda atualíssimos, embora escritos há 96 anos:
           
            "Esta importantíssima obra, em 3 volumes de 600 páginas cada um, foi publicada em Bordeaux, em 1865. Tínhamos apenas notícia de sua existência, agora, porém, tivemos a subida satisfação de sermos honrados com a generosa oferta de um exemplar por seu muito distinto autor, a quem, cordialmente, agradecemos essa alta prova de consideração. Os espíritas verdadeiros encontrarão em sua leitura variadíssimos ensinos de transcendente importância e do mais perfeito acordo com a doutrina ensinada n' O Livro dos Espíritos e n'O Livro dos Médiuns.

            "Esta obra é de um trabalho considerabilíssimo, porquanto pelo concurso de admiráveis comunicações medianímicas, sempre sustentadas, explica e interpreta os Evangelhos, capitulo por capitulo, verso por verso.

            "Esta obra extra-humana foi produzida pelos Espíritos e por sua ordem publicado., como sucedera com o Sr. Allan Kardec acerca da organização e publicação d'O Livro dos Espíritos (Le Livre des Esprits)."

            Enfeixando o trabalho "Teles de Menezes e a obra de Roustaing" o redator do mesmo assim o concluiu:

            "Ismael, Kardec, Roustaing e Teles de Menezes - chefe, missionários e obreiro - entrosararn-se perfeitamente no propósito de dar ao Espiritismo no Brasil a orientação evangélica que o tornou admirado e respeitado no orbe inteiro.

            "Continuemos todos a laborar segundo essas diretrizes, a fim de sermos amanhã, no concerto dos povos, a Pátria do Evangelho e o Coração do Mundo."

            Pelo exposto é fácil verificar-se que as obras basilares do pentateuco Kardequiano, àquela época, ainda eram, em boa parte, estudadas no original, em francês. Mais tarde seriam vertidas para o português, para gáudio de quantos se interessavam pela novel e promissora Doutrina, pelo emérito Dr. Joaquim Carlos Travassos, segundo se pode encontrar na magnífica obra "Grandes Espiritas do Brasil", de Zêus Wantuil.

            Mas o Alto, que elegera o Brasil como Pátria do Evangelho, continuaria a Influir decisivamente para a consecução de seus altos objetivos. Vejamos esta nótula, transcrita de "Reformador" de fevereiro de 1947, à página 43, sob o titulo "Roustaing-Bezerra":

            "- Um grupo de espíritas fundou a Federação em 10 de Janeiro de 1884, há, portanto, 63 anos. Esse grupo elegeu para presidente da Sociedade o primeiro tradutor da obra de Roustaing, o Sr. Marechal Ewerton Quadros. Essa obra, que já era estudada em outros grupos, passou a ser adotada pela Federação, concomitantemente com as de Allan Kardec. Após catorze anos de estudos, Bezerra de Menezes, então presidente da Federação, resolveu publicar a tradução da obra de Roustaing, iniciando a publicação em "Reformador" de 15 de Janeiro de 1898, ou, seja, nos. fins do século XIX."

            Seria o ínclito Marechal Ewerton Quadros o primeiro tradutor das obras de Roustaing, trabalho de extraordinária competência, que mais tarde chegaria à Casa de Ismael. Aliás, ambos, tradutor e obra haveriam de juntar-se segundo os ditames de mais Alto, para perfilharem no quadro histórico da. vida da Casa-Máter, pois a homologação no plano terreno efetivar-se-ia com a atitude do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, no fim do século precedente ao nosso, fechando-se dessa maneira mais um elo da corrente progressiva do estudo doutrinário em nosso Pais. Obviamente, não é difícil identificar-se a sintonia perfeita entre o programa traçado no Alto e os realizadores do mesmo no plano terráqueo.

Compilação dos Fatos  

            Estribada numa perene posição evangélica, a Federação Espírita Brasileira tem evitado, com tato e prudência, vir a público desmentir as acusações que lhe são dirigidas. Elas geralmente minguam por si mesmas, vitimas de suas próprias contradições. As páginas de "Reformador", inequivocamente, não existem para o exercício da polêmica e sim para formar retamente o vigoroso pensamento da obra cristã, fundamentado na Codificação Kardequiana, que divulga o Espiritismo, atestando-a como a Terceira Revelação.

            Mas, através das décadas, vez por outra, vemo-Ias traduzindo o pensamento dos veros seguidores da Casa de Ismael, obrigados a esclarecimentos que seriam totalmente desnecessários, não fora a pertinácia e constância dos que agridem, numa tentativa infeliz de perturbar e desunir quantos não escondem sua posição de leais servidores da Vinha do Senhor.

            Seria assaz cansativo a quantos nos leem a transcrição literal de alguns dos inúmeros ataques desferidos contra a FEB e os respectivos esclarecimentos a respeito. Mas recomendamos a quantos desejarem aprofundar-se sobre o assunto, recorrerem à leitura das seguintes publicações, todas extraídas de "Reformador": "Acusação temerária" (Redação), abril de 1947, página 85, e junho de 1947, página 132; "O dogma fluidificante", junho de 1947, página 131; "Demolidores", maio de 1949, página 118; "Textos adulterados",  julho de 1950,  página 162; "Era fluídico o corpo de Jesus?", maio de 1953. pp. 100/1; "Obra das Trevas", junho de 1953, página 127; "Era fluídico o corpo de Jesus?", agosto de 1953, pp. 180/1. Mais ainda. vale recomendarmos a leitura do mensário "Obreiros do Bem", datado de fevereiro de 1979, à página 17, onde se encontra o talentoso artigo sob a epígrafe; "A opinião de Vinícius sobre Roustaing". Aos que se derem a esse alentado trabalho de leitura rememorativa, ser-Ihes-ão concedidos os prêmios de um julgamento sério. e construtivo, sem os prejuízos do açodamento ou parcialidade negativa.

            Dentre todos esses excelentes textos, que enfocam com meridiana clareza uma possível ambiguidade entre os trabalhos de Kardec e Roustaing que ao invés de colidirem ou conflitarem conciliam-se no grande acervo doutrinário que o Alto nos vem concedendo por acréscimo de sua misericórdia é de relembrarmos alguns trechos do saudoso companheiro Ismael Gomes Braga, nome-legenda do Espiritismo pátrio, em seu artigo "Textos adulterados", publicado em julho de 1950, à página 162 de "Reformador":

            "Entre as acusações mais ilógicas lançadas contra o Espiritismo petos seus adversários, uma foi de que as obras-primas de poesia, recebidas por Francisco Cândido Xavier, seriam elaboradas no Rio de Janeiro por um homem de grande talento, mas totalmente desconhecido em nossos meios literários. Seria ainda esse mesmo gênio invisível quem redigiria ou, pelo menos, poliria os romances e as novelas do mesmo médium para torná-los peças de alto valor literário.

            "Inteiramente ilógica essa forma de explicar a fenômeno, porque o médium recebe suas produções em sessões públicas, à vista de todos, e muitas vezes os originais são entregues no mesmo momento aos visitantes que os levam e publicam em jornais, folhas soltas, cartões, brochuras ou livros que têm sido publicados por toda a parte. Já os vimos, feitos em Uberaba, Juiz de Fora, Leopoldina, Belo Horizonte, Campos, São Paulo e outras cidades visitadas pelo médium, além de Pedro Leopoldo.  Só uma senhora, amiga do médium, já publicou várias dezenas de produções em cartões postais e folhas soltas, para distribuição pelos grupos, sem revisão ou polimentos feitos por ninguém. Mas a essa forma de ataque se juntou outra, diametralmente oposta: de que as produções seriam originalmente perfeitas, mas teriam sido viciadas com interpolações por editores interessados em manter pontos de vista doutrinários diferentes daqueles dos Espíritos comunicantes. Acusação tão temerária quanto a precedente, porque o médium lê as obras depois de publicadas e se apressaria em reclamar reajustamento do texto viciado, para não perder o favor dos Espíritos superiores que lhe confiaram as mensagens.

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            "Um confrade de boa-fé, trabalhador, mas simples operário sem instrução, nos denunciou, há uns trinta e poucos anos, que as obras de Allan Kardec, publicadas em português pela Federação Espírita Brasileira, não eram reprodução fiel dos originais: haviam sido alteradas, trechos longos haviam sido interpolados para justificar pontos de vista da Federação, em oposição ao mestre. Perguntamos-lhe como tivera ciência disso; se ele mesmo havia confrontado os originais com as traduções, e como não havia apontado de público essas falhas para que fossem desmascarados os falsificadores e reconstituídos os textos. Respondeu-nos que não sabia francês e não havia feito o confronto, mas que pessoas competentes e da sua inteira confiança o fizeram, por isso tinha ele absoluta certeza de que isso era verdade.

            "Na livraria da mesma Federação, por esse tempo, achavam-se à venda os originais das obras de Allan Kardec e nos foi muito fácil adquiri-Ias e fazer cotejos, verificando logo que se tratava da mais leviana acusação à honradez dos tradutores.

            "Os originais de Kardec existem por toda a parte, em bibliotecas públicas e particulares, para quem os queira comparar com as diversas traduções já publicadas em português. Essa estulta acusação tem mais de trinta anos de vida e frequentemente volta à baila com a mesma desfaçatez, ferindo a memória venerável de vários servidores da causa; mas até hoje não foi apresentada uma única alteração dos originais. Pelo seu silêncio de alguns decênios, os acusadores confessaram que eram simples, superficiais e irresponsáveis pelo que diziam e continuam dizendo. Sua finalidade era lançar a dúvida, a confusão, a divisão na família espírita brasileira, para enfraquecê-la e destrui-Ia. E tais instrumentos das trevas se diziam e se dizem espíritas, viviam e vivem em nosso meio. "Deus tenha piedade deles."

            Relembremos neste instante o célebre escritor francês Anatole France (1844-1924), cujo ceticismo em matéria de pensamento aliava-se à extrema piedade pelo sofrimento alheio, repetindo-lhe a expressão: "(...) para todo aquele que pensa e obra, é mau sinal não ser, ainda que de leve, vilipendiado, insultado, ameaçado." Ou ainda o filósofo francês Denis Diderot (1713-1784), que em um de seus pitorescos e humorados escritos - “O Sobrinho de Rameau” – asseverou; “Talvez me honrem mais do que mereço. Sentir-me-ia humilhado se aqueles que falam mal de tanta gente boa resolvessem falar bem de mim.”

            Voltando ao inesquecível Ismael Gomes Braga, companheiro e mestre, vale destacar trechos de uma de suas cartas ao então Presidente da Federação Espírita Brasileira, Dr. Antônio Wantuil de Freitas – em 29.10.1957:

            “(...) E como é diferente a mentalidade de um espírita esperantista e a de um que se limita à rodinha nacional, às intriguinhas da organização, aos fuxicos de pessoas ou de grupos! (...) O espírita brasileiro, confinado apenas ao movimento espírita nacional, tem uma visão errada do movimento e supõe que o mundo já é espírita. Quando combativo – velho instinto vindo das guerras – combate seus próprios companheiros, porque supõe não haver outra gente no mundo, não haver inimigos reais e poderosos a combater.”
           
            A tudo isso que já foi exposto seria errôneo cognominar de simples compilação de textos, dados ou opiniões. Passa, a nosso ver, à categoria de fatos, pois prova à saciedade o fato maior que nos é lícito computar à história do Espiritismo brasileiro, em especial, à história da Federação Espírita Brasileira – a de que a Casa Máter e seus fiéis servidores estimam a justiça, trabalham com sobriedade e pugnam pela divulgação do que é verdadeiro e justo, sem molestar ou deixar-se molestar pelos eternos “ pescadores de águas turvas “.

Fim da Parte I-III