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sexta-feira, 24 de abril de 2020

Caminho único


Photo by E. Capelle

Caminho único
Redação 
Reformador (FEB) 16 de Março de 1929.

            É no Evangelho que o crente espírita pode e deve encontrar a solução de quantos problemas se lhe defrontam no acidentado curso das provas, quer do ponto de vista individual, quer do social ou coletivo. Sem embargo da “letra que mata”- e torna a sua exegese (esclarecimento de texto ou palavra) relativamente difícil e duvidosa, quando realizada à revelia do “espírito que vivifica”, ali se encontra a Verdade para todos os tempos e gerações.

            Pudéssemos e quiséssemos, todos nós, penetrar-lhe o sentido profundo à luz da Revelação Espírita, o que vale dizer propício à iluminação do alto, e veríamos em simples e concisos preceitos e sentenças a chave de todas as portas que se nos cerram e a tantos desorientam e. desatentam, quando não obrigam a retrocessos inúteis, dolorosos e até fatais, por conducentes à perda de experiências já feitas, muitas vezes refertas de sacrifícios e dessa arte relegadas a futuras etapas.

            Porque, nunca é demasiado nem ocioso, no plano de gradação espiritual e característico do nosso mundo, não há conquista real de felicidade nem aquisição de verdade isenta da mutilação de um pouco de nós mesmos, ou seja daquilo que ainda estrutura a nossa personalidade moral especifica e caracteriza a nossa humanidade - o egoísmo.

            Aos que pretendiam perlustrar lhe a luminosa esteira, dizia o DIVINO MESTRE em sublimado rasgo de eloquência: todo aquele que quiser seguir-me, renuncie-se a si mesmoE aos que nele estimavam e presumiam o rei dos judeus, redarguia: o meu reino não é deste mundo.

            Consideremos estes dois lacônicos conceitos e vejamos até que ponto nos sobram vontade e forças para vive-los com a parcela de luz e assistência que nos atribuímos, a gritar urbi et orbe (a todo o universo) que somos os depositários da Terceira Revelação, daquele Consolador prometido, que viria ensinar todas as coisas para ficar eternamente conosco.

            Haverá, de fato, em nossos arraiais aquela harmonia e aquela serenidade espontâneas que são apanágio do espírito de renúncia e desapego às coisas do mundo?

            Estaremos, no posto que a Providência a cada qual assignou e que representa o desempenho de compromissos sagrados, porque, escolhidos e orientados de feição à lei de causalidade - o que importa dizer irrevogável senão para esta, ao menos para outra encarnação - dando frutos de salvação e renúncia?

            Ou estamos simplesmente fazendo obra de artifício e fancaria (trabalho grosseiro) , no mínimo inútil para nós e para o próximo, a esboçar o primeiro capítulo da história de mais uma confraria destinada a trocar a herança real pelo prato de lentilhas?

            Se estamos, de fato, com O CRISTO DE DEUS, pelo espírito dos ensinos que nos legou há vinte séculos, irmanados lógica e racionalmente na convicção do dever comum, a nossa coesão espontânea, natural, por obediente às vozes de seus mensageiros, deve apresentar a invulnerabilidade das chamadas frentes únicas, e nada pode temer dos que lidam por aniquilar nos, no estulto (insensato) pressuposto de ser humana a nossa obra.

            Mas a verdade - triste verdade! - é que, na preocupação de servirmos a Deus nos esquecemos do próximo, aderirmos ou melhor, não nos desapegamos das paixões do século por servir-nos a nós mesmos, e vamos assim fraccionados, divisos, enfraquecidos, apresentando ao mundo dos homens e ao mundo dos espíritos as mesmas falhas e lacunas que dos clássicos sectarismos utilitários e fanáticos.

            Demais sabemos que a improvisação de santidade, mesmo em acepção relativa, é impossível para a geração contemporânea; demais reconhecemos que o simples expurgo de uma só das nossas muitas taras maléficas é dificílimo; entretanto, é a própria consciência quem no-lo afirma com a inteireza de um postulado, que outra não é nem pode ser a finalidade doutrinaI do Espiritismo, sob pena de fracasso, não da obra em si, que não é nossa porque de Jesus, mas daqueles que por misericórdia e de acréscimo tomaram o compromisso de secundar a sua vontade, através de todos os percalços e vicissitudes intercorrentes.

            Haverá quem diga por aí com visos de aparente verdade, ser superabundante e até contraproducente a predicação (sermão) moral e teórica do Espiritismo.

            O que se quer são fatos e mais fatos, que berrem a imortalidade, que comprovem a reencarnação. Isso, sim.

            Mas isso é um engano, é uma fórmula acomodatícia de conciliar ou iludir a nossa inópia (penúria) e o nosso orgulho.

            Antes de tudo, convém dizer: a imortalidade é lastro de todas as religiões e os fenômenos espíritas são velhos quanto o mundo.

            Modernamente perquiridos e observados sob critério científico o mais rigoroso, a sua realidade não está por demonstrar.

            E, no entanto o que vemos, o que sentimos e comprovamos é que em quanto as religiões se digladiam por senhorear as consciências impondo-lhes dogmas absurdos, as ciências improvisam dogmas não menos absurdos e criam, num torneio extravagante de fórmulas e preceitos convencionais e hipotéticos, a intranquilidade e o mal estar dos nossos dias.

            E assim é que a sanção divina como princípio salutar de refreamento à desordem moral, praticamente não tem eco nem sentido para o coração e para a inteligência contemporânea.

            E neste caos de falências, e neste fervilhar de ambições e de ódios, nesta romaria de dúvidas e asperezas significativamente resultantes de um passado tenebroso, tanto quanto promissores do necessário ajuste de contas, bem se vê que não podemos ou pelo menos não devemos ir de roldão, como aqueles cegos condutores de cegos, destinados ao barranco.

            Deixemos sim, aos mundanos, a preocupação temporal de conquistar o mundo, de qualquer forma e não nos detenhamos um só minuto na consideração do mal que nos possam eles acarretar, desde que saibamos adquirir, temperar e esgrimir as únicas armas permitidas - a Fé e o Amor.

            Os sindicatos humanos de qualquer matiz podem, a qualquer título, reivindicar o domínio das consciências, culminando, possivelmente, no extermínio dos corpos: mas o que eles não poderão nunca é impedir que as mesmas almas ou outras almas se manifestem ou se reincorporem e venham proclamar ao mundo a Onipotência e a Onisciência de Deus.  

            Nem noutro sentido afirmado foi que Ele tinha poder para fazer das pedras filhos de Abraão.

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