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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

44. 'Revelação dos Papas' - Jacó, o Patriarca


44
‘Revelação dos Papas’
(Obra Mediúnica)

- Comunicações d’Além Túmulo –


                                                      Publicada sob os auspícios da
União Espírita Suburbana
Rua Dias da Cruz 177, Méier

Officinas Graphicas d’A Noite
Rua do Carmo, 29
1918


Jacó, o patriarca

O médium vê o espírito envolto em ondas de luz branca, suavíssima, 
semelhante ao brilho da prata,
 tendo em redor flamas de cor verde e azul pavão , 
formando um  conjunto encantador.
 Consegue depois ver a cabeça de um velho, 
com os cabelos em cachos e a barba e os bigodes não muito grandes.

___________________________


            Meus amados irmãos, filhos de Deus, descendentes de lsrael, aqui está um dos está um dos vossos antigos guias, um dos iniciadores da vossa civilização; acha-se na vossa presença um dos mais humildes e fieis servos do Senhor.

            O meu espírito evoluiu através dos séculos, viveu já muito na Terra e em outros mundos, onde pregou e semeou os ensinamentos que lhe foram dados por Deus e por Jesus, ao entrar na vida material terrena. Hoje vivo mui distante de vós, habito regiões longínquas, onde gozo a paz e a felicidade que Deus me concedeu pelos meus esforços, pelo sacrifício que fiz para auxiliar o progresso da humanidade em cujo seio fui chamado a viver. Venho, pois, de muito longe, parti de um ponto ignorado por vós outros, para vir colaborar nesta "Revelação", empenhar-me na obra de resgate do vosso mundo; a cujo inicio assisti; e tenho, assim, o prazer e a glória de trabalhar no advento da Nova Era.

            Meus amigos; fostes imprudentes abandonando o verdadeiro caminho, o mais curto que vos poderia conduzir facilmente para junto de Deus. Praticastes um grande crime voltando as costas à cruz e apagando os ensinamentos de Jesus estampados em vossos corações, gravados no fundo das vossas consciências! Feristes a lei divina, ofendestes o Criador repudiando os ensinamentos do Seu Filho, negando existência do Pai Celestial, estabelecendo no mundo o reinado da impiedade, da descrença e do materialismo. Destruístes o Decálogo, profanastes o Evangelho e violastes tudo quanto vos foi legado pelos antigos diretores espirituais: cavastes um fundo abismo aos vossos pés, abrindo vós mesmos a profunda e sombria sepultura onde sereis lançados.
             
            Derrubastes todos os ideais que nasceram convosco, todas as aspirações alimentadas pelas gerações que vos antecederam neste planeta, e reduzistes a pó todas os símbolos da fé, todos os ensinamentos que herdastes dos vossos maiores. Fostes perjuros, apóstatas, falsos, demolidores: traístes a vossa própria consciência, mentistes à vossa própria razão e falseastes todos os princípios de moral que vos foram legados pelos iniciadores da vida social no mundo que habitais. Quebrastes o elo que ligava o presente ao passado, interrompendo o encadeamento das tradições cristãs, a marcha do progresso moral, iniciada há tantos séculos, a custa de dolorosos sacrifícios, pelas primitivas gerações. Desse modo, sois criminosos, culpados das vossas infelicidades atuais e responsáveis pelo atraso do planeta que vos foi designado para ser o berço do vosso progresso espiritual.

            Transformastes a vida numa fonte de gozo material, vivestes somente pelos sentidos, cultivastes os instintos grosseiros, assim criando uma vida artificial, enganadora e desumana: procurastes apenas a satisfação dos apetites brutais e transformastes a Terra num pântano moral, onde vivestes afundados, mergulhados até hoje e de onde saís agora para lavar o lodo das vossas abjeções e misérias no sangue que está alagando a superfície do formoso planeta que habitais.

            Tudo fizestes para apagar o nome de Deus, destruir os vestígios da Sua infinita sabedoria e ofuscar o sol da Sua justiça. Negastes a existência do Criador e proclamaste a imortalidade da matéria, por vós considerada o principal fator de tudo quanto existe, afirmando a existência do homem sem alma, vivendo unicamente a vida inferior e incompleta da matéria inconsciente.

            Zombastes de tudo, encanecestes de Deus e de Jesus, desprezastes os grandes exemplos de humildade, justiça e amor que vos foram dados pelo Mestre dos mestres. Fechastes os olhos à luz que tantas vezes tem baixado sobre a Terra para chamar a vós a atenção para o Alto; não quisestes ouvir os avisos que inúmeras vezes foram trazidos ao mundo pelos espíritos eleitos, os missionários enviados por Deus e inspirados por Jesus.
             
            Teimastes em negar o poder e a sabedoria divinos, proclamando obra do acaso tudo que existe na Terra. Jamais admitistes que os que se diziam confiantes na justiça e no amor infinitos assumissem a direção dos povos.

            Tudo fizestes não só para sufocar os impulsos e sentimentos generosos que irrompiam dos corações amigos e bondosos dos crentes e humildes, como para implantar na Terra doutrinas criminosas, destruidoras da paz e tranquilidade que deviam ser desfrutadas pelos homens. Não poupastes esforços para convencer os vossos irmãos de que a força material é a única que existe, afirmando-lhes ser tudo matéria, nada havendo, portanto, além das fronteiras do vosso planeta.

            Erigistes uma Babel - supondo construir um templo consagrado à paz, à justiça e ao amor; criastes um inferno - alegando edificar onde desfrutásseis todas as delícias e venturas     durante a vida terrena; armastes uma forca - presumindo arquitetar um trono, do alto do qual o homem reinasse feliz e satisfeito, dominando o mundo com a vontade e o seu poder. 

            Consumistes todo esse tempo que decorre do período em que vivi sob o nome de Jacó, até os vossos dias, em preparar a colossal fogueira em que vos queimais neste momento. Sacrificastes tantos séculos, tantas gerações, perdestes tantas anos, esgotastes tantas energias, desperdiçastes tantas forças, tanto sangue, tanta vida - para terminardes na horrível hecatombe que vos abala e vos deixa apreensivos, a pensar nas suas consequências, nos resultados que sobrevirão a esse tremendo abalo.

            Não tivestes fé, não fostes reflexivos e cautelosos; o orgulho empolgou as vossas almas, escravizou as vossas consciências, o egoísmo e a ambição perturbaram a vossa inteligência, tolheram o vosso raciocínio, escavaram na vossa alma imenso vácuo que não sabeis agora como preencher, e faltam-vos elementos para entulhar o abismo em que se transformou a consciência do homem moderno.

            Estais aflitos, desesperados, tristes e sem saber como fazer cessar a tempestade que vós mesmos fizestes desencadear sobre o vosso mundo e sobre a vossa humanidade! Choras a vossa ruína e a vossa desgraça, sem saber como achar alívio para a imensa dor que devora o vosso coração! Sentis agora quanto andastes errados no caminho que seguistes; começais a compreender que sois fracos, impotentes para apagar esse incêndio que ateastes com as vossas próprias mãos; principiais a ver que não sois tão fortes como pensáveis e quão reduzida é a vossa sabedoria e débeis os recursos morais de que dispondes para falar de paz,
concórdia; compreendeis hoje que só a paz, o amor, a justiça e a fraternidade são capazes de tornar o homem feliz sobre a Terra.

            Tendes agora a visão de melhores dias, vividos à sombra da paz, alentados pela fé e embalados pelo amor! Chegou a hora em que haveis de refletir sobre tudo quanto afirmastes, tudo quanto negastes, o que destruístes, o que violastes, o que profanastes, o que repudiastes; o momento em que ides compreender o valor das palavras de Jesus -  "O meu reino não é deste mundo”; aproxima-se a hora em que ides ter a desilusão completa do valor da vossa ciência, do poder da vossa sabedoria; vai bater a hora em que haveis de saber que existe alguma coisa além da matéria, um poder muito maior que o vosso, uma sabedoria infinita, uma justiça também infinita e um Deus infinitamente justo, bom e sábio!

            Bate à vossa porta, humanidade, o dia em que vos convencereis da inutilidade de todos os esforços que fizestes para apagar o nome de Deus - gravado no fundo de todas as coisas humanas - e as luminosas verdades ensinadas por Jesus.

            Ides ouvir a voz da vossa própria consciência clamando contra os vossos erros, crimes e faltas gravíssimas que cometestes pelo caminho errado que seguistes, e os desmandos, horrores e desgraças que semeastes no vosso globo.

            Deus, entretanto, virá em socorro dos homens. Ele vos dará alívio mandando proclamar estas grandes verdades, que vos servirão de bálsamo e vos darão paz e tranquilidade de espírito e de consciência. Deus estará convosco nessa hora, Jesus baixará sobre vós para suavizar as vossas dores com os doces eflúvios do seu coração boníssimo e puro.

            Jesus não vos abandonará; ele virá, em pessoa, ajudar-vos nesse instante dolorosíssimo para a humanidade terrena, O Salvador do Mundo virá visitar-vos, trazendo a nova luz que promete seria dada de boa vontade, aos homens de boa fé e coração puro: Ele ai vem.

            Aproxima-se a hora, vem raiando o dia sublime da vossa redenção; aparecem já os primeiros clarões dessa alvorada, dessa manhã cheia de luz, alegrias, risos e esperanças; desponta já o sol do Espiritismo, que há de encher de felicidade esse dia formoso que vem nascendo para o mundo cristão!

            Está prestes a soar a hora da vossa libertação; deveis, portanto, orar sem cessar, erguer os olhos para o Alto, pedindo a Deus que vos dê a luz necessária para poderdes, no dia glorioso de que vos falo, compreender as luminosas palavras contidas no Evangelho de Jesus.

            Que a misericórdia divina ampare a humanidade terrena.

            Adeus.

Jacó, o patriarca
Março de 1916

Informações complementares
            Foi grande sacerdote. Era filho de Isaac e de Rebeca. 
página 52 do Livro ‘Emissários da Luz e da Verdade’

1ª Edição 1959    Ed. Divino Mestre - RJ  RJ

Anúncio da Crucificação (a palavra de Mateus)


                       Anúncio da Crucificação                          

 17,22 Enquanto caminhava pela Galiléia, Jesus lhes disse: “O Filho do Homem deve ser entregue às mãos dos homens.
17,23 Matá-lo-ão, mas ao terceiro dia ressuscitará..” Eles ficaram profundamente aflitos.  

            Para Mt (17,14-21), -Anúncio da Crucificação... -  reproduzimos a  palavra de A. L. Sayão, em “Elucidações Evangélicas (FEB)”:

            “Estes versículos se explicam por si mesmos. Jesus revelava antecipadamente os acontecimentos que se iam dar, a fim de tocar mais fundamente o espírito dos discípulos e lhes aumentar a fé.

            Predisse-lhes que “habitaria com os mortos”, a fim de tornar mais frisante a sua ressurreição.

            O que eles, porém, compreenderam foi, apenas, que o Senhor se preparava para morrer, que corriam o risco de perder o Mestre bem amado, crentes de que este pertencia, pelo seu invólucro corpóreo, à Humanidade terrena. Ao mesmo tempo, receavam interrogá-lo, porque a ressurreição, após a morte que, no parecer deles, seria real, material, lhes povoava de dúvidas os Espíritos, quanto à possibilidade de tal fato, mesmo como um milagre, dúvidas de que lhes nascia o temor de interpelarem  a Jesus.

            A vida, a morte e a ressurreição do Salvador, fatos aparentes, mas que deviam ser consideradas reais, tiveram uma razão e um fim que hoje se justificam e explicam, sem que haja mister sejam impostas, dogmaticamente, como milagres, isto é, como derrogações de leis naturais e imutáveis. ”        

            

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

VII 'Apreciando a Paulo'


VII
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec - 1958


“Portanto, nós também, pois que estamos rodeados de uma tão
grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço e o pecado
que tão de perto nos rodeiam, e corramos com paciência
 a carreira que nos está proposta.
Olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual pelo gozo
que lhe estava proposto suportou a cruz, desprezando a afronta,
e assentou-se à destra do trono de Deus.
Considerai pois aquele que suportou tais contradições dos pecadores
contra si mesmo, para que não enfraqueçais,
desfalecendo em vossos ânimos.
Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado.
E já vos esquecestes da exortação que argumenta convosco como
filhos: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor,
e não desmaies quando por ele fores repreendido;
Porque o Senhor corrige o que ama,
e açoita a qualquer que recebe como filho.
Se suportais a correção, Deus vos trata como filhos;
porque, que filho há a quem o pai não corrija?
Mas, se estais sem disciplina, da qual todos são feitos participantes,
sois então bastardos, e não filhos.
Além do que tivemos nossos pais segundo a carne,
para nos corrigirem, e nós os reverenciamos;
não nos sujeitaremos muito mais ao Pai dos espíritos,
 para vivermos?”  Hebreus, 12:1 a 9.

            “Deixemos todo o embaraço e o pecado que tão de perto nos rodeiam”, diz o apóstolo Paulo. Deixemos toda a dúvida, todo o preconceito, para nos entregarmos, como cristãos, ao serviço do Senhor Jesus; mas, por outro lado, abandonemos o pecado, isto é, esqueçamos nossos erros, modifiquemos nossa personalidade, corrijamos o “homem velho”, para que, renovados pela fé, possamos pelejar em prol da verdade e do bem, “olhando para Jesus, autor e consumador da fé”.

            O Divino Mestre é o caminho, a verdade e a vida, como ele mesmo frisou. Além disto, é a luz do mundo; quem o seguir, não andará em trevas, mas terá a luz da vida (João, 8:12). Desde que temos ciência e convicção dessa verdade, por que hesitar?

            Então, cumpre-nos trabalhar pelo bem, sem embaraços, distanciando-nos cada vez mais do pecado que nos rodeia, mas sem fugirmos do ambiente social em que lutamos, pois “é em contato com os vícios que se retemperam as virtudes”.

            Jesus deu o exemplo dessa vida ativa, não se afastando dos homens, mas “suportando as contradições dos pecadores contra si mesmo, para que não enfraqueçais, desfalecendo em vossos ânimos”.

            Assim, sejam quais forem as circunstâncias da vida, tenhamos coragem, fé e confiança em Deus! Ele a ninguém desampara, mas está sempre pronto a atender ao apelo de um coração aflito, que o procure com humildade ou que implore seu auxílio, confiadamente.

            “Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim”, disse Jesus (João, 14:1).

            Quem crer em Deus, deve crer também nas promessas de seu Filho, não perder o ânimo, a coragem para a vida, nem se perturbar intimamente, pois Deus não dá uma cruz superior às forças de suas criaturas (I Cor, 10:13) . Se permite o sofrimento, é porque tal é necessário para nos corrigir, para nos dar o conhecimento ou a experiência da vida. Destarte, não nos devemos revoltar contra os Seus desígnios, que são sempre sábios e justos.

            Mas nossa fé às vezes vacila na hora do testemunho, no momento das provações. Contudo, elas são como um exame, para experimentar nossa paciência e nossa resignação, virtudes evangélicas, necessárias à própria evolução.

            Todavia, é comum acharmos que não devíamos sofrer assim, mas de outra maneira, como se nos fosse dado o direito de escolher a provação ou como se pudéssemos estabelecer condições ao nosso aperfeiçoamento.

            “Não desprezes a correção do Senhor, e não desmaies quando por ele repreendido, diz o apóstolo; porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe como filho.”

            Se assim o faz, é por amor, e porque assim é necessário para nosso aperfeiçoamento moral, para a felicidade futura. Temos a eternidade na frente. Nada de angústias, nem de desesperos; TUDO PASSA, e o amanhã será radioso para aquele que crê!

            Deus é quem sabe a correção que nos convém ou o ponto onde nosso orgulho precisa ser ferido.

            Se não encontrarmos explicação nesta vida, para determinado sofrimentos, teremos de admiti-lo como consequência dos erros de nosso Espírito em vidas anteriores, que agora precisa ser forte para redimir-se, pois feliz é aquele que paga seus débitos sem sentimento de revolta ou sem lamentações, já que a tristeza é contraproducente e funesta, como turbação desnecessária do Espírito, que precisa confiar mais em Deus.

            “Se suportais a correção, diz ainda o apóstolo, Deus vos trata como filho; porque, que filho há a quem o pai não corrija?”

            Paulo, o iluminado apóstolo dos gentios, tem em suas epístolas conselhos admiráveis, que decorrem da essência do Cristianismo, que ele compreendeu, sentiu e praticou, exemplificando com o próprio sofrimento, que suportou ate com alegria, escudado na couraça férrea de sua fé gigantesca. Foi “vaso escolhido” ao serviço de Jesus, de maneira que suas palavras merecem ser relidas, ponderadas e seguidas, porque contêm algo daquele “espírito e vida” que deflui das lições do Cordeiro de Deus, seu Mestre e nosso, Mestre, seu Senhor e nosso Senhor. São parte da luz que os Mensageiros também projetam à Terra, em nossos dias, iluminando a existência e o caminho dos homens de boa vontade, e que tenham, ao menos, um pouco de fé, mesmo que seja “do tamanho de um grão de mostarda”, pois, mesmo assim, tornar-se-á suficiente para remover “as montanhas”, que são as dificuldades da vida.

            “Tivemos nossos pais segundo a carne, para nos corrigirem, e nós os reverenciamos; não nos sujeitaremos muito mais ao PAI DOS ESPÍRITOS, para vivermos?”

            Note-se que Paulo de Tarso, em suas Epístolas, de vez em quando fala em Espíritos.

            Quando tratou, na Primeira Epístola aos Coríntios, das faculdades espirituais, Ele chegou a se referir ao dom “de discernir os Espíritos” (I Cor., 12:10). Enquanto que João, outro apóstolo do Senhor, em sua Primeira Epístola (4:1), ao seu turno, confirmando tal faculdade, adverte: «Amados, não creiais a todo o Espírito, mas provai se os Espíritos são de Deus.”

            Conclui-se daí que, se há o dom “de discernir os Espíritos”, como disse Paulo, é porque eles se comunicam livremente conosco. E entre estes, como João Evangelista confirmou, há os que são de Deus e os que não o são, isto é, os que ainda perseveram no erro, cujas doutrinas devemos examinar com cautela. Mas o farol está nos ensinos do Cristo, pois, conforme o Divino Mestre, “pela árvore se conhece o fruto.” (Lucas, 6:44).

            A proibição do Velho Testamento, de estabelecer o comércio com o plano espiritual, feita aos homens atrasados de seu tempo (Deut., 18:11), já foi revogada, de vez que “as leis e os profetas duraram até João” (Lucas, 16 :16). Após Jesus, não se guarda mais o sábado, desapareceu a poligamia e não se pratica mais a circuncisão. Por que somente aquela proibição teria de ficar de pé? Ademais, são os próprios apóstolos que se referem à possibilidade de tais comunicações, ora dizendo que é dom saber discernir os Espíritos, ora nos advertindo que não creiamos em todos, o que vale dizer que devemos crer em alguns, que são de Deus. O trabalho está em discerni-los, aplicando nesse intercâmbio as regras que Jesus nos deu, para tal.

            Acresce que o Divino Mestre, ele mesmo, transfigurou-se no Monte Tabor, e ao seu lado apareceram Moisés e Elias, que já eram mortos, mas falavam com Jesus (Marcos, 9:4). O meigo Nazareno, depois de ressurgir (e a ressurreição é na vida espiritual), apareceu à Madalena e aos apóstolos. O Novo Testamento está repleto de fatos e de narrações de fenômenos espíritas. Portanto, negá-los, é desconhecer a Bíblia.

            Destarte, que os ensinamentos de Paulo, aqui apreciados, nos sirvam de roteiro, de luz e de progresso ao nosso entendimento, que precisa evolver, compreendendo os dons do Espírito Santo e descobrindo “a verdade maior”, que é o Espiritismo cristão.

            As coisas de Deus têm que se harmonizar à lógica dos fatos e à nossa necessidade de progredir em amor e em compreensão, a fim de que, algum dia, sejamos um com o Pai, como o é Jesus. E se o dogma da Santíssima Trindade não existe, de conformidade com esse e com outros ensinamentos bíblicos, a Unidade com o Criador é o supremo anseio do Espírito, para cuja síntese todos caminhamos, sobraçando nossa cruz.

            Deus é um só. “O Pai é maior do que eu”, confessou Jesus (João, 14:28). Mas a Ele nos harmonizaremos, em Espírito e Verdade, através dos séculos, sendo também “consumados na unidade”, por força da lei da evolução. 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

As Crianças Prodígio

As
crianças
 prodígio
Reformador (FEB) Novembro 1945

            Miguel Angelo usava ainda roupas da primeira infância quando seu mestre Ghirlandaio despedia-o de sua oficina, por não ter mais que lhe ensinar.

            Mozart compunha seu primeiro concerto aos 6 anos.

            Baptista Raisin falava 3 línguas na idade de 2 anos.

            Aos 7 anos, a filha do deputado de Pontevy, Sr. Brard, executa as óperas de Bach, Nayder e Mozart, com talento maravilhoso.          

            Erick Korngold, com 13 anos apenas, compôs um trio de música de câmera para piano, violino e violoncelo. A Grande Ópera de Viena leva à cena uma pantomina sua: "O homem de neve".

            Miss Joan Maude, filha do ator Maude, aos 5 anos de idade, publicou uma coleção de cintos, da qual se falou muito em Londres. Seus pais escreveram o "Por entre as trevas da noite", que assim sé intitula a obra, ditada pela autorazinha, visto que ela não sabia ainda ler e escrever.

            René Guillon, filho de um empregado do Correio de Rennes, com 7 1/2 anos de idade, compõe e executa ao piano sonatas, sinfonias, fugas, duos, que fazem a admiração dos profissionais.

            Colleite Pattinger, com 10 anos, natural de Colombes, desenha, sem nunca ter aprendido, pequenas obras primas de observação e de humor.

            Willi Ferreros, maravilha Paris pela segurança e arte com as quais dirigia a orquestra da "Revue des Folies Bergêres".

            Ciotto, humilde pastor da campanha fIorentina, desenha figuras na pedra e na areia.

            Margarida Monnot, com 3 anos e meio, fez- -se ouvir em um concerto dado em casa dos irmãos St. Jean. Transpunha em todos os tons uma ária ouvida pela primeira vez; inventava acompanhamentos de perfeita e correta harmonia; improvisava encantadoras frases na harmônica e ao piano.

            William Lidis, do Estado de Massachussetts, sabia ler e escrever aos dois anos. Aos quatro, falava 4 línguas. Aos dez resolvia problemas de Geometria, bem difíceis, e maravilhou o meio intelectual de Boston fazendo com êxito o seu exame de admissão no Massachussets Institute of Technology, onde a média da idade dos alunos admitidos é de 21 anos. Na mesma época ele fez, na Universidade de Harvard, uma conferência sobre a quarta dimensão, diante de grande número de professores de Matemática.

            Margel Lavallard, com 12 anos, viu um de seus quadros recebido no Salon de Paris.

            Pepito Ariola, com três anos e meio, toca piano com sentimento musical digno de nota; improvisa óperas cujo acompanhamento é também improvisado. O Sr. Charles Richet fez, a seu respeito, uma comunicação ao Congresso de Psicologia.

            MIle. Van Barentze (onze anos e meio), discípula de Delaborde, obteve o primeiro prêmio no concurso de piano no Conservatório.

            Rafael, aos 14 anos, começava a sua faina de pintor divino.

            A. Comte, aos 13 anos, anuncia-se como um grande pensador.

            Em que, dizeis vós, esses casos de precocidade podem interessar as pessoas ávidas do Além e do sobrenatural?

            A resposta é simples, se se quiser convir que não é natural que tenras crianças possuam qualidades reservadas à idade madura, conhecimentos e capacidades que se não podem adquirir senão depois de longo e paciente estudo e trabalho assíduo.

            Nessa idade o cérebro tem apenas consciência de si mesmo; não é pois natural que seja o trabalho o produtor do fato. Há outra causa.

            Apolonius de Tiane disse: "O indivíduo nasce por intermédio dos pais, mas não diretamente dos pais". É talvez nessa ordem de ideias que se deve procurar a chave do mistério e emitir estas hipóteses: reminiscência de aquisições anteriores, reencarnação ou possessão.


(Ext. do Bulletin de la Société d'Études Psychiques de Nice, de 1913).

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

VI. 'Apreciando a Paulo'


VI
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

            Tipografia Kardec - 1958


Ora o Senhor encaminhe os vossos corações
na caridade de Deus e na paciência de Cristo.
Mando-vos, porém, Irmãos, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo,
que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente,
e não segundo a tradição que de nós recebeu,
Porque vós mesmos sabeis como convém imitar-nos,
pois que, não nos houvemos desordenadamente entre vós,
Nem de graça comemos o pão de homem algum,
 mas com trabalho e fadiga, trabalhando noite e dia
 para não sermos pesados a nenhum de vós.
Não porque não tivéssemos autoridade,
mas para vos dar em nós mesmo exemplo, para nos imitardes.
Porque quando ainda estávamos convosco,
vos mandamos isto que, se alguém não quiser trabalhar, não coma também.
.:Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam
desordenadamente, não trabalhando, antes fazendo coisas vãs.
A esses tais, porém. mandamos e exortamos por' nosso Senhor,
Jesus-Cristo que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.
E vós, irmãos, não vos canseis de fazer bem.”
2ª Epístola aos Tessalonicenses, 3-5 a 13.


            “Dize-me com quem andas e eu te direi quem és”, reza a sabedoria popular.

            O apóstolo dos gentios recomenda “que vos aparteis de todo irmão que andar desordenadamente”, e não segundo os bons costumes.

            Esta lição é sobretudo para os moços. As boas companhias servem de estímulo e de exemplo. Enquanto que os maus, os irreverentes, os que não cumprem os seus deveres e andam por caminhos escusos, prejudicam e corrompem os caracteres em formação. A faculdade imitativa é peculiar aos jovens, mesmo que de tal não se apercebam.

            Assim como o estilo é, geralmente, o fruto da assimilação, decorrente das leituras feitas, o caráter também sofre influências, muitas vezes decisivas, das companhias que a pessoa tenha ou com as quais conviva.

            Os fatores mesológicos, isto é, as persuasões, excitações e exemplos do meio ambiente, comunicam-se e são naturalmente seguidos.

            As concepções de vida, os gostos e as ideias de um grupo tem profunda influência em todos os seus componentes. Daí porque Paulo, com a sabedoria que lhe foi incutida pelo Espírito Santo, recomendou aos cristãos, como norma de conduta, afastarem-se dos que andam, por maus caminhos, isto é, dos que não procedem bem.

            As leituras possuem também influência preponderante na formação do caráter. Os livros incutem ideias, dão juízos especiais sobre as coisas e despertam inclinações ou pendores.

            Portanto, devemos tratar da higiene mental, procurando ler, d epreferência, aquilo que possa servir para nossa edificação moral.

            Quanto ao trabalho, Paulo o aconselha e o abençoa. Nós, espíritas, bem sabemos que “o trabalho é uma prece”. Estimula faculdades, serve de distração e é proveitoso a quem o exercita. A inércia ou a preguiça, ao contrário, gera a indolência e é fonte de outros pecados ou de várias imperfeições.

            A sabedoria antiga dizia que “a mulher deve viver de mãos ocupadas”. As que nada querem fazer acabam por se interessar somente com a sua vaidade, com o luxo e com as coisas fúteis. Por outro lado, o homem ocioso é um inútil, um peso morto para a sociedade. Por isto, Paulo foi categórico e rigoroso: “Se alguém não quiser trabalhar, não coma também.” E acrescentou: “Porquanto ouvimos que alguns entre vós andam desordenadamente, não trabalhando; antes fazendo coisas vãs. A esses tais, porém, mandamos, e exortamos por nosso Senhor Jesus Cristo, que, trabalhando com sossego, comam o seu próprio pão.”

            O Apóstolo realça ainda, sua conduta e sua operosidade, “trabalhando noite e dia para não serem pesados” aos demais. Frisa que o fazia para que servisse de exemplo a todos os cristãos achando que, só se deve ganhar remuneração através do trabalho honesto e perseverante. Ele era apóstolo mas não quis viver à custa de dízimos, nem da benemerência alheia... Este foi o seu exemplo!

            Está no começo da transcrição que acima fizemos:
                       
            “O Senhor encaminhe os vossos corações na caridade de Deus e na paciência do Cristo.”

            Tudo, verdadeiramente, se resume na caridade, vale dizer, no amor.                           

            O mandamento é “ama a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a ti mesmo. Nisto se resumem as leis e os profetas.” (Mateus, 22:37 a 40)

            Assim, o Divino Mestre prescreveu amar ao próximo, tanto quanto a nós mesmos.

            Ora, quem não procura as boas companhias, quem não trabalha ou estuda e não se esforça em prol do bem, deixa de ter amor para consigo mesmo, porque resvalará pelo mau caminho, tornando-se improdutivo e viciado.

            Por isto, Paulo deseja que o Senhor encaminhe nossos corações “para a caridade de Deus e a paciência de Jesus”. Aliás, esta grande virtude, a paciência, é uma das características do cristão, devendo ser exercitada tanto no lar como na sociedade.

            Quem não tem paciência não é caridoso, nem generoso, nem humilde, já que precisamos saber suportar e tolerar as imperfeições de nossos irmãos.

            Se todos tivessem o mesmo nível mental, se todos possuíssem o mesmo entendimento e os mesmos gostos, não haveria oportunidade de as virtudes serem postas à prova.

            Somos diamantes brutos que nos lapidamos pelo rostir recíproco, pelo atrito de nossas ideias, de nossos atos e de nossos pontos de vista. Nesse burilamento, é mister que nos portemos como cristãos, isto é, com tolerância, humildade e paciência, já que nem todos podem compreender as coisas do mesmo modo, e precisamos respeitar as concepções alheias, pois não devemos querer escravizar os outros às nossas ideias, por mais acertadas que sejam. Convém respeitemos o livre arbítrio de nosso semelhante, assim como Deus respeita o nosso! Destarte, os próprios filhos, encaminhemo-los na vida, porém sem lhes impor nossos pontos de vista com exigências descabidas ou com impertinências, mas ensinando-os com amor.

            A caridade de Deus, a que o apóstolo se refere, assim no lo exige. Por outro lado, também não é acertado fugir do mundo, mas tão somente das más companhias ou das más leituras, porque elas são capazes de perverter.

            Meditemos nos ensinamentos de Paulo. Leiamos suas epístolas, que se abeberaram na mesma fonte de água viva, que dessedenta os espíritos, tranquilizando os corações, e que é Jesus, “o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”, na frase expressiva de João Batista.      .

            ´”E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.”

            É pela bondade que se conhece o espírita, vale dizer, o cristão, ou aquele que adora a Deus “em espírito e verdade”. Este é um regenerado e procura fazer o bem, toda a vez que se lhe oferece oportunidade. Porque o Cristo de Deus quer de nós somente isto: que melhoremos nossos corações para sermos felizes!

            O caminho está em seus ensinamentos, a cujos princípios Paulo sempre se refere, dando-lhes o testemunho da fé viva e profunda, que foi demonstrada através de seu exemplo dignificante, vale dizer, por suas obras sinceras e generosas, jamais desmentidas, desde que se encontrou com o Senhor Jesus na estrada de Damasco.

            Paulo comentou as lições do Divino Mestre, que perdurarão por toda a eternidade, chamando ao aprisco as ovelhas desgarradas e traçando o roteiro de luz ao seu rebanho.

domingo, 25 de agosto de 2013

Fé, do tamanho de um grão de mostarda (Mateus)



Fé,
do tamanho de
um grão de mostarda...

17,14 E, quando eles se reuniram ao povo, um homem aproximou-se deles e prostrou-se diante de Jesus,
17,15 dizendo: - Senhor, tem piedade de meu filho que está obsedado e sofre muito: Ora cai no fogo, ora na água;
17,16  Já o apresentei a Teus discípulos,  mas  eles  não  o  puderam  curar.
17,17 Respondeu Jesus: “ -Raça incrédula e de pouca fé! Até quando estarei convosco? Até  quando  hei de aturar-vos?  Trazei-mo!”
17,18 Jesus retirou o obsessor e este afastou-se do menino que ficou bom na mesma hora.
17,19 Então, os discípulos lhe perguntaram: - Porque não pudemos nós expulsar o obsessor?
17,20  Jesus respondeu-lhes: “ -Por causa de vossa pouca fé. Em verdade vos digo, se tiverdes fé, como um grão de mostarda, direis a esta montanha: Transporta-te daqui para lá, e ela irá, e nada vos será impossível. 17,21 Quanto a essa espécie de obsessor, só se pode afastar à força de oração e de jejum.”

             Para Mt (17,14-21), -Fé, do tamanho de um grão de mostarda... -tomemos a palavra de Kardec, no Cap. XIX de  “O Evangelho...”:
           
            “No sentido próprio, é certo que a confiança nas próprias forças torna capaz de executar coisas materiais que não se pode fazer quando se duvida de si; mas aqui é unicamente no sentido moral que é preciso entender essas palavras. As montanhas que a fé transporta são as dificuldades, as resistências, a má vontade, numa palavra, que se encontra entre os homens quando se trata das melhores coisas; os preconceitos da rotina, o interesse material, o egoísmo, a cegueira do fanatismo, as paixões orgulhosas, são outras tantas montanhas que barram o caminho de todo aquele que trabalha pelo progresso da Humanidade. A fé robusta dá a perseverança, a energia e os recursos que fazem vencer os obstáculos, nas pequenas como nas grandes coisas; a que é vacilante dá a incerteza, a hesitação de que se aproveitam aqueles que se quer combater; ela não procura os meios de vencer, porque não crê poder vencer.”

            “O poder da fé recebe uma aplicação direta e especial na ação magnética; por ela o homem age sobre o fluido, agente universal, lhe modifica as qualidades e lhe dá uma impulsão, por assim dizer, irresistível. Por isso aquele que, a um grande poder fluídico normal junta uma fé ardente, pode, apenas pela vontade dirigida para o bem, operar esses fenômenos estranhos de cura e outros que, outrora, passariam por prodígios e que não são, todavia, senão as consequências  de uma lei natural. Tal o motivo pelo qual  Jesus disse aos seus apóstolos: se não haveis curado é que não tínheis a fé.”

            Para  Mt  (17,20) -Nada vos seria impossível...- leiamos “Livro da Esperança” de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Há quem diga que a discórdia e a ignorância, a penúria e a carência são chagas crônicas, no corpo da Humanidade, apelando simplesmente para o auxílio de Deus, qual se Deus estivesse escravizado aos nossos caprichos, com a obrigação de resolver-nos os problemas, a golpe de mágica.

            Indubitavelmente, nada de bom se efetua sem o auxílio de Deus, no entanto, vale destacar que o Infinito Amor age na Terra, nas questões propriamente humanas, pela capacidade do homem, atendendo à vontade do próprio homem.

            As criaturas terrestres, através de milênios, vêm realizando as mais belas empresas da evolução, com o Amparo Divino.

            Viviam segregadas no primitivismo dos continentes...

            Quando se decidiram a conhecer o que havia, para além dos mares enormes, com o auxílio de Deus, construíram as naves que se sustentam sobre as ondas.

            Venciam penosamente as longas distâncias...

            Quando se dispuseram a buscar mais largas dotações de movimento, com o auxílio de Deus, fabricaram veículos a motor, que deslizam no solo ou planam no espaço.

            Jaziam submetidas às manufaturas, que lhes mantinham todas as faculdades na sombra da insipiência.

            Quando resolveram conquistar o tempo preciso para o cultivo mais amplo da inteligência, com o auxílio de Deus, estruturaram as máquinas que lhes descansam a mente e as mãos, por toda parte, desde o cérebro eletrônico à enceradeira.

            Padeciam visão limitada...

            Quando diligenciaram obter meios de análise, com o auxílio de Deus, passaram a deter lentes e raios que lhes facultam observações minuciosas, tanto nos astros, quanto nas peças mais ínfimas do mundo orgânico.

            Experimentavam  manifesta insuficiência de comunhão espiritual...

            Quando se afadigaram por estabelecer contato entre si, com o auxílio de Deus, atingiram as comunicações sem fio, que lhes permitem o mútuo entendimento, de um lado a outro da Terra, em fração de segundos.

            Tudo isso conseguiram aprendendo, trabalhando, sofrendo e aperfeiçoando... E, para desfrutarem semelhantes benefícios, pagam naturalmente a aquisição de passagens e utensílios, engenhos e serviços.

            Assim também, os males que atormentam a vida humana podem ser extirpados da Terra, se procurarmos construir o bem, à custa do próprio esforço, com o auxílio de Deus.

            Tesouros do tempo, orientação, entendimento e recursos outros não nos faltam.

            Urge, porém, reconhecer que somos responsáveis pelas próprias obras.

            Desse modo, com o auxílio de Deus, será possível transformar o mundo em radioso paraíso, a começar de nós mesmos, no entanto, isso apenas acontecerá se nós quisermos.”  

O Desejo de ser Feliz



O Desejo de ser feliz
José Brígido (Indalício Mendes)

            - Vim em busca de ti, Galaor, porque me disseram que podes ensinar-me a conquistar a felicidade.

            - Exageraram-te os meus préstimos, Isaman.

            Apenas poderei dizer-te que encontrarás o roteiro da felicidade na exemplificação das normas do Grande Livro. Mas não se trata de fácil tarefa. Terás de renunciar a tudo, até a ti mesmo, para que te ponhas em condições de lutar pelo que desejas.

            - Vejo, então, que me iludiram. Adeus, Galaor!

            - Desejo que sejas feliz, mas só o meu desejo não basta. Cumprir-te-á o sacrifício da porfia, Isaman. Não peço para ti dinheiro, mas felicidade.

            - Se não me desejas dinheiro, como queres que eu seja feliz? Tudo no mundo gira em torno do dinheiro e nada se pode fazer sem ele.

            - Enganas-te. O dinheiro foi inventado pelo egoísmo e este é mantido na Terra pela ambição que ele suscita. Repara que os mais apegados ao dinheiro são justamente os mais egoístas. E necessariamente os mais infelizes. Aprende também, Isaman, que o homem poderoso não é o que pode dispor de exércitos ou assalariados para impor sua vontade. O homem mais forte é o que reconhece a sua humildade e dela se utiliza através do bom senso. Nem é o mais rico aquele que acumula arcas transbordantes de ouro e pérolas. Só a simplicidade pode conduzir o homem à realidade das coisas.

            - Então, qual é o homem mais rico?

            - O que tem menos necessidades...

            - Estás equivocado. São muitas as necessidades que me afligem, e crescem depressa. E não me sinto feliz. Sem dinheiro irei ao desespero. Agradeço-te os conselhos, mas tenho cá as minhas ideias. Adeus, Galaor!

            - Lembra-te de que o dinheiro é traiçoeiro. Hoje o persegues, amanhã dele serás escravo. A fortuna nem sempre faz afortunado a quem a possui. Não há maior riqueza que a paz do espírito, Isaman.

            - Sou moço, tenho ideias diferentes. És velho, não tens mais energia nem coragem para lutar. É natural.

            - Não multipliques tuas preocupações. a felicidade dos poderosos é ilusória. Muitas vezes os argentários sorriem porque se envergonham de chorar. O excesso de dinheiro não é recompensa, é castigo.

            - Que seja! Quero ter tudo quanto a vida nos dá de melhor: belos cavalos, luxuosas carruagens, servos, propriedades, poder, prestígio... A vida terrena não tolera a pobreza, mas respeita e rende homenagens à riqueza. Impera sempre a lei do mais forte e do que tem mais. Esta é a lei do mundo.

            - Estás iludido, Isaman. A lei do mundo chama-se "Lei do Retorno", "Lei de Ação e Reação" ou "Lei de Causa e Efeito". Esta, sim, é a lei que rege a nossa conduta na Terra e no mundo espiritual. As alegrias e tristezas de hoje podem ser influenciadas pelos atos que realizámos no passado e em outras vidas. Temo por ti, por isto é que te falo mais do que é de meu hábito.

            - Está bem, Galaor. Fica com as tuas ideias. Eu vou partir. O mundo exige de nós audácia, energia e presteza. Se não tomamos a iniciativa de atacar a Natureza, ela nos atacará, esmagando-nos. Se a dominamos, dela tudo conseguimos.

            - Não te deterei mais. Aprende que na vida não há prêmios nem castigos especificados: há consequências. Ninguém foge à Lei de Causa e Efeito, seja grande ou pequeno, forte ou fraco, rico ou pobre, são ou enfermo. A Lei existe para todos e todos lhe estão inelutavelmente sujeitos. Adeus, Isaman!

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            Os anos se multiplicaram.

            Um dia, Galaor estava à beira da estrada, quando vê aproximar-se enorme e rico cortejo. Belíssima carruagem, puxada por quatro cavalos brancos, vem precedida de luzido grupo de cavaleiros, magnificamente montados em ginetes brilhantemente ajaezados. Passaram todos a galope, cobrindo o ancião com o pó fino e quente da estrada ensolarada. Mais adiante, porém, a carruagem parou e dela saiu um homem alto, de olhar triste e porte quebrantado. Devia ser poderoso, pelos trajos que envergava e pelo aparato da comitiva. Dirigiu-se vagarosamente a Galaor:

            - Quem és?

            - Sou aquele que vê o tempo passar sem amargura nem aflição...

            - Porque o dizes? Tua resposta não é respeitosa quanto mereço.

            - Nada disse para magoar-te. Se te magoas é porque tens a consciência perturbada. Se tua consciência se agita, é porque algo fizeste em desacordo com a Lei. Se transgrediste a Lei, responderás por isso. Vejo o tempo passar, foi o que disse, porque sei que o tempo não espera por ninguém. Não me reconheces, Isaman? Quiseste ultrapassar o tempo, correste muito e te acabaste, porque o tempo sempre chega primeiro que nós... Não te lembras de Galaor?

            - Galaor? Galaor... Galaor... Ah! Lembro-me agora! Eu era jovem e ambicioso, ele.., Onde está ele?!

            - Está vendo o tempo passar, Isaman...

            - És tu? Pouco mudaste. No entanto, não te reconheci; Vê como estou, a que cheguei! Fiquei rico, poderoso, influente. Para triunfar, tive que esmagar muitos sob meus pés. Tive de endurecer o coração para que não me enternecessem as lágrimas dos que sofrem por minha causa. À medida que o meu poder aumentava, cresciam os que se cevavam na minha autoridade, bajulando-me, traindo-me. Os invejosos me atormentam desde então. Nunca se satisfazem aqueles a quem ajudo. Acusam--me, mentem e se desdizem sem dificuldade. Ah! às vezes penso que é melhor ser pobre e obscuro, do que rico e cortejado. Ninguém inveja o pobre, ninguém se preocupa com o obscuro. Além disso, o rico e o poderoso recebem pesados juros de ódio e malquerença.

            - Por isso foi que te aconselhei a temer o dinheiro, ele é por demais perigoso, mas sempre pode haver uma esperança, Isaman.

            Apanhando o Grande Livro, Galaor entregou-o ao recém-chegado, dizendo-lhe:

            - Ainda poderás ser feliz, Segue o roteiro que o Grande Livro regista, põe a tua fortuna e o teu poder a serviço do bem, esquece de ti nas vinte e quatro horas de cada dia; lembra-te de teu próximo, ajuda-o, socorre-o, dá o mais que puderes, sem exigir retribuição de espécie alguma. Se assim o fizeres, um dia encontrarás a felicidade.

.................................................

            Numa noite clara de primavera, céu marcado de estrelas brilhantes e a Lua inteiramente iluminada, Galaor, retirado em seu eremitério, ouviu uns passos tardos que machucavam as folhas secas do caminho. Esperou pacientemente por quem chegava. Minutos depois, um homem mais moço do que ele, mas de semblante gasto pelo tempo, surgia com a face lavada de luz.

            Ambos se abraçaram comovidamente. Por entre soluços de alegria, Isaman exclamou:

            - Galaor: encontrei finalmente a felicidade! 

            E os ecos de sua ventura se repetiram pelas montanhas contíguas...

Reformador (FEB) Março 1959