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quarta-feira, 9 de setembro de 2020

Kardec e Roustaing



Kardec e Roustaing

por Manoel Quintão
Reformador (FEB) 16 Maio 1917

(Carta aberta ao estimável confrade Henrique Zamith)

            Cego também sou e precatado daquele aviso contido em Mateus C 23 – vv. 23-24.
           
             Coerente, assim, com os ditames da consciência, não me forro ao dever primacial de estabelecer que a crença, patrimônio intrínseco do espírito, paralela ao seu progresso no tempo e no espaço, não pode formar-se de alheias, mas das próprias convicções.
            Por outras palavras: Se a Verdade Divina é íntegra e uma, no mundo contingente que habitamos, ou ainda na esfera de gravitação da sua humanidade desencarnada, os prismas dessa Verdade variam ao infinito.
            E de molde vem a inserção para nos enquadrarmos em recíproca tolerância, quando e sempre que abordamos tão magnos problemas.
            Não me sobram competência e tempo para minudenciar a tese de vossa consulta, tese velha, de resto, que a muitos, excelentes confrades menos precavidos tem feito, quiçá, perder um tempo precioso em divagações eruditas, mas, por igual, inúteis e até irritantes.
            Assim esflorado o meu modo de ver o assunto, não me será permitido insistir que a opinião a ler-se é minha, bem pessoalmente minha e como tal não pode produzir regras nem cânones, colidindo com um regime de bem estendida liberdade; que escalona as responsabilidades, méritos e deméritos.  
            Para mim, não há entre Kardec e Roustaing discrepâncias, que os incompatibilizem virtualmente no conceito dos estudiosos.
            Ao contrário, eles se completam.
            Completam-se, vejamos hem, na parte revelada de suas obras, que não em suas opiniões pessoais.
            E assim, para sintetizar a resposta eu proporia modificar a pergunta deste modo:
            - Haverá entre as obras de Kardec e a revelação de Roustaing antagonismos capazes de invalidar o Espiritismo no que ele apresenta de essencial à humanidade planetária?
            Penso que não. O que há, considerado de um ponto de vista mais elevado, menos particularista e, de resto, perfeitamente ilativo da doutrina espírita, é a lei de Providência e Previdência, que dá a cada mundo e a cada geração a soma parcial de verdade, compatível com o seu progresso intelectual e científico.
            O confrade, por justificar as suas dúvidas, bate na tecla da encarnação afirmada como imprescindível ao progresso do espirito na obra ele Kardec, e subordinada como acidente expiatório na de Roustaing.  
            Admitido que não há verdade absoluta senão em Deus (o que em Kardec também se encontra) poderíamos concluir que o seu ensino completo em relação à humanidade terrena, pode ser precário em relação à espiritualidade universal.
            Esta conclusão que poderá parecer arbitrária, nada tem da incongruente se considerarmos que, muitos problemas postos ao tempo de sua tarefa não foram pelo Mestre definitivamente resolvidos, bastando para exemplo o da evolução do princípio inteligente dos animais.  
            “Quanto às relações misteriosas existentes entre o homem e os animais, é isto, repetimos, um segredo de Deus, como muitas outras coisas, cujo conhecimento “atual” nada influiria em nosso adiantamento etc. (2)

                (2) “Livro dos Espíritos”, Parte 2 – Cap. XI págs. 248.

            Aqui temos como a Kardec não foi dito tudo, convindo a mais notar que, a ele mesmo lhe foi predita uma breve reencarnação para ampliar a sua obra.
            Certo, há em Roustaing afirmativas que nos atordoam...Mas, pergunto: temos o direito de recusar um ensinamento global como esse da Revelação Evangélica só porque um que outro ponto nos escapa à inteligência limitada?
            Não será antes preferível, neste caso, decidir em consciência e relegar a plano secundário as profissões de fé “ex-cathedra”?  
            Ora, a nós nos parece que, subordinar a finalidade do espírito, ser inteligente só para a felicidade criado, a um sistema de progressão singular, seria amesquinhar a Inteligência Universal e quiçá convergir para um materialismo panteísta assim definível: - sem matéria, sem mundos, não haveria espírito perfeitos, porque não haveria meios de perfectibilidade.
            Não vos parece, caro confrade, seja a concepção humaníssima, presuntiva desse antropomorfismo que levou Heckel a definir Deus - um invertebrado gasoso - antropomorfismo já agora incompatível com a ideia do Criador à luz da Revelação Espírita no seu conjunto?
            Depois, há uma consideração que aporta maciça, fatal nesta ordem de ideias, legitimando-as: é que, estudando Kardec sem “partpris”, pode a sua obra ser considerada uma tarefa preliminar destinada ao grande público cético ou profano, e daí o seu cuidado evidente em chocar certas teorias, sempre que as comentava pessoalmente.
            Isto em nada diminui, antes avulta o seu valor moral de missionário da primeira hora, que precisava não sacrificar o todo pelas partes. Roustaing, ao contrário, preposto a uma tarefa complementar, viria tocar o mundo religioso imanente, essencial de todos os tempos tudo dizendo sem ambiguidade nem restrições, e ferindo a fundo escolas, domas, preconceitos e consciências.
            Mas, obtemperam: Como puderam coetaneamente vir adstritos à mesma tarefa, na revelação de uma só verdade dois missionários contraditórios? 
            Admitida a contradição, que para mim não existe no plano geral da revelação, fora lícito perguntar aos dissidentes: como conciliar o fato da coexistência na terra, num mesmo pais, de João, o Precursor e de Jesus, o próprio Espírito da Verdade?
            Aliás, são questões estas que em nada nos graduam no plano de ação lídima e eficiente, que o conhecimento da Doutrina impõe e a humanidade reclama.
            Crente ou não da corporeidade fluídica d'O Cristo, o que dele devemos reivindicar não é a natureza do corpo mas a sublimidade do Espírito que, superior ao farisaísmo meticuloso e do saduceismo arrogante de seu tempo, colocava o amor de  Deus e do próximo acima de todas as coisas.
            Quanto a outras perguntas, importa dizer: o estudo do Evangelho integrais a luz da Revelação de Roustaing foram adotados na Federação sem exclusividade do “Evangelho segundo o Espiritismo”, de Kardec, por ocasião do centenário deste, conforme consta da Memória Histórica então editada, comemorando o acontecimento.
            Isto vale por dizer que a Federação não impõe mas procura divulgar criteriosamente uma obra útil para o advento integral do Espiritismo, no que ele tem de mais elevado - a moral cristã.
            Essa iniciativa não foi fruto arbitrário, tendencioso, humano - foi resultante da cooperação dos Bezerra, dos Sayão, dos Geminiano, dos Bittencourt Sampaio, já como homens, no Grupo Ismael, já como espíritos desencarnados, em confabulações persistentes com os dirigentes ostensivos daquela casa e nas quais colaborou o próprio espírito de Kardec.
            Agora, se quisermos, à luz do nosso critério humano julgar da árvore pelo fruto,  considerando a tarefa dessa instituição, a sua existência impávida e coesa de 35 anos através de todas as vicissitudes e mercê das fraquezas dos homens seus servidores, havemos de convir que a sua orientação reflete algo de mais poderoso e menos efêmero que as nossas veleidades exegéticas.
            Sobrara-nos autoridade para aconselhar e aos que dúvidas e controvérsias tais suscitam, diríamos: estudai, estudai sempre, mas lembrando-vos que sois espíritos  encarnados, grilhetas de um mundo em que a luz se coa através das malhas de uma inteligência limitada; em que a Verdade Absoluta se dilata por etapas gradativas, não isentas de sombras e miragens fantásticas; estudai, numa palavra, com humildade e com fé, mas sobretudo amai, amai a tudo e a todos, porque o amor é a escada única que dá planos  alcantilados do infinito, nos quais indefinida embora, não deixa de existir a Verdade Absoluta – Deus.

            Fraternalmente vosso,
M. Quintão

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

'O Livro dos Espíritos' e o Demonismo


'O Livro dos Espíritos' e o Demonismo

A Redação
Reformador (FEB) 16 de Junho de 1917

            Há sessenta anos, foi publicado “O Livro dos Espíritos”.  

            Porque este título em oposição às ideias predominantes, cientificas e religiosas?

            Encontramos a explicação nos subtítulos audaciosos. O livro continha (textualmente) os princípios da doutrina espírita sobre a natureza dos seres do mundo incorpóreo, suas manifestações e relações com os homens, sobre as leis morais, a vida presente, a vida futura e o futuro da humanidade.

            Foi ditado e publicado por ordem de espíritos superiores. Em épocas anteriores, houve comunicações entre espíritos desencarnados e encarnados mas andavam envoltas em mistérios, em lendas, fábulas e superstições.

            Recebendo revelações do mundo espiritual, pode Allan Kardec organizar a doutrina espírita. “Os espíritos anunciam, disse o Mestre, que são chegados os tempos marcados pela Providência para uma universal manifestação e que, sendo eles os ministros de Deus e os agentes da vontade divina, a sua missão é instruir e esclarecer os homens, abrindo uma nova era para a regeneração da humanidade. Este livro é um resumo de seus ensinamentos. Foi escrito por ordem e sob o ditado de espíritos superiores para servir de fundamento a uma filosofia racional, despida de preconceitos. Nada contém que não seja a expressão do pensamento deles e que não tenha sofrido o seu exame. 

            A ordem e a distribuição metódica das matérias como as observações e a forma de algumas partes da redação são somente a obra daquele que recebeu a missão de publica-lo”.

            Há mais de meio século essa obra fundamental, publicada em numerosas edições e em várias línguas, tem sido estudada, comentada, submetida a exame e à crítica.

            Os seus princípios estão firmes.

            Percorrei os capítulos d’ O Livro dos Espíritos.

            Vede as soluções dadas pelos reveladores às grandes questões humanas, aos grandes problemas que interessam à humanidade.

            Depois das noções gerais insertas na primeira parte, as revelações, cada qual mais instrutiva, versam sobre o mundo dos espíritos. Allan Kardec coordenou em seguida as leis morais, entre as quais prima a lei do progresso, e encerrou os ditados com os capítulos sobre as esperanças e consolações.

            Na conclusão, o Mestre nos apresentou um resumo da doutrina revelada, encarando-a sob vários aspectos.

            A doutrina regeneradora está vitoriosa em toda linha.

            Para ela volve a humanidade, nesta predita hora amarga de tormento...

            Quando se revelam os Espíritos, nossos irmãos do espaço, mensageiros do Senhor, quando se ergue entre os escombros do presente, essa construção magnífica - a Nova Revelação, que vem reafirmar o ensino evangélico, expurga-lo das glosas humanas, faze-los resplandecer e frutificar, o farisaísmo, ostentando, como outrora em Jerusalém, o seu luxo, a sua vaidade, o seu orgulho e poderio nos templos de pedra, renova, reproduz e repisa as
antigas acusações. A mesma assacadilha de enviado de Satã, dirigida ao Cristo, é reeditada contra o Espiritismo.

            Comparai os princípios da doutrina espírita, expostos na obra imortal de Allan Kardec, com as invenções mesquinhas e ridículas do demonismo clerical.

            Os fariseus, que estão retratados nos Evangelhos - e o Cristo se dirigiu, fulminando-os, a todos eles presentes e futuros, - os fariseus, dizíamos, precisam manter o mito do diabo. Dele necessitam para a exploração da indústria religiosa. É fonte de renda. É instrumento de governo.

            Lamentamos a situação dos que, pretendendo, segundo dizem, dirigir almas, exploram a ignorância e caem debaixo da divina apóstrofe:

            “- Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas!”


A obra de Roustaing



A obra de Roustaing

A Redação
Reformador (FEB) Junho 1916

            O ilustre escritor, nosso confrade, J.Q. Guillet, em uma de suas obras – “L’Amour et le marriage selon le Spiritisme”, referindo-se ao livro de Roustaing, emite os seguintes conceitos:

            “ No Espiritismo, temos como garantia da palavra do Cristo os Quatro Evangelhos de J. B. Roustaing, o mais belo, mais completo, e irrefutável comentário revelado que existe.
            Constitui, por si só, uma enciclopédia espírita essa obra incomparável.
            Manifestaram algumas pessoas certa estranheza por ter sido a redação dos ‘Quatro Evangelhos’ confiada a Roustaing e não a Allan Kardec.
            Encontramos a resposta nas palavras de João (III, 8) - O espírito sopra onde quer.  Não tenhamos a pretensão de pedir contas à Providência dos meios de que se serve para dirigir o Espiritismo. S. Pedro era apóstolo e estava investido de plena autoridade mas, depois da morte de Jesus, surgiu S. Paulo de modo inesperado e verdadeiramente extraordinário, parecendo não lhe competir a missão, que lhe foi confiada.”


Ressurreição



Ressurreição

28,01 Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo, 
28,02  E eis que houve um violento tremor de terra: Um anjo do Senhor, descendo céu, rolou a pedra e sentou-se sobre ela. 
28,03  Resplandecia como relâmpago e suas  vestes   eram  brancas   como   a   neve.
28.04 Vendo isso, os guardas pensaram que morreriam de pavor. 
28,05  Mas, o anjo disse às mulheres: -Não temais! Sei que procurais a Jesus que foi crucificado. 
28,06 Não está aqui. Ressuscitou, como disse. Vinde e vede o lugar em que Ele repousou. 
28,07 Ide depressa e dizei aos discípulos que Ele ressuscitou dos mortos. Ele vos precede na Galiléia. Lá O haveis de rever, eu vo-lo disse. 
28,08 Elas se afastaram prontamente do túmulo, com certo receio, mas, ao mesmo tempo, com alegria. E correram a dar a Boa Nova aos discípulos.       

             Para Mt (28,1-8) -Ressureição / Desaparecimento do Corpo de Jesus - leiamos a Antônio Luiz Sayão em “Elucidações Evangélicas”: 

            “As narrativas de Mateus, Marcos e Lucas, confrontadas com a de João (20,1-18), da qual não devem ser separadas, reciprocamente se completam, pois que a cada Evangelista coube, segundo as vistas do Alto, uma parte especial da narração completa, que todos fizeram. Daí resulta que, coordenando-se as quatro narrativas, os fatos vêm a ficar estabelecidos de modo integral, assim no conjunto, como nos detalhes.

            Ao que todos então acreditavam, como cumpria acontecesse, pelos motivos já expendidos, Jesus se achava revestido de um invólucro material humano, tal qual os nossos, de sorte que, também na opinião de todos, sofrera morte real, como a sofremos.

            A presença das mulheres no sepulcro era esperada e o embalsamento do corpo, sobre o qual iam derramar perfumes, tinha que se efetuar, logo que despontasse o Sol no primeiro dia da semana por vir. (Marcos 16,1; Lucas 23,55-56).

            Passando o dia de sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de Salomé, Joana  e as outras que a eles andavam juntas partiram alta madrugada e chegaram ao sepulcro ao nascer do sol, levando os aromas que haviam comprado e preparado para o embalsamento do corpo de Jesus (Mateus 28,1; Marcos 16,1-2; Lucas 23,55-56 e 24,1)

            Diziam entre si: “Quem nos tirará a pedra da entrada do sepulcro?” (Mc 16,3)

            De repente, um grande terremoto se fez sentir e no mesmo instante a pedra que fechava a entrada do sepulcro foi atirada para o lado, enchendo-se os guardas de tal pavor, que ficaram como mortos. Então as mulheres viram (elas e não os guardas, pois só elas eram médiuns videntes e, além disso, audientes) um anjo do Senhor (um espírito superior), cujo semblante resplandecia qual relâmpago e cujas vestes eram alvas como a neve, que, tendo descido do céu, se assentara sobre a pedra por ele removida do lugar. (Mateus 28,2-4)

            É o que as narrações de Marcos, Lucas e João, incompletas pela omissão dos pormenores, referem dizendo: “que Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de Salomé, olhando, deram com a pedra, que era muito grande, já removida.” (Mc 16,4); “que as mulheres encontraram removida a pedra que fora colocada à entrada do sepulcro” (Lucas 24,2); - “que Maria Madalena viu que a pedra fora tirada do sepulcro”. (João 20,1)

            O anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: Vós outras nada temais, porquanto sei que procurais a Jesus, que foi crucificado. Ele aqui não está, pois que ressuscitou como o dissera. Vinde e vede o lugar onde o lugar onde o Senhor fora colocado. Dai-vos pressa de ir dizer a seus discípulos que o Mestre ressuscitou. Ele vos precederá na Galileia; lá o vereis, eu vô-lo predigo. (Mateus 28,5-7)

            Entrando no sepulcro (com o anjo que lhes acabava de falar), viram elas um outro anjo (um Espírito), que tomaram por um mancebo, sentado do lado direito do sepulcro, envolto em alvo manto, e ficaram muito espantadas. (Marcos 16,5)

            Foram esses dois anjos ou Espíritos que, perturbadas, elas tomaram por dois homens. (Lucas 24,3-4)

            Tendo penetrado no sepulcro, não acharam lá o corpo do Senhor Jesus, o que lhes causou grande consternação. E como, por efeito do medo que de todas se apoderou, ficaram imóveis a olhar para o chão, os dois anjos (ou Espíritos) lhes disseram: “Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui; ressuscitou. Lembrai-vos do que vos declarou quando ainda se achava na Galiléia, dizendo: Cumpre que o filho seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia .”

             Elas então se lembraram das palavras de Jesus (Lucas 24,3-8).  O anjo que estava sentado à direita do sepulcro lhes disse:

“ -Não vos assusteis. Buscais a Jesus de Nazaré, que foi crucificado; Ele ressuscitou; não está aqui; vede o lugar onde o puseram. Mas, ide dizer a seus discípulos e a Pedro que Ele vos precederá na Galiléia. Lá o vereis, conforme Ele disse (Marcos 16,6-7)

            Elas saíram imediatamente do sepulcro, amedrontadas, mas, ao mesmo tempo, cheias de contentamento, e fugiram. Nada a ninguém disseram, tal o pavor de que se achavam possuídas. Correram a noticiar, a contar tudo aquilo aos discípulos, aos onze apóstolos e a todas as demais pessoas.  (Mateus 28,8; Marcos 16,8; Lucas 24,6).”  

           

domingo, 6 de setembro de 2020

As comunicações com os espíritos



As comunicações com os Espíritos
por Angel Aquarod
Reformador (FEB) 16 Setembro 1916

            Realmente de grande utilidade, para os espíritos encarnados ou desencanados, as comunicações que entre uns e outros podem estabelecer-se.

            Boa, consoladora, é a doutrina espírita; mas sem comunicação não passaria de uma filosofia a mais, altamente racional e de consequências excelentes, na qual seríamos levados a crer.

            Com a comunicação, a convicção é mais firme, porque se apoia na certeza e já a crença não é necessária para o seu fundamento, sobre o que nenhuma dúvida pode haver; esta fica reservada, em todo caso, para plano secundário, que pouco influi nas decisões dos indivíduos.  

            Há grande diferença entre crer e saber. Quando se crê, a vontade para obrar conforme a crença é menos enérgica do que sabe quando se as. Por isso, eu, regra geral, os que possuem a certeza das comunicações com os Espíritos estão sempre mais aptos a coordenar as suas ideias do que os que só possuem a crença.

            Sabemos que pela intuição e inspiração os Espíritos podem comunicar-se conosco; que também o fazem pela palavra, pela escrita, pela vidência, e pela audição além de outros vários meios que podem empregar para dar testemunho de sua presença e exprimir sua vitória.

            Todos esses múltiplos recursos de que se utilizam os invisíveis para comunicar-se conosco, fazem com que não haja pessoa alguma que não receba sua influência e que os que estão convencidos dela se sintam sempre animados e fortes para proceder conforme a lei de Deus, por saberem que a sua boa vontade e esforço dos seus amigos do espaço, que aproveitam estas boas disposições, para eles, praticarem igualmente o bem, dando prova de amor a seus protegidos.

            Mas, realmente, o ser humano sente os benefícios das comunicações com intensidade extraordinária, quando, amargurada a sua existência com a perda de um ser amado, obtém deste comunicados autênticos, nos quais se renovam as manifestações amorosas, se pronunciam juramentos de mútua conexão e se contraem pactos, para sucessivamente seguirem ambos, sem desvios, o caminho do bem, único meio de adquirirem a certeza de se encontrarem um dia no espaço e de conseguirem a realização dos dourados sonhos que hão de uni-los eternamente num laço indissolúvel.

E se o ser encarnado alcança da comunicação benefícios tão grandes, não menos devem alcança-los o Espírito desencarnado. Este, que deixou suas afeições na Terra,para seu consolo, necessita também entrar em comunicação com os seres que amou e ama; necessita igualmente advertir ao que anda por ao que anda por extraviados caminhos e que uns e outros se convençam de que um ser de ultra terra lhes fala, lhes aconselha e lhes envia os eflúvios de seu amor.

            O bem é sempre o bem, e o Espírito desencarnado pode fazê-lo aos encarnados sem que eles se apercebam. Mas, como sempre devemos buscar o bem maior, quando os espíritos podem dar fé de vida ficam mais satisfeitos, porque dar fé de vida ficam mais satisfeitos, porque os resultados que obtém de sua ação são de maior importância.

            Por isso ficam contentíssimos de possuírem o telégrafo e o fonógrafo da comunicação, que a ambas as coisas se assemelha, e os utiliza sempre que se lhes apresenta ocasião propícia.

            Esta consideração faz com que não cheguem a convencer-me que limitam extraordinariamente os casos de comunicação dos Espíritos, que, pela facilidade que tem de influir entre os homens e a necessidade que disso devem sentir, forçosamente há de determinar uma comunicação entre encarnados e desencarnados mais frequente do que opinam os partidários da limitação.

            Muito boa é a comunicação ultraterrena, mas é preciso fazer dela um bom uso. Abusa-se frequentemente, e então, em vez de benefícios, se obtém prejuízos. Resultados de abuso são a degeneração física e moral de muitos médiuns, as obsessões e subjugações, os fanatismos e superstições de grande número de crentes, os erros sustentados por alguns como verdades e o ridículo em que amiúde se coloca o Espiritismo por esta classe de adeptos.

            À comunicação com os espíritos devemos ir sempre sem venda nos olhos, dispostos a analisar quanto nos digam as entidades invisíveis, quanto os médiuns nos transmitam; jamais a curiosidade e o interesse material devem ser nossa determinante, mas sim o estudo, o bem, a satisfação de nosso espírito, gozando com o descobrimento e confirmação da verdade, com a qual podemos ser úteis ao progresso próprio e alheio.

            Bendita seja a comunicação do além túmulo quando nos ilustra quando nos ilustra, nos consola e nos fortalece na fé! Mas tememo-la quando não acudirmos a ela de coração puro, porque neste caso não nos faltará transtornos.

            Temamos a comunicação se abusam dela e queremos que nos supra o estudo e o trabalho de pensar. Assim não nos faltarão espíritos que, reconhecendo o nosso gosto, nos conduzirão a um abismo do qual nos custará sair.

            Recebamos as comunicações, pelo contrário, com seriedade e recolhimento, em nossos Centros, a alma pura e a intensão sã; busquemo-la quando uma pena nos aflige e quando necessitamos a luz do alto que nos ilumina para levar ao cabo, com maior lucidez e acerto, nossas boas obras, e os Espíritos superiores virão pressurosos ajudar-nos. Não importa que não tenhamos um médium à nossa disposição.    

            Faltando-nos ele não nos há de nos faltar por isso o auxílio espiritual, porque, como todos somos médiuns, receberemos, então, a comunicação direta.

            Atendamos, pois, amiúdo, a esta comunicação direta, elevando-nos a planos superiores, para recebe-la a mais pura, e não nos arrependeremos.


sábado, 5 de setembro de 2020

Materialismo sacerdotal e religioso


Materialismo Sacerdotal

A Redação
Reformador (FEB) 1º Setembro 1917

            Ao iniciar este artigo, lembramos um fato ocorrido durante a era dos mártires,  relatado por Lactâncio, antigo sacerdote de Júpiter convertido ao cristianismo e seu eloquente apologista.

            Quando o prefeito do pretório em cumprimento de ordem do imperador Diocleciano. foi demolir o principal templo cristão da Nicomedia, na Bitinia não encontrou, porque não havia, nem podia haver, objeto algum material destinado ao culto, a exceção da escritura sagrada.

            A simplicidade do culto cristão, consoante as lições de Jesus e como fora praticado na era apostólica, fazia violento contraste com as magnificências, os esplendores, as pompas, os ritos e as cerimônias do culto pagão.

            Não permitiram os homens a conservação do puro manancial primitivo. Turvou-se a límpida corrente. Se o tempo é edaz, mais destruidor ainda é o homem – tempus edax, homo edacior. (‘O tempo é cego, o homem é estúpido‘ frase de Victor Hugo)

            Em fins do terceiro século começaram os cristãos a usar; timidamente, de emblemas religiosos, que de suas casas passaram para as igrejas.

            Seriam inocentes figuras alegóricas para representar sentimentos religiosos? Não seriam antes ensaios de idolatria?

            Toda gente sabe o que houve depois. Já dissemos algo a respeito em artigos anteriores. A nova religião, convertida em sacerdotal, absorveu o paganismo com os seus vícios, erros e superstições. Os seus dirigentes hierarquizados e constituídos em castas não se limitaram a adotar fórmulas, símbolos e emblemas para atrair e agradar as multidões amantes de espetáculos teatrais. Foram além.

            Coisas materiais, como a água, o óleo, o vinho, o pão, foram, mediante palavras sacramentais, aplicados aqueles e ingeridos como coisas essenciais, sob a sanção de penas eternas, para a adoração de Deus, que, sendo Espírito, em espírito e verdade, deve ser adorado.
             
            Afastando-se, a olhos vistos, das normas evangélicas, a igreja foi aumentando o arsenal devocionário, que constituiu uma vasta exploração mercantil. Não precisamos mencionar as indulgencias, os escapulários ou bentinhos, os rosários, as palmas, os cordões, as fitas, as velas, os círios, as medalhas, etc.

            Supomos que alguns confrades não conhecem o fetiche papal denominado agnus dei.

            No primeiro ano do pontificado, sábado in albis, o papal procede a benzedura, com grande solenidade, de uma figurinha de cera que é distribuída entre os fiéis, como objeto de máxima devoção.

            De sete em sete anos o mesmo papa reproduz o ato. Os monges da ordem de Citeaux gozam do excelso privilégio da fabricação do fetiche papalino. Se as feiticeiras da idade média fabricavam figurinhas de cera para crivando-as de agulhas, perseguir os desafetos - e por essa operação muitas foram queimadas - está claro que as figurinhas do papa só podem produzir verdadeiros milagres, que já foram cantados nos versos de Andrea Pari, enviados, com exemplares de agnus dei, ao imperador João Paleólogo pelo papa Urbano V. (1)
           
            No Evangelho de S. João não há esta palavra de N. S. Jesus Cristo:

            O espírito é que vivifica: a carne para nada aproveita - Spiritus est qui vivificat; caro non prodest quid-quan” (VI, 64).

            (1) Abbé André – Cours alphabétique et méthodique de droit canon, vº Agnus dei.

            Os teólogos e liturgistas ensinam, ao contrário, que sendo o homem composto, substancialmente, de corpo e espirito, o corpo destinado a ressurgir no juízo final, deve adorar a Deus, como o espírito.  

            “Eis aí porque”, dizíamos em outro artigo: “as religiões sacerdotais, que acolhem e ensinam essas monstruosidades, exigidas em dogmas, desprezaram e sepultaram os Evangelhos, afastaram-se da espiritualidade, gravitam para a matéria, para a lama e tornaram-se fatores positivos e decisivos, grandes fatores da incredulidade moderna, da irreligião contemporânea.” 

           Voltemos ao Evangelho.

  Materialismo Religioso
A Redação
Reformador (FEB) 16 Setembro 1917

            Adotando uma cautelosa medida de prudência, nos moldes da política eclesiástica, o concilio de Trento recomendou aos pregadores, encarregados de doutrinar os fiéis, que evitassem dissertações sobre os dogmas. Os que se aventurassem em explicações a respeito entrariam em terreno escabroso onde Satã poderia armar ocultas ciladas.

            Para que despertar a atenção dos crentes e aguçar lhes o desejo de pesquisa? O raciocínio é inimigo perigoso e pernicioso.

            Instituindo a missa para que a velha concepção do sacrifício vinda do judaísmo e do paganismo, ficasse perpetuada e o sacerdócio mantivesse o privilégio excelso de oferece-lo à Divindade, envolvendo-a em complicado e misterioso ritualismo que pudesse impressionar os fiéis, prescreveu a igreja que ela fosse celebrada em latim para que eles a não entendessem.
           
            Bastar-lhes-iam as cerimônias, as pompas, as solenidades externas.

            Como é sabido, a igreja proibiu a leitura da Bíblia, que ficou neste particular equiparada aos livros heréticos, postos no Índex, e que os crentes não podem ler, sob pena de excomunhão.

            São expedientes da perspicaz política sacerdotal, que se afirma sob diversos modos e sabe estender os tentáculos apreensores em várias direções.

            Os nossos confrades estudiosos podem ler com proveito, obras teológicas, apologéticas e litúrgicas para por em confronto as antigas concepções eclesiásticas, consideradas religiosas (?) ora em declínio, com a nossa doutrina. 

            Só temos a lucrar com esse confronto, mormente quando há leva de broqueis entre os adversários.

            Daremos, hoje, um exemplo.

            Mais de uma vez nos temos referido, em artigos desta seção, ao materialismo religioso predominante nas igrejas, radicalmente oposto ao ensino evangélico, ao ensino espírita.

            Consideramos o corpo físico um instrumento de que se serve a alma durante a encarnação.

            Novos corpos materiais adquire o espírito em vidas sucessivas, necessárias ao seu adiantamento, impostas pela lei do progresso.
  
            As igrejas tem uma grande preocupação pelo destino do corpo humano putrescível – caro data verminibus. (carne dada aos vermes (?))

            Aceitam e proclamam o dogma da ressurreição da carne. Admitem dois julgamentos, após a morte.

            O primeiro é particular e vai sendo pronunciado a proporção que as almas vão deixando os seus amados corpos.

            O segundo é universal. Será proferido no dia, dies irae, (palavras iniciais da evocação do dia do Juízo Final no famoso hino atribuído ao monge Tomás Celano (meados do sXIII)), em que acabar o mundo. (1) Então todos os corpos humanos destruídos, desde o começo do mundo, durante o decurso dos séculos e dos milênios, ressurgirão.

                (1) Como curiosidade: O reverendo abbé De La Tour de Noé, comentando a profecia sobre os papas, de S. Malaquias, sustenta que o fim do mundo terá Iugar ao terminar o pontificado de Petrus Romanus, último da série.
                Calculando a vida média dos papas, o autor fixa para o fim do mundo o ano de 1933. (‘La fin du monde’, 21ª ed. Paris – H. Daragon 1904.)

            Cada alma tomará ou receberá o seu antigo companheiro de carne e ossos, com os seus órgãos e aparelho, e, formando com ele um só todo indivisível seguirá para o céu ou para o inferno.

            O padre Goud (2) procura sustentar (?) o dogma com largas transcrições de Tertuliano c fazendo a apologia da carne.

            (2) Anthelmo Gould – ‘A eternidade ou destinos futuros do homem, do mundo e da humanidade’. Ed. de 1879.

            Inserimos alguns trechos, que dispensam comentários:

            “A carne do homem está cheia de dignidade e de nobreza na sua origem, na sua união com a alma, na sua santificação e nas suas imolações: logo, não pode ser presa eterna do túmulo...

            “A sua (do corpo) dignidade exige que Deus lhe restitua um dia a vida, uma vida gloriosa e imortal. E não se diga que a sua carne, infecionada pelo pecado, merece ser para sempre sepultada nas profundezas da terra ou do nada, porquanto ela foi purificada, enobrecida, e, em certo modo, divinizada pelo sangue de Jesus Cristo."

            Admira-se o leitor? O principal argumento (?) com pretensões a filosófico, é o seguinte: Depois de nos informar que homem é composto, essencialmente, de alma inteligente e de corpo carnal, diz o padre:

            É tão contrário à natureza o homem o ter uma alma sem corpo, como um corpo sem alma; e como nada daquilo que é violento e oposto à essência das coisas pode ser perpétuo, é mister concluir pela ressurreição futura dos corpos, a não ser que se admita (o que não pode ser e é mesmo blasfematório) que Deus arranca cruelmente à alma humana a sua tendência natural para unir-se ao corpo de que ela é a forma necessária: forma corporis: que faça decair da sua condição própria; que ai condene a permanecer eternamente em um estado contrário a natureza; que se esqueça no tumulo o seu indispensável companheiro, e que consinta em ver eternamente quebrado sob os seus olhos o homem, obra prima do seu poder.”

            Não precisamos prosseguir.

            Eis aí porque as religiões sacerdotais, que acolhem e ensinam essas monstruosidades, erigidas em dogmas, desprezaram e sepultaram os Evangelhos, afastaram-se da espiritualidade, gravitam para a matéria, para a lama, e tornaram-se fatores positivos decisivos, grandes fatores da incredulidade moderna da irreligião contemporânea.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Orígenes





Coletânia
por Joseph Fabre
Reformador (FEB) Setembro 1917

Orígenes

            Discípulo e sucessor de S. Clemente, Orígenes foi espírito erudito, gênio brilhante, alma austera e entusiasta.

            Havia estudado todos os sistemas de filosofia, especialmente as doutrinas de Pitágoras e de Platão, que o inspiraram.

            A exemplo de S. Clemente, tendo porém, mais profundeza e ousadia, procurava firmar o dogma cristão em princípios racionais.

            Entendendo que não deve ater-se às noções vulgares quem pode elevar-se ao conhecimento das causas, Orígenes, como os Cabalistas, como Fílon, sustentava que uma interpretação inteligente devia ser dada à primitiva narração das Escrituras e a seus preceitos, Dizia ele:

            Se fosse obrigado a cingir-me a letra da lei, entendendo-a, como as palavras soam, teria vergonha de proclama-la como obra divina, achando que maiores e mais racionais foram as leis humanas, como as de Atenas, da Lacedemonia e de Roma. Sendo assim, onde encontrar um espírito medíocre e grosseiro para nos dizer que Deus se entregava a exercícios agrícolas, plantando árvores no Jardim do Éden? que uma delas era a árvore da vida e uma outra podia produzir a ciência do bem e do mal?
            Ninguém pode ver aí, cuido eu, senão figuras que ocultam mistérios.

            Liberto da letra da lei, Orígenes nos falava em Deus como um Ser supremo, cuja existência podemos afirmar, sem saber quem seja Ele, visto como a sua natureza está acima de a natureza de todas as categorias do pensamento humano, Pretendia explicar a formação do universo, não como criação absoluta, mas por ato inefável da Divindade, da qual tudo procede. Deus revela-se pelo Verbo.

            Segundo Orígenes, éramos perfeitos e felizes, mas decaímos desse estado, porque abusamos da liberdade, indóceis aos ditames da razão. Professava a doutrina da preexistência e transmigração das almas, que, conforme as suas culpas, ocupariam corpos mais ou menos grosseiros. A situação atual das almas encarnadas só poderia ser explicada e justificada pelos atos praticados durante as vidas anteriores.

            Depois das provações múltiplas e expiações, de acordo com as exigências da justiça, Deus, em sua bondade, acolherá todas as almas, ainda as que mais se degradaram. Quando soar a hora da redenção final, ficarão aniquilados os corpos, que são a negação do ser, sinais da nossa inferioridade e causa ocasional das faltas.
  
            Acreditava que desapareceria então o próprio princípio do mal e Satã estaria regenerado pela influência vitoriosa do Verbo. Seria o triunfo completo do espírito sobre a matéria, havendo comunhão eterna do amor entre todos os seres reunidos no seio de Deus.

            A elevada filosofia de Orígenes apaixonou o Oriente e assombrou o mundo. A igreja excomunhou o homem e condenou-lhe a doutrina. Foi anatematizado, principalmente, porque desprezava o corpo e pugnava pela reabilitação universal das almas.

            A sua última tendência foi a fusão do Cristianismo com o helenismo, a conciliação entre a fé e a razão. Os criadores do dogmatismo católico repudiaram, como era de prever o ousado comentador da Escritura. Doutos teólogos, porém, em várias épocas, o admiravam.  

            Quando faleceu, fizeram-lhe o elogio S. Panfilo e Eusébio de Cesaréia, o pai da histeria eclesiástica.

            Abelardo, no século XI, repetia de continuo que Orígenes foi o primeiro entre todos os filósofos cristãos.

            Extraído de “La pensèe chretienne”.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Sobre as injúrias



Sobre as injúrias

“Vai injuriar uma pedra. 
Que lucrarás com isso? 
Ela não te ouvirá.
  Imita a pedra, 
e não ouças as injurias que te disserem.”  
Epiteto  

Reformador (FEB) Setembro 1917

Na intimidade doméstica


Na intimidade doméstica

Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Julho 1964

            A história do bom samaritano, repetidamente estudada, oferece conclusões sempre novas.
            O viajante compassivo encontra o ferido anônimo na estrada.
            Não hesita em auxilia-lo.
            Estende-lhe aa mãos.
            Pensa-lhe as feridas.
            Recolhe-o nos braços sem qualquer ideia de preconceito.
            Condu-lo ao albergue mais próximo.
            Garante-lhe a pousada.
            Olvida conveniências e permanece junto dele, enquanto necessário.
            Abstém-se de indagações.
            Parte ao encontro do dever, assegurando-lhe a assistência com os recursos da própria bolsa, sem prescrever lhe obrigações.

*

            Jesus transmitiu-nos a parábola, ensinando-nos o exercício da caridade real, mas, até agora, transcorridos quase dois milênios, aplicamo-la, via de regra, às pessoas que não nos comungam o quadro particular.
            Quase sempre, todavia, temos os caídos do reduto doméstico.
            Não descem de Jerusalém para Jericó, mas tombam da fé para a desilusão e da alegria para a dor, espoliados nas melhores esperanças, em rudes experiências.
            Quantas vezes surpreendemos as vítimas da obsessão e do erro, da tristeza e da provação, dentro de casa!
            Julgamos, assim, que a parábola do bom samaritano produzirá também efeitos os admiráveis, toda vez que nos decidimos a usá-la, na vida íntima, compreendendo e auxiliando os vizinhos e companheiros, parentes e amigos, sem nada exigir e sem nada perguntar.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

A quem se aproxima



A quem se aproxima

Kelvin Van Dyne
por W. Vieira
Reformador (FEB) Julho 1964

            Muitos, em se aproximando das revelações espirituais, julgam que, imprimindo seriedade à vida, matam a alegria de viver. Sem dúvida, os dias humanos são desfrutáveis, em júbilo sadio. Mas aparecem excessos e distorções.
            Há quem viva na festança irresponsável, no abuso sistemático ou na excitação absorvente; em certo instante surge o desastre, a crise e a alteração perigosa, por desafios do destino convidando ao balanço moral. E o espírito mergulha em reflexões e confissões inaudíveis para os outros. E sofre. Para que sofrer sem necessidade?
            A alegria real, que nunca foi simplesmente agitação de músculos faciais, há de partir da aceitação da vida continuada, à luz da consciência em paz. Regozijos de convenção quase sempre não passam de exibições fantasistas, fugazes, falsas. E, por trás deles, insatisfações inarredáveis perduram.
            A intuição vulgar determina sejamos capazes de servir ao bem numa parada de máscaras. Já embriagar-se de ilusões dentro dela será mistificar a nós próprios, adiar o Inadiável. Ninguém condena o conforto: ideal de todos para todas. Apenas carecemos de orientação para evitar futuros infortúnios.
            Esposar as realidades do espírito não implica refugiar-se a criatura em padrão claustral de solidão e tristeza. Vivamos como os demais renovando o que exige renovação. Em qualquer parte, a ausência do bem é maior e tão grave quanto a presença do mal.
            Não se descure da conta corrente da sua encarnação. Ninguém encontra a tarefa pronta. Felicidade não mora na estação do menor esforço, à nossa espera. Os urubus acham prato feito, mas nós, consciências responsáveis, jamais somos chamados a banquetear-nos com vitórias fáceis e sim conclamados a bater-nos pelo triunfo legítimo de nossas aspirações com o risco onipresente de fracasso.
            Se se ordena tudo que o homem faz porque deixar ao sabor das circunstâncias a execução do melhor? Porque somente ajudar aos outros nos instantes trágicos, nos repentes da emoção? Necessário escolher entre as duas veredas: viver em si ou fora de si, para si só ou para os outros também.
            Compense o máximo de palavras batidas com um mínimo de ações novas, pelo menos. Que pessoas você fez mais felizes, na semana? Que exemplos de maturidade espalhou? Que atitudes assumiu para educar-se e beneficiar os que lhe partilham a convivência? A vida é jornada no Sempre. Todo ato faz-se companheiro invisível. Vejamos os companheiros que elegemos hoje para a viagem.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Inquietações



Inquietações

Martins Peralva
Reformador (FEB) Julho 1964

            O homem moderno vive dominado pela inquietação.

            Ansiando por multiplicar, exagerada e, muita vez, desnecessariamente, seus recursos materiais, o homem contemporâneo luta e desgasta-se, exaustivamente, transformando a existência, aqui no plano físico, em permanente razão de intranquilidade.

            O ângulo de visão do homem-espírita, contudo, é algo diferente, pois sabe ele que o Espiritismo, embora não preconizando a inércia, nem desestimulando as iniciativas atinentes ao progresso material, considera o trabalho por elemento de equilíbrio e aperfeiçoamento.

            A Doutrina Espírita, como autêntica sentinela da paz e eficiente construtora da felicidade na Terra está sempre a lembrar-nos que o trabalho foi criado, dentro da vida, para que o homem o converta em oportunidade de redenção e de aperfeiçoamento da inteligência e do sentimento.

            Quem lê, estuda e medita acerca dos postulados doutrinário-evangélicos, compreende, naturalmente, que o homem deve dar ao mundo contribuição normal no sentido de que se efetivem as aspirações de ordem material, as quais, sem dúvida, constituem elemento de estimulo e de progresso.

            As aspirações humanas, portanto, no tocante ao problema do trabalho, devem orientar-se em função do que ensina e esclarece o Espiritismo - doutrina admirável que se desenvolve, no coração e na consciência, sob os auspícios do Evangelho do Cristo.  

            A palavra do Mestre reveste-se, neste particular, de profunda significação, quando nos adverte: “Não andeis, pois, a indagar o que haveis de beber ou comer, e não vos entregueis a inquietações.”

            Emmanuel, o admirável orientador, repete em nossos dias, embora noutro acondicionamento verbal, o conselho de Jesus: "Não te preocupes, assim, com o problema da fartura ou da carência de utilidade materiais, porque riqueza e pobreza à frente da Lei Divina, muitas vezes apenas significam infortúnio e felicidade, cativeiro e libertação, respectivamente considerados.”

            Se crêssemos em Deus e em Sua Justiça que não falha, seríamos mais tranquilos, mais serenos, mais comedidos no trato com os problemas mundanos.

            Se crêssemos, firmemente, na Divina Proteção, limitar-nos-íamos a trabalhar, adequadamente, com o objetivo de assegurar o progresso, e prover, em termos de normalidade, as necessidades da família que o Senhor nos concede, e de atender, em nome do Bem Infinito, aos que estagiam em provações dolorosas, na carência, na pobreza.

            Revela ausência de confiança, nos ilimitados recursos de amparo do Supremo Doador, o afã de reter, a preocupação de acumular sem proveito coletivo, a obsessão de guardar.

            Nossas inquietações indicam, no fundo, que ainda não entendemos Aquele que sabe vestir lindamente os lírios do campo dando-lhes perfume e graça, beleza e magnitude que nem o próprio Salomão, “em toda a sua glória”, conseguiu imitá-los, consoante alegoriza o Evangelho.

            O homem previdente tem o seu trabalho substancialmente abençoado.

            O homem que se equilibra, ou procura equilibrar-se no esforço de obtenção dos indispensáveis recursos à subsistência, demonstra crença em Deus e conhecimento da indefectível lei: “faze, que o céu te ajudará.”

            O homem exageradamente preocupado na multiplicação, indiscriminada e a qualquer título e propósito, dos patrimônios materiais, é um fabricante de inquietações.

            Vã é a luta e estéril o esforço, obsessivo, perturbador e alucinante, tendo em vista a acumulação, improdutiva, de tesouros que a traça consome, a ferrugem destrói e o ladrão rouba, segundo a figura eternamente admirável e sublime do Mestre.

            A criatura que se inquieta por tais problemas furta à vida o seu lado mais belo, o seu aspecto mais encantador.

            Nega à própria existência a sua característica mais harmoniosa, qual seja a de poder desfrutar, com tranquilidade de espírito, os bens que procedem da Augusta Misericórdia - cujos celeiros são, inegavelmente, imensos, grandiosos, inexauríveis.

            O Mestre, observando a. ansiosa solicitude pela vida que assinalava o comportamento dos homens do seu tempo, advertira, frequentes vezes: “Não andeis ansiosos pela vossa vida.”

            Em termos de interpretação espírita, poderíamos traduzir a palavra do Senhor da seguinte maneira: “Trabalhai, calmamente, buscando o Reino de Deus e Sua Justiça, porquanto o mais vos será dado por acréscimo de misericórdia.”

            Todavia, apesar do celestial conselho, prosseguimos inquietos, afadigados, suarentos, sem atentar para a superabundância das provisões do Nosso Pai e Criador o que indica a dificuldade com que vimos lutando para a superação dos milenários grilhões da materialidade e do imediatismo.

            O nosso esforço, a nossa perseverança, contudo, nos labores e meditações diuturnos, ajudar-nos-ão, sem dúvida, no trajeto espiritual libertador.

            Até lá, permaneçamos atentos e operosos, prudentes e vigilantes, a fim de que não desfaleçam os impulsos que já impedem a nossa permanência à margem dos caminhos, pelos quais transitam os homens de boa vontade.