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terça-feira, 14 de abril de 2020

Lásaro e o rico






Lázaro e o rico
Vinícius (Pedro de Camargo)
Reformador (FEB) Dezembro 1929

            Consoante se infere do assunto a que se acha subordinada a parábola evangélica cujo título nos serve de epígrafe, parece que melhor lhe assentaria a denominação seguinte:

            O Pobre e o Rico.

            Porque teria Jesus dado um nome ao pobre deixando-o de o fazer ao rico? Qual será a razão desta razão?

            Segundo supomos, o caso passou-se assim. O Mestre achou de bom alvitre formular uma parábola sobre as duas categorias de provações... a riqueza e a pobreza. Voltou, então seus olhos para a sociedade dos pobres, e encontrou ali um homem paciente e resignado, humilde e cheio de fé que suportava galhardamente a dura prova que lhe fora destinada. Esse homem chamava-se Lazaro.

            - Disse, pois, o Senhor: Eis aqui uma das personagens para a parábola. Perscrutando, em seguida, o arraial dos ricos verificou que eram todos ou quase todos, igualmente egoístas e duros de coração. Diante disso concluiu o Mestre:

            Denominarei esta outra figura de apólogo que vou urdir com o nome genérico - o rico - visto como é tão difícil se encontrarem exceções nesta classe como é difícil passar o camelo pelo fundo da agulha.       

            Ficou, por esse motivo, assim denominada a parábola: Lázaro e o rico.  

            O rico vestia-se de púrpura e linho finíssimo. Vivia banqueteando-se esplendidamente. Lázaro, enfermo e paupérrimo, mendigava o pão de cada dia. Recostado aos portais do rico esperava, em vão, que se lembrassem de lhe mitigar a fome. O rico na embriaguez dos prazeres, não o via. Tinha a mente enevoada pelos vapores das libações alcoólicas; e o coração impassível, mergulhado no paul (lamaçal) do sensualismo. Tão mesquinho era o seu estado de alma, que os mesmos irracionais levavam lhe a palma em matéria de sentimentos. É assim que os cães, condoídos de Lázaro, vinham acaricia-lo lambendo lhe as feridas.

            Eis que um certo dia a morte bate às portas de ambos: morre Lázaro e morre também o rico. A morte, rigorosamente imparcial como é, não distingue os ricos dos pobres, nem tão pouco aqueles que gozam daqueles que sofrem. 

            No entanto, a morte nada destrói, transforma apenas. Lázaro e o rico passaram para o plano espiritual. Ali, Lázaro é feliz, fruindo, no seio de Abraão, a doce paz de uma consciência tranquila e a alegria de um combatente que venceu a campanha e entra na posse dos louros da vitória.

            E o rico, tendo falido na prova por que viera de passar, sente-se confuso e humilhado com a derrota. Ralado de remorsos lembra-se do seu passado pecaminoso; e Lázaro - aquele que virtualmente fora sua vítima - aparece-lhe sereno e venturoso. Cena curiosa, então, se desenrola: não é mais Lazaro que mendiga do rico; é o rico que mendiga de Lázaro, dizendo: Pai Abraão, manda Lázaro aplacar as minhas aflições: que ele venha suavizar, de algum modo, o fogo deste remorso que me consome. E a voz da Justiça retruca pela boca de Abraão: Meu amigo, as condições de Lázaro e a tua são opostas. Cada um colhe aquilo que semeia. Tu és um vencido, Lázaro é um vencedor. Como pretendes, agora, anular num dado momento, os efeitos de uma causa que está contigo, que foi criada por ti no decorrer de uma existência toda? Entre o estado dos que triunfam e dos que sucumbem medeia um abismo, o qual não pode ser transposto como tu imaginas. A natureza não dá saltos; este axioma é verdadeiro tanto no plano físico como no espiritual. Tens que esgotar o cálice, tens que pagar até o último ceitil. As responsabilidades contraídas na vida terrena acompanham o Espírito onde quer que ele se encontre. Nada pode suspender o curso dessa lei.  

            Oh! pai Abraão, retruca o rico, cujos sentimentos começam a despertar, graças ao aguilhão da dor: Manda alguém avisar meus cinco irmãos acerca destas coisas, a fim de evitar que venham cair nestes tormentos. E a voz da Justiça obtempera pela boca do Patriarca: Teus irmãos estão, como tu estiveste, em provas. Lá mesmo na Terra há quem os advirta sobre isso. Se eles não ouvem a esses, não ouvirão tão pouco a um mensageiro celeste. Quando os homens se entregam à loucura dos prazeres sensuais ficam animalizados e inacessíveis às vibrações que os anjos lhes transmitem. Como, queres, pois, que um Espírito possa despertar teus irmãos, quando não lograram despertar-te? A Justiça se cumprirá com eles como está se cumprindo contigo. A dor os ensinará a compreender a responsabilidade em que todos se acham perante a Soberana e indefectível justiça de Deus. A dor lhes fará saber e sentir que aqueles a quem muito é dado - seja em bens espirituais, seja em bens temporais - muito será exigido; ensinará também que homens são responsáveis, não só pelo mal que praticam, como pelo bem que, podendo, deixam de praticar.

            E o rico conformou-se, compreendendo que – “dura lex, sed lex”.

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Tende fé em Deus



             Por mais áspera a crise, por maior a consternação, não percas o otimismo e trabalha, confiante.  Ouçamos, nós todos, a indicação de Jesus:

                                       - "Tende fé em Deus."

Trechos da mensagem de número 163 do livro “Palavras de Vida eterna”
9ª Edição CEC - 1986

domingo, 12 de abril de 2020

O caminho das urzes


O caminho de urzes
Arnaldo S. Thiago
Reformador (FEB) Julho 1941

            Lágrimas derramo sobre as minhas alegrias terrenas: elas foram sempre envenenadas por alguma falsidade.

            Busco as alegrias do céu, onde reina a pura felicidade.

            Mas, para buscar a felicidade no céu é preciso conhecer a falsidade das coisas terrenas - porque sem a experiência destas coisas, aqueles bens celestiais nunca poderão ser obtidos.

            A viagem é longa. Por vezes a jornada parece transmutar-se: em lugar de ascensão - queda. Tem-se a impressão de haver descido muito, depois de muito haver subido. Isto particularmente sucede quando os amigos nos abandonam, quando os íntimos nos repudiam, quando a censura substitui os louvores com que éramos enaltecidos...

            Esta é a hora mais terrível da experimentação, em que o grande e excelso Mestre procura conhecer o valor da nossa própria consciência. Então, o neófito que aspira desvendar os segredos da vida, se não tem princípios e foi apenas um traficante dos gozos terrenos, soçobra e imerge no desconhecido, no caos imenso das dúvidas terríveis, onde o espírito se sente batido por todas as angústias e por um mortal desassossego...

            .........................................................................................

            Conserva o teu próprio caráter, homem sofredor das retortas terrenas; não te deixes vencer pelos julgamentos alheios, nem fascinar pelos triunfos passageiros da tua sensibilidade. Abre-se diante de ti uma estrada juncada de urzes, por onde não gostam os homens de transitar - os teus pobres companheiros de jornada. Investe resolutamente por esse caminho, fere-te nas urzes: viverás sem muito pão, porque esse caminho é quase deserto e ninguém te ajuda, porque por ele - já t'o disse - pouquíssimos transitam.

            Mas ao fim terás a satisfação de saber que foste um homem e sabermos que temos sido homem nos tormentos da terra é melhor do que reconhecermos que fomos apenas, para sermos ditosos, do número daqueles que Panúrgio (personagem de Rabelais. Durante uma viagem de barco no mar, Panúrgio tem uma discussão com um comerciante de carneiros, que viajava com o rebanho. Como vingança, Panúrgio compra-lhe um carneiro por alto preço e atira-o no mar. O exemplo e os balidos deste, levam os outros carneiros a segui-lo e, até o comerciante agarrado ao último, se afogam) tange com o seu bastão, sem dificuldades nem raciocínios...

            Acorda, homem, do teu sono! Já dormiste demasiado. Já entretiveste a alma com os brincos fúteis da terrena vida. Faze deles agora o motivo superior da tua aprendizagem. Não os desdenhes: examina-os como peças curiosas que serviram à recreação da tua infância espiritual, como os artefatos encontrados nas antigas cavernas, servem ao arqueólogo para conhecer a inteligência embrionária do homem primitivo.

            Não te iludas mais com esses brincos infantis. Dá-lhes o valor que merecem e, empregando-os, porventura, algumas vezes, para atrair ao teu convívio as almas cândidas que foram enganadas pelos sorrisos da alegria terrena, procura encaminhá-las sabiamente pela estrada de urzes que têm de perlustrar, se também aspiram às alegrias do céu. Mas, ao passo que caminhas tu sozinho, acompanha solícito alguma alma que dê entrada resolutamente no atalho de urzes - porque essa, que ouvir e compreender o que lhe digas, será tua eterna companheira.

            Vai de fronte erguida, caminheiro da adversidade terrena. Eu te deixo agora, para esperar-te nos pórticos eternos. Sê prudente, sê forte e bendize da mão que te fez sofrer, apontando-te o caminho de urzes, porque nesse instante foste agraciado pela divina misericórdia.

            Bendize das tuas lágrimas. E segue sempre avante, sem recriminações, com resignação e humildade.

sábado, 11 de abril de 2020

A Fé e a Confiança em Deus



            “A Fé e a Confiança em Deus e não a complacência de um espírito pronto a aceitar tudo, nem essa elasticidade da aptidão para crer, que permite estende-la até ao inverossímil e até ao absurdo.

            Homem de pouca fé é o que desconfia da solidez do Universo e da sua organização.  Medíocre é então a confiança que tem no resultado final. A impressão que recebe do espetáculo universal, como da vida dos homens, é uma impressão de desordem e de incoerência, a que não lhe é dado opor nenhum contrapeso.

 C. Wagner in Reformador (FEB) Maio 1929

Consciência religiosa



Consciência religiosa
A Redação
Reformador (FEB) 16 Outubro 1929 

            Conan Doyle ao prefaciar a obra do Rev. Vale Owen diz, com justeza, que todas as religiões faliram em seus processos e objetivos, diante do conflito mundial (1ª Grande Guerra) que ensanguentou a parte mais civilizada da humanidade.

            Mas essa guerra, aliás prevista e proclamada, como expressão de falência moral, pode considerar-se apenas a explosão de um mal mais grave, mais profundo, que as religiões jamais cuidaram de aniquilar em suas fontes vivas.

            Originadas e organizadas à força e pela força amparadas, sempre, ora em luta franca, ora em acomodações veladas com os poderes temporais emergentes, as igrejas são filhas legitimas das revoluções e tumultos seculares, a caminharem de flanco e distanciadas de toda a evolução racional. Negativas na teoria e anódicas (sem importância) na prática.

            O seu contato, antes político que natural, se faz com os governos e não com os povos. Respeitadas ou temidas pela tradição de poderio e grandeza, em cultos externos aparatosos, elas, as religiões, deixaram de ser compreendidas e amadas em princípio e por princípio, para degenerarem, assim, num automatismo intelectual obrigatório e inconsciente. A obrigação substituiu a devoção, o ritual dispensa a indagação, a vibração, a iluminação.

            Ser crente não é ser consciente, é ser autômato e levado de roldão nas torrentes da vida, obediente e apassivado ao fatalismo do momento.

            Pontificados teóricos e não vividos nem demonstrados, legislações abstratas não podem, efetivamente, atuar no espírito das massas para modificar pendores inatos e melhorar os destinos da humanidade.

            E neste sentido fora talvez lícito modificar o conceito do ilustre pensador inglês, para dizer que as religiões não chegaram a falir, porque nunca, jamais, se provisionaram de recursos capazes de lhes assegurar uma hegemonia real, estável e definida, na pacificação do mundo.

            Nunca, a bem dizer, procuraram espiritualizar a crença, de feição a matar no homem apetites materiais, tal como fizeram os Apóstolos, sem recursos outros que os da própria Fé nas promessas do Messias de Deus.

            Politicantes (politiqueiros) por excelência, no intuito de senhorear as consciências e colaborando em todas e por todas as tiranias, os presumíveis ministros de Deus bem cedo se esqueceram de que só há uma realeza legitima e capaz de avassalar o mundo, que é a do amor.

            E o que aqui se aplica mais taxativamente à influência do pensamento religioso no ocidente, também se pode generalizar ao oriente, com as suas organizações aristocráticas e seccionadas do grande rebanho de fanáticos e supersticiosos, destinados mais a obedecer cega, passivamente, que a raciocinar inteligente e livremente.

            O rigor disciplinar das fórmulas convencionais, a autoridade dos textos escritos criou, dessa arte, um hábito que se transmite de geração a geração, em detrimento daquela autonomia natural que, num imperativo espontâneo e não menos natural da razão humana, constitui o “substractum” de todas as religiões, ou por melhor, dizer da Religião, que é uma e única, em síntese filosófica.  

            Em 1914, vimos a França católica, ao lado da Inglaterra luterana, combater contra a Alemanha luterana, a Áustria católica e a Turquia muçulmana; e todas teístas do mesmo Deus, a invocarem o seu Deus para o “sabá” - da destruição sanguinosa e fratricida!

            Agora, vemos o massacre de Judeus por maometanos, e vemos a Rússia cismática em fase da China búdica, prestes a se chocarem pelas armas! 

            Daí, a conclusão de que o sentimento religioso remanesce divorciado da finalidade religiosa em sua veraz acepção de fraternidade universal.

            Daí, a prova que as Igrejas, sejam quais forem os seus matizes ortodoxos e os seus métodos de ação e catequese, não tem autoridade para reivindicar uma jurisdição universal.

            Essa autoridade tê-la-á o Espiritismo firmado nos Evangelhos, porque oriundo dos Espíritos, que não têm pátria nem interesses mundanos a propugnar e não só falam, mas demonstra a realidade da sobrevivência do ser consciente, apontando-lhe um destino imanente e transcendente a todos os problemas ocasionais e contingentes ao plano físico, que é meio e não fim.

            A essa mesma conclusão chega o emérito pensador inglês, mas, para que ela seja uma realidade apreciável no desdobro das atividades coletivas do planeta, preciso se faz ainda, expurgar a criatura humana desse individualismo que lhe intercepta a visualização do problema universal, indefinido e eterno, e a retém manietada a preconceitos de casta, de raça, de pátria, de sociedade e de família, a confundir o que é de César com o que é de Deus, dando frequentemente a Deus o que é de César e a César o que é de Deus. É preciso, finalmente, se convença o homem que os Espíritos de hoje foram os homens de ontem e que, artífices da Verdade absoluta, por gradações relativas, em lecionarem de planos mais lúcidos, com maior amplitude e segurança, os desígnios da Providência, nem por isso nos isentam de esforço e trabalho próprios para nos libertarmos da ignorância e dos erros que lhe condizem quer moral, quer intelectualmente.

            E assim sendo, generalizado o critério das opiniões singulares, seja de encarnados, seja de desencarnados, à revelia de um padrão de aferências, de uma lei insofismável - neste caso a Lei de Amor qual se impõe nos Evangelhos em espírito e verdade - o Espiritismo acabar percorrendo o ciclo das religiões conhecidas, isto é: dividido e subdividido em escolas e seitas prontas a se digladiarem por amor à Verdade, mas, na verdade, fora e longe da verdade.

            Eis porque, ressalvados os imperativos de uma bem entendida liberdade e iniciativa individual, não prescinde a prática do estudo e meditação, do conhecimento, em suma, das leis que regem o mundo físico e o mundo espiritual.

            Não é, pois, uma doutrina de aplicações e rendimentos empíricos, mas racional e científica no que a razão e a ciência podem suscitar de mais nobre e elevado. Nem de outro modo se poderia conceitua-la, porque da ignorância só pode derivar o fanatismo.

A Prece



A prece
Alex Carrel / Lino Teles (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Julho 1941

            Alex Carrel, o autor de “O homem, esse desconhecido", é um nome planetariamente acatado como cientista e pensador. Neste momento está sendo muito divulgado em todas as Américas um seu esplêndido artigo sobre o poder da prece.

            Declara o grande médico que em sua clínica teve ensejos de verificar o poder supranormal da prece, quando os recursos da terapêutica haviam falhado; no entanto, o maior milagre da prece não é esse de curar corpos enfermos, no conceito de Carrel. Muito mais do que isso faz a prece, porque cura almas doentes, melhora e transforma o
homem, elevando-o para Deus.

            Sob a onda de materialismo que vem escravizando o mundo, a prece ficou esquecida. O homem passou a crer de preferência na força material, mais evidente, do que na Fonte mesma da força, que é o Espirito. Houve uma dessas lamentáveis evidências falsas que tantas vezes nos têm enganado, como quando supúnhamos que o Sol girava em torno da Terra. A ilusão de força material foi tão grande que em certo momento o Chefe da Igreja Católico-Romana aconselhou o emprego da força militar contra o perigo pagão que ameaçava o mundo, isto é, até o Infalível Doutor da Igreja foi colhido pelas malhas da ilusão de que a força material existia como causa e não somente como efeito de ação do Espirito. Nesta situação, o ensinamento de Carrel vê, de grande oportunidade, porque nos lembra que temos arma poderosíssima, invencível, para lutar contra a tempestade que desencadearam os erros acumulados durante milênios.

            Aos leitores de Reformador talvez pareça ocioso aconselharmos destas colunas a prece, pois que isso vem sendo repetido desde o primeiro momento em que se estuda Espiritismo; mas, não nos parece seja assim no convívio com os nossos irmãos. O homem velho é muito forte ainda; tenta por todos os meios impor-se às ideias novas. O espírita está sempre disposto a criticar, ridiculizar, irritar-se, como qualquer materialista. Conheço até um que é incapaz de conversar cinco minutos sem ferir a alguém com a mais impiedosa mordacidade; vive extravasando malevolência e despeito e apesar disso, desses terríveis exemplos negativos, é um pregador da doutrina, faz preces em público. Saberá ou poderá orar quem passa a vida rebuscando meios de amesquinhar, ferir, ridiculizar seus irmãos? De certo que não. O Mestre por excelência condicionou a eficácia da prece ao perdão das ofensas. Uma alma cheia de malignidade, que não soube perdoar as ofensas e amar os inimigos, é incapaz de orar, se bem possa dizer belos palavreados com o nome de prece. Antes de colocar a oferta sobre o altar, é necessário acertar as desarmonias com os ofensores ou ofendidos. Passar quinze horas de azedumes, afundando-se nas trevas do malquerer e, depois disso, cinco minutos em prece, é de uma insensatez absoluta. Só pelo exercício perseverante adquirimos uma capacidade. Para adquirirmos a prática de orar, temos que passar a vida cultivando pensamentos de amor, de harmonia, de perdão; escolher a nossa leitura, evitar todas as palestras que nos desarmonizem a alma; fugir de toda a sorte de irritação; cultivar, enfim, a afinidade com os grandes Espíritos. Sem esta preparação de todo instante, não saberemos orar, por mais brilhantes que sejam as nossas palavras com pretensão a prece.

            Acima de tudo, a prece é amor e só ama quem está exercitado para isso. Quem se exercita a odiar, só pode odiar, mas nunca orar.

            Ao espírita que conhece a lei das reencarnações, que sabe quanto somos influenciados pelos Espíritos atrasados, que crê numa Justiça Superior que tudo governa e dirige, nada deveria ofender, surpreender ou irritar. Tudo está dentro de uma lei perfeita e qualquer irritação é revolta contra a lei. Logicamente o espírita deveria estar sempre “vigiando e orando para não cair em tentação”.

            A prece é uma força poderosíssima, invencível, capaz de operar milagres; lamentável é que tão pouco saibamos cultivar em nossa alma esse poder superior. A forma literária da prece nenhuma significação tem. As melhores preces são sem palavras, formadas de sentimentos elevados para os quais a pobre linguagem humana ainda não cunhou vocábulos. A prece que não brote do coração espontaneamente, sem cogitar de palavras, fica na Terra, não sobe a Deus.

            Como obter esse estado superior de prece espiritual?

            Pela contemplação da obra divina, das manifestações da vida, Flammarion nos diz que chegou a uma dessas preces sublimes (1). Foi esse o seu caminho. Para outros, haverá outras sendas que conduzam ao mesmo alvo. A meditação sobre a justiça que se nos revela pelo conhecimento da lei de causa e efeito, em muitos é bastante para conduzir ao estado superior de prece. Outros encontram suas inspirações refletindo sobre o progresso de todos os seres e de todas as coisas, comparando o passado com o presente e prevendo o futuro grandioso da humanidade.

            Muitos são os processos de nos elevarmos à atitude de prece e só um é o processo oposto que nos impede de orar: a pretensão a juiz. Quem pretenda ser juiz de seus irmãos, da natureza, de Deus, dispondo de conhecimentos limitados no tempo, servindo-se de aparências incompreensíveis, irrita-se, enleia-se, desce e escraviza-se às trevas.

            Não julgar é a lei.

            Vivemos entre maravilhas, na superfície de uma estrela. Por toda parte a natureza é um hino de harmonia e beleza ao Criador. Leis admiráveis e infalíveis governam os movimentos dos astros e dos átomos. O crescimento e reprodução das plantas, a alegria dos animais, a inteligência dos grandes homens, tudo é grandioso e belo no mundo. Tudo nos pode encantar e enlevar desde que os nossos olhos sejam bons e não se detenham erradamente julgando acabada uma obra em formação e pondo-se a criticá-la. Essa obra mala acabada é o nosso irmão com pretensões a juiz e condenador de aparências.

            “Devemos orar sempre, pensar sempre em Deus e procurar cada vez mais elevar-nos à compreensão das maravilhas do Universo, sem nos prendermos demasiado a um só momento da eternidade. Um momento isolado da vida da humanidade pode parecer-nos um pandemônio; mas, ligado esse momento aos milênios passados e futuros, tudo se torna harmonioso e justo, digno da sabedoria do Eterno.

            A prece constante é a luz que iluminará a nossa jornada rumo ao futuro.

(1) “Deus na Natureza”.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

O dogma fluidificante




O dogma fluidificante
Nabor da Graça Leite
Reformador (FEB) Junho 1947

            Sob este título diligente confrade, possivelmente de São Paulo, teve a gentileza de remeter-nos um opúsculo de 11 páginas versando exclusivamente sobre o corpo fluídico de Jesus.

            A preocupação máxima do autor é provar que Jesus não teria sido um Espírito no estado de materialização tangível quando de sua estada na Terra, porém, um homem, em tudo igualzinho aos outros homens que, em virtude de sua imperfeição, têm necessidades, ainda, de revestir o espírito dum envoltório mais grosseiro.

            Primeiramente devemos lamentar o fato de não vir esse trabalho assinado, e isso por que o nome da pessoa ou sociedade que o produziu lhe daria um cunho de mais responsabilidade, ao passo que assim, no anonimato, ele apenas evidencia espírito confusionista, quando não demolidor de obra que não pertence aos homens, mas a Deus, e que, por isso mesmo, debalde aqueles a tentarão ferir.

            Somos dos que jamais viram na chamada questão do corpo fluídico de Jesus motivo para enfraquecimento dos laços de fraternidade no seio dos adeptos da 3ª Revelação. E de fato não existe razão alguma que a justifique, uma vez que não há imposições doutrinárias que obriguem os espíritas a aceitar a obra de J. B. Roustaing mas, como foi ela editada também no Brasil, há apenas a faculdade de todos os espíritas conhecerem-na para aceitarem-na ou não, usando, cada qual, do livre arbítrio e do direito de, como recomendava Paulo, “examinar de tudo para só abraçar o que é bom”.

            Daí o reputarmos toda campanha que se move contra Roustaing e a Federação, obra de verdadeira incompreensão por parte dos que a realizam como que possuídos de um prazer doentio, mas sem se aperceberem de que, ao contrário daquilo que supõem com relação aos feitos dos ensinos de Roustaing, eles é que se acham sob influências, positivamente desagregadoras, dos inimigos da luz e da verdade. Senão, que pensar
de conceitos como estes, encontrados no opúsculo em questão: “O que podemos dizer de Roustaíng, patrono do Espírito das Trevas? Esplêndida mistificação para enganar os tolos espíritas, sem sólidos conhecimentos da doutrina. A fantástica obra de Roustaing está francamente em agonia vivendo ainda somente pelo esforço da mentalidade escura do GRUPINHO DE FANÁTICOS (sic) da Federação Espírita Brasileira...”

PS.: No finalzinho de 2019, a direção da FEB passou a considerar os quatro livros que compõem a coleção “Os 4 Evangelhos”, de J.B. Roustaing, como uma obra não alinhada com a visão espírita de então, excluindo-a do catálogo de livros editados. Evidentemente, este Blog não compartilha desse entendimento.


Corpo fluídico?


Corpo fluídico?
Antônio Wantuil (W.)
Reformador (FEB) Outubro 1947

            Ouvi de esclarecido confrade que a designação de corpo fluídico é má, porquanto o calor reinante na Judeia o faria evaporar. Realmente, à primeira vista, a denominação nos parece imprópria; todavia, os espíritas sabemos que todas as várias modalidades com que se nos apresenta a matéria, do hidrogênio ao urânio, da densidade 0,0693 à densidade 18,4, nada mais são que transformações de um fluido ainda desconhecido dos meios científicos, mas de cuja unidade fluídica os próprios sábios materialistas já não duvidam.

            É até mesmo digno de meditação o fato de os Espíritos haverem preferido esta designação, numa época em que os nossos sábios não conheciam os prótons, os elétrons, os nêutrons, c nem mesmo supunham que fosse possível a obtenção artificial de substâncias simples por bombardeio intra-atômico de elementos outros, e nem sequer sonhavam com a desintegração instantânea da matéria, como no caso da bomba atômica.

            Quem, todavia, não quiser dar-se ao trabalho de acompanhar os estudos dos nossos sábios, vendo em suas descobertas a confirmação de ensinamentos ou de previsões feitas pelos Espíritos, mesmo em casos outros, como na descoberta do avião, poderá continuar onde está, e se lhe soa mal aos ouvidos o termo - fluídico, para os corpos em questão, poderá chamar-lhes - corpos creóides (?), como propôs Mínimus em sua "Síntese de O Novo Testamento".

            Que esses corpos são reais, não há que discutir. Os anais do Espiritismo, de todas as religiões, inclusive os do Catolicismo, estão cheios de fatos semelhantes. Assim, perguntaremos nós: que denominação daria o ilustre confrade a tais corpos, qual o de que se serviu Antônio de Pádua para defender o próprio pai? – Carnal? - não pode ser, não foi oriundo de uma gestação carnal, Duplo? - também não serve, porque apenas designa o fenômeno.

            Ora, se tal corpo apresentava todas as características de um homem normal, utilizando-se dos sentidos humanos, discutindo com os que acusavam o pai do seu corpo carnal que se achava em outra cidade, cremos que nos não importa o nome com que o designemos, mas, o que não podemos negar, diante da bibliografia espírita, é que tais corpos são formados, condensados, se assim nos permitem exprimir, com a existência simultânea de um sósia carnal, ou, mesmo, sem a existência deste último, qual acontece nas materializações, espontâneas, ou não, passageiras ou demoradas; e esses corpos passam a ter a aparência perfeita de corpos carnais, com todas as suas possibilidades quanto aos nossos cinco sentidos e ainda quanto aos sentidos que desconhecemos, como o da presciência, o da premonição, etc.

            Não discutamos mais um assunto tão trivial, após a confirmação que os fatos nos prodigalizaram.

            Repitamos, com Paulo: “Nem a mesma carne”.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Preceitos e preconceitos



Preceitos e preconceitos
A Redação 
 Reformador (FEB) 1 Julho 1929

       Porque lhes dei as palavras que me deste e eles as receberam e reconheceram que verdadeiramente eu saí de ti e creram que me enviaste. (João XVII v. 8)

            De todos os tempos a natureza do corpo e a identidade do espírito de Jesus cindiram heréticas pela ortodoxia triunfante, como tais, combatidas a ferro e fogo pelo Bispo de Roma, entrosado natural e logicamente no prestígio tradicional do Cesarismo pagão agonizante. 

            A metrópole política e temporal do mundo a concentrar, por assim dizer, as maiores forças vivas e capazes de vivificar e irradiar a herança opima (produtiva) que do alto baixava, haveria de ser e foi, assim, a metrópole da religião inaugural de uma nova fase planetária, ao menos para um aglutinado de raças e povos, que constituem e caracterizam a denominada civilização ocidental.

            E verificou-se, então, este curioso fenômeno intelectivo: enquanto no seio da igreja nascente, apologistas e santos doutores patriarcas e varões ilustres consagravam, uns o Messias carnal, para terem de o divinizar dogmaticamente, sustentavam outros um Messias divino, transitória e aparentemente humanizado!

            É toda a história fulgurante do gnosticismo, ora vitorioso ora vencido, consoante os valores flutuantes da política eclesiástica, mas, não obstante, vivo e renascente a todos os tempos, sob várias designações e aspetos, qual desafio lançado à inteligência e à razão humanas por etapas progressivas, até a maturação facultativa de mais amplos aclaramentos.

            Estes, não podem, também eles, vir de jato ou em bloco, completos e acabados, sob pena de infirmarem a lei de trabalho e perfectibilidade, geral e absoluta no plano e no quadro de nossa humanidade, conforme o ensino unânime dos Espíritos.

            Assim, pois, na impossibilidade de conciliar os textos escritúricos com os conhecimentos correntes, tanto quanto na impossibilidade maior de os desmentir, tal como ainda hoje acontece, os exegetas enveredaram pelo mistério, pelo sobrenatural, pelo milagre, como se algo pudesse ocorrer fora da natureza.

            Porque o dilema era e continua a ser este: - ou Jesus disse o que disse, e fez o que d'Ele testificam as Escrituras, e, neste caso, não podia ser de natureza humana especifica, idêntica à nossa, ou as Escrituras são apócrifas e Jesus não passa de figura lendária.

            Ora, nós outros não somos do número dos iconoclastas que a tudo investem com a só preocupação de destruir instituições, crenças ou símbolos, certo incidentes na lei de caducidade, mas nem por isso desprezíveis, de vez que alimentaram e acionaram estágios de uma evolução seriada gradativa e necessariamente providencial.

            Todos os fatos, disse-o eminente filósofo, explicam-se por antecedentes e justificam-se por consequentes.

            Em matéria doutrinária, como em qualquer departamento do conhecimento humano, nada se pode analisar e julgar isoladamente.

            A síntese, e só ela, nos pode aproximar dá Verdade, maiormente relativa.

            Assim pensando, consideramos que tudo é obra de Deus, que nada ocorre objetiva ou subjetivamente à revelia dos seus desígnios, porque jamais deixaram nossos Guias de cumprir o seu dever sonegando ou afrouxando, sequer, sua assistência na medida exata de nossas capacidades realizadoras, de forma a nos não invalidar o livre arbítrio, mas, também de forma a não nos deixar estacionários na corrente da ascese universal.

            Dentro desta ordem de ideias, não só toleramos como até legitimamos, em parte, o antagonismo que vimos de assinalar, e que, afinal, perdura mesmo no entre os prosélitos da Nova Revelação, ainda que sob novos prismas, pois a verdade é que, se dúvidas não nos sobejam quanto à falsidade da personificação do Divino Mestre tal como o definiu o Símbolo de Niceia, nem todos o podemos aceitar como homem especifico, com genealogia e atributos terrenos.

            Que por havê-lo assim, rejeitando, como rejeitamos o conceito teológico-católico, haveríamos de enfrentar a derrocada de toda a doutrina evangélica, fundamental, respigando e aceitando da tradição apenas aquilo que nos conviesse, e relegando ao plano das fábulas quanto nos parecesse inexequível dentre das leis conhecidas.

            De mutilação em seccionamento chegaríamos, então ao critério exclusivista, pessoal, arbitrário e finalmente incompatível com a própria razão: que nos impõe uma unidade imanente, apanágio da verdade, e, portanto, contrário a universalidade da própria revelação, no tempo e no espaço.

            A verdade, entretanto, é que foi o ascendente de uma entidade extraordinária, por assim dizer - miraculosa, incontestável e insofismável para os seus coevos (contemporâneos), que originou a divinização do Médium de Deus. (1)

                (1) A frase é dos Espíritos à Kardec.

            Na impossibilidade de justificar e explicar, então, os milagres e profecias, exegetas e apologistas simplesmente deificaram o seu autor.

            Para eles, como também para nós, os Apóstolos não poderiam ter sido meros visionários, não tendo, corno bem o demonstraram com sacrifício de vida, interesses secundários a consolidar e defender, inimigos a destruir.

            Doutrina de pura fé espontânea, estruturada em fatos, poder-se-ia, a rigor, admitir fossem estes exagerados.            
           
            Entretanto, concordes seus pontos fundamentais medianímicos - nascimento, morte, ressurreição - não há como julga-los apócrifos, tanto mais quanto o conhecimento hoje adquirido da lei dos fluidos e das suas aplicações contingentes nos autorizam aceita-los, não como possíveis, mas como reais.

            Ainda agora, o grande sábio e intrépido vulgarizador, que é Ernesto Bozzano, provoca a atenção dos críticos e dos céticos para o desaparecimento do médium, no curso de uma daquelas famosas sessões da villa Millesimo.  

            Até o presente, conhecia-se a desmaterialização parcial, testificada por Crookes,  Aksakoff e outros investigadores de renome: agora, temos o fenômeno de uma desmaterialização total evidente com transporte através da matéria e consequente  recomposição específica, sem prejuízo de integridade somática e biológica.

            Estamos a prever a objecção: neste caso o médium, criatura normal, ser específico  do nosso ambiente, podendo dest'arte dissolver-se e recompor-se, isso prova que o Cristo poderia ter sido um homem normal.

            Sim, de certo, mas há de convir, também, que temos aqui um fenômeno mediúnico, involuntário para o médium e promovido, e condicionado pelos Espíritos em ambiente adrede preparado; ao passo que lá, no Evangelho, temos fenômenos espontâneos, voluntários e conscientes, quais o desaparecimento de entre a multidão ou ainda e melhor. - a transfiguração do Tabor.

            Aliás, era o que significavam estas palavras de Jesus: ninguém m’a tira, (a vida) eu por mim mesmo a deixo, tenho o poder de a deixar e retomar (João Cáp. 10 v. 18).

            Outras muitas passagens do Antigo e do Novo Testamento autorizam a presunção da corporeidade extraterrena do Messias de Deus, umas veladas, outras categóricas, como, por exemplo a de referência ao Precursor: - dos nascidos de mulher, nenhum maior que João Batista. (Mateus XI v, ll)

            Infirmar esta passagem, no só pressuposto de modéstia, fora, além de excessivo preito à gratuidade do conceito, contraditar ao próprio Cristo em face da confissão de Pedro - tu és O Cristo, filho de Deus vivo.

            Enfim, muitas outras razões se poderiam aduzir a prol da orientação que adotamos, oriunda da Revelação da Revelação, e que, seja dito, não é pessoal mas coletiva, e também facultativa, se nosso intuito fora o de suscitar polêmicas e controvérsias, aliás inúteis em face das necessidades primaciais de serenidade para realizar a doutrina em sua mais lata finalidade - a predisposição dos descrentes para a homogeneidade dos sentimentos, mediante a qual todos, indistintamente, temos ensanchas (ampliada a disposição) de servir a Deus e ao próximo.

            Ao demais, dos arcanos do Infinito, da Ciência Divina, a única afirmativa absoluta que poderíamos fazer é a de que pouco ou nada sabemos em relação ao que desconhecemos.

            As realidades de hoje, adstritas aos nossos sentidos materiais, precaríssimos, podem ser as ilusões de amanhã, e não se diga nem suponha, tão pouco, que os Espíritos Superiores tudo nos possam e venham dizer.

            A ilação legítima a tirar dos ensinos da Revelação, é de que eles são constantes e progressivos, de todos e para todos os tempos,

            Absoluto, só Deus. E o que d'O Cristo devemos querer, para praticar, é a doutrina de tolerância, de amor e perdão, sejam quais forem os imperativos de consciência que, em matéria de Fé, correspondem à evolução de cada um.

            A doutrina, temo-lo dito, não é de um homem nem de muitos homens; não é de um Espírito nem de muitos Espíritos.

            Os homens, como os Espíritos se confundem na mesma lei de progresso universal, eterno, indefinito. A doutrina é, sim, de Jesus, e a ninguém se impõe por teorias mas por atos. E estes só podem ser de bem entendida tolerância, sem a qual não há fraternidade possível.

terça-feira, 7 de abril de 2020

Fonte única



Fonte única
A Redação 
Reformador (FEB) 16 Agosto 1929

            Porque quereis confundir o mensageiro com a mensagem? Porque persistis em associar o que é divino ao veículo que o transporta? ‘Ensinamentos espiritualistas’ - S. Moses pag. 179

            O Espiritismo é doutrina dos Espíritos e não dos homens.

            Temo-lo dito destas colunas, bastas vezes, e nunca julgamos demasiado nem ocioso repeti-lo.

            Allan Kardec, missionário a seu tempo e para o seu tempo, compilou-a em moldes insofismáveis, que não comportam dogmatismos nem exclusivismos sectários.

            Se uma regra e uma disciplina podemos adotar em seu cultivo, são elas a da moral cristã tal como decorre dos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo em sua essência postos como fulcro de toda a evolução, a dentro da qual tem que progredir a humanidade em conhecimento e sentimento.

            Em sotopor (preterir) a revelação de Kardec à revelação de Jesus, em nada fraudamos nem diminuímos a sua obra, antes nos integramos em sua índole, pois que ele o afirmou - ela, a doutrina dos Espíritos, é progressiva no tempo e no espaço.

            Mas, há mais e há melhor a considerar: e vem a ser que, antes de Kardec, como antes de Jesus, Deus nunca deixou de enviar à Terra os seus missionários, cada qual trazendo um contingente de luz à trajetória ascensional e indefinida das massas terrenas.

            Dos anteriores ao Rabi da Galileia nenhum deixou de afirmar; implícita ou explicitamente o advento (1); e dos posteriores nenhum, também, lhe infirmou o ascendente único e inconfundível de paradigma divino, arquétipo universal, ou seja - O Cristo de Deus.

            Trocar, pois, a teoria ou teorias de um Espírito pela tradição firmada no consenso universal e nunca, jamais, universalmente desmentida, é presunção estulta (estúpida), só justificável pela inopia (penúria) dos homens, assaz explorada pelos impenitentes do Espaço, que procuram lançar confusão e dissídio aos penitentes da Terra.

            Aliás, temos visto como essas tentativas personalíssimas e isoladas se anulam e frustram de si mesmas, com o só prejuízo de seus incautos e inconsequentes patronos.

            Mas, por isso mesmo, em Deus esperamos, não têm tido nem terão elas a força de abalar as nossas convicções para desviar de uma linha a rota que aqui nos traçamos, impessoal e extreme de sectarismos.

            Porque, sectarismo não é arvorar em princípio o Evangelho de Cristo em padrão inconfundível e único da evolução espírita com Kardec, e sim fazer de Kardec o depositário único e único responsável pelos destinos humanos, a focar, só ele a Verdade, que é Deus, e vem de Deus por muitas e múltiplas facetas.

            Se assim pensássemos, se de público - horresco referens (- tremo ao referir) - viéssemos afirmar que o sábio de Lyon aí está de novo para completar a sua obra, chegaríamos ao precioso ilogismo (contrário a racionalidade) de que no interstício de suas encarnações a obra de comunhão com os Espíritos, lei substancial, lei divina e por isso mesmo ininterrupta e inestanque (sem limites), de consolação e progresso, ficou prejudicada.

            Não teríamos, assim, dado um passo na senda do Amor e da Verdade, sob o olhar entristado (entristecido) dos nossos Guias, desses mesmos Guias cuja atividade é imanente, e de Jesus, o Palinuro (guia) da redenção de todas as horas!

            Mas, ainda bem que por honra de Allan Kardec nenhuma de tais presunções se integra na sua obra, tão vozeirada quão mofinamente (infelizmente) entendida e peiormente (mais gravemente) exemplificada.

            De fato, essa obra não é dele, mas dos Espíritos e há que atender que os Espíritos nem tudo sabem, nem tudo podem, nem tudo devem dizer. O mérito do Mestre, o seu grande mérito, está no critério com que discerniu entre milhares de testemunhos, os que se prestavam à confirmação da verdade imanente do Cristianismo como revelação divina, formando um corpo de doutrinas capaz de levantar a Fé no espírito da humanidade, esquecida e transviada nas veredas de dezenove séculos.

            Porque o fenômeno espírita, a comunicação dos desencarnados e - por que não dizer- a própria ideia da reencarnação, nunca deixaram de ser mais ou menos conhecidos em todos os tempos.

            Nem jamais deixaram de baixar ao mundo espíritos prepostos à sustentação de providenciais desígnios que transparecem até, “grosso modo”, nos fastos (anais) da história de todos os povos, de todos os lares, de todos os indivíduos com olhos de ver.

            Em conspecionar (inspecionar?), em conformar essa obra sem se deixar iludir por interesses e preconceitos mundanos, imparcial em si e consigo mesmo; na superioridade de vistas do seu tempo e do seu meio, dócil às sugestões do seu Guia, Allan Kardec tira o seu melhor quinhão de merecimentos e não pode, por suas opiniões pessoais, reivindicar proselitismos estáticos, dogmáticos e infalíveis.

            Transformar os seus conceitos de homem em postulados definitivos e incontroversos, vale por infirmar lhe a doutrina que ele consignou evolutiva e progressiva no tempo e no espaço; e vale mais, ainda, por colocá-lo acima d' Aquele a quem ele, Kardec e os Espíritos conspícuos chamam - O Mestre - o qual também disse que era - o caminho, a verdade e a vida.

            Assim, pois, o caminho só pode ser o Evangelho; a verdade só pode ser o Evangelho; a verdade só pode ser gradativa nesse caminho e a vida, por eterna, aleatória ao infinito, em conhecimentos e sentimentos.

            Isto, a menos que se pretenda, em nome da ciência, da pobre ciência humana, extirpar Deus das consciências, para submete-lo a ações e reações de laboratórios científicos!

            Não mil vezes não! A Revelação dos Espíritos, de todos e para todos os tempos, transcende a esses impasses da filáucia (amor desmedido de si próprio) humana, que tudo pretende subordinar ao seu egotismo (amor exagerado pela própria personalidade).  

            É preciso fugir desses perigos e arrastamentos tendentes a uma escolástica esdrúxula quanto estéril importa ater se a princípios que não a individualidades nem grupos; generalizar e não particularizar, porque a doutrina dos Espíritos e a verdade absoluta só a Deus pertence.

(1) Todas as Teogonias do passado falam de um Messias.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Tolerância Cristã



Tolerância Cristã
A Redação
Reformador (FEB) 1 Agosto 1929

            Conta-se que Bezerra de Menezes de uma feita, em plena sessão doutrinária, ao se manifestar um Espírito mal intencionado - e turbulento, teve para com ele, diante da assistência estarrecida de surpresa, esta frase enérgica.

            - Espírito insolente e vagabundo! Chamem a polícia...

            E o manifestante presto deixou em paz o médium e os assistentes. Ato contínuo, outro Espírito arrogante se apresenta e com gesto de capoeiragem fala:

            - “Seu” velho atrevido e fanfarrão, mande chamar a polícia que eu quero vê-la.
Fisionomia aberta, radiante, o caroável Kardec brasileiro, todo humildade, responde:

            - Meu amigo, eu sou médico e como médico trato cada doente tem o seu remédio: aquele precisava de pau, tu precisas de preces; portanto, vamos orar.

            E com aquela unção e humildade com que orava e desarmava as feras do espaço - no seu dizer - iniciou com êxito a conversão do insólito visitante.

*

            Esta lição magnífica do mais autorizado dos nossos expoentes doutrinários, convida-nos a meditar sobre a tolerância cristã em seus múltiplos aspectos, bem como no verdadeiro critério do seu emprego, porque, se indubitável é que devemos tê-la em tudo e com todos, não se segue possamos com ela e por ela calar erros, justificar ignomínias, obedecer em suma, a ditames de ordem mundana, quais os de não ferir melindres e preconceitos individuais e sociais. Se no seio de nossas famílias tantas e tantas vezes temos necessidade de ser enérgicos e intolerantes com a ignorância e as más tendências de nossos filhos, não vemos nem sabemos como, em relação à Sociedade - nossa família em sentido mais lato - possamos adotar outra conduta. A intolerância como a tolerância absolutas não se concebem no estado de evolução do nosso mundo, ao qual afluem Espíritos os mais díspares e necessitados de experiência e conhecimento, que se não improvisam nem adquirem de pronto, isoladamente, mas com tempo e de conjunto, no cadinho da sociedade, ao estuar (ferver) das provas emergentes de cada dia.

            Justamente por ferir e afrontar interesses e preconceitos correntes, ao seu e ao nosso tempo, é que O Divino Mestre subiu ao Calvário, e a seguir martirizados foram os Apóstolos, como sacrificados têm sido os pioneiros de ideias novas, os reformadores intrépidos, na ciência, na política, na religião.

            E, se Ele disse ser O Caminho, A Verdade, e A Vida e que não vinha reformar a lei porém dar-lhe cumprimento, em face da lei não cumprida, e até postergada, é claro que o caminho não está desbravado e não há perlustrá-lo (examinar) com verdade, nesta vida, tapizado (estofado) de flores, sem lutas nem atritos.

            Mais ainda: se com a investidura divina do amor, zurzindo (espancando) a hipocrisia, condenando a luxúria, profligando (destruindo) a avareza não nos autorizou a fazê-lo em seu nome, então, logicamente, também poderemos renunciar ao título de aspirantes do seu apostolado. Poder-se-á, em boa tese, objetar que devemos antes combater esses vícios em nós mesmos, para não incidir na pecha do argueiro e da trave em olho alheio? Certamente.

            Mas isso não impede que a outrem digamos da necessidade, do valor e das excelências desse combate, porque de outro modo praticaríamos negativamente e com egoísmo, guardando para nós o benefício, quando a luz não se dá para ficar debaixo do alqueire.            

            A estas razões que poderíamos dizer de ordem peculiar, adstritas ao proselitismo “intramuros”, outras se poderiam aditar, de caráter geral para o grande público leigo, que nos acompanha com justificado interesse, e da doutrina só tem conhecimento de oitiva, pela propaganda falada ou escrita, que dela fazemos.

            A esse público precisamos habilita-lo a discernir para escolher entre o mau e bom grão. Se não temos, de fato, nem pretendemos ter autoridade moral para coibir abusos e fraudes praticados em nome e à sombra da doutrina, direito nos assiste, e mais que direito - dever de os confrontar com a mesma doutrina, sem com isto, absolutamente, legitimar ofensas e execrações, porque estas não coincidem, jamais, com a Verdade.

            Esta entidade social, que é a Federação Espírita Brasileira, não granjearia o conceito que felizmente goza, se no curso de sua existência de quase meio século houvesse, à qualquer tempo, procurado, por falsos princípios de tolerância, calar ironias e aberrações, ao tempo relegando esclarecimentos ou reprimendas oportunos. Em nossos anais pode ser citada, como ilustrativa, a atitude desta revista com relação a Alberto Sarak, célebre - doutor- e ‘conde’ indiano, que aqui se apresentou de público como ‘faquir’, atribuindo-se faculdades mediúnicas que não possuía, nem sequer conhecia.

            Em desmascarar lhe a intrujice com veemência algo aberrante das nossas normas de serenidade, muita gente nos averbou de impiedoso; mas os benefícios da campanha memorável ficaram, como aviso e como exemplo salutar aos incautos e entusiastas fáceis de todos os “iluminismos.”

            A intolerância que reivindicamos aqui, única que se legitima dentro do Evangelho é, porém, a das ideias e princípios, conjugados, prudentemente às circunstâncias ocasionais, tendo nunca em vista as pessoas.

            Em praticá-lo assim, claro é que não justificamos excessos de linguagem capazes de fazer presumir o animus injuriandi, ainda porque os falseadores da doutrina são para nós de duas categorias - ignorantes de boa, ou conscientes de má fé.

            No primeiro caso, esclarecidos com benevolência, eles poderão emendar-se; no segundo, de qualquer forma, toda a semente a eles lançada será semente em pedregulho. A Jesus, por seus Guias, a bênção da iluminação de suas consciências entenebrecidas.

            Por outro lado, a tolerância incondicional ou simplesmente comodista pode considerar-se contraproducente e até criminosa. Calar a censura de um erro ou de abuso ao amigo que no-lo confessa, só por não o melindrar, é um ato de covardia moral e mais de hipocrisia só legitimável à face do homem velho, nunca à face de Deus, que tanto vale dizer do cristão novo.

            Os que aberram (afastam-se) da verdade falseando-a, são réus públicos e confessos de seus erros e não há, no estigmatizar esses erros, falta de caridade, quando e sempre que o façamos em caráter corretivo e não punitivo.

            O dinamismo das ideias ao tempo que vai transcorrendo não comporta situações dúbias de meias claridades.

            Também nos disse o Divino Modelo que a Verdade deveria ser dita de cima dos telhados, e aqueles que porventura se ofendem com a Verdade só revelam não serem dignos da Verdade.

            Um provérbio popular – vox populi vox Dei - diz com profunda sabedoria que quem cala consente; e a este poderíamos acrescentar que quem consente pactua, senão explícita, ao menos implicitamente.

            Os discípulos do Comte adotaram teoricamente o lema - viver às claras, e o Precursor também pregava as virtudes da penitência pública, de sorte que os adeptos de uma seita ateística aceitando, em teoria, a franqueza, a lealdade, confirmam, em tese, a ética do que veio para dar testemunho da Verdade.

            Inconcebível, portanto, que nós outros, espíritas-cristãos, sob o só pretexto de um amor que não possuímos, contrariando a razão dos fatos, os calássemos por conveniências de ordem secundária, quais as de não atingir a indeterminadas pessoas, colocando-as, em última análise, acima da Lei.       

            Assim, pois, aos louros fictícios de uma tolerância egoisticamente calculada, podemos e devemos preferir a intolerância racional e até rude, mas sincera e espontaneamente radicada na lei.

            Em suma: é preferível ser o que somos e nos mostrarmos quais somos, do que parecermos o que não somos.

            Que o maior mal deste nosso angustioso habitáculo não está tanto no sermos maus, como no pretendermos parecer bons.

            De resto, o critério único de todo o juízo está naquela sentença - é pelo fruto que se conhece a árvore.

            A autoridade e a eficiência da crítica não se aferem pela forma, mas pelo fundo.

            Antes de tudo, o que importa em boa e sã consciência evangélica é colocar a causa impessoal acima de tudo, para apreciar delitos e não delinquentes, mesmo porque estes, verdadeiros enfermos, só se curam com aquele amor d'O Cristo- qui tollit peccata mundi.

            De outro modo evidente se torna o paradoxo de uma tolerância que não tolera a intolerância real ou presumida em seus irmãos.

            E, pois que tudo tem sua razão de ser, deixemos ao tempo o encargo da maturação dos frutos que revelam a árvore, para buscarmos em nós o conhecimento de nós mesmos.

            Nesta perquisição, sim, é que a nossa intolerância não deve ter limites nem restrições, à face do mundo e à face de Deus.