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sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Não há inércia no Além



            Quando da fase final de sua permanência visível entre os homens, JESUS, no intuito de confortar seus discípulos, que se mostravam acabrunhados, por lhes haver anunciado sua breve partida, disse-lhes: “Não se turbe o vosso coração; crede em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas.”

            Sim, na casa de nosso Pai, - o Universo -, existem muitas moradas, que são os infinitos mundos que circulam no espaço imensurável, apresentando cada um deles diversos graus evolutivos, onde os espíritos ingressarão, de acordo com o seu maior ou menor progresso.

            Independente da diversidade de mundos, essas palavras de Jesus também podem referir-se ao estado venturoso ou desgraçado do Espírito na Erraticidade. E Allan Kardec afirmou que “variarão ao infinito o meio em que o Espírito se encontra, o aspecto das coisas, as sensações que experimente, as percepções que tenha.”

            Há, ainda ,muita gente que alimenta a crença de que, extinta a vitalidade do corpo carnal, o Espírito desde logo se liberta completamente das influências e reclamos de ordem material. Não nos esqueçamos, porém, de que por toda a parte, isto é, em todos os mundos, e, portanto, em todos os planos chamados espirituais e pertencentes ao âmbito de cada planeta, existe a matéria em seus diferentes graus de condensação. Ou, diremos melhor, em seus estados mais ou menos quintessenciados.

            Depois de nossa desencarnação, a alma prossegue em Sua marcha evolutiva, através do corpo perispiritual, e o perispírito não é, porventura, um corpo material, embora vaporoso para os nossos olhos, sem que deixe de ser realmente, grosseiro para os Espíritos que já atingiram mais altos padrões evolutivos?

            O perispírito não é um corpo de vaga neblina, e sim, organização viva a que se amoldam as células materiais. O Espírito, quando desligado de seu corpo físico, vai encontrar, nas diferentes colônias espirituais pertencentes à órbita da Terra, escolas, laboratórios, hospitais, creches e muitas outras organizações, porque a vida continua, porque o trabalho, o estudo, o serviço de cooperação fazem parte integrante de todos os mundos e de todos os planos a eles pertencentes.

            A morte não é sinônimo de inércia, inatividade, indolência, não nos leva a uma vida puramente contemplativa. O fato de não podermos formar ideia precisa, ou mesmo aproximada de como tudo isso se processa, não é razão suficiente para não admitirmos, logicamente, que a vida do Espírito em tudo se assemelha àquela que ele teve na Terra, dentro, evidentemente, de leis e normas especiais, mas que, no fundo, se equivalem: E a vida, como nos afirmam nossos mentores do Além, não é um cântico de trabalho e criação incessantes?

            Ora, se há vida post mortem, tem, indubitavelmente, de haver trabalho e criação na vida espiritual. Afirmam, e é uma verdade, que Deus trabalha incessantemente. Por que, então, o Espírito desencarnado não haveria de trabalhar igualmente? Os Espíritos que elucidaram Allan Kardec na composição de “O Livro dos Espíritos” foram unânimes em afirmar que a natureza do trabalho está em relação com a natureza das necessidades. Quanto menos materiais são estas, menos materiais o trabalho. Mas, não se deduza daí que o homem se conserve inativo e inútil. A ociosidade seria um suplício em vez de ser um benefício.

            Precisamos não nos esquecer de que a  “Porta Divina não se abre a Espíritos que se não divinizaram pelo trabalho incessante de cooperação com o Pai Altíssimo!”

Não há Inércia no Além
Sylvio Brito Soares

Reformador (FEB) Julho 1971

O Assistido



            Diante daqueles a quem socorres, não admitas que a caridade seja prerrogativa unicamente de tua parte.

            Enumera os bens que recolhes daqueles a quem amparas.

            Habitualmente doamos aos companheiros necessitados algo do que nos sobra, deles recebendo muito do que nos falta.

            É preciso não esquecer que da pessoa a quem assistimos obtemos benefícios substanciais, como sejam: a verificação de nossas próprias vantagens; o conhecimento das responsabilidades que nos competem, à frente dos outros; o aviso salutar, com relação aos deveres que nos cabem, na preservação dos bens da vida; a paciência com os nossos obstáculos e males menores; o ensinamento da provação com que somos defrontados; a aquisição de experiência; as vibrações de simpatia; o auxílio que recebemos para sustentar mais amplo auxílio aos outros; o consolo nos sofrimentos que, porventura nos fustiguem; o crédito moral que se registra, a nosso favor, na memória dos espíritos encarnados e desencarnados que amparam a criatura em crises e empeços maiores que os nossos.

            Serve a benefício dos semelhantes, tanto quanto possas e como possas, em bases da consciência tranquila, sempre que encontres o próximo baldo de equilíbrio, espoliado de esperança, sedento de paz ou cansado de angústia, nas trilhas do cotidiano, porque a caridade é sempre maior nos dividendos para aquele que dá. Por isso mesmo, temos no Evangelho do Senhor a advertência inesquecível: “mais vale dar que receber.”

O Assistido
Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Maio 1970

Solilóquio


            Há criaturas que se consideram muito religiosas, que se julgam protótipos da piedade
cristã, apenas porque frequentam regularmente este ou aquele templo, de cujas cerimônias cultuais participam, com unção.

            Outras existem que se vangloriam de já estarem “salvas”, em virtude deste ou daquele privilégio, desta ou daquela graça especial, e, muito anchas, vivem a fazer fosquinhas aos “heréticos e excomungados” que não pertencem à sua grei e que, por isso, estão, a seu ver, irremediavelmente condenados às penas infernais: ...

            Outras há também que, por haverem decorado o conteúdo de certos livros, deixam-se empolgar por essa façanha e, a seu turno, julgam suficiente conhecer textos e mais textos em que se fala do reino do céu, para que nele tenham entrada franca...

            E, coisa interessante, o maior desejo de cada uma dessas criaturas é ganhar o céu, sem as outras... e, tranquilamente, gozar-lhe as delícias, sem cogitar dos que ficariam de fora ...

            Acreditam num paraíso reservado a um punhado de comodistas, a entoarem eternamente cânticos de aleluia pela sua felicidade individual, indiferentes ao sofrimento de milhões e milhões de seus irmãos que não partilhassem a mesma sorte!

            Onde está, nessas pessoas, o senso da solidariedade humana?

            Que representa, para elas, a mensagem de amor universal que o Cristo nos trouxe há cerca de dois mil anos?

            Como podem crer em um só Deus e deixar de crer em uma só Humanidade, em um só destino comum, em uma redenção total, de todos os povos e de todos os homens?

            Como podem sonhar com a bem aventurança, com a beatitude, enquanto um só de seus irmãos humanos não tiver a possibilidade, próxima ou distante, de ser feliz também?

            Merecerá o supremo gozo, a paz celestial, quem ainda se ressinta de egoísmo tão profundo e anticristão?

            Aqueles que, a exemplo do rico da parábola, fossem capazes de banquetear-se alegremente, sem se incomodarem com a miséria e as chagas dos Lázaros que lhes mendigassem à porta, poderiam, acaso, comparecer sem pejo ante a figura amorável e sublime de Jesus?

            Como não os horroriza a ideia de verem rolar milhares de milhões de séculos, lentamente, minuto a minuto, e... numa parte qualquer do universo, em estâncias maravilhosas, onde tudo são magnificências e deslumbramentos, apenas um contingente de almas afortunadas haja merecido viver entre deleites inenarráveis, enquanto, alhures, outras almas irmãs daquelas, estejam votadas às trevas eternas, em misterioso abismo, onde só se ouvem gritos lancinantes de dor, uivos de desespero e imprecações de ódio?

            Oh! Deus de amor e de misericórdia, como se pode desfigurar-vos assim?

            Como se pode conceber que sejais tão bárbaro e cruel, a ponto de estatuirdes, para aqueles que Vós mesmos criastes, flagícios e angústias que não ocorreriam ao pior dos celerados?

            Ter-nos-íeis arrancado do nada, ter-nos-íeis dotado de uma funesta liberdade, ter-nos-íeis feito atravessar tentações sem número e multiplicadas provas e, depois de uma curta vida, que não é senão um átimo no tempo, fechar-nos-íeis para sempre a porta do arrependimento e da reabilitação, queimando-nos nas chamas de um intérmino auto de fé, fogo inexorável, que calcina sem purificar, martírio atroz, que tortura sem regenerar?

*

            Haja aqui uma festa, já o dissera alguém, em que a melhor orquestra encha os salões com seus acordes harmoniosos, em que os sentidos sejam excitados pelas mais picantes bebidas e iguarias, assim pelos encantos da beleza e, no momento da mais intensa alegria, brados de desespero se façam ouvir de uma casa em chamas que ameace reduzir a cinzas desgraçados que clamam por socorro... Súbito, a festa cessará, os corações se enlutarão, os mais generosos correrão a arrancar as presas do incêndio, com risco da própria vida, enquanto as senhoras, abandonando o baile, deixarão cair algumas de suas joias mais custosas nas mãos daqueles que ficaram sem teto...

            Eis o que fazemos cá na Terra, e este movimento é bom, é agradável a Deus.

            Que fariam, no céu, os chamados justos, se houvesse, realmente, um inferno flamejante, onde fossem atirados alguns de seus entes mais queridos?

            Segundo o ensino de certos teólogos, os eleitos sentem crescer a sua felicidade à visão dos suplícios dos condenados, sem terem por eles a mínima compaixão.

            Não é mesmo de pasmar?

            Não partissem tais ensinos, mais do desvairamento da fé, que verdadeiramente de seus corações, e eles seriam uns monstros! Pois quê! Então, para sermos felizes, teremos que sacrificar os nossos sentimentos e as nossas mais caras afeições? Teremos que arrancar da alma aqueles que o próprio Deus colocara em nossos caminhos?

            É lá possível que alguém possa entregar-se a êxtases de ventura, sabendo que seus irmãos, sua esposa, seus pais ou seus filhos estejam sendo submetidos aos mais terríveis tormentos que jamais... jamais... terão fim?!!

            Piedade, oh! Deus, para os infelizes que, por não Vos conhecerem ainda, acreditam nessa possibilidade, rebaixando-Vos, assim, à imagem e semelhança deles!  
Solilóquio
Rodolfo Calligaris

Reformador (FEB) Maio 1970

Abolição do Mal

          Quem se refere a perseguições e calúnias, rixas e desgostos, na maior parte das circunstâncias está destacando a influência do mal.
  
            Quantos milhares de caminhos, entretanto, para equilíbrio e restauração, alegria e esperança, se todos nos empenhássemos em extinguir impressões negativas no nascedouro!..

            Determinado amigo terá incorrido no erro de que o acusam; todavia, se nos afastarmos da censura que o envolve, anotando lhe unicamente as qualidades nobres de filho de Deus, com possibilidades de recuperação iguais às nossas, mais depressa se verá liberto da inquietação na sombra, para readquirir a tranquilidade de consciência.

            Certo acontecimento menos feliz haverá sido indiscutivelmente um desastre social; no entanto, se nos abstemos de comentá-lo nos aspectos destrutivos, teremos cooperado para que se lhe pulverizem os destroços morais, sem piores consequências.

            Aquela injúria, assacada contra nós, efetivamente nos haverá queimado as entranhas do ser; entretanto, desaparecerá nas correntes profundas do tempo, se nos consagramos a olvidá-la, sem comunicar-lhe o fogo devorador dos entes queridos, através de alegações menos edificantes .

            Essa confidência amarga ter-nos-á atingido o coração, por farpa invisível, mas não ferirá outros, se nos dispusermos a esquecê-la.

            Reflitamos na contribuição da paz a que todos somos chamados e para a qual todos somos capazes com segurança e eficiência. Para começar, porém, de maneira substanciosa e definitiva, é preciso que o mal cesse de agir, tão logo nos alcance, encontrando em cada um de nós uma estação terminal das trevas.

Abolição do Mal
Emmanuel
por Chico Xavier


Reformador (FEB) Maio 1970

Libertação

        O gesto de Bartimeu, o cego mendigo de Jericó, «lançando de si a sua capa», ao ir ter com Jesus, nos sugere a ideia de ação premeditada para desembaraçar-se de algo que lhe atrapalharia a liberdade de movimento.

            Para o filho de Timeu, o uso daquela peça teria grande serventia. Provavelmente, seria com ela que ele se protegeria das intempéries do tempo. Nem por isso, ao atender ao chamado do Mestre, pensou em levá-la consigo. Atirou-a para um lado, lépido e resoluto.
            Capa arremessada, por importuna e supérflua, é o que cabe considerar.

            Quem de nós não terá alguma coisa de que desvencilhar-se para sair ao encontro de Jesus? Conhecer nossas inibições, para atirá-las bem longe de nós - tal o indeclinável desiderato que nos compete concretizar em benefício próprio.

            Realizar esta ingente tarefa, é solucionar gloriosamente o nosso problema de liberação espiritual.

            Bartimeu, depois de arremessar fora a capa, levanta-se, segue em direção ao Excelso Benfeitor, dele obtém a dádiva da recuperação da vista e permanece em Sua companhia. Deixa um acessório, até então utilizado, por um bem genuíno, essencial, que seria a razão de ser de sua felicidade.

            Quantas vezes, pela nossa posição espiritual, fazemos lembrar o cego mendigo de Jericó, também, como ele, carregando alguma carga incomodativa e inconveniente!

            E como é penoso este nosso fardo e esmagador o seu peso!

            Quase sempre o que nos dificulta a marcha ascensional e gloriosa, para o Calvário de nossa redenção, está representado em pequenas coisas que se nos afiguram de somenos importância e, por assim entender, aparentemente insignificantes.

            O empecilho aparece quando queremos que ele desapareça. Muita vez, vamos surpreendê-lo, incrustado em nossos hábitos, como ostras grudadas à pedra, em situações de que mal suspeitamos.

            Em trivialidades domésticas, a que nos entregamos desapercebidamente. Numa pronunciada tendência à desconfiança de tudo e de todos. Num pendor à crítica demolidora. Numa inclinação à malquerença, congelando amizades por insignificâncias que vimos e ouvimos, exagerando lhes a importância.

            Na adesão a atitudes íntimas, veladas a olhos alheios, mas patentes à nossa consciência, de cujas algemas nos fazemos prisioneiros voluntários.

            Ao nos levantarmos em busca do Celeste Enviado, sejam quais forem as nossas cargas sobressalentes, arremessemo-las fora; deixemo-las, depois de arrebanhados para o Redil do Senhor, como trastes desprezados e desprezíveis . Serão no caso:

- a obcecação pela posse inescrupulosa das posições sociais de evidência e dos bens materiais;
- a obsessão pelos prazeres malsãos do mundo;
- o atrativo pelos assuntos, falados ou escritos, de essência venenosa;
- o fascínio por situações escabrosas, ainda que habilmente aparentadas com as melhores intenções;
- a subjugação à intemperança mental e verbal;
- a escravidão aos desequilíbrios emotivos e sentimentais.

            Seja neutralizando a resistência daqueles que se nos opõem à caminhada para Deus, seja superando impedimentos próprios, seja vencendo relutâncias íntimas ou circunstanciais, seja transpondo obstáculos buscados por nós ,ou atirados à nossa frente por outrem, seja a força de suores e lágrimas, necessariamente teremos que consumar o nosso trabalho liberativo. 

            E não há tempo a perder; e hoje ainda; e agora mesmo.

            Desvencilhemo-nos do desperdício do tempo e da saúde, do abuso do poder e da autoridade, da aplicação desajustada do talento e da cultura, da ação imposicionista dos nossos dons físicos e espirituais, de nossa desalmada exploração do próximo, que tudo isto são capas tremendas que poderão asfixiar-nos sob o seu peso.

            Amigos, desembaracemo-nos da inibições, para não virmos a terminar a existência amortalhados por elas.
Libertação
por Passos Lírio

Reformador (FEB) Setembro 1970

Sementes de Paz



"Guarda a paz de consciência
Se queres vida segura.
Todos somos procurados
Naquilo que se procura."


Sementes da Paz
Toninho Bittencourt
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Setembro 1970

terça-feira, 4 de agosto de 2015

O Complexo de Nicodemos


            Quando Jesus andou no mundo, as pessoas socialmente importantes não lhe buscavam o convívio. O Mestre vivia com os humildes, os enfermos, os sofredores, os pobres de espírito, que deles é o reino dos céus.

            Certo, entre os representantes autorizados da chamada elite pensante daquele tempo existiam admiradores ocultos do divino mensageiro da redenção. O próprio Herodes sonhava com a oportunidade  de ver o Cristo, de quem lhe contavam coisas estranhas ao seu entendimento.

            Houve ainda aquele moço rico, que só abriu mão da vida eterna porque Jesus lhe sugeriu vender todos os bens, distribuir o produto com os pobres e depois segui-lo. Deve ter havido outros, cujo orgulho e preconceito paralisaram os passos na direção do Nazareno, Por tudo isso, não me parece justo negar-se coragem moral a Nicodemos na visita que fez a Jesus, para o elucidativo diálogo do renascimento. Mas, na interpretação do episódio evangélico, aprendemos que o mestre em Israel foi procurar o Rabi da Galileia na calada da noite, para não dar na vista. O Evangelista João refere que "havia um homem dentre os fariseus, chamado Nicodemos, principal entre os judeus, e este foi ter com Jesus, à noite" - e neste particular, nada mais disse nem lhe foi perguntado. Poder-se-ia argumentar que tanto foi à noite, como poderia ter sido pela manhã ou à tarde. O fato, porém, é que o velho Nicodemos, comprometido com a religião farisaica, entrou na História como o exemplo clássico do cristão-novo irresoluto, preferindo acomodar-se como discípulo secreto de Jesus... 

            Pois o que aconteceu com Jesus acontece hoje com o Espiritismo. Pondo de parte o materialista, que tem a negação por princípio e o nada por fim, é muito maior do que geralmente se presume o número de espíritas dominados pelo complexo de Nicodemos.  Mesmo vencidos e convencidos pela teimosia dos fatos metapsíquicos e pela dialética do ensinamento doutrinário, esses eminentes confrades jamais se proclamam espíritas. Talvez porque a palavra espírita, com a qual implicam, implica, realmente, uma tremenda responsabilidade moral. Então se dizem vagamente espiritualistas, - e ei-los em paz com a consciência. Um deles, duplamente imortal - pela graça de Deus e por uma academia de letras - chegou a confessar-me que não faz profissão de fé espírita porque... o que irão dizer por aí, não é mesmo? Um outro me confidenciou: "Dá-se comigo um fenômeno paradoxalmente curioso: Quanto mais creio no Espiritismo menos me considero espírita, e isto porque não estou à altura de professar a doutrina...”

            Como se vê, pura evasiva, e que não faz sentido. O poeta Manuel Bandeira chamaria "espíritas bissextos" a esses que, ante a suspeita de serem portadores de enfermidades incuráveis, recorrem, pressurosos, à medicina do além-túmulo. Mas, passado o susto, voltam à estaca zero da incredulidade. Há, também - e quantos! - os que, apesar de cientes e conscientes da verdade imortalista, se dão ao luxo de deixar para mais tarde ou para outra encarnação o cuidado de ingressar, oficialmente, no Espiritismo. E assim procedem no resguardo de seus interesses inconfessáveis, quem sabe lá! Nesse terreno, há uma inflação de subterfúgios. E, como eu ia dizendo, o intelectual é, de ordinário, quem mais se mostra arredio em tornar pública a sua adesão à Doutrina dos Espíritos. É o caso, por exemplo, daquele meu velho amigo (e confrade nas horas vagas) que compra todo santo dia não sei quantos livros sobre os mais diferentes e extravagantes assuntos. Mas, quando se trata de ler livros espíritas, pede os meus emprestados...

O complexo de Nicodemos
por Alberto Romero

Reformador (FEB) Julho 1971

Kardec e Roustaing


              Estudiosos há do Espiritismo que relutam em aceitar, ou não aceitam mesmo, a revelação do corpo fluídico de Jesus, sob a alegação de não haver ela merecido a aprovação de Kardec e, por isso, desprezam, sem maiores considerações, toda a obra magistral publicada por Roustaing, contendo a explicação dos Evangelhos, capítulo por capítulo, versículo por versículo.

            Embora transmitido do Alto, mercê da extraordinária mediunidade da Senhora Collignon, compreenderíamos fossem os ensinamentos rejeitados, mas por quem, após leitura atenta, e sem ideia preconcebida, de “Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação”, houvesse meditado e concluído, por si mesmo, que eram inadmissíveis as teses ali expostas.

            Pretender-se, porém, que os conceitos divulgados por J. B. Roustaing devem ser condenados porque Kardec não os sancionou é algo tão diferente que permite supor não haja sido a questão convenientemente estudada pelos que assim argumentam. De início, não esqueçamos que se o Codificador não aprovou a obra, muito menos a reprovou e já agora, pouco mais de um século decorrido, seria tempo de se por fim a mal entendidos e a uma diferença mantida, sobretudo, por quem parece se mostrar mais “kardecista” do que Kardec!

            São conhecidas as circunstâncias excepcionais, dignas de reflexão, em que Jean-Baptiste Roustaing, homem de grande projeção - bastonário que era da Corte Imperial de Bordeaux ao tempo de Napoleão III - veio a conhecer a Senhora Collignon, em dezembro de 1861, e receber, oito dias depois, a mensagem por ela psicografada, e assinada por “Mateus, Marcos, Lucas e João, assistidos pelos Apóstolos”, incitando-os a empreender a explicação dos Evangelhos “em espírito e verdade”, explicação que, dizia-o a mensagem, “preparará a unificação das crenças entre os homens”.

            E por que essas crenças, pelo menos no meio espírita, não se unificaram até hoje, como seria lícito esperar? Talvez um dos motivos provenha do fato de não haverem muitos dos que combatem Roustaing lido a obra, inteira, atenta e imparcialmente, limitando-se a folheá-Ia sem passarem, quiçá, dos capítulos iniciais do primeiro tomo!

            Kardec, todavia, sempre advertiu que nada devemos aceitar ou rejeitar senão depois de bem conhecermos e de bem havermos estudado aquilo que estivermos aceitando ou rejeitando.

            Outro motivo, em muitos casos, terá sido o desconhecimento do verdadeiro juízo do Codificador a respeito dessa extraordinária obra mediúnica. E qual foi esse juízo? Publicada em 1866, Roustaing dela ofereceu um exemplar a Allan Kardec que, em junho de 1867, na “Revue Spirite”, disse entre outras coisas:

            "Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com o auxilio de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem para os espíritas o mérito de não estar em contradição, por qualquer de suas partes, com a doutrina ensinada no Livro dos Espíritos e no dos Médiuns.” (Os grifos são nossos).

            Portanto, é Kardec quem o afirma com a sua autoridade: a obra é meritória e em nada contradiz a doutrina por ele codificada! Pouco adiante, aludindo ao fato de haver a obra tratado de questões que ele não havia ainda julgado oportuno abordar, diz Kardec:

            "O autor desta nova obra julgou dever seguir outra orientação: em lugar de proceder gradativamente, quis de um salto atingir o fim. Assim é que tratou de certas questões que ainda não julgáramos oportuno abordar e a respeito das quais, portanto, lhe deixamos a responsabilidade, assim como aos Espíritos que as comentaram. Consequente com o nosso princípio, que consiste em regular a nossa marcha pelo desenvolvimento da opinião, não daremos, até nova ordem, a essas teorias, nem aprovação, nem desaprovação, confiando ao tempo o encargo de as sancionar ou contraditar. Convém, pois, considerar tais explicações como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam, opiniões que podem ser justas ou falsas, que, em todo caso, precisam da sanção, da apreciação universal e, até confirmação mais ampla, não devem ser tidas como parte integrante da doutrina espírita.” (Os grifos são nossos).

            Eis aí o juízo do Codificador do Espiritismo sobre a obra publicada por Roustaing, juizo que, infelizmente, tem sido muito esquecido! Ainda uma vez, Allan Kardec, chamado por Camille Flammarion “o bom senso encarnado”, dá prova de sua prudência. A Doutrina estava incipiente e tenazmente combatida, especialmente na França, onde o Clero sempre exerceu considerável influência. Necessário era, portanto, agir com cautela, nada afirmando, nada avançando que não pudesse resistir aos ataques bem urdidos que logo surgiriam. Ele próprio o disse, ao explicar porque, em “O Evangelho segundo o Espiritismo”, circunscreveu-se “às máximas morais que, com raras exceções, são geralmente claras” e não poderiam, por isso, ser interpretadas de maneiras diversas:

            "Essa a razão que nos levou a começar por aí, a fim de sermos aceito sem contestação, aguardando, relativamente ao "mais, que a opinião geral se encontrasse familiarizada com a ideia espírita." (O grifo é nosso).

            Eis por que, sem dúvida, Allan Kardec, precisando agir cuidadosa e gradativamente, pensava não haver ainda chegado o momento de abordar certas questões divulgadas por Roustaing, o qual, segundo ele, “quis de um salto atingir o fim”. Pela forma por que se expressou, Kardec deixa supor que estava reservando “para o fim” o estudo de certos  princípios tratados em “Espiritismo Cristão ou Revelação da Revelação”, entre eles o do corpo fluídico de Jesus, e, em nota ao item 65 do Capítulo XV de “A Gênese”, último livro que publicou, reforça essa suposição.

            Ora, deve ter sido, precisamente, esse “salto” que levou Bezerra de Menezes, então Presidente da Federação Espírita Brasileira, a escrever, após haver durante 14 anos estudado a obra publicada por Roustaing:

            "Roustaing confirma o que ensina AIlan Kardec, porém adianta mais que este, pela razão que já foi exposta acima. É, pois, um livro precioso e sagrado o de Roustaing", e a fazer publicar em “Reformador”, a partir de 15 de janeiro de 1898, a sua primeira tradução para o nosso idioma, de autoria do Marechal Francisco Raimundo Ewerton Quadros, que foi também o primeiro Presidente da Federação.

            Em verdade, qual a responsabilidade de Roustaing em querer de um salto atingir o fim? Nenhuma, pois agiu sempre e em tudo de acordo com as instruções dos Espíritos que ditaram a obra! Pode-se duvidar, do caráter mediúnico dessa obra? Kardec jamais teve dúvidas a respeito, pois, nos, trechos retro transcritos, por três vezes ele sanciona esse caráter: a primeira, quando diz que ela foi escrita “com o auxílio de comunicações ditadas pelos Espíritos”; a segunda, quando deixa a responsabilidade das questões abordadas a Roustaing, “assim como aos Espíritos que as comentaram”; a terceira, e de forma irretorquível, quando considera as explicações “como opiniões pessoais dos Espíritos que as formularam”.

            E pode-se, de outro modo, duvidar da autenticidade desses Espíritos? Tampouco, tal a sublimidade de sua linguagem, a manifestação inequívoca de seu total conhecimento dos textos evangélicos, dos acontecimentos, dos lugares, dos personagens, de tudo, enfim, relacionado com a passagem do Mestre pelo nosso planeta e, sobretudo, a excelsitude dos ensinamentos ministrados e o incomensurável conteúdo moral das revelações.

            De duas, uma: ou a obra é mediúnica ou não o é! Acreditamos que a segunda hipótese é por todos repelida, pois ninguém, em sã consciência, poderá admitir que um homem da estatura moral de Jean-Baptiste Roustaing se houvesse prestado a farsa tão grosseira ou que a Senhora Collignon fosse capaz, anos a fio, de iludir a boa fé de um dos mais ilustres advogados da Corte Imperial de Bordeaux, escrevendo diante dele vastíssimo trabalho de sabedoria imensa, muitas vezes superior aos seus conhecimentos e de conceitos morais tão elevados que conflitam com qualquer ideia de fraude! E, certamente, por isso mesmo, Kardec nem de leve admitiu a hipótese, logo sancionando o caráter mediúnico da obra.

            Assim sendo, poder-se-á admitir que espíritos galhofeiros, a ponto de se fazerem passar pelos quatro Evangelistas, houvessem tido elevação bastante para ditar páginas e páginas das mais belas, das mais puras, de maior conteúdo moral que se possam ler? Não! Evidentemente não!

            Ora, diziam, por vezes, os Evangelistas, que agiam em nome e de acordo com as ordens de Jesus e, portanto, a ninguém melhor do que a eles poderia, realmente, ser atribuída, como a atribuiu Kardec, a responsabilidade, não só das revelações, como da oportunidade de sua divulgação.

            Kardec, o grande missionário, o sublime Codificador da Doutrina Espírita, ensinou-nos muitas vezes que os Espíritos se identificam pela linguagem de que fazem uso. No Capítulo XXIV de “O Livro dos Médiuns” estão magnificamente resumidos em 26 princípios os meios de se conhecer a qualidade dos Espíritos; basta relê-los para que se não possa duvidar da autenticidade das comunicações recebidas pela Senhora Collignon e, após a necessária coordenação, publicadas por Roustaing.

            Seja isso motivo de reflexão e reflitamos também sobre o seguinte fato, que parece, outrossim, revelar claramente os desígnios do Alto.

            Em 1861, quando ao final do ano, em dezembro, Jean-Baptiste Roustaing foi escolhido, em condições singulares, para desempenhar tão bela quão importante incumbência, Allan Kardec, que já havia publicado em 1857 “O Livro dos Espíritos” e em 1859 “O Que é o Espiritismo”, dava a público, pouco antes, “O Livro dos Médiuns”, que Roustaing tivera tempo de ler. Ora, a obra impropriamente chamada “Os Quatro Evangelhos de Roustaing” não é de Roustaing: é mediúnica! (1)

            (1) - Dizemos "impropriamente" porque do insigne advogado da Corte Imperial de Bordeaux a obra não contém, além do Prefácio, senão perguntas formuladas, de quando em vez, aos Espíritos, com o propósito evidente de ver reforçado este ou aquele conceito ou de tornar, se possível, mais claros certos ensinamentos por eles ministrados, sendo, portanto, também, uma impropriedade falar-se em "roustainistas", pois Roustaing, de si mesmo, nada ensinou, nem foi autor de qualquer doutrina.

            Atentemos para as circunstâncias: tão logo o Codificador, em livro magistral, cumpre a tarefa de revelar ao mundo os segredos da mediunidade, o Alto atribui igualmente a Roustaing o encargo de utilizar a mediunidade da Senhora Collignon para coordenar e divulgar as explicações dos textos evangélicos, ditadas pelos próprios autores.

            Quanta harmonia nas missões confiadas a um e outro! Enquanto o primeiro, em Paris, a Cidade-Luz, entregava-se, com extremada prudência e admirável lucidez, ao trabalho sublime de codificar e difundir a Doutrina Espírita, o segundo, em Bordeaux, nessa mesma França de tantas tradições espirituais, entregava-se a outro trabalho sublime também: o de propagar a verdadeira interpretação dos Evangelhos de Jesus, nos quais, em última análise, aquela Doutrina se fundamenta!

            Oxalá possa a reflexão sobre fatos tais contribuir, senão para “unificar” as crenças entre os homens, pelo menos para dirimir, entre os espíritas, controvérsias e incompreensões oriundas, queremos crer, de ideias preconcebidas ou de estudo incompleto dos diferentes aspectos da questão.

Kardec e Roustaing
Ivo de Magalhães

Reformador (FEB) Julho 1971

domingo, 2 de agosto de 2015

A morte de Deus


       Mais de uma vez alardeou-se que "Deus havia morrido", proclamando-se a desnecessidade tanto da fé como da Sua Paternidade, para imediatamente, reiteradas vezes, com a mesma precipitação, voltarem esses negadores a aceitar a Sua realidade.

            A personagem concebida por Nietszche, que sai à rua difundindo haver "matado Deus", chamando a atenção dos passantes, após o primeiro choque produzido nos círculos literários e intelectuais do mundo, no passado, estimulou outras mentes à negação sistemática. Fenômeno idêntico acontecera no século anterior, quando os convencionais franceses, supondo destruir Deus, expulsaram os religiosos de Paris e posteriormente de todo o país, entronizando a jovem Candeille, atormentada bailarina da Ópera, como a Deusa Razão, que deveria dirigir os destinos do Pensamento intelectual de então, ante Robespierre e outros, em Notre Dame. Logo, porém, depois de múltiplas vicissitudes, o curto período da Razão fez que Deus retornasse à França, e muitos dos Seus opositores a EIe se renderam, declarando haver voltado ao Seu regaço, cabisbaixos, arrependidos, melancólicos.

            Deus vencia, mais uma vez, a prosápia utopista da ignorância humana!

trecho da mensagem sob título Deus
Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Agosto 1971 

O Espiritismo é religião


Quando alguém (e resta muito pouca gente que ainda pensa assim) me diz que o Espiritismo não é uma religião, logo me lembro da palavra de Kardec no discurso de abertura da Sessão Comemorativa dos Mortos na Sociedade de Paris, em 1º de novembro de 1868, publicado na "Revue Spirite" de dezembro do mesmo ano, sob o título “O Espiritismo é uma Religião? Disse Kardec:

            “Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.”
           
            Os que quiserem maiores esclarecimentos muito lucrarão lendo "A Religião", de Carlos Imbassahy.”
Dos Alfarrábios ‘2’ (parte)
Luciano dos Anjos
Reformador (FEB) Fevereiro de 1972


Prece de Emmanuel


Senhor Jesus!

            Reunidos na Casa de Ismael, rogamos para que nos abençoes os propósitos de servir ante os problemas da atualidade terrestre.

            Deixa-nos saber que estamos todos interligados em teu coração compassivo e sábio, para que não venhamos a desertar da fraternidade que nos reúne!..

            Orienta-nos o raciocínio, de modo a verificarmos que as nossas necessidades e aspirações se irmanam no mesmo campo de experiência, a fim de que o respeito recíproco nos presida atividades e relações.

            Faze-nos observar, por misericórdia, que Deus não nos cria pelo sistema de produção em massa e que por isto mesmo cada qual de nós enxerga a vida e os processos da evolução de maneira diferente. Ainda assim, induze-nos a registrar que embora as nossas disparidades de interpretação diante dos fenômenos que nos cercam, todos podemos e devemos ser cada vez mais irmãos uns dos outros nas áreas de vivência e solidariedade, ação e tolerância.

            Ajuda-nos a entender que a Ciência pode governar a matéria no Plano Físico e eliminar as distâncias no Espaço Cósmico, entretanto, faze-nos reconhecer que nós outros, os obreiros da fé viva, fomos chamados para reacender a luz de teus ensinamentos nos corações, objetivando a edificação espiritual do futuro, a começar de nós mesmos. Para isso, Senhor, para que o título de servidores nos honorifique as tarefas, ampara-nos o desejo de trabalhar aprendendo e de servir elevando sempre!..

            E auxiliando-nos a desterrar qualquer fórmula de violência de nossas resoluções e atitudes, ensina-nos que somente o amor, em nossas realizações de cultura e de inteligência, pode construir em nós e por nós o teu reino de sabedoria e felicidade, no qual estaremos incessantemente contigo, tanto quanto já estás conosco, hoje e para sempre.

Prece de Emmanuel
Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Fevereiro 1973

Religiões Irmanadas


            Comentávamos a conveniência de se irmanarem as religiões, em favor da concórdia no mundo, quando meu amigo Tertuliano da Cunha, desencarnado no Pará, falou entre
brejeiro e sentencioso:

            - Gente, é necessário pensar nisso com precaução. Ideia religiosa é degrau da verdade e o discernimento varia de cabeça para cabeça. Exaltam vocês a excelência de larga iniciativa, em que os múltiplos templos sejam convocados à integração num plano único de atividade; entretanto, não será muito cedo para semelhante cometimento?

            Porque a pergunta vagueasse no ar, o experiente sertanista piscou os olhos, sorriu malicioso e aduziu:

            - Isso me faz lembrar curiosa fábula que me foi relatada por velho índio, numa de minhas excursões no Xingu.

            E contou:

            - Reza uma lenda amazônica que, certa feita, a onça, muito bem posta, surgiu na selva, imensamente transformada. Ela, que estimava a astúcia e a violência, nas correrias contra animais indefesos, escondia as garras tintas de sangue e dizia acalentar o propósito de reunir todos os bichos no caminho da paz.

            Declarava haver entendido, enfim, que Deus é o Pai de todas as criaturas e que seria aconselhável que todas o adorassem num só verbo de amor. Confessava os próprios erros. Reconhecia haver abusado da inteligência e da força. Despertara o terror e a desconfiança de todos os companheiros, quando era seu justo desejo granjear-lhes a simpatia e a veneração. Convertera-se, porém, a princípios mais elevados. Queria reverenciar o Supremo Senhor, que acendera o Sol, distribuíra a água e criara o arvoredo, animada de intenções diferentes. Para isso, convidava os irmãos à unidade. Poderiam, agora, viver todos em perpétua harmonia, porquanto, arrependida dos crimes que cometera, aspirava somente a prestigiar a fé única. Renunciaria ao programa de guerra e dominação. Não mais perseguiria ou injuriaria a quem quer que fosse. Pretendia simplesmente estabelecer na floresta uma nova ordem, que a todos levasse a se prosternarem perante Deus, honrando a fraternidade. Solenizando o acontecimento, congraçar-se-ia a família do labirinto verde em grande furna, para manifestações de louvor à Providência Divina. Macacos e cervos, lebres e pacas, tucanos e garças, patos e rãs, que oravam, em liberdade, a seu modo escutaram o nobre apelo, mas duvidaram da sinceridade de tão alto discurso. Todavia, apareceram serpentes e raposas, aranhas e abutres, amigos incondicionais do ardiloso felídeo, aderindo-lhe ao brilhante projeto. E tamanhos foram os argumentos, que a bicharada mais humilde se comoveu, assentando, por fim, que era justo aceitar-se a proposta feita em nome do Pai Altíssimo. Marcado o dia para a importante assembleia, todos se dirigiram para a toca escolhida, repentinamente transfigurada em santuário de flores. Quando a cerimônia ia a meio caminho, com as raposas servindo de locutoras para entreter os ouvintes, as serpentes deitaram silvos estranhos sobre os crentes pacatos, as aranhas teceram escura teia nos orifícios do antro, embaçando o ambiente, os abutres entupiram a porta de saída, e a onça, cruel, avançou sobre as presas desprevenidas, transformando a reunião em pavoroso repasto... E os bichos que sobraram foram escravizados na sombra, para banquete oportuno...

            Nosso amigo fez longa pausa e ajuntou: - A união de todos os credos é meta divina para o divino futuro, mas, por enquanto, a Terra ainda está fascinada pelo critério da maioria. Como vemos, é possível trabalhar pela conciliação dos religiosos de todas as procedências; no entanto, segundo anotamos, será preciso enfrentar a onça e os amigos da onça. .. Onde o melhor caminho para a melhor solução?..

            Sorrimos todos, desapontados, mas não houve quem quisesse continuar o exame do assunto, após a palavra do engraçado e judicioso comentarista.

Religiões Irmanadas
Irmão X
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Agosto 1971

Uma vaga no Sinédrio

               Conquanto fracionadas, nem por isso as seitas judaicas deixavam de coexistir. Era o Judaísmo marcado por um divisionismo variegado: escribas, doutores da lei, saduceus, terapeutas, nazarenos, samaritanos (apesar de mal vistos), schamaítas e hilelitas (os fariseus, que se subdividiam em sete correntes), os essênios, etc. Dentre todos, os príncipes dos sacerdotes dominavam o Sinédrio, sede desse “episcopado” de há 2000 anos, que tolerava, ora mais, ora menos, os cultos similares, num ensaio muito curioso do que seria, afinal, o primeiro movimento ecumenista...

            Então, surgiu jesus, o enviado celeste, que não viria destruir a lei, mas dar-lhe cumprimento. Houve o histórico entrechoque da nova doutrina cristã com a dos judeus. O Sinédrio ganhou a luta preliminar, inculcando no povo uma série de maranhões contra o Senhor e arrancando de Pilatos a sentença abominável. Jesus pagou alto o preço da sua firmeza; mas ela lhe daria, depois, a grande vitória do mundo. Seu sacrifício fincou a árvore do Evangelho, que medrou e se ramificou, sobrepairando frondosamente acima dos urticais da intolerância e da pacificação de fancaria. Sendo a Doutrina de Jesus uma superação do politeísmo e um avanço do henoteísmo (termo criado pelo orientalista e estudioso das religiões Max Müller (1823-1900) para designar a crença em um deus único, mesmo aceitando a existência possível de outros deuses. - do blog)., e apresentando, o seu monoteísmo, alguns parâmetros com a doutrina dos judeus, certamente os líderes religiosos não desprezaram a hipótese de chamar o novo profeta ao seu convívio, a fim de que formasse ao lado dos sacerdotes. Um convite à coexistência pacífica. Melhor dizendo: uma vaga para o Cristo no Sinédrio.

            Mas Jesus, mesmo sem precisar do expediente que Homero ensejara a Ulisses, não se deixaria embair pelo canto e o encanto das sereias do Templo... Não que se colocasse numa posição enfatuada, de altanaria condenável, ou porque o convite não lhe inspirasse confiança, mas sim, principalmente, porque o Cristianismo não vinha para ser apenas mais uma religião, irmanada às preexistentes. Por isso mesmo, abriu mão da vaga que lhe poderiam oferecer e deixou-se ficar do lado de fora, sozinho com sua verdade: “Eu sou a Luz do mundo”; “Eu sou o Pão da Vida”; “Eu sou o Bom Pastor”; “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. E quando Pilatos, desprezível, pergunta-lhe se é rei, o Mestre não tergiversa: “Tu o dizes”.

            O Cristianismo era a verdade que surgia. Jesus, à guisa de pacificação, de entendimento, de harmonia, poderia ter-se enfileirado ao lado dos fariseus, dos saduceus, dos escribas, com o poético talante de irmanar-se, e, com o tempo, talvez converter os outros. Não o fez. Não queria para a sua doutrina um lugar ao sol; ela era o próprio Sol. Não pretendia uma vaga no Sinédrio; ela estava acima do Sinédrio. Era a Religião. Nessa posição, não foi perdoado. Logo seria preso, escarmentado e suspenso à cruz. A ressurreição, porém, testemunhou sua superioridade e coonestou lhe a firmeza do silêncio, ante o convite da confraria duvidosa. O Sinédrio, hoje, é ruínas; e Jesus dividiu a História em Antes e Depois dele...

            Dezenove anos mais tarde, Allan Kardec compreendeu essa posição e também se forrou ao envincilhamento (enredamento, emaranhado - do blog). Mas, atualmente, parece que ninguém entendeu ninguém, e aí temos, enfatizados, movimentos que surgem debaixo da aflição de conseguir para o Espiritismo um lugar ao lado das demais religiões. E o jargão é dolorosamente o mesmo: religiões irmanadas, ecumenismo, diálogo, pacifismo ... Enfim: uma vaga no Sinédrio para o Espiritismo. “o santa simplicitas!” - diria João Huss, Recordemos, a tempo, Jesus. É preferível o insulamento do escárnio, do vilipêndio e da cruz à comunhão suspeitosa do aplauso, do sorriso e da reverência. Nessa preferência é que também o Espiritismo, por ser a Religião, dividirá igualmente o mundo em Antes e Depois de Kardec...

Uma Vaga no Sinédrio
Editorial

Reformador (FEB) Agosto 1971