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sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Muralhas...


Muralhas...

Leopoldo Cirne
por W. Vieira
Reformador (FEB) Março 1972


            Espíritas! Fugi à inconstância do vento que passa, despreocupado... Não brinqueis de viver.

            Toda a Lei Divina é inderrogável. A bússola do Criador jamais emperra.

            Os sentidos humanos são restritos e enganadores: num diminuto ponto do infinito que contemplais, quantos milhões de mundos não se ocultam? Numa gota d’água, quantos milhares de vidas? Numa página simples, quantas formas de pensamento? Numa frase comum, quanta ideia a brilhar? Apenas o estudo pode induzir-vos a ultrapassar as balizas estreitas do vosso cérebro limitado.

            Avançai incessantemente, na Terra, por labirintos de incógnitas desafiadoras. Por isso, não desistais de aprender.

            Nossa inteligência é fonte sublime a correr, inestancável, e, quase sempre, se perde desaproveitada na vacuidade do inútil. Não malbarateis o talento das horas e o dom da saúde física.

            Cada volume compendia determinado tipo de experiência.

            Mergulhai raciocínio e atenção nos livros edificantes que ensinam a libertação interior.

            Os transeuntes da carne demandam a Eternidade, e o que se aprende, agora, grava-se na memória de maneira indelével.

            Valorizemos na carteira do trabalho o abecedário da Vida.

            Não cultiveis fadigas esmagadoras nem desilusões amargosas. Derribai os muros da ignorância que vos interceptam o caminhar, superando os obstáculos sorrateiros atulhados no próprio “eu”: aqui, o mofo pestilencial do desânimo; ali, a traça insaciável do vício; além, a ferrugem corruptora da preguiça; alhures, a entranhada poeira da indiferença.

            Entesouremos, hoje, a centelha de uma página; amanhã, o revérbero de uma lição; depois, a pequenina chama de um bom conselho, varando os turbilhões de trevas que se nos enquistam na vereda a palmilhar.

            O estudo - seara do aprendizado - é semelhante à plantação em que a leira devolve as sementes multiplicadas centenas de vezes.

            Estudai servindo, seja envergando a bata do Magistério, o avental da Ciência, a beca da Filosofia, a estamenha da Fé, a túnica do Lar, a manta da Lavoura, o burel da Arte ou o macacão do ofício obscuro.

            Conquistai as muralhas encadernadas das bibliotecas.

            Estudar - eis a palavra de ordem para a escalada aos montes resplendentes da vida!

            Se não há corações impermeáveis à energia do amor, não existem mentes impenetráveis ante a força da luz! 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Misericórdia



Misericórdia

Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Agosto 1955

  
            Não aguardes a queda espetacular do próximo nos despenhadeiros do crime ou do sofrimento, para exercer o dom da misericórdia que o Senhor cultivou em nossa fé.

            Mais vale o amparo previdente na preservação do equilíbrio, que o remédio de efeito problemático no reajuste.

            Não desperdices teus minutos, na expectação inoperante, exclamando à frente dos problemas difíceis:

            - Amanhã, farei alguma coisa.
            - Depois, tentarei realizar.
            - Um dia chegará...
            - Quando a oportunidade surgir".

            Ataca, hoje mesmo, o serviço da fraternidade para que a compaixão não seja em teu espírito ornamento inútil.

            Sê misericordioso para com os que te cercam

            Inicia a obra de benemerência, em tua própria casa, distribuindo algumas palavras de incentivo com quem comunga teu cálice de luta,
            Ajuda aos velhos abnegados de teu caminho com algum sorriso de compreensão, restaura a coragem na alma da esposa, restabelece o bom ânimo do companheiro, auxilia os irmãos, usando a chama milagrosa do carinho, e não te esqueças do apoio que os corações juvenis reclamam de tua boa vontade e de tua experiência que o Cristo enriqueceu.

            Há mil meios de praticar a misericórdia cada dia.

            Não olvides o silêncio para a calúnia, a bondade para com todos, a gentileza incessante, a frase amiga que reconforta, a roupa que se fez inútil para o teu corpo, suscetível de ser aproveitada pelo irmão mais necessitado, o pão dividido, a prece em
comum, a conversação edificante, o gesto espontâneo de solidariedade...

            Ninguém é tão pobre que não possa dar alguma coisa aos semelhantes, e aquele que se compadece e ajuda cede ao próximo algo de si mesmo.

            Não te detenhas, portanto. Não admitas que a incerteza ou o temor te imobilizem o passo.


            Vale-te das horas e auxilia sempre, sem ostentação de virtude, sem reclamação, sem alarde e a vida entesourará as tuas migalhas de amor, delas formando a tua riqueza imperecível na bem-aventurança do Céu. 

Alguma Coisa


Alguma Coisa
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Agosto 1955

            Quando observares o incêndio lavrando na vizinhança, não é preciso te candidates ao titulo de herói, procurando tarefas de integral remoção do perigo. Faze alguma coisa, para que o fogo se reduza ou se extinga e terás agido com a fraternidade no coração.

            Se a miséria visita a paisagem social em que respiras, não é necessário te convertas em salvador apressado. Traze a quem sofre uma gota de remédio ou a côdea de pão que te sobra na mesa farta e terás cumprido o dever da solidariedade humana.
            Se o desastre feriu aqueles que te seguem de perto, não é imperioso te transformes em pessoa milagrosa. Coopera, de algum modo, com os teus braços amigos, para que os problemas sejam solucionados e revelar-te-ás em bom caminho.

            Se a maledicência acumula amontoa espinheiros, em torno de alheia reputação,  ninguém espera sejas o advogado dos ausentes. Basta que faças algum silêncio ou que  pronuncies uma frase de caridade verdadeira e marcharás na senda de elevação.

            O Céu não reclama dos homens a santidade improvisada e  nem exige que a criatura abandone hábitos seculares de um dia para outro. Aguarda, sim, a nossa migalha de boa vontade na redução dos variados enigmas da luta humana.

            Em verdade, grande é a dor que martiriza os corações vinculados à Terra...

            Realmente, a aflição é hoje problema generalizado, em todas as latitudes do Globo, mas, quando cada coração fizer alguma coisa,  cada dia, pela vitória do bem, estaremos alcançando para o mundo inteiro a graça da felicidade imortal.


segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

6f. AntiCristo senhor do mundo

*

6f

            Mas o espírito reacionário e intolerante que vinha, de séculos, minando a instituição e estava longe de ser uma criação original dos jesuítas, permaneceu com o partido politico da igreja. Para nos não alongarmos na ingrata rememoração dos múltiplos atentados por ele perpetrados contra a livre evolução do pensamento humano, evocaremos apenas os nomes de três de suas mais ilustres vítimas: Nicolau Copérnico, Giordano Bruno e Galileu. Missionário da Providência, para imprimir à astronomia e às ciências exatas o cunho de florescimento que se observava na literatura e nas artes, o primeiro, com razão considerado o genial precursor de Newton na descoberta da lei de gravitação universal, pois que a pressentiu e formulou como hipótese em relação à matéria, entrevendo lhe a possibilidade de estender-se aos corpos celestes, sofreu a mais rude oposição do clero supersticioso e ignorante. Apesar de haver dedicado a Paulo III a sua obra Revolução dos Orbes Celestes e reclamado a proteção da igreja, a fim de "evitar apreciações perigosas e injúrias", teria sido condenado às chamas purificadoras da fogueira, suspeito que se tornara à ortodoxia religiosa, por haver demonstrado o duplo movimento dos planetas sobre si mesmos e em torno do sol, se do suplício o não tivesse previamente libertado a morte repentina, logo em seguida à publicação da mencionada obra. Mas os seus livros, inscritos no lndex, aí permaneceram até 1835  de par com o Epitome de sua astronomia, elaborado por Kepler.

            Giordano Bruno, que em moço envergara o hábito de dominicano, largando-o em 1580 quando, em Genebra, adotou o calvinismo, para de seguida percorrer a França, como didata e renovador, obteve, graças à proteção de Henrique III, permissão do reitor da universidade de Paris para aí ensinar filosofia, alcançando notáveis sucessos. Combateu com eloquência o ensino oficial, impugnando a lógica de Aristóteles e a astronomia de Ptolomeu, a que opunha, com os mais sólidos argumentos, a de Copérnico. Pensador de largo descortino, preconizava a ideia de um mundo infinito, submetido à evolução eterna e universal.

            Passando à Alemanha, continuou a ensinar a sua doutrina, sendo em toda parte acolhido com entusiasmo pelos estudantes, mas tornando-se cada vez mais suspeito à igreja pelo arrojo de suas convicções.

            Em 1592 cometeu a imprudência de voltar à Itália, caindo sob as garras ferozes da Inquisição, que o fez prender e intimou a abjurar as suas avançadas opiniões. Prezando mais a verdade que a própria vida, recusa nobremente submeter-se, é excomungado e degradado. Concedem-lhe oito dias para confessar as suas culpas, mas nem de leve conseguem abalar-lhe a intrépida firmeza, e é afinal queimado vivo, com grande solenidade, como "apóstata, herético e violador de seus votos."

            Galileu, a seu turno, cujo merecimento consistiu, como o de Kepler, em "iluminar o caminho e converter a hipótese em ciência", foi declarado herege por alguns pregadores estúpidos" e, denunciado por um frade à Inquisição, que verberou de "falsa e contraria às divinas Escrituras a doutrina da mobilidade da Terra", só escapou ao suplício da fogueira por ter tido a fraqueza de abjurar como errônea essa doutrina. Proibido pela congregação do lndex de professar e defender o sistema de Copérnico, teve afinal de comparecer perante o tribunal do "santo oficio" e aí solenemente declarar que a Terra era imóvel, não sem contudo exalar o brado de consciência na celebre frase: "E pur si muove!" Mas foi ainda assim condenado à prisão "pelo tempo que se julgasse necessário".

            Com essas medidas de odiosa compressão visava o inimigo incompatibilizar ainda mais a igreja com a causa da liberdade e do progresso, logrando realmente acirrar um antagonismo de que haviam de resultar, como o veremos em capítulo adiante, as mais funestas consequências, pelo dissídio criado entre a religião e a ciência.

            Não podia, entretanto, o Senhor, sempre vigilante, consentir que ficasse de todo privada a humanidade do alimento espiritual, de que é Ele a fonte viva. E, pois que do concílio de Trento, não obstante as graves mutilações do programa que, segundo vimos, lhe estava naturalmente traçado, havia de todo modo resultado um salutar movimento de reação no seio dessa mesma igreja e como era ela, e continuaria ainda a ser por alguns séculos, uma força admiravelmente organizada, foi aí que suscitou o aparecimento de plenipotenciários da sua graça e bondade, com a missão de promover um sadio reflorescimento espiritual da família cristã, que de alguma sorte compensasse o recrudescimento façanhudo da nefanda instituição, a que se refere ainda uma vez o historiador.

            "Infelizmente - diz ele - recobrou ao mesmo tempo a inquisição novos alentos. Organizou confrarias de homens e de mulheres, atraídos pelo engodo de certos privilégios e indultos, que a serviam como "familiares". No seu zelo cruel, não só sindicava das opiniões heterodoxas, senão também dos atos religiosos; cheirava as cozinhas à sexta-feira, virava e revirava cada expressão dos professores das universidades. O poder civil teve de reclamar contra as suas usurpações; depois de se queixarem do mal, os príncipes tinham que se queixar também dos remédios."

            Opondo então luminoso contraste à tenebrosa atividade dos imitadores de Torquemada e, simultaneamente, à tibieza religiosa e a relaxação de costumes por que se assinalava ainda o começo do século, recorda o historiador que "os agiológios se ilustraram com muitos nomes novos, como os de Catarina, descendente dos duques de Cardona, de soror Beatriz d'Oñes, de Diogo e de Pedro de Alcântara, que renovaram em Espanha as macerações da Tebaída. João da Cruz, associado a Santa Tereza, comentou em versos e meditações o Cântico dos Cânticos; João d'Ávila fez ouvir às cidades e às montanhas da Andaluzia a sua vigorosa palavra; João de Granada deu aos dominicanos uma filosofia cristã, para lhes dirigir o pensamento, e um sermonário para lhes regular a eloquência; Luiz de Leon acostumou a poesia a exprimir ideias religiosas. Na Polônia,  Estanislau Kostka, na Itália, Luiz de Gonzaga e Madalena dos Pazzi foram modelos de pureza e castidade." E assim por diante.

            Sobrelevando-se a essa vaga humana de novos condottiere da Fé, que vinham sanear a atmosfera da igreja com exemplos e fervorosos entusiasmos, cuja tradição se havia quase totalmente extinguido, praz-nos destacar algumas figuras de eleição, transportadas a tais eminências do espírito verdadeiramente cristão, que recorda-las nalguns de seus traços mais característicos, não é somente render testemunho de que o Senhor Jesus permanecia com aquela parte da Igreja que se lhe conservava fiel, mas oferecer aos leitores, perfeitamente na índole de um trabalho como este, matéria de estímulo e de edificação.

            Abre a série Tereza de Jesus, vocação acentuadamente religiosa desde a infância, expressa na fuga da casa paterna, com um irmãozinho, para se dedicarem, por uma sorte de precoce instinto, ao serviço de Deus. Ingressando mais tarde na Ordem das carmelitas, reformou-a para "carmelitas descalças", em moldes, se de maior austeridade, que provocasse na alma transfigurações divinas, impondo todavia, com um raro senso da psicologia humana, trabalhos e ocupações ordinárias que obstassem os extravios do pensamento, com frequência resultantes da ociosidade.

            A história da sua vida, por ela mesma escrita em obediência aos seus superiores, é um admirável compendio de iniciação no transcendente mistério da união da criatura com o seu Criador - união interior, consciente e mística – do mesmo modo que as suas obras inspiradas na teologia cristã, notáveis pela originalidade e profundeza, em contraste com a escassa instrução que recebera e se reflete mesmo na incorreção do estilo, ao mesmo tempo, singelo e gracioso, representam um documento vivo de quanto pode a graça do Senhor; iluminando aquele que se lhe entrega sem reserva. Mas o que, a nosso ver, constitui o merecimento supremo da sua vida, é essa mesma vida, mortificada, na adolescência, de cruciantes padecimentos físicos, extremados em dolorosíssima paralisia, suportados, porém, com resignação e coragem exemplarmente cristãs, e depois desdobrada, com atividade infatigável, no amparo às criaturas do seu sexo, convertendo-as a Jesus e edificando-as com os testemunhos de uma humildade, comovedora a poder de profundamente sentida, só comparável nesse efeito aos iluminados e transfiguradores colóquios em que se entretinha com o Divino Salvador e Mestre.

            A tais atitudes de angélica pureza se havia alcandorado o seu espírito amantíssimo!

            Recordemos em seguida essa doce e indulgente figura de Francisco - singular predestinação, por assim dizer, a desse nome! - filho dos condes de Salles, na Saboia, que foi bispo de Annecy e de Genebra (1602). "Pregou no Chablais, onde os bernezes tinham introduzido o calvinismo; operou conversões principalmente pela afeição e estima que inspirava e restabeleceu nesse país o culto católico. Alma tranquila e serena, trabalhava sempre, mas sem esforço nem precipitação. Carlos Borromeu surgira armado de qualidades enérgicas, de faculdades soberanas, de uma autoridade que se impunha e, porque assim digamos, da vara da penitência, para converter e disciplinar os cristãos paganizados. Francisco de Salles, ao contrario, apresentou-se animado pelo espírito de mansidão e revestido de seduções para atrair ao seu caminho os filhos rebeldes da Igreja. Com Joanna Francisca Fremyot, viúva de Chantal, fundou a ordem da Visitação, destinada principalmente a receber as mulheres excluídas, pela delicadeza de sua constituição física, das ordens mais austeras, as quais eram dispensadas de recitar os ofícios e de cumprir os
preceitos demasiadamente penosos".

            Entre os livros que publicou merecem destaque a Introdução à vida Devota, que pode ser considerada um gracioso complemento da Imitação de Cristo, e sobretudo a sua Filotea, "inspirada por um cristianismo repassado de mansidão, em que a linguagem, apesar da incorreção e da exuberância das imagens, conserva um encanto particular. À virtude mística reunia um são juízo e grande senso prático; a sua vida foi toda de ação. Exerceu especial influência nas mulheres pela sua devoção bondosa e amorável. Condescendente quanto possível, nem sequer proibiu a dança a Filotea; na ordem da Visitação procurou antes a mortificação da vontade que a da carne; mas, apesar de sempre rodeado de mulheres, era tão escrupuloso e delicado em suas relações com elas que nunca falava a sós com nenhuma".

            Não menos fascinante era o prestígio que desfrutava entre as crianças, do que nos oferece tocante descrição o seu biógrafo Luiz de Ia Riviêre, nestes termos:

            "Todos os domingos e, no tempo da quaresma, aos sábados depois de jantar, ensinava o catecismo às crianças, uma hora antes disso, um arauto percorria a cidade, vestido de cor violeta, tocando uma campainha e gritando: À doutrina cristã; ensinar-vos-ão o caminho do paraíso. Tive a honra de participar desse bendito catecismo e nunca vi espetáculo semelhante: aquele amorável e verdadeiramente bom pai estava sentado numa espécie de trono, elevado sobre cinco degraus; rodeava-o todo o exército infantil e muitas pessoas das mais qualificadas, que não desdenhavam de ir ali receber o alimento espiritual. Era um contentamento sem igual ouvir como ele expunha familiarmente os rudimentos da nossa fé; a cada pensamento brotavam-lhe dos lábios riquíssimas comparações para o exprimir; olhava para os seus inocentes discípulos, e os discípulos olhavam para ele; tornava-se criança como eles, para neles formar o homem interior e o homem perfeito segundo Jesus Cristo." E noutro lugar: "Parecia mais que nunca estar no seu elemento quando se achava no meio das criancinhas; eram aquelas as suas delícias e as suas distrações; ameigava-as com um sorriso e um modo tão gracioso como o não podiam ser mais. Elas lhe correspondiam chegando-se para ele com toda a confiança e afeição. Era raro sair de casa que se não visse rodeado daquele bando angélico que, reconhecendo-o como seu amorável pastor, acudia a pedir-lhe a benção. As vezes os seus criados ameaçavam as crianças e lhes faziam sinal para se retirarem, receando que o importunassem; quando, porém, ele dava por isso, os repreendia com brandura e lhes dizia afavelmente: Deixai-os, deixei-os vir! Depois, acariciando as crianças e passando-lhes a mão pelas faces, continuava: eis aqui a minha pequena família; a minha família é esta."

            Sementeira divina a que o bondoso pastor, verdadeiro imitador de Jesus, lançava naquelas almas em preparação para os rudes combates deste mundo!

            Omitindo outros vultos de relevo semelhante, detenha-mo-nos a considerar Philippe de Neri, "florentino, que reunia a uma vasta erudição a humildade, que tão raro a acompanha, levada ao extremo de procurar a desatenção do mundo com tanta solicitude como outros requestam a sua admiração. Tinha por amigos os homens mais doutos, como Tarugi, pregador ilustre, confessor e cardeal, Silvio Antoniano, letrado e poeta, que escrevia os breves pontifícios, o famoso médico Miguel Mercati e Baronius, que ele incitou a empreender o seu grande trabalho dos Anais; e, contudo, postava-se debaixo dos pórticos de S. Pedro, confundido com os mendigos; aparecia também às portas dos cambistas, nos tribunais ou à entrada dos palácios, e em toda parte insinuava, com sua inalterável doçura ou com a vivacidade da sua nação, a caridade e a justiça, amparando por vezes a virtude prestes a cair. Mostrava-se tão indulgente nas coisas acessórias quanto inflexível nos pontos capitais; no confessionário sondava as consciências com extraordinária perspicácia e no oratório admitia a mocidade a devoções agradáveis e a estudos liberais."

            A oratória sacra adquiriu por esse tempo grande relevo, do mesmo modo que João de Ramillon, fundando a ordem da Doutrina cristã, muito contribuiu para reorganizar-se a instrução elementar. Bourdoisse, reconhecendo a necessidade de restabelecer a disciplina e a ordem moral entre os eclesiásticos, sujeitava à vida em comum o clero das paróquias na congregação dos padres de S. Nicolau de Chardonnet. Pedro de Berulles, eclesiástico de elevada categoria, organizou, a exemplo de Philippe de Neri, os padres do Oratório (1611), ligados por simples promessas, congregação em que, ao contrário da disciplina exclusivista, implacável e anticristã dos jesuítas, a norma adotada consistia na formula: entra quem pode e sai quem quer, e destinava-se a formar bons sacerdotes. Logo estabeleceram seminários e outras escolas, apresentaram excelentes pregadores e produziram em poucos anos muitas obras de teologia, de eloquência, de literatura amena, de crítica e de história.

            A criação de novas ordens, ademais, e a reforma das antigas adquiriram considerável incremento. Nelas "não se repetiram as austeridades excessivas, as eternas salmodias, as prostrações frequentes, que em séculos rudes tinham parecido necessárias para domar os sentidos; cuidou-se antes do recolhimento da alma, da mortificação da vontade e da educação das inteligências e dos sentimentos."

            Multiplicaram-se também as obras de caridade e de assistência social, para mitigar a miséria e os desastres causados pelas guerras que, durante o século, haviam assolado vários países. Entre os institutos dessa natureza cumpre destacar o das filhas ou irmãs da Caridade, fundado por Luiza Legras, de Marillac, que as enviava "às trinta e quarenta para os campos de batalha, para as cidades cercadas e, até, a países estrangeiros, para socorrerem os enfermos, como o fizeram em Varsóvia durante a peste de 1652".

            E pois que falamos de caridade, rematemos a breve nomenclatura, que nos propusemos assinalar, dos grandes santos, com o excelso campeão que dela foi Vicente de Paulo.

            Nascido na França (Dax) em 1577, de uma família burguesa, viveu 83 anos, como se vai ver, empregados de modo incomparável no exercício do seu ministério verdadeiramente sagrado.

            “Tendo vindo ao mundo numa época em que as guerras de religião haviam devastado o seu formoso país e em que os reis multiplicavam a miséria dos povos, Vicente empreendeu suavizar todos os sofrimentos com o auxílio do Cristo. Nesse intuito solicitava a beneficência dos ricos e fornecia aos camponeses dinheiro, instrumentos de lavoura, sementes, para eles voltarem aos seus trabalhos e cobrarem ânimo. Recolheu com ternura paternal as inúmeras crianças abandonadas pela miséria ou pelo vício e as confiou aos desvelos das Irmãs de Caridade (1652), as quais, por ele exortadas, abandonaram os regalos da vida para tratarem dos enfermos e serem mães, segundo Jesus, das crianças enjeitadas por suas mães segundo a carne. E, por último, meteu-se nas galés, para socorrer os desgraçados proscritos pela sociedade e transformar as sentinas do crime em escolas de regeneração.
            "Informado da mísera situação em que a guerra deixara a Lorena, reduziu a congregação ao mais estritamente necessário, para poder socorre-la, e mandou para a desgraçada província quantas esmolas pode colher. Era tal a miséria que até as filhas de casas ricas não raro vendiam a honra para comprar pão; as freiras rompiam a clausura para mendigar; os curas morriam de inanição com os paroquianos, ou atrelavam-se à charrua, por não haver bois. Houve mães que devoraram os filhos. Os lobos infestavam os campos desertos e devoravam os homens, como estes haviam devorado cavalos e cães. A fome se estorcia por toda parte, assim nas cidades como nos campos; em Metz, em Toul, em Verdun, todas as manhãs se encontravam nas ruas dez ou doze pessoas mortas à mingua.
            "Vicente, incansável na sua caridade, inesgotável nos seus recursos, conseguiu mandar para a Lorena seiscentas mil libras, ele que não tinha um ceitil de seu; nessa grande obra de beneficência utilizou os missionários, que abriam caminho através dos assassinos e dos croatas e, uma vez chegados ao seu destino, recolhiam as crianças, tratavam dos enfermos, procuravam amas de leite. Entretanto batia ele às portas dos mais altos personagens, enternecia os corações mais empedernidos e movia a rainha a dar-lhe até os tapetes das suas câmaras. Depois, quando a continuação da guerra arremessou os habitantes na direção de Paris, deu-lhes asilos e os sustentou; colocava as mulheres junto às senhoras abastadas, fornecia aos homens instrumentos de lavoura e meios de fertilizar o solo; para as pessoas de condição elevada pedia socorros às famílias nobres, cuja caridade se estimulava com os sacrifícios a que ele se sujeitava, porque muitas vezes a sua congregação não tinha que comer no dia seguinte.
            "Os reis dilatavam os males da guerra pelo Artois, pela Picardia, pela Champagne, reduzida ao desespero e à fome, e Vicente derramava sobre essas províncias os tesouros da sua caridade. Debelados enfim esses flagelos, redobrou de zelo para acudir aos infelizes e consolar os desesperados; apresentou-se a Richelieu e disse-lhe: "Senhor, dai a paz à França e às suas províncias desoladas; tende piedade de tantos desgraçados concidadãos."
            "Tinha fundado em Roma (1652) a congregação das Missões, composta de padres seculares que faziam voto de continência e durante oito meses de cada ano pregavam, confessavam, ensinavam crianças, socorriam pobres e doentes, aplacavam ódios, promoviam a justiça e terminavam os seus trabalhos com uma comunhão geral. Nunca deviam sentar-se à mesa senão entre dois mendigos e diziam: "Somos os padres dos pobres; Deus nos escolheu para alívio deles; é este o nosso dever essencial, tudo o mais é acessório". Instituiram em pouco tempo vinte e cinco missões, que se elevaram a oitenta e quatro.
            "Não se limitaram à França; espalharam-se pela Córsega, dilacerada por implacáveis vinganças, e pela Itália, onde o Piemonte, o território de Genova e a Romanha ofereciam ao seu zelo frequente ocasiões de se exercer. Os pastores das campinas de Roma e dos vales do Apenino passavam meses inteiros sem receber sacramentos e sem ouvir a palavra da religião, ignorando até os princípios capitais da doutrina cristã. Os missionários, para os instruírem, os reuniam à noite nos estábulos ou perto deIes, e nos dias santificados os chamavam ao templo.
            "Vicente de Paulo também percorreu o mundo, desempenhando com incansável fervor a sua missão humanitária; sofreu o martírio do desprezo e da calúnia e vingou-se dissuadindo a rainha de cortar os víveres à cidade de Paris, como o queria fazer para castigar os seus habitantes."

            E não somente Vicente de Paulo teve a iniciativa das missões longínquas para propagação da fé cristã pela caridade ou pelo ensino, que é também uma forma, das mais excelentes, da caridade espiritual.

            "A freira Angela de Brescia, nascida em Desenzano - refere o historiador - pertencia à ordem terceira de S. Francisco ; aos vinte e seis anos de idade anunciou que Deus lhe tinha ordenado fundar uma associação nova: reuniu sessenta e três companheiras saídas das primeiras famílias de Brescia e as colocou sob a proteção de santa Úrsula. As religiosas deviam conservar-se no seio de suas famílias, procurar infelizes para os socorrer, visitar os hospitais e os enfermos e, como quarto voto, educar crianças do seu sexo. As fundadoras compreenderam o alcance da sua obra e diziam: - É preciso renovar o mundo corrompido, por meio da mocidade; as mulheres reformarão as famílias, as famílias reformarão as províncias, e as províncias o mundo. - Não tinham regras austeras nem contemplações; a ativa santa Marta era o seu modelo. Essa excelente instituição de beneficência tornou-se tão benquista que Carlos Borromeu admitiu na sua diocese 400 ursulinas; em 1668 a França tinha 313 casas dessas religiosas, que posteriormente se espalharam pela Europa e pelo Novo Mundo, assinalando-se em toda parte pelos seus serviços, mormente no Canadá, onde pregaram o evangelho aos selvagens."

            Por outro lado, "na congregação da Propaganda fide, três cardeais, três prelados e um secretário se ocupavam em difundir a doutrina cristã e dirigir missões, cujo número pode ser aumentado mercê de muitos legados pios, irradiando desse centro, os missionários se espalharam pelo mundo, desde os Alpes até aos Andes, desde o Tibete até a Escandinávia, catequisando maometanos, budistas, nestorianos, idólatras e protestantes."

            "Esses agentes do catolicismo assinalaram-se muitas vezes por um zelo heroico e levaram a muitos povos os primeiros clarões da civilização. Em compensação das perdas sofridas na Europa, os papas receberam embaixadas e homenagens da Abissínia, do Japão, da Pérsia, dos antigos reinos do Oriente e dos novos países da América, onde se fundaram bispados, conventos, escolas e hospitais."

            Em o nosso Brasil é conhecida, e fulgura nos rudimentos históricos da nacionalidade, a decisiva influencia dos jesuítas, entre os quais se destacam as empolgantes figuras de Anchieta e Nobrega, na catequese dos selvícolas, tentando, a golpes de abnegação e de heroísmo, os primeiros ensaios de civilização cristã, que, mesmo imperfeitamente, aqui se havia de implantar, muito embora não fosse a sua obra, aos olhos de modernos pesquisadores imparciais, isenta de falhas, que lhe atenuam o brilho primitivamente adquirido.

            Tais foram, de todo modo, no breve resumo que precede, os frutos, não mesquinhos, da reação provocada no seio da Igreja pelo movimento da Reforma e subsequente ao concílio de Trento. Vitória assinalada do espírito do Cristianismo, corporificado em tantos missionários, podem ser, entretanto, considerados os últimos clarões dessa igreja, que dele pretende ser depositária, nos domínios da fé e da unidade religiosa. Porque o inimigo, que lhe ronda os passos, é indubitável que se não resignaria inerte a essa derrota, mesmo parcial, não abandonaria por isso a sua presa nem, muito menos, o domínio mundial pertinazmente adquirido e conservado.


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6e. AntiCristo senhor do mundo

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6e

            Depois de enumerar algumas atividades de Inácio de Loiola, como o estabelecimento, em Roma, de um colégio para educar vinte e quatro alemães, destinados a ocupar os bispados e outros altos cargos eclesiásticos, a composição dos Exercícios Espirituais e a redação das Constituições da Ordem, completadas com as Declarações, o historiador assinala com surpresa, que lhe não causaria o fato, se conhecesse o poder da sugestão oculta sobre os ânimos predispostos:

            "Singular fenômeno: um místico fundou uma associação notável pelo seu espírito prático, pelas suas poderosas faculdades de ação; um entusiasta delineou uma disciplina que ficou sendo modelo: um ignorante organizou uma corporação que se havia de assinalar na ciência e influenciar energicamente o espírito humano."

            E prossegue:

            "Os novos religiosos professavam os três votos ordinários, mas obrigavam ti pobreza o individuo e não a corporação, e os seus colégios podiam adquirir e possuir bens. Se ha épocas em que precisa isolar-se da sociedade quem pretende dirigi-la, outras há em que precisa estar perto dela, e nesse caso se achava o século XVI. Compreendendo essa verdade, Inácio de Loiola, que do seu ascetismo só havia colhido motejos e desprezos" - também foi assim, advirtamos de passagem, interrompendo a transcrição, que a plebe, de começo, acolheu Francisco de Assis e os seus companheiros, o que os não impediu de intrepidamente prosseguir em seu glorioso e exemplificador apostolado - "quis que os jesuítas vivessem no mundo social, mas sem se misturarem com ele; deu-lhes colégios, mas não conventos, um hábito eclesiástico, porém não monacal e nem sequer bem determinado, pois que os padres da companhia vestiam-se de mercadores na Índia, de mandarins na China, sempre conforme o uso do país e como o comportava o seu teor de vida, apropositado para a ação enérgica, real, influente. Não deviam cansar os mancebos com trabalhos excessivos nos colégios, sempre bem edificados, nem exigir deles mais de duas horas seguidas de aplicação, e tinham casa de campo para recreação dos discípulos. Nos colégios eram admitidos rapazes de todas as condições; os padres sabiam aproveitar as aptidões de toda espécie e não consentiam que ninguém fizesse votos antes dos trinta anos, para que o longo e penoso noviciado evitasse as profissões imprudentes e os arrependimentos inúteis. Enquanto duravam as provas, os superiores podiam observar as propensões e as faculdades dos noviços, para depois os empregarem nas escolas, junto aos príncipes, na direção das almas; mandavam-nos como missionários para as aldeias ou como mártires para as Índias.” Depois de fanatizados - acrescentemos - por uma férrea e implacável disciplina.
            "Cada província tinha um chefe (provincial) e empregos graduados, dependentes do geral, que residia na capital do mundo católico e que, conhecendo cada um dos seus súditos pelos relatórios dos superiores, dispunha dos rendimentos, dos talentos e da vontade de todos. A sua autoridade era absoluta e perpétua; todavia ao lado dela havia um ‘ad monitor’, escolhido pela congregação geral, para o advertir, quando observava no seu procedimento alguma irregularidade. Para que a sua obediência fosse mais completa" (e não - advirtamos - por espírito de humildade), "os jesuítas não deviam procurar as dignidades eclesiásticas, e ao princípio até se abstinham de qualquer emprego permanente: quando Jay rejeitou o bispado de Trieste, que lhe oferecera Fernando III, toda a Ordem entoou ações de graças."

            Compreende-se quanto havia de calculado e inteligente nesse exclusivismo, que de certo modo subtraía os membros da milícia à dependência hierárquica do papa, com o fim de os conservar de preferência e incondicionalmente subordinados ao "papa negro", como veio a tornar-se conhecido no mundo o geral dos jesuítas.

            "O seu ensino - prossegue o historiador - era gratuito. Não deviam usar de sutilezas na confissão nem de charlatanismo na prédica, nem ter preconceitos na devoção. A regra não lhes exigia rezas contínuas, dias passados no coro, para os não desviar do estudo e da ação útil; também lhes não impunha exageros de disciplina e penitência, para que não macerassem o corpo, que devia ser válido para o serviço da ordem.
            "Não desaproveitando nenhum meio de influência, procurando sempre fazer-se aceitar pela sociedade, em cujo seio operavam, se viam a poesia latina apreciada, exercitavam os discípulos na composição de versos latinos; se estavam em voga as representações cênicas, davam representações, para assunto delas escolhendo fatos da história religiosa. O seu fundador fizera da obediência um preceito capital; os jesuítas, pois, tinham por indeclinável obrigação obedecer ao papado; muito embora procurassem também dirigi-lo, pugnar pela sua autoridade e, portanto, combater sem tréguas os protestantes. Não consideravam, porém, a violência como meio eficaz de combate. Em vez de servir-se das armas sinistras da Inquisição, de dar caça aos hereges, pediram e obtiveram de Júlio III privilégio de os absolver das penas temporais; esse privilégio indispôs contra eles os reis de Espanha e os dominicanos, que não queriam que faltasse alimento às suas fogueiras.
            "Pois que a Reforma havia argumentado com a corrupção e a ignorância do clero, a milícia organizada para a combater precisava assinalar-se pelo saber e pelos bons costumes: efetivamente os padres de Jesus conservaram-se por muito tempo sujeitos a uma severa disciplina moral, e os homens de letras da época estão de acordo em elogiar as suas escolas. Eram, pois, admiravelmente organizados, educados e dirigidos para o desempenho da missão do seu instituto."
            "Mas - acrescenta o historiador, e aí se desnuda a chaga visceral que tornou abominável a instituição - por outra parte o regime, bem estudado e calculado, que lhes dava essa superioridade, mutilava neles a personalidade humana, e a mutilação se efetuava por processos muitas vezes em desarmonia com a moral comum. A obediência os tornava passivos; o rigor disciplinar lhes impunha, como deveres, atos repugnantes de vigilância" (devia dizer espionagem) "recíproca; o zelo pela prosperidade da ordem e pela realização dos seus fins lhes fazia considerar legítimos todos os meios conducentes a esses fins, a essa prosperidade. Inteiramente absorvido pela sua sociedade particular, o jesuíta sacrificava-lhe, quando o supunha preciso, os mais preciosos interesses e os mais sagrados direitos da sociedade geral em que vivia. Quando sucedia serem paralelas as conveniências das duas sociedades, o discípulo de Inácio de Loiola era um vigoroso agente do progresso humano, como quando missionava em mundos novos: se eram divergentes essas conveniências, tornava-se um perigo para os Estados e convertia-se num obstáculo ao desenvolvimento da humanidade. Têm esse inconveniente - remata o historiador - todas as associações que desprendem os seus membros das relações comuns do homem social e que lhes impõem uma finalidade especial."

            Como toda forma de fanatismo - acrescentemos - que oblitera a razão e o sentimento humano e pode levar o indivíduo, com a consciência tranquila, à prática de crimes. Foi o que se deu com esses mesmos jesuítas que, se repudiavam ostensivamente a violência organizada como meio de combate à heresia, não hesitavam na consumação de atentados secretamente planejados, como os que em tão grande número lhes são atribuídos, desde que a sua prática lhes parecia aconselhada pela suprema conveniência da sua ordem ou do papado.

            Recordaremos apenas dois, a título ilustrativo: o caso de Paulo Sarpi, o religioso servita de San Vito que, depois de haver combatido ativamente as doutrinas de Roma, escreveu uma contundente história do concilio de Trento, à qual julgou dever a igreja, para defender-se do libelo tremendo nela formulado, opor a que, em contradita, fez escrever pelo jesuíta cardeal Pallavicino Sforza. "Atacado cinco vezes por assassinos e ferido uma vez, exclamou Sarpi: Reconheço o estilete da corte de Roma. Ficou sendo crença vulgar, mas não fundada em provas, que o golpe havia sido vibrado pelos jesuítas". - Essa, ao demais, era uma das particularidades da sua ação dissimulada e sinistra: ferir na sombra, sem deixar vestígios da sua criminalidade.

            O outro caso é referente a Clemente XIV (Lourenço Ganganelli), o infortunado pontífice a quem coube a, para ele corajosa, determinação de abolir, em 1773, pelo breve Dominus ac Redemptor, a ordem jesuítica, cedendo à pressão e ao exemplo dos governos de Espanha, Portugal, ltália e França, que já a haviam banido dos seus territórios. De tal modo se havia ela, por toda parte, incompatibilizado com as classes mais influentes da sociedade pela concorrência que lhes fazia, sobretudo na esfera dos interesses temporais, pois que eram os seus membros habilíssimos manejadores de negócios. Para ter-se uma ideia da ausência de escrúpulos em que se inspiravam as suas atividades basta mencionar o golpe que, trinta e dois anos antes, lhes fora vibrado pela própria cúria romana, quando - refere a historia - "os papas entenderam que o comércio não devia andar associado à profissão religiosa, Benedito XIV renovou (1741) a proibição já feita por Urbano VIII e, além disso, uma bula do mesmo ano proibiu aos eclesiásticos escravizar índios, vende-los, troca-los, separa-los das mulheres ou dos filhos, priva-los de algum modo da sua plena liberdade. Essas acertadas determinações - assinala o historiador - foram um golpe funestíssimo para a Companhia."

            Pois bem, Clemente XIV que, advertido por denúncia dos intuitos sinistros dos jesuítas, já "não tomava senão alimentos muito simples preparados por um religioso de sua confiança", um ano depois da publicação do breve de extinção, "morreu em grandes aflições." - "Disse-se, acrescenta o historiador, que tinha sido envenenado pelos jesuítas, mas não  apareceram provas nenhumas desse crime". Como as não apareceram de outros semelhantes que lhes são imputados, o que não admira, tratando-se de "uma ordem muito rica, muito poderosa, cujo geral governava despoticamente vinte e seis mil homens, que tinham clientela entre o povo e amigos nas cortes."

            Como quer que seja, a obra planejada por Inácio de Loiola, a impulsos místicos degenerados em fanatismo, teve o seu epílogo em meio de uma execração geral. Porque, em lugar de buscar a glória de Deus, converteu-se num instrumento de poderio mundano, desse modo incidindo na aplicação da sentença do Divino Mestre: "Toda planta que meu Pai não plantou será arrancada."


6d. AntiCristo senhor do mundo



6d

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            "Quando os franceses invadiram a Navarra - informa o historiador, aos termos de cuja narrativa nos cingiremos sempre que possível - acharam todas as fortalezas desmanteladas, à exceção de Pamplona. Estava nessa praça encerrado Inácio de Loiola, fidalgo de Guipuzcôa, que tinha sido pajem na corte de Fernando e Isabel e, depois, fora promovido a oficial. Era um moço leviano, formoso, elegante, bem aceito pelas damas, valoroso como um cavaleiro andante. Ferido, no empenho de repelir os estrangeiros, a cirurgia da época lhe infligiu torturas atrozes; tendo ficado mal encanada a perna que fraturara, o corajoso enfermo ordenou que a tornassem a quebrar, para se lhe fazer depois mais acertado curativo. Preso ao leito durante muitos meses consecutivos, entreteve-se a ler o FLOS SANCTORUM, e essa leitura, impressionando sua alma ardente, lhe transformou completamente o ideal. Como Lutero, sondou os abismos da alma em luta consigo mesma e procurou a reconciliação com Deus; mas em vez de se acolher, como o frade alemão, à terrível doutrina da predestinação, recorreu às obras e buscou a paz na obediência à Igreja. Sonhou então novas empresas de heroicidade, de que a Virgem seria a dama inspiradora, e, abandonando a pátria, pôs se a caminho de Jerusalém, com a ideia de ir arrancar o túmulo de Cristo das mãos dos infiéis (1524),"
            "Chegado a Monserrat, fez a ‘vigília de armas’ aos pés da Virgem, depôs sobre o altar o vestuário mundano, envergou o burel de um mendigo e consumiu três dias numa confissão geral. Para merecer a absolvição, infligiu-se as mais cruéis penitencias. Em Manresa recolheu-se ao hospital e começou a viver como um faquir. Jejuava a pão e agua e só aos domingos se permitia o regalo de umas ervas cosidas. Disciplinava-se três vezes por dia, trazia um cilício sob o burel e uma cadeia de ferro ao pescoço. Ainda não contente com tais mortificações, meteu-se numa cova, para se purificar e ser digno da empresa que ia tentar. Nesta solidão teve visões, o bem e o mal lhe apareciam como guerreiros combatendo na sua alma como na estacada: um, montado num cavalo de luz, vinha de Jerusalém guiado por Jesus, o outro, cavalgando um corcel de trevas, partira de Babilônia, impelido por Satanás. No desespêro produzido por essas alucinações quis matar-se; a fome, as noites veladas, com a boca cheia de terra e o corpo a escorrer água, a pavorosa luta interior o enlouqueceram de todo. Deus apareceu-lhe então. Viu a Trindade, desvendaram-se lhe todos os mistérios das Escrituras. Encontrou a beata de Manresa, uma vidente, que o próprio rei Fernando consultava; cobrou alento para continuar a sua peregrinação e partiu iluminado de Barcelona.
            "O ar do mar lhe restaurou a saúde. Atravessou a França e a Itália. Depois de beijar os pés a Adriano VI, seguiu para Veneza, onde chegou miserável, descarnado, escarnecido por todos; no navio foi apupado pela marinhagem, que intentara converter. Na Palestina visitou os lugares santos, chorando copiosamente; pregou aos infiéis, mas os franciscanos encarregados da guarda do Sepulcro, receando que o seu zelo irritasse os turcos, o fizeram prender e transportar para Veneza, donde voltou a Barcelona.
            "Essas aventuras, o que viu na Europa e na Ásia deram uma direção prática ao seu entusiasmo. Compreendeu que o primitivo projeto que havia formado era quimérico e que urgia não já resgatar Jerusalém, porém salvar Roma. Não se podia arrastar as multidões unicamente com o zelo e a pobreza, desde que os homens se tinham policiado e esclarecido; largou, pois, os andrajos, desistiu das macerações exageradas, volveu às relações sociais, aplicou-se ao estudo e, aos trinta e três anos, começou corajosamente a aprender gramática e filosofia. Fez, porém, minguado progresso. Os escritos a que se aventurou saíram-lhe descosidos, disformes; pregou, todavia, com tanto fervor que a inquisição desconfiou dele, mandou-o calar e, depois, o meteu num cárcere . Restituído à liberdade, dirigiu-se a Paris, sempre estudioso e pobre, sempre exaltado. A Sorbonne também atentou naquela figura singular; interrogou-o, porém, e não achou que censurar nas suas resposta.
            "Combinando o misticismo do autor da IMITAÇÃO DE CRJSTO com o gênio ativo e cavalheiresco do seu país, empreendeu então fundar uma nova cavalaria, não já para combater gigantes, castelãos e monstros, porém os maometanos, os idólatras e os hereges. Com seis amigos associados aos seus projetos, fez voto, em Montmartre, de se colocar sob a obediência do papa, a fim de empregar nas missões a sua dedicação heroica. Confiados nas promessas do Cristo, os sete entusiastas foram para a Itália e aí, agitando as largas abas dos seus chapéus castelhanos, pregaram a penitência num italiano espanholado, em que os habitantes estavam costumados a ouvir ameaças e injurias, Depois submeteram à aprovação de Paulo III o plano de uma ordem destinada a formar a fé e a propaga-la pela prédica e pelos exercícios espirituais, pela caridade com os presos e os enfermos (1546). O papa sancionou esse plano e deu aos novos religiosos o nome de Clérigos da companhia de Jesus, assim como se dizia soldados da companhia do conde Lando ou de Fra Monriale; Inácio ficou sendo o seu chefe com o título militar de general (geral).

            "Itália e Portugal os admitiram logo. Claudio de Jay foi combater a heresia em Brescia ; Brouet dirigiu-se a Senna para reformar um mosteiro que dava escândalo; Bobadilha partiu para a ilha de Isquia, encarregado de aplacar inimizades ferozes; Lefevre exerceu o apostolado em Parma; Lainez tratou na Alemanha de negociações delicadíssimas; Nufiez foi escolhido para patriarca da Abissínia; Francisco Xavier, que queria juntar um santo à série de heróis que ilustravam a sua ascendência, partiu para as Índias orientaies, investido, diz a bula de sua canonização, "em todos os sinais da virtude celeste, do dom de profecia, das línguas, dos milagres de toda espécie". Depressa se multiplicaram os noviciados, os colégios e as concessões do papa, que viu quanto lhe podia ser útil uma ordem toda dedicada a sua
autoridade."

            Tais foram os primórdios da milícia, que tão poderosa e decisiva influência havia de exercer na reforma que urgentemente se impunha à igreja católica; tal, em rápidos traços, a psicologia do seu criador, cuja exaltada sinceridade não pode ser posta em dúvida, mas em quem a ausência da humildade e do amor verdadeiramente cristão contribuiu para extraviá-lo da missão evangélica, a que o induziriam os pendores místicos despertados em sua alma pela sugestiva leitura da vida dos santos, para o converter, e a sua ordem, num instrumento antagônico dos princípios do Cristianismo.

            Vamos ver, no prosseguimento da narrativa referente à obra realizada e aos métodos empregados pelos jesuítas, quanto, abstendo-se embora de odiosas violências ostensivas, como as praticadas pela inquisição, sem deixar de contribuir com apreciáveis benefícios para o aperfeiçoamento das inteligências, o seu papel contudo foi dos mais funestos, dada a natureza das armas de que se utilizavam - a astúcia, a dissimulação, postas ao serviço de uma vontade inflexível - não para tornar amada dos homens a doutrina de Jesus, mas para impor à cristandade e ao mundo a autoridade humana, intolerante, do papado e, com ela, a supremacia de seus interesses temporais. Exigindo de seus membros, como regra absoluta, a obediência passiva, que os tornava automáticos pela abolição da personalidade, a Companhia, ou aquele que, do oculto, a manobrava contra a sociedade em proveito de uma classe, tinha em vista, fazendo dessa obediência uma força de coesão molecular,
como nos corpos brutos da natureza, constituir-se um bloco de projeção e de domínio irresistível, para realização dos seus objetivos. Tudo o que há de contrário ao espírito cristão.

            Porque o Cristo, que é amor - expressão viva do Pai - e que nos veio libertar de toda lei de servidão, quer ser amado e livremente obedecido, com o consenso da razão e do sentimento.

            Paulo proferiu esta profunda verdade, que havemos de ainda, em outra oportunidade, e no curso desta obra, recordar: "o Senhor é Espirito, e onde há o Espírito do Senhor, aí há liberdade". Esta definição é o libelo condenatório da milícia jesuítica. Posta em paralelo, assim nos métodos de admissão às suas fileiras como em sua finalidade, com a Ordem franciscana, tal como primordialmente a instituiu o seu excelso criador, o contraste ressalta veemente. Enquanto a obra de Francisco de Assis, fundada na humildade e no amor, visava converter os homens a Jesus e fazia da pobreza, individual e coletiva, jubilosamente preferida, um ensinamento prático de renúncia, sem outra coisa exigir dos que na Ordem quisessem ingressar, senão um propósito sincero, ao mesmo tempo que aos seus membros assegurava o patriarca plena liberdade de ação - característicos todos nitidamente evangélicos - a milícia jesuítica foi em torno do papado que arregimentou a sua dedicação incondicional: se impunha aos seus membros os votos de pobreza, obediência e castidade, reservava para si, praticamente, o direito da riqueza e da dominação, e, cerceando lhes absolutamente a liberdade no domínio da ação e do pensamento, só os admitia ao fim de longos anos de preparação, depois de neles completamente aniquilada a personalidade, prontos a fazer um dogma do odioso e amoralíssimo princípio de que "os fins justificam os meios". Se a primeira, em tais condições é obra de Jesus, a outra não pode ter sido mais que uma calculada manobra do AntiCristo, bastante astucioso em suas pérfidas sugestões para dissimular com algumas realizações benfazejas os seus intuitos, ou - o que é talvez mais verdadeiro - incapaz de impedir, graças à fiscalizadora vigilância do Senhor, que ao lado dos seus tenebrosos fins, alguns apreciáveis benefícios fossem realizados pela milícia, no domínio da instrução e da beneficência, com aproveitamento das aptidões e - porque não admiti-lo? - da sinceridade de propósitos de muitos de seus membros. Que ainda nesse episódio da existência da igreja católica o joio e o trigo, da parábola evangélica, andaram associados.

            É o que se evidencia do testemunho da história, no prosseguimento das referencias à obra jesuítica.


6c. AntiCristo senhor do mundo


6c

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            Comentando a decisão adotada a cerca da autoridade absolutista e discricionária conferida ao pontífice, assim se exprime o historiador:

            "Esse resultado era fácil de prever-se: por uma parte os bispos, em vez de aspirar a uma autoridade nova em detrimento da do papa, sentiam a necessidade de salvar a sua à sombra da de Roma; por outro lado os príncipes tinham compreendido que a paz e a segurança dos Estados estavam sendo comprometidas pelas contendas teológicas e que, portanto, mais lhes convinha fazer com que o poder eclesiástico lhes servisse de apoio do que discutir-lhe os limites. Contudo, as dissenções renasciam incessantemente no seio da assembleia, e os soberanos formulavam queixas e reclamações: diziam que os debates se iam excessivamente protelando, que a discussão não era livre, que as deliberações vinham preparadas de Roma e que os prelados curavam demasiadamente do engrandecimento do papado. A verdade, porém, é que eles intrigavam tanto como a cúria, assustavam-se com certas reformas e queriam que o concílio servisse para os seus fins particulares."
            "Pio IV e os seus teólogos - prossegue - tiveram um trabalho infinito para dirigir o concílio através de tão encontradas pretensões estranhas e ir sempre satisfazendo as próprias; por fim despacharam-se as matérias concernentes ao casamento, ao purgatório, à invocação dos santos, ao culto das imagens e das relíquias, aos jejuns e às indulgências."

             E, depois de enumerar as decisões relativas a assuntos disciplinares, como as ordenações, o sacrifício, as investiduras eclesiásticas abrangidas no sacramento da ordem, a residência dos prelados e a independência do clero em relação ao poder civil, assinala:

            "O concílio encerrou-se a 26 de janeiro de 1564, e Pio IV confirmou solenemente os seus decretos, Quem tinha esperado que a união se restabelecesse na igreja, viu que, pelo contrário, havia sido proclamada a sua divisão. Quando a assembleia se dissolveu, já cada qual tinha tomado o seu partido; os interesses políticos influíam nas opiniões religiosas, e o mundo estava dividido em dois campos. O resultado mais proveitoso do concílio foi, pois, aliviar a doutrina católica de muitas superfluidades e de alguns absurdos, reduzir a teologia a um corpo de ciência definido e desembaraça-la da dialética. Mas nem sequer os católicos aceitaram, todos sem restrição, as decisões conciliares. Aceitou-as, primeiro que os outros Estados, a república de Veneza e seguiram-se lhe de perto a Toscana, a Polônia e Portugal. Mas Filipe II só as admitiu com a reserva de observar na execução as leis dos seus Estados. Em França, Carlos IX rejeitou-as, porque lesavam as prerrogativas regias e podiam exasperar os dissidentes; quando Henrique IV resolveu aceita-las, encontrou oposição, de modo que, embora tacitamente reconhecidas, nunca foram recebidas formalmente no reino. Na Alemanha, visto que o pontífice recusava a comunhão sob duas espécies e o casamento dos padres, o concílio nunca foi admitido como lei do Império, mas tão somente a titulo subsidiário, embora os pontos de doutrina se considerassem como emanados da Igreja, e o mesmo sucedeu na Hungria."

            Pio IV fez redigir em 1564 uma profissão de fé, que foi assinada por todos os eclesiásticos e doutores, "em que expôs o dogma com mais clareza do que o expusera o concílio".

            Foi também posteriormente publicado, em obediência à determinação adotada em Trento, um catecismo, de cuja redação se encarregou Carlos Borromeu, auxiliado por três dominicanos, para uso e instrução do povo. Veio a ser esse o Catecismo romano, em sua edição de 1574 sob a forma de perguntas e respostas.

            "Apesar das desordens da época - remata o historiador - e do orgulho, que receava dar razão aos dissidentes, realizou-se em parte a reforma moral da igreja, A idolatria clássica cedeu o passo ao sentimento religioso nas artes, nas letras e no teor de vida. Celebraram-se muitos concílios provinciais, para extirpar as superstições e as práticas absurdas. Decidiu-se reunir outros sínodos de quando em quando, e apareceram reformadores tão zelosos que se diria esperavam fazer voltar a igreja aos tempos apostólicos. Carlos Borromeu, em seu RITUAL, restabeleceu as penitências dos primeiros séculos; João Francisco Bonomo, bispo de Vercelli, delegado para visitar a diocese de Como, dirigiu severas admoestações ao prelado; fez-lhe notar que não devia ter em seu uso móveis de preço e, muito menos, vasos e candelabros de prata, cujo valor podia ser aplicado à sustentação dos pobres. Gregório XIII, para executar rigorosamente os decretos do concilio de Trento, mandou visitadores apostólicos encarregados de examinar as contas das igrejas, dos estabelecimentos de beneficência e das confrarias ; esses delegados, porém, rígidos demais, provocaram descontentamentos, e alguns príncipes, a exemplo de Filipe II, os excluíram dos seus Estados."

            Como efeitos salutares da reação moral operada na igreja e resultante das deliberações adoptadas em Trento o historiador menciona ainda as severas medidas decretadas por Pio V, levadas a extremo exagero, como a condenação a permanecer um dia inteiro de pé à porta da igreja, com as mãos atadas às costas, lançada contra quem violasse o domingo, a pena de açoites, em caso de reincidência, e, no de nova reincidência, a de "ser mandado para as galés, depois do carrasco lhe furar a língua"; recorda que a corte de Roma e a própria cidade assumiram uma fisionomia inteiramente eclesiástica e nelas se introduziu o espírito de regularidade"; assinala que "a púrpura e a mitra foram ilustradas por homens notáveis", cujos nomes indica, assim na Itália como na França e em Portugal (frei Bartolomeu dos Mártires, por exemplo, "o santo arcebispo de Braga") e acentua:

            "A proteção ao saber tomou melhor direção. Na decadência dos estudos religiosos, os jesuítas, animados pelo espírito do catolicismo reformado, puderam apoderar-se do ensino; proveram de colégios, primeiro, Viena, depois Colônia e Ingolstadt, donde se espalharam pela Áustria, pelas margens do Reno e do Meno e estabeleceram-se em Munique, a "Roma alemã". O seu fim era tornar as universidades católicas não inferiores ás dos protestantes. Nessa invasão de um novo gênero da Europa germânica pela Europa romana, os teólogos alemães, em luta uns com os outros e divididos em matéria de crenças, eram vencidos por espíritos menos elevados, porém concordes e que representavam uma doutrina fixa e completamente definida. Ao mesmo tempo os jesuítas instituíam escolas para os pobres e aplicavam-se à pregação com grade êxito. "

            Essa ampliação do papel dos sectários de Loiola no movimento de restauração promovido na igreja, após a assembleia de Trento, estava na lógica das suas atitudes e era o corolário, de certo modo, inevitável da preponderância exercida naquela assembleia, que lhes deveu, incontestavelmente, o êxito, do começo ao fim, dos seus trabalhos. Porque, como o assinalara inicialmente o historiador, ocupando-se das preliminares do concilio:
           
            "Os abusos tinham criado raízes, e os interesses pessoais obstavam a promtas e salutares mudanças - O alto clero envelhecera no meio de costumes e de ideias muito arredadas da austeridade religiosa. O clero inferior, com poucas exceções, seguia os exemplos dos chefes e, além disso, a educação não lhe havia dado as bem temperadas armas de que precisaria para uma luta decisiva. A disciplina se tinha relaxado nas ordens monásticas, algumas das quais davam escândalo com a sua opulência ociosa e outras provocavam o escárnio com a sua pobreza, degenerada em sujidade, com a simplicidade tornada ignorância e até com o seu zelo, ingênuo de mais para uma época de dúvida e discussão" Pelo que, conclui que "Inácio de Loiola apareceu muito a propósito para fornecer a Roma a milícia de que ela precisava."

            A influência que, a partir do concílio de Trento e durante os dois primeiros séculos que se lhe seguiram, exerceu essa milícia nos negócios da igreja, tanto como a destacada personalidade do seu criador, merecem que nos detenhamos um pouco a examiná-las, sobretudo porque numa e na outra se insinua irrefragavelmente, para quem tenha "olhos de ver", a ação dominadora do AntiCristo, pondo em prática o seu método habitual de subjugar a consciência dos desamparados da humildade cristã, quando os não possa arrebatar no tumulto das dissoluções mundanas, para os converter em instrumentos de opressão e intolerância, antagônicas da mansidão evangélica. As medidas de reabilitação moral, exigidas pela situação da igreja e que deveriam fazer objeto das deliberações do concílio, reclamavam homens de fé. Em seu lugar surgiram fanáticos, sendo a primeira vítima o fundador da Companhia de Jesus, cujo determinismo psicológico, à mingua de uma longa preparação anterior, deu lugar à deturpação do que, de começo, se revelara como vocação verdadeiramente genial.


            É o que, numa apreciação, necessariamente sintética, dada a índole deste trabalho, ressalta do exame de sua vida e sua obra.