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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

XXVa et XXVb - 'Apreciando a Paulo'



XXV a
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec - 1958


 
“E digo isto: Que o que semeia pouco, pouco também ceifará;
e o que semeia em abundância, em abundância também ceifará.
Cada um contribua segundo propôs no seu coração;
não com tristeza  ou por necessidade;
porque Deus ama o que dá com alegria.
E Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça,
a fim de que tendo sempre, em tudo, toda a suficiência,
abundeis em toda a boa obra;
Conforme está escrito: Espalhou, deu aos pobres;
a sua justiça permanece para sempre.
(Paulo - Segunda Epístola aos Coríntios, 9:6 a 9)


            “Fora da caridade não há salvação”, eis uma das afirmativas fundamentais do Espiritismo, que deve ser entendida como norma de conduta do verdadeiro cristão.

            O esclarecimento pessoal é útil e indispensável, mas a prática da caridade é maior. Paulo o confirma no capítulo treze de sua Primeira Epístola aos gregos de Corinto, quando começa decantando o valor excepcional da caridade, para terminar proclamando, no versículo treze:

            “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estas três, mas a maior destas é a caridade.”

            A caridade é o perfume do amor, a expressão de sua generosidade e da elevação do Espírito em busca de Deus, que também é caridade ou amor. (I João, 4:8).

            O amor vive e palpita dentro de nós mesmos, como requinte e superioridade do sentimento ou manifestação do reino de Deus, mas exterioriza-se pela caridade, que é carinho, brandura, tolerância, compreensão, abnegação e bondade.

            São Paulo assim define a virtude excelsa: “A caridade é sofredora, é benigna, não é invejosa, não trata com leviandade, não se ensoberbece; não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo sofre, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca falha!” (I Cor., capo 13.)

            Portanto, toda a vez que, no lar ou fora dele, com ou sem razão, nos irritamos, faltamos à caridade.

            Se procedermos no mundo com leviandade, com ironia (que às vezes fere profundamente), com interesse ou com segundas intenções, estaremos agindo sem caridade. A atitude do espírita-cristão deve ser simples e reta, sem nada ocultar com malícia; seu procedimento não deve ser dúbio, satírico ou provocante, mas bondoso e compreensivo. Se folgarmos com o sofrimento de alguém ou com uma injustiça a outrem cometida, mesmo que não tenhamos participado do fato; se suspeitarmos mal ou dermos curso a qualquer maledicência, mesmo com visos de verdade, faltaremos à caridade. Entretanto, tenhamos presente que o genuíno espírita-cristão é nobre e generoso, não dando curso às maldades e sabendo perdoar.

            Enfim, examinando-se qualquer pecado, qualquer ato impuro, inferior ou indigno, ver-se-á que ele é fruto do egoísmo e a negação da caridade - flor sublime do Espírito.

            Os atos positivos são amorosos; os negativos são egoísticos ou pecaminosos.

            Os Mensageiros do Senhor ensinam que a caridade é material ou moral.

            “O Evangelho segundo o Espiritismo”, de Allan Kardec, dedica seu capítulo XV ao tema que ora desenvolvemos. Há ali comunicações proveitosas de Espíritos de luz, que focalizam e examinam o assunto com muita clareza e com verdadeiro sentimento cristão.

            É claro que a caridade material deve envolver sempre um propósito moral. Porém, se a criatura tem fome, Se está desnuda, não lhe bastam as boas palavras, ela precisa também de pão e de roupas. Daí o muito que temos a fazer nesse campo de atividades, através de abrigos para a velhice e para a criança desamparada, e ainda por meio de outras realizações filantrópicas.

            A esse propósito, o dever maior é do Estado, não resta dúvida; mas os espíritas devem agir, como vem fazendo, supletivamente, dentro dos ensinos generosos do Rabi da Galileia.

            Mas lembremos sempre, a respeito, os seus ensinamentos: “Quando pois deres esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já receberam o seu galardão. Quando tu deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.

            “Para que a tua esmola seja dada ocultamente; e teu Pai, que vê em segredo, te recompensará publicamente.” (Mateus, 6:2 a 4)

            Por consequência, ao darmos esmolas ou quando auxiliarmos alguém, guardemos reservas sobre o fato, porque a publicação de favores pode humilhar, e quem humilha seu semelhante, falta-lhe com a caridade. Esta não pode ser objeto de alarde, mas expressão singela e generosa do coração. Destarte, não é justo que façamos de um lado e desmanchemos por outro... trombeteando a magnanimidade feita ou deixando transparecer o gesto, para receber elogios dos homens. Nada de ostentação na prática do bem, nem mesmo em qualquer ato de nossa vida, pois o cristão deve praticar a modéstia, que também é virtude evangélica.

            Assim como Deus ama o regenerado, ama outrossim a quem dá com alegria, como disse Paulo.

            Portanto, se um pobre nos bater à porta em hora que nos pareça inconveniente (não a ele, que precisa), se for impossível atendê-lo, pelo menos não demonstremos irritação, pois que assim faltaremos, duplamente, com a caridade...

            Jamais sejamos arrogantes ao auxiliar alguém. Se dermos com soberba, feriremos mais do que beneficiaremos. Sejamos brandos e excelentes, como verdadeiros cristãos! Deve-se dar algo ao ébrio contumaz? - Sim, mas, de preferência, roupa ou comida. Não adianta muito sermão a quem é desgraçado e tem fome. Falar com aspereza aos alcoólatras é faltar com o amor cristão a esses infelizes, que também são dignos de nossa piedade.

            Escolher a quem dar, é ser juiz entre os pobres, o que nos parece errado; a menos que se trate, evidentemente, de um explorador. Mas ver exploradores em todos os pedintes, quando alguns são mesmo miseráveis, é ter dureza de coração, que merece corrigida.

            Busquemos, de preferência, as misérias ocultas, pois os que já têm coragem de implorar, às vezes sofrem menos.

            Todavia, maior do que a caridade material é, sem dúvida, a caridade moral.



            XXV b
‘Apreciando a Paulo’
      comentários em torno
    das Epístolas de S. Paulo
   por Ernani Cabral

Tipografia Kardec – 1958

            Uma das epístolas mais edificantes do Novo Testamento é a de São Tiago. Achamos que, com ela, ele retifica a tradição de ter sido pouco liberal e muito apegado às exterioridades do culto semítico, que quis introduzir no Cristianismo, chocando-se mesmo, vez por outra, com a amplidão visual de Paulo, o apóstolo dos gentios, que desde sua conversão na estrada de Damasco passou a combater “os preceitos e proibições”, que enxameavam a palavra de Deus, na interpretação casuística dos rabinos. Tiago termina sua admirável mensagem, afirmando:
Saiba que aquele que fizer converter do erro de seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados.” (Tiago, 5:20). Conseguintemente, a maior caridade que se pode fazer à criatura é conduzi-la ao Criador. Mas devemos respeitar os que já têm sua religião, aos quais não devemos atormentar com nossas ideias. Nossa conduta no lar e na sociedade será o maior exemplo e o mais forte argumento para os parentes e amigos. Devemos lembrar que nem todos estão em condições de aceitar o Espiritismo-cristão, e, força-los a isto, é também faltar à caridade.

            A crença tem de ser sincera e espontânea para ser proveitosa ao Espírito. Podemos encaminhar com amor, mas não obrigar os que Estão sob nossa tutela ou direção doméstica. A prece reiterada e sincera em prol de alguém, tem mais poder do que a insistência, que às vezes irrita.

            Assim, devemos lançar a semente, de preferência, no coração dos que não têm religião ou dos que se sentem abalados com a sua. Estes geralmente estão mais aptos a aceitar a nova revelação de Deus, que é o Espiritismo.

            A caridade moral demonstra-se ainda pelo bom conselho ou pela palavra tolerante ou consoladora, pelo estímulo à prática das virtudes cristãs, pela orientação salutar, pelo passe benéfico ou pela oração amiga, enfim, por todos os atos que manifestem amor ou bondade para com o nosso semelhante.

            “O que semeia pouco, diz Paulo, pouco também ceifará.” Mas o que for abundante na caridade, colhê-la-á com abundância em seu coração, onde se implantará o reino de amor do meigo Nazareno. “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará, e viremos para ele, e faremos nele morada.” (João, 14 :23)

            Por fim, o apóstolo das gentes relembra, nessa sua Segunda Epístola aos Coríntios, o valor moral das Escrituras, recordando o Salmo 112:9, que diz: “O justo é liberal, dá aos necessitados; a sua justiça permanece para sempre, e a sua força se exaltará em glória.”

            E ele repete:

            “Espalhou, deu aos pobres; a sua justiça permanece para sempre.

            A realidade é que, através de várias passagens da Boa Nova do Cristo e de seus apóstolos, vê-se o entrosamento do Novo com o Velho Testamento, a que Allan Kardec deu também o merecido valor, um completando o outro, assim como o Espírito Santo os interpreta com absoluto acerto. São “as vozes do céu” que se comunicam com “os homens de boa vontade”, isto é, com os que tenham ouvidos para ouvir e coração para sentir. Destarte, sendo o Espiritismo o Consolador prometido por Jesus (João, 14:26), doutrina essencialmente cristã, não se deve menosprezar a Bíblia, pois neste livro fundamentam-se a Religião e a
Verdade, que ora se harmonizam nos ensinamentos sublimes dos Mensageiros do Senhor.

            Mas as Epístolas de Paulo permanecerão sempre como uma fonte pura de amor, de onde jorra também a água viva do Cristianismo, que dessedenta os Espíritos sequiosos de luz e de verdade, sejam encarnados ou desencarnados, pois todos necessitamos também da caridade suprema do Senhor Jesus e do amor infinito de nosso Pai Celestial, consubstanciados nos ensinos generosos daquele livro imortal!

            Que a Bíblia seja bendita pelos homens de boa vontade, pelos cristãos de todas as seitas, e pelos espíritas, que se devem colocar acima das ortodoxias e de qualquer intolerância religiosa, procurando amplexar todos os irmãos da Terra, num gesto de geral e de intensa fraternidade, mas dando o merecido valor ao “Livro dos livros”, como o farol que encerra em seu bojo as três revelações de Deus.


Como nascem, crescem, vivem e morrem as religiões


Como nascem,
crescem,
vivem
e morrem as religiões

Lincóia Araucano /(Ismael Gomes Braga)



Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Com este artigo desejamos lembrar um assunto que merece tratado em um livro de autor mais competente e que disponha de melhor biblioteca do que nós. Parece-nos do máximo interesse para a Humanidade escrever-se tal livro, de modo a deixar demonstrado que a Religião tem unidade e é invencível, a despeito de todas as lutas do Materialismo ateu.

            A fonte é sempre a mesma em todos os tempos e lugares: - a manifestação de seres do mundo espiritual ao homem. O canal é sempre o mesmo: - a mediunidade. Só as palavras mudam através dos tempos: - os seres espirituais são chamados deuses e deusas, bons e maus, demônios, anjos, espíritos; os intermediários, conhecidos por videntes, profetas, médiuns. Para simplificar, vamos empregar somente as palavras mais novas, "Espíritos" e "médiuns".

            Um Espírito aparece ao médium Moisés e lhe dá a missão de retirar do Egito os escravos israelitas. Moisés cumpre essa missão, funda uma nação e recebe o Decálogo e outros ensinamentos provisórios, nem sempre muito elevados. De tempos a tempos vão surgindo naquela nação outros médiuns - os profetas de Israel - e o Judaísmo cresce e vive até os nossos dias.

            Passados séculos, um Espírito aparece a Zacarias e anuncia o nascimento de João Batista; aparece a Maria de Nazaré e anuncia o nascimento de Jesus. Ambas as predições se realizam. Jesus se mantém sempre em relações com os Espíritos das mais altas esferas. Em certo momento, produz a materialização de dois grandes vultos da raça, mortos séculos antes: Moisés e Elias. Depois de sua morte, reaparece muitas vezes materializado em forma de homem e dá instruções aos seus discípulos. Aparece em toda a sua glória ofuscante a Saulo, na estrada de Damasco, dá instruções e força a Saulo para uma grande missão mediúnica. Assim surgiu o Cristianismo dentro do Judaísmo, mas o Judaísmo já não é o primeiro movimento religioso da Humanidade, como vemos do livro de Louis Jacolliot - "A Bíblia na índia" -, porque pelo mesmo processo já haviam aparecido as velhas crenças da Índia. As diversas formas antigas de Politeísmo na Índia e no mundo nasceram e viveram pelas comunicações mediúnicas e morreram quando desprezaram essa fonte de vida e consagraram-se somente às coisas materiais.

            Saltando uns milênios, chegamos ao século 18 e vemos um médium sueco, Emmanuel Swedenborg, nascido em Estocolmo a 29 de Janeiro de 1688, fundar uma nova religião no século seguinte ao seu nascimento. Mais um século à frente e vemos aparecerem médiuns por toda a parte na América e na Europa, e surge o Espiritismo de nossos dias. A mediunidade renasce em todos os meios.

            Numa aldeia do Japão, uma camponesa analfabeta, a Sra. Nao Deguêi, muito contra sua vontade e em estado de pânico, é tomada por um Espírito, escreve vários livros notáveis e assim apareceu a nova religião Oomoto que está espalhando-se pelo mundo. 

            Na Dinamarca, um homem simples, nascido sem pai conhecido, chamado Martinus, tem uma grandiosa visão de Jesus-Cristo, escreve uma obra notável em vários volumes com o título "O Livro da Vida", funda o Instituto de Ciência Espiritual, em Copenhague, e aparece uma nova religião, cristã e reencarnacionista.

            Em Budapeste, Jesus aparece em toda a sua glória a um judeu chamado José, muito avesso ao Cristianismo, e lhe dá uma grandiosa missão mediúnica que ele cumpre com todo o respeito, tornando-se fervoroso cristão para o resto da vida.

            Num convento da França, um Espírito sofredor entra em contato com uma irmã de caridade e lhe aparece diariamente, ditando-lhe, muito contra seu desejo, um livro que finalmente é publicado, com aprovação das autoridades religiosas católicas, que julgam interessante divulgar os ensinos recebidos de uma freira morta aos 36 anos de idade, e que se acha em grandes sofrimentos, recebidos por uma médium igualmente freira. E assim surgiu o livro "Manuscrito do Purgatório", que já esgotou duas edições no Brasil, em excelente tradução de Monsenhor Ascânio Brandão.

            José Smith, nascido em 23 de Dezembro de 1805, nos Estados Unidos, é subjugado por uma força espiritual; depois, aparecem-lhe dois Espíritos gloriosos, no ar, junto dele, dão-lhe instruções, ele cria uma nova religião cristã, mas é perseguido pelo fanatismo religioso, preso e assassinado na prisão, em 27 de Junho de 1844; no entanto, sua seita viveu e tem missões por toda a parte. No Brasil tem ela uns vinte centros de divulgação espalhados pelo País. José Smith não é o primeiro médium martirizado pelo fanatismo religioso. A História está cheia desses crimes: - Sócrates conversava com um Espírito que o orientava e foi preso e condenado à morte; Isaías recebia belas instruções espirituais e foi preso e sacrificado com morte cruel; Jesus de Nazaré foi condenado ao suplício da cruz; Paulo de Tarso foi decapitado; Joana d'Arc recebia instruções de grandes Espírítos e foi queimada viva, muito solenemente, pela Inquisição. A História da Igreja Católica Romana está repleta desses crimes contra médiuns, mas não pode impedir o surto sempre crescente da mediunidade; o que ela tristemente conseguiu, em sua cegueira, foi espalhar a descrença, o ateísmo materialista.

            Em Buenos Aires, explode inesperadamente a mediunidade numa jovem senhora católica que funda o centro religioso com o nome de "Missão de Jesus" e já tem grande número de missionários. A iniciadora, Sra. Madu Jess, publicou um livro – “O que me foi revelado”.

            Um obscuro jovem, comerciário, numa pequena cidade mineira, torna-se médium de grandes faculdades e superior moralidade, já escreveu muitas dezenas de livros muito preciosos que têm agitado todo o Brasil e continua sua gloriosa tarefa de restauração do Cristianismo. É Francisco Cândido Xavier.

            Ao lado desse médium desabrocha a mediunidade em um jovem médico, rapaz de altas virtudes, chamado Waldo Vieira, que vem produzindo obras excelentes, em prosa e verso.

            E assim por toda a parte.

            Alguém com tempo e competência deverá um dia reunir dados históricos mundiais e escrever um livro demonstrando que todas as religiões, antigas e modernas, nasceram e viveram do mesmo modo, pelas comunicações de Espíritos através de médiuns. Portanto, quando uma igreja condena a mediunidade, decai para o materialismo ateu e perde toda a força espiritual renovadora. Perde a fé religiosa e morre. Só pode conservar uma aparência político-econômica de vida, dependente da força material do Estado, mas sem poder moral e espiritual.

            Quando tudo isso ficar bem exposto, bem compreendido, as igrejas passarão a cultivar a mediunidade e seus dogmas negativos irão tornando-se obsoletos e caindo com o tempo; seus ensinos passarão a abranger os vastos horizontes da reencarnação e seu vigor renascerá para novos serviços à Humanidade, com ou sem o mesmo nome anterior. Haverá mais uniformidade nos ensinos básicos da Religião.

            O mundo não deve continuar sempre dividido em seitas religiosas que se hostilizam e reciprocamente se enfraquecem, quando tudo ruma para a unidade, como se vê nas ciências naturais, nas indústrias, nos transportes, na política, na economia, na cultura e até na linguagem, que, através da interpenetração dos idiomas, já criou um vocabulário internacional de que se serve o Esperanto para estabelecer a língua mundial.

            Tudo caminha para a unidade, pelo menos em suas linhas gerais.


            Um livro nesse sentido prestaria relevantes serviços ao mundo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Problema Conosco


Problema conosco
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Não os criaria Deus, à parte.

            Os gênios perversos das interpretações religiosas somos nós mesmos, quando adotamos conscientemente a crueldade por trilha de ação.

*

            Observa as lágrimas dos órfãos e das viúvas, ao desamparo.
            Há quem as faça correr.

            Repara os apetrechos de guerra, estruturados para assaltar populações indefesas.
            Há quem os organize.

            Anota as rebeliões que se transfiguram, em crimes.
            Há quem as prepare.

            Pensa nos delitos que levantam as penitenciárias de sofrimento.
            Há quem os promova.

            Medita nas indústrias do aborto.
            Há quem as garanta.

            Pondera quanto aos movimentos endinheirados do lenocínio.
            Há quem os resguarde.

            Reflete nos mercados de entorpecentes.
            Há quem os explore.

*

            Enunciando, porém, semelhantes verdades, não acusamos senão a nós mesmos.

            A condição moral da Terra é o nosso reflexo coletivo.

            Todos temos acertos e desacertos.

            Todos possuímos sombra e luz.

            Consciências encarnadas em desvario fazem os desvarios da esfera humana.

            Consciências desencarnadas em desequilíbrio geram os desequilíbrios da esfera espiritual.

            É por isso que o Evangelho assevera: "Ninguém entrará no reino de Deus sem nascer de novo."

            E o Espiritismo acentua: "Nascer, viver, morrer, renascer de novo e progredir continuamente, tal é a lei."

            Em suma, isso quer dizer que ninguém conseguirá desertar da luta evolutiva.


            Continuemos, pois, vigilantes no serviço do próprio burilamento, na certeza de que o amor puro liquidará os infernos, quando nós, que temos sido inteligências transviadas nos domínios da ignorância, estivermos sublimados pela força da educação.

Podemos Beber na Mesma Fonte - 6


Podemos beber na mesma fonte -6

José Brígido / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Dezembro 1961


            Não há vida sem sofrimento. Não estamos no Paraíso, mas na Terra. Sabes o que isto significa? Evolução, luta, trabalho, reação. Temos de construir o nosso próprio futuro, através de vidas sucessivas.

*
           
            Sei que não gostas de conselhos. Abominas as advertências. Todavia, irmão, estas palavras não foram escritas senão para mim, necessitado que ainda estou de conselhos, advertências, censuras e reparações.

*

            Mas os meus erros e as minhas deficiências podem ser também iguais aos erros e às deficiências de muitos irmãos nossos, que também participam da mesma caravana cármica em que me encontro.

*


            Semeio estas palavras para que elas se espalhem pelo mundo, mas não como o vento que varre as planícies, sacudindo as árvores, que estorcega as penedias, assobiando sinistramente ou gemendo o gemido trágico das almas desencarnadas e em curso de provações... 

                                                                               *

            Se pensas que tudo fica resolvido com a morte, enganas-te, pois que estamos sujeitos à lei da reencarnação, para o progresso do nosso Espírito.

*

            Se a água que brota do seio da terra serve para mitigar a minha e a tua sede, também pode aplacar a sede dos que nos seguem. Isto quer dizer que podemos todos beber da mesma fonte.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Podemos Beber na Mesma Fonte - 5



Podemos beber na mesma fonte - 5

José Brígido / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Dezembro 1961


            Não te desesperes porque outros estejam acima de ti. Observa a tua posição. Se não é das melhores, também não é das piores. Olha para baixo. Quantos almejam o lugar em que te encontras!

*


            Sofres? Todos nós sofremos. Há quem sofra até com mais valor do que eu e tu, porque suporta heroicamente a dor, sem anunciá-la e exagerá-la. Concorda: sofrer, todos sofrem. O que nem todos fazem é saber sofrer. Nem eu nem tu... 

Podemos beber na Mesma Fonte - 4


Podemos beber na mesma fonte -4

José Brígido / (Indalício Mendes)


Reformador (FEB) Dezembro 1961


            Todas as vezes que sentires o aguilhão do sofrimento, para, medita e ora. Há muitos, muitos mesmo, que sofrem bem mais do que tu. Lembra-te sempre disto. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Podemos Beber na Mesma Fonte - 3


Podemos beber na mesma fonte -3
José Brígido / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Dezembro 1961

           Se o Evangelho alimenta a alma e lhe aponta o Rumo da Verdade, lembra-te, sempre que vires um infeliz faminto, de que o único evangelho da fome é o pão. Dá de comer a quem tem fome...


Podemos Beber na Mesma Fonte - 2


Podemos beber na mesma fonte -2
José Brígido / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Dezembro 1961


            O homem que não tem caridade é como a planta arrancada: sem raízes na terra. A caridade é um substantivo adjetivado pelo Verbo Divino. Por isto, "sem caridade não há salvação".


Podemos Beber na Mesma Fonte - 1


Podemos beber na mesma fonte -1

José Brígido / (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Lembra-te sempre destas palavras de "O Pregador": "Tudo tem a sua ocasião própria, e todo o propósito debaixo do céu tem o seu tempo. Há tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de derrubar, e tempo de edificar; tempo de chorar e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de lançar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de calar, e tempo de falar; tempo de guerra, e tempo de paz. Aquilo que é, já foi; e aquilo que há de ser, já foi: Deus fará vir outra vez o que já se passou."


sábado, 4 de janeiro de 2014

Fanal de Esperança


Fanal da Esperança
F. Salústio
Reformador (FEB) Dezembro 1961

            A vida é um grande livro aberto, referto de lições que nem sempre sabemos aproveitar.          

            Acabamos de reler dois livros que nos permitiram reflexões proveitosas: “Elos Doutrinários”, de Ismael Gomes Braga, e “Lições da Vida”, de Almerindo Martins de Castro.

            No primeiro, o autor demonstra profunda segurança no desenvolvimento de uma questão que vai, a pouco e pouco, sendo melhor compreendida e mais amplamente aceita no meio espírita. Referimo-nos à do corpo fluídico de Jesus, magistralmente exposta e sustentada em “Os Quatro Evangelhos”, de J. B. Roustaing; sintetizada em “Elucidações Evangélicas”, de Antônio Luiz Saião; defendida em “Jesus - nem Deus, nem Homem”, de Guillon Ribeiro, e em “O Cristo de Deus”, de Manuel Quintão; comprovada em “O Livro de Tobias”, e reafirmada com autoridade em “Elos Doutrinários”  de Ismael Gomes Braga. 

            Quanto mais os anos se dobram sobre nós, mais convencidos ficamos da realidade que esses livros nos põem diante dos olhos. O raciocínio sereno a cerca da grandeza moral do Mestre e dos poderes espirituais com que veio ao Mundo em forma visível, levou-nos, sem constrangimento algum, a aceitar a doutrina do corpo fluídico, porque ela, somente ela, pode fazer justiça à personalidade extraordinária do Cristo, em sua assinalada presença neste mundo de ilusões, provações e desencantos.

            Portanto, o livro “Elos Doutrinários”, escrito em linguagem simples, mas correta, e com argumentos de imediata assimilação, constitui mais uma meritória obra em favor dessa doutrina sadia e indispensável à interpretação adequada de problemas contidos nos Evangelhos, sem a qual muita coisa quedaria confusa e incompreensível.

            O outro livro a que acima nos referimos -“Lições da Vida” - foi escrito, na maioria de suas páginas, com a tinta do cotidiano, como “Lições desprezadas” e “Lição repetida”. Todos os capítulos são interessantes e absorventes. Aquele que se intitula “A incógnita tortura de Machado de Assis”, porém, constitui um aspecto, até então desprezado, da análise psicológica do famoso escritor.

            “Lições da Vida”... Quantas as recebemos em cada minuto que passa! Quantas vêm e vão sem que as aproveitemos para a nossa melhoria pessoal! Somos espíritas... Que espírita somos, afinal, se a exemplificação da Doutrina e do Evangelho cresce diante de nós, em dificuldades, como um Himalaia diante do pigmeu? Somos espíritas, mesmo demonstrando tanta deficiência no cultivo das virtudes defendidas pelo Espiritismo? Sim, somos espíritas, desde que não esmoreçamos na luta pelo auto aprimoramento moral, desde que saibamos reagir sempre que cairmos, para, reerguidos, recomeçar a incruenta e eterna peleja!
Se porfiarmos em nosso aperfeiçoamento moral, não importam as quedas que provam a nossa inferioridade na escala evolutiva. De queda em queda, mas de reação em reação, chegaremos um dia a abençoar a hora em que ingressamos no Espiritismo e dele fizemos um fanal de esperança para as nossas aspirações de felicidade!


As Maravilhas do Evangelho



As Maravilhas
 do Evangelho

Sylvio Brito Soares

Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Nos escritos atribuídos aos quatro Evangelistas, vamos encontrar, a cada passo, frases proferidas por Jesus, e que a muitos deixam realmente perplexos, confusos e profundamente abalados em sua fé.

            Geralmente isso acontece quando nos atemos apenas à dureza das palavras, porque as expressões verbalísticas são como certos calhaus; olhados superficialmente, jamais se pode imaginar que neles, muitas vezes, se encontram diamantes de incalculável valor.

            Na vida das criaturas, como é natural, existem duas faces: a externa e a interna; aquela, que fere a vista de qualquer pessoa, e esta, que se oculta a quem só se impressiona e se interessa com as coisas fictícias do mundo, coisas, aliás, inexpressíveis no campo das verdades eternas!

            Teria Jesus proferido realmente estas frases: "Vim lançar fogo à terra", "Não penseis que vim trazer paz à terra, mas, sim, a espada", consignadas por Lucas e Mateus?

            Para muitos, possivelmente, o Mestre jamais as teria articulado, por considerarem-nas corruptelas do pensamento primitivo; e explicam: com o andar dos anos e milênios, o significado de muitos vocábulos altera-se completamente e isto sem se levar em conta os erros dos tradutores, erros esses que, depois, se perpetuam pelos tempos a fora.

            Nós, espiritistas, porém, achamos que aquelas palavras foram efetivamente enunciadas por Jesus, mesmo porque não vislumbramos qualquer discordância entre o seu pensar e sentir, todo amor, e a presumida agressividade de tais frases.

            Antes de formarmos qualquer juízo a respeito do que lemos ou ouvimos, é muito conveniente perscrutemos o espírito real dessas palavras ouvidas ou lidas.

*

            Ninguém poderá surpreender-se se dissermos que a Terra ainda está povoada por incalculável número de Espíritos atrasados, que não compreendem e nem admitem os nobres princípios de uma política social que fuja completamente aos ditames acanhados do personalismo egoísta, ambicioso, que só visa ao interesse próprio sem se preocupar com as necessidades e sofrimentos de seus semelhantes.

            Se ainda é esse o panorama de nossos dias, qual não seria, evidentemente, o de há quase dois mil anos?!

            Jesus bem sabia que, trazendo, como trouxe, o fogo do amor que consubstancia todas as virtudes, ocasionaria sérias perturbações entre os homens que então se encontravam enleados na teia dos preconceitos caducos e das tradições extravagantes, sustentados por escribas, fariseus, sacerdotes orgulhosos e cúpidos.

            A história da Civilização mostra-nos, com farta documentação, quantas lutas têm ocasionado a germinação e a propagação de qualquer ideia nova, progressista e humana.

            Portanto, Jesus, em sua alta sabedoria, não ignorava que a simples palavra - amor -, ao ser anunciada como base de sua doutrina, traria imediatamente a separação, a luta entre os que, entusiasmados, desejariam enveredar pelo novo caminho, e os preguiçosos e obstinados que prefeririam continuar patinhando no lodaçal da ambição, do egoísmo, da intolerância e do ódio.

            Ele antevia, e com que pesar, a caudal imensa de sangue que, em seu nome, alagaria o mundo!

*

            Sendo a função precípua do Espiritismo, como Cristianismo redivivo, revigorar os ensinos de Jesus, que se desfiguraram, tornando-se quase irreconhecíveis, por força de uma ortodoxia que já repugna à maioria dos crentes, tinha de ocasionar uma luta desleal: de um lado os amigos do obscurantismo, inimigos ferrenhos da luz, e, de outro, os que almejam a liberdade de sentir Jesus em todo o esplendor de sua simplicidade, e de, com ele, falarem diretamente, sem o aparelhamento esdrúxulo de um ritual que não se coaduna com os ensinos do Mestre.


            Jesus, o maior psicólogo de todos os tempos, parece que por antecipação articulou aquelas palavras, a que acima nos referimos, para que as ouvissem os homens deste conturbado século XX!

A Regra Áurea


A Regra Áurea
Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Um pouco antes do nascimento do Cristianismo, Hilel ensinou em Jerusalém:

            "A única lei que nos deu a misteriosa Força moral que governa o mundo é: "procede para com os outros assim como desejas que os outros procedam para contigo"; tudo mais nas religiões são costumes que os homens criaram e que nós podemos, mas não somos obrigados, a observar."

            Uns trinta anos depois, o Divino Mestre confirmou-o nos seguintes termos, segundo Mateus, 7:12:

            "Portanto, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; porque esta é a lei e os profetas."

            O Espiritismo nos veio demonstrar que esse ensinamento abrange os dois mundos - visível e invisível -, porque o homem vive numa sociedade espiritual de dois aspectos, e só praticando essa solidariedade fraterna irrestrita ele consegue realizar sua própria evolução e alcançar as finalidades superiores planejadas pela Força que o criou e orienta rumo aos seus altos destinos.

            No entanto, as seitas religiosas, combatendo umas às outras, viveram violando essa lei.
           
            As pátrias, armando-se umas contra as outras e fazendo a guerra, pecam contra a ordem divina.

            Os partidos e as classes, com seus exclusivismos, ferem incessantemente o plano superior da vida.

            Os indivíduos, com seus interesses egoísticos, ignoram a lei da vida.

            Parece que o homem insistiu sempre e por todos os meios em viver fora da lei da vida.

            Seria possível continuar sempre assim errado?

            Não; ele foi desenvolvendo faculdades e processos de tornar-se mais eficiente até chegar ao momento atual, em que ele tem poder imenso de construir ou de destruir, e se tornou ameaça à vida mesma do Planeta. Começamos agora a compreender que é impossível viver sem a fraternidade universal irrestrita, e somos obrigados a formar uma única família humana planetária que ponha em prática a Regra Áurea.

            Religiosos e irreligiosos sentimos hoje a necessidade vital de fraternidade mundial e a Providência pôs em nossas mãos dois instrumentos que terão de preparar o domínio da compreensão e da colaboração de toda a família humana: o Espiritismo e o Esperanto, que progridem juntos para nos esclarecer e ajudar no cumprimento da Lei Eterna. Nenhum dos dois pode ser vencido pelo nosso egoísmo, porque eles renascem por toda a parte do Planeta, dentro das mais diferentes ideologias, como força natural invencível: vemos o Espiritismo explodindo até dentro de conventos, e o Esperantismo reconquistando territórios que lhe haviam sido tomados pelas tiranias políticas passageiramente dominantes.

            O homem do futuro - que seremos nós mesmos em outras vestes materiais - terá que cumprir, para sua felicidade, a Lei Divina de solidariedade. Então haverá "um rebanho e um Pastor", (João, 10:16)


            Estariam perdidos todos esses milênios de erros e desvios? Não; também os erros nos ajudaram a criar conhecimentos e energias que a dor corrige para nosso aproveitamento. Deus sabe tirar proveitos até de nossa maldade!

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Ante o Sexo e o Amor


Ante o sexo e o Amor

Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco

Reformador (FEB) Dezembro 1961

            Como o fogo que necessita ser disciplinado para ser útil, o sexo deve ser dirigido pelo amor a fim de preencher a sua finalidade santificante.

            A chama que a fornalha retém, aproveitando-lhe o calor, quando se movimenta a esmo alastra-se em incêndio destruidor.

            O sexo, que perpetua a vida humana nos misteres procriativos quando bem conduzido, é o mesmo elemento que escraviza a alma quando transborda desgovernado.       

            Se te encontras em tormentos íntimos, açoitado pelo látego dos desejos infrenes, recorda o amor no seu roteiro disciplinante e corrige o desequilíbrio, imolando-o ao dever.       

            Não acredites que a emoção atendida nas fontes turbadas possa oferecer-te a tranquilidade que almejas. Amanhã, retornarás, voraz, novamente vencido. E enquanto não a submetas ao crivo rigoroso do teu comando, serás conduzido de forma impiedosa e aniquiladora.      

            Busca, assim, a linfa pura do amor, e, sacrificando o impulso momentâneo, lava as impurezas emocionais que te maculam.   

            Educa o pensamento por onde veiculam os primeiros gritos da emotividade desequilibrada. Todo pensamento que se cultiva, transforma-se em ação que se aguarda.       

            Compreende que as exigências do desejo de agora nasceram ontem, no abuso da função sexual, quando o amor delinquiu contigo, favorecendo os excessos prejudiciais.         

            Enquanto te inclinas sedento sobre as largas faixas do gozo animalizante, procurando as facilidades que conduzem à lassidão e à morte, outros corações, marcados por sinais indefiníveis, arrastam os delitos do passado em alucinantes punições no presente, chorando em segredo, ao sorverem a taça de fel da correção expiatória.

            Não convertas as sublimes experiências da continência sexual em favores degradantes que conduzem à loucura e ao crime.

            Ausculta o coração dos favorecidos pelas concessões do impulso desgovernado e compreenderás o quanto são infelizes e insaciados.      

            Procura sondar a própria alma em rigorosa disciplina produtiva, fiel ao roteiro do dever mantenedor da vida, e, se encontrares ardência íntima, constatarás que ela prenuncia libertação consoladora que logo advirá , Por essa razão, a vitória sobre a carne não pode ser protelada com pretexto de "falta de forças". Se na condição de amo não consegues dirigir, na posição subalterna mais difícil será a tua orientação.
           
            Os que atravessaram os portais do além-túmulo, vencidos pela lascívia e pelos desvios da função genésica, permanecem doentes em longas e desvairadas perturbações, para renascerem fustigados pela emoção atormentada, transformados em párias sociais. Encontra-las as no caminho das criaturas, envergando roupagens masculinas e femininas, retidos em invólucros teratogênicos, quais presidiários em cárceres estreitos e disciplinantes, em longos processos de reeducação.
           
            Ama, portanto, embora não recebas a retribuição.

            Ama o dever idealista, inspirado pelas Forças Superiores, oferecendo tuas energias à produção do bem que libertará o homem de todos os males.
           
            Desenvolve a fraternidade no coração, deixando-a espraiar-se como bênção lenificadora, consoante nos amou Jesus-Cristo, corrigindo a inclinação da mente em relação àqueles com quem não podes privar da intimidade, libertando o espírito e enriquecendo os sentimentos.

            Trabalha em favor dos outros, mesmo que estejas transformado em brasa viva, e vencerás a aflição, recebendo as moedas de luz qual salário em forma de serenidade.

            No entanto, se apesar dos melhores esforços não conseguires a desejada paz, continuando aflito, não creias que, sorvendo a taça embriagadora, amainarás a tempestade. Logo cessado o efeito entorpecente a sede devoradora retornará, agravando o processo liberativo.

            O problema do sexo é do espírito e não do corpo, e só pelo espírito será solucionado.
expiatória.   

            Procura, antes de novos débitos, o amantíssimo coração de nosso Pai, através da oração confiante, entregando-te a Ele, para que a sua inefável bondade, que nos criou e dirige, nos dê o indispensável vigor de conduzir o nosso sexo em direção do amor sublime que nos proporcionará a legítima felicidade.


Crianças Doentes


Crianças Doentes
Meimei
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Outubro 1961


            Acalentas nos braços o filhinho robusto que o lar te trouxe e, com razão, te orgulhas dessa pérola viva. Os dedos lembram flores desabrochando, os olhos trazem fulgurações dos astros, os cabelos recordam estrigas de luz e a boca assemelha-se a concha nacarada, em que os teus beijos de ternura desfalecem de amor.

            Guarda-o, de encontro ao peito, por tesouro celeste, mas estende compassivas mãos aos pequeninos enfermos que chegam à Terra como lírios contundidos pelo granizo do sofrimento.

            Para muitos deles, o dia claro inda vem muito longe...

            São aves cegas que não conhecem o próprio ninho, pássaros mutilados esmolando socorro em recantos sombrios da floresta do mundo!. " Às vezes, parecem anjos pregados na cruz de um corpo paralítico ou mostram no olhar a profunda tristeza da mente anuviada de densas trevas.

            Há quem diga que devem ser exterminados para que os homens não se inquietem; contudo, Deus, que é a Bondade Perfeita, no-los confia hoje, para que a vida, amanhã, se levante mais bela.

            Diante, pois, do teu filhinho quinhoado de reconforto, pensa neles! São nossos outros filhos do coração, que volvem das existências passadas, mendigando entendimento e carinho, a fim de que se desfaçam dos débitos contraídos consigo mesmos...

            Entretanto, não lhes aguardes rogativas de compaixão, de vez que, por agora, sabem tão somente padecer e chorar.

            Enternece-te e auxilia-os, quanto possas!..

            E, cada vez que lhes ofertes a hora de assistência ou a migalha de serviço, o leito agasalhante ou a lata de leite, a peça de roupa ou a carícia do talco, perceberás que o júbilo do Bem Eterno te envolve a alma no perfume da gratidão e na melodia da
bênção.