Pesquisar este blog

terça-feira, 9 de abril de 2013

31 e final. "Fenômenos de Materialização"


31

Fenômenos de Materialização
por   Manoel Quintão
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
 1942
           
Sursum Corda!    c/c


            Mas, senhores, aqui chegado, parece que tocamos o ponto nevrálgico, o plexo vital da questão.

            E ao toca-lo, também nos parece que a todos nós coletivamente, e individualmente a cada um, cabe, desde logo, o maior escote de responsabilidades na reconstrução moral do mundo.

            Porque, a despeito de um conhecimento mais real e nítido da nossa origem e finalidade, nós que temos na encarnação temporária o só objetivo de um iniludível expurgo moral, insistimos no erro de presumir que esse expurgo se processa mais pela razão que pelo sentimento.

            A razão instrui, mas não constroi.

            O sentimento é o que educa e orienta a razão. E é o que fazia dizer ao poeta: que "admirava os sábios mas amava os santos".

            Não é, portanto, com palavras, principalmente, que se educam espíritos.

            As palavras são o veículo das nossas ideias e desejos, mas não são as ideias nem os desejos.

            Basta, como sabeis, uma simples variação de tonalidade para transverter o efeito de um vocábulo.

            Imaginai dois indivíduos fazendo idêntica e simultânea leitura, possuídos, porém, de emoções e sentimentos diversos. Trépido ou desencantado um, produzirá no auditório indiferença ou tédio; arrojado ou sereno, outro, despertará entusiasmos.

            Tanto é verdade que, para ensinar não basta o saber e conhecer. É preciso sentir, é preciso vibrar.

            Ora, nós outros não possuímos virtualmente essa faculdade aprimorada do sentimento pronto para vibrar em consonância divina; já porque o malbaratamos em orgias enervantes de espiritualidade frustra, já porque embiocados na carne e num planeta de forte densidade especifica, que tanto vale dizer premência instintiva.

            Haveremos, pois, para lograr as maravilhas virtuais da Fé, de apelar sempre para aqueles que a possuem patrimonialmente viva, e haurida, e alimentada de fontes inestanques e incorruptíveis.

            Precisamos socorrer-nos de quantos in natura rerum já prescindem do látego da Dor para decantação do sentimento, porque, na verdade, irmãos, tal a nossa indigência moral, que, de regra, só um grande desgosto ou um grande temor nos comovem e capacitam para estados conscienciais transcendentes a este casulo, que é o nosso orgulho e a nossa vergonha, e no qual vimos dormindo o sono monolítico da mulher de Ló, voltada a face para a cidade da maldição.

            É a visão aflitiva, é a cosmorâmica dantesca das nossas tribulações permanentes, é este pandemônio do mundo com as suas catástrofes telúricas, políticas, sociais, domésticas, tragédias coletivas e tragédias individuais, guerras e suicídios; assassínios e roubos, depredações e peculatos, perfídias e calúnias; podridão de corpos e podridão de almas; é tudo isso a embotar-nos, a envenenar-nos, a desviar nosso sentimento das linhas puras e construtivas da Fé!

            Na verdade, meus amigos, é preciso ser um Briareu para remontar a vasa do lodo que assoma e estarrece os mais nobres impulsos que ainda possamos conservar, como restos de uma energia evanescente, amparada pelos nossos maiores do outro plano.

            Não nos iludamos, contudo, mesmo porque, aqui estamos todos à face da Grande Esfinge, que nos diz: '- decifra-me ou te devoro!

            É preciso decifrar nos flagelos do mundo o segredo mirífico da sua evolução, que é a nossa evolução.

            Comecemo-la por nós, em função dos nossos lares, na educação racional de nossos filhos.

            Amemo-los, não com esse amor humaníssimo, inquinado da mesma eiva que a este mundo nos trouxe - o orgulho - mas, com aquele amor que Deus aponta na majestade e na glória da sua lei e da sua obra, até onde pudermos senti-las, para compreende-las.

            Amemo-los na prece, na exemplificação do trabalho, da paciência, da abnegação, da renúncia, do sacrifício. Façamos lhes sentir que o Pão nosso que lhes damos não é "nosso", mas do Pai que no-lo dá, e que o não dá incondicionalmente, para que melhor o degustemos do que ao outro, que desperdiçamos em detrimento nosso e de outros irmãos, mortos à fome de justiça e misericórdia.

            Ao invés dessas futilidades que preenchem a vida e a mente das criaturas do século, e que, afora da tarefa objetiva, indeclinável, derivam para o culto dos sentidos corporais e só a eles colimam, ensaiemos o culto do silêncio e da meditação de nossos destinos, a exemplo do que faziam e fazem os grandes iniciados de todos os tempos.

            O Divino Mestre dizia: - eu estou no mundo mas não sou do mundo, vós outros sois do mundo mas eu não sou do mundo...

            Jesus é o paradigma da perfeição, o modelo vivo da Lei da Vida. O nosso ideal outro não pode ser senão o de estar no mundo pelo corpo, sem ser do mundo pelo Espírito.

            Só assim, de resto, a exemplo seu, teríamos a Fé que vivifica os corações e remove as montanhas.

            Com essa Fé e por ela, sem palavras, levantou Ele a Madalena do túmulo da abjeção corporal para os alcantis do Amor espiritual; com ela ressurgiu a Lázaro do túmulo da podridão carnal para edificação dos seus.

            Poderes da Fé e de uma dupla sublimidade: restauração de corpo e restauração de espirito! Esta, maior que aquela.

            Aí tendes, irmãos e confrades, o que importa perseguir na obra da regeneração humana, que eu quis sintetizar na educação de nossos filhos, pela restauração dos Lares-Templos.

            Obra de Fé, portanto, obra de sentimento, nunca de palavras.

            Se eu aqui acorresse no só propósito de ser ouvido num encandeamento de sons e de gestos, sem sentir o que vos dissesse; e se vós aqui estivésseis no só intuito de me ouvirdes sem vibrar, para viver as minhas palavras e conceitos, não seríamos dignos, eu de vós e vós de mim, para indignos sermos, todos, das esmolas de Jesus, que de fato dignificam estas tertúlias espíritas, quais oásis reconfortantes para a caravana do deserto árido, talado de Simouns, que é a vida humana propriamente dita - peregrinação imponentemente aspérrima e dolorosa, na verdade, mas também consoladora, porque firmada na antevisão da Canaã maravilhosa, já prometida ao profeta máximo do Sinai.

            Com ele, pois, em meio à sarça ardente das nossas provas, oremos constantemente para ouvir, e não apenas predicar mas praticar, o Decálogo entorpecido de vinte séculos na consciência de tantas gerações.

            Oremos aqui e fora daqui, principalmente em nossos lares, para que eles possam, nectários de ouro, atrair desde logo os falangiários do Amanhã que serão, ao dizer dos nossos maiores, os precursores válidos na Fé, para o legítimo reinado de N. S. Jesus Cristo, na Terra.

            Pois que! não ouvis? Há vinte séculos também, as milícias do Senhor entoavam, à luz das estrelas de um céu puríssimo, pelas quebradas dos cerros vírides, aos ouvidos de pacíficos pegureiros, este cântico sublime e único, que a Humanidade mal compreende: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!

            Sursum corda! irmãos...

            Depois desta festa eucarística, recolhamo-nos ao Templo-Lar, para o ofício maior no altar do coração.

            E que os nossos Guias aqui presentes possam alviçareiramente dizer:

            - Amém...

            Sursum corda!




30. "Fenômenos de Materialização"




30
Fenômenos de Materialização
por   Manoel Quintão
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
 1942
           
Sursum Corda!    b/c



            Entretanto, a Fé sem obras é morta, como afirmou Paulo.

            Precisamos, assim, viver a nossa Fé, da nossa Fé e para a nossa Fé.

            E como a Fé não pode ser convencional; como a Fé não se improvisa nem se impõe, mas conquista-se e adquire-se, precisamos cultivá-la em nós, para que ela edifique o nosso próximo, emulando-o no mesmo esforço de ascese.

            Ora; nós não temos, ao serviço dessa tarefa sublimada, símbolos exteriores, nem liturgias chocantes, mediante as quais possamos ou devamos iludir-nos, a nós e a outrem.

            Este cenáculo em sua simplicidade de conjunto; lembra, as guardadas as diferenças de costumes e meios - que são apanágio da evolução de nossos espíritos - aquelas primitivas sinagogas do proselitismo apostólico, ancho de repartir o Pão eucarístico em memória do Divino Mestre.

            Repartamo-lo também nós, aqui, num ato de contrição toda espiritual, para examinar a utilidade que havemos dado á nossa Fé.

            Comecemos por considerá-la no lar, que é, digo, que deve ser a Catedral dos espíritas cristãos, porque é aí que se auspicia, em altares-corações, o pontifical maior das provas para a comunhão externa, da vida social.

            Dizei-me, pois, vós, pais de família, se na família por vós aqui constituída para esta etapa terrena, estimais um núcleo de irmãos articulados, não fortuita mas providencialmente, por compromissos de existências anteriores, tumultuárias, violentas, quiçá ignominiosas, mas, de qualquer forma, carecidas de reparação.

            Dizei-me se, na insubmissão, na indiferença, mesmo na hostilidade e na ingratidão dos filhos podeis lobrigar o remanescente de ódios e ofensas, de viltas e crimes, que clamaram tréguas no embotamento da carne, para poderem ser atenuadas e dolorosamente remitidas.

            Dizei-me, pais, se, de qualquer forma, estais aparelhados para reconhecer, e, reconhecendo, perdoar nos vossos desgostos e desencantos, nas vossas angústias e amaritudes domésticas a vossa própria afronta às leis de humildade e fraternidade, inelutáveis e postas de toda a eternidade para a eterna evolução das criaturas de Deus.

            Dizei-me vós, mães de família, se nos vossos filhos timbrais em ver, não o fruto ocasional das vossas entranhas, mera floração da vossa carne para gáudio maior do vosso orgulho, ou da vossa vaidade, mas o fruto espiritual, nem sempre doce, da sementeira que espalhastes e cultivastes, e desenvolvestes na própria imantação das vossas paixões, nessa vastíssima e tenebrosa leiva do vosso passado culposo.

            Dizei-me, enfim, mães, se nesses vasos de carne destinados á putrefação pela injúria dos tempos, não sobrepondes o efêmero ao real, se não trocais a forma que deslumbra os sentidos exteriores, pela genuína essência que sutiliza e toca nas intuições da alma.

            Dizei-me se em vós já ultrapassam, ou pelo menos emulam, a prol dos vossos filhos, os zelos do corpo e os cuidados do espirito.

            Oh! dizei-me que não, minhas irmãs...

            Que não, porque eu daqui vos vejo debruçadas, aflitas e lacrimosas, à borda dos berços de vossos filhinhos enfermados do corpo, e vos contemplo repousadas, alegres e até displicentes, à borda desse outro berço ideal em que se embala o filho de Deus enfermo e a vós confiado, não para a vida transitória do corpo, mas para a vida definitiva e eterna do espírito.

            De ver-se, assim, o vosso carinho, a vossa solicitude: - tendes na voz sonoridades, ritmos de uma beleza estranha, arrulhos turturinos de ave mal ferida; tendes no olhar eflúvios sublimados de cambiancias magnéticas, indefiníveis, e tudo - noites e dias, minutos e horas, contais pelas pulsações do coração, para que não faltem o remédio, o agasalho, a dieta salvadora.

            Salvou-se, enfim, o vosso filho... quero dizer: ele aí está formalmente íntegro para os vossos sentidos exteriores, e só por isso vos felicitais, e até, como a Deus não baste o vosso mudo reconhecimento, bom é que dele se inteire o mundo, por uma eventual missa de graças, de preferência nos Templos em moda...

            E aí tendes o filho idolatrado... É vosso, e só por isso continua vivendo, ou antes, morrendo ao vosso lado.

            Morrendo, sim, porque visivelmente enfermo e de enfermidade letal, cuja etiologia vos passa geralmente despercebida pelas malhas grossas da vossa lisonjeira ilusão.

            Já não podereis, assim, vibrar daquelas mesmas angústias e cuidados, que há pouco descrevi e vos divinizavam, quase! E não podeis, porque o mal de vosso filho é ingênito, é profundo, é oculto, de regra; não explode em gemidos que vos laceram a alma, mas em folgares e sorrisos argentinos, que têm por alimenta-lo e estimula-lo o adubo, a baixo-preço, dos prejuízos e convenções que também bafejaram e galvanizaram a minha e a vossa ancestral enfermidade - a enfermidade que foi de nossos pais e será de nossos netos - a dubiedade da Fé, pela crença vagamente mítica, quando não pela ignorância total dos nossos destinos.

            Mas nós, senhores, que já não podemos partilhar de tal ignorância, por que continuamos a falhar lamentavelmente nos efeitos lógicos da nossa Fé, proclamada racional?

            Por que não possuímos, para curar as enfermidades da alma, as mesmas energias que aliciamos para curar as enfermidades do corpo?

            Eu vos direi, no entanto, por mais doloroso que me seja dize-lo: - é porque a nossa Fé não corresponde o nosso amor. O amor, para nós, quando se não avilta em paixão bestial dos sentidos corporais, é exercício de egoísmo que nos lisonjeia os sentidos da alma. Amamos os "nossos", principalmente, porque os julgamos "nossos" e, na verdade, com estulta incongruência, porque, se fisicamente, deles nem uma só molécula nos pertence, espiritualmente só quinhoamos deles, em sentimento, aquelas vibrações que pudermos despertar para ritmar conosco.

            Esse ritmo é o que chamamos afinidade. Não é espontâneo, de certo, porque, de outro modo, deixaria de ser meritório.

            Lançadas por Deus no turbilhão da vida consciencial, progressiva, as mônadas espirituais tem de sincronizar-se para o ritmo universal.

            Esse esforço que se nos prefigura suave, por normal, nos planos superiores da Criação, é quebrado nos planos inferiores, mercê do livre arbítrio, para refazer-se depois, penosamente, em humanidades heterogêneas, qual a nossa, em que a família, imaginário símbolo de Unidade, não passa ainda - ai de nós! - de retorta ou incude de tremendas reações, verdadeiros laboratórios de novos crimes, que afrontam e escandalizam a sociedade dos homens, mas que os homens individualmente considerados continuam aptos a praticar, e efetivamente praticam, em todas as esferas sociais.

            Os escândalos de todos os matizes, que deflagram de inopino em títulos berrantes e letras garrafais dos nossos periódicos, sem contar os que se escondem, mal velados pela cortina transparente das conveniências sociais, numa hipocrisia mascarada à zarcão, esses aí estão, para indicar os leprosários familiares, porque é neles que incuba e se processa a gangrena espiritual, pela necrose figurativa das fibras mais delicadas do coração.

            É aí que se embriaga a criança na displicência aleatória, quando não na inconsciência sistemática, dos problemas mais sérios da vida de relação.

            É aí que ela, a criança, começa por ser mais "nosso" filho que filho de Deus, e para escravizar-se, que não senhorear as suas paixões e pendores inatos.

            A pretexto de tolerâncias criminosas, porque no fundo comodistas, a confundir austeridade com maldade, disciplina com iniquidade, licenciosidade com liberdade, ela, a criança, começa a confiar nada de si mesma, em tudo vendo e sentindo, antes, a providência e previdência paternas, que não a Providência de Deus.

            Falar-lhe de morte é crime, falar-lhe da vida real é fraqueza, é terrorismo, é covardia...

            E por isso, no dia que a providência humana lhe falha; quando o mundo se lhe apresenta com os seus imperativos inexoráveis de trabalho, de esforço, de renúncias e sacrifícios pessoais, ela, a criança, que não soube medir esses valores na providência incondicional e cega dos genitores, para estima-los nos semelhantes; incapaz de abranger e praticar as leis de solidariedade humana, faz-se tirano ou covarde, assassino ou ladrão.

            E, a caminho do patíbulo, entre grades da enxovia ou na enxerga do hospital - irrisão da sorte! - quanta vez não deblatera e malsina, então, a memória dos que a seu ver, por um fatalismo caprichoso, atiraram-na ao mundo! Ah! se meu pai me advertisse, se minha mãe me castigasse, se eu houvera sabido...

            Maldita a hora em que nasci!



segunda-feira, 8 de abril de 2013

4. Histórias do Chico...



04 Histórias do Chico...

           

            Água e Conselho...


            Num domingo, fora visitar uma de suas irmãs, em B. Horizonte.

            A tarde, recebe um convite para assistir à Sessão pública de um novo Centro Espírita local. Comparece.

            O Presidente do Centro não o conhecia e, junto com outros confrades, convida-o para compor a mesa.

            E coloca-lhe junto um litro com água, dizendo-lhe: - Isto é para lhe curar a obsessão, pois noto que você anda atuado...

            O querido médium, ali desconhecido, sob os olhares surpresos e apiedados de seus amigos, começou a beber a água, aos goles, de quando em quando.

            No meio da Sessão, o presidente verifica que a água do Chico acabara e providencia-lhe outro litro.

            Nesta altura, os confrades, que o conheciam, explodem:

            - Irmão presidente, água e conselho não se oferecem senão quando pedidos... Este aqui é o Chico Xavier, o médium de Pedro Leopoldo...

            O presidente do Centro desaponta-se, encalistra-se. Depois, pede mil desculpas ao Chico. E a sessão termina com uma lição para a VIDÊNCIA do presidente e com um testemunho da paciência e da humildade do querido médium.  

Ramiro Gama
in ‘Irmãos do Bom Combate’
Edição G E Regeneração RJ RJ - 1969


domingo, 7 de abril de 2013

29. "Fenômenos de Materialização"



29
Fenômenos de Materialização
por   Manoel Quintão
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
 1942
           
Sursum Corda!       a/c
           


            Não tendes necessidade de que alguém vos ensine,
 porque a unção que recebestes de Deus permanece em vós e vos anima.
 João 1ª Ep. 11, 27

            De que servirá o preço na mão do louco para comprar sabedoria,
pois não não tem entendimento.
Salomão - Provérbios.


            Confrades, irmãos, amigos, aqui me tendes...

            E ao comparecer entre vós, ainda uma vez, não tenho em mira ensinar nem edificar, mas comungar no santo propósito de atrair a este recinto os verdadeiros arautos daquele Cristianismo que há vinte séculos se vem graduando no mundo e para o mundo, através de vicissitudes e lutas que pareceriam irremissíveis, se, no problema de sua remissão houvéramos de computar o fator Tempo, pela noção de nossos calendários e não daqueles ciclos que entreabrem no ádito das consciências, indefinível embora, a cortina da Eternidade.

            Hoje, de fato, vamos compreendendo, e mais -  sentindo que o Mensageiro Divino, o Cristo de Deus, em nome do qual eu vos saúdo, não falou nem exemplificou para um "povo eleito" - qual o pretendera Pedro, com os judeus, nem apenas para uma geração de gentios, como liberalmente quisera Paulo; mas para toda a humanidade planetária e extra planetária, ad vitam aeternam.

            Na casa ele meu Pai há muitas moradas (1) disse-o Ele, e mais: - tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco (2).

            (1) João XIV, 2
            (2) João X, 16

            Assim considerando o Cristianismo do Cristo, mundial e gentílico, com Paulo, em contradita a Pedro; e considerando que, ser cristão em Cristo é ser perfeito, porque Ele também o disse: Sede, pois perfeitos como vosso pai celestial (3) - a sua doutrina não colimaria, apenas, frutos de uma existência terrena, singular e única, para qualquer determinada geração, fixada no tempo e no espaço.

            (3) Mateus V, 48

            Não, confrades caros: o Cristianismo transcende, desde logo, nos seus primórdios, em essência, a quaisquer convenções e restrições que lhe queira traçar a sempre limitada inteligência humana.

            Porque o Cristianismo é luz, e a luz - como bem proclamou o grande vate Guerra Junqueiro em magistral poema, (4) - não tem medida.

            (4) ‘Funerais da Santa Sé’

            A que lhe atribuem os homens na contingência da própria evolução, é progressiva no tempo e no espaço, tal como a conceitua Kardec na "Terceira Revelação".

            E com isto, temos implícita e explicitamente firmados os postulados de imortalidade e reencarnações sucessivas e progressivas, antevistos e rebuscados por todas as pristinas Teogonias, por todas as escolas filosóficas, da mais remota antiguidade histórica aos nossos dias, em que eles se reafirmam e confirmam por fatos inconcussos e, de mais a mais, empolgantes.

            Entretanto, já que falamos em fatos, permitido nos seja dizer, em apoio de nossa tese, que eles só por si não bastam para edificação na Fé, ou por outra: - que ela, a Fé, por divina em essência, não nos chega através dos sentidos ditos corporais, nem pela inteligência comum: - Tu viste, Tomé, e creste; felizes os que não viram e creram (1).

            João XX, 29

            Sim, senhores, felizes dos que hoje, entre nós outros, já não precisam dos fenômenos ostensivos da manifestação dos Espíritos para vê-los e senti-los dentro e fora de si, vivos, ardentes, realíssimos e sublimados no mesmo hausto de eternidade, em anseios de Amor, de Progresso e de Paz.

            Sim, porque esta era a verdadeira doutrina, a finalidade superior da "Santa Eucaristia", que o Catolicismo cesareano deixou se corrompesse no transcurso dos séculos, ao sabor de conveniências temporais, por implantar a soberania calculada de um pontificado absoluto, infalível e inapelável!

            Seria, talvez, curioso traçar-vos aqui, sucintamente embora, o panegírico dessa luta que se iniciou com Constantino, no ano 313 de nossa era, luta que ainda perdura, sempre alterada na forma, porém, não desnaturada na essência; luta que tem custado à humanidade Himalaias de sacrifícios em oblatas de sangue e lágrimas, o que fez dizer a um sacerdote e doutor da Sorbonne (1) que a conversão do Imperador não converteu o Cesarismo mas perverteu o Cristianismo.

            (1) Pe Alta – Le Christianisme Cesaréen.

            Evidentemente: as adesões em massa diluvial à Igreja nascente, até a véspera arvorada em escola de martírio, tal como se dá, hoje, entre os abissínios da politica temporal, haveria de modificar, como modificou, toda a organização apostólica em sua simplicidade e pureza originais, para transformá-la em instituição mundana, substancialmente política e da pior politica, porque rebuçada da mais ignóbil tirania: - a que pretende estrangular as consciências. Mas, seria com tal penegírico desviar-nos do propósito aqui colimado, ainda porque, em doutrina, ao método destrutivo, preferimos sempre o construtivo.

            Allan Kardec - figura modelar do bom senso - que é, como sabeis, estalão de consolidada evolução e madureza espiritual - prescreve para a obra de reconstrução racional da humanidade, que se não deve deslocar uma pedra sem haver a mão outra que a substitua, sob pena de comprometimento de todo o arcabouço arquitetônico.

            E também Jesus disse que não vinha destruir a Lei, mas dar-lhe cumprimento.

            Que a pedra fundamental da Verdade assenta na Fé, antes que no conhecimento e na inteligência...

            Homens de talento, homens ditos de ciência, são, em regra, os que mais céticos se nos deparam, julgando-se emancipados de misticismo pela só observação dos fenômenos exteriores tais como incidem nos seus aparelhos, por sua vez condicionados ao relativismo das próprias faculdades, e esquecidos de que, fora do alcance de sua objetivação concreta, há todo um infinito de forças que lhes escapa ao conhecimento, mas não à razão.

            Comum é dizer-se que a ciência é o conhecimento exato da lei ou das leis que regem um fenômeno.

            Nós, do nosso ponto de vista, proporíamos outra definição, menos preciosa, sem dúvida, porém mais razoável, qual a de observação e definição dos fenômenos, tais como se nos apresentam, para lhes atribuir uma lei de causalidade imanente e essencialmente incognitiva, sempre.

            Assim, quando estudamos a formação de um cristal podemos, até certo ponto, induzir a existência de uma força de coesão, simétrica e constante, das suas moléculas, para conhecer e determinar a forma de tais ou quais formações cristaloides.

            O que não podemos, jamais, é ponderar e definir a natureza dessa força.

            Dinamismo superior, denominou-a o Dr. Gustave Geley. (1)

            (1) De L’Inconscient au conscient

            Questão de palavras... Não importa.

            Se, em vez de um fragmento de quartzo ou de sílica considerarmos uma semente vegetal, poderemos presumir da sua decomposição e germinação no seio da terra; poderemos computar os elementos físico-orgânicos que lhe promovem o crescimento, a floração, a frutificação; poderemos decompor esses elementos e fazer, em suma, a fisiologia e a anatomia da planta.

            O que não poderemos, jamais, é conhecer a força íntima desses elementos, nem elabora-los ou sequer combina-los para a síntese viva de uma planta.

            Destarte, sabemos por indução e dedução, que na mais ínfima semente reside o potencial da vida de uma arvore, ou de uma floresta; mas não conhecemos senão extrínseca, empírica ou supositiciamente, a trama de energias convergentes e concorrentes à individualização dessa planta.

            Em toda essa elaboração vital, em toda essa objetivação calculável e mensurável aos nossos sentidos, permanece ou remanesce, da semente à flor, da raiz ao fruto, todo um mistério.

            E, se do chamado reino vegetal passarmos ao animal?

            Se considerarmos a embriogenia em toda a sua multiformidade, do vibrião e do óvulo á cítula, até ao ser autónomo, laboratório, por sua vez, de outras células, de outros germens, de outras vidas?

            Mistério, pois, e sempre mistério! Mistério no micro, mistério no macrocosmo!

            Mistério do infusório e mistério de um mundo ou de um sistema de mundos - infusórios do Infinito que não abrangemos, que não conhecemos, mas, que, - ainda por mistério - sentimos dentro e fora de nós!

            Oh! Majestade divina! oh! Divino mistério!

            Como penetrar-Te, como a Ti ascender senão pela Fé, que também não definimos, porém sentimos?

            Sim, irmãos pela Fé, pelo milagre da Fé ...

            Sobrenatural? Decerto. A Natureza é sobrenatural, como bem o afirmou o sabio Izoulet (1).

            (1) Les forces inconnues - Jules Bois, prefácio.
           
            Mas, a Natureza não é sobrenatural a si mesma, e revelando-nos intrínseca e extrinsecamente a sua imanência, em determinismos inteligentes, deixa entrever a perenidade do seu e nosso destino.

            Não têm razão os que negam a realidade do Invisível e do Intangível, porque ninguém vê normalmente uma onda sonora, um fluido elétrico, como ninguém toca a emanação de um perfume.

            A vida está por toda parte, e, se pesquisas oceanográficas a recolheram a milhares de metros na profundeza abismal de mares congelados, ela pode, ela deve abrolhar, igualmente, na profundeza abismal dos firmamentos estelares.

            Ainda há pouco, Picard remontava a estratosfera terrena, por estudar os raios cósmicos.  Amanhã, - quem sabe - familiarizados com os ambientes interplanetários, poderemos, graças a instrumentos ainda hoje inconcebíveis, comunicar com os nossos irmãos Marcianos.

            Marconi, do seu iate ancorado em Gênova, iluminou a Exposição de Sydney, na Austrália! O invisível e o intangível de hoje, serão o visível e tangível de amanhã. As maravilhas do nosso século são oceanos de esperanças, são lenços brancos do Infinito, agitados para nós, bojando realidades inéditas.

            Esperemos; mas, como esperar sem Fé?




28. "Fenômenos de Materialização"




28
Fenômenos de Materialização
por   Manoel Quintão
 Livraria Editora da Federação Espírita Brasileira
 1942
           
Abecedário dos Médiuns 

           
            E, assim, considerando:

            1º - O ascendente divino suprema lei de causa e efeito em todos os aspectos da vida, na Terra como no Espaço; e

            2º - A lei do livre arbítrio, cuja postergação tem sido o sustentáculo de todas as tiranias espirituais e materiais; e

            3º - A conduta e instrução dos que a iniciaram e mantiveram desde o início, aconselha às suas coirmãs e aos confrades em geral a sustentarem, por todos os meios ao seu alcance, o seguinte programa:

            A - Convencer os médiuns de que toda grandeza, beleza e eficácia de sua tarefa decorrem da perfeita assimilação e prática dos Evangelhos de N. S. Jesus Cristo e que, fora da caridade não ha salvação.

            B - Que só devem trabalhar em meios afins e nunca para fins de ordem material, interesseiros e particularistas, sejam de ordem coletiva, ou individual.

            C - Que, ainda possuídos das melhores intenções e sentimentos, nem por isso são infalíveis e isentos de mistificações, dado que estas podem constituir provas necessárias, quer para eles, quer para os que deles se socorrem.

            D - Que não devem - quando sonambúlicos - exporem-se a trabalhar em assembleias numerosas e heterogêneas.

            E - Que a sua posição social não os isenta, nem resguarda dos deveres comuns de fraternidade e humildade.

            F - Que as suas prerrogativas não constituem galardão, nem os acoberta das vicissitudes terrenas, antes lhes foram dadas para resgate de maiores dívidas do passado;

            G - Que não devem, jamais, trabalhar isolados, nem fazer evocações diretas;

            H - Que não é razoável consultar os desencarnados sobre assuntos e problemas que o homem pode, por si mesmo, resolver;

            I - Que o estudo constante e sistematizado da Doutrina, em comum, é uma necessidade absoluta, não só para constituir o ritmo ou tônus do conjunto, como porque provado está que em tais trabalhos a cooperação também conjugada, dos Guias, melhor afeiçoa a inteligência dos encarnados para as concepções doutrinárias;

            J - Que não há trabalho ou profissão honesta, entre e perante os homens, que colida com o exercício ativo da mediunidade;

            K - Que não há dias, nem horas, nem fórmulas determinadamente favoráveis, nem desfavoráveis a esse exercício, uma vez praticado com abstração de cuidados mundanos e fúteis;

            L - Que a saúde física, conquanto não seja condição essencial para o exercício da mediunidade, deve ser objeto de cuidado, não só como obrigação de ordem geral, como porque pode refletir sobre o Espírito do médium e pô-lo a descoberto de influências nocivas;

            M - Que a instrução literária, filosófica, ou científica, não é elemento essencial da boa produção mediúnica, mas deve ser cultivada, em termos, porque enriquece o cabedal latente do médium e facilita maiormente as comunicações;

            N - Que não pode nem deve ser juiz da própria lavra, seja para exaltá-la ou rebaixa-la, deixando a outrem a tarefa de analisar e "julgar a árvore pelos frutos", contentando-se ele com o dever honestamente cumprido;

            O - Que deve evitar os meios sociais deletérios e viciosos, onde as paixões inferiores são facilmente combustíveis, mas procurando faze-lo, não com ostentação e desdém, para não escandalizar e sim discreta e criteriosamente, de modo a edificar os seus semelhantes.

            P - Que, devendo todo crente evangélico ser manso como as pombas e prudente como as serpentes. não pode nem deve alardear seus predicados e muito menos submete-los à prova e à critica de profanos incompetentes, quando não, mal intencionados.

            Q - Que, na vida de relação, sob qualquer dos seus aspectos, precisa desenvolver o máximo critério para discernir o que pertence ao homem e o que incumbe ao crente, a fim de poder, em consciência, dar a Cesar o que é de Cesar e dar a Deus o que é de Deus.

            R - Que esse discernimento só lhe pode advir gradualmente, mercê de uma disciplina moral e mental praticada sem precipitações nem desfalecimentos;

            S - Que a meditação, o recolhimento e a prece são os melhores agentes de avigoramento para o corpo e para a alma, pelo que deverão ser praticados com moderação e regularidade;

            T - Que não há regimes alimentares especiais aconselháveis, que favoreçam ou facilitem a prática mediúnica, exclusão feita de substâncias nocivas e uma vez mantida, como princípio, a necessária sobriedade;

            U - Que essa sobriedade deve estender-se maiormente ao regime moral, sem privança de diversões sociais compatíveis com o meio e a idade de cada um;

            V - Que não deve nem pode impunemente tirar partido, mesmo indiretamente, das suas faculdades, pois, sendo a mediunidade um dom gratuito da Providência, deve ser considerada como verdadeiro sacerdócio, dentro do preceito: “dar de graça o que de graça receber" e mais ainda: - com espontaneidade de sentimento;

            X - Que não há médiuns melhores nem piores, de vez que as faculdades lhes podem ser cassadas, cessantes a todo tempo, com o afastamento dos desencarnados, sob as vistas e por intervenção de seus Guias.

            Y - Que o trabalho é uma prece, ao mesmo tempo que um agente indispensável ao progresso físico planetário, não sendo lícito ao homem, muito menos ao médium, tornar-se ocioso e inútil à coletividade, sob pretexto de melhor ou maiormente prestar-se à caridade; e,

            Z - Que a Caridade é sentimento vivo e, como tal, não se deve, nem se pode conceber regulamentada, condicionada, fragmentada em atos alternativos, quando não caprichosos e incoerentes, como a própria índole humana, vacilante e imperfeita, razão pela qual estimará no seu trabalho apenas o comezinho cumprimento de um dever, com benefício próprio exclusivamente, de vez que a misericórdia divina não precisa do homem para afirmar-se ao mundo e no mundo.



                                                                       Parecer

            Respeito à tese supra, de autoria de Manuel Quintão, a Comissão manifesta-se de pleno acordo com ela, pedindo vênia para salientar a sua parte final, o "Abecedário dos médiuns", cujos conceitos e critério são dignos de nota e da aprovação do Conselho.

            Rio, 6 de Outubro de 1926

Codro Palissy
Pedro de Camargo
Epiphanio Bezerra
José do Sacramento

            A conclusão deste parecer foi aprovada sem debate, pelo Conselho, na sessão de 7 de outubro de 1926.




3. Histórias do Chico...



03 Histórias do Chico...

O Mal...

            Andava o Chico desgostoso em verificar tantas maldades.

            Irmãos de várias crenças, no lar e fora do lar, se desavinham por questões de somenos. Ele mesmo, vez por outra,  sentia-se acicatado pela maldade humana.

            De uma feita, perguntou a Emmanuel:

            - Meu Pai, que é o mal?

            E seu amoroso Guia respondeu-lhe de forma precisa, em poucas palavras, mas onde se nota um mundo de sabedoria cristã:

            - O mal é alguém em desacordo conosco...

Ramiro Gama
in ‘Irmãos do Bom Combate’
Edição G E Regeneração RJ RJ - 1969





2. Histórias do Chico...



02 Histórias do Chico...

No Centro Espírita do Chico Xavier pode ir...

            Um irmão nosso, residente numa cidade do Estado do Rio, portador de grande mágoa, vivendo uma prova rude de resgate de uma falta que cometera, em momento de invigilância, visitava o Chico amiudamente.  

            E sempre, por misericórdia e acréscimo, recebia esclarecimento e consolação.

            Não era um crente convicto.

            Tanto entrava numa igreja católica como num Centro Espírita ou num Templo Protestante ...

            Recebendo dádivas quantiosas, além do que esperava e merecia, nem sempre traduzia e punha em prática os conselhos recebidos.

            Se desse passos à frente, se subisse e descesse morros, se visitasse as avenidas dos necessitados e lhes levasse, com a palavra já esclarecida algo de si mesmo e um pouco de alimentação e medicação para os enfermos do corpo e da alma, modificaria seu clima tristuroso, ensombrado, doentio... Esses os conselhos recebidos, constantemente.

            De repente, como era de esperar, deixou de visitar Pedro Leopoldo. E procurou novas verdades nos templos católicos. Confessava e comungava, quase que semanalmente, junto aos Sacerdotes Amigos. Ambientou-se com o clima dos Padres. Amistara-se com um deles e confessara-lhe, de uma feita, suas amarguras e o que recebera nas Sessões Espíritas e esse lhe determinara:

            - Se deseja receber nossas graças, não deve mais frequentar as sessões espíritas...

            - Mas, Padre, às vezes, eu visito o Chico Xavier, em Pedro Leopoldo, e apenas às sessões dele é que assisto ...

            - Bem, reconsiderou o Padre, no CENTRO ESPÍRITA DO CHICO XAVIER PODE IR...   


Ramiro Gama
in ‘Irmãos do Bom Combate’
Edição G E Regeneração RJ RJ - 1969