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sábado, 2 de março de 2019

Os fenômenos psíquicos e a moralidade do médium





Os fenômenos psíquicos e a moralidade do médium
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Agosto 1925

(A propósito de um artigo do Dr. Eugenio Osty.)

            O Dr. Eugenio Osty, ilustrado metapsiquista francês, 
está fazendo um estudo, em que  indaga das causas psicológicas
 que predispõem à mediunidade, que a desenvolvem ou restringem.

            Vêm-se, do seu trabalho, as dúvidas, as incertezas, 
as vacilações que assaltam o fisiologista,
para dizer com segurança o que indispõe ou predispõe o médium,
no desdobramento de sua faculdade.

            Há fatores que, em uns, 
tornam difíceis as manifestações mediúnicas ou, 
de alguma sorte, as suprimem; 
esses mesmos fatores, em outros indivíduos, 
são de efeitos surpreendentes.

            Há um, porém, onde já não têm cabimento as divergências. 
Os seus efeitos se apresentam uniformes 
- e a esse nós chamaríamos de fator moral – 
aquele que é condicionado pela vida moral do médium, 
pela sua retidão no cumprimento dos deveres, 
pelas suas virtudes, pela obediência aos preceitos cristãos.

            Enquanto o Dr. Osty encara o assunto pelo seu lado psicológico, 
vamos nós tirando as conclusões filosóficas que os fatos nos impõem.  

            Não são os efeitos físicos de uma existência ascética, 
não é a influência orgânica que exercem ação sobre a mediunidade, 
as consequências de uma vida virtuosa imperam sobre o ambiente do médium, favorecem o auxílio das potências superiores – e ai temos o surto dos “milagres”.

            Não se poderá negar que a debilidade do corpo 
facilita o desprendimento do espírito. 
E, daí, muitas vezes, a produção de uma série de fenômenos, 
que muita gente não sabe explicar. 
Mas, o que também temos por certo,
 é que eles não se darão, ou, pelo menos, 
não terão a forma impressionante do milagre,
se o médium não for possuidor de elevação de caráter e
 de procedimento nobre, 
ou não terão durabilidade, 
se o mesmo médium for arrastado para o mal caminho.

            É o que nos induziram a crer as nossas observações pessoais.

            Num indivíduo de maus costumes, 
os fenômenos físicos por ele produzidos
nunca serão de ordem a beneficiar a humanidade,
incluindo entre eles a mediunidade curadora, 
tão desenvolvida e espalhada entre nós, 
antes, tomam os fenômenos a forma daquilo que os médicos denominam genericamente de moléstias nervosas e a que chamamos de obsessão.

            Quem priva de perto com os médiuns e, sobretudo, 
com aqueles que tiveram a alta missão de aliviar as penas do gênero humano, 
sabe quanto lhes custa a eles o mal uso de suas faculdades 
ou se desviarem de uma digna linha de conduta.

            Em pouco se esgotam os dons e o infeliz, 
arrastado por uma sorte inexplicável, vai, 
de queda em queda, esbarrar num abismo donde não há levantar.

            O Dr. Osty pode indagar como terminaram seus dias 
grande número de médiuns europeus que tiveram fama, 
que produziram fenômenos rigorosamente observados;
 procure acompanhar-lhes o curso da vida e novo rumo terá que dar, 
talvez, ao encaminhamento do seu espírito científico 
na nova forma de atividade para que o dirige.

           Entre nós, dois médiuns houve de fama e que produziram trabalhos portentosos.

           Como é de ver, levantou-se grande campanha contra eles. 
Era a prova, a grande prova a que todos nós temos que sujeitar.
Eram ambos médiuns curadores, 
a mais bela e a mais perigosa das mediunidades.

            Eram reais, positivamente reais, os fenômenos. 
A imprensa tratou da momentosa questão.
Livros se escreveram sobre esses médiuns. 
Formou-se lhes em torno a auréola de assombro.

            Os doentes apareciam curados as dezenas, as centenas. 
Muitos de seus nomes ainda estão na memória de todos.

            Eis que, porém, a cupidez, o egoísmo, a vaidade 
foram fazendo brecha na alma deles, os médiuns, 
e minando-as e solapando-as sorrateiramente.
           
            Começaram eles a acreditar 
no que lhes diziam os homens da ciência, 
que aquela faculdade era um pode humano; 
falaram-lhe ao interesse e ao orgulho.

            Tinha sido escalada a fortaleza pelo ponto vulnerável: 
em pouco lhes desaparecia o dom miraculoso e eles caíam na miséria!

            O que foi o doloroso fim de ambos muita gente ainda se recorda.  

            Cantaram vitória aqueles que o detraíram, supondo que 
a falência do homem seria a falência da doutrina.

            Parece, porém, que a época ainda é de provas amargas. 
Todos os médiuns, os bons médiuns, 
não sabem resistir aos ataques com que são postos em experiência.

Para que escapem, 
para que se furtem às investidas misteriosas que o fazem cair,
 é preciso que passem obscuramente,
 que não se lhes conheçam os nomes, 
que não se lhes apontem os feitos.

            Estes devem surgir unicamente nos frutos produzidos.

  O médium, pelo menos em nossos dias, 
precisa viver desconhecido e humilde. 
Lá, na sua obscuridade, 
como que só o vêm os que tem muita luz, luz espiritual,
luz celeste, e são estes que o assistem e o protegem.

Ai dele, se a tuba da fama o vai buscar, e ai dele, sobretudo, 
se não procura manter os ouvidos fechados a todas as louvaminhas 
e a todos os encômios, que são como a arapuca armada à sua experiência.

         Falamos de dois médiuns curadores e do seu triste fim.    

         E falaríamos ainda de um terceiro, cujos fatos são de agora, 
se não nos fosse faltando espaço. Infelizmente, 
não podemos dar o cunho de autenticidade aos fatos,
por não nos ser permitido citar nomes.

              Como iríamos nomear os que se tem desviado do caminho do bem, 
como aponta-los destas colunas? 
Como trazer a público fatos dolorosos, indicando os seus heróis?

              Perca este trabalho o seu valor documental, mas salvem-se os preceitos doutrinários que mantemos com tanto fervor.

              Iremos, portanto, continuar no nosso modesto estudo, 
citando fatos, sem a preocupação dos nomes.

              E Deus há de permitir que a nossa palavra não seja posta em dúvida.

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