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domingo, 4 de março de 2018

Desencarnação



Desencarnação

Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco
em 02/03/74, C E Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

            Resultando da orientação religiosa deficiente que situou a morte como ponte entre a vida física e a sobrenatural, onde a Divina Justiça aguarda o Espírito para brindar-lhe a paz ou a desdita, o conceito errôneo ensejou aos céticos anotações devastadoras, tornando-a simples retorno ao pó donde se teria originado, portanto, ao aniquilamento.
            Não obstante sua remota antiguidade, o culto dos mortos recebeu do hedonismo grego terrível reação, quando os usufrutuários do prazer situaram os impositivos do existir simplesmente no ideal físico e estético da beleza e do gozo com as decorrências imediatas da dissolução dos tecidos e das expressões do pensamento.
            Os estóicos, que se lhe opunham, esforçavam-se por colocar resistências ao pavor da morte, numa tentativa de se evitarem a tristeza e a dor, mediante um fatalismo racionalista com que se deve superá-las, através do esforço sobre-humano para enfocar as realidades do dia-a-dia, vivendo-se com valor cada hora no mundo material.
            O Cristianismo foi, na História, a mais eloquente mensagem de louvou à vida e à morte, considerando-se que a ética vivida e ensinada por Jesus é toda vazada na ‘negação do mundo material’ para a afirmação de Deus e da vida espiritual. A sua mensagem impele o homem ao entesouramento dos valores morais que não transitam nem se perdem quando se decompõe as aparências orgânicas, permanecendo além-túmulo como superiores recursos para a sobrevivência feliz. Além disso, o seu contato com os chamados mortos, em contínua convivência, suas horas de solidão com Deus atestam a grandeza do princípio espiritual sobrepujando as limitações do veículo carnal.
            Como se não bastassem as eloquentes comprovações de que se fez ímpar agente, retornou, ele próprio, do além-túmulo, à presença de um sem-número de testemunhas, com elas confabulando e convivendo com expressões de vitalidade incontestável...
            Em todos os tempos ressumam os atestados imortalistas, no incessante intercâmbio entre as duas esferas: a orgânica e a espiritual.
            Mentes áridas e atormentadas, no entanto, hão procurado sepultar no ‘nada’ a glória imortal. Não obstante o atavismo dessa negação, no inconsciente humano mantido pela sistemática da descrença, jamais foi utilizada a expressão niilista sobre a vida imortal nos incontáveis conúbios de que foram instrumento médiuns, santos e apóstolos, afirmando sempre a sobrevivência... Em todos esses fenômenos paranormais, o verbete Imortalidade superou o aniquilamento do ser,  reafirmando a indestrutibilidade do Espírito à decomposição dos tecidos carnais...

                                                               ***

            Não há morte, ninguém se equivoque.
            Só há vida, onde quer que se detenha o pensamento.
            Da decomposição pestilencial da matéria surgem multiplicadas, complexas formas de vida.
            Morre a lagarta em histólise de desagregação para surgir a borboleta em histogênese admirável...     
            Morre a semente para libertar a planta...
            Morre o sêmen para formar o corpo...       
            Morre o corpo para que se liberte o Espírito que dele se utiliza como de um veículo em romagem purificadora.
            Sem dúvida, a morte constitui dor inominável quando arrebata o ser querido, retirando-o da convivência e da ternura dos que a amam... Possivelmente, é a dor moto contínuo de maior duração, graças ao apego e valor que se atribuem aos grilhões carnais.
            A ausência do corpo não impede, porém, a presença do ser, desagregado na forma, não todavia, aniquilado na essência. Ninguém sobreviverá sine die enquanto no ergástulo fisiológico.
            Indispensável considerar que a vida orgânica, iniciada no ovo, se dilui quando cessa a circulação sanguínea por falta de oxigenação; todavia, a causa que aglutinou as moléculas e as transformou prossegue, agora livre, continuando os rumos que deve vencer.
            Ninguém é genitor ou filho, esposo ou amigo afeiçoados por caprichos do acaso. Quando se rompem as argamassas não se dessorem os vínculos superiores que os precederam ao berço e os sucederão ao túmulo.
            Imperioso considerar, mediante reflexão continuada, a problemática da morte, a fim de que a surpresa, decorrente da imantação ao corpo físico, não se transforme em rebeldia inútil ou exacerbação dissolvente.

***

            Os seres amados recebem, onde se encontram vivos após a morte, os dardos da revolta negativa para eles como as lembranças afáveis do amor.
            O pensamento é força vital gravitando no Universo.
            Imã poderoso mantém sua própria força e atrai as ondas semelhantes que nele se fixam ou às quais se liga.
            Assim, recorda os teus mortos com alegria e ternura, mesmo que isto te pareça paradoxal.
            A morte não visita apenas o teu lar. Passa por todas as portas, invariavelmente. Se amas, conforme dizes, atesta-o com nobreza e não por meio da insensatez.
            Uma memória que inspira desesperação, realmente não foi útil nem nobre.
            Somente o amor verdadeiro inspira ânimo e confiança, alegria e esperança.
            Coloca-te no lugar de quem partiu e considera a forma como te sentirias se foras a causa do infortúnio da pessoa que, dizendo amar-te, pensa em fugir, em vingar-se, em abandonar a vida...
            Refletirás melhor e transformarás a dor em flores de alegria, guardando a certeza de que o amanhã fará o teu reencontro com quem amas.
            A vida sempre devolve conforme recebe. Irisa o céu da tua saudade com a luz da oração pelos teus amados imortais. E começa a preparar-te para a vilegiatura que te alcançará logo mais... Rompe as algemas da paixão, quebra as peias do egoísmo, organiza o programa de liberação das mágoas, reflete nas dores e, quando chegar o teu momento, que nenhuma retentiva te prenda na retaguarda...
            Vivendo, está-se desencarnando a pouco e pouco. O golpe final resulta de todos esses pequenos morreres, que lançam a alma na realidade da consciência livre e indestrutível.
            Desencarnar é desembaraçar-se da carne.
            Morrer, literalmente, significa cessar de viver.
            Do ponto de vista espiritual, porém, morte é vida e vida no corpo pode afigurar-se como morte transitória da liberdade e da plenitude da lucidez.
            Vive, pois, de tal forma que, advindo a morte ou desencarnação, estejas livre e prossigas feliz.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Uniformidade nos trabalhos práticos de Espirtismo



Uniformidade nos trabalhos práticos de Espiritismo
por Sílvio Brito Soares
Reformador (FEB) Setembro 1947

A religião espírita se diferencia profundamente das demais religiões por uma particularidade muito singular: a de não existir CHEFE visível a quem se deva prestar obediência, mesmo porque, no mundo, homem algum, verdadeiramente consciente, será capaz de alimentar a pretensão de chefiá-la, dada a transcendência dos problemas que ventila.

É imprescindível que os confrades, diretores de sessões práticas de Espiritismo, não desprezem o grande cabedal de conhecimentos hauridos por associações veteranas no trato com as entidades espirituais através do mediunismo, não vacilando em se utilizarem dessas modalidades e normas que o tempo veio demonstrar como as mais consentâneas -com os princípios básicos da nossa doutrina.

É bem verdade que as tarefas mediúnicas variam muitas vezes de país a país, como, por exemplo: em nossa Pátria o Espiritismo floresceu à sombra amena do Evangelho, e a realidade do que asseveramos está no fato de ele ter tomado características bem positivas de religião, enquanto que na Europa o raio de suas atividades se limitou apenas às pesquisas científicas. Nos Estados Unidos da América do Norte, embora existam importantes institutos que se dedicam a essas experimentações, há também templos para o culto espiritista, com seus ministros credenciados e onde se entoam hinos acompanhados de órgão, etc.; culto, no entanto, que muito se aproxima ao dos Protestantes:

O culto religioso, dentro do Espiritismo brasileiro tem todavia, características próprias, perfeitamente equidistantes dos cultos das várias religiões. O Espiritismo marcha vitoriosamente, em terras de Santa Cruz, para, no lapso de alguns unos, se firmar como a grande e inconfundível religião do Amor - o Cristianismo redivivo - não fosse ele o Consolador prometido pelo divino Mestre,

É à luz do Espiritismo brasileiro que o Evangelho de Jesus e as Epístolas que o acompanham vão sendo elucidados, reinterpretados em Espírito e Verdade, possibilitando destarte a que todos possam formar de Deus e do Cristo um conceito menos terreno e, portanto, mais equânime com o seu alto espírito de justiça, de perdão e de misericórdia.

É através desse Cristianismo redivivo que a sabedoria de Deus transcende em pontos de luz que penetra fundo em nossas consciências, despertando-as de seu sono milenar de superstições, ao mesmo tempo que realça, de maneira exuberante, a Infantilidade de umas tantas crenças, bem como essa tendência para exteriorizações e dogmatismos.

Em nosso imenso "hinterland" também os trabalhos mediúnicos podem variar, em detalhes, por força de circunstâncias supervenientes, mas o que não podem e nem devem ser alteradas são as normas gerais de conduta na prática do mediunismo e nas reuniões, sejam elas públicas ou privadas.

A uniformidade em tais trabalhos deve, antes de tudo, ser uma demonstração de alta compreensão e perfeita conjugação de nossos pensamentos e propósitos em face dos ensinamentos kardecianos.

Porque é profundamente lamentável o que se observa em alguns Centros onde a sinceridade é inconteste mas a par dessa sinceridade existe também muita ignorância que cria verdadeiros absurdos, crendices, superstições, um misto de Catolicismo, com o uso de imagens, aliás condenadas pelo Decálogo, enquanto tudo isto poderia ser perfeitamente sanado, bastando apenas que os dirigentes responsáveis desses Centros procurassem melhor conhecer "O Livro dos Médiuns" além dos demais que integram a codificação kardeciana, bem como o opúsculo, muito útil, intitulado "As Sessões Práticas de Espiritismo", de autoria de Spartaco Banal.

Fácil será, assim, obter-se uma uniformidade na maneira de serem conduzidos os trabalhos, evitando-se tanto quanto possível que um médium ou um simples assistente, quando deslocado de uma cidade para outra ou mesmo para bairro diferente, não se sinta de certo modo constrangido em cooperar noutro grupo, por não se ajustar ao ritmo de trabalho e compreensão da Doutrina, divergentes inteiramente daqueles que até então se habituara a prestar seu concurso. .

Todos os Centros devem estar em perfeita sintonia com as entidades orientadoras do Espiritismo nos diferentes Estados, para que haja a necessária união de vistas e de tal sorte se obtenha uniformidade de normas em todas as reuniões públicas e privadas, que se realizem em qualquer ponto do nosso vasto território.

Dentro do Espiritismo jamais deve medrar as ervas daninhas da vaidade e a ridícula pretensão de saber-se mais, ou menos, porque em verdade só seremos esclarecidos e inspirados quando estivermos revestidos com a túnica da humildade e trabalharmos com um único objetivo qual o de beneficiarmos o próximo e engrandecermos a doutrina a que nos filiamos, pois que só assim, cremos nós, estaremos homenageando o Cristo e honrando a Deus, nosso Pai e Criador.


Amor Universal



Amor Universal
Jayme Braga
psicografia de Porto Carreiro
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

O Prof. Porto Carreiro estava escrevendo uma carta a um amigo, quando
se apresentou seu Guia, Jayme Braga, e ditou um trecho da carta. O trecho do Guia, destacado da missiva, vai impresso aqui, porque interessa a todos; é um ensino sobre a colaboração universal. - A redação.

“Não há dúvida de que só a colaboração pode frutificar: as árvores precisam do solo e do sol, da terra e do espaço. Na árvore vemos a expressão requintada da colaboração, silenciosa e eficiente infatigável e desprendida, conhecendo seu destino, que não é para seu proveito, mas para sustento de outrem: desde a sombra que prodigaliza a quem, ensolarado, morre à abundância de calor - que lhe seria a vida; desde a ave, que lhe procura a ramaria, para construir com esses mesmos ramos o abrigo para a vida e para a morte; desde a flor, que delicia, e o fruto, que mitiga a fome e desaltera a sede; até o próprio cerne, as raízes, a casca, elementos de construção, seja da casa em vida, seja do lar na morte. Ereto e impávido, ou humilde e rastejante - cumpre o vegetal seu destino - que é o destino da comunidade. Em si mesmo demonstra a colaboração de forças e de elementos materiais, dando exemplo do amor sem interesse mesquinho, mas do Amor que olha tão somente a outrem - pois serve com seu próprio sacrifício: despetala-se para adorno, frutifica para alimento, tomba para abrigo. Vivo, dá ainda sombra e refrigério, tranquilidade e segurança, repouso e embalo; morto, consome-se ao fogo voraz, que aos homens aquece o sangue enregelado e lhes prepara o alimento; e as cinzas ainda são úteis a esse mesmo homem que o destruiu, para servir-lhe à vida insaciável. Canta as glórias do Senhor, ao lhe perpassarem as brisas na folhagem. E vive para essa glória; altaneiro, olha, em êxtase, para o céu azul da primavera; submisso, suplica, em contrição, ao céu plúmbeo do inverno. Canta, mas não para si mesmo, senão para embalar os corações amargurados. Conta-lhes a majestade do Além, que sonda pelas folhas do tope; conta-lhes as maravilhas da Terra, perscrutando-lhe os segredos através das raízes. Ligado ao solo, procura, entretanto, a luz; não procura fugir à terra, antes a esta se apoia; mas não lhe esquece que a Vida a deve ao Sol - Fonte de sua Vida maior, para a grandeza de si mesmo.

Nós precisamos dos Grandes e dos pequenos; daqueles que nos determinam as tarefas, nos instruem e conduzem, inspiram e animam, confiam e esperam; como dos humildes, por sua vez nossos indispensáveis auxiliares, os nutridores da nossa energia, os colaboradores acidentais - inspirados, eles mesmos, pelos mesmos inspiradores nossos. São a luz, que incide nas folhas, para reforço da energia invisível; são a terra, que traz o alimento maternal, a ser absorvido pela raiz. São, todos, os elos da infinita cadeia, que indissoluvelmente liga a matéria ao Espírito, no conjunto harmônico do Amor Universal!"

O Homem, esse mistério


O homem, esse mistério
A Redação 
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

  O homem físico é padronizado: tem as mesmas necessidades dos animais. Guia-se pelos instintos de conservação do indivíduo e da espécie. Mas o homem moral varia ao infinito desde a máxima mesquinharia até a sublimidade divina.

Há homens que pertencem às coisas materiais que eles supõem possuir mas na verdade são possuídos por elas. Sua escravidão aos bens é absoluta e tudo absorve. Todos os seus pensamentos, palavras, atos, emoções, relações, giram em torno dos processos de apropriação e conservação da propriedade. São muito infelizes e dignos da nossa compaixão. Julgando os outros por si mesmos, não creem no amor, na amizade, nos ideais; passam a vida e longo tempo depois da morte acorrentados aos bens e aguilhoados pelo temor de perde-los. Em cada ser humano veem um perigo, uma ameaça para seus domínios. A sociedade dá a esses infelizes o título de avarentos. Sua variedade é infinita: desde o mesquinho que se priva de alimentos para acumular fortuna e se suicida lentamente, até o profiteur de guerre que lança as nações umas contra as outras para lhes vender armamentos.

Vêm-nos estas reflexões ao sabermos que um idealista muito pobre, quase necessitado, que deu todos os seus esforços ao ideal espírita durante a vida inteira, ao receber inesperadamente um legado grande, generoso, que poderia por-lhe o resto da vida ao abrigo de necessidades materiais, sem um momento de hesitação doou o legado integral à Federação, sem se reservar um ceitil, -para a obra de divulgação da nossa Doutrina, da Doutrina que já recebeu dele serviços de valor inestimável. Justificando-se do ato, esclareceu que a Divina Providência sempre lhe deu tudo de que necessita, inclusive amigos dedicados e serviçais, de sorte que ele não precisa de dinheiro e acha que dará prazer ao Espírito do generoso amigo que lhe deixou essa fortuna, pondo-a desde logo a serviço do Espiritismo que o saudoso desencarnado propagava com ardor de verdadeiro apóstolo.

De quantos milênios de evolução ainda necessita o homem comum da Terra, o escravo da propriedade, para chegar a esse grau de fé em Deus, de desapego pelas coisas materiais que lhe permita ser livre, quebrar todas as algemas que o prenderiam à crosta do planeta?

Mesmo entre os iniciados do Espiritismo, sem dúvida os homens mais generosos e desapegados dos bens materiais, ainda são poucos os exemplos dessa elevação; embora sejam mui frequentes - graças a Deus - os atos de generosidade espírita, atos inconcebíveis pelo materialista comum.

Se o homem, quanto ao corpo, é padronizado, o homem, quanto ao Espírito, varia tanto em grandeza, que uns são pequeninos grãos de areia e outros são imensos himalaias; uns são gotinhas d’água, outros, grandiosos oceanos.

O homem espiritual é o mais sublime dos mistérios.        

A prece recompõe


Esflorando O Evangelho
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Junho 1946

A prece recompõe

"E tendo orado moveu-se o lugar em que estavam reunidos." (ATOS, 4:31).   

Na construção de simples casa de pedra, há que dispender longo esforço para ajustar ambiente próprio, removendo óbices, eliminando asperezas e melhorando a paisagem.

Quando não é necessário acertar o solo rugoso, é preciso, muitas vezes, aterrar o chão, formando leito seguro à base forte.

Instrumentos variados movimentam-se, metódicos, no esforço renovador.

Assim, também, na esfera das cogitações de ordem espiritual.

Na edificação da paz doméstica, na realização dos ideais generosos, no desdobramento de serviços edificantes, urge providenciar recursos ao entendimento geral, com vistas à cooperação, à responsabilidade, ao processo de trabalho imprescindível. E, sem dúvida, a prece representa a indispensável alavanca renovadora, apagando obstáculos no terreno duro da incompreensão.

A oração é divina voz do Espírito no grande silêncio. Nem sempre se caracteriza por sons articulados na conceituação verbalística, mas, invariavelmente, é prodigioso poder espiritual, comunicando emoções e pensamentos, imagens e ideias, desfazendo empecilhos, limpando estradas, reformando concepções e melhorando o quadro mental, em que devemos cumprir a tarefa a que o Pai nos chama, onde estivermos.

Muitas vezes, nas lutas do discípulo sincero do Evangelho, a maioria dos afeiçoados lhe desentende os propósitos. 0s amigos desertam, os familiares cedem à sombra e à ignorância; entretanto, basta que ele se refugie no santuário de si mesmo, emitindo energias benéficas de amor e compreensão, paz e fraternidade, a fim de que se mova, na direção de mais alto, o lugar onde se encontra com os seus.

A prece tecida de inquietação e angústia não pode distanciar-se dos gritos desordenados de quem prefere a aflição e se entrega à imprudência, mas a oração tecida de harmonia e confiança é movimento positivo na bússola da fé viva, recompondo a paisagem em que vivemos e traçando rumos novos para a vida superior.

A Salvação



A Salvação  
Editorial
Reformador (FEB) Junho 1948

As Igrejas chamadas cristãs, crentes na encarnação única, segundo a qual a alma seria criada ao mesmo tempo que o corpo e teria a sua sorte fixada depois da morte para todo o sempre, fosse a vida de algumas horas ou de um século, ensinam o bem viver como processo de salvar cada um sua própria alma e nada mais, porque o tempo realmente seria demasiado curto para tarefa maior. A essa salvação milagrosamente repentina, pois que o homem disporia apenas de uma curta vida para realizar toda a sua formação espiritual, o Espiritismo opõe outra infinitamente mais longa, mais real e menos egoísta. Ensina que a formação espiritual completa exige milênios de trabalho e que o homem não pode salvar somente a sua alma, porque sente a solidariedade de toda a família humana e percebe que ele é apenas parte de um todo que tem de ser salvo com ele, por mais longo que seja o tempo necessário. Percebe a solidariedade universal e, dando-lhe o nome de caridade ou de amor ou mesmo de solidariedade, trabalha igualmente para salvar o mundo, melhorando-lhe as condições de habitabilidade e instruindo e educando a si mesmo e aos seus companheiros terrícolas.

Os membros das Igrejas, depois de desencarnados e quando são Espíritos adiantados, não perdem ensejo de voltar à Terra e ensinar a nova doutrina em oposição à velha, Vamos transcrever aqui algumas frases do Cardeal Marlot, publicadas por Allan Kardec no "Evangelho segundo o Espiritismo" pág. 94 da 31ª edição brasileira:

“Todavia, não deduzais das minhas palavras que a Terra esteja destinada para sempre a ser uma penitenciaria: Não, certamente! Dos progressos já realizados, podeis facilmente deduzir os progressos futuros e, dos melhoramentos sociais conseguidos, novos e mais fecundos melhoramentos. Essa a tarefa imensa cuja execução cabe à nova doutrina que os Espíritos vos revelaram ...

“Todos os vossos corações aspirem a esse grandioso objetivo de preparar, para as gerações porvindouras um mundo onde já não seja vã a palavra- felicidade."

A tarefa imensa do Espiritismo não é somente de salvar almas e mandá-las para o céu, como pretendem fazer as Igrejas. Não é somente uma forma de culto, adoração ou religião, porque toca também as coisas materiais em todos os seus aspectos, trata da vida social. Não cogita de nos livrar do mundo e nos abrir as portas de estados mais felizes na espiritualidade, mas nos dá a tarefa lenta, milenária, de elevar também o mundo na escala planetária.

Já não se trata de fugir para o reino do céu, mas em construir o reino do céu entre nós sobre a Terra.

Melhor do que as Igrejas cristãs, os judeus sabiam que o Reino de Deus tem que vir à Terra, embora o imaginassem vindo milagrosamente, o que Jesus corrigiu, como vemos desta passagem de Lucas, 17 :20:

Tendo os fariseus perguntado a Jesus quando viria o Reino de Deus, ele respondeu: O reino de Deus não vem visivelmente, nem dirão: Ei-lo aqui! ou: Ei-lo acolá! porque o reino de Deus está no meio de vós.”

Nota-se da pergunta que os fariseus do tempo de Jesus não localizavam o reino de Deus num mundo fora do nosso e que ele confirmou a convicção existente de que o reino de Deus não é num mundo à parte. Todas essas ideias, porém, eram vagas e só ficaram perfeitamente claras com o ensino dos Espíritos.

Com as novas luzes trazidas à Terra pelos Espíritos, a obra de salvação compreende todas as atividades humanas, espirituais, sentimentais, científicas, técnicas, industriais, tudo quanto promova progresso e melhore as condições de habitabilidade do planeta. Fica abolida a ideia de que o mundo é um dos inimigos da alma, e todos os serviços prestados ao mundo passam a ser de origem tão divina como o culto, a adoração. Ficamos sabendo que os Missionários que promovem o progresso em todas as suas modalidades, são outros tantos profetas de Deus, Assim passamos a listar Edison, Marconi, Santos Dumont, Zamenhof, Bellamy, Pasteur, com Isaias, Paulo de Tarso, AlIan Kardec. O mundo os distribui, conforme suas missões, em gênios, descobridores, heróis, santos, benfeitores da Humanidade, mas na verdade todos são Missionários e não podemos julgar com acerto a significação de cada missão, pois que muitas delas só em remoto futuro poderão ser integralmente compreendidas. Quem hoje poderá imaginar todas as consequências futuras do Esperanto nas organizações sociais do ano 3.000? Se uma descoberta muito menor a Imprensa, em alguns séculos transformou o mundo, é provável que a obra de Zamenhof, a serviço da Nova Revelação, transforme toda a mentalidade humana em poucos séculos.

Na doutrina espírita não existe a mesma concepção teológica de salvação, como a ensinam as Igrejas cristãs, porém outra muito mais divina, por isso que universal: portanto, os espíritas são ativos, operosos, serviçais, mas não místicos e contemplativos. Não temem a promiscuidade social nem a evitam; não receiam contaminar-se ao contato com o mundo, nem contaminar o mundo com o seu contato. Essa ideia de contaminar-se ao contato com lugares ímpios fica expressivamente exemplificada por João (18:28 a 31):

"Conduziram a Jesus da casa de Caifás para o Pretório. Era de manhã cedo. Eles não entraram no Pretória para não se “contaminarem”, mas para poderem comer a Páscoa. Pilatos saiu para ir ter com eles e perguntou-lhes: Que acusação trazeis contra esse homem? Responderam-lhe: Se ele não fosse malfeitor não to entregaríamos. Replicou-lhes Pilatos: Tomai-o vós mesmos e julgai-o segundo a vossa Lei. Disseram-lhe os judeus: A nós não nos é permitido tirar a vida a ninguém."

Entrar no palácio de um gentio seria contaminação, mas exigir que esse gentio matasse um filho do povo eleito, contra os dispositivos da Lei de Moisés, isso lhes parecia a coisa mais inocente do mundo. O mesmo fanatismo religioso teve a Igreja Católica Romana que nos processos da Inquisição nunca executou um só dos condenados, mas os entregou sempre ao poder civil para executá-los segundo seu ritual, isto é, para serem queimados vivos.  

Tais perversões nunca se poderão dar com o Espiritismo, porque ele nos ensina a lei das afinidades espirituais, e demonstra que somente os Espíritos afins podem influenciar-se reciprocamente, logo, que o mau não tem ascendente nem influência sobre os bons nem pode contaminá-los. Assim, os espíritas nunca virão a formar uma casta religiosa fora da Humanidade, mas terão de cumprir suas missões em todos
os meios humanos.

Nossa concepção de salvação é universalista e não exclusivista.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Passes Magnéticos



Passes mediúnicos
por Areobaldo Lellis
Reformador (FEB) Março 1946

Tenho lido, em estatutos de muitas associações espíritas, figurando no rol de seus fins, ser um deles a aplicação de passes magnéticos. Embora essa declaração não impossibilite o registro, em Cartório, dos ditos estatutos, para que as associações passem a ter personalidade jurídica, tal afirmativa não expressa a verdade, consoante os ensinamentos doutrinários, por não corresponderem à natureza dos fatos.

Encarado o Espiritismo como ciência, religião ou filosofia, possui ele sempre um atributo específico: o atributo espírita, isto é, encontra as suas legítimas raízes nos seres desencarnados. Assim, quando se fala em passes, no Espiritismo, compreende-se que tais passes só podem ser mediúnicos e, não, magnéticos, embora eles tenham esse caráter. Vou explicar melhor. O homem só é homem quando vivo. Se está morto, ninguém dá mais o chama de homem e, sim, de cadáver. Porque isto? pela razão simples de ter se retirado dele a vida ou melhor, a fonte da vida, que é o Espírito. Por isto é que a "Gênese", primeiro livro da Bíblia, nos ensina haver Deus criado o homem à sua imagem e semelhança, porque o homem, a que ela se refere, é o Espírito e não o corpo físico. Quer isto dizer que a matéria nada cria nem produz, sendo tudo obra da centelha divina, repartida por todas as coisas e seres, espalhada por todo o universo, a qual na espécie humana se denomina Espírito, modo com que se convencionou chamar aquela centelha divina, quando alcança um certo período de sua evolução aqui na Terra. Tal é o ensinamento científico da doutrina.

Sendo o Espírito a fonte da vida, todo poder magnético vem dele. Sabemos todos que o sapo pode ser atraído por uma cobra, que o magnetiza à distância. O batráquio, sob a ação magnética do réptil, vem saltando e dele se aproximando, até ser pela cobra sacrificado. Porém, se pusermos um sapo vivo diante de uma cobra morta, mesmo que ela esteja de olhos abertos e dirigidos para o sapo, esse não será atraído, por faltar à cobra o seu poder magnético. E porque lhe falta esse poder? Porque a centelha divina, que era a razão de ser de sua existência terrena, dela se desprendeu, restando apenas o corpo físico sem vida, isto é, o cadáver. Essa centelha é o espírito da cobra, mas, como se convencionou chamar-se espírito à centelha que em nós vibra, nos termos acima referidos, chegamos, por ignorância dos ensinamentos científicos, à errônea conclusão de que a cobra, por ser um animal inferior, não possui espírito, nem tem alma.

Quando a cobra atrai o sapo, ou o sapo atrai a lagartixa ou a lagartixa atrai um inseto qualquer, o fenômeno de atração se dá em virtude de seu poder magnético, maior do que o do animal sobre o qual ele irradia. Porém, não é do seu corpo físico que nasce a força magnética mas da centelha divina, que lhe dá a vida. Nestes casos verifica-se o magnetismo animal. Do mesmo modo, quando, a título de espetáculo, um magnetizador qualquer, em um palco de teatro, hipnotiza uma pessoa, dá-se aí o magnetismo animal ainda, porque o poder de hipnose é do próprio magnetizador, tem origem no seu espírito. E se ele, para isto, ministra passes na pessoa, então podemos afirmar, com toda propriedade, que esses passes são magnéticos.

Do exposto, vê-se que a força magnética é atributo da centelha divina nos vários reinos da Natureza, dessa mesma centelha, a que chamamos espírito no homem. Das condições de potencialidade desse atributo depende a maior ou
menor força magnética de cada qual. A prova prática e ao mesmo tempo científica, de que a centelha se derrama por todo o Universo, temos na pedra ímã, para o reino mineral, e na gurarema ou pau d'alho para o reino vegetal.

Sendo o poder magnético atributo do espírito e não da matéria, é fácil compreender-se que, quando o Espírito desencarna, leva consigo esse atributo ou propriedade. Preliminarmente, deve ficar esclarecido não haver fenômeno mediúnico sem a presença de um médium. Médium é todo ser vivo, por ser a mediunidade uma faculdade do Espírito, faculdade que nem se perde, nem se tira, como erradamente se diz por ai.

Assim, nas associações espíritas ou fora delas, quando um espírita ministra um passe, esse é absolutamente mediúnico, embora, seja magnético. Seria, somente magnético, se ele fosse dado por um magnetizador, destituído de fé religiosa, de modo a não atrair, pelo seu próprio poder magnético, uma entidade incorpórea, no sentido da prática de um benefício. Porém, não se verifica isto nos centros espíritas. Aí tudo se faz sob os imperativos da fé e da convicção lógica de que, ao ter de aplicar um passe, a pessoa que vai realizar pede antes pelo pensamento a assistência dos bons protetores. Destarte, o seu passe é mediúnico, porque à sua força magnética vem juntar-se a do Espírito desencarnado, seu protetor. Assim como, nas horas das sessões doutrinárias ou mediúnicas, muitos Espíritos são atraídos ou trazidos, conforme as suas condições morais, para aquele ambiente, assim também os bons Guias e Protetores ali comparecem para a obra misericordiosa, que lhes toca.

Da conjugação dessas duas forças magnéticas, a do médium e a do Espírito desencarnado, resulta, então, o passe mediúnico, por haver nele a interferência de dois fatores distintos. Para que o passe, ministrado em semelhantes condições, fosse magnético, era preciso fosse dado apenas pela pessoa, sem a colaboração da entidade espiritual. Aí ele seria magnético, por haver concorrido apenas o que cientificamente denominamos magnetismo animal.

A maneira de aplicação dos passes mediúnicos varia muito, podendo obedecer às normas clássicas estabelecidas pelos livros científicos que tratam do magnetismo animal como a outros modos, que o próprio Espírito desencarnado cria para seu uso. Conheço um médium cujo protetor, ao incorporar para ministrar passes, os faz por meio de castanholas, vibrando os dedos com grande ruído. Outros se limitam à imposição das mãos sobre a cabeça, outros ainda fazendo correr as mãos sem tocar no corpo da pessoa, vibrando apenas lambadas pela ação do dedo polegar sobre o médio, Essas lambadas ou chicotadas, feitas em torno de quem recebe os passes, podem parecer sem importância, à primeira vista. Entretanto, possuem a sua utilidade, tal a de desfazer o campo imantado, existente em torno da pessoa.

Os médiuns de mais acentuada sensibilidade, costumam experimentar os efeitos desse campo de imantação fluídica, constituído em redor das pessoas, que estão sob a ação de más irradiações.

Possuem os passes uma dupla finalidade: a de afastar, pela força de repulsão, o Espírito irradiador que opera junto de sua vítima, e a de retirar-lhe os fluidos pesados, que a estão molestando. Em qualquer dos casos, o seu valor é incontestável, pela natureza do pensamento que os determina.

Uma das características mais impressionantes da importância dos passes mediúnicos se encontra na presteza dos seus efeitos, ao contrário do que ocorre nos passes propriamente magnéticos. Quem se der ao trabalho de ler as variadas obras sobre magnetismo animal, verá que os mais afamados passistas desse gênero jamais conseguiram curas rápidas de seus doentes, Porque? Pela circunstância de lhes faltar uma potencialidade mais forte, que lhes seria dada por um Espírito bom que consigo viesse operar. Daí a presteza com que se alcançam curas com os passes mediúnicos, nos casos em que eles se imponham. Esta superioridade de força é que torna os passes mediúnicos uma das mais poderosas armas como elemento terapêutico, no campo da medicina espírita. E porque resultam da conjugação de duas forças magnéticas ou eletrodinâmicas, no sentido justo da prática do bem, é que eles não devem figurar nos estatutos das nossas instituições espíritas como simples passes magnéticos. Estes são próprios dos Espíritos encarnados e, por isso mesmo, não possuem a potencialidade dos mediúnicos, onde se dá a intervenção de uma outra força extra corpórea.

Só a falta de conhecimentos da ciência espírita pode explicar esse erro e até certo ponto, essa irreverência para com entidades que ajudando em tais circunstâncias os trabalhos espíritas, se veem desclassificadas nos auxílios que nos prestam com tamanha boa vontade. Nessa incompreensão assenta, por sua vez, a campanha desenvolvida contra o Espiritismo e encontra a sua razão de ser para as perseguições, de que são vítimas todos os aplicadores de passes mediúnicos, pelo fundamento de não haver ainda a medicina acadêmica incluído, entre os seus métodos terapêuticos, o uso dos passes magnéticos, embora admitindo, no campo da neuriatria, essa coisa esdrúxula e absurda que é a auto sugestão, isto é, a faculdade, de que seríamos possuidores, de nos curar de uma desordem nervosa, convencendo-nos de que nada temos, sempre que nos dissermos portadores de uma nevrose qualquer.

Dia virá, em que tais coisas serão mais bem ajuizadas, máxime entre os espíritas, quando os conhecimentos científicos alcançarem maior repercussão em suas associações, abrindo clareiras no acervo dos nossos conhecimentos, Nesse dia, então, os passes mediúnicos substituirão, em alguns estatutos, os magnéticos.

A Margem da Etologia



A Margem da Etologia
por José Brígido (Indalício Mendes)
 Reformador (FEB) Março 1948


Disse alguém, alhures, que "a vida não é boa nem má: é a vida". Essa conclusão simplista, entretanto, pode levar-nos a várias considerações. O homem tem em si mesmo elementos para fazer de "sua vida" um mar de rosas, um mar alternativamente sereno e encrespado ou um mar permanentemente encapelado. Portanto, chegaremos à compreensão de que nós é que fazemos o ambiente em que vivemos. Os franceses vulgarizaram uma frase que tem sido usada fartamente em citações literárias: "a arte do saber viver". Aí, no saber viver, está a ciência da vida, ciência que exige acuidade espiritual, senso acurado de observação e descortino. Muitos Indivíduos se jactam de saber viver, mas estão redondamente equivocados, porque supõem que saber viver é conseguir gozos fáceis, acumular riquezas, preocupar-se apenas com o que lhes diz respeito, permanecendo indiferentes a tudo quanto não lhes traz vantagem material imediata. Saber viver é viver bem e para bem viver precisa o homem de cultivar virtudes que não se coadunam com o egoísmo, que não toleram injustiças nem podem subsistir sem forte reação diante de atos inferiores. Para viver bem o homem precisa, antes de tudo, amar a vida, no que ela possui de mais nobre e edificante. Essa é a condição preliminar, sem a qual será impossível aprender a ciência da vida, o saber viver, que constitui arte das mais delicadas, porque, a um só tempo, é ciência e arte.

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Em seu célebre diálogo com Crítone, magistralmente descrito por Platão, o grande Sócrates, depois de demonstrar as inconveniências de fugir à morte que o esperava, ponderou:

- ... o mais importante não é viver, mas viver bem.

E desejando ser explícito, acrescentou:

- ... nem se deve ser injusto nem fazer mal a ninguém, mesmo àqueles que nos tenham feito mal.

Há muita filosofia nessas palavras do estoico sábio ateniense, o que vale dizer - muita sabedoria. Infere-se dessas frases que, para viver bem, é preciso ser justo; para ser justo, há mister ter bondade; ser bom é amar. Aquele que ama está mais próximo da verdade, porque a obra de Deus é amor e tudo no Universo tende para o amor, que é harmonia, harmonia que é perfeição! A profundeza dos conceitos de Sócrates extasia a quem pode apreendê-la. Ele não foi um teórico, porque, no momento crucial da exemplificação, honrou suas ideias e demonstrou a honestidade irretorquível de seus princípios. Sócrates soube viver, viveu bem. Fez o mais difícil: saber morrer, crescendo, em vez de apequenar-se em transigências e recuos humilhantes. A Humanidade ignora os nomes dos que apoiaram a morte do sábio, mas o nome deste varou séculos e permanece na admiração do mundo, orgulhoso do seu porte moral.

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Viver bem é ser bom, é sentir o conforto de enxugar uma lágrima; de mitigar a fome de um faminto, de consolar um desesperado, de amparar um sofredor. Ser bom é viver bem a vida, transformando-a num relicário de amor, ensinando os que não a compreendem a receberem com fortaleza de ânimo as vicissitudes e a lutarem dignamente por vencê-las, sempre com uma esperança no coração. Viver apenas, vivem os animais, as plantas, etc. Realizam a vida simples da escala de que fazem parte. O homem, porém, pertence a um grupo mais evolvido, o hominal; é dotado de consciência, tem de usar a razão, que o distingue, aliás, de seus companheiros de gradação evolutiva ainda inferior. Se não o faz, amesquinha-se, degrada-se, afirmando sua incapacidade moral.

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Sócrates possuía uma noção de justiça que ultrapassava a dos homens de seu tempo. Condenado a beber cicuta, fê-lo com a tranquilidade dos espíritos límpidos. Bebeu-a para não ofender a majestade da lei, mas não se lamentou um só instante, nem sequer procurou mostrar a má feitura dos textos legais em que seus inimigos se baseavam para sacrificá-lo. Em absoluto. Defendeu a lei até ao fim. Se erro houvera, como de fato houve, não era ela a culpada, mas os homens que não souberam respeitá-la, por não aplicá-la com justiça. Fugir à condenação valeria por ofender o espírito da lei. A injustiça não estava nela, mas nos homens que o condenaram. Evitar o cumprimento da pena, ainda que injusta, como queriam seus discípulos e amigos, seria, a seu ver, além de outra injustiça, uma covardia maior do que a profligada. Sócrates não permitiu esse aviltamento. Jamais toleraria um ato mau para corrigir outro ato mau, mesmo porque, conforme dissera a Critone, não se deve ser injusto nem fazer mal a ninguém, mesmo àqueles que nos tenham feito mal. A bondade do filósofo reponta nesses e em outros ensinamentos. A injustiça não compensa; o mal não beneficia. Preferiu, portanto, sorver o sumo da cicuta, admiravelmente sereno, como que saudando a sua entrada na imortalidade! E Meleto, seu impiedoso acusador, ficou entregue aos tormentos da própria consciência...

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Aristóteles foi outro gênio do pensamento antigo. Diz-nos ele: "Virtude humana chamo eu não a do corpo mas a da alma e por felicidade entendo uma atividade da alma". Consoante o conceito arlstotélico, "conquistamos a virtude com o exercitar-nos em atos virtuosos e que o ato é virtuoso se executado com disposição virtuosa". Considera a virtude um hábito, se bem que ela assinala o grande progresso moral do espírito. Deduz-se de semelhante conceito que não basta fazer o bem. É preciso que o sintamos de verdade, que o ato que praticamos toque as mais íntimas fibras de nossa personalidade moral. Aristóteles, definindo a ética como a ciência do costume, quis, por meio dela, evidenciar que o homem forma hábitos e a eles se subordina. Desde que se habitue a praticar boas ações, torna-se virtuoso, do mesmo modo que se torna mau, fica envilecido, moralmente arruinado, se persiste em realizar ações más. Aceitando-se a ideia de Aristóteles, passou-se a dizer que "o hábito é uma segunda natureza". Não há negar alguma verdade nessas palavras, mas temos sempre o recurso do livre-arbítrio para libertar-nos dos maus hábitos e nos sustentar nos bons costumes.

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Se voltarmos nossas vistas para Herbert Spencer, quando discorre a moral, iremos esbarrar numa asserção capaz de sugerir especulações escolásticas: "A lei do bem em absoluto não pode tomar em consideração a dor, salvo aquele que implica a negação. A dor é correlativa a uma espécie de mal, a um certo gênero de divergência relativa à maneira de proceder que corresponde perfeitamente a todas as necessidades". Dentro do seu álgido materialismo, Spencer não pode compreender a importância da dor como força corretiva do espírito humano. Tanto a "lei do bem" pode tomar em consideração a dor que esta constitui força positiva em favor do bom e contra o mal, Entre outros luminares da Filosofia, Léon Denis suavíssimo pensador francês - pensador- que não figura entre os expoentes do mundo científico, mas convencional, da Humanidade contemporânea, em virtude, talvez, do seu caráter eminentemente cristão - escreveu, em O Problema do Ser, do Destino e da Dor: "Tudo que vive neste mundo - natureza, animal, homem - sofre e, todavia, o amor é a lei do Universo e por amor foi que Deus formou os seres. Contradição aparentemente formidável, problema angustioso- que - perturbou tantos pensadores e os levou à dúvida e ao pessimismo" E esclarece, adiante: "A dor e o prazer são as duas formas extremas da sensação. Para suprimir uma ou outra seria preciso suprimir a sensibilidade, São, pois, inseparáveis em princípio e ambos necessários à educação do ser, que, em sua evolução, deve experimentar todas as formas ilimitadas, tanto do prazer como da dor".  Depois, como se respondesse ao trecho de Spencer, que reproduzimos, aduz: “É muito difícil fazer entender aos homens que o sofrimento é bom."

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E exemplifica: "A tristeza e o sofrimento fazem-nos ouvir, sentir mil coisas, delicadas ou fortes, que o homem feliz ou o homem vulgar não podem perceber. Obscurece-se o mundo material; desenha-se outro, vagamente a princípio, mas que cada vez se tornará mais distinto, à medida que nossas vistas se desprenderem das coisas interiores e mergulharem no ilimitado. O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares: é também a apoteose, a coroação do sofrimento. De Homero a Dante, a Camões, a Tasso, a Milton, todos os grandes homens, como eles, têm sofrido. A dor lhes fez vibrar a alma, inspirou-lhes a nobreza dos sentimentos, a intensidade da emoção que souberam traduzir com os acentos do gênio e que os imortalizou. É na dor que mais sobressaem os cânticos da alma. Quando ela atinge as profundezas do ser, faz de lá saírem os gritos eloquentes, os poderosos apelos que comovem e arrastam as multidões", Na literatura brasileira, afora muitos exemplos expressivos, temos o caso de Humberto de Campos, cujas obras de maior sentimento foram escritas depois que ele ficou sob o aguilhão da dor.

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Perlustremos as obras dos grandes filósofos, acompanhemos Sócrates, Platão, Aristóteles, Descartes, Spencer, Spinoza, Kant, Bergson e tantos outros; sigamos as pegadas de Fo-Hi, Confúcio, Lao--Tse, Mêncio, Buda, Krishna, Maomé, Rousseau e outros líderes ou fundadores de religiões. Ponderemos a grandeza moral de cada um deles, examinemo-la por todos os aspectos, sem nos olvidarmos de estudar a influência que suas ideias exerceram e exercem nos caracteres humanos, usos e costumes dos povos que as aceitaram. Louvemos com entusiasmo a boa obra realizada por todos. Comparemo-la, depois, com o que ensinou e exemplificou o maior filósofo e reformador de todos os tempos: Jesus, cuja sabedoria ressumbra das páginas dos Evangelhos. Sua linguagem simbólica, encantadoramente bela nas alegorias inimitáveis das parábolas, ora velado o sentido de suas palavras por um esoterismo cheio de suave magia, ora resplendendo soberbas lições de sentenças profundas e sugestivas, ficou sendo o mais completo código de paz e amor legado à humanidade antiga, contemporânea e porvindoura. É um roteiro para os homens, mas estes ainda se deixam empolgar pelos conflitos do egoísmo e da ambição, enceguecidos, muitas vezes, por doutrinas enganadoras, que lhes retarda a conquista da felicidade.  O rabi da Galileia pregou a Boa-Nova em terras da Judeia, seus ensinamentos ficaram e têm frutificado, depois que Ele, levado ao martírio da cruz por Judas, talvez a encarnação de Meleto, marcou com o sangue generoso o caminho da libertação moral e espiritual do homem.

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Os Evangelhos do Cristo são um relicário de amor, todo um programa de transcendente fraternidade e paz, de trabalho altruístico e renúncia. Sócrates foi maravilhoso, sem dúvida, ao sorver a taça de cicuta com a serenidade dos justos. Mas o holocausto de Jesus no alto do Calvário teve algo de mais espantosamente dramático. Ele, também inocente e puro, foi muito mais castigado pela impiedade dos homens e sofreu todas as afrontas e suplícios sem um murmúrio de protesto, sem um gesto de defesa! Não há espírito de renúncia que se lhe compare, pois, na hora extrema, ainda ergueu os olhos súplices para o Alto, esquecido de si mesmo, mas preocupado com a sorte de seus verdugos: "Perdoai-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem!" E que de exemplos de tolerância e devotamento, nas bodas de Caná, na cena da adúltera, no episódio da casa de Zaqueu, no Sermão da Montanha, na humildade prodigiosamente arrebatadora revelada no Gólgota, entre os dois ladrões! Quanto mais estudamos a personalidade de Jesus, mais nos sentimos inferiores, mais nos envergonhamos de nossas misérias, mais nos apercebemos da distância incomensurável que separa os homens de hoje d’Aquele que, no dizer de Emmanuel, "trouxe ao mundo os fundamentos eternos da verdade e do amor".

Do que ficou dito, compreende-se que a Humanidade, um dia, livre de paixões impuras, de ódios, de guerras, conhecerá a felicidade, cujo itinerário está traçado nos Evangelhos. Estes operarão a reforma íntima de cada homem, modificando lhe o caráter, os usos e os costumes. Até lá, experimentando as dores que hão de lhe burilar os sentimentos, a Humanidade irá transpondo, passo a passo, os diferentes graus de evolução, porque, disse-o Pascal, ela "é como um indivíduo que aprende sem cessar".

E aqui encerramos estas ligeiras considerações à margem da Etologia.

Do Blog: Etologia - estudo do comportamento social e individual dos animais em seu habitat natural.

Falsas alegações



Esflorando o Evangelho
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Janeiro 1946

Falsas alegações

"Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Peço-te que não me atormentes." (Lucas, 8:28).

O caso do Espírito mal-intencionado, que sentiu a aproximação de Jesus, recebendo-lhe a presença, com furiosas imprecações, apresenta muitos aspectos dignos de estudo.

A circunstância de suplicar ao Divino Mestre não o atormentasse requer muita atenção por parte dos discípulos sinceros.

Quem poderá supor o Cristo capaz de infligir tormentos a quem quer que seja? E, no caso, trata-se de uma entidade ignorante e perversa que, nos íntimos desvarios, muito já padecia por si mesma. A aproximação do Mestre, no entanto, trazia-lhe claridade bastante para que pudesse contemplar o martírio da própria consciência, atolada num pântano de crimes e defecções tenebrosas. A luz atormentava-lhe as trevas interiores e revelava-lhes a nudez dolorosa e digna de comiseração.

O quadro é muito significativo para todos os que fogem das verdades religiosas da vida, alegando que o seu conteúdo é amargo, dando razões a angústias e sofrimentos. Esses espíritos indiferentes e gozadores costumam afirmar que os serviços da fé alagam o caminho de lágrimas e entristecem o coração. Semelhantes declarações, contudo, denunciam-nos. Em maior ou menor escala, são companheiros do irmão infeliz que acusava Jesus como ministro de tormentos.