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quinta-feira, 4 de abril de 2019

A estreia do Messias



A estreia do Messias 
Exemplo a ser imitado na propaganda do Espiritismo.
por Dr. Canuto Abreu
Reformador (FEB) Outubro 1925
(Palestra feita na Federação Espírita Brasileira)  


            Meus companheiros e irmãos:

            Como principiou Jesus a sua obra messiânica?

            Não começou por dizer que era o Messias. Teria sido grave erro. Uma entrada assim violenta lhe acarretaria invencível oposição inicial. O Messias esperado pela gente israelita devia descer do céu numa nuvem, acompanhado de todo o reino de Deus. Teria uma apresentação pomposa e imponente. Jesus teve que estrear como simples rabi, isto é, como pregador e médico. Conquanto seu empenho sempre fosse convergira a atenção sobre a sua prodigiosa personalidade de Messias, ao começo procurou atrair pelas palavras de sabedoria, pelos atos de doçura e caridade e, principalmente, pelas curas extraordinárias. Todos os rabis contemporâneos também pregavam a Lei e os Profetas, perambulavam pelos burgos pobres e tratavam os doentes. Nenhum, porém, possuía o cabedal filosófico, o poder sobrenatural de curar e a impressionante simpatia do novo Rabi. Foi-lhe fácil vencer.

            Contudo, no começo, era preciso que não houvesse, entre o moço operário de Nazareth e o jovem pregador, uma profunda separação. Nesse meio conhecido e pequeno, Jesus devia evolver gradativamente e suavemente. Durante trinta anos, ele, para os homens de então, teria estudado e meditado a velha Escritura e as teses dos doutores. Mas não quis, no pequeno rebanho em que vivia, surgir de repente como rabi, abandonando a ferramenta do operário. Quando chegou o dia decisivo, partiu, porque em sua terra não poderia ser profeta.

            Partiu para onde?

            Outro, menos prudente e sábio, teria buscado Jerusalém, o lugar preferido pelos rabis inteligentes, Jesus não quis deixar a sua Galileia. Sairia de Nazareth porque esta vila, escondida nas montanhas. Era muito pequena para a sua atividade e nela habitava sua família, que se oporia, talvez à sua carreira messiânica.  

            Mas, para partir, era necessário romper com tudo quanto, na aparência, lhe era mais caro na vida; sua Mãe. Tinha que renunciar à sua companhia, à amizade dos parentes, ao convívio dos conhecidos, à vida calma de operário sem patrão. Tudo ele previu e preparou. Havia muito que aguardava o momento, esse momento que chega para todos. E o momento chegou-lhe. João, seu primo e amigo, que lhe preparava o caminho e que o havia batizado há mês e meio, foi preso. Era imprescindível o sacrifício. Renunciou à mãe, à família, aos amigos, a tudo. Fechou os ouvidos às súplicas mais comoventes, dos rogos mais soluçantes e partiu. Louco! Teriam dito.
   
            Solteiro, Jesus partiu só, pensativo, ansioso, para iniciar enfim a missão que o Pai lhe confiara. Qual era a sua missão? Salvar os pecadores e remir os condenados! Divino visionário!

            Ao sair de Nazaré, o caminho pedregoso sobe em zig-zag até um ponto, dos mais altos da Galileia, depois dobra à direita e desce, cheio de acidentes e curvas que se esconde   atrás das colinas e dentro das vegetações. Ao ganhar o ponto culminante, antes de descer, Jesus teria olhado o vasto horizonte, desde o monte Carmelo, até a longínqua montanha do Hermon, sempre coberta de neve e cujas vertentes se despenham em pirâmides de olivais e de pedras negras até a Galileia dos gentios. Aí, nesse elevado ponto de mira, ele teria antevivido em pensamento aquela subida final para o Gólgota. Teria anteprovado em seu coração as consequências desse medonho desígnio. Mas não estacou. Não retrocedeu. Não mandou sequer, para trás, para sua querida Nazaré, onde passara, em aparência, a mocidade e onde ficara em lágrimas a sua Mãe, o derradeiro olhar do visionário. Começou a descer, sozinho, o íngreme caminho, como qualquer viajante em busca do litoral.  Uma hora depois, ao tangenciar uma colina maior, teria divisado, à direita, o monte Tabor e, lá embaixo, bem longe ainda, como um espelho azul, sulcado de barquinhos, o lago azul de Genezaré e os diversos burgos ribeirinhos, que ia percorrer e que estavam destinados a desaparecer da terra, mas a ficar na história de sua vida: Tiberíades, Magdala, Cafarnaum, Betseida, Corozaim, Dalmanuta...

            Jesus desce direto para o mar da Galileia, evitando passar por Tiberíades – idade idólatra e pagã. Contorna pela beira-mar, até encontrar seus amigos Simão e André. Em seguida, vai ao encontro de seus primos Jaques e João e de seu tio Zebedeu, também pescadores. Todos eram seus amigos e conhecidos velhos. João, o mais moço, era discípulo de João Batista e profundamente devotado à propaganda messiânica.  O primeiro encontro de Jesus com os pescadores amigos foi para começar logo a nova profissão. Em vez de peixes, convidou-os a também pescar homens. E foram, menos Zebedeu.

            Apesar de, naqueles tempos, a tarefa do pescador ser uma das mais elevadas e conceituadas, os quatro primeiros discípulos de Jesus eram humildes e simples, porque eram espíritos e certa elevação moral. Jesus hospedou-se em casa de João, pai de Simão e de André. Essa noite foi a véspera do nascimento do Cristianismo. Ele teria falado sobre a volta do Batista e combinado com os amigos o modo de agirem.

            No dia seguinte, o primeiro do Cristianismo – vem até a praia e aí, ao ar livre, entre o povo simples e humilde, começa a pregar. Os pescadores, as mulheres e as crianças, cheios de curiosidade, rodeiam o novo Rabi. Jesus, então, a fim de melhor ser visto e ouvido, sobe para o barco de Simão. Outros barcos se aproximam e atracam perto.

            Que prega jesus?

            Fala de João Batista, da verdade da sua doutrina, da próxima vinda do reino dos céus. Fala do amor de Deus, da sua misericórdia e piedade, da fraternidade humana, do perdão. Mas, fala por parábolas, para não ser compreendido desde logo. O auditório não conhecia senão os ritos endurecidos, as leis rigorosas de sangue e vindita, a pena de talião, o olho por olho e dente por dente, o apedrejamento, a forca, a crucificação.  O Deus de Israel era um deus suscetível, impulsivo, ciumento e vingativo, guerreiro e perseguidor do homem até as mais remotas gerações. Jesus tinha que falar por parábolas, para ser entendido apenas por aqueles que, entre a multidão, tinham ouvidos de ouvir.

            Apesar do simbolismo, já era o Evangelho que Jesus pregava. Era a Boa Nova que principiava a espalhar-se pelo povo simples, a evolar-se cristalina, sob o céu de anil, e á borda do mar cinzento da Galileia. Era o Novo Testamento que surgia.

            Foi assim, como simples Rabi, no pequeno burgo de Cafarnaum (cafar = aldeia, naum = consolação, segundo Orígenes, confusão, segundo outros) a sete horas de viagem de Nazaré, que jesus, apoiado por quatro amigos, começou a obra ingente de regeneração da humanidade. Mas, ai de ti, Cafarnaum... (Mt. XI,23)

            Como todos os rabis, ele ensinava e curava. Mas os seus ensinos possuíam um encanto novo, que apaixonava os ouvintes, e as suas curas encerravam um prodígio, que impressionava a assistência. Era, na verdade, um rabi invulgar.

            No entanto, saiam todos que ele era o Nazareno, filho do operário José.  Onde teria aprendido tantos conhecimentos? Estaria nele o espírito de Elias ou de qualquer outro profeta? Indagam, e Jesus afirma que o espírito de Elias estava em João Batista. Mas não diz quem ele é. Era cedo para dizê-lo. Tudo estaria prejudicado. A Simão, porém, confia o segredo, porque, este, por inspiração, havia já percebido que o Mestre era o Messias.

            Ninguém descobre, nas primeiras palavras e atos do Rabi, o grande plano que ele havia de desenvolver em pouco mais de trinta meses. Nem mesmo os discípulos, Jesus se limitava, nesse primeiro período da sua missão, a falar sobre a Lei, a responder às consultas, e a interpretar os acontecimentos que se desenrolavam em torno de sua pessoa. Seus pareceres foram a pouco e pouco impondo a sua autoridade de doutor. Ao emitir opinião, nem sempre enunciava uma doutrina inteiramente nova, que não existia em parte alguma da Lei, dos Profetas, ou dos doutores. Ora ficava ao lado de Hilel, ora ao lado de Chammahi – os dois maiores luminares da teologia hebraica. Assim, a respeito do divórcio, pensava como Chammahi; sobra a justiça, opinava como o Dr. Hilel, que a seu turno repetia Tobias. Mas o ensino de Jesus era mais claro, mais penetrante, mais agudo, mais consolador, mais espiritualizado. Hilel dizia, por exemplo: “Só deveis julgar o próximo quando estiverdes na mesma posição ou situação dele”. Jesus ensinava: “Não julgueis para não serdes julgados”. 

            Ao pregar as passagens do Antigo Testamento, procurava arrancar da letra, o espírito novo. Soprava nas letras mortas a vida nova. Combata em absoluto as contravenções que os escribas toleravam: o juramento, a hipocrisia dos fariseus, as preces em voz alta para serem ouvidas pelos que passam, a esmola apregoada para se vista e admirada, a pena de talião. Ensinava e exemplificava a humildade absoluta, mesmo a auto humilhação e, como Jeremias, aconselhava ao que recebesse a ofensa, na face esquerda a voltar ao ofensor a face direita. “Perdoai para serdes perdoados” dizia ele; mas não sete vezes, como interpretavam os doutores e sim setenta vezes sete vezes, ou, para quem perdesse a conta, sempre. Tudo o que saía dos lábios, mesmo quando reproduzia a Escritura Antiga, tinha um sabor novo e doce. Os deveres do homem para com Deus e o próximo, a adoração, a caridade, a bondade de coração e a simplicidade de espírito, o desinteresse material, jamais foram antes pregados com tanto entusiasmo e sinceridade. Ele pregava com o exemplo.

            Como o mais instruído de todos, os escribas, sabia tirar do patrimônio legal e profético do seu povo “coisas velhas ou novas”. Não se limitava a reproduzir literalmente o que estava escrito; apresentava a Escritura sob novo prisma, sob forma diferente, melhor, mais nítida, mais espiritualizada e, tão sua que, embora sem escrever uma só palavra, ela manifesta um estilo único, inimitável. Com isso, Jesus não abolia nem a Lei, nem os Profetas; dava-lhe cumprimento. Seus ensinos eram uma espécie de revelação dessas doutrinas. Procurava restabelecer o espírito de verdade e nisso consistiam as “coisas novas”. Daí lhe veio a necessidade de combater as interpretações falsas dos fariseus, saduceus e essênios, cheios de casuística, de hipocrisia e de vãs formalidades. Mas, notai bem, esse rebate não é principiado senão depois que já possui auditório entusiasta e quando esse auditório começa lutar contra os fariseus.   

            Na vida de Jesus, tudo é um exemplo de perfeição. Vede como princípio a missão. Tomemo-lhe como exemplo. Estudemos bem as letras santas, antes de pregar outras. Não convém desde logo repudiar, por sistema, ou melhor, por orgulho, a teologia cristã. Devemos antes procurar assimilá-la bem, em espírito e verdade, e depois ensina-la sob novos moldes. Ninguém contesta que os ensinos de Jesus ali estão adulterados; mas a adulteração não inutilizou completamente a obra dos nossos maiores, como a exegese da sinagoga, por mais tortuosa, não sacrificou a Primeira Revelação. Esta foi salva por Jesus; aquela está salva pelo Espiritismo. Os dogmas, que serviram à edificação moral do Ocidente em que vivemos estão velhos, caducos e alguns em estado comatoso.  Mas todos podem e devem ser explicados pelo Espiritismo, sob o influxo do Espírito da Verdade. Foi assim que Jesus deu cumprimento à Doutrina Antiga. Os tempos envelheceram a obra complementar e reformadora dos apóstolos e dos seus sucessores.  Cabe ao Espiritismo rejuvenesce-la.

            É por isso que a Federação nos ensina que a Doutrina Espírita é o cumprimento do Cristianismo. Assim como Jesus, outrora à beira o mar da Galileia, pregando a Lei e os Profetas, ensinava o verdadeiro espírito do Antigo Testamento, também, nos tempos que correm – tempos de transição – o Espiritismo, pregando os ensinos de jesus, propala o verdadeiro espírito dos Evangelhos.  

            Tudo vem a seu tempo, porque tudo está marcado no quadrante do Criador.

            Jesus conservou o passado. Repetiu o passado. Mas o Passado saiu novo de seus lábios. Conservemos também o Passado. Repitamos o Passado. Naturalmente, à luz da nova Revelação que nos felicita, o Passado, que muitos levianos cuidam morto, surgirá redivivo, novo, perpetuado de vida. É a Lei. É o rodar sucessivo das vidas progressivas, rumo à Perfeição.

            Os escribas, exigiam as práticas exteriores, os ritos, os sacrifícios, as abstinências, os jejuns. Sem esses cuidados, os Judeus não teriam entrada no reino do céu. Jesus, exigiu as práticas interiores, a prece em segredo, a vigilância da serpente, a mansidão da pomba, os sacrifícios pelo próximo, o jejum moral. Só assim o homem terá entrada. Repetindo a Jesus, exijamos de nós mesmos a reforma interior, pelo sacrifício de nossas paixões grosseiras, pela higiene dos pensamentos, pela disciplina das palavras e pelo norteamento dos atos. Sem isso, não teremos dentro de nós o reino de Deus.

            Mas, nem todos se acham no mesmo grau e evolução. Uns precisam ainda das exigências dos escribas; outros ainda não compreenderam bem a Jesus. Não queiramos, pois, arrancar os primeiros degraus por onde já subimos, arrasar o passado a que estamos ligados pela vida terna, Contentemo-nos com ser, no seio do Cristianismo, o fermento que que há de transformar.

            Para Jesus, os ritos não tinham importância. Ele pregava a fé interior, livre, sincera, e espontânea. Porém, não aboliu os ritos. Não censurou os que tinham a fé cega e medrosa. Não arrasou o passado. Sigamos o seu exemplo.

            Jesus não instituiu nenhum sacerdócio profissional. Como os grandes Doutores, ele punha o sentimento acima do ato, a intencionalidade acima da ação. Mas, da letra da Lei não tirou pingo do 'i'. Limitou-se a esclarecer as interpretações ridículas ou infundadas dos fariseus. Conservemo-nos, também, a Lei e os Evangelhos. Não toquemos numa só letra. Limitemo-nos a esclarecer, sem desvario nem abuso, ao contrário, com prudência e amor, as interpretações extravagantes, ou sem base, dos que se dizem os intermediários entre Deus e os homens.

            É possível que mais tarde o Espiritismo, como aconteceu com o Cristianismo, se afaste desse escopo. O que hoje lhe é designado é o de revelar, em espírito e verdade, o passado. Certamente, ensinando as “coisas velhas” por mole novos, um corpo de doutrina religiosa surgirá. Será, talvez, a religião predominante em próximo futuro.

            Não importa! O que importa é saber que não nos cabe mais; tão somente repetir os ensinos de Jesus, dos Profetas, e da Lei, por “palavras novas”. O tempo da teoria, das pragmáticas, dos sermões e dos salmos, para nós, já passou. O que nos compete, no tempo que vivemos, é PRATICAR os ensinos do Mestre. Só deste modo mudaremos a face do mundo.

            Tendo isso em mente foi que nos ocorreu rever, nesta palestra, a estreia e o primeiro período da missão de Jesus. Diante do Modelo divino que, na aparência, levou trinta anos em Nazaré a preparar-se para a luta de trinta meses, comecemos o nosso preparo interior. Sopitemos os ímpetos grosseiros de nossa natureza. Fechemos os sentidos à solicitações da matéria e, a sós, dentro de nós próprios, à luz dos Evangelhos, eduquemos a nossa vontade, orientemos os pensamentos e esclareçamos a fé. Amemo-nos uns aos outros. Toleremo-nos mutuamente. Respeitemos as crenças adversárias, por mais absurdas que sejam, ou que pareçam; Acatemos a palavra de todos os que se propõem a ensinar aos homens o caminho da salvação. Pode ser que alguns não sejam, ao nosso ver, arautos fieis da verdade. Deixemo-los em paz. Se forem sinceros, terão luz e recompensa. Se forem hipócritas, terão trevas e castigo. Bem ou mal, cada um dá o que tem, neste mundo, sua utilidade na obra geral. Não perturbemos a ação do nosso próximo, mesmo que seja contrária à nossa. Não levantemos contra o adversário nenhum sentimento de condenação, por isso que ele está investido por Deus duma permissão de agir e só Deus pode julgar se agiu mal ou bem.

            Assim é que devemos principiar a tarefa espírita. Como Jesus em Nazaré, sejamos primeiro o simples operário de nossa própria consciência, o rabi de nós mesmos, educando os nossos pendores egoísticos e curando as nossas mazelas sensuais.

            Só depois desse preparo, só depois duma longa vida de artífice do próprio aperfeiçoamento, só depois de batizados nas águas da regeneração, só depois da quarentena do deserto em jejum e no convívio dos Espíritos, é que, em chegando a nossa hora, poderemos tomar, como Jesus, a deliberação de partir, de deixar a nossa Nazaré, a família, os amigos, a velha ferramenta, e marchar, sozinhos e ansiosos, para o ponto elevado do caminho e de lá, avistando ao longe o horizonte vastíssimo de nossa Galileia e embaixo, o campo aberto à nossa atividade, descer, sem olhar para trás, como Jesus desceu outrora para Cafarnaum.

Palavras de Ocasião



Palavras de Ocasião
Editorial
Reformador (FEB) Setembro 1919

            Há manifesto engano em Supor-se que do conjunto de regras ditadas pelos Espíritos, formando um corpo de Doutrina que se denomina A Terceira Revelação, possa originar-se um sectarismo religioso na acepção vulgar do conceito, reivindicando para si exclusivamente a posse da Verdade Absoluta e, por ela e com ela, o absoluto domínio das consciências.

            Esse conceito é tanto menos autorizado quanto, o caráter da Revelação Espírita já aplicado ao aclaramento do passado, já adstrito à observação do presente, já pressuposto à sequência do futuro e afirmou desde logo indefinidamente progressivo e capaz, portanto, de satisfazer sem limites de tempo e condição ás consciências mais exigentes e perquiridoras.

            Ao espírito evoluído que, porventura houvesse atingido a meta dos conhecimentos possíveis, no estado desta nossa humanidade, não faltariam intuições perceptivas de mais dilatados planos sem infirmação das leis básicas que decalcam a vida universal, expostas na Doutrina Espírita.

            Em outros termos dizendo: com os elementos de ponderação e experimentação que lhe oferece o Espiritismo, o homem pode realizar todas as aspirações da inteligência e do coração, sem necessidade de teorias novas que, todas por bizarras e minudentes, por complicadas e sibilinas, não teriam a única vantagem que as poderia justificar o entendimento e melhoramento das massas.

            Porque o ascendente da Verdade não está, pensamos nós, na sua individualização como património de inteligências privilegiadas regredindo à meia luz dos Templos com iniciações misteriosas e difíceis, mas na sua singeleza e naturalidade, no seu poder de generalização, ao alcance relativo de todos os homens de boa vontade.

            Assim, aquilo que se justificaria no passado, formando a parte esotérica de todos os cultos, já se não casa com o espírito da nossa época de universalidade e comunismo de ideias.

            O Espiritismo veio justamente combater e abrogar privilégios dogmáticos, ensinando a todos os homens que eles podem e devem ser por si os artífices da sua evolução para Deus e que essa evolução se faz com amor e por amor, à revelia de quaisquer doutrinas, cultos e teogonias.

            Na sua doutrina se encontra a razão de todos esses cultos, que o espirita consciencioso lastima quando inutilmente praticados e tem obrigação de tolerar quando, devocionalmente seguidos, fazem a relativa felicidade dos seus sectários.

            Não vemos, destarte, razão para assinalados esmorecimentos e defecções apadrinhados ao conceito de que a nossa doutrina não tem progredido, produzindo maior derrama de luz nas consciências, e, de modo geral, aquela elevação de nível moral que é o seu mais legítimo apanágio.

            Os que assim pensam, esquecem que essa elevação só pode ser feita parcelada e seriadamente dentro da lei de afinidade, e, portanto, também só deve ser julgada de conjunto, com vistas ao plano de evolução planetária, que não de individualidades ou grupos subsidiários esparsos, e, - porque não dize-lo? -muitas vezes desviados do seu objetivo, por efeito dessa outra lei de liberdade, que é licito esclarecer antes que malsinar, por isso que as suas aberrações, parecendo maléficas, tem a virtude de melhor contrastar a Verdade, como a sombra que melhor realça os efeitos da Iuz.

            Revelações novas, ampliações das existentes também quereriam aqueles que estão julgando improfícua a fórmula espírita para o progresso das almas...

            Mas, perguntamos: que novos problemas se defrontam à consciência humana que não possam ser resolvidos por essa fórmula? A existência de Deus, acaso a Teosofia melhor a define?

            A Vida, o Cosmos, através dos atuais conhecimentos científicos serão acaso e alhures melhor definidos do que na cosmogonia espírita?

            E que o fossem, perguntaríamos ainda: conhece a humanidade na sua maioria a Revelação Espírita e, conhecendo-a, está apta para tirar dela os proveitos de ordem intelectual e moral que lhe são consentâneos?

            Pensamos que não, absolutamente e o que se verifica é que há um pouco por toda parte, incompreensão dos superiores desígnios doutrinários.

            A isto poder-se-ia objetar que os Espíritos desencarnados deveriam corrigir anomalias e deturpações, suprindo e completando as deficiências humanas.

            É verdade e eles o fazem, mas dentro da ordem natural, sem violentar jamais as consciências.

            Nem o Espiritismo se resume na manifestação singular de Espíritos sapientes e bons, mas na de todos os Espíritos no plano de evolução planetária, para que cada qual tire dela o melhor partido compatível com a sua inteligência.

            Antes, portanto, de atribuir lacunas ao Espiritismo, importa investigar até que limite de critério são levados o seu estudo e a sua prática.

            A nós, em que pesem todos os desvios de um empirismo apaixonado, não nos chegou, nem chegará - esperamos em Deus - a vez de trocar os seus ensinamentos lógicos, simples e claros, a manifestação dos Espíritos concorde com a tradição de todos os tempos, a perspectiva consoladora de uma ascenção indefinida mas reta, a afirmação ostensiva de uma solidariedade original e final pelas tortuosidades de sistemas filosóficos outros que, afora a confirmação do fato espírita, velho quanto o mundo, nada mais nos oferecem de sólido com a só engenhosa textura de hipóteses sobre hipóteses.

            Se a Doutrina Espírita tão clara, tão simples, tão lógica, ao demais comprovada por fatos, não tem produzido benefícios de ordem moral-social mais intensivos, quer isto apenas dizer que a maior parte dos espíritas ainda permanece incapaz de praticá-lo estreme (limitado por) de seus pessoais prejuízos e terrenas convenções.

            O mal, a falha, o defeito, estão no homem e não na doutrina.

            Melhora-lo a ele - homem – pela difusão dos verdadeiros princípios dela -Doutrina, é o que compete aos legionários esclarecidos, opondo sólido dique a essa avalanche de personalismo a cuja sombra o espírito das trevas edita e lança a semente da separatividade com o rótulo fulgurante de novas escolas filosóficas, cheias de presunções científicas, mas, em tese, baldas de amor.

            Estas simples considerações são de molde a provar que o ideal espírita ainda está por concretizar-se na prática, prática essa que, para corresponder ao espírito superior da Revelação, corroborado constantemente pelos nossos Guias, depende da reforma moral do homem...

            Esta reforma, nós a propugnamos aqui em moldes que não podem ser excedidos, por vazado nos Evangelhos de Jesus.

            Havendo-O por Único Mestre e Senhor, sentimo-nos bem para ficar onde estamos e aplaudir quantos não importa sob que bandeira, o buscarem com sinceridade.

            O nosso lugar, porém, queremo-lo definido com todas as responsabilidades decorrentes da consciência felicitada pelo cumprimento de um dever sagrado, no máximo esforço da Fé, da Esperança e da Caridade.

            Estudantes do Evangelho em espírito e verdade, não nos surpreendem nem alarmam essas flutuações da consciência humana, até que chegue o dia de seu pleno advento para este mundículo que habitamos.

            É que lá,  naquelas páginas do Mestre Incomparável, encontramos estas significativas palavras: haverá profetas e falsos profetas, e mais - felizes dos que perseverarem até o fim.  


As raízes profundas do Espiritismo à luz da História



As raízes profundas do Espiritismo à luz da História
- O antigo Egito e a religião sacerdotal -
por Gastão Ruch
Reformador (FEB) Setembro 1925

(Conferência feita na Federação, a 9 de agosto de 1925, pelo professor Gastão Ruch.)

            Para o Egito a evidenciação da vida estava no respirar da criatura: era, portanto, um sopro, um fluido, que, em determinadas situações, podia ser transmitido por passes magnéticos ou por insuflações. Eram práticas bem conhecidas no Khimita as que vamos citar:  “Dar-se o sopro é dar-se a vida” e “No além vive o ser pelos sopros”.

            A morte, feita a abstração da causa produtora, nada mais era para ele do que a supressão do fôlego, por um período prolongado, semelhante ao que ocorria à criatura quando dormia, desfalecia ou então se achava em transe profundíssimo. Supunha ele, por conseguinte, corresponder a cessação da vida a um desmaio a que viria por paradeiro um dos elementos constitutivos do ser, desde que se encontrassem os outros em condições tais que permitissem a realização do fenômeno.

            Eram esses componentes em número de três: o corpo, o dobro e a alma. O primeiro – CHAT – era o sustentáculo, o pedestal, de extraordinária importância, enquanto não o tingisse a putrefação, a ao qual se prendiam os outros dois. O segundo, que eles denominavam -Ká -  palavra cujo sentido traduziremos como por “gênio”, “duende”, também era apelidado – “Dobro” – por ter em sua consistência fluídica a mesma forma, a mesma forma, a aparência fiel do corpo. Não há, parece-nos, necessidade de demorarmos em assinalar e estranha semelhança entre a concepção dos Khimitas e a explicação espiritista porquanto um nada mais é do que a sequência da outra, verdade eterna que a humanidade vai conservando nos diversos estádios de sua evolução. Por isso, continuaremos para adiante. Para que se tornasse visível aos olhos da carne, aduziam os sacerdotes, precisava esse “dobro” de uma base, na espécie, o corpo do morto; entretanto, e, aí, o Khimit se afastava do nosso modo de considerar, uma estátua, uma pintura, uma reprodução, afinal, desse mesmo corpo quando vivo, era o bastante para se dar a materialização. Esse corpo fluídico, esse períspirito, era indestrutível, desde que este não entrasse em decomposição.

            A Alma – Espírito, e assim nos expressamos porque os egípcios intitulavam o Ká de “Alma corporal”, diríamos hoje “fluídica”, a “Alma-Espírito” que para eles era o pensamento, a inteligência, tinha a representação de um pássaro – o Ba -. Como a ave em seus voos parece querer-se alçar-se aos céus, assim o Espírito, depois da morte, também se elevava até a mansão celeste, em procura da felicidade infinita! 

             Para nós, este terceiro elemento representa a razão verdadeira de existência humana. Fase intercalada entre outras fases da vida do ente, a lutar por vencer os tropeços e barreiras que o separam da Verdade e da Justiça de Deus; elo entre os muitos elos de uma mesma cadeia; degrau entre os incontáveis degraus da escada de Jacó, símbolo formidando, em sua eloquência despida de aparato, da evolução fatal a que estão adstritos todos os componentes do Universo!
  
            O “dobro”, cuja valia por forma nenhuma desconhecemos, porquanto, embora acessório e secundário, é indispensável e secundário, é indispensável, imprescindível, ao Espírito, ao menos no tocante às substâncias para que ele possa se manifestar, a dobro, repetimos, assumia para o Egípcio importância tão sabida quanto a alma, por ser o elemento ligador a prende-la ao invólucro orgânico, sem o qual, pensava ele, a vida no além se tornava penosa e até prejudicial ao progresso do próprio Espírito.

            Daí a mumificação do corpo, a presença de estátuas de madeira ou metal nos sepulcros, com a preocupação de reproduzirem o morto com a máxima fidelidade, daí o cuidado de rodear essa múmia, essas efígies, de todas as cautelas, que um ritual minucioso e complicado impunha, observadas, estritamente e com rigor cumpridas, porque, diziam os textos, em boa parte dela dependia a felicidade do morto, logo que, julgado pelo Tribunal Supremo, penetrasse no Amenti, onde o aguardava a eternidade.

            Que seria da Alma-Espírito quando, ao regressar de uma viagem às regiões do infinito, em companhia de seu inseparável dobro, não encontrasse na casa mortuária o corpo da terra para lhe dar a passageira hospedagem, durante a sua estada no planeta?  

            Essa a razão da extraordinária preocupação do Khimit em dar ao túmulo exagerada solidez; não era ele a última morada do homem e sim o asilo inviolável que lhe ia assegurara meta real de sua existência na Terra, a Vida Eterna. De todos esses abrigos, nenhum houve maior para comprovar esta verdade do que a pirâmide. Este castelo de granito, que somente os reis ou os poderosos mandavam construir, por muito tempo apenas admitiu a finalidade religiosa, como explicação de sua existência, e não há dúvida que esta razão foi e continuará a ser a principal. Investigações de outro carater, porém, tentadas pelos competentes e coroadas de êxito, revelaram que, consorciada ao ideal espiritualista, uma concepção de valor altamente científico e de incalculável importância presidiu a criação desse gigantesco monumento, cujo traço essencial – o grandioso – traduz com a máxima fidelidade a inabalável convicção da imortalidade que tinham os seus autores!

            Vimos que o homem, para merecer o céu, precisava antes de tudo, comparecer perante o Tribunal Supremo, presidido por Osíris, o Regente do Além, para ser julgado pelos 42 juízes divinos. Não nos deteremos em avaliar a evolução que sofreu a religião desde a dinastia das pirâmides até a monarquia tibetana, consideraremos tão somente o julgamento da alma, como determinava o Livro dos Mortos, quando o divino presidente abandonou a demonstração da força invencível dos ritos da magia para exclusivamente pregar a salvação pela elevação da consciência moral. Então, ele foi bem o que os textos consagravam: “O Deus que ama a justiça”.

 O Tribunal de Osíris e o julgamento da alma

            Com o desenvolvimento da civilização no vale do Nilo, a doutrina de redenção pouco a pouco se estendera a todas as classes da sociedade do país de Khimit e já não eram somente os ricos e os de nascimento ilustre que podiam aspirar à bem-aventurança celeste: também os pobres eram chamados à Casa do “Chefe dos Humanos” onde os aguardava a inefável recompensa da vida eterna.

            Inúmeros papiros ou documentos encontrados, alguns datando de 4000 anos antes do nascimento de Jesus, facilitam a compreensão da crença religiosa dos Egípcios, ao mesmo tempo de evidenciam o incontestável progresso acusado pelos sacerdotes, para a integração da Verdade eterna. São eles documentos preciosos para o historiador e o filósofo e o seu conjunto constitui o célebre livro dos mortos, cujo conteúdo todos os filhos do Khimit não podiam deixar de conhecer.

            É de rara elevação moral o julgamento da alma obrigada a confessar publicamente toda a sua vida, perante os 42 Juízes, perante a deusa da Verdade – Mat – com a sua balança fatídica, onde ia se efetuar a terrível Psicostasia, a pesagem temerosa, que decidiria da sua sorte para a eternidade. 

            É, talvez, o mais belo dos capítulos do Livro aquele em que o morto vê, num dos pratos, a sua consciência, “o seu coração”, consoante a expressão egípcia, e no outro a Verdade. Ouçamos a palavra do acusado pela sua própria consciência, diante do tribunal e dirigindo-se a mesma: “Coração de minha mãe, coração do meu nascer, coração que eu tinha Terra, não te levantes como testemunha contra mim, não sejas meu acusador perante as potestades divinas, não faças porque se ergam gravames e queixas contra mim perante a Grande Divindade do Ocidente” Em seguida, renovava o morto a exposição da sua vida perante Osíris e os 42; a todos conjurava que ouvissem as afirmações, incapazes de traduzirem outro pensamento que não fosse a enunciação da verdade.

            Na exposição dos pecados, o pecador cristão enumera as suas faltas, confessa os seus crimes; no Livro dos Mortos, a alma produzia uma defesa ‘negativa’, porque apenas mencionava os atos censuráveis que não praticara: “Nunca fiz mal a ninguém!”, “Nunca me neguei a acudir a quem estivesse faminto!” ; “Nunca matei, nem ordenei a morte de ninguém!”; “Nunca roubei!”, “Nunca cometi adultério!”; “Nunca exerci pressão sobre os pratos da balança, nem falseei o fiel!”, “Nunca me mostrei surdo às exortações da justiça!”, Por minha culpa ninguém derramou lágrimas, nem a viúva nem o órfão!”, “Sou puro!’, “Sou puro!”.

            Sendo favorável a sentença, esta rezava que era lícito à alma penetrar no Amenti e buscar a mansão dos Espíritos e dos deuses, junto aos quais encontraria a Verdade e a Justiça, atributos tão caos à Osíris. Eram destes essas sentenças que se aplicavam aos eleitos:

            “Aqueles que praticaram a Justiça quando estavam sobre a Terra, serão chamados ao Palácio da Alegria celestial onde é soberana a Justiça.”

            “As ações justas serão computadas às almas em presença do deus poderoso, destruidor da iniquidade, porque elas souberam interpretar a vontade de Osíris, criador da Verdade e realmente vivo na Verdade, porquanto é ele a eterna verdade.”

            Em sua singeleza ingênua e pura, não lembram porventura esses conceitos a linguagem inspirada da Bíblia?

Osíris, a grande vítima

            O culto osiriano, por se ter estendido a todo o Egito, eliminou as demais divindades, reduzidas a simples emanações do deus único consubstanciado no Regente do Céu, pois, afirmava o Livro dos Mortos, era ele o ‘incriado’; aquele que ‘fora ontem e seria amanhã”, o Ser que reunia em si a Morte e o Porvir; a entidade que se traduzia pelo ‘dia-sempre’, ligado à ‘noite-nunca’.

            Estabeleceram os sacerdotes u novo rito em virtude do qual o Mal, inseparável do Bem, justificava a própria existência pela necessidade que tinha este último de o vencer com o sacrifício da própria vida.  De acordo com os ensinamentos secretos, impunha-se a apresentação de uma oferenda ao deus, de preferência um animal – a vítima propiciatória. O alimento, que a sua carne e o seu sangue propinavam aos padres e aos parentes dos mortos, determinava, para os que dele se servissem, uma verdadeira participação no sacrifício de Osíris, na sua ‘paixão’, porque, assim diziam os textos, o “Olhar de Hor”, era suficiente para transformar em sua própria carne, em seu próprio sangue, os membros palpitantes do animal oferecido ao deus. E o celebrante, ao lembra a imolação de Osíris, repetia com voz solene:

            “Tu és o Pai e a mãe dos homens; eles comem a carne do teu corpo.”  

            Eis porque o “Chefe dos Humanos” foi chamado a “Grande Vítima” por ser o Benfeitor, que padecera voluntariamente o esquartejar de seu corpo e o sepultamento, para que os homens pudessem encontrar nele o salvador, o exemplo da boa morte, garantidora da eternidade.

Conclusão
           
            Pelos seus estudos e meditações chegara o sacerdócio egípcio à seguinte conclusão: Era o ser humano um composto de três elementos em estreita e íntima interdependência: um deles estava destinado a desaparecer, por força da desagregação das suas partículas formadoras, por ocasião da morte, ao passo que os outros dois, de natureza diferente, devim prosseguir indissoluvelmente unidos, na evolução sem fim que lhes era imposta pela Inteligência Suprema. Assim, 4000 anos antes do Mestre, já estava assentado em seus traços gerais o conhecimento da composição do homem físico e também a verificação da existência de relações ininterruptas entre o meio terrestre e o Além, fatos que as doutrinas espiritualistas acatam, aceitam e homologam.  

            Admitiam, portanto, os Egípcios, o progresso da alma baseado na prática das boas obras e na observância de uma moral elevava; explicavam a regeneração do morto pelo castigo estatuído por sanção emanada de um tribunal cuja presidência cabia à própria divindade; finalmente, como coroamento de seu dogma religioso, sustentavam que, por ser de essência divina, por isso mesmo era a alma de natureza imortal.

            Do conjunto, que palidamente deixamos esboçado, se infere singular analogia entre as crenças espiritualistas  milenárias e a doutrina de hoje qual árvore de proporções colossais no espaço e no tempo, leva o Espiritismo as suas mais delicadas e longínquas raízes até as camadas fecundas do limo depositado pelo Nilo celeste nos campos do Amenti, jazida opulentíssima onde hauriram e ainda hão de haurir os estudiosos e cultores do Belo, do Justo e do Vero, conhecimentos preciosos para o enriquecimento do Espírito e sua ajuda eficaz no bom combate que ora sustenta contra as trevas que ameaçam subverter a Terra.

            Mas, por mais valiosas que fossem as forças que ali encontrasse o homem para a sua reabilitação e o seu progresso, não teriam elas por si só realizado o seu salvamento. Revelara-lhe o Regente da Eternidade as magnificências da Sabedoria, do Amor, da Justiça, da Beleza, do Esplendor, da Ciência, da Imortalidade, dádivas sublimes que nem sempre soubera aquilatar e ainda menos apreciar para o seu aperfeiçoamento, talvez porque aprouvera à vontade imanente não se efetuaria a redenção da criatura pela assimilação rápida dos tesouros que lhe reservara a Infinita Bondade.

            Fora de absoluta necessidade que continuasse a humanidade a passar pelo caminho da Dor, pela provação do Sofrimento e da Expiação, até que surgisse o Eleito para lhe apontar de novo o caminho áspero e pedregoso da Verdade e da Justiça, do qual ela se havia desviado.

            Veio o Mestre, veio Jesus, enviado daquele a quem pela vez primeira o Anho de Deus ia chamar de – Pai celestial – e, se Ele na Verdade assim dizia, é porque consubstanciava em si o Amor purificador, fecundo, infinito!

            Na frase candente e inspirada de Isaías, Jesus, “O Filho do Homem”, como se intitulava a si próprio, Jesus encarnava o Espírito da Sabedoria, o Espírito da Inteligência,  

           O Espírito do Conselho e da Força, o Espírito da Ciência e o Temor da Vontade Suprema. Tão alevantados predicados não foram todavia os signos inexplicáveis que fizeram do Cristo o mais sublime intérprete dessa Vontade Onipotente: a sua característica inconfundível foi o seu imenso Amor pela humanidade sofredora, foi a sua Compaixão infinita pelos erros e males dos seus irmãos deserdados, cegos pela vaidade, atormentados pela ignorância, escravizados pela cupidez, obcecados pelo mal. Com esse amor incomensurável, que a razão humana em sua mesquinhez e impotência bem sequer pode imaginar, teve o Filho do Homem o símbolo eterno de sua glória, aquela coroa de espinhos, de cujos acúleos o gotejar de sangue preciosíssimo do mártir divino revelou ao mundo atônito A NOVA VERDADE, A NOVA JUSTIÇA, A CARIDADE, A MISERICÓRDIA, enquanto seu coração, ardendo em Amor inextinguível, ditava aos homens a nova sentença da Redenção, a fórmula formidável em sua intangibilidade da Suprema Perfeição: “Amai-vos uns aos outros com a vos mesmos!”    

terça-feira, 2 de abril de 2019

O espectro de Jesus






O espectro de Jesus
Redação 
Reformador (FEB) 16 de Agosto de 1925

            A propósito de um dos episódios verificados no Congresso Espírita que recentemente se celebrou em Lisboa, com o objetivo de congregar os elementos esparsos, embora de valor, com que conta o Espiritismo em Portugal e de imprimir orientação eficiente ali à prática e a propaganda da Doutrina dos Espíritos. A Asa, revista que como órgão do Centro Espiritualista “Luz e Amor”, se publica na capital portuguesa, inseriu na primeira página do seu número de Julho e sob o título acima, o artigo que. Data vênia, aqui transcrevemos e de cuja particular significação para nós diremos num Eco de nossa presente edição.

            Não fui ao 1º Congresso Espírita Português devido a causa que fiz saber a uma pessoa por mim deveras estimada. Todavia, pelo relato dos jornais, 
eu soube da marcha dos trabalhos.

            Por uma leal franqueza, própria de meu temperamento e educação positiva, direi que, o que ali mais me interessou foi a afirmação do Sr. Garcia, 
pessoa que não conheço, mas cuja coragem me satisfez.

            Não terá ele defendido com brilho o seu asserto, mas pelo menos saiu-se com uma ideia com a qual plenamente concordo e que deve ser discutida com serenidade e sem fanatismo. Sim, sem esse fanatismo dogmático que foi, é e está sendo a ruína da seita que tem por chefe o Bispo de Roma.

            Custa, bem sei, ver cair ideias antigas; a época, porém, é de verdades e é com as verdades que ao constrói o edifício, o templo augusto da razão.

            O Sr. Garcia disse uma verdade eterna: Jesus, o Cristo, 
o Apóstolo imenso da verdade, não teve vida corpórea.

            Estou vendo daqui o sobrancenho carregado dos críticos e ouvindo 
o anátema lançado com celeuma por confrades meus.

            Venho, porém, aqui, não com a atitude de sábio, ou com a filáucia (amor desmedido por si mesmo) soberba de magister, mas argumentar com a razão, a lógica, com fatos apoiados na insuspeita opinião de apóstolos e evangelistas.

            Não aceito nunca, a olhos fechados, tudo quanto leio ou me dizem. 
O meu sensorial é ávido de Razão e jamais escravo das opiniões alheias.

            A minha opinião sobre a não corporeidade de Jesus não é antiga. Pressentia há poucos lindos anos depois que fui espectador de um caso que para aqui não tem cabida. Vi-a confirmada depois de ter tomado umas notas pessoais.

            Comecei então a estudar encarniçada e afincadamente o assunto, analisando-o sob todas as formas da Lógica. Não é branda a tarefa, que nem em meio vai ainda; porém, é tal o meu desejo de saber a verdade, que tenho consultado não só a tradução mais completa da Bíblia, que é a de Osterwald, teólogo suíço de grande qualidade, mas aquela que passa por ser também uma das mais corretas: a grega, 
de que há uma magnífica tradução francesa anotada.

            Não convém aos homens que gostam do maravilhoso que se descubra a verdade. Assim procederam sempre aqueles que uniram as religiões de qualquer espécie... Apesar das mutilações que os fariseus da nova era fizeram 
no Velho e no Novo Testamento, o véu não cobriu a verdade...

            Assim, sem quererem talvez, 
deixaram aos vindouros os meios de descobrirem tudo!

            Sabemos todos muito bem que grandes foram as diligências dos fariseus e
príncipes dos sacerdotes hebraicos para haver às mãos a pessoa que eles consideravam  sediciosa, irritante, equivocada e herética...

            Nunca conseguiram (enquanto Jesus o julgou preciso) por lhe a mão. Quando iam apedreja-lo ou colhe-lo pela túnica, ele - effugit velut umbra (fugia como a sombra...)

            Ora eu, funcionário policial, não acredito que de uma casa cercada e guardada até ao telhado, possa fugir alguém sem cumplicidade, a não ser que tenha asas como Ícaro, com mil recomendações para não voar muito alto por causa do sol que lhe derretia a cera com que as pegara...

            Eu não invento isto. Veja-se o Evangelho de João (o mais claro, terminante e melhor redigido), cap. VII, v. 44; cap. VIII, v. 59; cap. X, v. 39).

            Jesus largava a sua corporeidade quando queria (cap. X, v. 18).

            Só um Espírito de grade poder e de larga envergadura operaria assim! 
E o que é a vinda do Mestre sobre a Terra senão uma série imensa de prodígios?

            Poderemos atribuir a um homem tantos poderes de incorporação, 
dissociação,  telepatia, visão a distância, previsão, etc., etc.?  

            Os médiuns mais completos que têm vindo ao mundo não fizeram a milésima parte do que fez Jesus (Jeanne d'Arc - Antônio de Lisboa, 
conhecido por santo Antônio de Pádua - etc.)

            Um Espírito de luz poderá fazer 
o que em linguagem vulgar se chama prodígios: um homem não, nunca! 

            Mas de que se espantam os espíritas?

            Acaso não conhecem as assombrosas experiências do Doutor William Crookes? Não conseguia ele materializar até ao ponto de ouvir 
as pulsações de miocárdio do espectro dede Mistress Katie King? 
Não teve o grande sábio inglês, durante longos minutos, nos seus braços, 
arfando e respondendo, o Espírito materializado que se compunha, 
desfazia e recompunha a pedido do ínclito físico britânico, 
para convencer-se e convencer os inúmeros assistentes a essas memoráveis sessões?

            Então se o Espírito de Mistress Katie King, muito longe da perfeição, pode conseguir isso, porque o não faria um dos mais ilustres e altíssimos Espíritos da Eternidade como é Jesus, nosso grande e ínclito Irmão?

            Já o dogma romano dele nascer de uma virgem (que virgem ficou!) 
dá a perceber que há uma extraordinária razão do asserto.

            Se Mistress Katie King apareceu com a sua deslumbrante c esplêndida beleza indo-europeia e se prestou a todas as experiências até aquela que demonstrava o seu sexo (o que se fez com toda compostura, recato e cortesia); se ela permitiu que várias senhoras lhe metessem a mão no seio para verificarem e darem mais essa prova testemunhal honrada, leal e franca, para que admiramo-nos de Jesus materializar-se?

            O ato de coragem do Sr. Garcia é simpático, nobre e digno. 
Se ele falou, é porque alguém do Além o determinou.
Fiquemos certos disto. Falou porque é chegado o tempo.

            A apoteose que lhe fizeram foi uma pateada, dizem os jornais... (I)

            Pois eu se lá estivesse abundava nas suas ideias, defendia-o, amparava-o, animava-o,  por que gosto dos homens de ânimo e de coragem. 
Disse em voz alta o que muitos pensam... a medo.

            Deus manda sempre que a verdade refulja, (brilhe) de repente, 
no meio da treva e pela boca do humilde.  

            É de todos os tempos, é de todas as religiões, de todas as filosofias, e princípios

            Leiamos S. Paulo, os Evangelistas, os Atos dos Apóstolos 
e veremos todos que Jesus não era deste mundo...

            É forte atirar com os ídolos abaixo, é; mas é uma necessidade repor o Mestre no pedestal que lhe é devido e não andar com ele, inventando dogmas como a religião católica de Roma, que dele se apropriou como tabuleta para suas habilidades.

            Para a Humanidade basta saber que foi um Espírito de luz que baixou à Terra.

Estávamos no Congresso, presenciamos o incidente a que o nosso prezado colaborador se refere e que muito nos contristou; mas devemos dizer que nos passou inteiramente despercebida essa manifestação “pateal”(ruído que se faz com os pés), a que os jornais se referiram, e que, pelos modos, só existiu na imaginação dos repórteres.        N. da D.

Continuação

Noutra pagina deste número do Reformador transcrevemos o artigo que na revista “A Asa”, de Lisboa, publicou o nosso confrade Júlio Costa, propósito de ideias expendidas no Congresso Espírita que recentemente se reuniu na capital portuguesa. Nas linhas com que encabeçamos a transcrição, 
dizemos que num “Eco” especial nos ocuparíamos do artigo transcrito.

   Reportando-nos aqui ao escrito de Júlio Costa, de acordo com a promessa formulada, fazemo-lo, não para comentar as ponderações e comentários do distinto confrade português, mas apenas par sublinhar um fato, ou, melhor, uma circunstância que, do ponto de vista em que nos achamos colocados, com relação ao assunto versado, apresenta para nós importância capital.

          Quem conhece, de leitura atenta e não somente por ouvir dizer, a Revelação da revelação, de Roustaing, e lança os olhos sobre o artigo de que vimos tratando, deduz naturalmente, ao chegar às últimas linhas, que o articulista, conhecedor bastante daquela obra, é um dos muitos em cujo Espírito calou fundo a revelação, com que ali se depara, feita pelos Evangelistas, quando a ditaram do plano espiritual, acerca da aparição do Cristo na terra, ou, para dizermos a coisa segundo a única forma de linguagem de que os antagonistas da aludida obra -  acerca da natureza do corpo com que Jesus desempenhou entre os homens a sua missão messiânica.

          Entretanto, ao artigo se segue uma nota escrita pela própria pena 
que o traçou e que reza assim:

Já tinha composto esse artigo, quando uma ilustre pessoa amiga me fez saber que a matéria está discutida em Roustaing, por maneira semelhante ou quase...
           Empenho a minha palavra de honra de homem de bem e de espírita que nunca li esse autor.

Essa a circunstância relevante que queríamos assinalar. Que nos mostra ela? Que, estudando os Evangelhos à luz da doutrina espírita, meditando os ensinamentos e os atos do SaIvador, apreendendo, através desse estudo e dessa meditação, a grandeza, a excelsitude, a sublimidade desse Espírito ultra luminoso e de pureza absoluta, 
o autor do artigo teve, por intuição, como outros a têm tido, 
a revelação que colhemos na obra roustainguiniana.

            E porque a teve? Porque estudou e meditou realmente os Evangelhos, guiado pela doutrina dos Espíritos, não se limitando a lê-los perfunctoriamente. Porque, buscando sinceramente a verdade, os estudou e meditou 
sem ideias preconcebidas ou sem haver antes esposado, 
às pressas, opiniões que se não formaram pelo estudo e pela meditação.

Porque assim fez, recebeu a iluminação interior, que lhe facultou encontrar a verdade procurada. E, pois que isso não constitui privilégio seu, nem o é de qualquer outro, visto que nos olhos de Deus não há privilegiados, não estando nenhum de seus filhos excluído das graças e misericórdias que Ele a alguns concede, todos, seguindo a mesma trilha, poderão chegar a idêntico resultado e reconhecer também que menos distantes da verdade estão as seitas regalistas, quando divinizam o Cristo, do que quantos o amesquinham com o reduzi-lo, em sua natureza, à misérrima condição de um homem qual os que perambulam neste obscuro e ínfimo planeta.

            Nem só, porém, pela boca do congressista a quem Júlio Costa se refere no seu interessante artigo, a racionalidade e, portanto, a veracidade da revelação roustaingniana foi proclamada no seio do Congresso Espírita de Lisboa.

            Um outro de seus membros. se apresentou sustentando a mesma corrente de ideias: o Dr. Antônio Freire, de quem diz “A Asa” que “se revelou orador empolgante e fluentíssimo, acrescentando que, de todas as vezes que se fez ouvir a ao palavra arrebatadora, foi escutado como um apóstolo 
e no meio da uma atenção profunda, mesmo religiosa.

            Segundo a revista, donde extraímos esta notícia, o Dr. Antônio Freire afirmou que a base da doutrina espírita se encontra perfeitamente compendiada nos Quatro Evangelhos, de Roustaing, e nas “Novas Elucidações” publicadas pelo Centro “Luz e Caridade”, de Braga,  afirmação esta, assinala a citada revista, que o Congresso acolheu entusiasticamente.

Voltaremos a apreciar as orações pronunciadas pelos dois ilustres confrades, quando compulsarmos o volume em que vão ser publicados os trabalhos do 
Congresso Espírita Português de 1925.

            Por enquanto, limitemo-nos, para encerrar este Eco, a repetir estas palavras que se leem do artigo que José Augusto T. Romero publicou no último número do Reformador:

“O futuro, não muito longínquo, fará ruir com fragor os argumentos, destituídos de lógica, que ainda se opõem aos indestrutíveis ensinamentos da “Revelação da Revelação”, os quais, à proporção que forem estudados e meditados, 
melhor compreendidos serão.”