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sábado, 10 de fevereiro de 2018

Profissão de Fé


Profissão de Fé
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Junho de 1943

Afastadas, por dimanantes (originário) todas da generosidade de um coração bondoso, onde impera o sentimento da fraternidade cristã, as referências pessoais contidas na carta que abaixo inserimos, muito encerra a profissão de fé constante dela, como demonstração da relativa facilidade com que a iluminação interior se produz para o espírito que busca sinceramente a verdade, sem ideias preconcebidas, de pontos de vista isentos de personalismos, cheio de boa vontade e cônscio de que somente a humanidade consegue que o veio da inspiração superior, ou das intuições claras e sãs se abra para fazer que um raio de luz brilhe onde antes tudo era obscuridade.

Tal a razão única por que, agradecendo sensibilizado as palavras do signatário, alusivas à Casa de Ismael, transcrevemos a sua profissão de fé, espontaneamente feita. Pela característica que lhe apontamos, ela, sem dúvida, será de proveito para muitos que procuram a verdade por amor à verdade, certos de que jamais lograrão encontra-la, se se fiarem tão só na força de suas inteligências, por mais pujantes que as suponham.

Ilustre confrade, Dr. Guillon Ribeiro   M. D. Presidente da "Federação Espírita Brasileira".

Paz,

Cumpro o grato dever de vos testemunhar, por este meio, sinceros agradecimentos pela transcrição do meu modesto artigo - "Kardec e Roustaing", em o "Reformador", órgão que espelha fielmente a orientação superior da "Casa de Ismael", de que sois seguro e bem inspirado timoneiro. Agradeço-vos, igualmente, as benévolas referências feitas ao meu humilde nome, assegurando-vos que tão generosa resolução constitui valioso e confortador estímulo para o meu espírito, desejoso de poder juntar o seu microscópico grão de areia à portentosa obra que estão realizando no Brasil os "espíritas concienciosos", consoante o dizer de Allan Kardec.

Em outubro do ano passado, ao ouvir as vossas instrutivas considerações evangélicas, tive a atenção atraída para um detalhe a que, incidentemente aludistes, quanto ao corpo fluídico de Jesus. Interessou-me o assunto a ponto de me animar a vos dirigir desalinhavada carta, a 2 do mesmo mês, subscrita por - Um novo associado da Federação, que aguarda as luzes do vosso esclarecido espírito. Não bati à vossa porta em vão, nem vos pedi infrutiferamente. O modo pelo qual veio a vossa resposta foi já uma réstea de luz que o meu espírito recebeu. Hoje, reputo frívolas as razões daquela carta, mas é preciso recordar que, até então, era completa a minha ignorância a respeito da teoria do corpo fluídico do Divino Mestre, tanto que só de nome conhecia eu "Os Quatro Evangelhos", não sabendo que esta prodigiosa obra continha revelações da mais alta importância. Na Bíblia encontrara determinados trechos obscuros ou absurdos, porque envoltos no negro véu da letra, mas perfeitamente explanados, através da teoria do corpo fluídico, na obra mediúnica divulgada por J. B. Roustaing. Longe estava de supor que "Os Quatro Evangelhos" fossem a mesma Bíblia explicada em espírito e verdade. Seguindo vosso conselho, dediquei-me logo ao estudo desse alentado trabalho, confiante na solidez dos "meus" pontos de vista. Não tardou, entretanto, que a verdade triunfasse, não só desfazendo a relutância que eu demonstrara, inicialmente, em aceitar tão cristalina exposição, como levando-me à certeza de que, efetivamente, Jesus não poderia ter vindo à Terra senão com um corpo fluídico, adaptado às condições de vida deste planeta; nunca, porém, com uma vestidura carnal de natureza idêntica à nossa. Admirei-me muito de que tão simples e racional teoria houvesse encontrado resistência da parte do meu espírito. Muitas vezes reli as páginas que o meu entendimento não assimilara prestemente, mas, ao cabo de persistente estudo, todas as minhas dúvidas acerca do corpo fluídico se dissiparam e experimentei a mesma agradável sensação de quem, fugindo ao ambiente sufocante dum ergástulo, pode, enfim, livremente, respirar o ar puro da aromatizados vergéis.

Conforme tão bem ensinais em "Jesus, nem Deus, nem homem", o meigo Rabbi da Galileia, "sendo um puro Espírito, um Espírito de pureza perfeita e imaculada, o fundador,  o protetor, o governador do planeta terreno, não podia e não estava adstrito, de acordo com as leis imutáveis da natureza, a tomar o corpo material do homem terrestre, corpo de lama, incompatível com a sua natureza espiritual. A encarnação humana é expiação, prova, meio, portanto, de efetivação de progresso moral. A ela, pois, não podia estar sujeito, e não estava, aquele que, antes de constituir-se a Terra, já alcançara, moralmente, a perfeição absoluta. No entanto, cumprindo-lhe, para aparecer entre os homens e desempenhar na Terra a sua missão superior, revestir um corpo, tinha Ele que, de conformidade com as leis imutáveis da natureza, mediante aplicações e apropriações dessa lei, pois que a vontade inalterável de Deus jamais as derroga, tomar um corpo compatível com a sua natureza espiritual e em relativa harmonia com o globo terráqueo, tal que aos homens desse a ilusão de ser um corpo humano".

O misoneísmo (hostilidade para com o novo) é mimético (disfarce). Toma as formas que parecem convenientes para ludibriar-nos o raciocínio, levando-nos a sustentar preconceituosas tradições, engendradas nas sombras do apriorismo impenitente. Assim tem sucedido relativamente a errôneas interpretações dos Evangelhos. Dia virá, no entanto, em que a luz se espalhará por sobre todos os espíritos, apagando as nódoas do obscurantismo traiçoeiro.

Posso dizer-vos agora: graças a Deus! Sim, Dr. Guillon, graças a Deus, porque estou compenetrado da realidade do corpo fluídico de Jesus e é a vós que devo o início da elucidação que, a esse propósito, recebeu o meu espírito. Hoje sei que, pretender-se a possibilidade dum Espirito como Jesus, de pureza absoluta, isto é, que jamais fraquejou, ter mergulhado na podridão dum corpo carnal como o nosso, será ofender-lhe a majestade. Não! Jesus não sofreu o ultraje da encarnação a que estamos sujeitos, nós, espíritos falidos, imperfeitos, impuros. Se muitos se apegam ao argumento de ser a teoria do corpo fluídico derrogatória das leis naturais, é porque - vistas curtas - supõem conhecer todas as leis da Natureza... Graças a Deus, comecei a despertar, ilustrando o meu ignorante espírito com outras obras de idoneidade incontestável, como "Elucidações Evangelicas", "A Personalidade de Jesus", "Jesus - nem Deus, nem homem", "Jesus perante a Cristandade", todas de irrefragável autoridade exegética.

Concluindo, caro irmão, renovo meus agradecimentos à cristã acolhida que recebi. Que o Pai que está nos céus vos devolva em bênçãos os benefícios que me propiciastes.

Está finda esta profissão de fé.

Do mais humilde dos vossos condiscípulos


Indalício H. Mendes 

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Coisas que não sabíamos


Coisas que não sabíamos
por Carlos Imbassahy
Reformador (FEB) Junho 1943

Não há dúvida de que o livro do padre Zioni foi um prestimoso trabalho, que não só veio ensinar muitas coisas aos seminaristas do Ipiranga como a nós mesmos, espiritistas.
Assim é que ele esclarece:

"Bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo. (Todos os grifos são do reverendo). A filosofia espiritualista crê na existência de um Deus todo poderoso, Criador e Providência do mundo, Pessoal e absolutamente distinto de suas obras. O Espiritismo identifica o efeito com a causa, Deus com o mundo!"

Vejam lá! E ninguém sabia disto até hoje! O Espiritualismo a crer na existência de um Deus todo poderoso, Criador, providência do mundo, pessoal, distinto de suas obras. E nós, espiritistas, a crer no contrário, visto que "bem claras são as diferenças entre Espiritualismo e Espiritismo". E nós, espiritistas, a crer que Deus não é poderoso, nem é Criador, nem é providência do mundo, nem é distinto de suas obras, e é impessoal. Pensamos, além de tudo, que efeito e causa, Deus e o mundo é tudo a mesma coisa.

(“O Espiritismo identifica o efeito com a causa.") 

Nós, espiritistas, cremos nisto, disse-o o padre Zioni aos seus alunos e proclamou-o à face do Brasil, no seu famoso livro.

Bem é que nos viesse agora iluminar o entendimento, porque nós criamos que acreditávamos justamente no contrário do que afirma o padre que nós cremos.

Mas, quem nos enganou foi o Kardec. Diz ele, logo na 1ª linha, do 1º capitulo, como 1ª resposta dos Espíritos no Livros dos Espíritos:

"Deus é a inteligência suprema, causa primeira de todas as coisas".

Por isso não esperávamos. O Kardec a dizer que Deus é a suprema causa e a suprema inteligência, nós a crermos que era nisso que acreditávamos! Supúnhamos até hoje que tínhamos Deus como Criador, visto que é causa primária, e como causa não se podia confundir com o efeito, que é a sua obra, e como Inteligência Suprema é o todo poderoso...

Nada! No que acreditamos quem o sabe, quem o diz, quem o ensina é o padre Zioni.

Ainda nos engana e atrapalha Allan Kardec, quando estabelece no nº 13, Livro dos Espíritos, que Deus é eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom.

Mas que patranha!

Dir-se-ia que isto é que é o ensino dos Espíritos, o que proclama o Espiritismo, aquilo em que cremos. Lá está que Deus é único, imutável, onipotente.  

Mas não importa. A verdade vive palpitando pela pena do reverendo: "São bem claras as diferenças." O Espiritualismo, de que ele é representante, crê num Deus poderoso, criador, pessoal, distinto de suas obras ...

Cá conosco é o contrário - cremos no oposto - o Kardec é p'ros tolos. E se não é a providencial interferência do padre, iríamos por aí afora naquele engano d’alma.

No capítulo Panteísmo, Kardec, para reforçar o engodo em que vivíamos, declara que Deus é um ser distinto, porque, se fosse a resultante de todas as forças e de todas as inteligências, não existiria, porquanto seria efeito e não causa. (L. dos Esp., nº 14).

Mas não é isso o que cremos, di-lo o padre Zioni - nunca é demais repetir - em respeitável obra, que corre o Brasil inteiro, explicando o que é a infausta doutrina do Espiritismo. E entre, o padre Zioni e o Kardec... "tollitur quaestio". (e acabou a questão).
Outro esclarecimento e outra coisa que não sabíamos:

"O Espiritismo pretende possuir todos os segredos da natureza e julga-se capaz de explicar todos os mistérios."

Ainda aí, que ilusão a nossa! ...

Pensávamos, nós os espiritistas, que esbarrávamos em todas as causas primarias. Não há tal. O Espiritismo sabe tudo, explica todos os mistérios ou pretende isto.

Sabe de onde veio Deus, como é que veio, como é que se formou, onde acaba o Infinito, isto sem já falar em coisas mais próximas: - porque a água se solidifica a Oº grau, porque o mercúrio é liquido à temperatura normal e o ouro é solido, porque uns metais são duros e outros moles, porque há corpos que emitem irradiações, porque o ferro se magnetiza, porque as pontas atraem os raios e não as bolas, porque o coelho é manso e o tigre é bravo, porque a barriga das pernas está atrás, quando devia estar na frente para proteger as tíbias, porque os dentes só nascem duas vezes e as unhas crescem indefinidamente, porque... etc., etc., etc ...

Nós sabíamos tudo isto! Ha muita gente que supõe saber o que não sabe. Em Espiritismo a cantiga é outra: - não sabemos o que sabemos! Desta vez, obrigado, padre!

Mais coisas que não sabíamos:

"O Espiritismo repousa nesta comunicação com os desencarnados e estabelece como base essencial a crença na sobrevivência dos espíritos e sua comunicação com os vivos, seja qual for a explicação, porquanto a filosofia espírita consiste em comparar todas as filosofias já existentes, com a revelação espírita. "        

Ah! consiste nisto?

Aí têm o que é a filosofia espírita - é uma comparação com todas as filosofias existentes.

Quem faz a revelação é o Arnauné, que eu não sei quem é; mas quem a endossa é o reverendo.

O trecho está claro como azeite: - a base do Espiritismo é a crença na sobrevivência, seja qual for a explicação.

E esta base é porque a filosofia espírita consiste em comparar a revelação espirita com as filosofias já existentes.

O Arnauné, com a aprovação, senão com a admiração de Zioni, levou a explicação aos maiores extremos: - a comparação é com as filosofias existentes. Não se fosse supor que se tratava de comparação com filosofias inexistentes.

E nós a crermos que a filosofia espírita versava sobre a origem, a dor, o destino dos homens!

Nada disso: - é uma comparação.

*

Não sabíamos, ainda, que Mateus, no capíulo XVIII, nº 17, se referia à Igreja Católica.

Elucida-nos, neste ponto, o padre Zioni:

"É pena que o Sr. Allan Kardec e seus dIscÍpulos nunca leram ou não querem ler na Sagrada Escritura os anátemas proferidos pelo mesmo noso Senhor Jesus Cristo: - Aquele que não crer será condenado, porque já está julgado. Aquele que não ouve a Igreja (isto é a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, por ele fundada) esse tal deve ser reputado pagão ou publicano, isto é, apóstata, herege, excomungado."

Apesar do muito que para mim vale a palavra do reverendo, fui dar uma espiadela em Mateus, e o que lá encontrei foi o seguinte: "Se contra ti pecou o teu irmão, vai e o repreende, mas a sós com ele. Se te atender, te-lo-as ganhado. Se, porém, não te atender, faze-te acompanhar de uma ou duas pessoas, a fim de que tudo seja confirmado pela autoridade de duas ou três testemunhas. Se também não as atender, comunica-o à Igreja; e se também à Igreja não atender, trata-o como gentio e publicano." (Mateus, XVIII, 15-17) .

Se meus olhos não me enganam, está diferente da citação do padre.

O que inferíamos do texto é que o Mestre, no seu amor às criaturas, nos ensinara a brandura, em vez de aconselhar-nos os anátemas, e, destarte, mandara que, quando tivéssemos de repreender ou censurar alguém, o fizéssemos em segredo, a sós com ele, com palavras persuasivas. Se ele nos não atendesse, buscássemos outros para reforçar nossos conselhos. Os espíritas pediriam o auxílio dos bons Espíritos. Não atendidos, ainda levariam o caso à Igreja, e a Igreja era a assembleia dos doutos, dos probos, era a Autoridade. No nosso caso seria a comunidade cristã.

O conselho do Divino Pastor visava - assim o supúnhamos - evitar a desonra do infrator, a publicidade do erro. Só em último caso, na impossibilidade da corrigenda, e corrigenda do pecado, seria considerado o pecador gentio e publicano, isto é, insuscetível de emenda, e então, deixado à sua sorte, consequentemente ao desprezo público, como se ele fora publicano ou gentio.

Mas o padre ajeitou os textos. Em boa hora, porque ficamos sabendo assim que, se um chinês não ouvir a outro chinês, tem que rumar ambos à Igreja Católica. Se um japonês não atender a outro japonês, está perdido, a menos que não consiga romper o bloqueio da esquadra britânica e forçar o canal de Suez, em caminho de Roma.

E então, -antes da fundação da Verdadeira Igreja, a Católica? Era ficar esperando num ponto azul da Eternidade!

Não se compreende, nem se sabe como, mas está bonito.

Não para aí ou não parava a nossa ignorância. Leiamos mais um lanço esclarecedor do reverendo Zioni:

"O Espiritismo Moderno, filho legítimo do Individualismo, Liberalismo e Racionalismo Protestantes, é, em si mesmo, falacioso e enganador. Pretende ser uma verdadeira Ciência, Filosofia e Religião, quando, na realidade, não é mais do que uma
pseudo revelação dos princípios subversivos da ordem e da moral, sob a roupagem santa e ideal da verdadeira caridade."

Está injurioso. Mas em se tratando de Espíritos, Espiritismo e Espiritistas, o padre
não tem muita cerimonias. Já vimos isto.

Todo o livro é uma como arcada de contrabaixo, vibrada por mão de mestre. Profunda e vigorosa.

Ora no Espiritismo, o que se ensina é o Evangelho do Senhor Kardec lhe dedica um livro inteiro. Roustaing apresenta, transcreve, estuda, comenta, versículo por versículo. A doutrina roustainiana se cifra em todo o Evangelho do Divino Mestre. Onde está a imoralidade, a desordem? ...

O Evangelho, filtrado pela boca do reverendo, iluminado pelas chamas do Inferno, apavorante pelos anátemas, anti fraterno pelo predomínio exclusivo de uma Igreja, vingativo pela eternidade das penas, obscuro pela insondabilidade dos mistérios, impenetrável pela proibição do exame, da investigação, é, que é a fonte da ordem e da moral, onde nós devemos todos abeberar.

Mas o Espiritismo, que nos apresenta Jesus cheio de bondade e de amor, que ensina a remissão do pecado pelo esforço próprio, que apregoa a bondade do Criador pela salvação de todos, que nos dá como lei suprema a da Justiça, como princípio geral a Equidade, que não proíbe o Conhecimento, nem estiola a Razão, este, sim, é um obstáculo a ordem, é um empeço a moral.

Num ponto, porém, acordamos com o ilustrado sacerdote. Convimos em que há ali uma doutrina funesta - é o dai de graça.

Imoral, não há dúvida, porque vai de encontro à moral consuetudinária, à moral de  os tempos e de todos os homens, com raras exceções. Anárquica, porque foge à ordem estabelecida, pelo menos à ordem econômica.


E o Espiritismo prega essa perigosa doutrina. Tem razão o padre: - "Princípio subservivo da ordem e da moral!'" 

Acabamos por uma conciliação. 

A Lei Áurea


A Lei Áurea
por Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Maio de 1943


Os Brasileiros comemoramos a 13 do mês corrente o quinquagésimo quinto aniversário do Decreto que aboliu no Brasil a escravidão e que passou à história com o título de lei áurea. Por feliz coincidência, essa lei de tanta significação moral, pela qual durante um século se elevaram ao céu as preces de milhões de mulheres brasileiras, senhoras e escravas, foi assinada e posta em vigor por uma mulher, a excelsa princesa Isabel, regente do Império. Enquanto os abolicionistas lutavam pela imprensa e pela palavra, com agitação e bravura, as mulheres em seus oratórios, nos templos, nos lares, rezavam, implorando a Deus a abolição da escravidão. Conhecemos um devocionário católico diariamente usado por uma veneranda matrona de nossa família, no qual as páginas onde se encontrava a prece pela libertação dos escravos estavam cortadas pelos dedos da devota senhora, devido ao uso por mais de meio século.

Quanta compaixão inspirava aos corações bem formados aquele estado civil injusto, que sacrificava milhões de irmãos nossos privando-os de todos os direitos! Mas, assim como havia senhores tiranos e cruéis, que eram algozes dos seus escravos, tornando-lhes a vida um perpétuo martírio, havia sentimentos sublimes em corações sensíveis, que viam nos escravos vítimas indefesas de uma injustiça social. Principalmente nas mulheres, encontravam-se não raro esses corações que envolviam em amor materno os cativos e se identificavam com a dor deles. O Cristianismo estava dividido em duas instituições, que de comum só tinham o nome: o Cristianismo oficial e acomodatício, que tolerava a escravidão como mal irremediável, e o Cristianismo do Cristo, que orava e chorava com os escravos, de olhos fixos no Céu, esperando o fim daquelas amargas expiações. Foi este último que venceu, por fim, no dia 13 de maio de 1888.

Quanta sublimidade houve naqueles séculos tristes e trevosos! Quantos milagres operados pelas almas de escravos mártires! Lá naquele alto estava a cruz onde morreu Pai João, e minha caridosa sogra ia, com mãos piedosas, orná-la de flores e orar de joelhos, implorando a proteção de Pai João para os seus algozes e para seus irmãos de cativeiro, porque Pai João foi santo e mártir. Nenhuma alma angustiada que se voltasse para ele deixava de ser prontamente atendida. Aquela cruz no cimo do monte era o único altar de Pai João. Ele não foi canonizado oficialmente pela Igreja, mas foi santificado por quantos lhe conheceram as qualidades e o martírio.

Os escravos herdados por meu avô receberam carta de alforria, ficaram livres, ao lhes morrer o velho senhor e ao serem arrolados como patrimônio dos herdeiros; nunca, porém, abandonaram o trabalho, nem o lar senhoril, do qual se tornaram os filhos mais devotados. Eram almas sublimes, cheias de reconhecimento e bondade, capazes de todos os sacrifícios. 

Ao recordarmos hoje que, nos primeiros anos de existência de nossa imprensa espírita, uma de suas tarefas era trabalhar pela abolição da escravidão, como ainda se vê nas velhas coleções de Reformador, de 1883 a 1888, não devemos esquecer o lado sublime daquela Instituição milenária. Quantos Espíritos culpados vinham a este mundo de expiações e de provas para reparar pesadas faltas e encarnavam como escravos! Faziam numa só encarnação gigantesco progresso espiritual, alcançando depois da morte a verdadeira libertação, por isso que já não eram escravos do pecado e do remorso.

A escravidão é quase tão antiga quanto o aparecimento do homem na face da Terra. Houve escravos entre os Romanos, entre os Gregos, entre os Hebreus, entre os Egípcios. Em Esparta, houve tempo em que os senhores se tinham tornado fracos, na opinião oficial, e os escravos se revoltaram; por isso, foi decretado que, ao menos uma vez por ano, os senhores eram obrigados a entregar seus escravos, a fim de serem surrados em público, por melhores que fossem, somente para que conservassem a humildade e a constante lembrança da sua condição de escravos. Eram surrados obrigatoriamente, mesmo contra a vontade dos senhores, a fim de não se tornarem altivos e rebeldes. A instituição mesma, portanto, era terrível monstruosidade e só compreensível em um mundo de grande inferioridade moral, planeta de expiações e de provas, como nos vieram revelar os Espíritos Superiores em as obras de Kardec, no século passado.

Felizmente, o planeta e seus habitantes progrediram e chegou o fim da escravidão no mundo todo. A presente guerra já pôs fim à escravidão até nos pontos mais remotos da África onde ainda existia. Em nenhum lugar do mundo existe hoje a escravidão legalmente permitida. Se em certos pontos do planeta ainda há quem proceda como senhor de escravos, tal procedimento é ilegal, criminoso e terá que desaparecer rapidamente pela aplicação das leis.

O mundo já entrou em nova fase de progresso. De mundo de expiações e de provas já está passando a mundo regenerador. Já está reconhecido o direito humano da igualdade e da fraternidade; todas as classes têm direito à proteção legal; a legislação trabalhista progride e melhora sempre, amparando cada dia mais os homens menos protegidos da fortuna, que se não podem defender por si mesmos. Estamos rumando para a felicidade social, para a liberdade, para a justiça. As nações que se batem na presente guerra, ao lado do Brasil, desfraldaram a bandeira de quatro liberdades fundamentais, indispensáveis ao homem, e nesse sentido estamos em plena campanha abolicionista novamente. As quatro liberdades fundamentais que as Nações Unidas querem estabelecer em todos os rincões do planeta são as seguintes:

1º) Liberdade de palavra e de expressão do pensamento.
2º) Liberdade religiosa ilimitada.
3º) Libertação das privações econômicas, isto é libertação de todos os homens da miséria e da falta das coisas necessárias à vida.
4º) Vitória contra o medo, isto é, libertar os homens e os povos de todas as ameaças que lhes possam dificultar a prática e o pleno gozo das três liberdades precedentes.

São essas quatro liberdades fundamentais que as Nações Unidas querem para si mesmas e para seus inimigos. Logo, estamos na grande guerra abolicionista do século vinte, talvez mais significativa do que as do século dezenove. Os nossos irmãos da Pátria, do Continente, da Humanidade estão dando seu sangue e sua vida para abolir do mundo quatro formas de escravidão ainda sobreviventes: 1º) a escravidão do pensamento; 2º) a escravidão religiosa; 3º) a escravidão econômica; 4º) a escravidão do medo.

Essas quatro formas de escravidão, menos palpáveis do que a antiga, não são menos terríveis, porque sacrificam povos inteiros e destroem a dignidade humana, arrastando pela violência massas imensas de homens à morte e ao crime; lançando o terror nas almas, fazendo do mundo um inferno de negros pavores.

Sem a conquista destas quatro liberdades fundamentais, o ideal cristão não pode ser praticado na Terra, será apenas um sistema moral ideal, porém sem vida real. Sem liberdade de pensamento, o Cristianismo não pode ser nem concebido, porque ele responsabiliza o homem pelos seus pensamentos e não pode existir responsabilidade sem liberdade. Sem a liberdade religiosa, igualmente, não podemos conceber o Cristianismo, que exige de nós o amor a Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo como a nós mesmos, porque só pode amar quem tem liberdade de adorar a Deus como o possa conceber. Dentro da escravidão econômica, tendo que defender pelas armas a propriedade contra os outros filhos de Deus que dela necessitem e se sintam privados, igualmente seria utópica a moral de Jesus, que é toda de fraternidade e amor ao próximo. Nos regímens de medo, também, seria impossível ao homem fazer do livre arbítrio o uso que lhe exige o Cristianismo.
           
A nova guerra abolicionista que estamos vivendo e que poderá durar muito tempo; que poderá não alcançar de uma só vez suas finalidades e ter de prosseguir no após guerra, durante séculos, não é menos importante do que as do século passado, repetimos, embora seja menos compreensível para a maioria dos pensadores. Se, pela abolição da escravidão, durante milênios houve lutas e foi derramado sangue generoso na Grécia, em Roma, no Egito, nos Estados Unidos, em sacrifícios belos e grandiosos, que culminaram na Lei Áurea que hoje festejamos no Brasil, não menos sacrifícios merece a nova campanha que tem por alvo libertar toda a humanidade e estabelecer a liberdade e a justiça sobre a Terra.

Assim como as nossas avós oravam pelo triunfo do ideal abolicionista no século passado e confundiam suas lágrimas com o sangue dos escravos, oremos também nós pelo triunfo dos princípios por que se batem hoje os povos da América, pelos princípios, somente, não pelos imperialismos que possam surgir à sombra desses princípios, em consequência dos ódios que a guerra sempre desencadeia.


Imploremos a Deus que todos os povos, inclusive os nossos atuais inimigos, em futuro próximo venham a gozar das quatro liberdades fundamentais da bandeira das Nações Unidas. Só então o Cristianismo do Cristo -com ou sem o rótulo cristão-- entrará em pleno vigor no nosso mundo. Para nós espíritas, o rótulo nada vale, é apenas uma palavra e muitas vezes uma palavra empregada fora do seu sentido próprio. O que vale são as ideias e os sentimentos, quaisquer que sejam os nomes ou as formas externas sob que se manifestem. 

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Evolução


Evolução
por Jorge M Fenandes
Reformador (FEB) Junho 1925

A medida que a humanidade vence os obstáculos do caminho, na conquista eterna do progresso, Deus lhe vai mostrando novos e mais belos aspectos de sua obra maravilhosa e infinita: o Universo.

E, assim, progressivamente, se vão aclarando os horizontes espirituais.

Nos nossos dias, em que, para glória nossa, nos foi concedida a graça suprema de uma Revelação das revelações: o Espiritismo, temos diante de nosso Espírito esses horizontes mais claros e belos e tão claros e belos que a mentalidade desta época aceita plenamente essa Doutrina sublime, que nos prova a existência de Deus, a supervivência da Alma e nos ensina a amar ao próximo como a nós mesmos, praticando o perdão, a tolerância, a caridade enfim.

Tem o homem de hoje, pelos ensinamentos do Espiritismo, a noção perfeita de suas responsabilidades perante Deus, porque conhece o verdadeiro objetivo de sua existência. A verdade divina brilha agora com mais fulgor do que outrora. A lei divina, encerrada nas parábolas evangélicas, já a compreendemos, em tempos, em espírito e verdade.


A Humanidade realizou um progresso considerável no desabrochar da sua inteligência; resta-lhe, agora, cultivar mais as verdades ensinadas e exemplificadas por Jesus, para, edificando-se no Bem, conquistar as felicidades imorredouras do Espírito.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Carta aberta ao Dr. Ismael Gomes Braga


Carta aberta a Ismael Gomes Braga
Souza do Prado
Reformador (FEB) Novembro 1942

Meu caro lsmael:

Vou devolver-te, separadamente, a carta do AImerindo Martins de Castro, que me confiaste juntamente com as tuas palestras radiofônicas: "Rendendo Graças" e "Compreender e amar", que deste ao microfone da Rádio-Transmissora, e que eu não
tive a ventura de ouvir, por ser hora de trabalho, para mim, aquela em que é feita a irradiação da "Hora Espírita Radiofônica". Essa carta deves guardá-la no teu arquivo, ao lado das melhores coisas que lá tenhas.

Neste mundo, uns por falta de cultura, outros por falta de sinceridade, há muito quem diga bem de todas as pachouchadas (dito tolo ou impensado; asneira, tolice, palavra indecorosa e/ou chula; palavrão) que por ai aparecem; de forma que os elogios da maior parte da gente não valem um chavo (adeus) galego, como se diz na minha terra. Quando, porém, os elogios vêm de pessoas sinceras, como o Almerindo - que, para não desgostar, podem não dizer mal do que é ruim, mas também não dirão bem, porque só poderão dize-lo do que seja bom e que, como ele, possuem sólida cultura, claro descortino das coisas, apurado senso crítico, e criteriosa orientação doutrinária, honram a quem os recebe. Essa carta tem, pois, muito valor. Corto a cabeça se ele for capaz de escrever coisas idênticas aos autores de muitos livros, que, como tortulhos (cogumelos em geral), estão brotando, por aí, a cada momento ...

Quanto às tuas palestras: "Rendendo graças" e "Compreender e amar", essas não poderão deixar de ficar no meu arquivo, ao lado das melhores coisas que lá tenho.

*

Chegou, porém, a minha vez de escrever alguma coisa. Certamente, o que eu possa escrever tem também algum valor, pela absoluta sinceridade que sempre dita as minhas palavras. Só por isso.

Uma coisa te deve ter parecido estranha: é que, tendo-me tu oferecida; já, uma porção de compêndios latinos dos melhores autores - para eu poder relembrar o pouco que aprendi dessa língua – e outros livros, incluindo as provas do teu principal
apostolado na Terra - uma coleção de livros de Esperanto - eu não escrevi uma só palavra a tal respeito. Tiveste, até, a ousadia de me escrever um insolentíssimo bilhete em que dizias: - ‘Esperanto sem mestre’ não praticaria a impertinência de visitar a um cavalheiro que não teve tempo de escrever uma linha sobre ‘Essência e futuro da ideia de língua internacional’ pois não quer ser importuno visitando a pessoas tão ocupadas, tão importantes, ou tão convencidas," E, dois dias depois, mediante um requerimento meu, em versos de pé quebrado, mandaste o livro, acompanhado da coleção de todos os restantes. Peste! ...

No entanto, se me conhecesses bem o temperamento e a psicologia, acharias o meu silêncio perfeitamente natural. Eu não escrevo, como muitos, por passatempo, ou para encher linguiça. Isto é: não sou literato. Assim, só costumo escrever para
ventilar assuntos que me pareça necessário ventilar em benefício de nossos irmãos sofredores e explorados. Fora isso, somente certas vibrações me podem obrigar a escrever.

Eu vibro de duas formas: física e psiquicamente. Fisicamente, o que em mim vibra são os nervos, quando leio ou ouço alguma coisa que me parece um chorrilho de disparates; então, provocado por essa vibração, não me sinto bem enquanto não espinafro o autor da obra. Psiquicamente, vibra-me a alma, quando leio coisas muito boas e muito elevadas, como as que tu costumas produzir; mas, então, não sinto vontade de escrever; assim como tu fazes “quando um majestoso quadro da natureza se apresenta aos teus olhos", também eu me recolho ao meu íntimo, concentro-me o mais que posso, e oro ao Pai de infinita misericórdia, rendendo-lhe graças por me ter permitido lê-las. Quando leio o que tu escreves, sinto, como tu quando assistes aquele espetáculo, "que a minha alma emudece respeitosamente diante do Criador, e o meu coração diz uma prece silenciosa, de olhos úmidos, sem palavras, sem forma, porque toda a forma seria uma profanação". Em suma: eu, que tenho a inferioridade de me julgar superior ante as parvices dos néscios, sinto-me demasiado pequeno ante a tua elevação espiritual.

Não lisonjeio, bem o sabes; sou sincero. A verdade é que tens produzido coisas incomparavelmente melhores que as que eu tenho podido produzir, mas que fazem menos barulho. O que me pode salvar é que eu faça barulho sinceramente convencido de que é necessário faze-lo para bem da Humanidade; dessa mesma Humanidade a quem tu tens sacrificado tudo! Assim como tu nasceste para a propaganda de doutrinas, elevadas porque Divinas, como o Espiritismo e o Esperanto; eu vim cá para criticar erros alheios; e, imperfeito como sou, descubro sempre o argueiro nos olhos dos outros, sem dar pela trave que está atravessada na frente dos meus...

         Ora, como é natural, eu não desejava dizer-te nada disto. Os maus precisam que lhes façam sentir a sua maldade; aos bons ninguém precisa de dizer nada; a tranquilidade da consciência diz-lhes o bastante ...

         E... aqui tens: para te não tornares a queixar do meu silêncio, aprende a fazer, a dizer e a escrever asneiras. Então, ter-me-ás sempre à perna...

       Hás de dizer, ou pensar, que eu escrevi uma longa carta ao Imbassahy, que também não costuma escrever asneiras; mas, repara em que eu não lhe escrevi coisa nenhuma; limitei-me a aproveitar a deixa para escrever ao Sr. Diretor do Ensino, de
S. Paulo, e a meia dúzia de outras pessoas, que, a meu ver, estavam precisando de que eu lhes escrevesse.

        E é só ...

        Um abraço muito afetuoso do teu

       Souza do Prado


Casos e Coisas


Casos e Coisas
M. Quintão
Reformador (FEB) Novembro 1942

O caroável Emmanuel já o disse em memorável e recente mensagem, que o V da vitória também se poderia estimar por V da vigilância.

A advertência, em hora de tão graves preocupações para a humanidade planetária, tem alto significado, maxime, para os que assomam a ribalta, como expoentes do Espiritismo.

Porque a verdade é que a maioria dos confrades se deixa embalar em miragens de superfície, com desperdício de energias apreciáveis e mais que apreciáveis, aproveitáveis, se orientadas em plano construtivo, superior. 

Em afã de propaganda, releva assinalar que poucos se atém ao regime austero dos princípios insofismáveis, decorrentes de uma ética genuinamente cristã, para desbordarem-se em atitudes de verdadeiros energúmenos, foliculários da palavra e
da pena. Haverá quem presuma que reponta nessa anomalia uma premissa de alto galardão, pretendendo identificá-la no estatuto fundamental da liberdade de consciência e de opinião.

Nós, porém, em que pese o alto apreço ao instituto, ou talvez por isso mesmo, insistimos em filiar essa anomalia à inciência de causa e finalidade doutrinária.

Com desconhecimento de causa, sem disciplina mental e não raro moral, no tatear o mundo espiritual a surpreender-lhe as maravilhas, o homem larvar se esquece da relatividade absoluta de todas as coisas, descura de si mesmo e de que não há liberdade sem responsabilidade equivalente.

Esquece que a Doutrina, em ser una e única, não pode padronar-se a uma exegética singular, exclusivista, convencional e rígida, dogmática em suma, sob pena de incorrer nos mesmos vícios que tem inquinado de atrofia e nulidade a todos os sistemas religiosos, em desgaste de espúrio mundanismo.

E note-se que a prevalência do conceito não se adstringe, em boa tese, ao plano terreal, sabido que o espiritual é reflexo deste, tanto quanto se interpenetram e compactuam ambos.

Ninguém, portanto, será assistido e esclarecido extra limites do seu próprio esforço e capacidade intelectual e moral.

Quando, pois, um encarnado ou um desencarnado nos vem explanar um ponto de fé controvertido, ainda mais abjurando convicções solidamente estruturadas e mantidas aqui na Terra, não há que o dispensar de uma retratação a altura da tese repudiada.

Eximir-se a este critério é, não apenas fraudar o bom senso comum, mas abrir a porta às maiores surpresas, inclusive a de vermos um qualquer "Kardec", por um médium também qualquer, vir renegar as ideias e princípios que esposou e defendeu na Terra, sem tirte nem guarte, ou talvez para satisfazer a caprichos de um misoneismo sectário, incompatível com a índole da própria doutrina.

Estas considerações nos embicam a pena, ao recebermos agora, a título anônimo, um prospecto colorido, - desses que lembram reclame de circo equestre em arraial da roça - no qual, de mistura a citas evangélicas mal deglutidas, se estampa uma comunicação velha de quatro lustros, tomada no grupo Vinha do Senhor, desta cidade, e inculcada como de J. B. Roustaing - nihil admirari! - penitenciando-se de haver aceitado a teoria do corpo fluídico.

Interessante o ardor, a pertinácia com que os nossos irmãos combatem essa teoria, ao mesmo passo que averbam de intolerantes os que a esposam de boa fé. Não lhes queiramos mal por isso. A lágica espiritista também tem o seu nariz de cera, talhado pelos homens. Coisa que não surpreende, igualmente, se considerarmos que eles, os homens, também chegaram a imaginar um Deus à sua imagem e semelhança.  Três coisas, entretanto, queremos aqui ressalvar, data vênia dos conspícuos irmãos,
catequistas inconsequentes não da última nem da primeira hora, porque de todas as horas, a saber:

1º. - que eles ignoram, certo; o fim que teve esse Grupo, isto é que o médium, seu oráculo e diretor, sucumbiu presa de lamentável obsessão ao mesmo passo que os companheiros acabaram dos sem exceção, dispersos em circunstâncias deploráveis.

2º. - que o anonimato é recurso indigno do verdadeiro espírita, salvo na prática do bem.

3º. - que essa obra, editada em 1913, jamais teve acolhida nos meios espíritas qualificados ao tempo e ninguém soube, jamais, quem foi o seu prolíco  e sibilino autor -Pedro de Lacio.


Mas... basta. 

Aos pés do Mestre

Aos pés do Mestre
Romeu A. Camargo
Reformador (FEB) Junho 1925

Ao ilustrado amigo, revm.º Isaac Gouveia do Valle,
zeloso  Pastor da Igreja Presbiteriana Independente da cidade de Santos.

“E eis que, chegando-se a ele um, lhe disse: Bom Mestre, que obras boas devo fazer, para alcançar a vida eterna? –Jesus lhe respondeu: Porque me chamas tu de bom? Bom só Deus o é. Porém, se tu queres entrar na vida, guarda os mandamentos - Ele lhe perguntou: Quais?- E Jesus lhe disse: Não cometerás homicídio; não adulterarás; não cometerá furto; não dirás falso testemunho, honra teu pai e a tua mãe, e amarás a teu próximo como a ti mesmo. O mancebo lhe disse: Tenho guardado tudo isso desde a minha mocidade; que é que me falta ainda? Jesus lhe respondeu: Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu: depois vem e segue-me. O mancebo, porém, como ouviu esta palavra, retirou-se triste, porque tinha muitos bens.” Mateus (cap. XIX)

Consideremos apenas um lado dessa narrativa, dada a impossibilidade de
apreciarmos todas as lições que porventura pudéssemos colher do instrutivo episódio.

Transluzem na face do homem rico duas qualidades bastante apreciadas, entre os homens: a religiosidade e a franqueza. Era religioso e por isso mesmo manifestava interesse pela redenção de sua alma, conforme se depreende da franqueza com que confessou, de público, a fragilidade de suas convicções: Que obras boas devo fazer?

Esta interpelação faz proeminar o juízo segundo o qual não se sentia no caminho da vida eterna. Di-lo a própria índole da pergunta.

O Divino Mestre apreciou a lealdade do interpelante, com quem travou amistosa palestra, ao mesmo tempo que procurava despertar-lhe a boa vontade: “Se queres ser perfeito, se queres entrar na vida eterna, guarda os mandamentos.”

-Quais? Interroga o interessado homem de qualidades. Sábia e alvissareira resposta deu-lhe Jesus, capaz de apaziguar a fome de justiça que afogueava uma alma já atormentada por se não sentir segura no caminho da Vida.

O crente não estava tranquilo. Pelo exame introspectivo que fez, ouviu, lá no
íntimo, a consciência - o cochicho de Deus, na frase de uma menina - a segregar-lhe:  “Ainda não encontraste a fonte onde possas acalmar a tua sede de justiça; entretanto, está mais próxima do que pensas: tuas riquezas, bem aplicadas, poderão auxiliar-te no caminho da verdadeira vida.”

A resposta do Divino Mestre “guarda os teus mandamentos”, opõe o endinheirado crente a uma objeção, com o que pretende justificar-se: "Esses mandamentos que me apontas, Ó bom Mestre, tenho-os observado desde a minha mocidade.”

Pertencia a uma família religiosa, consoante se depreende dessa confissão
que pode ser entendida nestes termos: “Esses mandamentos que me recomendas, conheço-os e observo desde que os albores da inteligência me Iluminaram o Espírito;  meus pais não descuraram da minha educação religiosa, segundo as Leis e ordenanças de Moisés; sou religioso, porque fui criado e educado num lar religioso.” A explosão desta franqueza fez vibrar mais ainda a fibra afetiva do Mestre, que sentiu profunda simpatia por aquele homem, conforme no-lo refere o segundo evangelista (Cap. X, 21)

Achava-se Jesus diante de um caso singular: o de um homem religioso que,
julgando insuficiente e estéril a devocionalidade em que vivia, pede instruções ao “Bom Mestre”, ao mesmo tempo que confessa haver praticado tudo quanto é necessário para merecer a redenção!
           
Se era verdade que “tudo isso tinha guardado desde a mocidade” porque a sua alma continuava em inquietação? O Divino Mestre julgava e julga o que é justo, sem se deixar impressionar pelas aparências (João VIII, 24). Ante a resposta do homem a quem votava simpatia, Jesus podia ter respondido imediatamente: “Não é verdade que tens observado e praticado tudo isso.” Porém, consistindo a sua missão em levar os homens a descobrir por si mesmos a verdade; em apelar para a boa vontade do homem, no exercício pleno do seu livre-arbítrio; em fazer com que os homens procurem enxergar, para remove-la, a pedra de tropeço que lhes embaraça os passos no caminho das virtudes – Ele, em tom suave, doce, calmo, sereno,  afetuoso, responde ao interlocutor: “Pois bem, meu amigo, uma vez que confessas amar a teu próximo como a ti mesmo, se tens a suprema ventura de fazer por teu semelhante tudo quanto desejarias que e ele fizesse por ti, então convido-te a considerar o seguinte, baseado nas tuas próprias palavras: quer esteja em tuas mãos a riqueza, quer esteja nas de teu próximo, é a mesma coisa: transfere, pois, para os pobres, que são o teu próximo, toda a riqueza que possuis. Feito isto, ainda não estás perfeito, nem terás agora mesmo a posse da bem-aventurança eterna mas ... vem... e segue-me.

Jesus conhece os pensamentos e pesa as intenções. Devia ter sentido profunda
tristeza diante do quadro exposto a seus olhos: um homem religioso e franco, 
confessando fome de verdades salvadoras, prefere as riquezas transitórias e 
insubstanciais deste mundo, aos tesouros permanentes que dilatam os horizontes da Fé, que clareiam nas  visões da Esperança, que avivam as doçuras da Caridade! 

O homem rico, com suas convicções escudadas na justiça da Lei (dispensação mosaica), desprezara o amor da Graça (dispensação messiânica). Estava, pois, em terreno falso. A piedade, tal como a exemplificavam os doutores da lei, assegurava uma retidão adquirida por privilégio de casta, de linhagem, de eleição, como no-la ensinam os credos dogmáticos, com a repulsiva, por irracional, doutrina da predestinação eterna.

A observância eterna das ordenanças do Pentateuco, com cerimonialidade, ritualizada pelo sacerdotismo levítico, era suficiente para tornar “perfeito” o homem, no entender do povo. Era o culto das exterioridades. Nascido, criado e educado nessa escola, o homem rico do episódio desconhecia o “amarás a teu próximo como a ti mesmo”, de Moisés. (Lev, XIX. 18). E Jesus encontrou esse preceito, não só mergulhado na sombra da piedade externa, como principalmente sufocado pelo frondeado formalismo do culto a Jeová, formalismo apostrofado pelo flamejante: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho (de coisas sem importância, por insignificantes), e deixais as coisas mais importantes da lei: a Justiça, a Misericórdia e a Fé, que coses um mosquito e engolis um camelo.

Entendia o crente apatacado que o “não faço isto nem aquilo”, semelhante
à confissão do fariseu no pé do publicano, no templo, era bastante para cumprir a lei. Plasmado na face negativa de suas convicções vacilantes, desprezava a face positiva, que é a efetivação em fatos daquele: “Fazei aos homens o que quereis que eles vos façam, porque esta é a lei e o profetas”; na frase terminante do Divino Mestre. Rastejava-se na poeirenta estrada do fariseu que, em plena oração dirigida ao trono do Amor, não hesitava em banhar a sua prece com o veneno da calúnia, qualificando de ladrões, injustos o adúlteros os seus semelhantes, de quem, talvez, jamais houvera recebido uma ofensa sequer.

O crente rico estava, pois, sob o império do frio literalíssimo, desconhecendo
o espírito que anima o “amor a Deus sobre todas na coisas e ao próximo como
si mesmo”. Tinha a ideia, mas não o sentimento do amor. Se assim não fora, teria obedecido a Jesus quando lhe declarou: “Falta-te ainda uma coisa para enxergares o caminho da vida: desfaze-te do falso tesouro que absorve todo o teu coração, toda a tua alma, toda a tua inteligência, todas as tuas forças.”

*

Nicodemos, com ser mestre em Israel e principal entre os Judeus, também
tinha grande embaraço a vencer no caminho da redenção: o falso e pernicioso
preconceito de linhagem.  Julgava-se digno do reino dos céus pelo fato de ser filho do povo judeu -o povo considerado eleito, escolhido, preferido, predestinado para a Glória. Fazia parte da seita mais segura da religião, na pretenciosa expressão do ardoroso Paulo ( At. XXVI, 5). Reconhecia em Jesus o “Mestre vindo de Deus”. Não sentia porém, a vibração da verdade a impulsionar-lhe os passos à luz do dia: buscou o Mestre às escondidas, furtivamente, embiocado no manto da noite. É que temia o convencionalismo social, os preconceitos de casta, a crítica de seus colegas...

A saudação que fez ao Mestre: bem sabemos que és vindo de Deus, ouve esta resposta. “Em verdade, em verdade te digo que aquele que não tornar a nascer não pode ver o Reino de Deus.” (ALMEIDA, ed. de 1894).

Ferido em sua presunção e na ideia preconcebida de que, por ser príncipe entre os Judeus, estaria salvo, ouve, em seguida, estas palavras: Não te maravilhes do que te disse: necessário vos é tornar a nascer. Ainda abroquelado com o falso conceito de um Deus regionalista e parcial, recebeu esse fariseu ondas de luz em sua alma e convenceu-se de que era mister tornar a nascer em condições favorecidas pela humildade, a fim de reparar a grosseria do erro em que militara, pregando ao povo que Deus só atendia aos filhos da Judeia. Não perguntou: “Que me faltas, ainda?” É que lhe fora suficiente o abc apresentado, e que se referia u um fato natural na Terra, “coisa terrena” na expressão do Mestre: a reencarnação.

Neste sintetismo anteviu Nicodemos o transcurso de uma toda existência,
compreendeu qual é a finalidade da obra da Criação: aperfeiçoamento “Sede perfeitos como perfeito é vosso Pai que está no Céu. E foi-lhe proveitosa a lição que não solicitara. Diante da furiosa atitude de seus colegas, que exigiam, mancomunados com os pontífices, a prisão de Jesus, ergue-se a voz firme de Nicodemos que estribado nas ordenanças de Moisés, interroga: “Porventura condena a nossa lei a um homem, sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz?” [João, VII, 51.) Eram as vibrações da Justiça e da Misericórdia e da Fé, que o novo discípulo não podia esconder, porque “a boca fala o de que está cheio o coração.” 

*

Zaqueu, sem revelar sabedoria ou ignorância, é visitado pelo Divino Mestre. A presença da Verdade viva em seu lar foi bastante para operar grande revolução em seus sentimentos. Lembrou-se logo do seu próximo, dos seus semelhantes, a quem não só não amara, como ao contrário, prejudicara. E Jesus não lhe prescreveu absolutamente condições para ser considerado digno do Reino: “Este também é filho de Abraão!”  Porque? Di-lo eloquentemente a oração que proferiu diante do Mestre.

- O homem de qualidades, Nicodemos e Zaqueu, espelham nitidamente as classes em que se dividem os homens religiosos. O primeiro, espírito religioso, obediente ao dogmatismo ritualístico, firmara a sua crença na letra da lei, excluída a prática de boas obras, consoante o procedimento que revelou, voltando as costas a Quem doutrinária: “Assim luza a vossa luz de ante dos homens; que eles vejam as vossas boas obras, por meio das quais glorifiquem a vosso Pai que está no Céu.” 

O segundo, iluminado pelas palavras do Mestre, nada alegou nem trombeteou
as suas convicções religiosas. Em momento crítico, quando os outros discípulos emudeciam ante a presença dos perseguidores da Verdade, com os fariseus e os pontífices à frente - sem mais olhar para as exterioridades, nem para o seu radicado exclusivismo sectarista; esquecendo e mesmo desprezando os preconceitos sociais, rompendo com o paralisante tradicionalismo predestinista da casta de que constituíra grande expoente – defende o Mestre e acusa os seus ex-companheiros, que queriam fraudar a lei de Moisés, condenando um homem sem a necessária prova da sua criminalidade.

O terceiro, desprezado pelos Judeus por ser pagão e por pertencer à odiada
casta dos publicanos, não revelou o seu credo religioso. Era o alvo focalizador das antipatias dos supostos predestinados de Jeová. É um vulto cujos passos foram referidos pelos Oráculos eternos, para serem imitados por seus pósteros.  Escutemo-lo. Enquanto, do lado de fora, a turba farisaica comentava com azedume a entrada de Jesus na casa desse desprezível pagão, eis que, assinalado o contraste entre o procedimento do dono da casa e a conduta dos espreitadores, o Divino Mestre exclama: “Hoje entrou a salvação nesta casa! Porque? Responde o coração do publicano: “Eis que darei a metade dos meus bens aos pobres e restituirei quatro vezes mais as importâncias em que lesei a meus semelhantes, quando abusivamente lhes cobrei os impostos, agravados pela minha rapinagem.”

*

Não é o quadro de todos os tempos e de todas as gerações? Aí estão, mergulhados em dúvidas e angústias, os profitentes dos credos dogmatizados, a, confessar a insubsistência de suas esperanças, vaporosas e fugidias...

Aí vemos a estagnação da igreja protestante, após ininterrupto trabalho de
Setenta anos, ao lado da igreja romana, com o seu domínio quatro vezes secular.
Dos seminários desertam aspirantes, por não poderem suportar o malabarismo
de exegeses, de par com o pueril idealismo da fraseologia oriental. Esvoaça por sobre a cristandade misterioso anseio pelas eternas verdades, asfixiadas pelo feudalismo teológico das confissões sectárias que, pretendendo o monopólio de toda a Verdade, invalidam totalmente o direito do livre-exame, hoje medicação para uso externo.

Examinemo-nos. Que nesse exame não sejam encontrados resquícios do funesto exclusivismo que ensopou de sangue as páginas da História a começar do derramado pelos erros teológicos do grande reformador francês.

A pergunta do mancebo rico sobre quais seriam os mandamentos cuja observância tornaria o homem digno da entrada no Reino, responde Jesus, taxativamente, com seis mandamentos: “Não mateis, não furtes, não adulteres, não mintas (face negativa), honra teus pais, e amarás o teu próximo como a ti mesmo (face positiva). É o desdobramento daquele outro mandamento, dirigido às multidões: “Fazei aos homens o que quereis que eles voa façam, porque esta é a lei e os profetas.” “Amai, pois, a vossos inimigos; fazei bem e emprestai, sem daí esperar nada, e tereis muito avultada recompensa, e sereis filhos do Altíssimo.”

Sim. A paternidade de Deus exclui terminantemente ritos e cerimônias: exige a atuação constante do amor na prática do bem, O amor ensinado e exemplificado pelo Mestre não pode demarcar fronteiras em seus domínios. “Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.”

Que a voz de “Quem veio, não para condenar, mas para salvar o mundo”, nos desperte a consciência, a fim de que atendamos a objeção que nos é feita hoje:  
Falta-te ainda uma coisa”. Esta condição foi apresentada, não somente ao mancebo transviado, mas a todos os que lhe conheceram a história.

“A Religião é antes sentimento que conhecimento. Nenhum homem é condenado por não saber, mas sim por deixar de sentir, porque o livro da sabedoria é um livro geralmente fechado, mas o livro do sentimento é um livro universalmente aberto. Não é dado a todos possuir os segredos da ciência, mas sim as doçuras do sentimento, cujos tesouros estão à vista de todas as criaturas, espalhados no universo pela mão da misericordiosa Providência. O sentimento é tudo e por isso ele está ao alcance de todos. O sentimento é o amor e o amor é a lei. O amor cobre e multidão dos pecados, porque é a chama que purifica e o bálsamo que consola.” São palavras que se dissolvem suavemente em nossa alma, num caldeamento cuja temperatura é medida pelo sentimento de fraternidade e de solidariedade desejado pelo Mestre.

“O galardão anda comigo para recompensar a cada um, segundo as suas obras”. Aquilo que o homem semear, isso também colherá.”