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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

3d. AntiCristo senhor do mundo



AntiCristo Senhor do Mundo
por Leopoldo Cirne
Edição  – 1939

 3d

            Já então - cerca de meio século antes - os Evangelhos, que haviam circulado, por cópias, nas primitivas comunidades cristãs, em que eram lidos e comentados, tinham recebido a redação que lhes dera S. Jerônimo, incumbido em 384 pelo papa Dâmaso de redigir uma tradução latina do Velho e do Novo Testamento, a fim de por termo às divergências existentes entre aqueles manuscritos.

            Esse trabalho apresentava consideráveis dificuldades, pois que o tradutor, conforme o declara no prefácio dirigido ao papa Damaso, se encontrava em presença de tantos exemplares do Evangelho quantas eram as cópias. Em todo caso, rematava ele: "Este breve prefacio aplica-se unicamente aos quatro Evangelhos, na seguinte ordem: Mateus, Marcos, Lucas, João. Depois de haver comparado um certo número de exemplares gregos, mas dos antigos, que se não afastam muito da versão itálica, de tal modo os combinamos que, corrigindo somente o que nos parecia alterar o sentido, conservamos o resto como estava".

            Foi sem dúvida esse um trabalho de dupla inspiração: da parte de Dâmaso, chegado o momento de estabelecer a possível uniformidade nos textos atinentes à vida e aos ensinos do Divino Salvador, elegendo aquele espírito estudioso e devotado às verdades religiosas, que era S. Jerônimo, para tarefa que tão escrupulosa isenção de ânimo exigia, e da parte deste, conduzindo-se de modo a escolher, entre a variedade dos manuscritos, o que melhor exprimia fidelidade em relação aos sucessos e às palavras proferidas por Jesus. Nem podiam os mensageiros do Senhor, incumbidos de velar pela propagação de sua doutrina em nosso mundo, abandona-la ao sabor dos caprichos e erros humanos, senão antes preserva-la de alterações que substancialmente a desfigurassem, agindo para esse fim, por via de inspiração, junto aos que receberiam a missão de ser os seus codificadores.

            Fidelidade literal e, por assim dizer, absoluta não seria possível obter-se, dada em primeiro lugar a circunstância de que Jesus nada escreveu, não tendo, em sua divina sapiência, julgado necessário confiar à fragilidade do papel os ensinos de que era a fonte viva e que, ao demais, brotados de seus misericordiosos lábios, ficariam, e ficaram, com todos os sucessos de sua vida, perpetuamente gravados na placa sensibilíssima do éter, constituindo o que é por alguns propriamente denominado "clichês astrais", recolhidos e conservados nos arquivos do infinito. Os seus ensinos foram recordados e repetidos por aqueles que os ouviram e, depois, transmitidos pela mesma forma verbal entre os primeiros cristãos. Ocorre, em seguida, a circunstância de que, assim nessa transmissão oral, como posteriormente, quando passaram a ser grafados e reproduzidos nas sucessivas cópias, que circulavam nas comunidades cristãs, nem sempre se teriam os repetidores e copistas cingido a uma rigorosa fidelidade. A verdade dos sucessos e dos ensinamentos se teria desse modo dispersado numa variedade fragmentária, o que realça o valor do trabalho executado por S. Jerônimo, que - insistiremos - não podia deixar de ser conduzido por uma poderosa e vigilante inspiração do Alto, ao ter de catar, reunir e enfeixar num todo, quanto possível, homogêneo os preciosos fragmentos da mais estupenda história e dos mais transcendentes, ao mesmo tempo que singelos e profundos, ensinamentos que jamais recebera a humanidade.

            E, todavia, a redação dada por S. Jerônimo a sua tradução latina do Antigo e do Novo Testamento, denominada a Vulgata, não teve, no que pelo menos se refere aos Evangelhos, o cunho de definitiva que estava na intenção daquele que ordenara a sua execução e a aprovou, fazendo-a adotar como corpo doutrinário, destinado a servir de regra e fundamento aos ensinos ortodoxos da igreja.

            É assim que - diz um eminente escritor (1) - "o que fora considerado bom do ano 386 a 1586, o que tinha sido aprovado em 1546 pelo concilio ecumênico de Trento, foi declarado insuficiente e errôneo por Sixto V em 1590. Uma nova revisão foi feita por sua ordem: a edição daí resultante e que trazia o seu nome foi, a seu turno, modificada por Clemente VIII”, sendo essa afinal a edição definitiva que serviu de modelo às traduções existentes em diferentes línguas.

            (1) Léon Denis, “Cristianismo e Espiritismo”, cap. II, "Autenticidade dos Evangelhos".

            É indubitável que, depois do trabalho consciencioso e imparcial de S. Jerônimo, calcado no exame comparativo de textos primitivos, cuja relativa autenticidade fora reconhecida e acatada, tais sucessivas revisões só poderiam ter como objetivo, retocando uma ou outra passagem do Evangelho, fortalecer a autoridade e o poder da igreja romana, sem contudo atentar substancialmente contra a fidelidade geral das narrativas e do conjunto doutrinário, graças à vigilante fiscalização, a que aludimos, do Alto exerci da pelos mensageiros do Senhor.

            Se assim não fosse, isto é, se a colaboração posterior dos papas e concílios na estrutura dos textos evangélicos tivesse logrado acomodá-los inteiramente aos dogmas e orientação reacionária da igreja, não teriam eles permanecido a antítese e a condenação, que realmente representam, de tantos de seus métodos, atitudes e ensinos, em flagrante desacordo com os atos e as palavras do Divino Mestre.

            Entre numerosos trechos que o comprovam, basta citarem-se, por exemplo, os seguintes:

            Comunicando-lhes João: "Mestre, vimos um homem expelir demônios em teu nome e lh'o proibimos, porque não te segue conosco", Jesus lhe replicou: "Não lh'o proibais, pois quem não é contra vós é por vós". Doutrina em franco antagonismo com a atitude sempre intolerante e exclusivista da igreja, que reclama para si o monopólio da administração espiritual e pretende que "fora da igreja não há salvação".

            Logo em seguida, não tendo obtido pousada numa aldeia de samaritanos, que lh 'a recusaram, Thiago e João, indignados, o consultaram: "Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir?" Mas Jesus os repreendeu, advertindo: "Vós não sabeis qual é o espirito de vossa vocação. O Filho do homem não veio a perder as almas, mas a salva-las": E foram para outra povoação. Atitude que tão vivamente contrasta com a da igreja, ora fulminando condenações e anátemas, ora levando a ferro e fogo os denominados hereges e os insubmissos ao seu jugo dogmático.

            Recordemos ainda a recomendação de Jesus aos seus discípulos e, com eles, através dos séculos, aos continuadores de sua redentora missão: "Não queirais ser chamados mestres, porque um só é o vosso mestre, o Cristo, e vós sois todos irmãos. E a ninguém chameis pai, porque só um é vosso Pai, aquele que está nos céus". A igreja, entretanto, não somente vem, desde os primórdios de sua organização, reclamando para os seus membros o tratamento de pai (padre), mas tolera e aplaude que sejam eles tratados pela dupla denominação "padre-mestre".

            Por outro lado, no que se refere à adaptação de algumas passagens do Evangelho ao fortalecimento do poder e da autoridade da igreja, não é difícil descobrir-se esse intuito, entre outras, nas palavras atribuídas, um tanto fora de propósito, a Jesus, quando, interrogando os discípulos: "mas vós quem dizeis que sou eu?" e respondendo-lhe Pedro: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo", depois de o louvar por esse testemunho, que lhe fora inspirado "não pela carne e sangue, mas pelo Pai que está nos céus", pretende a narrativa que o Senhor, perpetrando um trocadilho - artifício que nunca estivera em seus hábitos de linguagem e não se encontra em nenhum de seus ensinos - teria acrescentado: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e contra ela não prevalecerão as portas do inferno. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligares sobre a terra será ligado também no céu, e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também no céu".

            Compreende-se que a tendenciosa decisão do concílio de 431 reunido em Êfeso, que ha pouco assinalámos, proclamando o pontífice romano "o fundamento da Igreja", convinha imprimir o cunho divino da palavra do Cristo, a fim de que, fazendo-se, como se fez, herdeira das prerrogativas de Pedro e deste o seu primeiro papa - função que, entretanto, ele jamais exerceu, pois nem sequer esteve em Roma - ficasse a igreja investida daqueles poderes excepcionais, transmissíveis aos seus pretensos sucessores na cadeira do Vaticano. Desse modo a sua autoridade se estenderia, incontrastável, para além da terra, uma vez que lhe era outorgada a faculdade de julgar, absolver e condenar os homens, cuja sorte ficaria definitivamente fixada ao fim desta existência, que em tal caso convinha fosse considerada única para o Espírito.

            A esse último objetivo servia maravilhosamente a deliberação séculos antes adotada pelo Sínodo de Constantinopla, o qual, dirigido por Justiniano, publicara em 538 um édito, aprovado em 543 pelo concílio que ali se reuniu, sob a presidência de Menas, em que foram anatematizados Orígenes e a doutrina dos renascimentos sucessivos da alma, sustentada por esse luminar da igreja, falecido no ano 254, anatematizado assim muito tempo depois de sua morte.

            Rezava, com efeito, a decisão do concilio: "Quem ensinar a preexistência da alma e a estranha opinião de suas voltas à Terra, seja anátema!"

            Funesta decisão, que - observemos - prevalecendo por mais de treze séculos, isto é, até aos nossos dias, entre os dogmas da igreja, proscrevia, sepultando-a na treva do esquecimento, a lei providencial que rege a evolução dos seres e pode, somente ela, conciliar a justiça, a bondade e a sabedoria de Deus com o espetáculo das flagrantes desigualdades humanas de toda ordem - intelectuais, morais e sociais - ao mesmo tempo que resolve o obscuro problema de nossos destinos.


3c. AntiCristo senhor do mundo



AntiCristo Senhor do Mundo
por Leopoldo Cirne
Edição  – 1939

3c

            Aconteceu, pois, que no ano 312 marchando o imperador Constantino à frente de aguerrido exercito, menos numeroso contudo que o do seu adversário, para combater as tropas de Maxêncio, que exercia tirânico domínio sobre a África e a Itália, aos seus olhos se desenhou no céu, sobre o campo de batalha, uma cruz tendo em volta a célebre inserção: In hoc signo vinces ("com este sinal vencerás") .

            Entendeu o imperador que havia nessa portentosa manifestação do Alto uma promessa de vitória sob a proteção da Cruz e que, de seu lado, cumpria-lhe assumir atitude protetora da religião que aquele símbolo exprimia. De fato, apesar da inferioridade numérica de suas tropas, levou de vencida, desbaratando-as, as de Maxêncio, que não sobreviveu ao desastre, perecendo afogado no Tibre.

            Senhor de Roma, promulgou no ano seguinte Constantino o edito de Milão, estabelecendo a liberdade religiosa, reconhecendo, portanto, oficialmente ao Cristianismo o direito de existência e mandando restituir os bens confiscados aos cristãos, que acolheram com delirante entusiasmo essas medidas. Menos efusivos seriam eles, todavia, nessas demonstrações de jubilo se, numa antevisão do futuro, pudessem reconhecer ter sido essa a primeira acentuada fase do eclipse em que entraria a doutrina, condenada a ir perdendo os seus caracteres de espiritualidade e de pureza, à medida que, aliada ao Estado e tornando-se lhe parasita, como religião oficial, que veio a tornar-se ulteriormente, a Igreja entraria a imiscuir-se nos negócios do século, maculando-se cada vez mais nesse contato corruptor e perdendo de vista, assim a sua missão divina, puramente espiritual, de condutora das almas, como a singeleza de suas práticas primitivas, em que a fé e a caridade, exemplificadas nos costumes dos fiéis, sem distinção de hierarquias, constituíam os seus únicos eficazes elementos de regeneração e de proselitismo.

            É verdade que, quando se consumou o desmoronamento do império romano, a única instituição organizada que os bárbaros vitoriosos encontraram foi a igreja cristã, com autoridade moral suficiente para estabelecer as bases da nova ordem político-social. Teria sido - cabe, entretanto, perguntar - uma fatalidade histórica necessária que a Igreja assumisse esse papel, não apenas de inspiradora, mas de cooperadora prática na organização dos poderes do Estado, ou essa preeminente intervenção, que somente séculos mais tarde lhe seria pela força arrebatada, já era o resultado de haverem muitos de seus representantes e ministros a tal ponto adquirido apego aos bens da terra que não hesitariam em conspurcar na sua posse e administração o ministério sagrado que, em nome do Mestre, lhes cumpria exercer, conservando escrupulosa e inflexivelmente a sua tradição de desprendimento e de pobreza?

            Não os culpemos, todavia - para julgarmos com justiça - a esse respeito como de todos os transvios e deturpações que veio a sofrer a doutrina, senão de haverem afrouxado na oração e vigilância e, por esse descuido, sucumbido às tentações do inimigo que, infatigável na sua ronda sinistra em torno da obra cristã, ora sugeria os assaltos externos de destruição, na pessoa de seus intrépidos propugnadores, ora, insinuando-se no ânimo dos descuidosos, lhes soprava ideias de predomínio e de ambição, que nem sempre a ação oposta, pela mesma forma sugestiva, dos enviados do Senhor conseguia neutralizar.

            Quando, em seguida à adesão de Constantino, veio a encerrar-se definitivamente a fase das perseguições sanguinolentas, foi essa manobra interior; de subjugação das consciências, a adotada pelo AntiCristo, origem, portanto, e razão determinante do eclipse em que foi gradualmente mergulhando o Cristianismo, tanto mais acentuado quanto mais se foram os depositários da doutrina identificando com os negócios do século e as ambições mundanas.

            Constituiu indubitavelmente um dos fenômenos característicos dessa obnubilação o enriquecimento patrimonial da igreja, que desde o século IV começou a adquirir consideráveis bens territoriais, doados pelos imperadores aos papas.

            De par com esse fortalecimento material, ou antes, no período que o antecedeu, já vinha sendo a igreja trabalhada pelas competições pessoais, resultantes da sua organização hierárquica.

            "A ambição do primeiro lugar - assinala, por isso, com razão o historiador citado - era o grande mal das igrejas cristãs, o que mais desgosto causava aos simples fieis. Julgou-se poder conjurar o perigo, supondo que Jesus, em tais circunstâncias, diria às partes contendoras, mostrando lhes uma criança: "Eis o maior". Assegurava-se que o Mestre, por mais de uma vez, opusera a primazia eclesiástica, toda fraternal, à dos depositários da autoridade profana, acostumados a mandar".

            Em lugar, porém, desse critério de humildade e desambição, estabelecido pela clarividência do Divino Mestre e que tinha vigorado para a escolha, por aclamação, dos chefes das primitivas comunidades cristãs, o que veio posteriormente a prevalecer na organização hierárquica da igreja foi a transmissão do poder e da autoridade de uns a outros chefes, sem intervenção dos fieis, isto é, do rebanho popular, em obediência à orientação firmada a esse respeito por Clemente Romano em a famosa epístola aos coríntios, que lhe é atribuída e veio a constituir a doutrina em tal caso formalmente adotada, graças ao prestígio que, pela energia de caráter de que era dotado, desfrutava o seu autor no seio da cristandade.

            "Na segunda metade do século II - refere ainda o mesmo historiador - quando Hegesipo viajou por todo o mundo cristão, já não viu senão os bispos estabelecidos por sucessão canônica: o sentimento vivo das igrejas já não existia. Houve alguns protestos contra esse estado de coisas; algumas vozes se levantaram para sustentar a igualdade primitiva dos presbíteros; mas, não obstante, a tendência aristocrática prevaleceu."

            Prevaleceu advirtamos - porque os depositários do divino legado se esqueceram de que, onde não há humildade, não está presente o Espírito do Senhor Jesus. Cediam, indubitavelmente, à pressão oculta sobre eles exercida muito antes, como se vê, do período de pacificação a que nos vínhamos referindo. Por isso dissemos páginas atrás que, em seguida à idade heroica do Cristianismo, essa manobra do AntiCristo no seio da igreja, não era uma mudança de tática, senão antes o seu desenvolvimento em mais larga e intensiva escala.

            Banido, com efeito, de seus dirigentes o espírito de humildade, a ação do inimigo teria que, logicamente, orientar-se no sentido de tornar a igreja uma instituição de caráter cada vez mais acentuadamente faustoso e mundano, levando-a por isso a enriquecer-se de bens materiais de toda natureza, estimulando nos seus representantes o sentimento de orgulho e, com ele, a preocupação de aumentar a autoridade e o poder do supremo representante da hierarquia eclesiástica.


            Foi assim que, sob aquela funesta inspiração, que visava divorciar por todas as formas a igreja do espírito que presidira a sua fundação, o concílio ecumênico de Efeso, reunido em 431, veio a proclamar o pontífice romano "o príncipe, a cabeça, a coluna da fé, o fundamento da Igreja, desse modo praticando uma desvairada usurpação, com que esperava fortalecer o papado aos olhos dos homens, mas de fato lavrando a sua irremediável condenação perante Deus, porquanto substituía por uma autoridade temporal, visível e precária, porque humana, a autoridade eterna, invisível e divina do Cristo, única sob cujo amparo ficaria abroquelado contra as investidas do Espirito das trevas. 

3b. AntiCristo senhor do mundo



AntiCristo Senhor do Mundo
por Leopoldo Cirne
Edição  – 1939

3b


            Com intermitências, a que já tivemos ensejo de aludir, as perseguições aos cristãos, ora postas em pratica sistematicamente, como no reinado de Trajano e, mais tarde, no de Severo, ora interrompidas sob Cômodo e seus imediatos sucessores que, por sua tolerância, permitiram desenvolver-se tranquilamente a Igreja, para serem ulteriormente renovadas por Décio e, no fim de seu reinado, por Valeriano, suspensas novamente por Galiano, as perseguições - dizemos - vieram a ter o seu apogeu, por assim dizer, final sob o imperador Diocleciano que, ouvido um conselho de notáveis, em cuja opinião "convinha extirpar uma seita que, constituindo um Estado no Estado, lhe estorvava a ação e podia ameaçar-lhe a existência", deliberou efetivamente extirpa-la "com todas as raízes".

            Dessa fase culminante assim nos dá noticia o já citado historiador:

            "No dia das festas Terminus (23 de fevereiro de 308) o prefeito do pretório e os principais funcionários entraram à força na igreja principal de Nicomedia, onde não encontraram nenhum objeto de culto; depois de terem queimado a Escritura, derribaram em poucas horas o edifício, que, por ser erguido na parte mais alta e mais populosa da cidade, dominava o palácio imperial.
            "No dia seguinte promulgou-se o edito de proscrição geral. Em todas as províncias seriam demolidas as igrejas: pena de morte a quem assistisse a conventículos secretos; ordem de entregar os livros santos, para serem queimados solenemente; os bens das igrejas vendidos em praça, ou sequestrados, ou doados a corporações ou a cortesãos. Demais determinou-se que quem recusasse prestar homenagem aos deuses de Roma seria castigado, sendo homem livre, com a privação de honras e empregos, sendo escravo, com a perda do direito de emancipar-se. A lei deixou de proteger uns e outros; aos juízes cumpria receber quaisquer acusações contra os cristãos.
            “Tal era, em substância, o decreto, que, se não fosse atestado por muitos historiadores, pareceria fábula. Envolvia numa perseguição rancorosa uma grande parte do mundo, permitia e dava liberdade a todas as violências, a todos os ódios particulares, sem ao menos deixar às vítimas o direito de se queixarem. O juiz, em vez de ponderar a acusação com as provas, devia tão somente descobrir, perseguir, martirizar quem fosse cristão ou quisesse salvar um cristão.
            "Conta-se que um fiel, mais generoso que prudente, lendo esse edito afixado em Nicomedia, rasgou-o e começou a invectivar os césares; ora, como os governos injustos castigam com a máxima severidade quem lhes conhece e revela os malefícios, esse infeliz foi queimado a fogo lento, para expiar o ultraje à majestade imperial, sem nunca - acrescentam as narrativas - se lhe apagar dos lábios o sorriso da paz, apesar da crueza do tormento.
            "Esse espetáculo e os aplausos, com que os cristãos saudaram o seu herói, enfureceram Diocleciano. Nesse dia, por duas vezes, pegou fogo no seu palácio de Nicomedia, e o imperador atribuiu o fato à vingança dos perseguidos, concertada com os oficiais de sua casa. Galero, simulando encontrar ciladas armadas em toda parte, não quis demorar-se mais na cidade, e o fraco césar deixou realizarem-se as mais ferozes execuções. "Encarceravam-se os sacerdotes - diz Lactâncio - e todos os ministros da religião; depois, sem serem ouvidos, sem sequer serem interrogados, levavam-nos a morrer. Os cristãos, sem distinção de idade ou sexo, eram condenados às chamas e, como havia muitos, não iam ao suplício a um por um: amontoavam-nos sobre os madeiros. Lançavam os escravos ao mar com pedras ao pescoço; a perseguição a ninguém poupava, e os juízes, estabelecendo o tribunal no templo, obrigavam todos a sacrificar. As prisões estavam cheias; imaginaram-se novos gêneros de tortura e, para ninguém escapar a tanta crueldade, ergueram-se altares defronte das grades das prisões e nos tribunais, a fim de que os acusados sacrificassem antes de se defenderem: compareciam, pois, não só na presença dos juízes, mas também na dos deuses".
            "As cenas de Nicomedia tiveram imitação nas províncias: as igrejas foram espoliadas e depois incendiadas. Uma cidade da Frígia, onde se temeram resistências, por ser grande o numero de cristãos que nela residiam, recebeu um destacamento de legionários. Quando eles chegaram, os habitantes refugiaram-se na igreja, deliberados a defender-se ou a morrer: os soldados incendiaram o edifício e queimaram-nos até o último."
            "Os cristãos foram também acusados, justa ou injustamente, de algumas rebeliões na Síria e nas fronteiras da Armênia; tanto bastou para que Diocleciano agravasse o rigor das ordens, parecendo empenhado em abolir o nome cristão.
            "A Espanha, apesar de depender de Constantino, encontrou no governador Daciano um feroz executor do edito de proscrição. Na Bretanha foi menor o rigor. Na África a perseguição fez numerosas vítimas e nem poupou Adauto, chefe do tesouro particular do imperador. Eusébio ouviu dizer que no Egito se cortaram tantas cabeças num dia que o machado ficou amocegado e os carrascos tiveram de revezar-se" Depois da condenação de muitos cristãos, viu o mesmo escritor apresentarem-se outros ao tribunal, confessando a fé e pedindo a morte: os sentenciados entoavam cânticos jubilosos até expirarem"
            "A igreja de Itália forneceu copiosa colheita de mártires: em Roma, o cômico Genésio, Pancrácio, de quatorze anos de idade, Inês, de doze, o milanês Sebastião, o padre Marcelo, o exorcista Pedro ; em Benavente o bispo Januário, tão querido dos napolitanos; em Bolonha, Agrícola e Vidal, seu escravo; em Milão, Nestor, Celso, Nabor, Félix, Gervásio e Portais; em Aquileia, Cancio, Canciano e Cancienilla, da família Anícia, glórias novas de um país onde até então a glória consistia em matar, não em sofrer.
            "A igreja gaulesa foi fecundada pelo sangue de muitos e ilustres mártires. Os servos do Cristo residentes em Viena e Lyon escreviam nestes termos a seus irmãos da Ásia e da Frígia que tinham a mesma fé e a mesma esperança: "O ódio dos pagãos estava tão exacerbado contra nós que nos expulsavam das casas, dos banhos, das praças, e em geral não suportavam que nenhum de nós aparecesse em público. Os mais fracos fugiram, os mais corajosos arriscaram-se à perseguição." Primeiramente o povo lançava-se sobre eles, confusamente, em chusmas, com vociferações, arrastando-os, esfarrapando lhes as roupas, lapidando-os, dilacerando-os, fazendo-os sofrer as maiores crueldades que o furor pode inventar; depois, conduzidos à praça, interrogados publicamente pelo tribuno, eram metidos em cárceres, até a chegada do governador. Compareciam afinal perante esse magistrado. Ora, como ele os tratasse cruelmente, Vetus Epagatus, mancebo de costumes irrepreensíveis e ardente fé, não podendo tolerar esse tratamento, pediu que lhe permitissem apresentar sua defesa e demonstrar que não eram ímpios. Quantos rodeavam o tribunal, todos se tumultuaram contra ele; o governador, em vez de lhe deferir a súplica, perguntou-lhe se era cristão. Vetus confessou a fé em altas vozes e teve lugar entre os mártires com o título de advogado dos cristãos. Houve uns dez a quem faltou força para resistir, por se não terem de antemão preparado para o combate. A sua queda nos causou viva aflição e diminuiu a coragem dos outros que, não estando ainda presos, acompanhavam os mártires e não os abandonavam, quaisquer penas que houvessem de sofrer. A incerteza em que estávamos relativamente a sua confissão nos conservava apreensivos, não que os tormentos nos assustassem, mas porque pensávamos no fim e temíamos que alguns deles não pudessem resistir às últimas provas."

            Nessa furiosa arremetida, caracterizada pelo ódio conjugado da populaça e dos agentes do imperador, a influência das forças reacionárias do invisível se patenteia com evidência igual à da pressão de idêntica natureza exercida sobre a plebe de Jerusalém, quando amotinada em frente ao pretório vociferava contra a Grande Vítima o "crucifica-o!" a que não saberia resistir a pusilanimidade de Pilatos. Que razões teria, com efeito, num e noutro caso a multidão para tamanho ódio? Ainda os césares e seus interesseiros instrumentos poderiam, hipócrita ou sinceramente, invocar as conveniências da "razão de Estado" para a feroz perseguição a criaturas, cujo único delito - é certo - consistia no seu grande idealismo e na pureza de seus irrepreensíveis costumes, mas que por isso mesmo constituíam protesto vivo e elemento de perturbação no ambiente dissoluto que tanto convinha aos dominadores, podendo mesmo, na lógica insensata do conselho de notáveis, a que Diocleciano recorrera, "ameaçar a segurança do império ". O povo, a cujos direitos, conculcados pelos opressores, tão admirável agasalho oferecia o código cristão, fraternista e igualitário, é que não tinha um motivo de consciência para o furor, em tais condições, gratuito e injustificável com que se lançava às vítimas inermes da perseguição" Só a sua ignorância, o nível inferior, a que aludimos, de sua evolução moral o tornava presa fácil das tenebrosas forças do invisível empenhadas, sob a implacável direção do AntiCristo, em impedir por todas as formas o florescimento do ideal cristão em nosso mundo"

            Já era tempo, todavia, de ser posto um paradeiro àquele sanguinolento batismo de três séculos, a que, violentamente submetido, o Cristianismo resistira com vitalidade incoercível. As últimas denodadas legiões de escolhidos Espíritos, enviados pelo Senhor a darem testemunho do seu nome e da imortalidade em presença da morte, haviam, como se vê, dado exemplar desempenho a sua missão. E se, entre eles, alguns porventura, na hora suprema, fraquejaram, é que nem todos eram da mesma têmpera, ou - o que é mais certo - segundo a exata expressão da carta enviada pelos fiéis de 'Viena e Lyon aos seus irmãos da Ásia e da Frígia, não se tinham "de antemão preparado para o combate", isto é, para receber, mediante a oração e vigilância, o socorro divino que os sustentaria, na serenidade e intrepidez, até o fim de seu martírio.

            Como quer que fosse, uma trégua se impunha, a fim de que a Árvore da Vida, fecundada pelo sangue de tantos mártires, frondejasse tranquilamente, alimentando com os seus frutos as gerações que se haviam de suceder na Terra e que só a sua acolhedora sombra poderiam prosseguir no trabalho de aperfeiçoamento e de progresso que seriam chamadas a realizar.

            É certo que a cessação das perseguições marcaria o ocaso do Cristianismo glorioso e heroico. A partir de então, começaria o seu declínio interior. Não era esse, todavia, o inevitável destino que lhe estava reservado, em conflito com as forças reacionárias que, do invisível, o vinham sistematicamente combatendo e não têm cessado de o combater até agora?


3a. AntiCristo senhor do mundo



AntiCristo Senhor do Mundo
por Leopoldo Cirne
Edição  – 1939

3a


III. A ação divina propulsora, causa eficiente da prodigiosa floração cristã e do heroísmo dos seus mártires. - Ocaso do Cristianismo glorioso e heroico. - Simultânea manobra, externa e interna, do AntiCristo contra a Igreja. - Vicissitudes do Evangelho. - Instituição do dogma da existência única, oposto à doutrina da pluralidade de existências sustentada por Orígenes e sancionada pelo Cristo.

            Depois de assinalar e reconhecer que o Cristianismo, logo no curso do primeiro século, se propagou com rapidez que parece miraculosa, Cesar Cantu (1), pesquisando as causas históricas desse fenômeno em sua dupla irradiação, isto é, assim nas classes elevadas e cultas da sociedade romana, como no ânimo da plebe, julga encontrar-lhe suficiente explicação, de um lado, no ambiente social areado no Império por suas instituições e métodos políticos, por suas leis e costumes e, do outro, no estado de espirito gerado na massa popular pelos excessos de tirania, compressora de instintivas aspirações latentes, que o tornavam sumamente receptivo às sedutoras promessas do Evangelho.

            (1) ‘História Universal’, vol. V, cap. XXV.

            Nessa ordem de ideias, de que daremos apenas resumido extrato, diz ele, com efeito:

            A Grécia e Roma, os dois grandes agentes da civilização pagã, como que se tinham imposto a missão inconsciente de preparar o terreno para a sementeira da- fé. A Grécia oferecera à propaganda uma língua quase universalizada. Roma derruíra as barreiras que separavam as raças e as nações; suprimira ou enfraquecera as robustas individualidades políticas e religiosas, facilitara as comunicações e, com elas, a transmissão das ideias e dos sentimentos; dotara o mundo com instituições tolerantes. Se o Cristianismo tivesse encontrado a Ásia e a Europa divididas em pequenos Estados, dirigidos por governos aferrados às tradições, teria tido que sustentar uma tremenda luta a cada passo que aventurassem os seus missionários. Se existissem ainda os cultos nacionais radicados nos espíritos e defendidos pelas corporações sacerdotais, que, como no Egito, por exemplo, tinham sido verdadeiros centros da vida social, ser-lhe-ia mister, para se expandir, não já a força que move, mas a que transforma. Bastaria a Judeia dos profetas e dos Macabeus para o cingir num círculo de ferro.

            Felizmente, porém - observa - o que os apóstolos inermes de Jesus precisariam destruir da velha sociedade, havia-o destruído o império com a sua politica, com o seu direito civil, com o seu indiferentismo religioso, até com a devassidão dos seus costumes. É mais fácil passar da incredulidade à crença do que mudar de crenças, havendo como há no espírito humano uma propensão inata para crer."

            E logo adiante:

            "Os velhos deuses tinham desabado dos altares; pior ainda, tinham-se profanado e envilecido com a companhia dos Neros e dos Calígulas. Lucianus cuspia para o Olimpo, e havia muitos Lucianus, senão no talento, na descrença. Os espíritos elevados fugiam da religião para o asilo da filosofia, inacessível ao vulgo. As superstições recrutavam prosélitos e se multiplicavam, prova de que os espíritos se não contentavam com simples negações."
            "Os costumes licenciosos - acrescenta - a tirania dos ricos, dos grandes, dos senhores sobre os pobres, os humildes, os escravos, também os crimes e as torpezas da corte imperial, de algum modo, conspiravam em favor do Cristianismo: conspiravam com a indignação e o desgosto que causavam aos homens de inteligência e de coração, com os sofrimentos que impunham ao povo, com a reação moral que promoviam."

            Esse conjunto de circunstâncias, judiciosamente assinaladas - interrompamos aqui a transcrição para, por nossa vez, observar - prova antes de tudo a oportunidade do momento histórico escolhido pelo Cristo para baixar a este mundo e, depois das lições intencionais contidas do início ao termo de sua evangelização, por nós indicadas no capitulo primeiro, impulsionar a marcha de seus discípulos e continuadores no rumo do ocidente, admiravelmente preparado "para a sementeira da fé". Prova ainda que dos próprios desvarios e erros humanos, das ambições e conquistas levadas a efeito com objetivos puramente egoísticos, sabe o Poder Divino utilizar-se para a realização de seus fins providenciais, dentro do vasto plano de harmonia por Ele traçado para a evolução da humanidade.

            No tocante às classes obscuras, isto é, aos pobres e desprezados, aos quais, todavia, de preferência anunciava o Cristo o seu Evangelho, assim se exprime o historiador:

            "Para a parte da sociedade que era vitimada em benefício dos gozos da outra parte o Cristianismo tinha milagrosas seduções. Era a primeira vez que Deus se fazia humilde com os humildes, simples com os simples; era a primeira religião, ao menos a primeira conhecida na Europa, que engrandecia os pequenos e condenava as distinções e as categorias estabelecidas pelas convenções ou pelos fatos sociais."
            "Qual seria o escravo - adverte - que se não sentiria propenso a acreditar que era igual, senão superior, ao tirano, que dispunha da sua personalidade, perante um juiz e uma lei de profunda sabedoria! A ideia cristã tinha consequências e aplicações que transcendiam o foro íntimo e eram admiravelmente acomodadas às aspirações naturais de uma imensa parte do gênero humano."

            No ponto de vista puramente social e histórico, para explicar o entusiástico alvoroço com que os princípios teóricos do Cristianismo e as promessas, que envolviam, de uma vida imortal, subsequente aos erros, injustiças e misérias da presente vida, eram acolhidos e se propagavam por todas as classes da sociedade, parecerão sem dúvida suficientes, ao observador circunscrito à ponderação dos fatores humanos, os motivos psicológicos que aí ficam resumidos. Quando, porém, da superfície dos sucessos se pretenda remontar ao seu determinismo profundo, a deficiência de tais motivos se patenteará não só para explicar a celeridade vertiginosa com que, desajudado de todo prestígio social, que nenhum de seus propugnadores desfrutava, o Cristianismo se propagou do fundo da escravizada Judéia à dominadora e opulenta metrópole romana, mas sobretudo aquela prodigiosa floração de mártires-heróis que, durante séculos, em consecutivas gerações, realizaram a mais deslumbrante, verdadeiramente sobre humana epopeia que jamais se desenrolou no cenário terrestre.

            Não, não eram seres vulgares aquelas criaturas que, abrasadas de fé transfiguradora, desafiavam todas as potências humanas, caminhavam intrépidas para a imolação e se sobrepunham mesmo, algumas vezes, ao mais elevado instinto, como o da maternidade, que enobrece e sublima a nossa espécie, para dar testemunho de sua fidelidade ao Cristo, Salvador e Mestre, nem agiam desamparadas do influxo divino ao entregar a própria vida ou a vida, ainda mais preciosa, de seus filhos em holocausto à ferocidade dos homens, unicamente preocupadas com o beneplácito de Deus.

            Para quem possua, consoante a expressão bíblica, "olhos de ver", a cadeia de sucessos que o já citado historiador denominou "Idade heroica do Cristianismo" só pode ser entendida e satisfatoriamente explicada à luz do seguinte critério espiritualista.

            As gerações humanas, filiadas embora umas às outras segundo as leis da biologia, a cuja luz se explicam os fenômenos de hereditariedade e atavismo, são antes de tudo constituídas por Espíritos nos mais variados graus de evolução, tendo todos um mesmo objetivo: aperfeiçoar-se, mediante os trabalhos, sofrimentos e experiências terrestres, nem sempre contudo, em consequência da complexidade dos fatores externos que sobre elas operam - cósmicos, geográficos, climatéricos, econômicos, etc. - mas sobretudo em virtude da preponderância das forças adversas espirituais, de que iterativamente nos temos ocupado e nos ocuparemos no desenvolvimento deste estudo e em cuja apreciação reside, mesmo, o seu eixo central, nem sempre - dizemos - logrando com segurança orientar-se no sentido de preencher satisfatoriamente aquele objetivo providencial, no rumo da ascensão contínua, que, só a partir de um certo grau de maturidade espiritual, se verifica.

            Relativamente à constituição do mundo antigo, na fase histórica a que nos estamos reportando, as populações do ocidente - à parte os povos bárbaros, que representavam uma reserva de Espíritos, até certo ponto, primitivos, destinados contudo à renovadora irrupção, que mais tarde fizeram, no período de final deliquescência do império romano - apresentavam o espetáculo de uma raça profundamente saturada de materialidade, absorvida exclusivamente na preocupação dos gozos desta vida, sem a noção, elementar sequer, da outra, definitiva e imortal. Eram Espíritos, alguns intelectualmente desenvolvidos, entre os quais fulguravam, nas esferas da filosofia e das letras, certos raros exemplares, portadores de genial intuição das verdades superiores, dotados, porém, os
que constituíam a grande massa, de instintos subalternos, que denunciavam o seu baixo nível evolutivo e os tornavam joguetes facilmente manejáveis pelas forças reacionárias do invisível.

            Foi, de mistura com essa vasta escória do gênero humano, de preferência aglomerada na capital do Império, que o Cristo - não o anunciara Ele: "eu vos envio como cordeiros entre os lobos"? - para o tormentoso e glorificador prosseguimento de sua obra redentora, fez baixarem as legiões de espíritos escolhidos, que formaram as gerações cristãs dos três primeiros séculos, incumbidos de levantar bem alto, naquelas renhidas pelejas contra as agressivas trevas morais, em que o mundo jazia amortalhado, o sacrossanto lábaro da Cruz.

            Mergulhados, todavia, na espessura obscurecedora da encarnação material, que os expunha ao contágio deletério do ambiente social com que eram postos em contato, poderia o Cristo abandonar às suas exclusivas energias aqueles Espíritos de escol, e seriam estas suficientes para oporem à apregoada irresistibilidade da "influência mesológica" o eloquente desmentido assim da pureza irrepreensível de seus costumes como da vivacidade de suas convicções imortalistas?

            Era, pois, tutelar e vigilante, o Espírito do Senhor Jesus que, ora diretamente, ora por intermédio de seus angélicos mensageiros, não somente inflamava a fé naqueles corações fiéis, mas, na hora suprema da glorificação pelo martírio, tornando-os impermeáveis às torturas morais ou físicas, os transportava em lances de sobre humana heroicidade, que bastaria para converter em massa todas as populações espalhadas nas diferentes províncias do Império e a da sua própria capital, se sobre elas não pesasse, com a peculiar fragilidade e as propensões materiais, oriundas de seu inferior desenvolvimento espiritual, a sombra funesta do AntiCristo e de seus auxiliares tenebrosos.

            Ilustrações daquela ação divina propulsora? Dois únicos exemplos, de singular relevo, bastarão, a esse título, entre os milhares que a história registrou e dos quais um exíguo pugilo ficou reproduzido no final do anterior capítulo.

            Seja o primeiro aquela valorosa mãe de Sinforiano que, ao ver levarem-lhe, caminho do suplício, mais que um pedaço de sua carne, a própria vida, no filho de suas entranhas, longe de fraquejar ou sucumbir, lança lhe, do alto das muralhas de Autum, o brado comovedor, que nem a distância dos séculos consegue amortecer e ainda hoje, e sempre, há de suscitar estremecimentos de assombro: "Meu filho, eleva teu coração ao céu; não perdes a vida, vais troca-la por outra melhor."

            Seja o segundo a mãe de Barulas, aquele menino de 7 anos que confessa o Cristo, a qual não somente resiste ao dilacerante espetáculo da flagelação do filho e, mais corajosa que os assistentes, emocionados até às lagrimas diante da inominável crueldade, proferida a condenação pelo juiz, não deserta o seu posto, não procura arrebatar a criança, em nome do sacrossanto e vulnerado amor materno, mas, abrasada na mesma fé cristã e na mesma certeza da ressurreição, entrega o filho ao carrasco e, no momento da execução, tem apenas o gesto compassivo e heroico: estende o vestido e recolhe o sangue e a cabeça do mártir, que levou consigo.

            Quem ousará dizer que semelhantes atitudes, em que a fragilidade humana desaparece numa transfiguração ele excelsas energias espirituais, não eram inspiradas e sustentadas pelos Poderes superiores do invisível, únicos capazes de, sob a suprema direção do Cristo, assim levantar, sem dúvida, os mais nobres exemplares da nossa espécie, ainda amortalhados, todavia, no sudário da matéria, à verdadeira condição de semideuses?

            E era preciso que assim permanecessem infatigáveis os Enviados do Senhor, em sua misericordiosa assistência junto aos heróis mártires, a fim de que pudesse a ideia cristã resistir vitoriosa à formidável pressão exercida pelo AntiCristo no sentido de a aniquilar mediante as repetidas chacinas por ele suscitadas contra os seus gloriosos portadores, enquanto durou a "idade heroica", em seguida à qual, mudando de tática, ou antes, desenvolvendo-a em mais larga e intensa escala, passou a operar no seio da própria Igreja organizada, insinuando-se no ânimo de seus representantes.

            Não é difícil a demonstração.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

2f. AntiCristo senhor do mundo


AntiCristo Senhor do Mundo
por Leopoldo Cirne
Edição  – 1935


2f

            O primeiro, pois, dos grandes milagres por que se havia de caracterizar o Cristianismo, em sua conquista gradual do mundo, se operara. A doutrina do obscuro Filho do carpinteiro, justiçado entre dois malfeitores pelo inaudito crime de amar os homens e lhes ter vindo oferecer as leis de redenção por esse mesmo amor, irradiara da Palestina escravizada e, transmitida de boca em boca e de coração a coração, penetrara, antes de decorrido meio século, no seio da metrópole dominadora. Propagada ao começo, numa sombra aparentemente vegetativa, entre os oprimidos e desprezados pelo patriciado gozador e fátuo, não tardaria em conquistar todas as classes sociais e ser posta em trágico relevo, mercê das violentas perseguições movidas pela ferocidade dos Nero e Domiciano, que outra coisa de fato não lograram senão intensificar lhe a vitalidade, acrescentando lhe à própria força de incoercível expansão II aureola santificadora do martírio.

            Serviu de pretexto à primeira dessas perseguições em massa o incêndio posto à cidade por ordem de Nero - o artista das monstruosidades - que, para afastar de si a responsabilidade do inominável atentado, lembrou-se de atribui-lo aos cristãos.

            "Primeiramente - refere um historiador - os sicários do imperador prenderam muitas pessoas suspeitas de aditas à seita incriminada e as amontoaram num cárcere que, já de si, era um suplício. Confessaram a sua fé, e a confissão foi interpretada como prova de ódio ao Império e aos seus deuses, aos seus soberanos, Essas prisões acarretaram outras: a autoridade descobriu nas camadas inferiores da população uma sociedade com vastas ramificações, com prosélitos numerosos, e assustou-se. As doutrinas dos cristãos, criticadas pelo politeísmo e pelo cesarismo, pareceram subversivas, odientas, tal foi a opinião de homens esclarecidos, como Tácito e Suetônio. Se os confessores do Cristo não tinham incendiado Roma, eram pelo menos uma praga que ameaçava devastar o mundo romano. Nero achou-se apoiado pela opinião publica quando votou aos suplícios os partidários da nova e malfazeja superstição."
            "Quase todos os cristãos presos - descreve por sua vez Ernest Renan - eram humiliores, homens do nada. O suplício desses desgraçados, quando incriminados de lesa-majestade ou de sacrilégio, consistia em serem entregues às feras ou queimados vivos no anfiteatro, depois de cruéis flagelações. Uma das particularidades mais hediondas dos costumes romanos era converterem o suplício em festa e o morticínio em divertimento publico."
            "Roma - acrescenta mais adiante - poucos dias teve tão extraordinários. O ludus matutinus, consagrado aos combates de animais, viu um préstito indescritível. Os condenados, cobertos com peles de feras, foram lançados à arena, onde os despedaçaram matilhas de cães; outros foram crucificados; alguns, metidos em túnicas embebidas de azeite, pez ou resina e atados a postes, foram destinados para iluminar as festas noturnas. Quando declinou o dia, acenderam-se esses fachos vivos. Nero ofereceu para o espetáculo os magníficos jardins que possuía além do Tibre e que ocupavam o atual espaço do Burgo,
da praça e da basílica de S. Pedro. Havia ali um circo começado por Calígula, continuado por Claudio, e que tinha por marco um obelisco tirado de Heliópolis. Esse lugar já tinha sido teatro de morticínios à luz de archotes. Calígula ali mandara decapitar, enquanto passeava ao clarão de fachos, muitos personagens consulares, senadores e damas.
            "A ideia de substituir os brandões (velas grandes) por corpos humanos impregnados de substâncias combustíveis pode parecer engenhosa. Como suplício, essa maneira de queimar em vida não era nova: era o castigo usual dos incendiários, o que se chamava a tunica molesta,(veste impregnada de material combustível)  mas nunca tinha sido transformada em sistema de iluminação . À luz dessas hediondas tochas Nero, que tinha posto em moda as corridas noturnas, apresentou-se na arena, ora confundido com o povo e vestido de jockey, ora guiando um carro e provocando aplausos.
            "Houve contudo alguns sinais de compaixão, Mesmo os que julgavam criminosos os cristãos e reconheciam terem merecido a morte, se horrorizaram com tão cruéis divertimentos. Os homens sensatos teriam desejado que se fizesse unicamente o que a utilidade publica exigia, que se limpasse a cidade de homens perigosos, mas que não parecesse que se sacrificavam culpados à ferocidade de um só."

            E, depois de outras minuciosas e não menos impressionantes descrições, comenta Renan: "Assim se exordiou esse poema extraordinário do martírio cristão, essa epopeia do anfiteatro, que havia de durar duzentos e cinquenta anos e da qual saíram o enobrecimento da mulher e a reabilitação do escravo".

            As perseguições não foram, todavia, prosseguidas sistematicamente desde logo, mas interrompidas e recomeçadas a espaços, consoante os instintos ferozes ou benignos dos imperantes. É assim que, depois da chacina do ano 64 a que nos referimos, ordenada por Nero, houve uma trégua até o reinado de Domiciano (81 a 96), "o Nero calvo", que aterrorizou com o seu delírio sanguinário a população de Roma. Foi sob o reinado de Trajano (98 a 117) que "começaram as perseguições sistemáticas, inteligentes, políticas".

            "O imperador que se propusera restabelecer a legalidade - observa o já aludido historiador - não podia perdoar atentados contra a fé religiosa; o patriota devia forçosamente ser rigoroso para com associações de caráter cosmopolita."

            Foi então que a doutrina de Jesus pareceu condenada, na pessoa de seus intrépidos confessores, a um completo e sistemático aniquilamento. Da rapidez com que se propagara e que na opinião do citado historiador parece miraculosa, dá ele testemunho assinalando que "no tempo de Nero, trinta e três anos depois da morte do Cristo, já havia em Roma numerosos cristãos, que se distinguiam bem dos judeus; já haviam penetrado em províncias afastadas e eram tantos que se considerou um triunfo o seu suposto extermínio". E acrescenta: "Lucianus achou o Ponto, sua pátria, inçado de epicuristas e cristãos; cerca do ano 80 queixava-se Plínio de estarem desertos os templos, as vítimas
sem compradores, e acusava desse estado de coisas a superstição cristã, espalhada até nas choupanas e nos vilarejos. E os prosélitos não eram já exclusivamente homens do povo: Plínio encontrou-os, de todas as condições e de todas as idades". Tertuliano declarou ao proconsul que " se continuasse a perseguir os cristãos de Cartago, teria de dizimar a cidade e acharia entre os criminosos muitas pessoas da sua classe, matronas, senadores, amigos. O edito do imperador  Valeriano supõe a conversão de senadores, cavaleiros romanos e senhoras de alta hierarquia".

            Para aniquilar, pois, a doutrina do Senhor, considerada uma perigosa superstição, toda sorte de violências pareceu legítima.

            "Dado o exemplo das perseguições aos cristãos por um imperador como Trajano, não mais foi possível faze-las cessar de todo. Quando os césares as não ordenavam e os seus
delegados as não iniciavam, exigia-as a plebe nas grandes assembleias ruidosas e tumultuarias, nos dias de festa do paganismo, na embriaguez sanguinária do anfiteatro, gritando: "os cristãos às feras! Os cristãos à fogueira!"

            Então, excluídos do amparo das leis e postos fora da sociedade, dir-se-ia mesmo que degradados da espécie humana como seres singularmente malfazejos, espionados e perseguidos, os confessores de Jesus ora se refugiavam nas catacumbas de Roma, para celebrar, na comunhão de seus corações abrasados de fé, o inefável "mistério do reino dos céus", ora a plena luz, em presença de seus implacáveis algozes, ostentavam a intrepidez da convicção imortal que os animava, em lances de heroísmo verdadeiramente sobre humano, jamais igualado em qualquer outra época da historia. Os seguintes episódios, respigados entre os mais expressivos ou comovedores, podem dar uma ideia do que foi, durante séculos, esse espantoso conflito entre as forças tenebrosas do mal, a que serviam de instrumento as desvairadas multidões, encabeçadas pelos seus cruéis dominadores, e as invisíveis hostes do Senhor, inspirando, fortalecendo e sustentando aqueles que se haviam proposto ser, na vida e na morte, os destemidos arautos de sua redentora doutrina.

            "Ao terminar Adriano a esplendida habitação de Tibur, celebrou, para a inaugurar, sacrifícios pomposos. Mas as vítimas, os auspícios, os agouros ou não davam sinais, ou só
os davam sinistros. Os deuses, interrogados por meio de evocações mais poderosas, responderam: "Como havemos de proferir oráculos, se Sinforosia e seus sete filhos todos os dias nos ultrajam, invocando o seu deus!" - O imperador mandou chamar a acusada e perguntou-lhe quem era. Respondeu: "Meu marido Getúlio e seu irmão Amâncio, tribunos
militares, sofreram por Jesus Cristo e preferiram ser decapitados a sacrificar aos deuses, alcançando opróbrio na terra e glória entre os anjos". Tendo-lhe Adriano ordenado
que escolhesse entre sacrificar e morrer, não hesitou, dizendo que queria ir juntar-se ao esposo. Conduziram-na a um templo de Hercules, onde a esbofetearam e suspenderam pelos cabelos, sem lhe abalarem a constância. Afinal foi lançada às cascatas, que os cantos voluptuosos de Horácio celebraram. Os filhos imitaram lhe a firmeza."

            - "Quando Sinforiano, em Autum, foi levado ao suplicio, sua mãe gritou-lhe do alto das muralhas: "Meu filho, eleva teu coração ao céu. Não perdes a vida;  vais troca-la
por outra melhor". Felicidade, matrona de nascimento ilustre, também exortou os filhos a morrerem corajosamente, e assistiu a sua execução, para logo depois os seguir".

            - "O ministro das perseguições de Valens, em Edessa, perguntou a uma mulher: "Aonde corres com tanta pressa? - À Igreja. - Não sabes que serão mortas quantas pessoas lá estiverem? - Por isso vou. - E essa criança? Quero que também ela participe do martírio."        
            - "Durante a perseguição de Diocleciano um pequeno de sete anos chamado Barulas confessou o Cristo e recusou-se a adorar outro deus. O juiz o mandou açoitar até escorrer
sangue, em presença da mãe, que, intrépida, quando já os espectadores choravam, o exortava à constância. Quando o ouviu condenar à morte, levou-o ela própria ao lugar do
suplício e o entregou ao carrasco. Depois estendeu o vestido para lhe receber o sangue e a cabeça, que levou consigo."

            - "Orila, menino de Cesareia, tinha sempre nos lábios o nome de Jesus e por isso começaram a odiá-lo outras crianças da sua idade e o próprio pai o expulsou de casa, deixando-o sem socorro. O juiz o chamou a sua presença e experimentou afagos e ameaças, mas só lhe arrancou estas palavras: "As repreensões me alegram, porque Deus me louvará; expulso de minha casa, tenho outra melhor". Nem a vista da fogueira o intimidou, e morreu resignado."

            - "É tradição que no tempo de Diocleciano toda a legião Tebeana sofreu martírio no Valais, defronte da majestosa cascata de Pissavache, por não ter querido perseguir os cristãos. "Somos soldados - disseram - e de vós recebemos soldo; mas recebemos de Deus a vida e devemos conserva-la inocente. Quereis que usemos das espadas contra o inimigo? Fá-lo-emos; mas não as voltaremos contra inocentes. Temos armas nas mãos e, todavia, não vos opomos resistência alguma, porque preferimos morrer imaculados a viver perjuros". Distinção desconhecida aos soldados da antiguidade e que parecia anunciar os tempos novos, nos quais a obediência é racional."

            - "Em Sebaste, durante a perseguição de Licínio, quarenta soldados de diferentes países, que se declararam cristãos, foram, por um novo requinte de crueldade, expostos toda uma noite aos rigores da invernia num banho gelado, tendo junto de si um banho tépido, que os convidava a aliviarem nele os sofrimentos. Só um fraquejou: os outros se animaram reciprocamente como em dia de combate. No dia seguinte foram todos lançados ao fogo. Os algozes, intencionalmente, deixaram um como esquecido, esperando que abjurasse; mas sua mãe o impeliu, dizendo-lhe: "Vai e termina com teus irmãos a obra que tão bem começaste, para não seres o último a comparecer diante de Deus."

            - "Como o juiz lançasse em rosto a Afra, prostituta da Recia, a sua passada ignomínia, respondeu-lhe ela que tinha distribuído o dinheiro mal ganho pelos pobres, que só
a custo haviam aceitado esse preço de sua infâmia; compreendia agora - acrescentou - que Jesus Cristo viera para chamar a si os pecadores, pois lhe permitia confessar o seu santo nome diante da morte e pedir misericórdia para os pecados que cometera."

            - "Potamiana, formosíssima escrava egípcia, foi denunciada como cristã pelo senhor, a cujas solicitações lúbricas resistira. O prefeito Aquila não se pejou de desempenhar um papel ignóbil, insistindo com ela para ceder. Repelido, condenou-a a ser mergulhada em pez (Substância resinosa do pinheiro)  fervente, depois de violada pelo carrasco. Potamiana suplicou-lhe que a poupasse a esse maior suplício : "Pela vida do imperador - dizia - vos peço, vos suplico não me deixeis despir e expor nua antes me mergulhem a pouco e pouco na caldeira, coberta com os meus vestidos."

            - "Sete virgens de Aneira, respeitáveis pelos anos e pela santidade, antes de serem afogadas, foram expostas aos insultos de uma chusma de libertinos. Tecusa, a mais idosa,
tirando o véu e mostrando os cabelos brancos ao miserável que a queria ultrajar, lhe disse: "Talvez tenhas mãe, com os cabelos brancos como os meus. Deixa-nos as nossas lágrimas
e guarda para ti a esperança do perdão, que Jesus Cristo te concederá."

            - "Em Cartago, Perpétua e Felicidade se tornaram famosas pelo seu heroísmo. A primeira, nascida de nobre família, de vinte e dois anos de idade, tendo uma criança de peito, vivia com o pai, a mãe e dois irmãos; a outra era escrava e estava grávida. O pai de Perpétua, pagão zeloso, queria que ela sacrificasse aos deuses. Como tinha passado algum tempo (diz ela, contando o que sofreu) sem ver meu pai, dei graças a Deus, e a sua ausência me permitiu respirar livremente. Durante esses poucos dias nos batizamos, e ao sair da água implorei a Deus paciência nos sofrimentos físicos. Pouco tempo depois fomos metidas no cárcere, o que me assustou, porque nunca tinha visto semelhantes trevas. Que dias horríveis! Que calor produzia a aglomeração! Os soldados nos maltratavam e eu estava inquieta por meu filho. Então os diáconos Tertius e Pomponius, que nos assistiam, obtiveram, a peso de ouro, permissão para tomarmos ar durante algumas horas. Saímos, e cada qual pensava em si. Dei o peito a meu filho, recomendando-o a minha mãe, e consolei meu irmão. Afligia-me, contudo, pensando em quanta dor lhes causava, e passei muitos dias sobre esta cruz...

            "Correu voz de que íamos ser interrogadas, meu pai veio da cidade à prisão e, no auge da angústia, me disse: "Filha, piedade para os meus cabelos brancos! piedade para teu pai! Se mereço este nome, se te eduquei até essa idade, se te preferi a meus outros filhos, não me cubras de opróbrio. Pensa em tua mãe, lembra-te dessa criança que amamentas e que te não poderá sobreviver. Desiste dessa obstinação, para nos não perderes a todos, porque nenhum de nós ousaria mais erguer a cabeça, se te sucedesse alguma desgraça!"

            "Assim me falou enternecido, beijando-me as mãos, ajoelhando aos meus pés, chorando, chamando-me não já sua filha, mas sua senhora. Estava compadecida, lembrando-me que de toda a família seria ele o único que não se regozijaria com o nosso martírio e, para o consolar, disse: "Será o que Deus quiser, porque não estamos em nosso poder, mas no seu!" Saiu consolado.

            "No dia seguinte, à hora do jantar, nos vieram chamar para o interrogatório. A noticia logo se espalhou nos bairros vizinhos e atraiu muita gente. Subimos ao tribunal. O procurador Flavianus me disse: "Lembra-te da velhice de teu pai, da fraqueza de teu filho; sacrifica pela prosperidade dos imperadores". - "Tal não farei", respondi. E ele: "És cristã?" - "Sou cristã", lhe tornei. Como meu pai tentasse tirar-me do tribunal, Flavianus o mandou expulsar: até lhe deram com uma vara, e eu senti a pancada como se a tivesse recebido. Estava tão aflita, por ver meu pai maltratado na velhice! Então Flavianus sentenciou, ordenando que fôssemos lançadas às feras. Voltamos alegres para a prisão, e eu mandei o diácono Pomponius pedir a meu pai o filho das minhas entranhas, que estava acostumado a ficar junto de mim e a mamar o meu leite; mas não o pude obter, e Deus permitiu que a criança não procurasse o meu peito e que o leite me não incomodasse."     

            "A piedade de pessoas que lhes sobreviveram assim descreveu os últimos momentos das heroínas:

            "Felicidade estava grávida de oito meses. Vendo aproximar-se o dia do espetáculo, vivia em grande apreensão de que o seu martírio fosse adiado, porque era proibido executar mulheres gravidas. Os companheiros do seu sacrifício também se afligiam com a ideia de a deixarem só no caminho das suas esperanças comuns. Todos se reuniram, pois, para orar e chorar juntos, três dias antes do espetáculo. Apenas acabou a prece, logo Felicidade sentiu as dores e, como o parto é naturalmente mais doloroso no oitavo mês, sofreu muito e gemeu. Por isso lhe disse o carcereiro: "Se agora te lamentas, que será quando estiveres exposta às feras!" Deu à luz uma menina, que uma cristã criou como sua. Os irmãos e todos os outros tiveram licença para entrar na prisão e a animaram. O carcereiro estava convertido. Na véspera do combate lhe serviram, segundo o uso, o banquete livre, que era público; mas os mártires o converteram num ágape e falaram ao povo com a costumada liberdade, dizendo: "Olhai bem para nós, a fim de nos conhecerdes no dia do juízo."

            "Quando soou a hora da luta, os mártires saíram da prisão para o anfiteatro como para o céu, serenos e mais alegres do que assustados: seguia-os Felicidade com passo firme e a fisionomia risonha, como pessoa pertencente a Jesus Cristo, baixando os olhos, para ocultar aos assistentes o seu fulgor. Sentia-se feliz por ter dado à luz e poder já afrontar as feras. Chegados à porta quiseram obriga-los a aceitar os adornos dos que figuram em tais espetáculos: eram, para os homens, o manto vermelho dos sacerdotes de Saturno;
para as mulheres, as fitas que usam na cabeça as sacerdotisas de Ceres. Mas os mártires  recusaram as librés da idolatria.

            "Quando despiram Perpétua e Felicidade, para as envolver em redes e expô-las a uma vaca raivosa, o povo estremeceu de horror ao ver uma tão delicada, a outra mal convalescida do parto. Foram, pois, retiradas e cobertas com amplas roupas. Perpétua, atacada primeiro, caiu de costas; sentou-se logo na arena e, vendo que de um lado se lhe tinham rasgado as roupas, puxou-as para cobrir uma coxa, mais ocupada do pudor que do sofrimento. Juntou os cabelos que se lhe tinham soltado, para não parecer estar de luto, e vendo Felicidade estendida, deu-lhe a mão, para a ajudar a erguer-se. As mártires foram assim para a porta Sana Vivaria, onde Perpétua foi recebida por um catecúmeno chamado Rusticus. Ali, como desperta de um profundo sono, pôs-se a olhar em volta de si, dizendo: "Quando é que me expõem a essa vaca bravia?" Informada do que se passara, não o quis
acreditar senão quando viu no corpo e no fato os vestígios do que sofrera.

            "Apareceu-lhe o irmão. Perpétua lhe disse, assim como a Rusticus: "Perseverai na fé; amai-vos uns aos outros e não vos escandalizem os nossos sofrimentos". O povo tornou a chama-las ao anfiteatro, onde as duas mártires se apresentaram por impulso próprio,
depois de terem trocado o beijo de paz. Perpetua coube a um gladiador inexperiente, que a feriu entre os ossos e a fez gritar. Os suplícios dos pacientes moribundos eram o noviciado dos gladiadores. Por fim, dirigiu ela própria à garganta o braço mal seguro do seu algoz".

            "Com essa heroicidade - comenta o historiador - sabiam fracas mulheres agradecer ao Cristo a emancipação e nobilitação do seu sexo".

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            Esses fatos, que assombram e confundem a tibieza dos meio-crentes de todas as épocas, têm uma significação e reclamam um comentário.