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terça-feira, 3 de abril de 2012

Meu Jugo é Suave..



Meu Jugo
é Suave...

11,25 Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: “ -Eu te bendigo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos,
11,26 Sim, Pai, Eu te bendigo, porque, assim foi do Teu agrado,       
11,27 Todas as coisas Me foram dadas por meu Pai e ninguém conhece o Filho senão o Pai e ninguém conhece o Pai senão o Filho e a quem o Filho quiser revelá-Lo,
11,28 Vinde a Mim, todos que estais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei,
11,29  Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para as vossas almas.
11,30 Porque Meu jugo é suave e Meu peso é leve. 

         Para Mt (11,25-30), encontramos a palavra de Kardec, no Cap. de “O Evangelho...”:
           
            “Todos os sofrimentos: misérias, decepções, dores físicas, perda de entes queridos, encontram sua consolação na fé no futuro, na confiança na justiça de Deus, que o Cristo veio ensinar aos homens. Sobre aquele, ao contrário, que não espera nada depois desta vida, ou que duvida simplesmente, as aflições se abatem com todo o seu peso, e nenhuma esperança vem suavizar-lhe  a  amargura. Eis o que levou  Jesus a dizer: “Vinde a mim, todos vós que estais fatigados e Eu vos aliviarei.” 

            Para  Mt  (11,25),- Graças... por as ter revelado aos pequeninos... leiamos  “Livro da Esperança”, de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Alfabetizar e instruir sempre.

            Sem escola, a Humanidade se embaraçaria na selva, no entanto, é imperioso lembrar que as maiores calamidades da guerra procedem dos louros da inteligência sem educação espiritual.

            A intelectualidade requintada entretece lauréis à civilização, mas, por si só, não conseguiu, até hoje, frenar o poder das trevas.

            A super cultura monumentalizou cidades imponentes e estabeleceu os engenhos que as arrasam. Levantou embarcações que se alteiam com sendo palácios flutuantes e criou o torpedo que as põe a pique. Estruturou asas metálicas poderosas que, em tempo breve, transportam o homem, através de todos os continentes e aprumou o bombardeiro que lhe destrói a casa. Articulou máquinas que patrocinam o bem estar no reduto doméstico e não impede a obsessão que, comumente, decorre do ócio demasiado. Organizou hospitais eficientes e, de quando em quando, lhes superlota as mínimas dependências com os mutilados e feridos, enfileirados por ela própria, nas lutas de extermínio. Alçou a cirurgia às inesperadas culminâncias e aprimorou as técnicas do aborto. E, ainda agora, realiza incursões a pleno espaço, nos albores da astronáutica, e examina do alto os processos mais seguros de efetuar aniquilamentos em massa pelo foguete balístico.

            Iluminemos o raciocínio sem descurar o sentimento.

            Burilemos o sentimento sem desprezar o raciocínio.

            O espiritismo, restaurando o Cristianismo, é universidade da alma.

            Nesse sentido, vale recordar que Jesus, o Mestre por excelência, nos ensinou, acima de tudo, a viver construindo para o bem e para a verdade, como a dizer-nos que a chama da cabeça não derrama a luz da felicidade sem o óleo do coração.”  


            Para Mt (11,28),-Meu Jugo é suave... - sugerimos a leitura de “Conduta Espírita” de André Luiz por Waldo Vieira:

Conduta Espírita perante a enfermidade...

            -Sustentar inalteráveis a fé e a confiança , sem temor, queixa ou revolta, sempre que enfermidades conhecidas ou inesperadas lhe visitem o corpo ou lhe assediem o lar. Cada prova tem uma razão de ser.

            -Com o necessário discernimento, abster-se do uso exagerado de medicamentos capazes de intoxicar a vida orgânica. Para o serviço da cura, todo medicamento exige dosagem.

            -Desfazer ideias de temor ante as moléstias contagiosas ou mutilantes, usando a disciplina mental e os recursos da prece. A força poderosa do pensamento tanto elabora quanto extingue muitos distúrbios orgânicos e psíquicos.

            -Sabendo que todo sofrimento orgânico é uma prova espiritual, dentro das leis cármicas, jamais recear a dor, mas aceitá-la e compreendê-la com desassombro e conformação. A intensidade do sofrimento varia segundo a confiança na lei divina.

            -Aceitar o auxílio dos missionários e obreiros da medicina terrena, não exigindo proteção e responsabilidade exclusivas dos médicos desencarnados. A Eterna Sabedoria tudo dispõe em nosso proveito.

            -Afirmar-se mentalmente em segurança, acima das enfermidades insidiosas que lhe possam assaltar o organismo, repelindo os pensamentos e as palavras de desespero ou cansaço, na fortaleza de sua fé. A doença pertinaz leva à purificação mais profunda.

            -Aproveitar a moléstia como período de lições sobretudo como tempo de aplicação dos valores alusivos à convicção religiosa. A enfermidade pode ser considerada por termômetro da fé.”


           
            Ainda para Mt  (11,28)  -Vinde a mim... - leiamos “Fonte Viva” de Emmanuel por Chico Xavier:

            “O crente escuta o apelo do Mestre, anotando abençoadas consolações. O doutrinador repete-o para comunicar vibrações de conforto espiritual aos ouvintes.

            Todos ouvem as palavras do Cristo, as quais insistem para que a mente inquieta e o coração atormentado lhe procurem o regaço refrigerante...

            Contudo, se  é fácil ouvir e repetir o “Vinde a Mim” do Senhor, quão difícil é “ir para Ele...”

            Aqui, as palavras do Mestre se derramam por vitalizante bálsamo, entretanto, os laços de conveniência imediatista são demasiado fortes; além, assinala-se o convite divino, entre promessas de renovação para a jornada redentora, todavia, o cárcere do desânimo isola o espírito, através de grades resistentes; acolá, o chamamento do Alto ameniza as penas da alma desiludida, mas é quase impraticável a libertação dos impedimentos constituídos por pessoas e coisas, situações e interesses individuais, aparentemente inadiáveis.

            Jesus, o nosso Salvador, estende-nos os braços amoráveis e compassivos. Com Ele, a vida enriquecer-se-á de valores imperecíveis e à sombra dos seus ensinamentos celestes seguiremos, pelo trabalho santificante, na direção da Pátria Universal...

            Todos os crentes registram-lhe o apelo consolador, mas raros se revelam suficientemente valorosos na fé para lhe buscarem a companhia.

            Em suma, é muito doce escutar o “Vinde a Mim”...

            Entretanto, para falar com verdade, já consegues ir?”


            Para Mt (11,29), - tomai sobre vós o meu jugo... - trazemos à reflexão as palavras de Emmanuel por Chico Xavier em “Pão Nosso”:

            “Dirigiu-se  Jesus a multidão dos aflitos e desalentados proclamando o divino propósito de aliviá-los.     

            - “Vinde a Mim! clamou o Mestre - tomai sobre vós o meu jugo. e aprendei comigo, que sou manso e humilde de coração!”

            Seu apelo amoroso vibra no mundo, através de todos os séculos do Cristianismo. Compacta é a turba de desesperados e oprimidos da Terra, não obstante o amorável convite.

            É que o Mestre no “Vinde a Mim!” espera naturalmente que as almas inquietas e tristes o procurem para a aquisição do ensinamento divino. Mas nem todos os aflitos pretendem renunciar ao objeto de suas desesperações e nem todos os tristes querem fugir à sombra para o encontro com a luz.

            A maioria dos desalentados chega a tentar a satisfação de caprichos criminosos com a proteção de Jesus, emitindo rogativas estranhas. Entretanto, quando os sofredores se dirigirem sinceramente ao Cristo, hão de ouvi-lo, no silêncio do santuário interior, concitando-lhes o espírito a desprezar as disputas reprováveis do campo inferior.

            Onde estão os aflitos da Terra que pretendem trocar o cativeiro das próprias paixões pelo jugo suave de Jesus Cristo?

            Para esses foram pronunciadas as santas palavras “Vinde a Mim!”, reservando-lhes o Evangelho poderosa luz para a renovação indispensável.”



24 - 'Doutrina e Prática do Espiritismo'




24      * * *


            Como se gera o homem?

            O doutor Paul Gibier o descreve de uma forma elegante e discreta.

            "Dois elementos microscópicos - diz ele (1): - uma célula munida de uma espécie de cílio vibrátil, elemento masculino, e outra célula de forma globulosa, elemento feminino; encontram-se dois pontos quase matemáticos, e está procriado o homem.

                (1) Ver ANÁLISE DAS COISAS, cap. III, págs. 88.

                "A célula globulosa imediatamente se transforma ; ela se enxerta e segmenta numa multidão de outras células, que virão a ser os órgãos do corpo humano.

                “Esse encontro de duas células, - comenta ele - provenientes de dois seres diferentes, formando um terceiro ser, é um grande fato.

                "Em torno desse fato vão se acumular a matéria e a energia"

            A matéria, sim, representada na indefinida multiplicação das células, ao começo plasmáticas e embrionárias, como é sabido e, de resto, o assinala Claude Bernard, no trecho que citamos, para em seguida, reproduzindo num rápido esboço os tipos ancestrais da evolução da nossa espécie, desde os mais remotos, adquirir, ao fim do terceiro mês, a forma humana (2); e a energia, contida no princípio ou, indiferentemente, no fluido vital, de que cada ser, por herança e por absorção, recebe uma quantidade conveniente aos fins da sua existência neste mundo.

            (2) "O mais elevado gérmen que o microscópio nos permite observar - o óvulo humano - é ao começo uma espécie de mineral, representado pelo núcleo (o ponto, a unidade) de sua célula germinal; adquire em seguida a forma vegetal - uma radicela[1] coroada por dois cotilédones[2] (a dualidade) ; torna-se depois um peixe (a multiplicidade), o qual se transforma sucessivamente em batráquio, depois em pássaro, e reveste em seguida formas animais cada vez mais complexas, até aparecer, no terceiro mês da vida fetal, sob a forma humana." (Dr. Th. Pascal . ESSAI SUR L'ÉVOLUTION HUMAINE, capo III, págs. 125).

            À medida que se multiplicam as células, a sua disposição vai obedecendo às linhas estruturais daquele modelo fluídico, daquele desenho ideal, contido na dupla célula primitiva, e que, fundindo-se para constituir um só modelo, definiu, por um misterioso processo eletivo, que a ciência, no ponto de vista puramente fisiológico é certo - se julga autorizada a atribuir à preponderância do mais forte, mas que a nosso ver se deve, antes de tudo, filiar a ação de uma lei, ou pelo menos, a uma razão de ordem espiritual (1), cujo mecanismo exato, como tantas outras coisas, nos escapa, definiu - dizíamos - o sexo (2) a que há de pertencer o novo ser.

            (1) Assim nos exprimimos, porque tudo, desde os mais importantes aos mínimos sucessos, está subordinado à suprema influência de leis tendentes à utilidade, progresso e evolução espiritual dos seres, não sendo o sexo um acidente sem decisiva influência para esse fim na existência dos indivíduos neste mundo, dada a diversidade de funções, de encargos e possibilidade de aplicação moral e intelectual entre o homem e a mulher.

            (2) Posto que à observação direta só ao quarto mês da gestação se torne o sexo visivelmente distinto, é lógico supor que, logo ao começar esse processo, tenha sido ele determinado no modelo fusionado[3] da dupla célula germinal .      

            Ao mesmo tempo que assim se vai desenvolvendo o gérmen e pouco a pouco adquirindo a forma humana, o espírito, segundo vimos com AlIan Kardec, a ele se vai por sua vez gradualmente ligando "por um laço fluídico, que é a expansão do seu períspirito," ajustando-se este, "sob a influência do princípio vital, molécula por molécula ao corpo que se forma."

            E como este - acabamos de ver - obedece, na orientação das suas células e na formação dos tecidos e dos órgãos, às linhas estruturais daquele duplo etéreo em que reside o modelo ou desenho ideal cuja presença Claude Bernard, com justa razão, supõe necessária à formação dos seres, segue-se que esse mesmo duplo, "cuja matéria apresenta continuidade, na escala de gradação progressiva com a do corpo físico " (3), é de fato o mediador 'entre este e o perispírito.

            (3) Dr. Th. Pascal, loc. cit.

            É em virtude dessa fusão, ou interpenetração de seus respectivos elementos atômicos, que por fim, quando se torna definitiva e completa a encarnação, corpo astral e perispírito não constituem mais que um único e, por muito tempo, indissolúvel revestimento fluídico do espirito, podendo assim justificar a opinião dos que, por conveniência de simplificação, não consideram na personalidade humana mais que os três princípios constitutivos de que nos temos ocupado: corpo físico, perispírito e espírito.

            Como quer que seja, ou apreciado  em sua integração fluídica, ou  dissociado na apreciação dos elementos dessa natureza que o compõem, é por esse laço invisível que se prende o espirito ao corpo, não só criando neste "uma como raiz" à semelhança da planta que se vincula à terra, como representando aquela ideia diretriz, indispensável para explicar a formação harmônica do ser.

            É verdade que, durante o processo da encarnação e tanto mais acentuadamente quão mais esta se adianta, o espirito vai perdendo a lucidez de consciência e mergulhando numa espécie de torpor ou obscurecimento mental, de que só gradualmente despertará no curso da existência terrestre, à medida que se forem desenvolvendo, com o corpo, os órgãos da inteligência e dos sentidos.

            Essa perda de consciência, porém, demonstra apenas que o espírito não é fator independente e autônomo desse processo de organização vital, o que o não impede de ser o seu indispensável colaborador. Quando mesmo se afirma - e é esse um princípio consagrado em nossa doutrina - que "o próprio espírito é quem fabrica o seu invólucro e o apropria às suas necessidades" (1), não deve ser essa expressão entendida ao pé da letra, senão de um modo indireto, no sentido de que o espirito, sendo o princípio diretor do mesmo modo que o fluído vital,  sob a ação do perispírito, é o principio motor do organismo, a quem de fato lhe imprime os traços característicos da personalidade, comunicando-lhe as suas qualidades, adaptando-o às suas próprias condições e, conforme o seu grau de adiantamento espiritual, tornando-o em suma, por toda sorte de movimentos psíquicos, um instrumento cada vez mais ductil à expressão dos seus pensamentos, volições e sentimentos. 

                (1) Allan Kardec, A GÈNESE, cap. XI, págs. 206.

            É uma ação de certo modo automática e, em muitos casos, involuntária, no ponto de vista de seus resultados, sobretudo se se trata de seres imperfeitamente evoluídos, essa que o espírito exerce sobre o corpo e que efetivamente começa desde o período inicial da encarnação. Demasiado fraco e ignorante é geralmente ele e, sobre ignorante, dependente das leis cósmicas que regem todos os fenômenos da vida, para que naquela fase inibitória possa ter a consciência e, ainda menos, a capacidade autônoma do trabalho que se realiza, preparatório de seu encarceramento na matéria.

            E, todavia, segundo a palavra, sempre verdadeira, do Divino Mestre, é ele, "o espírito, que vivifica (1)." Atraído para o gérmen que se desenvolve, mas submetido, como instrumento que é para esse fim, à ação da Lei organizadora, imanente na criação de todas as formas como de todos os seres no universo, a sua presença é tão necessária para comunicar e manter a vida ao corpo, como a este é indispensável o princípio vital, para seu paralelo funcionamento e duração.

             (1) João, VI, 64.

            Desse principio, oriundo do oceano cósmico infinito, cada ser - já -O dissemos - recebe, por herança e por absorção, uma quantidade suficiente aos fins de sua existência neste mundo: herança, representada na soma de energia inicial que os progenitores lhe transfundem, comunicando-lhe, em estado potencial, uma parte de sua própria vida; absorção, resultante, quer do contato com o meio exterior, saturado desse fluido vivificante, constituindo uma espécie de atmosfera respirável pelo perispírito, quando exteriorizado, principalmente durante o sono e em todos os estados de desprendimento, quer da assimilação, pelos alimentos, das substâncias que o contêm.

            Vemos assim - para recapitularmos o processo da encarnação - que, à luz dos ensinamentos espíritas, cada um dos fatores que intervêm nesse processo, determinando o aparecimento do homem neste mundo, é ponderado, quanto o permitem os nossos meios atuais de conhecimento e investigação nesse domínio, em sua exata significação: de um lado o corpo, com seu duplo astral, começando pela fusão de duas células microscópicas e evoluindo, segundo as linhas estruturais desse modelo, até se fixar, ao fim da gestação, na complicadíssima trama de tecidos, órgãos, aparelhos etc., que o caracterizam e lhe assinalam o lugar preeminente que ocupa no mundo biológico ; do outro espírito, diretor desse minúsculo sistema cosmogônico, a cujos movimentos preside mediante o laço perispiritual por que se lhe prendera, veículo de suas mútuas ações e reações; e por último o fluido ou princípio vital, força motriz do organismo, que ele paralelamente nutre e mantém em correspondência com a fonte universal da vida, de que representa uma particularizada emanação.

            Nove meses levaram esses elementos a se combinar, ao fim dos quais, isto é, por ocasião do nascimento, se tem convencionado que é completa a união entre o espírito e o corpo. 

            Assim deve, com efeito, ser admitido, enquanto minuciosas e pacientes investigações não forem empreendidas no sentido de confirmar ou não a hipótese, que observações recentes autorizam, segundo a qual não se efetua integralmente a ligação do espirito ao corpo antes de decorridos os sete primeiros anos de existência.

            Não é, como desde logo se percebe, de suma importância esta questão, no ponto de vista dos princípios, uma vez que tal hipótese não altera substancialmente nem o fato em si, nem as suas consequências. Unido parcial ou integralmente ao corpo, naquele período infantil, de todo modo o espirito é, por assim dizer, o seu prisioneiro e lhe está destinado como insubstituível habitante.

            A ser, todavia, confirmada a hipótese por novas e repetidas observações, como convém, não será para desprezar o esclarecimento de que é portadora, assim para ser fixado esse ponto de doutrina, como principalmente, no que respeita à educação e aos cuidados a dispensar à infância, para a preservar de certas nocivas influências, cuja origem tem sido ignorada e é missão do Espiritismo, precisamente, revelar.

            O nosso intuito, ao tomar essa hipótese em consideração, não é outro senão despertar a atenção dos estudiosos para o assunto, de modo algum nos seduzindo o espírito de originalismo ou novidade, mas nos parecendo que, no campo da experimentação, particularmente no da psicologia, bem mais seguro que o do mediunismo, inçado por enquanto de maiores obscuridades, tem amplamente que se exercitar a atividade dos espíritas, pelo menos dos que aspiramos o progresso, que não o estacionamento, da doutrina.

            A soma das verdades gerais, de que nos faz partícipes a Revelação, é sem dúvida considerável, representando um valioso patrimônio, cuja integridade nos cumpre criteriosamente acautelar. Estudantes, porém, que somos da ciência do infinito, que ela representa, é nosso dever caminhar sem descontinuidade, observando e meditando, resolvidos sempre a retificar e ampliar os horizontes do conhecimento, apoiados na experiência, de um lado, e na prudência e na razão, do outro, enquanto não fruímos as vantagens do sentido espiritual, ou intuição, que um maior adiantamento nos há de facultar.

            Foi nesse opulento repositório de observações, a que já nos temos referido, enfeixadas pelo coronel de Rochas nessa obra (1), em que à prudência do sábio se alia a independência do observador sem preconceitos, que encontramos, não formulada de modo geral a teoria, mas consignado o fato daquela exteriorização do espirito, na primeira infância, e a sua entrada gradual no corpo até aos 7 anos.

            (l) LES VIES SUCCESSIVES.

            Provocando, por meio dos passes longitudinais nos sensitivos, com o sono magnético, o interessante fenômeno da regressão da memória e, assim, os fazendo remontar, de fase em fase, até a infância e, mesmo, antes da encarnação, pode aquele ilustre investigador colher uma série de esclarecimentos, verdadeiramente Ilustrativos dos grandes princípios fundamentais da nossa doutrina, contendo às vezes ligeiras modificações, como já vimos, de pontos secundários, entre os quais, mas por uma intervenção espírita, o depoimento, a que páginas atrás fizemos alusão, sobre os envoltórios fluídicos da personalidade humana.

            Os casos que por agora nos interessam foram observados com os sensitivos Joséphine e Eugénie. A primeira, conduzida, pelo indicado processo, à idade de 3 anos numa existência anterior, declara não estar inteiramente unida ao corpo e ver espíritos em torno dela, uns bons e outros maus. Quando estes a influenciam, fazem-na chorar e ter "caprichos."

            Eugénie, a seu turno, em um depoimento mais circunstanciado, declarou que "algum tempo antes de sua última encarnação havia sentido que era preciso reviver numa determinada família. Aproximou-se da que devia ser sua mãe e que acabara de conceber; não entrou no feto, mas envolveu a mãe até o momento em que a criança veio ao mundo. Penetrou pouco, a pouco, então, 'como "aos sopros", no pequenino organismo, em que não se achou completamente encerrada senão aos 7 anos. Até esse momento viveu parcialmente fora de seu corpo carnal, vendo-o, nos primeiros meses de sua existência, como se estivesse colocada exteriormente. Não distinguia bem os objetos materiais em derredor, mas percebia em compensação espíritos a flutuarem em torno. Uns, muito brilhantes, a protegiam contra outros, sombrios e malfazejos, que procuravam influenciar o seu corpo fluídico; quando estes últimos o conseguiam, provocavam-lhe esses acessos de raiva que as mamães chamam caprichos (1)."

            (1) Ob. cit., págs. 95.

            A dupla circunstância de ter sido feita espontaneamente essa descrição e de ser o sensitivo uma senhora de medíocre instrução e de modesta posição social, nada sabendo da filosofia espírita, pelo menos lhe confere o valor da imparcialidade. Mero subsídio, como deve ser considerada, para o estudo analítico do fenômeno da encarnação, julgou oportuno o coronel de Rochas reforça-la com o seguinte depoimento pessoal, em nota apensa à pagina citada:

            "Minhas mais antigas reminiscências  alcançam uma cena em que figurei, tendo apenas 18 meses; vejo ainda a cena em questão, que vivamente me Impressionara, e vejo-me a mim mesmo em parte. De uma pesquisa feita entre pessoas de minhas relações resulta que esse fato é assaz frequente.
                "Em apoio desta afirmação mencionarei o fragmento de uma carta que, em 18 de janeiro de 1905, me escreveu o Dr. Maxwell, então procurador geral em Bordeaux.
                "Conheço uma sensitiva - diz ele - que educa um filho e que, como tal, é deveras notável e vê naturalmente. O filho não é propriamente seu, mas lhe foi confiado, ao nascer. Ela vê sobretudo na obscuridade, ao lado da criança uma sombra luminosa, com as feições mais acentuadas que as daquela e de maior estatura. A aludida sombra, por ocasião do nascimento, estava mais afastada do menino do que atualmente. Parece penetrar pouco a pouco no corpo. O menino tem 14 meses e a penetração é de cerca de dois terços."

            Será esse - indagaremos por nossa parte - o caso geral?  Só a repetição das observações e das experiências conduzidas com o rigor e prudência que requerem, poderá autorizar a solução que mais tarde indubitavelmente receberão esse e outros assuntos que o Espiritismo abrange  em suas cogitações ilimitadas. O que por agora estamos no dever de assinalar, a título de probabilidade em relação à permanência do espírito, nos primeiros tempos da infância, mais em torno do corpo que nele propriamente integrado, é que de fato as crianças vivem mais no Além que em nosso plano físico. Não é disso uma prova o sono prolongado que as reclama, ao começo interrompido só para as urgências da amamentação e os indispensáveis cuidados de higiene, diminuindo apenas com os anos, mas para absorver metade e às vezes mais de cada dia? E, durante o sono, que faz o espírito senão flutuar no espaço, fruindo a temporária emancipação do seu ergástulo de carne?

            Há ainda uma circustância, embora não frequentemente registrada, que demonstra achar-se, naquela fase,  o espírito mais ou menos exteriorizado e, por conseguinte, oscilando na fronteira dos dois mundos: é que em muitas crianças se observa o fenôrmeno da vidência - faculdade que, parece, vai se generalizando em nossos dias, como a indicar que as novas gerações são portadoras de mais acentuados dons espirituais que as do passado.

            Estas considerações - acentuemos por final - não invalidam, coNtudo, o que ficou exposto acerca do processo da Encarnação, em resumo descrito por Allan Kardec e que tomamos por nossa parte a liberdade de ampliar, abordando particularidades analíticas, tendentes, não a firmar, sobre ocaso, doutrinas inovadoras, de que não alimentamos pretensão, mas unicamente a reunir subsídios de estudo, sempre indubitavelmente proveitoso, para a síntese futura em que - não o duvidamos - quando for soada a hora, há de ser unificado o majestoso edifício de todas as convicções imortalistas.  

            É verdade que, quando se fala em interpenetração molecular do períspirito e do corpo, tem-se a ideia de dois corpos de densidade embora diferente, que, em virtude da atração sobre um exercida pelo outro, se justapõem, constituindo um bloco unido, combinando-se no isocronismo de suas respectivas vibrações, o que parece inconciliável com o fenômeno de exteriorização a que aludimos. Que sabemos, porém, nós de positivo acerca do mecanismo particular do perispírito e de suas intimas relações com o corpo físico, a não ser que a sua coexistência é um fato e que também um e outro representam formas especializadas do dinamismo universal, em que afinal se resumem os infinitos, variadíssimos aspectos sob que se nos apresenta a substância única de que todas as coisas se originam?

            Basta, entretanto, considerar de um lado que, não sómente na infância, mas em todas as fases da existência neste mundo, o espírito, consoante a palavra da Revelação (1), "não está encerrado no corpo como a ave na gaiola," mas irradia em torno dele, podendo mesmo se afastar a incalculáveis distâncias ,como se tem experimentalmente demonstrado, e do outro que a substância do perispírito, mesmo através do duplo etéreo, que se lhe aproxima em tenuidade e o prende ao corpo, se caracteriza pela extrema expansibilidade peculiar aos fluidos, muito mais que aos próprios gases, para admitir, senão reconhecer que não existe incompatibilidade entre o fenômeno de exteriorização atestado pelos sensitivos do Sr. de Rochas e confirmado pela vidente a que o Dr. Maxwell faz referência, e a interpenetração molecular de que falamos, indispensável ao demais para que se estabeleça a ligação entre o espirito e o corpo.

                (1) Allan Kardec, O LIVRO DOS ESPÍRITOS, parte 2ª, cap. II,  nº 141.

            O que, em presença dos fatos, se pode com segurança asseverar é que, enquanto o corpo, obediente às leis físico-químicas que regem a sua composição, se conserva limitado, concreto e objetivo, o perispírito, posto que a ele intimamente associado, goza, em virtude do dinamismo peculiar à sua natureza, da faculdade de se expandir e exteriorizar, sem quebra dessa ligação, assim durante a fase que se pode considerar preparatória, como por toda a existência do individuo.

            Isto posto, resta ainda examinarmos o papel ou - se assim nos podemos exprimir -  as atribuições fisiológicas do perispírito na economia orgânica, bem como a ação que exerce o princípio vital como fator preponderante na duração da vida a que é chamada a personalidade humana, antes de prosseguirmos, sob outros aspectos, o estudo dessa personalidade.






[1] Radicela = raiz pequena.
[2] Cotilédone = cada um dos lobos da placenta.
[3] Fusionado = fazer a fusão de, amalgamar, confundir    Do blogueiro...

3 de Abril




03  de Abril

O corpo é provisório,
O espírito permanente,
Quem ama o ilusório
Se atrasa e não vai prá frente.

Octávio Caúmo Serrano 
in ‘Trovas da Codificação”  (1ª Ed. 1998  ‘Sal da Terra’)


segunda-feira, 2 de abril de 2012

2 de Abril




 02 de Abril

 Insiste na tolerância,
Nada reclames de alguém.
O Céu renova os caminhos
De quem persiste no bem.


 Jair Presente 
por Chico Xavier
in ‘Seguindo Juntos”  (1ª Ed GEEM  1982)



domingo, 1 de abril de 2012

Mensagem do Perdão



MENSAGEM DO
 PERDÃO

            Filho meu, minha voz não despreza tuas pequeninas coisas de cada dia, mas delas se eleva para as grandes coisas de todos os tempos.

            Ama o trabalho, inclusive o trabalho material.

            Coisa elevada e santa, o trabalho, presentemente, foi transformado em febre. De que não se tem abusado entre vós? Que coisa ainda não foi desvirtuada pelo homem? Em tudo vos excedeis e, por isso, ignorais o labor equilibrado, que tão elevado conteúdo moral encerra: se busca o necessário ao corpo, ao mesmo tempo contenta o espírito. E, no entanto, transformastes esse dom divino, com o qual poderíeis plasmar o mundo à vossa imagem, em tormento insaciável de posse. Substituístes a beleza do ato criador, completo em si mesmo, pela cobiça que nunca descansa. Quantos esforços empregados para envenenar-vos a vida!

            Ama o trabalho, mas com espírito novo; ama-o, não pelo que ele é propriamente, porém, como um ato de adoração a Deus, como manifestação de tua alma, nunca como febre de riqueza ou domínio. Não prendas tua alma aos seus resultados, que pertencem à matéria e, portanto, sujeitos à caducidade; ama, porém, o ato, somente o ato de trabalhar. Não seja a posse, o triunfo, a tua recompensa, mas, sim, a satisfação íntima de haveres cumprido, cada dia, o teu dever, colaborando assim no funcionamento do grande organismo coletivo.

            Esta é a única recompensa verdadeira, indestrutível, solidamente tua; as demais depressa se dissipam e se perdem. Ainda que nenhum resultado positivo obtivesses, uma recompensa ficaria contigo para sempre: a paz do coração, paz que o mundo perdeu por prender-se às coisas concretas, julgando-as seguras.

            Desapega-te de tudo, inclusive do fruto de teu trabalho, se queres entrar na posse da paz. Ocupa-te das coisas da terra, mas o suficiente para aprenderes a desapegar-te delas.

            Toda construção deve localizar-se no teu espírito, deve ser construção de qualidades e disposições da personalidade, e não edificação na matéria, que é um remoinho de areia que nenhum sinal pode conservar.

            Tudo o que quiserdes vos seja unido eternamente deve ser unido por qualidades e merecimento, deve ser enlaçado pela força sutil da Lei, por vós movimentada, nunca por vossa força exterior, ou por vínculos das convenções sociais ou ainda por liames da matéria. Só nesse sentido se pode realmente possuir: de outro modo, não obtereis senão a tristeza depois da ilusão e a consciência posterior da inutilidade de vossos esforços.

            Outro grande problema, que vos diz respeito, é o amor. Elevai-vos em amor, como deveis elevar-vos em todas as coisas, se quereis encontrar profundas alegrias. Martelai vossa alma, num íntimo trabalho de cada dia, que vos leva à conquista de amores sempre mais extensos, únicos que têm a resistência das coisas eternas.

            Sabes que o amor se eleva do humano ao divino e que nessa ascensão ele não se destrói, mas se fortalece, aperfeiçoando e multiplicando-se. Segue-me e, então, poderás entoar o cântico do amor:

            "Meu corpo tem fome e eu canto; meu corpo sofre e eu canto; minha vida é deserta e eu canto; não há carícias para mim, porém todas as criaturas vêm a mim. Meu irmão de mim se aproxima como inimigo, para prejudicar-me, e eu lhe abro os braços em sinal de amor. Eu vos bendigo a todos vós que me trazeis a dor, porque com ela me trazeis a purificação, que me abre as portas do céu. Minha dor é um cântico que me faz subir. Louvado sejas, ó Senhor, pelo que é a maior maravilha da vida; que as pobres intenções malignas de meu próximo sejam para mim a Tua Bênção".

            Estes meus ensinamentos são dirigidos mais à vossa intuição que ao vosso intelecto. Tem um sentido mais amplo o que vos tenho dito: a felicidade dos outros é vossa única felicidade, verdadeira e firme. Significa extinção dos egoísmos num amplexo universal de altruísmo. Tudo isso pode ser de fácil compreensão, mas é difícil senti-lo. Não procuro vossa razão que discute, antes busco essa visão interior que em vós opera, que sente por imediata concepção, que enxerga com absoluta clareza e lealmente se entrega à ação.

            Peço-vos o ímpeto que somente nasce do calor da fé e que nunca vem pelos tortuosos caminhos do raciocínio. Não desejo erudição, pesquisas e vitórias do intelecto; quero, antes, que vejais, num ato sintético de fé e que imediatamente vivais vossa visão, e personifiqueis a ideia avistada, e resplendais, vós mesmos, em seu esplendor. Somente então a ideia viverá na Terra e personificado em vós existirá um momento da concepção divina.

            Não estou apelando para vossos conhecimentos nem para vosso intelecto, que não são patrimônio de todos, mas venho até junto de vós por caminhos inabituais e em vós penetro como um raio que desce às profundezas e dissipa as trevas, que cintila e vos arrasta através de novas vias, com forças novas, que levantarão o mundo como num turbilhão.

            Também falarei, para ser entendido, a linguagem fria e cortante da razão e da ciência, porém usarei, acima de tudo, da linguagem ardente e direta da fé. Minha palavra será ora o brado de comando, ora a ternura de um beijo de mãe.

            Para ser por todos compreendida, minha palavra percorrerá os extremos de sabedoria e de singeleza, de força e de bondade. Será pranto de amargura e remoinho de paixão; será nostálgico lamento, suspirando por uma grande pátria distante, como será também ímpeto de ação para até ela conduzir-vos. Minha palavra rolará, por vezes, como regato sussurrante em verde campina, a trazer-vos o frescor das coisas puras; outras vezes, trovejará com os elementos enfurecidos na fúria da tempestade.

            Ao seio de cada alma quero descer e adaptar-me a fim de ser compreendido; para cada uma devo encontrar uma palavra que a penetre no mais íntimo, que a abale, que a inflame e a arroje para o alto, onde eu estou, que até junto de mim a conduza, onde eu a espero.

            Almas, almas eu peço. Para conquistá-Ias vim das profundezas do infinito, onde não existe espaço nem tempo, vim oferecer-vos meu abraço, vim de novo dizer-vos a palavra da ressurreição, para elevar-vos até mim, para indicar-vos um caminho mais elevado onde encontrareis as alegrias puras.

            Vós vos identificastes de tal modo com a vida física que já não podeis sentir senão uma vida limitada como a do vosso corpo. Pobre vida, rápida e cheia de incertezas, enclausurada nas limitações de vossos pobres sentidos. Pobre vida, encerrada num ataúde, na sepultura que é o corpo a que tanto vos agarrais. Minha voz encerrará todos os extremos de vossas diferentes psicologias. Escutai-me!

            Não vos ensino a gozar das coisas terrenas, porque são ilusórias; indico-vos as alegrias do céu, porque somente estas são verdadeiras. Minha verdade não é a fácil verdade do mundo; não vos prometo alegrias sem esforços, minha promessa não vos ilude. Meu caminho é caminho de dor, porém, eu vos digo que somente ele vos conduzirá à liberação e à redenção. Minha estrada é de luta e de espinhos, mas vos fará ressurgir em mim, que vos saciarei para sempre. Não vos digo: "Gozai, gozai", como o mundo vos fala. O mundo, porém, vos engana; eu não vos enganaria nunca.

            Minha verdade é áspera e nua, contudo é a verdade. Peço o vosso esforço, mas vos dou a felicidade. Digo-vos: "Sofrei", mas junto de vós estarei no momento da dor; com piedade maternal, velarei por vós; medindo todo o vosso esforço, proporcionarei as provas segundo vossa capacidade; finalmente, farei o que o mundo não faz: enxugarei vossas lágrimas.

            O mundo parece espargir rosas, mas na verdade distribui espinhos; eu vos ofereço espinhos, porém vos ajudarei a colher as rosas.

            Segui-me, que o exemplo já vos dei. Levantai-vos, ó homens: é chegado o momento. Não venho para trazer guerra, mas, sim, paz. Não venho trazer dissensão às vossas ideias nem às vossas crenças: venho fecundá-Ias com meu espírito, unifica-Ias na minha luz.

            Não venho para destruir e sim para edificar. O que é inútil morrerá por si mesmo, sem que eu vos dê exemplo de agressividade.

            Desejaríeis sempre agredir, até mesmo em nome de Deus. Com que grande avidez ansiais por discussões e lutas contra vossos próprios irmãos, prontos a profanar, assim, minha pura palavra de bondade. Repito-vos: "Amai-vos uns aos outros". Não discutais, mas dai o exemplo de virtude na dor; amai vosso próximo; aprendei a estar sempre prontos para prestar um auxílio, em qualquer parte onde haja um padecimento a aliviar, uma carícia a oferecer. Vossas eruditas investigações tornaram tão ásperas vossas almas que não vos permitiram avançar um só passo para o céu.

            Não venho para agredir, mas para ajudar; não para dividir, mas unir; não demolir, mas edificar. Minha palavra busca a bondade, antes que a sabedoria. Minha voz a todos se dirige. Ela é ampla como o universo, solene como o infinito. Descerá aos vossos corações, às vezes com a doçura de um carinho, outras vezes arrastadora como o tufão.

            Do alto e de muito longe venho até vós. Não podeis perceber quão longo é o caminho que nós, puro pensamento, devemos percorrer a fim de superar a imensa distância espiritual que nos separa de vós, imersos na terra lodosa. Vossas distâncias psicológicas são maiores e mais difíceis de ser vencidas que as distâncias de espaço e de tempo. Por isso, às vezes, chego fatigado. Minha fadiga, porém, não é cansaço físico: provém apenas do desalento que me nasce de vossa incompreensão. E, no entanto, minha palavra tem a doçura da eternidade e do infinito. Tem tonalidade tão ampla como jamais possuiu a voz humana: deveríeis, por isso, reconhecer-me.

            Venho a vós cheio de amor e de bondade, e me repelis. Eu, que vejo os limites da história de vosso planeta ; eu, que num rápido olhar, vejo sem esforço toda a laboriosa ascensão desta humanidade cujo pai sou, eu me faço pequenino hoje, limito-me e me encerro num átimo de vosso momento histórico para que possais compreender-me.

            Se vos falasse com minha voz potente, não me entenderíeis. Meu olhar contempla a Terra, quando o homem ainda não a habitava e também a vê, no futuro distante, morta, a navegar no espaço como um ataúde de todas as vossas grandezas. Vejo vosso sol moribundo, depois morto e em seguida chamado a uma nova vida. Vejo, além desse átomo que é o vosso planeta, uma poeira de astros a revolutearem sem cessar pelos espaços infinitos, e todos eles transportando consigo humanidades que lutam, sofrem, vencem e se elevam. Tudo vejo, tudo leio nos vossos corações como nos corações de todos os seres.

            Além do vosso universo físico, vejo um maior universo moral, onde as almas, na sua laboriosa ascensão, cumprindo seu diuturno esforço de purificação para o Alto; cantam o mais glorioso hino à Divindade. Esplendorosa luz existe no centro moral do universo, luz que atrai todos os seres por uma força de gravitação moral mais poderosa do que aquela que mantém associadas no espaço as grandes massas planetárias e estelares. Tudo vejo, mas nada falo para não vos perturbar. Tudo vejo e minha mão possante firma o destino dos mundos. Poderia mudar o curso dos astros, mas nós somos lei, ordem e equilíbrio e não aprovamos violações. Empunho o destino dos povos e, no entanto, venho humildemente até vós, para entre vós colher o perfume que se desprenda de uma alma simples. Esse é meu único conforto, quando desço ao ao vosso mundo (1), às camadas profundas e obscuras de matéria densa, formadas de coisas baixas e repugnantes. Aquele perfume parece perder-se na vossa atmosfera carregada de emanações perniciosas, como que vencido pelas forças envolventes do mal. Eu o percebo, no entanto, elegendo-o, e o recolho como se guarda uma joia humilde, porém preciosa. Recolho a delicada florzinha, humilde e gentil, desabrochada na lama, e a guardo em meu coração, onde ela repousará. É o único carinho que encontro em vosso mundo, o único hino, puro e singelo, que me faz descansar. Com a criancinha repousa aos cânticos de sua mãe, que lhe parecem os mais belos, assim me acalento, invadido por infinita doçura, no seio dessas vozes humildes dispersas em vosso mundo.

                (1) A propósito dessa Augusta Visita ao plano terrestre, recordamos ao leitor as excelentes páginas de "Obreiros da Vida Eterna", de André Luís (psicografia de Francisco Cândido Xavier, lª edição, 1946, pp. 16-18) que narram a experiência de Metelo, sábio instrutor espiritual. Ele conta como buscou sua elevação íntima e explica como o fez invigilantemente a princípio, sem bases espirituais de renúncia e perfeito amor: "também eu tive noutro tempo a obsessão de buscar apressado a montanha. A Luz de Cima fascinava-me e rompi todos os laços que me retinham em baixo, encetando dificilmente a jornada." Buscou elevar-se, mas ausentando-se sempre das baixas regiões da Terra e dos planos espirituais inferiores que se lhe avizinham ... até que, narra ele - "certa noite, notei que o vale se represava de fulgente luz... Que sol misericordioso visitava o antro sombrio da dor?
                Seres angélicos desciam, céleres, de radiosos pináculos, acorrendo às zonas mais baixas, obedecendo ao poder de atração da claridade bendita. "Que acontecera?" - perguntei ousadamente, interpelando um dos áulicos celestiais. - "O SENHOR JESUS VISITA HOJE OS QUE ERRAM NAS TREVAS DO MUNDO, LIBERTANDO CONSClÊNCIAS  ESCRAVIZADAS". Nem mais uma palavra. O Mensageiro do Plano Divino não podia conceder-me mais tempo. Urgia descer para colaborar com o Mestre do Amor, diminuindo os desastres das quedas morais, amenizando padecimentos, pensando feridas, secando lágrimas, atenuando o mal e, sobretudo, ABRINDO HORIZONTES NOVOS À CIÊNCIA E À RELIGIÃO, de modo a desfazer a multimilenária noite da ignorância. Novamente sozinho, na peregrinação para o Alto, reconsiderei a atitude que me fizera impaciente. Em verdade, para onde marchava o meu Espírito, despreocupado da imensa família humana, junto da qual haurira minhas mais ricas aquisições para a vida imortal? Porque enojar-me, ante o vale, SE O PRÓPRIO JESUS, QUE ME CENTRALIZAVA AS ASPIRAÇÕES, TRABALHAVA, SOLÍCITO, PARA QUE A LUZ DE CIMA penetrasse as entranhas da TERRA?"
                A vasta bibliografia católica-romana, desde os pais da Igreja às "Fioretti" e de São Francisco a Santa Teresa, reconhece a realidade da Presença operante de Cristo em nosso mundo, tão ingrato ao Divino Amor. Igualmente a literatura protestante, através de um dos mais belos livros evangélicos norte-americanos, - "Como Cristo Veio à Igreja" - defende, atualiza e exemplifica a mesma tese. (Nota do tradutor).

            Essa é a única trégua em meio ao trabalho de iluminar e guiar-vos, ó homens rebeldes, que acreditais dominar e sois dominados, que pensais subir, mas, na verdade, desceis. Eu poderia, contudo, atemorizar-vos por meio de prodígios, aterrorizar-vos com cataclismos. Convencer-vos-ia, no entanto? Minha mão se levanta sobre vós, que sois maus, como uma bênção, nunca para vinganças.

            Escutai com atenção esta grande palavra: desejo que o equilíbrio, violado pela vossa maldade, se restabeleça pelos caminhos do amor e não pelo castigo. Compreendeis a grande diferença?

            Eis as razões da minha intervenção, da minha presença entre vós.  

            A Lei quer o equilíbrio. É a Lei. Vós a desrespeitastes com vossas culpas, ultrajando assim a Divindade. O equilíbrio a “deve" restabelecer-se, a reação a “deve" verificar-se, o efeito  “deve" acompanhar a causa, por vós livremente buscada.

            Deus vos quer livres, já o sabeis. Pois bem, eu venho para que o equilíbrio se restabeleça pelos caminhos do amor e da compreensão; venho para incitar-vos, com palavras de fogo, ao entendimento, estimular-vos a retomar livremente a via da redenção; finalmente, venho ensinar-vos a fazer de vossa liberdade um uso que vos eleve e salve, e não que vos rebaixe e condene. Venho tornar-vos conscientes dessa Lei que vos guia e da maneira de restaurardes a ordem violada, a fim de que essa violação não venha a recair sobre vós, como tremendo choque de retorno que destruirá vossa civilização.

            Venho para salvar-vos, para salvar o que de melhor possuís, o que fatigosamente os séculos têm acumulado, ao preço de muitas dores e de muito sangue.

            Entre a necessidade férrea da Lei que, inexoravelmente, volve ao equilíbrio, interponho hoje o meu amor e a minha luz, como já interpus a minha dor e o meu martírio!

            Homens, tremei! É supremo o momento. É por motivos supremos que do Alto desço até vós. Escutai-me: o mundo será dividido entre aqueles que me compreendem e me seguem e aqueles que não me compreendem e não me seguem. Ai destes últimos! Os primeiros encontrarão asilo seguro em meu coração e serão salvos; sobre os outros a Lei, não mais compensada pelo meu amor, descerá inelutavelmente e eles serão arrastados por um vendaval sem nome para trevas indescritíveis.

            Não vos iludais: reconhecei a minha voz. Reconhecei-a pela sua imensa tonalidade, pela sua bondade sem fronteiras. Algum homem, porventura, já falou assim? Falo-vos de coisas singelas e elevadas, de coisas boas e terríveis. Sou a síntese de todas as Verdades.

            Não me oponhais barreiras de vossas almas, mas escutai, ponderai, deixai que este raio de luz que vem de Deus desça à vossa consciência e a ilumine. Eu vo-lo rogo, humilhando-me em vossa presença; humildemente, para vossa salvação, eu vos suplico: escutai a minha voz!

            Que sobre vós desça a paz. A paz! A paz que não mais conheceis venha sobre vossas almas! Entre vós e a divina justiça está minha oração: "Deus, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

            Pobres seres perdidos na escuridão das paixões; pobres seres que tomais por luz verdadeira o ouropel fascinador das coisas falsas da Terra! Pobres seres, maus e perversos! E, no entanto, sois meus filhos e por amor de vós de novo subiria à cruz para vos salvar. Pobre seres que, numa vitória efêmera de matéria, que chamais civilização, haveis perdido completamente o único repouso do coração -. a minha paz!

            Escutai-me. Falo-vos com amor, imenso amor. Fui por vós insultado e crucificado, e vos perdoei; perdoo-vos ainda e ainda vos amo. Trago-vos a paz. Até junto de vós retorno para falar-vos de uma ciência que a vossa não conhece, para pronunciar-vos a palavra que nenhum homem sabe falar, palavra que vos saciará para sempre. Escutai-me.

            Minha voz conduzirá vosso coração a um estase que nenhuma vitória material, que nenhuma grandeza do mundo jamais vos poderá dar.

            Como um clarão intuitivo, minha luz espargirá sobre vós uma compreensão a que os laboriosos processos de vossa razão não chegarão jamais. A razão, filha do raciocínio, discute e calcula, mas eu sou o clarão que em vós se acende e pode, num átimo, transformar-vos em heróis. Aceitai, suplico-vos, este supremo dom que vos ofereço e pelo qual vim de tão longe até junto de vós: aceitai esta dádiva esplêndida, que é a minha paz. É a bem-aventurança do céu, que vos trago de mãos cheias; é a felicidade que coisa alguma terrena jamais vos poderá dar. Reconhecei a minha paz! Para recebe-Ia, abri todas as portas de vossa alma! Dela saciai-vos, com ela inebriai-vos! É um dom imenso que vos trago do seio de Deus, é uma graça com que o meu imenso Amor recompensa a vossa ingratidão.

            Até vós eu venho, trazendo os mais lindos dons, para derramar sobre vossas almas a verdadeira felicidade. Venho para suavizar a Justiça Divina. Fiz longa e fatigante viagem, do meu céu radioso às vossas trevas. Vim espontaneamente, pelo amor que vos consagro. Não renoveis as torturas do Getsêmani, as angústias da incompreensão humana; os tormentos de um imenso amor repelido.

            Quem sou eu? - perguntais-me.

            Sou o calor do sol matinal que vela o desabotoar da florzinha que ninguém vê; sou o equilíbrio que, na variação alternadora dos elementos, a todos garante a vida. Sou o pranto da alma quebrantada, em que desabrocha a primeira visão do divino. Sou o equilíbrio que, nas mudanças dos acontecimentos morais, a todos promete salvação. Sou o rei do mundo físico de vossa ciência; sou o rei do mundo moral que não vedes.

            Sempre me procurais, em toda a parte. Sempre mais profundamente vos escapo, de fibra em fibra, nas vossas mesas de anatomia, de molécula em molécula nos vossos laboratórios. Vós me procurais, dilacerando e dissecando a pobre matéria:  mas eu sou espírito e animo todas as coisas. Não com os olhos e os instrumentos materiais, mas somente com os olhos e os instrumentos do espírito podereis encontrar-me.

            Sou o sorriso da criança e a carícia materna; sou o gemido daquele que morre implorando salvação; sou o calor do primeiro raio de sol da primavera, que traz a vida e sou o vendaval que traz a morte; sou a beleza evanescente do momento que foge; sou a eterna harmonia do Universo.

            Sou Amor, sou Força, sou Ideia, sou o Espírito que tudo vivifica e está sempre presente. Sou a Lei que governa o organismo do universo com maravilhoso equilíbrio. Sou a Força irresistível que impulsiona todos os seres para a ascensão.  Sou o cântico imenso que a criação entoa ao Criador.

            Tudo sou e tudo compreendo, até o mal, porquanto o envolvo e o limito aos fins do Bem. Meu dedo escreve, na eternidade e no infinito, a história de miríades de mundos e de vidas, traçando o caminho ascensional dos seres que para mim se voltam, seres que atraio com meu Amor e que recolherei na minha luz.

            Muitos mundos já vi antes do vosso, muitos verei depois dele. Vossas grandes visões apocaIípticas para mim são pequeninas encrespaduras nas dimensões do tempo. Virei, entre raios de tempestade, para dobrar os orgulhosos e elevar os humildes. Virei vitorioso na minha glória e no meu poder, triunfante do mal, que será rechaçado para as trevas.

            Tremei, porque quando eu já não for o Amor que perdoa e vos protege, serei o turbilhão que tempestua, serei o desencadear dos elementos sem peias, serei a Lei que, não mais dominada pela minha vontade, trazendo consigo a ruína, inexoravelmente explodirá sobre vós.

            Tudo é conexo no Universo: causas físicas e efeitos morais, causas morais e efeitos físicos. Um organismo compressor vos envolve e nele estais presos em cada ato vosso.

            Minha poderosa mão firma o destino dos mundos e, no entanto, sabe descer até a mais humilde criancinha para lhe suster, carinhosamente, o pranto. Essa é a minha verdadeira grandeza.

            Ó vós que me admirais tímidos, no ímpeto da tempestade, admirai-me, antes, no poder que tenho de fazer-me humilde para vós, no saber descer do meu elevado reino à vossa treva; admirai-me nessa força imensa que possuo de constranger meu poder a uma fraqueza que me torna semelhante a vós.

            Não vos peço que compreendais meu poder, que me situa longe de vós; rogo-vos que compreendais o meu amor que me assemelha a vós e me coloca ao vosso lado. Meu poder poderá desalentar-vos e atemorizar-vos, dando-vos de mim uma ideia não justa, a de um senhor vingativo e despótico. Não mais quero vossa obediência por temor.  Agora deve despontar uma nova aurora de consciência e de amor. Deveis elevar-vos a uma lei mais alta e eu retorno hoje para anunciar-vos a boa nova. Não sou um senhor vingativo e tirânico, como outrora, por necessidade, me supuseram os povos antigos: sou o vosso amigo e é com palavras de bondade que me dirijo ao vosso coração e à vossa razão.

            Não mais deveis temer, mas, sim, compreender. Vossa razão infantil já acordou e nela venho lançar minha luz. Sou síntese de verdade e em toda a parte ela surgirá, atingindo a luz da vossa inteligência.

            Não trago combates, mas paz. Não trago divisões de consciência e, sim, união de pensamentos e de espíritos.

            A humanidade terrestre aproxima-se de sua unificação, numa nova consciência espiritual. Não vos insulteis, pois; antes, compreendei-vos uns aos outros. Que cada um concorra com o seu grãozinho para a grande fé e que esta vos torne todos irmãos.

            Que a religião, que é revelação minha, e a ciência, que é o vosso esforço e todas as vossas intuições pessoais se unam estreitamente numa grande síntese, e seja esta uma síntese de verdade.

            Porque eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida.


‘Sua Voz’
2 de Agosto de 1932
Dia do ‘Perdão de Porciúncula’ de Francisco de Assis


por Pietro Ubaldi
 inGrandes Mensagens
tradução e apresentação de
Clóvis Tavares (Ed. ‘LAKE’ - 1952)





1 de Abril


01 de Abril

05/05     ‘Trovas do reconforto’

Sofrimento quando chega,
Furtando-te sonho e paz,
É bênção que o Céu envia
Para saber como estás.

Lucano dos Reis  

por Chico Xavier
in  ‘Reformador’  (FEB)  Agosto  1972