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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Vida Social


Vida Social
por Lucas Pardal (Alberto Nogueira da Gama)
Reformador (FEB)  Janeiro 1970

            P. - Podemos recrear o espírito? Ser-nos-á facultado participar de algum grêmio recreativo, literário, esportivo? Haverá inconveniente em integrarmos uma entidade de classe, desempenharmos atividades políticas, pertencermos a qualquer dos nossos partidos democráticos, devidamente legalizados?

            R. - Coisa alguma nos faz mal, desde que não seja má alguma coisa que tenhamos em vista fazer. Nada nos prejudica, quando não pensamos em causar prejuízos a outrem, ou compactuar com os maus, agindo por eles e como eles.
            Declaradamente, necessitamos de recreação para espairecer o espírito.
            Um bom filme tem seu lugar. (Ainda os há assim, embora em pequeno número, de nós depende saber e poder encontrá-los.) Uma boa peça teatral vale a pena ser vista. (Hoje em dia, as representações cênicas geralmente deixam muito a desejar; acham-se muito entremeadas de pornografias e, por vezes, de obscenidades mesmo, com toda a complacência da censura que as tolera e aprova.
            Mas, procurando-se bem, sempre se encontra alguma que preste e se recomende à nossa escolha. 
            Uma festa de aniversário, de casamento, de formatura, de bodas de prata ou de ouro, em regozijo à promoção de algum amigo, em comemoração a um acontecimento justo e digno, também tem sua razão de ser e merece a nossa solidariedade.
            Outros atos sociais, públicos ou privados, notadamente de cunho associativo, decorrentes de nossa posição na vida, em que prestigiamos vultos e empreendimentos, comportam nossa participação direta e ativa, a bem de alguém ou de alguma coisa que nos merece acatamento.
            Passeios e excursões a lugares pitorescos, banhos de mar, exercícios ao ar livre, são outras tantas coisas que nos proporcionam grande bem-estar ao corpo e à alma.
            Todavia, devemos observar todo o escrúpulo e a máxima precaução no sentido de que os divertimentos dessa ordem, ordinariamente benéficos, não degenerem em desvirtuamentos contrários aos fins por nós pretendidos alcançar, passando a influir perniciosamente em nosso âmago e sobre o nosso ânimo.
            O Cristianismo não é doutrina de almas tristes e penadas.
            “- Não tenhais medo, pois venho trazer-vos uma notícia, que, para vós, como para todo o povo, será motivo de alegria - é que hoje, na cidade de David, vos nasceu um Salvador que é o Cristo, o Senhor."
            Assim anunciava, o anjo, aos pastores o nascimento do Senhor.
            Depois, já com doze anos, Jesus, por iniciativa própria, comparece à Sinagoga para entreter palestra com os doutores da lei.
            Como conviva, vamos encontrá-Lo, no início do Seu messianato, nas Bodas de Caná, transformando a água em vinho.
            Em Betânia, vamos surpreendê-Lo em casa de Simão, o fariseu, dignando-se aceitar a manifestação de afeto e de desprendimento que Lhe é tributada por Maria de Magdala.
            Está presente ao banquete oferecido por Levi, em regozijo à sua adesão à Boa Nova.
            Em Naim, vê-mo-Lo na residência de Simão, o leproso, onde vai ter Maria para homenageá-Lo com o seu vaso de alabastro, que derrama sobre os seus cabelos, ungindo-Lhe depois os pés.
            Em Jericó, pousa na vivenda de Zaqueu, onde Lhe é tributada carinhosa e sincera demonstração de apreço.
            Em Jerusalém, cavalgando um jumento, recolhe, no silêncio do Seu recato e na majestade de Sua singeleza, a calorosa recepção da multidão alegre e confiante.
            À Sinagoga, o imponente templo dos judeus, comparece e age, ora falando das coisas do Reino de Deus, ora dialogando com os escribas e fariseus, ora promovendo curas admiráveis.
            Em Cafarnaum, recebe visitas, a elas dispensando toda a Sua carinhosa atenção.
            Em suas atividades, não se recusa a acolher a presença de patrícios romanos, de áulicos imperiais, aos quais ouve e fala, entretendo-se em confabulações edificantes.
            Não desdenha de privar com os publicanos, que se aprazam em tê-Lo como conviva ou visitante, sempre que há oportunidade.
            São as magistrais lições do Mestre, para que estejamos com todos, mostrando-lhes Deus em nossas vidas, demonstrando-lhes nossas vidas em Deus.
            Desfrutemos das justas e nobres alegrias da existência humana, sem prevenções nem receios infundados.

*

            O instinto gregário dita a necessidade de aproximação. A identidade de gostos e pendores, a afinidade de tendências e predileções elevadas atraem as almas, enlaçam-nas, congregam-nas em torno de motivos comuns. O espírito de companheirismo e os sadios impulsos de amizade determinam uniões e reuniões de uns com outros, para fins nobres e construtivos.
            Não temos o direito de querer que todos sejam espíritas como nós, mas temos o dever de nos mostrar espíritas para com todos.
            Por outro lado, não nos cabe formar um mundo à parte, uma comunidade à margem da vida, segregando-nos do convívio social, de consequências tão salutares e necessárias ao desenvolvimento de nossas faculdades espirituais.
            Será mais acertado fazermos parte de grêmios recreativos, culturais, artísticos e desportivos, que pretendermos instituí-los nos Centros Espíritas, desviando estes de sua precípua finalidade, que é a do estudo e divulgação do Espiritismo.
            Será mais compreensível e aceitável estarmos filiados a uma entidade de classe, relacionada com a natureza de nossa profissão ou atividade, que pensarmos em dividir e subdividir o meio espírita em departamentos estanques, num trabalho ingrato e inglório de fracionamento dispersivo, sem pontos comuns de junção e conjunção que nos entrelacem num sentido único de entrosamento.
            Será mais aconselhável pertencermos a partidos políticos de genuína inspiração nacionalista, de insuspeita idoneidade ideológica, que desejarmos formar ligas eleitorais nos recintos de nossas Casas de estudo e trabalho, ou fazer deles bases de eleitorado.
            Se não estivermos dentro da Vida para agir, influindo para melhor na ordem dos acontecimentos, influenciando os outros para o Bem, sob as inspirações do próprio Bem de que estejamos influenciados, em que outra situação achamos que podemos estar e onde, com maior proveito, próprio e alheio, entendemos poder atuar?

            Caracterizemos nossa condição de espiritista por sinceras expansões de afeto, por benéficas exteriorizações de bom-humor, por envolventes e cativantes manifestações de delicadeza, por francas e espontâneas demonstrações de cordialidade e ânimo jovial, de afabilidade e doçura. 

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