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sexta-feira, 30 de junho de 2017

Jesus sob o ponto de vista Kardec-Roustaing

Jesus sob o ponto de vista Kardec-Roustaing
por Luiz Autuori
Reformador (FEB) Novembro 1938

Conferência lida na FEB em 25-10-1938.

            Atravessando séculos e gerações, a doutrina do Cristo chegou até nós sob a forma de Revelação Consoladora, tendo em todos os tempos espargido sua força máscula.

            Da Gênese ao Apocalipse, encontramos os mesmos fatos naturais acolhidos sem grande espanto.

            Em eras antiquadas, as manifestações se produziam de modo acessível à Interpretação e elevação dos povos, tal como na atualidade, e como se produzirão de futuro, realçando apenas, para os que os lobrigarem sem fortes embaraços, como se já houvessem sentido o prenúncio de sua vinda. Para os que não podem ainda conceber e aceitar esse Cristianismo puro do Cristo, a Terceira Revelação ainda não foi anunciada e eles esperam confiantes a vinda do Messias.

            É, apenas, uma questão de tempo; o momento decisivo de redenção soará
para todos.

            É bem verdade que, estribando-se na doutrina de Jesus, surgiram crenças religiosas confusas e intolerantes que, agarrando-se à “letra que mata”, forjaram imagens improfícuas e argumentos incautos, empanejando assim as sólidas bases do Cristianismo.

            O espírito de seita, movido por divergências e contradições absurdas, então naturais, forçou a separação de crenças, dividindo-as, subdividindo-as finalmente.

            Influiu, ainda mais, a incúria nessas inovações, que sempre foram aceitas relativamente com entusiasmo.

*

            Apoiado nesse enleiamento constante e submetendo-me a insistentes interrogatórios, poderia concluir que cada ser tem uma religião própria, beliscando aqui e ali migalhas doces para o entendimento racional, e não teria grandes contestações, segurando-me à lei da evolução, que põe cada ser num plano diverso.

            Onde quer que se encontre o observador, a perspectiva lhe mostra uma face sempre nova, e o que parece branco para um Manoel Quintão, para um Guillon Ribeiro, para um Antonio Lima, etc., torna-se azul para um Carlos Imbassahy, para um Henrique Andrade, para um Cesar Gonçalves, etc., e o que se julgou face plana foi tida como convexa.

            É assim, nesse enrodilhamento, que relevaremos a justiça dos homens, pois 
a virtude pode tornar-se erro, o erro um vício e o vício um crime, sujeitos como são a tão estranhos pontos de vista.      

            Essa diversidade não é atribuível a enganos de ótica espiritual. É a imagem perfeita, vista e sentida de per si por todos os seres.  

            Assim, quem bastante autoritário para bradar, então, que Kardec errou?

            E que Espírito, altamente elevado, será capaz de sustentar a firmeza de Roustaing?

            E eu vos digo que ambos olharam por um prisma inconfundível e certo.

            Kardec sustentou o peso infrene das injúrias, sem que seu arrojo admirável fosse abatido.

            Lutou ardoroso e heróico, sentindo o bafejo das inspirações celestiais e não foi jamais vencido pelo inimigo, pois que seus primeiros ensinamentos ainda comportam matéria amplamente fértil.

            Confessa, como Jesus, não ter dito tudo sobre a verdade - razão de sobra para que procuremos penetrar mais fundo ainda, nesse mundo invisível de sabedoria, para aprender algo sobre as qualidades particulares do Mestre.

            Afigura-se-me, às vezes, que Kardec tenha falado também por parábolas, quando incidentemente encontro criaturas que não puderam compreeendê-lo e que se perdem num emaranhado de confusões nocivas e patentemente vazias de raciocínio.

            É o celebre toque de seguimento à “letra que mata” desprezando por completo
o “espírito que vivifica”.

            Se traduzirmos qualquer tema ao pé da letra, sem atendermos à retórica e às entrelinhas, acabaremos imbuídos no mesmo labirinto, e eis-nos a negar, com todas as forças, o que não pudemos entender.

                                                                       *
            Agora o assunto.    

            Kardec e Roustaing, inspirados pelos guias, nada mais fizeram do que emprestar um esforço assíduo e explanar o que lhes havia sido confiado.

            Assim, Kardec declara que Jesus, COMO ESPÍRlTO PURO, desprendido da matéria, devia viver mais da vida espiritual do que da corpórea, da qual não tinha as FRAQUEZAS.

            Ora, as fraquezas da carne se originam das paixões vis, que agasalhamos por entre séculos até que, esbatidas pelo sofrimento, revertam em bens morais.

            Jesus já era puro quando veio à Terra; e, como o sofrimento é o cadinho da purificação, nada tinha o Cristo a purificar.

            Segundo ainda Kardec, Jesus, não podendo estar sujeito a fraquezas corpóreas pela sua elevação espiritual, tomou, entretanto, a organização dos seres carnais.

            Logo, esse corpo devia possuir QUALIDADES PARTICULARES, que o tornaram isento das necessidades comuns aos homens, achando-se ligado ao Espírito apenas por laços estritamente indispensáveis.

            Assim, a superioridade de Jesus, não estando totalmente nas particularidades do seu corpo, mas na grandeza do seu Espírito, que dominava essa matéria de modo absoluto, não deixa, entretanto, de desvendar que aquele corpo possuía, também, uma SUPERIORIDADE SENSÍVEL sobre os homens, isto pelas propriedades singulares de que era dotado.

            Fatos, que hoje são logicamente explicados, foram tidos por miraculosos e 
aqui otimamente enquadrado está o da transfiguração de Jesus no Monte Tabor.

            Uma luminosidade esplendente, partindo do seu Espírito, irradiou-se, transfigurando-lhe inteiramente o semblante.

            Notemos que, para uma tão estranha transformação, as QUALIDADES PARTICULARES do corpo de Jesus foram aproveitadas e combinadas às propriedades raras do seu perispírito quintessenciado.

            No ser humano vulgar, um sentimento de bondade ou, mesmo, a singeleza natural pode deixar transparecer uma fisionomia radiante de simpatia. Entretanto, por muito elevado que fosse, nunca se transformaria INTEIRAMENTE, porque a matéria, que O reveste, demasiadamente grosseira, não tem aquelas QUALIDADES PARTICULARES que possuía o corpo de Jesus.

            Temos outro ponto a estudar. É o do desaparecimento imprevisto do corpo carnal de Jesus, não contestado, que vem suscitar também sérias confusões, quanto à sua organização física.

            Este fato, aliás importantíssimo, nos leva a crer na ressurreição da carne, ou na sua fluidificação.

            O corpo de Jesus não foi visto após o sepultamento, senão em APARÊNCIA TANGÍVEL, desaparecendo sem a transição da morte.

            Ora, se houve a ressurreição íntegra da carne, para que se produzissem os fenômenos consecutivos de materialização e invisibilidade, era preciso que esse ressurgimento adquirisse novas modalidades como a da volatilização e condensação das moléculas anteriormente ponderadas.

            Não se terão estabelecido, com a hipótese dessa ressurreição, novas dúvidas mais perigosas?
               _
            Não haverá laivos na harmonização das leis gerais e imutáveis, que presidam à transformação da matéria, se admitirmos que Jesus exercera sobre o seu próprio corpo carnal esse poder de eterização, completamente fora das nossas capacidades?

            Mas, embora mesmo confusos os estudiosos, de qualquer prisma que se olhe, vemos sempre em Jesus um ser majestoso, superior, brilhante, ressaltando das roupagens que lhe atribuímos.

            Quer moral, quer fisicamente, Ele se eleva formidavelmente acima das baixezas terrenas.

            Entretanto, para satisfação plena dos nossos sentidos medíocres, da nossa inteligência assaz acanhada, precisamos ver o Cristo nivelado à nossa altura; vê-lo como homem, para justificarmos o seu sofrimento e seguirmos o belo exemplo da resignação, esperançosos da vitória que Ele alcançou.

            Precisamos vê-lo como homem, para aceitar sem escrúpulos a sua morte carnal, posto que a razão nos grite que o corpo fluídico, sendo imaterial, não podia morrer.

            Precisamos vê-lo como homem, porque foi gerado do Espírito Santo num corpo de carne, impregnando-se provavelmente dessa matéria humana, urna vez reconhecida a virgindade materna.
           
            Essa fecundação anormal outorgou a Jesus, possivelmente, QUALIDADES PARTICULARES á sua construção corpórea, qualidades que contribuíram poderosamente, após o sepultamento, para a dispersão das moléculas que não foram geradas diretamente pelo Espírito Santo, mas assimiladas do corpo virgem de Maria.

            Assim se presume que Jesus teve, de fato, um corpo carnal, mas que nesse corpo atuava, grandemente, a força central do seu Espírito luminoso e essas pequenas densidades espirituais que colaboraram na sua formação humana.

            E, de fato, se teve Jesus um corpo carnal, dotado de capacidades superiores, que asseguravam a sua manutenção livre de alimentos; que foi gerado em condições irregulares; que, finalmente, após a morte, sofreu estranhas transformações, desaparecendo de vez, é de presumir-se que nesse corpo, embora humano, tenha prevalecido alguma força que assegurasse igualmente a sua resistência contra as dores.

            Nesse corpo humano de constituição invulgar, uma inatacável couraça fazia frente, sem temor, aos mais terríveis ataques materiais.

            Por que razão firmarmos que Jesus sofreu se as dores não eram senão investidas à matéria?

            E porque se poderia isentar facilmente de senti-las, como facilmente se privara de necessidades outras imprescindíveis à matéria na sua totalidade?

            Só uma face desse raciocínio pode ser vista sem despertar dúvidas: - Jesus, capacitado do seu papel de missionário, deveria submeter-se, tal como os homens, a sofrimentos físicos e morais. Quer adotando um corpo carnal, quer materializando um fluídico, Ele deveria experimentar dores corpóreas, não como expiação, mas como verdadeiro abnegado, cheio da vontade firme de transmitir a verdade e de ensinar às gerações vindouras que só pelo sofrimento aguentado resignadamente podem ser galgados os degraus da perfeição.

*

            Estudando-se a natureza dos fluidos, tem-se chegado à conclusão de que eles, impelidos por uma vontade firme e superior, são perfeitamente maleáveis, esculpindo qualquer forma, por mais complexa ou exótica, diáfana ou tangível e com extrema exatidão.

            Jesus, pela missão altamente elevada de que foi incumbido, e não se querendo, apenas, avaliar o seu grau de pureza pelo magno amor que coroou a sua existência terrena, foi um Ser extraordinariamente dotado; e a natureza desses fluidos brilhantes, que ornaram o seu Espírito e, mesmo, a sua estrutura física, autorizam a crença de que Ele não se revestiu de carne pesada e humana, mas, sim, desse invólucro cinzelado artisticamente por uma vontade imperiosa e inata.

            Assim, tendo chegado a hora suprema de descer a esse caos de torturas, infâmias e provações no qual se debatia desorientada a humanidade bestial, ignorante e sofredora, Jesus - símbolo do amor, farol da vida - como soldado intrépido e cônscio da natureza do encargo e feliz de bem cumpri-lo, baixou à terra, dando esse primeiro passo, o grande passo de uma intensa responsabilidade, revestido do maior fulgor, da magna beleza, que se concentram admiravelmente na grandeza da HUMILDADE.

            E Jesus nasceu sob a proteção serena de Maria, no âmbito miserável de uma estrebaria, tendo por berço as palhas secas da manjedoura.

            Nasceu como qualquer mortal, arrastando a fragilidade dos recém-natos, na inconsciência do próprio ser: carecente da vigilância materna e entregue, afinal, ao redemoinho da vida, como quem vai cumprir uma pena dolorosa e purificadora.

            Nesse passo inicial, as luminárias são ofuscantes, porque nelas se encerra todo o vigor da HUMILDADE inqualificável do verdadeiro Mestre.

            Basta este princípio de simplicidade,  esta condição, de ínfimo vivente, cuja destra guardava os destinos da humanidade, para avaliarmos, imprecisamente embora, o quilate elevadíssimo desse Espírito Eleito, guardava os destinos da humanidade, para avaliarmos, imprecisamente embora, o quilate elevadíssimo desse Espírito Eleito.

            Pelo prisma de Roustaing, não há, positivamente, a fraude a que querem atribuir tudo, os menos estudiosos. Ao contrário, cabe perfeitamente, nas alusões a que me referi a aparência de naturalidade manifesta em todos os atos de Jesus, aparência essa que significa e demonstra a semelhança extraordinária e irrepreensível do Cristo - ser humano - o que, de modo algum, implica mistificação.

Aparentar uma forma que, na realidade, não existe, nem sempre constitui fraude; e, neste caso, particularmente, não é senão uma SÁBIA INCORPORAÇÃO que apresenta, ao mesmo tempo, leveza e forma, transparência e tangibilidade.

            Senão, que diríamos da estranha caminhada de Jesus sobre as ondas?

            Que pensaríamos da magistral transfiguração do Monte Tabor?

            Que concluiríamos dos múltiplos “milagres”?

            É certo que, em todas essas fases da vida de Jesus, não houve, para bem dizer, apenas a exterioridade, como se se tratasse de um jogo de ilusão. O que brilha fortemente aí são os profundos motivos de espiritualidade; são os átomos da verdade e da luz, que seus permanecem num estado mais ou menos latente na humanidade, porém sempre prontos a progredir com vigor, em momento próprio. 

            Prosseguindo nas análises, vamos deparar com Jesus no templo, a confundir os doutores da lei, sendo ainda uma criança.

            Pode-se afirmar, sem medo, que por essa época já o Missionário escolhido tomava  posse de si mesmo, integralizando-se, plenamente consciente, no importantíssimo papel que deveria representar para a redenção humana.         

            E as suas próprias palavras o atestam quando, reprimindo os cuidados ansiosos de Maria, declara, peremptoriamente que lhe cabia cumprir as ordens do Pai Celestial.

            A linguagem, por certo elevada, o tom suave da sua voz e, mais que tudo isso, o
conceito do seu discernimento provaram, desde logo, a supremacia do seu Espírito.

            A inteligência brilhante nessa idade precoce revelava uma ilustração primaz e inata,  não se podendo admitir a sombra de uma dúvida no manancial de beleza de que o seu Espírito era repositório.

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