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quarta-feira, 10 de junho de 2020

Com que ouvido ouviremos?



Com que ouvido ouviremos?
por Boanerges (Indalício Mendes)  
Reformador (FEB) Setembro 1975

            A irritação fomentava intrigas no ambiente da sinagoga de Corinto. Há um ano e seis meses, Paulo de Tarso, contando com o auxílio precioso de Tito Justo, disseminava a mensagem do Cristo, já carregando em sua bagagem a Primeira Epístola aos Tessalonicenses. Os judeus protestavam, iniciando um processo contra Paulo, repleto de acusações. Forçado pelas circunstâncias, na posição ingrata de administrador e encarregado de fazer se cumprissem os ditames legais, Júnio Gálio - o pro cônsul de Acaia .- determinou a prisão do indiciado.
            Não satisfeita, a sinagoga requisitou do irmão de Sêneca permissão para conduzir o Convertido ao tribunal. A intransigência e o fanatismo entraram em cena, e Paulo foi preso ainda na véspera, enquanto pregava o Evangelho no núcleo cristão daquela agradável edificação de Júlio César, chamada a joia da velha Acaia.
            A assembleia entrou em pânico: tochas apagadas... gritos, ditérios, vozes descontroladas... Em meio ao caos, a voz do ex rabino ganha altura e ecoa paio recinto uma das mais belas indagações que se conhece na história do cristianismo nascente:
            “- Irmãos, acaso quereis o Cristo sem testemunho? “
            Paulo estende os pulsos à violência da dogmática, e, como a recordar a prisão do Rabi Galileu, enfrenta o obscurantismo:
            “- Estou pronto!”
            A superioridade provoca o despeito, e estala lhe sobre o rosto o açoite. Repetia-se, naquele momento, um dos mais transcendentes episódios dos que haviam marcado a vida de Jesus, numa simetria notável:
            “- A quem buscais?”
            “- A Jesus Nazareno.”
            "- Eu o sou.”
            Sob o impacto da vibração do Filho Unigênito, a soldadesca rola pelo chão.
            “- A quem buscais?”  
            “- A Jesus Nazareno.”
            “- Já vos disse que sou eu...”
            O Mestre diz a Pedro que embainhe a espada, pois que aquele que ferir com a espada pela espada será ferido.
            Paulo, por sua vez, asserena os ânimos, acalmando o tumulto incipiente com a pergunta:
            “- Irmãos, acaso quereis o Cristo sem testemunho?"

*

            Jesus, vindo do território de Dalmanuta, onde não prometera aos homens outros sinais que não os que lhes dera o profeta Jonas, na cidade de Nínive, passara por Betânia, e trouxera Lázaro do túmulo para fora. Pouco depois, era preso e conduzido à cruz.
            Paulo, por sua vez: regressava de Atenas em estado de profundo abatimento, e começava, intimamente, a preparar-se para o martírio de Jerusalém. O discípulo palmilhava a mesma estrada do seu Mestre!
            “- Irmãos, regozijemo-nos em Cristo-Jesus. Estejamos tranquilos e jubilosos porque o Senhor nos julgou dignos...” é ainda a voz de Paulo que se eleva.
            Enquanto o Apóstolo dos Gentios era lançado a frio cárcere, reinava a paz na igreja de Corinto. Atado à versão antiga do pelourinho escravagista, trinta e nove vezes o chicote estalou sobre o corpo denso daquele que fora arrebatado ao terceiro céu e vira coisas que os homens não compreenderiam.
            No entanto, imensa já fosse a dor moral - a mais pungente lágrima que veríamos - não se fez senhora a maceração física. Era o primeiro grande êxtase. Informa Emmanuel que só pela madrugada Paulo despertou, com o sol a acariciar lhe as feridas.
            Depois do meio-dia, três soldados conduziram-no à presença do pro cônsul. Inicia-se a oralidade do processo.
            Júnio Gálio, diante da arrogância de Sóstenes - representante da Sinagoga -, exige a presença de um porta-voz do núcleo de Corinto, para a defesa do acusado. É Tito Justo quem se apresenta, sob os aplausos frenéticos dos gregos.  
            Sóstanes deblatera, perante a curiosa atitude do pro cônsul de Acaia, que, com o indicador, tapa um dos ouvidos. Ex1remamente incomodado, o judeu requisita esclarecimento a fim de que a atitude não seja tomada como desconsideração.
            A resposta de Júnio Gálio é um primor de filosofia, um encanto de bom senso, uma pérola de energia e uma grande lição de correção. Uma daquelas frases que servem a iluminar nações e a marcar uma época:
            “- Suponho não estar aqui para dar satisfação de meus atos pessoais e sim para atender aos imperativos da justiça. Mas, em obediência ao código da fraternidade humana. declaro que, a meu ver, todo administrador ou juiz em causa alheia deverá reservar um ouvido para a acusação e o outro para a defesa.”

*

            Ainda não era chegado o momento de Paulo. A cegueira dos judeus não remontara ao grau da que, há mais de meio século, então, transbordara, com os acontecimentos da Betânia, o cálice de fel do farisaísmo, levando o Nazareno ao suplício do Gólgota. Os ouvidos dos fariseus não puderam suportar as harmonias que vibravam na palavra do Salvador, que partia para que o Consolador pudesse vir-nos. Paulo, por sua vez, “-Viveria ainda entre a raça de víboras que perseguira o Redentor.
            Liberto, estabelece-se o tumulto. Os gregos agridem os judeus. Tito Justo, aflito, pede a Júnio Gálio interfira e sane a desordem. Este, profundo observador, conclui com acento de impassividade:
            “- Não nos preocupemos. Os Judeus estão muito habituados a esses tumultos. Se eu, como juiz, resguardei um ouvido, parece-me que Sóstenes deveria resguardar o corpo inteiro na qualidade de acusador." (1)

            (1) Deixai aos mortos os cuidados de enterrar seus mortos.”

            Profunda lição do Evangelho nos lábios do romano:
            Quem julga pelas contingências da Terra pese sempre a intenção, esquecendo a letra fria: reserve um ouvido para a acusação, o outro para a defesa... e o coração para a verdade; e use a fala para, magnânimo, exaltar as virtudes de prudência e sabedoria. Quem acusa, resguarde o corpo inteiro, porque a acusação é a espada que fere, e quem fere por ela por ela será ferido. Uma vez disparado o mecanismo, resta aguardar que a pressão retorne ao normal.
            Novamente, eleva-se a voz de Paulo:
            “- Irmãos, apaziguai-vos por amor ao Cristo!..
            E tudo cessou.
           
*

            Quase dois mil anos se passaram e permanecem as mesmas interrogações a desafiar-nos o Espírito:
            - Com que ouvidos ouviremos? Com que mãos trabalharemos? Ouviremos com os ouvidos de ouvir? Trabalharemos com as mãos que deixam aos mortos o cuidado de enterrar seus mortos, na caridade exemplificada pelo Rabi? Que ouvido reservaremos à verdade? O de Sóstenes, escravo da má tendência? .. Ou o de Júnio Gálio, resguardando-nos o corpo de acusação, reservando um ouvido para a verdade e o coração para a implantação da Reino de Deus na Terra?..
            Não mais perguntemos o que é a verdade, porque o Cristo mostrou-nos a verdade, e nós já a possuímos. Até quando negar-lhe-emos força, iludindo-nos na mentira?
            A todos os momentos somos chamados a prestar ouvidos de ouvir, precisamente fechando nossa audição às sugestões da maldade, e reservando nosso verbo a serenar a turba alucinada ante as dificuldades. Buscamos o Cristo sem bem sabermos como: Acaso o queremos sem testemunho?..
            Novas circuncisões e novas notícias alarmantes virão tisnar-nos a vida, já tão comprometida com a lavratura das atas da nossa incúria. Das modernas Antioquia, Tessalônica, Psídia e Listra chegarão más notícias que nos levarão a viver ainda mais a Boa Nova. Hoje, essas igrejas podem ser o nosso próprio lar. Santifiquemo-las... doutrinamos nossos ouvidos, a fim de que, com o Cristo no coração, deitemos pena sobre papel para escrever a nossos bem-amados irmãos de raça, com quem nos identificamos nas mesmas condições de mendigos da esmola divina, esta pobre humanidade que sofre por desejar sofrer... e que escrevamos a eles sob o influxo dos nossos Estevãos queridos:

            “- Nós, apóstolos de Cristo-Jesus, por mandato de Deus, nosso Salvador, e de Cristo-Jesus, nossa esperança, a vós, verdadeiros filhos nossos na fé. Graças, Misericórdia e Paz da parte de Deus e de Cristo-Jesus. Senhor nosso.”

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