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terça-feira, 27 de março de 2012

Mensagem da Ressurreição





MENSAGEM DA RESSURREIÇÃO

            De além do tempo e do espaço chega minha voz. É uma voz universal que fala ao mundo inteiro e verdadeira permanece através dos tempos. A verdade não pode sofrer mudanças se olhada por esta ou aquela nação, se observada por uma raça ou outra, porque a alma humana é sempre a mesma em toda parte, se examinada em sua profundeza.

            Venho a vós, hoje, na Páscoa, acima de tudo para iluminar e confortar, pois vos achais imersos numa vaga de dores. Crise a denominais e a imaginais crise econômica. Eu, porém, vos digo que se trata de uma crise universal, crise de todos os vossos valores morais, de todas as vossas grandezas. É o desmoronar-se de todo um mundo milenário. Digo-vos que a crise se encontra sobretudo em vossas almas: crise de fé, de orientação, de esperanças. É o vertiginoso momento de grandes maturações.

            Trago-vos esperança, orientação, paz. A cada um falo hoje a palavra da verdade e do amor, palavra que não mais conheceis. Quero reconduzir-vos às origens milenárias da fé com o intelecto novo, nascido de vossa ciência. No dia da Ressurreição, repito-vos a palavra da ressurreição, a fim de que possais compreender a dor e ultrapasseis as estreitas fronteiras de vossa vida. Comovido, falo a cada um no sagrado silêncio de sua consciência.

            Ó tu que lês, afasta-te, por um momento, dos inúteis ruídos do mundo e escuta!' Minha voz não te atingirá através dos sentidos, mas através desta leitura, senti-Ia-ás aflorar dentro de ti na linguagem de tua personalidade. Minha voz não chega, como todas as coisas, do exterior, contudo, surgirá em ti, por caminhos desconhecidos, como coisa tua, da divina profundeza que em ti existe e na qual também estou.

            O universo é infinito e de longe venho, atraído pela tua dor. Nada me atrai tanto corno a dor, porque somente nela o homem é grande, e se purifica e redime, dirigindo-se para destinos mais elevados. É triste serdes assim golpeados, mas, somente sofrendo, podeis compreender a realidade da vida. Exulta, porque este é o esforço da tua ressurreição!

            A quem sofre eu digo: "Coragem!I És um decaído que na sombra reconquista a grandeza perdida".

            É a justa reação da Lei que livremente transgredistes e que exige o retorno ao equilíbrio; instrumento de ascensão, a dor vos aponta o caminho de que fugistes; impõe-vos reabrirdes vossa alma, fechada pelas alegrias fáceis que infelizmente vos cegam, para que alcanceis júbilos mais altos e verdadeiros. A dor é uma força que vos constrange a refletir e a buscar em vós mesmos a verdade esquecida. É imposição de um novo progresso.

            Abraça com alegria esse grande trabalho que te chama a realizações mais amplas. Se não fosse a dor, quem te forçaria a evolver para formas de vida e de felicidade mais completas?

            Não te rebeles; pelo contrário, ama a dor. Ela não é uma vingança de Deus e sim o esforço que vos é imposto para mais uma conquista vossa.

            Não a amaldiçoes, mas apressa-te a pagar o débito contraído pelo abuso da liberdade que  Deus te deu para que fosses consciente. Abençoa essa força salutar que, superando as barreiras humanas, sem distinção transpõe todas as portas, penetra o que é secreto, e fere, e comanda, e dispõe, e por todos se faz compreender. Abraça a dor, ama-a, e ela perderá sua força. Aceita a indispensável escola das ascensões. Se te revoltares, tua força nada conseguirá contra um inimigo invisível e a violência, em retorno, mais impetuosamente cairá sobre ti.

            Coragem! Ama, perdoa e ressuscita! Não procures nos outros a origem de tua dor, mas, sim, em ti mesmo, e arrepende-te. Lembra-te de que a dor não é eterna, porém uma prova que dura até que se esgote a causa que a gerou. Tua dor é avaliada e não irá jamais além de tuas forças. O mundo foi criado para a alegria e a alegria lhe voltará. Da outra margem da vida, outras forças velam por ti e te estendem os braços, mais do que tu ansiosas pela tua felicidade.

            Falei com o coração ao homem de coração. Falarei agora à inteligência.

            Tendes, ó homens, a liberdade de vossas ações, nunca a de suas consequências, Sois senhores de semear alegria ou dor em vosso caminho, e não o sois de alterar a ordem da vida. Podeis abusar, porém, se abusardes, a dor reprimirá o abuso. De cada um de vossos males, fostes vós mesmos que semeastes as causas.

            O maior erro de vossos tempos é a ignorância da realidade moral, íntima orientação da personalidade, que é o fundamento da vida social.

            O homem moderno se aproxima de seu semelhante para tomar-lhe alguma coisa, nunca para beneficiá-lo. A vossa civilização, que é econômica, está baseada no princípio do "do ut des[1]", que é a psicologia do egoísmo. É a força econômica sempre a reger o mundo. A psicologia coletiva não é senão a soma orgânica dessas psicologias individuais. A riqueza se acumula onde a força a atrai, e não onde a necessidade ou superiores exigências a reclamam; não constitui instrumento de uma vida de justiça e de bem, mas, sim, máquina de poder, representando, em si mesma, um objetivo. A lei de equilíbrio é constantemente violada e impõe reações. Não dominais a riqueza, conduzindo-a a fins mais elevados: é a riqueza que vos domina.

            Trabalhai, mas que o escopo do vosso trabalho não se reduza apenas a proveitos isolados e egoístas, e sim a frutificar no organismo social; somente então se formará aquela psicologia coletiva, que é a única base estável da sociedade humana.

            Fazei o bem, todavia, lembrai-vos de que o pobre não deseja propriamente o supérfluo de vossas riquezas, mas que desçais até ele, que partilheis de sua dor e, até, que a tomeis para vós, em seu lugar.

            Venerai o pobre: ele será o rico de amanhã.  Apiedai-vos do rico, que amanhã será o pobre. Todas as posições tendem a inverter-se a fim de que o equilíbrio permaneça constante. A riqueza tende para a pobreza e a pobreza para a riqueza. Ai daqueles que gozam! Bem-aventurados os que sofrem! Esta é a Lei.

            Não confieis no mundo, que rirá convosco enquanto tiverdes força e bem-estar; confiai, antes, em mim, que venho quando sofreis e vos trago auxílio e conforto. Já vedes, hoje, que a dor realmente existe e que nem o ceticismo nem qualquer poder humano conseguem afastá-Ia.

            Uma radical mudança verificar-se-á na sociedade humana, a fim de que a vida não mais seja um ato de conquista, onde triunfe o mais forte ou o mais astuto, mas, sim, um ato de bondade e de sabedoria em que seja vitorioso o mais justo. Investigando-as com vossa ciência, achareis no íntimo das coisas essa suprema Lei de equilíbrio que vos governa; aprendereis que a bravura da vida não está em violar essa Lei, semeando para vós mesmos reações de dor, porém, em segui-Ia, se de dor, porém, em segui-la, semeando efeitos de bem. Deveis também aprender que o vencedor não é o mais forte - esse é um violador - e sim quem segue conscientemente o curso das leis e sem violência se equilibra no seio das forças da vida. As religiões já o revelaram, entretanto, não acreditastes ; a ciência o demonstrará, todavia não desejareis ver. O momento é decisivo. Ai de vós se, nesta vitória de civilização material em que viveis, desejardes ainda perseverar no nível do bruto.

            Está maduro o mundo, mas, ao mesmo tempo, cansado de tentativas e experiências, do irresolúvel emaranhado de vossos expedientes; cansado de viver do momento, em face de um amanhã repleno de incógnitas; e quer seriamente prever e resolver os grandes problemas da vida, quer francamente olhar o futuro, ainda que isso reclame uma grande coragem.

            O mundo tem necessidade da palavra simples  e forte da verdade e não de novas astúcias a rolarem por velhos caminhos. O mundo espera essa palavra com ansiedade, como também a aguarda o momento histórico.

            A psicologia coletiva tem o pressentimento, embora confuso, de uma grande mudança de direção; sente que o pensamento humano, não mais infantil, apresta-se para tomar as rédeas da vida planetária e que o homem vai substituir o equilíbrio instintivo e cego das leis biológicas por outro equilíbrio, consciente e desejado. Por isso está buscando a luz, para que seu poder não naufrague no caos.

            Não está longe de desaparecer vossa psicologia experimental, que será substituída pela psicologia intuitiva; esta, a muito longe, conduzirá vossa ciência. Novos homens divulgarão a verdade; não mais serão mártires cobertos de sangue, nem se assemelharão aos anacoretas de outrora, porém homens de inteligência e de fé, que difundirão seus pensamentos utilizando-se de moderníssimos recursos, homens que servirão de exemplo no meio do turbilhão de vossa vida.

            Despedaçai a férrea jaula que o passado para vós construiu, e onde já não vos resta espaço. Ousai abandonar os velhos caminhos, mas não ouseis loucamente, onde não há razão para ousadias; ousai na direção do alto e nunca ousareis demasiadamente. Do grande mar de forças latentes, que não percebeis, imensa vaga levantará o mundo.

            Até lá, guardai a fé! A vossa crise, se é profunda e dolorosa, fará, no entanto, nascer o homem novo do terceiro. milênio. (1). Para resolvê-Ia, recordai que ela é mal de substância, que não se debela corrigindo a forma, como procurais fazer. Para solucioná-Ia é necessário considereis o problema em sua substância; e sua substância é o homem, sua psicologia, sua alma, onde se encontra a motivação de suas ações, a fonte original dos acontecimentos humanos. Eis aí a chave do futuro.

            (1) O argumento do "homem novo do terceiro milênio", produto biológico da evolução e tipo normal da super-humanidade do futuro, é amplamente desenvolvido em " A NOVA CIVILIZAÇÃO DO TERCEIRO MILÊNIO", 2ª Trilogia, volume 7º, das Obras Completas de Pietro Ubaldi, a ser publicado em vernáculo por esta Editora.
                "A GRANDE SÍNTESE", 1ª Trilogia, volume 2º, das Obras Completas, também se refere ao homem espiritual do próximo milênio, nos caps. 78, 83, 84, 85 etc. (Nota do Tradutor).

            Vosso multimilenário ciclo de civilização está a esgotar-se; deveis retomá-lo em nível mais elevado, vivê-lo mais profundamente, não somente crendo, mas, também, "vendo",

            Ai de vós se, depois de haverdes atingido  o domínio do planeta, não dominardes a máquina, a riqueza e as vossas paixões, com um espírito puro.

            Sois livres e podeis também retroceder (1). N o período que resta deste século se decidirá do terceiro milênio. Ou vencer, ou morrer: e a morte, desta vez, é a morte pior, porque é morte de espírito (2).  

            (1) Para evitar possíveis' mal-entendidos ("os mal-entendidos são detestáveis", pondera Pietro Ubaldi em "HISTÓRIA DE UM HOMEM", (5º volume, 2ª 'Trilogia, das Obras Completas), observemos que o "retroceder" de que fala a Mensagem não tem um sentido negativista, antibiológico ou anti-evolutivo, porém, exprime uma consequência natural da relativa liberdade humana: "Sois livres e podeis também retroceder". Esse abuso do livre-arbítrio conduz ao que EMMANUEL chama de "queda do espírito": "Conquistada a consciência e os valores racionais, todos os espíritos são investidos de uma responsabilidade, dentro das suas possibilidades de ação; porém, SÃO RAROS os que praticam seus legítimos deveres morais, aumentando seus direitos divinos no patrimônio universal. Colocada por Deus no caminho da vida, como discípulo que termina os estudos básicos, a ALMA nem sempre sabe agir em correlação com os bens recebidos do Criador, CAINDO pelo orgulho e pela vaidade, pela ambição ou pelo egoísmo ... "  ("O CONSOLADOR", de Francisco C. Xavier, F. E. B. 1941, pág. 248). Acrescenta ainda Emmanuel que a "queda do espírito" pode dar-se até fora da Terra: "A Terra é um plano de vida e evolução como outro qualquer, e nas esferas mais variadas, A ALMA PODE CAIR, em sua ROTA EVOLUTIVA ... " (Idem, pág. 249).
                Essa "queda do espírito" é, de algum modo, o leitmotiv de duas esplêndidas obras: "A Caminho da Luz", de Emmanuel, e "Os Exilados da Capela", de Edgard Armond.
                Não se trata de regressão substancial da psique humana e sim de uma falência moral, sempre temporária, porque a Evolução é a suprema lei da vida.
                Como ensina "A GRANDE SÍNTESE", "tudo é cíclico, vai-e-vem, AVANÇA E RETROCEDE; PARA MAIS PROGREDIR. E, se repete, resume e descansa, isto nada mais representa senão uma retomada de forças, uma pausa para SEMPRE MAlS ELEVADA EXPANSÃO. Esta é a evolução no seu mecanismo íntimo, a evolução que resume a mais profunda significação do universo. A verdade de minhas palavras está escrita no vosso mais potente instinto, na vossa aspiração que é SUBIR SEM LIMITE, SUBIR ETERNAMENTE." ("A Grande Síntese", Edição LAKE, cap. XXVI). Leiam-se ainda, para maior domínio do argumento, os caps. XXVII, XLIX e LXIV. (Nota do tradutor).

            (2) As observações da nota anterior também se estendem a esta. A expressão "morte de espírito" poderia, a quem menos avisado, causar estranheza. Não se trata, porém, absolutamente, como é fácil perceber, de "morte DO espírito", isto é, de destruição do ser espiritual, da alma humana, pois a individualidade psíquica é por natureza IMORTAL. O texto italiano diz: “ è la morte peggiore perchè è morte DI spirito", Trata-se de "morte de espírito", isto é, de valores espirituais e culturais do homem e da civilização do segundo milênio, como se lê na pág. 36.
                A palavra "espírito" está empregada não no sentido usual de "alma humana", mas, num caso de sinédoque, é aqui usada em sentido mais amplo, de "valores espirituais" do homem e do atual ciclo evolutivo, que podem sofrer um colapso, logicamente transitório, nunca definitivo, porque a Lei impõe evolução.
                Basta recordar o seguinte trecho de "A Grande Síntese", que, usando a palavra "espírito" com esse último sentido tropológico, afirma categoricamente: "Ai das religiões que não desempenharem a sua função de salvar OS VALORES ESPIRITUAIS do mundo! O ESPÍRITO não pode morrer e ressurgirá alhures, fora delas! ("A Grande Síntese", Edição LAKE, pág. 420).
                Homens e povos estão sujeitos a quedas com consequentes degredos espirituais, que são verdadeiras "mortes de espírito", contingentes, e não absolutas, transitórias, nunca definitivas. É delas que fala o Evangelho, tantas vezes; um só exemplo: "Em verdade, em verdade vos digo que se alguém guardar a minha palavra não verá A MORTE", disse Cristo (Jo., 8:51).
                A Mensagem adverte o homem da queda próxima da civilização materialista, tal como seis anos mais tarde, em 1938, nosso venerável Emmanuel se expressou: "Ditadores, exércitos, hegemonias econômicas, massas versáteis e inconscientes, guerras inglórias, organizações seculares, passarão com a vertigem de um pesadelo... O SÉCULO QUE PASSA efetuará a divisão das ovelhas no imenso rebanho... Uma tempestade de amarguras envolverá toda a Terra. Os filhos da Jerusalém de todos os séculos devem chorar, contemplando essas chuvas de lágrimas e de sangue que rebentarão das NUVENS PESADAS DE SUAS CONSCIÊNCIAS ENEGRECIDAS. Condenada pelas sentenças irrevogáveis de seus erros sociais e políticos, a Superioridade européia DESAPARECERÁ PARA SEMPRE, como o Império Romano, entregando à América o fruto das suas experiências, com vistas à CIVILIZAÇÃO DO PORVIR". ("A Caminho da Luz", Francisco C. Xavier, 2ª ed., págs. 172, 173).
                Explana ainda Emmanuel: "Muitos Espíritos, de corpo em corpo, permanecem na Terra com as mesmas recapitulações durante milênios. A semeadura prejudicial condicionou-os à chamada "MORTE NO PECADO"... E homens e povos continuarão DESFAZENDO a obra falsa para recomeçar o esforço outra vez". ("Caminho, Verdade e Vida", de F. C. Xavier, 1949, págs. 65 e 68).
                Eis como devemos entender "morte de espírito". (Nota do tradutor).

            A todos eu digo: "Ressuscitai com a minha ressurreição."

assina ‘Sua Voz’                           Páscoa  de 1932
por Pietro Ubaldi
 inGrandes Mensagens
tradução e apresentação de
Clóvis Tavares (Ed. ‘LAKE’ - 1952)






[1] Do Blog: ‘Dou para que me des’. 


Mensagem de João Batista



Mensagem de
João Batista

 11,2 Tendo João, em sua prisão, ouvido falar das obras de Cristo, mandou-lhe dizer pelos seus discípulos:
11.3 Sois Vós aquele que deve vir ou devemos esperar por outro?
11,4   Respondeu-lhes Jesus: Ide e contai  a  João  o  que  ouviste e o que vistes:
11,5 Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos  são  limpos,  os  surdos  ouvem, os mortos ressuscitam, a boa nova é anunciada aos pobres...
11,6 Bem aventurado aquele para quem Eu não for ocasião de queda!
11,7 Tendo ele partido, disse Jesus a respeito de João: “ -Que fostes ver no deserto?  Um caniço agitado pelo vento?
11,8 Que fostes ver então? Um homem vestido de roupas luxuosas? Mas, os que estão revestidos de tais  roupas vivem nos  palácios  dos  reis.
11,9 Mas, então, por que fostes para lá? Para ver  um profeta? Sim, Digo-vos Eu, mais que um profeta.
11,10  É dele que está escrito: “ -Eis que envio Meu mensageiro diante de ti para te preparar o caminho.”(Mal 3,1)
11,11 Em verdade vos digo, entre os filhos das mulheres, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no reino dos céus é maior do que ele.
11,12 Desde a época de João Batista até agora, o reino dos céus é  dito ser arrebatado
a força e que são os violentos que o conquistam.
11,13 Porque os profetas e a lei tiveram a palavra até João.
11,14  E, se quereis compreender, é ele o Elias que devia voltar.

         Para Mt (11,12-14),  encontramos a palavra de Kardec, no Cap. IV de “O Evangelho...”:

            “Esta passagem de Mateus é inequívoca; é ELE MESMO o Elias que deve vir; não há, aí, nem figura, nem alegoria: é uma afirmação positiva.

            “Desde os tempos de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência.” Que significam essas palavras, uma vez que  João Batista vivia naquele momento?  Jesus as explica dizendo: “Se  quereis  compreender o que  vos disse, é  ele mesmo o Elias que deve vir.” Ora,  João não sendo outro senão Elias,  Jesus faz alusão ao tempo em que  João vivia sob o nome de Elias.  “Até o presente, o reino dos céus  é  tomado pela violência” é uma outra alusão à violência da lei mosaica que ordenava o extermínio dos infiéis para ganhar a terra prometida, paraíso dos Hebreus, enquanto que, segundo a nova lei, o céu se ganha pela caridade e pela doçura.” 

            Para  Mt  (11,11) - Maior ou menor no reino dos Céus - leiamos ao Cap. III de “O Céu e o Inferno”, de Kardec, uma das cinco obras em que se codifica o Espiritismo:

O Céu

            “Em geral a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda Terra, e mais particularmente a parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim coelum, formada do grego coilos, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade. Os antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos, de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por Centro. Girando essas esferas em torno da Terra, arrastavam consigo os astros que se achavam em seu circuito. Essa ideia, provinda da deficiência de conhecimentos astronômicos, foi a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalados, os diversos degraus da bem-aventurança: o último deles era abrigo da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão - estar no sétimo céu - para exprimir perfeita felicidade...”

            “A ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. A Terra não é mais o eixo do Universo, porém um dos menores astros que rolam na imensidade; o próprio Sol mais não é do que o centro de um turbilhão planetário...”

            “Revelando-nos a Ciência mundos semelhantes ao nosso, Deus não podia tê-los criado sem intuito, antes deve tê-los povoado de seres capazes de os governar.”

            “O homem compõe-se de corpo e Espírito: O Espírito é o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o invólucro material que reveste o Espírito temporariamente, para preenchimento de sua missão na Terra e execução do trabalho necessário ao seu adiantamento...”

            “Existem, pois, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados; e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, em redor de nós como no espaço, sem limite algum designado...”

            “Pelo progresso, os Espíritos adquirem a felicidade, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto....”

            “Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-se eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.”

            “O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entreveem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados...”

            “A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos, ou, por outra, pelos puros Espíritos, que não a conseguem senão depois de haverem progredido em inteligência e moralidade...”

            “A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades...”

            “Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para o Espírito adquirir todo o bem que lhe falta e eliminar o mal que lhe sobra...”

            “Mas Deus, que é soberanamente bom e justo, concede ao Espírito tantas encarnações quantas as necessárias para atingir seu objetivo - a perfeição...”

            “No intervalo das existências corporais o Espírito torna a entrar no mundo espiritual, onde é feliz ou desgraçado segundo o bem ou o mal que fez...”

            “A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos...”

            “A suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana jamais poderia descrever, que a imaginação mais fecunda não poderia conceber.

             Consiste também na penetração de todas as coisas, na ausência de sofrimentos físicos e morais, numa satisfação íntima, numa serenidade dalma imperturbável, no amor que envolve todos os seres, por causa da ausência de atrito pelo contato dos maus, e, acima de tudo, na contemplação de Deus e na compreensão dos seus mistérios revelados aos mais dignos.

             A felicidade também existe nas tarefas cujo encargo nos faz felizes.

            Os puros Espíritos são os Messias ou mensageiros de Deus pela transmissão e execução das suas vontades. Preenchem as grandes missões, presidem à formação dos mundos e à harmonia geral do Universo, tarefa gloriosa a que se não chega senão pela perfeição. Os da ordem mais elevada são os únicos a possuírem os segredos de Deus, inspirando-se no seu pensamento, de que são diretos representantes.”

            “Nessa imensidade ilimitada, onde está o Céu? Em toda parte. Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam e os vícios interditam.” 


27 de Março



27 Março

 Sentença clara da vida
Que serve em qualquer lugar:
Quem não dá do que lhe sobra
Nega o que deve pagar.

 José Nava

por Chico Xavier
in Reformador”  (FEB) Agosto 1970

segunda-feira, 26 de março de 2012

26 de Março


26 Março


  Quem procura projeção
E prega conformidade
Termina por ser pregado
Na cruz da desigualdade.


  Sebastião Lasneau   
por Gilberto Campista Guarino 
in ‘Centelhas de Sabedoria”  (1ª Ed FEB 1976)





domingo, 25 de março de 2012

Antonio Wantuil de Freitas


Discípulo
Fiel e Prudente

inReformador’ (FEB) Abril 1974

Somos muito absoluto em nossas ideias?
Somos um cabeçudo com quem nada se pode fazer?
Ah! meu Deus, cada um tem seus pequenos defeitos;
 temos o de não pensar ora branco, ora preto;
temos uma linha traçada e dela não nos desviamos para ser agradável a ninguém.
É provável que sejamos assim até o fim."  

(Allan Kardec,
Revue Spirite, 1866, páginas 115/6. Le Spiritisme Indépendant.)


            Retornou ao mundo espiritual de que se afastara para o cumprimento de difíceis tarefas no plano físico, o velho companheiro e amigo - ex-Presidente da Federação Espírita Brasileira -, o nosso confrade Antônio Wantuil de Freitas.

            É praticamente difícil, num simples artigo elaborado às carreiras, quando este periódico já devia estar rodando nas oficinas, dizer o suficiente sobre quem liderou o movimento espírita durante tanto tempo - o mais longo período de um Presidente da FEB. Tentaremos, porém, dizer apenas o indispensável, em algumas linhas, relativamente a uns poucos aspectos de sua marcante presença na Casa-Máter do Espiritismo.

            Em 24 de julho de 1936, o então Presidente da FEB, Dr. Guillon Ribeiro, por carta, solicitou a A. Wantuil de Freitas aquiescência para a indicação de seu nome à Assembleia Deliberativa, exatamente para o cargo de Gerente do “Reformador”. Por correspondência do dia seguinte, Wantuil recusava amavelmente o honroso convite, por razões que Guillon Ribeiro fulminou em mensagem do dia 27 do mesmo mês:

            “O que a malevolência ou a perversidade dos que procuram detrair o Espiritismo, ou combatê-Io sem escrupulizar na escolha das armas de que se valham, possam inventar para impedir que qualquer de nós sirva, da melhor maneira possível, à causa santa de que ele, o Espiritismo, é símbolo, jamais deverá, nem poderá constituir obstáculo a que acudamos ao chamamento dos nossos maiores, para o desempenho da tarefa que nos hajam designado. Digo assim, porque, não procedendo nunca precipitadamente à busca dos companheiros que venham ocupar um posto na fileira, em que nos encontramos, dos que aqui na Federação se acham à frente da obra que lhe está confiada; sendo antes essa busca fruto de maduras cogitações, de meditações demoradas, bem podemos considerá-la resultado de inspiração do Alto, o que vale dizer: feita, realmente, pelos nossos maiores da Espiritualidade, por aqueles que são os verdadeiros dirigentes desta Instituição. Foram eles, pois, que o escolheram e, como não agem senão inspirados, a seu turno, pelo Mestre Divino, a Este, em última análise, é que pertence a escolha de que falo (...).”

            A epístola de Guillon se estende ainda a outras considerações, finalizando na pressuposição de que a resposta, agora, só poderia ser favorável. No documento, do próprio punho do nosso amigo recém-desencarnado, figura esta informação:

            “Wantuil não aceitou ainda. Guillon lhe telefonou para um entendimento na Federação. Wantuil foi conhecer pessoalmente o seu futuro amigo. Confessou-Ihe todas as suas imperfeições, mas, desse entendimento, resultou a sua eleição para a Diretoria. Não houve argumentos que destruíssem os de Guillon.”

            Durante mais de sete anos consecutivos, Wantuil respondeu pela Gerência do "Reformador”, cargo no qual se houve com o valor que todos lhe conhecêramos.

            Esses anos foram para o nosso companheiro como que severa iniciação às responsabilidades que iria assumir, nos 27 anos que se seguiriam, como Presidente da Casa de Ismael. Com efeito, ao contato com experimentados e valorosos disseminadores do Evangelho do Senhor, em espírito e verdade, à frente dos quais avultava o venerando Guillon Ribeiro por suas reconhecidas virtudes intelectuais e morais, foi A. Wantuil de Freitas absorvendo, assimilando, diríamos melhor: conscientizando-se das firmes diretrizes que as tradições espirituais da nossa venerável Instituição mantêm vivas ao longo de quase um século de trabalhos, de sacrifícios, de renunciações, inspirada nos exemplos e testemunhos do Cristo de Deus.

            Dentre as tradições a que nos referimos, uma delas corresponde à linha programática do “Reformador”. Para ilustrar essa assertiva, reproduzimos o final da carta que o então Presidente Guillon Ribeiro dirigiu, em 1936, a confrade que se prontificava a colaborar nestas colunas:

            “ ... o Reformador, na qualidade de órgão da Federação, obedece a uma orientação doutrinária definida e invariável: a dessa Instituição, orientação essa que não pode sofrer nenhuma solução de continuidade, por transigência com opiniões que dela divirjam ou se afastem muito ou pouco.”

            Na Gerência do “Reformador”, cargo a que sempre se referiu com respeitoso apreço, Wantuil viu fecharem-se as portas da FEB, por força de atos emanados de autoridades competentes para emití-Ios, por duas vezes: a 27-10-1937 e a 9-4-1941. Participou das providências e decisões que culminaram na reabertura da Casa, dias após cada uma daquelas datas.

            “A singularidade do golpe, que só mais tarde alcançou outras agremiações da mesma natureza, está, de certa maneira, a indicar que o verdadeiro alvo era o Espiritismo. Ferido seriamente na cabeça, não poderia ele subsistir. Era naturalmente o raciocínio dos que o hajam inspirado, sem levarem em conta a irrevocabilidade da lei divina ...” (1937) “ ... não podemos, nem devemos, para conhecimento dos que, de futuro, tratando da marcha do Espiritismo em nosso país, estudem o período que ora transcorre, deixar de dizer alguma coisa acerca do fato singularíssimo do fechamento de todas as agremiações espíritas desta Capital, a Federação inclusive, em virtude de uma Portaria ...” (1941).

            Foram os batismos de fogo do futuro Presidente da Casa de Ismael, cujos detalhes, alguns surpreendentes, são encontráveis nas coleções do “Reformador” dos anos indicados. Por razões óbvias, somente em 1948 seriam narrados episódios ligados a 1941 (“Reformador” de agosto de 1948[1], pp. 190/1), de que Wantuil teve direta, pessoal e perigosa participação.

            GuilIon Ribeiro, de há muito, desejava recusar a sua reeleição, com o que jamais concordaram os companheiros de Diretoria. Tampouco os Espíritos aconselhavam-lhe qualquer resolução definitiva nesse sentido. Alguns anos antes do seu desenlace, uma mensagem mediúnica, psicografada por Francisco Cândido Xavier, confirmava em linhas gerais, sob a responsabilidade do nome respeitável de Bittencourt Sampaio, orientação que lhe viera anteriormente, no Grupo Ismael : “Não podemos, no momento, prescindir da sua longa experiência ...”  Mas, o tempo foi passando, e os homens por ele. E é assim que, em 26-10-1943Guillon concluía um dos períodos mais brilhantes da Federação, regressando à Pátria Espiritual.

            A Assembleia Deliberativa reuniu-se e elegeu Antônio Wantuil de Freitas para terminar o mandato presidencial de Guillon Ribeiro, reelegendo-o, posterior e sucessivamente, enquanto a saúde permitiu-lhe manter-se a testa da Casa Máter do Espiritismo, vinte e seis vezes.

            Quantas iniciativas de profundas repercussões marcaram a administração dinâmica e corajosa de A. Wantuil de Freitas? Outros companheiros dirão, melhor do que nós, quanto foi feito em tantas áreas e em diversas épocas, com relação ao Esperanto, a que ele deu plena cobertura, ao Pacto Áureo e ao Conselho Federativo Nacional, ao chamado “Caso Humberto de Campos”, ao “Reformador”, às obras de sua autoria, aos centenários da Codificação do Espiritismo e de cada obra da Codificação, às emissões de selos postais comemorativos (os únicos no mundo), etc., etc. Dezenas e dezenas de livros, os mais importantes e significativos para a era do Espírito, foram transferidos do Plano Espiritual para o “Coração do Mundo” durante a longa e profícua permanência desse querido confrade na direção terrena dos destinos febianos.

            Mas, de todas as obras, uma delas, paralelamente ao “Reformador”, que lhe merecia um carinho muito grande, a do livro espírita, recebeu de Wantuil de Freitas dedicação ininterrupta desde o início de sua administração, conhecida no país e no exterior pela sua profunda significação. Historiamos, em diversos artigos no “Reformador”, a vida deste (outubro de 1972) e do Departamento Editorial, a nossa “Cidade do Livro”, em São Cristóvão, (outubro de 1973), além de cada etapa da  expansão do programa do livro (vide coleções de 1970/1973)[2], de sorte que não cansaremos o leitor com repetições desnecessárias, bastando que ele recorra a fascículos ou coleções indicados para sua completa elucidação com pertinência ao gigantesco empreendimento, gigantesco pelo alcance quase ilimitado da instrução espiritual que, graças a ele, a Espiritualidade Maior proporciona ao Espírito em evolução, e gigantesco, ainda, face aos recursos mobilizados junto a uma comunidade de crentes, quais soem ser os espíritas, grandemente onerada com responsabilidades de variada gama no capítulo de auxílio e assistência ao próximo.

            Vale a pena, neste ensejo, respigar alguns tópicos de Wantuil no “Reformador”, a propósito da obra do livro que, pela sua natureza, envolve sempre os mais diversos setores da atividade espírita. Por eles, lembraremos as lutas constantes que precisou enfrentar em laboriosos decênios, recordando, também, a energia com que invariavelmente precisou revestir suas atitudes e decisões, frente às insinuações e acusações de toda sorte. Em 1947, o “Reformador” de agosto apresentou, em diversas páginas, impressionantes relatos sobre os ataques à obra do livro espírita e as incursões dos inconformados com o programa da Federação.

            “Se examinarmos a História do Espiritismo, verificaremos que não foram os adversários humanos os ocasionadores do desaparecimento das grandes sociedades espíritas existentes em vários países no fim do século passado; antes, concluiremos que tais adversários contribuíram indiretamente, estimulando aquelas sociedades ao trabalho, e elas estariam até hoje prestando à Humanidade os seus serviços, se a campanha dos adversários continuasse apenas dos púlpitos, dos jornais e dos livros.” “ ... chegaremos à conclusão de que o maior perigo reside dentro do nosso próprio meio, no qual agem os antagonistas do outro plano da vida, inspirando discórdias, ataques e lutas, na esperança de também ocasionarem o derrocamento do Espiritismo brasileiro. “No Brasil, além da chamada questão do corpo fluídico, com a qual se iniciaram na Europa para a destruição posterior da obra de Kardec, o que realmente conseguiram, outros processos são utilizados, quais os de espalharem mentiras e até mesmo calúnias, ora afirmando que a nossa Sociedade deixou de publicar as obras do Codificador; ora nos tachando de interpoladores de princípios doutrinários em obras mediúnicas, numa tentativa de apoucamento do respeito existente pelos nossos melhores médiuns, ora, finalmente, apresentando a Federação, à qual devem o conhecimento superficial que puderam adquirir da Doutrina, como muito mais perigosa que a reunião do clero de todas as religiões que há um século nos combatem.”

            Mas, o cuidado do nosso amigo não ficava apenas na constatação do quadro desolador, pois em seguida a outras considerações, com riqueza de detalhes, nos adverte:

            “Esforcemo-nos por nulificar-lhes o trabalho maléfico, sem contudo nos esquecermos de que tais criaturas merecem (ser) amparadas pelas nossas preces, a fim de que não venham a cair ainda mais e possam, assim auxiliadas, reparar o mal...”  “Verificando que muita razão tinha Kardec em se dedicar à difusão da Doutrina pelo livro, único veículo de penetração rápida e segura em todos os meios sociais, tivemos a felicidade de fazer-nos compreendidos por um pequenino grupo de abnegados companheiros, e, então, sem prejuízo dos serviços normais, há vários decênios prestados pela Casa aos que lhe batem à porta e atualmente aumentados, nos pusemos à obra de ampliação de nossas oficinas gráficas, ao mesmo tempo que passávamos a selecionar os livros que mereciam (ser) divulgados. “Infelizmente, porém, contrastando com o exemplo de confrades que, nessa e em outras oportunidades, têm colaborado financeiramente no trabalho de difusão da Doutrina pelo livro, outros companheiros, embora em condições de prestar auxílio, preferiram, mais uma vez, permanecer insensíveis, agarrados ao dinheiro de que são transitoriamente depositários; outros, por influência daqueles mesmos Espíritos que agiram em outras regiões do planeta, lhe são até mesmo contrários, e, num terceiro grupo, ainda outros existem cuja capacidade de visão não está à aldura de perceber a finalidade da difusão do livro espírita.”

            E encerrando, em 1947, o seu relatório, na parte ligada à Editora, escrevia Wantuil de Freitas:

            “Deixamos, pois, registrados neste Relatório, que certamente será lido pelos nossos sucessores (profecia que se cumpre plenamente!), não somente os planos que nos foram inspirados e as dificuldades que os Espíritos trevosos sempre apresentaram, apresentam e apresentarão através dos seus instrumentos humanos, mas também a certeza de que os Espíritos superiores jamais nos abandonarão, desde que sigamos a estrada até aqui palmilhada, com a mesma abnegação, o mesmo carinho e a mesma fé que nos vêm orientando, dirigindo e fortalecendo. Há movimento e ação em todos os nossos departamentos. Há trabalho, esforço e dedicação entre todos os companheiros. Há, finalmente, a proteção espiritual do Alto. Trabalhemos, portanto, com Jesus, por Jesus e para Jesus, suplicando-lhe a continuação de suas bênçãos para nós e para quantos nos estimulam ao trabalho através do mal que nos pretendem fazer.”

            As prestações de contas, que na Federação abrangem minucioso exame das ocorrências principais no campo espírita, se fizeram sempre acompanhar de palavras francas e, por vezes, duras, como estas de 1949:

            “Já vos dissemos de nossas constantes dificuldades financeiras, motivadas pelo nosso processo de não visarmos lucro, mas de tornarmos o livro acessível ao público, fazendo-o penetrar em todos os lares, mesmo nos classificados como paupérrimos. Essa tem sido a nossa campanha, infelizmente pouco compreendida, porque, em geral, a maioria dos nossos confrades só compreende a caridade-dinheiro, alimento, pão material, desconhecendo a caridade maior, a que leva o pão espiritual às criaturas, adaptando-as à Lei e conduzindo-as à felicidade a que todos aspiramos.”   “... à exceção de meia dúzia de companheiros, os demais nem sequer pensaram no assunto, receosos talvez de que a consciência lhes ordenasse retirar do bolso os cruzeiros que supõem ser cambiáveis na aduana do Além. Grande, porém, enorme, colossal, foi o número dos que nos procuraram combater por esse ou aquele meio, tentando levar-nos ao desânimo, esperançosos de que nos fariam sucumbir, como aconteceu à personagem do capítulo XXII do livro “Alvorada Cristã”.  “A luta se travou entre nós e os invisíveis que se apossaram de seus instrumentos humanos. Aos poucos, no entanto, fomos observando que as nossas preces eram atendidas, que a obra se ia concretizando e que, pela estrada, quais epilépticos em crise, os adversários ficaram caídos, à espera da misericórdia de Deus, que, sabemos, lhes tocará um dia os corações.”

            Sempre houve e há, ainda, quem entenda devamos deixar as nossas Instituições desguarnecidas totalmente quando atacadas, como se a omissão ou a acomodação com o mal fosse a solução aconselhada pelo Evangelho. (Aliás, a respeito desse importante tema seria bom relermos o capítulo 9 do livro “Nosso Lar” de André Luiz, ed. FEB.) Mas, Wantuil, como todos os presidentes da nossa Casa, inteirado do comportamento de Allan Kardec no trato com os inconformados e  Invejosos, jamais polemizava, não tomava conhecimento de denúncias anônimas, nem passava recibo às mentiras e às calúnias estampadas em certa imprensa que, vez por outra, surge no mercado das ideias para tentar denegrir e enlamear os pioneiros do progresso espiritual em nosso mundo. Nem à tal imprensa, nem às brochuras, grandes ou pequenas, que se rotulam de pesquisa ou estudo sério, mas que outro fim não visam senão tumultuar o trabalho disciplinado e produtivo, dava ele a menor confiança.

            Todavia, daí não se infira que ele silenciasse a ponto de recusar ao espírita incipiente, sempre o grande prejudicado pelas campanhas difamatórias, às criaturas de boa vontade ou de poucas luzes, às nossas Casas espalhadas pelas regiões interioranas do país e a todos os interessados, letrados ou não, a informação e o esclarecimento correto. Wantuil de Freitas, pelo “Reformador”, de tudo dava conhecimento aos espíritas, inclusive de quanto se passava, de importante, nas áreas das religiões e das ciências, agindo nos termos do pensamento de Emmanuel, expresso no item 144, Em meio de lobos, do livro “Vinha de Luz”:

            “... reportava-se (Jesus) a cordeiros fortes que conseguissem respirar em plano superior aos lobos vorazes. Seria razoável enviar ovelhas frágeis a bestas violentas? Seria o mesmo que ajudar a carnificina. O Mestre, indubitavelmente, desejava as qualidades da ternura e magnanimidade dos continuadores, mas não lhes endossaria as vacilações - e fraquezas. Aliás, para serviço de tal envergadura, desdobrado em verdadeiras batalhas espirituais, ele necessitava de cooperadores fiéis, bondosos, prudentes, mas valorosos. Enviava os discípulos ao centro do conflito áspero, não no gesto de quem remete carneiros ao matadouro, e sim à gleba de serviço, onde pudessem semear novos e sublimados dons espirituais, entre os lobos famintos, através da exemplificação no bem incessante. Entretanto, há companheiros, ainda hoje, que se acreditam colaboradores do Cristo apenas porque levantam aos céus as mãos postas, em atitude suplicante. Esquecem-se de que Jesus afirmou, peremptório: “Ide ! eis que vos mando!...”

            Aos que desejarem saber o que Wantuil fazia inserir no “Reformador”, de sua autoria ou da de companheiros, relativamente à virulência dos que imaginavam atingir-nos a Causa e a Casa, damos a seguinte pesquisa parcial, suficiente, porém, à formação de opinião justa sobre o assunto:

1) 1943, jan. e fev. (sobre acusação pertinente a direitos autorais das obras de Allan Kardec) ;

2) 1947, abro e jun., pp. 85 e 132, respectivamente, “Acusação temerária”;

3) 1949, mai., p. 118, “Demolidores”;

4) 1950, juI., p. 162, “Textos adulterados”, por I. G. B[3].;

5) 1953, jun., p. 127, “Obras das Trevas”; mai. (pp. 100/1) e ago. (p. 180), “Era fluídico o corpo de Jesus?”;

6) 1963, mai., pp. 105/9, “Diatribes à Casa de Ismael”, por Luciano dos Anjos (espécie de consolidação das calúnias esparsas, devidamente anotada);

7) 1965, jan., p. 8, “Censores inidôneos”, por Tibúrcio Barreto;

8) 1965, dez., “Literatura e Iiteratice”, por Nazareno Tourinho.

            O leitor atento observará que os mesmos temas foram abordados em três épocas, mais ou menos a cada decênio, certamente para bem esclarecerem as gerações novas que não tenham lido os escritos mais antigos.

            É óbvio que nos limitamos a citar os casos mais em evidência, pois os outros se contam às centenas e dificilmente o “Reformador” deixava de assinalá-los em suas edições.

            “Quando faço ou não faço uma coisa, é com madura reflexão e após ter pesado as consequências. Sabemos muito bem que, por não termos incensado certos indivíduos, os afastamos de nós, e eles se voltaram para o lado de onde vinha o incenso. Louvamos com alegria os fatos realizados, os serviços prestados, porém jamais, por antecipação, os serviços que possam prestar ou que prometam prestar. Quando cessamos de aprovar, não censuramos; guardamos silêncio, a menos que o interesse da Causa nos force a rompê-lo. Com eles (antagonistas de má fé ou de parti-pris) , toda polêmica é ociosa, porque sem propósito, já que não os faz mudar de opinião. Se às vezes rebato certos ataques e certas asserções errôneas é para mostrar que não é a possibilidade de responder que falta, e para dar aos espíritas meios de refutação, se necessário. (...)  Até aqui não há uma só objeção séria que não se ache refutada em meus escritos. (...) Digo, pois, a todos os espíritas: continuai a semear a ideia. Espalhai-a com doçura e persuasão, e deixai aos nossos antagonistas o monopólio da violência e da acrimônia, às quais só se recorre quando não se sente bastante forte pelo raciocínio.

            As palavras acima são do Codificador do Espiritismo (‘Revue Spirite’, 1865, p. 3, 1863, pp. 155/6) e espelham a conduta da Federação Espírita Brasileira, desde a sua fundação, em 1884.

            Finalizando este artigo, que já se torna longo, reproduziremos palavras de AIlan Kardec, dos anos 1864 e 1865 (pp. 327/8 e p. 165, respectivamente, da ‘Revue Spirite’ ), na convicção de que, guardadas as devidas proporções, elas consubstanciam uma realidade de que Antônio Wantuil de Freitas é um dos obreiros a quem elas têm plena aplicação:

            “O que fiz, outro poderia tê-lo feito em meu lugar. Em tudo isso, fui um simples instrumento dos desígnios da Providência, e rendo graças a Deus e aos bons Espíritos por se dignarem servir-se de mim. É tarefa que aceitei com alegria e da qual me esforço em me tornar digno, rogando a Deus me conceda as forças necessárias para desempenhá-la segundo sua santa vontade. Essa tarefa, entretanto, é pesada,  mais pesada do que possam imaginar; e se ela tem para mim algum mérito, é porque tenho a consciência de não haver recuado diante de nenhum obstáculo e de nenhum sacrifício : será a obra de minha vida até meu último dia, pois que, diante de objetivo tão importante, todos os interesses materiais e pessoais se apagam como pontos ante o infinito. Sentia que não tinha tempo a perder, e não o perdi, nem em visitas inúteis, nem em cerimônias ociosas. O Espiritismo foi a obra de minha vida. Dei-lhe todo o meu tempo, sacrifiquei-lhe meu repouso, minha saúde, porque diante de mim o futuro estava escrito em caracteres irrecusáveis.”


[1] Do blogueiro: Dispomos deste exemplar. Breve postaremos..
[2] Aqui também, afortunadamente, dispomos do material para a indispensável divulgação.
[3] Do blog: I.G.B. = Ismael Gomes Braga


25 de Março


25 Março


  Quem pretenda neste mundo
Colocar-se em pedestal
lembre a história do carvalho:
Dado o tombo, é pó banal.

  Fidélis Alves 
por Gilberto Campista Guarino 
in ‘Centelhas de Sabedoria”  (1ª Ed FEB 1976)