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sábado, 10 de março de 2018

Finados e Mausoléus


Finados e Mausoléus
Reformador (FEB) Novembro 1982

            Finam-se todos os homens, sejam pobres, sejam ricos, mendigos ou potentados, súditos ou governantes. Mas o fim é apenas aparente, pois em realidade só se acaba o corpo físico, que esse é de matéria realmente perecível, por natureza transformável e corruptível. O Espírito, porém, que anima o corpo e é o ser real, esse é eterno, não se fina, jamais morrerá.

            Houve na Antiguidade um país chamado Cária (em grego, Kária), situado no sudoeste da Ásia Menor, e colonizado pelos dórios. Pouco antes da Era Cristã, de 377 a 353 a.C., esteve esse povo sob a suserania do sátrapa Mausolo, soberano que instalou sua capital em Halicarnasso. Como todo mortal, viu o fim de suas conquistas e glórias terrenas quando se imobilizou, rígido e frio, o corpo que lhe servira de instrumento às ambições e vaidades, e foi sepultado em um túmulo que, para ele, sua mulher, Artemísia II, mandou especialmente construir. Era, mais do que um túmulo, um verdadeiro monumento, com grande contorno quadrangular e ornamentado com colunas e relevos evocando cenas mitológicas. Mausoléu passou a chamar-se esse túmulo, mas toda a sua grandiosidade não conseguiu mudar a grande lei da ressurreição dos mortais em Espíritos, e Mausolo, por mais que ali tenha sido retido, junto a um corpo de onde a vida se evadira, seguramente dele acabou se libertando. A dezenas de outros corpos deve ter voltado, na sucessão dos renascimentos que lhe proporcionaram  progressos e maiores graduações espirituais. Entretanto, mausoléus foram também, depois, chamados todos os túmulos suntuosos, que se erigiram na terra para perpetuar as vaidades dos homens.

            Mausoléus magnificentes que vos situais, por privilégios, nos locais mais notórios dos campos santos; tumbas rasas inumeráveis, que muitas vezes desapareceis ocultas pelas ervas que crescem ao derredor; e - entre esses dois extremos - grandes e pequenos túmulos de mármore, com as inscrições que traduzem sentimentos de afeto ou de saudade, homenagens sinceras de amor e veneração ou simples tradições respeitáveis nos costumes dos povos; sois, todos, imperfeitas, mas, insopitáveis manifestações de piedosos sentimentos, que de algum modo exprimem também a intuição perfeitamente natural que tem o Homem de que não há morte e que uma vida mais esplendorosa que a Terra se ostenta além das raias sepulcrais! Por isso, só até certo ponto se compreendem as manifestações de piedosos sentimentos de afeto e de saudade junto aos túmulo vazios, oh! sim, totalmente vazios!

            Em verdade não devem deter-se aí os pensamentos, porque os seres amados que buscam lembrar há muito ali não mais se encontram ou mesmo nunca ali se detiveram. A Sua criatura, Deus a fez para alçar-se, após cada etapa encarnatória, a planos sempre mais altos e mais felizes. É a ascensional escala espírita, que se vai galgando aos poucos, através de esforços continuados e renovados de aprimoramento intelectual e moral, por concessão divina de misericórdia aos mais culpados e devedores à Lei, e também por graça e recompensa aos devotados à prática das virtudes mais excelsas. Divina lei de progresso que, assim, nos acena com a dupla escalada dos Espíritos e dos mundos, desde os primitivos, onde torva materialidade impera, e os de expiações e provas, até os de regeneração, os felizes e os celestes, ou divinos. Expressão da Suprema Sabedoria, ficaria, entretanto, inoperante para os seres humanos se a não viesse completar outra lei, também divina - a dos renascimentos -, que tão bem concilia a bondade de Deus com a Sua soberana justiça.

            Diante, pois, dos despojos inanimados daqueles que foram os nossos seres mais queridos e ante os túmulos grandiosos ou modestos em que eles foram depositados, um só pensamento nos domine - o da certeza de que o verdadeiro ser é o Espírito, que se liberta da prisão carnal para ressurgir redivivo sob outra dimensão e noutro plano, mas este tão real ou mais real que o nosso; e que uma prece se eleve tranquila e cheia de fé, em intenção da paz e da felicidade do ser querido que lembramos, e em louvor de nosso Pai Eterno.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Cremação de Cadáveres

Cremação de Cadáveres


Reformador (FEB), pág. 231 -  Outubro 1968
Editorial do Reformador  publicado originalmente em 15 / 5/ 1883

            A cremação do cadáver humano é um dos problemas que atualmente ocupam a atenção de alguns espíritos investigadores.

            Esse problema tem sido tratado sob o ponto de vista científico e até hoje, em nome da ciência, os crematistas têm alcançado vitória, ao menos pelos autorizados defensores que já contam.

            Alguns defensores da cremação têm usado os seguintes argumentos:
            “É tempo de se tomar a sério a higiene pública e de atender, com vontade de bem servi-la, aos reclamos que a ciência de um lado, de outro a Pátria, dirigem às sumidades do poder.

            “Os argumentos apresentados pelos anticrematistas, em favor da continuação dos cemitérios, carece, de base científica, isto é, assentam na observação parcial e incompleta dos fatos.

            “Pasteur, não satisfeito com demonstrar que certas moléstias são só e exclusivamente devidas à vida que palpita  e pulula nas mais ínfimas camadas da escala zoológica, foi além e provou que essas moléstias podem transmitir-se do morto ao vivo.
             “O cadáver colocado no subsolo derrama produtos de combustão incompleta, a decomposição se perverte em putrefação com todo o seu séquito abominável e perigosíssimo de gases mefíticos e de líquidos pestíferos.
            “Quanto mais úmido for o solo, tanto mais perniciosamente se manifestará a putrefação.
            “A porosidade, porém, nem sempre mantém o solo em boas condições para a decomposição, pode o terreno, com o tempo, saturar-se com os restos orgânicos e entregá-los, mal oxidados, à água e ao ar atmosférico em contato com ele, lançando assim o gérmen de envenenamento.
            Foi provado exuberantemente que o tifo e outras epidemias nasceram pelo uso de água impura e, entre nós mesmos, há bem pouco tempo, na epidemia que dizimou a população de Vassouras, a causa primordial devia-se ter procurado nas águas infectadas no seu percurso por terrenos pútridos.
            “O cadáver humano, com a sua massa considerável de substância orgânica mole, forçosamente tem de dar lugar a grandes fenômenos de putrefação. Esses serão tanto mais formidáveis quanto piores forem as condições do terreno no qual se fez o enterro.
            “Mas ainda que o solo fosse muito poroso, enxuto e por conseguinte, acessível ao ar, e, além disso, protegido contra os raios do Sol por abundante arborização e contra as inundações pela escolha de alguma eminência, nunca os cemitérios perderiam o seu caráter pernicioso, por não ser possível evitar neles a putrefação do cadáver.
            “E onde temos cemitérios que reunam aquelas condições atenuantes, principalmente nas cidades populosas?
            “O valor dos terrenos obriga as administrações públicas a utilizar o mesmo lugar em enterros sucessivos, com intervalos insuficientes para a decomposição, saturando assim o solo de tal forma com substâncias mal oxidadas, que em poucos anos perde as condições necessárias para a decomposição.”

                                                                                       ***

            Temos de acrescentar alguns argumentos sob outro ponto de vista em resposta a algumas objeções, a fim de arrancar os escrúpulos sistemáticos ou religiosos de alguns anticrematistas.

            A cremação do cadáver não deve ser combatida pelos que admitem o dogma: carnis resurrectionem, a pretexto desse dogma, porque é amesquinhar a fé pensar que o incinerado não poderá ressuscitar por ter sido queimado, em vez de ter sido inumado.

            O corpo sepultado sofre a mesma decomposição e volatiliza-se do mesmo modo que o incinerado, em tempo mais ou menos breve, e, se admitem que Deus quer ressuscitar os corpos inumados, porque duvidar que Ele possa querer ressuscitar os corpos incinerados?

            Não estão uns e outros na letra da escritura: Pulvis eris in pulverem reverteris?

            Logo a cremação não pode ser repelida, por escrúpulo religioso, como contrária ao dogma da ressurreição da carne.

            “Objetam alguns que é doloroso desaparecerem assim, repentinamente, as formas das pessoas queridas.”

            A estes dizemos, aceitando mesmo como sinceras as suas objeções, que mais doloroso e mais repugnante seria se vissem de que modo desaparecem essas formas veneradas, debaixo da terra, em meio aos horrores da putrefação.

            Como são minados esses lábios, esses olhos queridos, essas faces outrora tão aveludadas, pelos vermes imundos; como são intumescidas pela fermentação pútrida; como destilam venenos terríveis em troco da piedade que se lhes consagra.

            E se ao cabo de alguns anos vissem parte destes restos mal oxidados espalhados pelo solo calcados aos pés por trabalhadores insensibilizados pelo ofício, misturados com outros despojos, ainda poderiam erguer a voz para proclamar o enterramento como mais piedoso, mais estético do que a cremação?

            “Objetam outros que pode ser posta no forno crematório uma pessoa em letargia, com as aparências da morte.”

            A esses responderemos que aos especialistas compete verificar a morte; e que, nos casos de morte aparente, se o especialista se enganar, o letárgico irá para o forno e ali morrerá antes de voltar a si; que será melhor que ser inumado e voltar a si, dentro de um caixão, onde os seus gritos ficam abafados, sofrendo o martírio da morte por falta de respiração e a tortura pela fome.

            Demais, os crematistas não impedem que, nos casos em que se supunha morte aparente, fiquem os corpos em depósito por certo tempo até o começo da putrefação, se for necessário.

            “Objetam ainda outros que os cemitérios servem para manter o culto dos mortos, e que, sendo extintos, esse culto desaparecerá.”

            A esses explicaremos que os crematistas não pedem a extinção dos cemitérios, e, ao contrário, querem um, para nele se reunirem as urnas das famílias e de associações, nas quais se encerrem as cinzas dos parentes e associados, e, assim, o sentimento cultual será mantido e desenvolvido.

            Ainda aconselharíamos que as cinzas pudessem ser depositadas nos templos religiosos ou em sua casas, onde o culto seria mais fácil, mais íntimo, mais fervoroso e também mais solene

            “A única objeção séria contra a cremação, diz o Dr. Colette, é a que se faz a perda da possibilidade das exumações e das investigações médico-legais que se praticam sobre os cadáveres algum tempo depois da morte, mas, acrescenta aquele douto médico, não valerá mais a saúde de populações inteiras do que a impunidade de algum criminoso?”

            E, ainda que esse fato se dê, o criminoso não ficará impune perante o tribunal infalível de sua consciência, que com os grilhões do remorso o torturará.

            A religião, que tem o dever de guiar o espírito da criatura, pelo caminho do bem, ao Criador, deve limitar-se a acompanhar a alma na fé em Deus, e, como religião da vida eterna, deixar o cadáver aos homens da ciência.

            Que a religião nada tem com o cadáver, nem deve intervir de modo algum, provam estas palavras do Divino Mestre: “Deixai que os mortos enterrem seus mortos.”

                                                                                     ***

            Assim pensamos, e, expondo essas idéias, temos em vista despertar a atenção sobre esse problema, a fim de que a luz apareça assaz intensa para que ele tenha a solução mais conveniente, porque, como Espíritas Evolucionistas, temos certeza de que esta questão nada afeta a alma e, portanto, nada tem com a religião.

            A Ciência Espírita, que demonstra a necessidade da encarnação e do prolongamento das existências terrestres a fim de nos podermos regenerar e progredir, expiando os nossos erros, será a primeira a querer a cremação, se se provar exuberantemente que ela é necessária a bem da higiene pública e, se essa prova for dada, acreditamos que a Igreja não negará o seu concurso ao estabelecimento da cremação geral, porque, no caso contrário, poderia ser acusada de cúmplice no crime de suicídio público.

            Porém, desde já deve estabelecer-se no Brasil a cremação facultativa, porque esse é um dos direitos da LIBERDADE DE CONSCIÊNCIA.


                         

Cremação de Cadáveres


Gilberto Perez Cardoso
Reformador (FEB)  pág. 33 Maio 1979

            Assunto polêmico, tendo despertado recentemente a atenção de observadores, é o da cremação de corpos. Embora já abordado, por diversas vezes, em revistas espíritas, trazendo inclusive opiniões de Espíritos desencarnados, parece-nos que comporta mais acurado estudo com vistas à rememoração por parte do leitor e a uma síntese do conhecimento acumulado sobre o assunto.

            Antes, porém, de reestudá-lo mais diretamente, seria interessante observarmos aspectos relativos à desencarnação, o que nos permitirá, posteriormente, concluir a respeito da cremação.

            O decesso, em si, é bastante complexo. Na atualidade, a compreensão que dele temos, através de obras mediúnicas, é sobremodo resumido, mas ainda assim nos permite depreender que difere consideravelmente de ser para ser. Parece não haver um processo desencarnatório idêntico a outro, assim como não há duas criaturas absolutamente iguais entre si. Cada uma é um ‘mundo’ próprio, com emoções e pensamentos próprios, que naturalmente a individualizam. Dessa forma, o desenlace - que dependerá fundamentalmente do estágio evolutivo do Espírito desencarnante, isto é, dos seus anseios, idéias e sentimentos, do acervo de experiências conquistadas em vivências pregressas e da maneira como se conduziu na última romagem terrena - variará sensivelmente de indivíduo para indivíduo.

            “O Livro dos Espíritos” elucida suficientemente bem a questão no capítulo III - Da volta do espírito, extinta a vida corpórea, à vida espiritual -, nas respostas dadas às perguntas nº 155 a), 156, 157, 158, 162 e respectivos comentários aduzidos pelo Codificador da Doutrina Espírita. Na realidade, a alma se desprende do corpo gradualmente e não subitamente, sendo que o  tempo de separação varia: rápido nos Espíritos que foram desprendidos e benfazejos em vida, cultivando hábitos enobrecedores; demorado, naqueles que se deixaram obcecar pelas materialidades, interesses subalternos e utilitaristas do mundo, com pouco ou quase nenhum desenvolvimento de atividade moral e intelectual,

 ‘o que não implica existir, no corpo, a menor vitalidade, nem a possibilidade de volver à vida, mas uma simples afinidade com o Espírito, afinidade que guarda sempre proporção com a preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria’. Mesmo em casos de ‘morte violenta, quando a morte não resulta da extinção gradual das forças vitais’, e o desencarnado não se burilou, deslocando o centro de consciência, ‘mais tenazes são os laços que prendem o corpo ao perispírito e, portantomais lento o desprendimento completo’.

            André Luiz, em “Evolução em Dois Mundos”, faz um estudo bastante interessante do fenômeno desencarnatório. Compara-o à chamada metamorfose dos insetos, quando a larva experimenta períodos de transformação, em cada um dos quais se renova para atingir a condição de adulto. O ciclo larva-ninfa-inseto adulto é bem estudado pelos entomologistas. Segundo estes, inicialmente ocorre progressiva redução de atividade, cessando a alimentação e ocorrendo a paralisação dos movimentos; ‘encrisalida-se’ em fios de seda trabalhados pela lagarta com a secreção das glândulas salivares, agregados a tecidos vegetais, formando o casulo onde repousa por dias ou até por meses. Na posição de pupa, há essencial alteração em seu organismo, produzida por uma como que histólise (dissolução de tecidos), ao mesmo tempo em que órgãos novos são elaborados pela histogênese (formação de tecidos, à custa dos que perdurarem). A histólise efetua-se por ação de enzimas ou fermentos em tecidos menos nobres, como os do aparelho digestivo e músculos, ocorrendo reduzida atuação nos sistemas circulatório e nervoso. Durante a histogênese, os remanescentes dos tecidos desfeitos pela histólise perdem suas características próprias, como se involuíssem, sendo então utilizados para a configuração dos novos órgãos típicos. Após a metamorfose, só então é que o inseto, integralmente renovado, abandona o casulo, transformando-se na borboleta alada e multicor - o mesmo indivíduo, só que somando em si as experiências dos três aspectos fundamentais de sua existência: larva-ninfa-inseto adulto.
           
            De forma semelhante, o ser humano, depois do período infantil, atravessa expressivas etapas de renovação interior e maturação, configuradas na juventude, adultície, madureza e velhice. Somente após o esgotamento da força vital no curso da existência, obedecendo a programação pré-encarnatória, através da senectude, caquexia, é que se habilita a transformações mais profundas: ocorre redução gradativa da atividade; declinam as atividades fisiológicas e instala-se a inércia; protege-se habitualmente, desde então, adotando o decúbito dorsal no leito, em preparação do processo liberatório. Chega o momento da imobilidade na cadaverização, mumificando-se qual crisálida, mas ‘envolvendo-se no imo do ser com os fios dos próprios pensamentos, conservando-se nesse casulo de forças mentais, tecido com as suas próprias idéias reflexas dominantes ou secreções de sua própria mente, durante um período que pode variar entre minutos, horas, dias, meses ou decênios.’ (os últimos grifos são nossos.)

            A observação de André Luiz sobre o tempo necessário para a elaboração desse processo é de suma importância em relação ao que nos propomos apreciar posteriormente. O fenômeno descrito - o da cadaverização da forma somática -, presidido pelo corpo espiritual, corresponde a uma histólise de células vivas, desagregados do citoplasma e que se mantinham, até então, ligados ao corpo físico, são aproveitados num processo que o próprio André Luiz, alegando falta de termo adequado, nomeou de ‘histogênese espiritual’. À semelhança do que ocorre no inseto, as enzimas atuantes na histólise humana têm por alvo os tecidos menos nobres, com escassa influência sobre os sistemas nervoso e circulatório. Pela ‘histogênese espiritual’, os tecidos citoplasmáticos, desvencilhados do corpo físico, como que atendendo a processo involutivo, retornam ao tipo de células embrionárias, que, dividindo-se agora em outra faixa vibratória, plasmam o psicossoma, segundo o padrão ditado pela mente. Ressalta André Luiz que: “Apenas aí, quando os acontecimentos da morte se realizam, é que a criatura humana desencarnada, plenamente renovada em si mesma, abandona o
veículo carnal a que se jungia (...); quando não trabalhou para renovar-se, nos recessos do espírito, passa a revelar-se em novo peso específico, segundo a densidade da vida mental em que se gradua, dispondo de novos elementos com que atender à própria alimentação, equivalentes as trompas fluídico-magnéticas da sucção (...), patentes nas criaturas encarnadas, a se lhes expressarem na aura comum, como radículas alongadas de essência dinâmica, exteriorizando-lhes as radiações específicas, trompas ou  antenas essas pelas quais assimilamos ou repelimos as emanações das coisas e dos seres que nos cercam, tanto quanto as irradiações de nós mesmos, uns para com os outros.” Consequentemente, através da compreensão do complexo mecanismo da desencarnação, poderemos analisar em seguida o problema da cremação dos corpos.

            Não nos prenderemos, aqui, demasiadamente aos argumentos de ordem utilitária, que, se por um lado possam pesar um pouco na balança, a nosso ver cedem a prioridade aos de ordem espiritual.

            Sem dúvida que a cremação seria uma medida mais higiênica; resolveria o problema da falta de espaço nos centros superpovoados; diminuiria o risco de epidemias; seria um processo mais econômico; realizada após a autópsia, com fins médico-legais, evitaria o contra-argumento da possibilidade da necessidade de exumação cadavérica, transcorrido algum tempo da desencarnação.
            Por outro lado, o nosso país tem grande extensão territorial, o que não acarretaria problemas de espaço, tão alegados. Hoje, sabemos que, embora os agentes infecciosos tenham papel incisivo na instalação de uma doença, a resistência à mesma será muito mais conseqüência da saúde do indivíduo, obtida através de bons hábitos, boa alimentação; e se áreas com escoamento e higiene adequados fossem reservadas aos cemitérios, a questão estaria resolvida. Como podemos ver, a nível humano, várias possibilidades e argumentos são plausíveis e aceitáveis.

            Sob o ponto de vista espiritual, o assunto foi ventilado na “Revue Spirite”:

            1876/4 (pp. 130/134);
            1884/9 (pp. 576/579);
            1890/2 (pp. 72/75). Sob outros ângulos, pronunciou-se também em...

            1877 (p. 117);
            1879 (págs. 261/262 e 331/332);
            1886 (p. 694).

            O Irmão X, através da mediunidade de Francisco Cândido Xavier, manifesta-se em mensagem contida no ‘Reformador’ - ‘O Problema da Cremação’, 1952 (p. 199). Aliás, ‘Reformador’, em várias oportunidades, evidenciou o assunto:

            setembro 1952 (pp. 201 e 205);
            novembro 1952 (p. 269);
            outubro 1963 (p. 224);
            setembro 1968 (p. 216);
            outubro 1968 (pp. 231 e 232.)

            Destacaremos, em resumo, as opiniões de Irmão X, Léon Denis e Emmanuel.
            O Irmão X nos adverte de que a atitude crematória é um tanto precipitada podendo vir a ter consequências desagradáveis para o espírito desencarnante:

            “... morrer não é libertar-se facilmente. Para quem varou a existência na Terra entre abstinências e sacrifícios, a arte de dizer adeus é alguma coisa da felicidade ansiosamente saboreada pelo Espírito, mas para o comum dos mortais, afeitos aos comes e bebes de cada dia, para os senhores da posse física, para os campeões do conforto material e para os exemplares felizes do prazer humano, na mocidade ou na madureza, a cadaverização não é serviço de algumas horas. Demanda tempo, esforço, auxílio e boa-vontade. Eis por que, se pudéssemos, pediríamos tempo para os mortos. Se a lei divina fornece um prazo de nove meses para que a alma possa nascer ou renascer no mundo com a dignidade necessária, e se a legislação humana já favorece os empregados com o benefício do aviso prévio, por que razão o morto deve ser reduzido a cinza com a carne ainda quente?” 

            Léon Denis, na obra “O Problema do ser, do Destino e da Dor”, 10ª Edição da FEB, p. 135, comenta que, ao consultar os Espíritos sobre a cremação de corpos, concluiu que,

            “em tese geral, a cremação provoca desprendimento mais rápido, mais brusco e violento, doloroso mesmo para a alma apegada à Terra por seus hábitos, gostos e paixões. É necessário certo arrebatamento psíquico, certo desapego antecipado dos laços materiais, para sofrer sem dilaceração a operação crematória. É o que se dá com a maior parte dos orientais, entre os quais está em uso a cremação. Em nossos países do Ocidente, em que o homem psíquico está pouco desenvolvido, pouco preparado para a morte, a inumação deve ser preferida, posto que, por vezes, dê origem a erros deploráveis, por exemplo, o enterramento de pessoas em estado de letargia. Deve ser preferida, por que permite aos indivíduos apegados à matéria que o Espírito lhes saia lenta e gradualmente do corpo; mas, precisa ser rodeada de grandes precauções. As inumações são, entre nós, feitas com muita precipitação”.

            Emmanuel, em “O Consolador”, questão nº 151, opina:

             “Na cremação, faze-se mister exercer a piedade com os cadáveres, procrastinando por mais horas o ato de destruição das vísceras materiais, pois, de certo modo, existem sempre ecos de sensibilidade entre o Espírito desencarnado e o corpo onde se extinguiu o ‘tônus vital’, nas primárias horas seqüentes ao desenlace, em vista dos fluidos orgânicos que ainda solicitam a alma para as sensações da existência material”.

             Salientamos as últimas opiniões que exemplificam e analisam as conseqüências da cremação precipitada. Acreditamos que devamos agir perante o problema utilizando os conhecimentos de que dispomos, levando em consideração os sábios conselhos expressos e, principalmente, atuando com bom senso e prudência, a fim de que não causemos sofrimento a outrem, nem aumentemos o fardo cármico que carregamos.



Dia de Finados?


Dia de Finados?
Alberto Nogueira Gama (Passos Lírio)
Reformador (FEB) Novembro 1993

            O Cristianismo é, por excelência, a Doutrina do Espírito, fundada em fatos que demonstram, à evidência, a sua presença e atuação, em qualquer circunstância, sempre que necessário.
            Seus ensinamentos primam pela tese comprobatória da realidade  da existência da alma e de sua dificuldade de entrar em relação conosco, em estado de vigília ou durante o sono, como que a mostrar-nos à saciedade que há entre os dois planos, material e espiritual, corpóreo e incorpóreo, estreito entrosamento.
            Maria de Nazaré recebe a visita do Anjo Gabriel, que lhe anuncia a maternidade de agraciada do Senhor.
            José, em se propondo deixar a esposa secretamente, é avisado em sonho de que não faça tal, porque o que nela fora gerado era do Espírito Santo.
            Isabel, visitada pela gestante eleita, recebe o impacto de poderoso influxo magnético, que faz que a criança - ela também estava para ser mãe -, lhe estremeça no ventre.
            Os magos visualizam no Oriente uma estrela que os guia em dois estafantes anos de viagem e os conduz, não à gruta mas à casa onde se achavam José e Maria e, de regresso, são “por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes”.
            Em sonho ainda, “eis que aparece um anjo do Senhor a José”, induzindo-o à fuga para o Egito a fim de salvar o menino da sanha sangüinária de Herodes, ordenando-lhe que retornasse à “terra de Israel” e aconselhando-o a que se retirasse “para as regiões da Galiléia”.
            Uma entidade angelical, na calada da noite, aparece aos pastores dando-lhes a boa nova do Nascimento do Salvador.
            “Movido pelo Espírito”, Simeão foi ao templo, onde tomou nos braços o Filho de Deus, bendizendo ao Pai pela bênção de tê-Lo visto antes de partir e profetizando acerca do Seu messianato.
            Ana, a profetiza, mediunizada, “chegando naquela hora, dava graças a Deus, e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”.
            Antes do nascimento de Jesus, houve o de João, caracterizado também por manifestações espirituais ostensivas.
            Quando Zacarias oficiava no templo, “na ordem do seu turno”, surge-lhe um Emissário Celestial que lhe prediz o nascimento do Precursor.
            No Jordão, ao se processar o batismo de Jesus, uma voz reboa pelo ar, dizendo: - “Este é o meu filho amado, em quem me comprazo.”
            Este mesmo fenômeno de Pneumatofonia, isto é, de voz direta, repete-se quando da transfiguração do Mestre no Monte Tabor, presentes os Espíritos de Moisés e Elias, profetas da antiga dispensação.
            Na parábola do rico e Lázaro, infunde-nos Ele a convicção na realidade da comunicação dos Espíritos com os homens, fazendo que Abraão ponderasse ao rico, que queria falar a cinco irmãos seus, ser inútil aparecer-lhes porque eles não lhe dariam crédito e não porque fosse impossível fazer-se-lhes visível para adverti-los.
            Liberta endemoinhados, cujos Espíritos impuros e obsessores confessam conhecê-Lo e reconhecer-Lhe a autoridade de Filho do Altíssimo.
            - “Porque buscais entre os mortos ao que vive?” Foi a pergunta que “dois varões com vestes resplandescentes” fizeram às mulheres que levavam aromas e bálsamos para depositar no túmulo de Jesus, cuja pedra encontraram removida, sem o corpo no seu interior.
            - “O Senhor ressuscitou e já apareceu a Simão! Assim se expressavam os dois discípulos que, a caminho de Emaús, tiveram a companhia do Mestre, com quem confabularam durante toda a viagem e a quem pediram, ao término da jornada: - “Fica conosco, porque é tarde e o dia já declina.”
            E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém onde acharam reunidos os onze e outros com eles. Então os dois contaram o que lhes acontecera no caminho, e como fora por eles reconhecido no partir do pão.”
            - “Paz seja convosco” - “Por que estais perturbados? e por que sobem dúvidas aos vossos corações?” Foram palavras de Jesus, na Sua primeira aparição aos Discípulos, no Cenáculo de Jerusalém.
            - “Por que me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram.” Outras palavras de Jesus, em Sua segunda aparição aos Discípulos, dirigidas especialmente a Tomé, que, por não estar presente na primeira, não dera crédito à versão divulgada pelos seus companheiros, de que o Senhor lhes aparecera.
            “Depois disto, tornou Jesus a manifestar-se aos Discípulos junto do mar de Tiberíades”, onde se desenrolam acontecimentos de assinalada importância que culminam com o famoso diálogo entre Ele e Simão Pedro, o Pescador de Cafarnaum.
            Finalmente, apareceu o Nazareno, ao monte, aos quinhentos da Galiléia, a quem endereça, pela última vez, a Sua Palavra de Vida Eterna, após o que ocorre a Ascensão definitiva.
            Isto sem falar de aparições, no cenário de Jerusalém, a Maria Madalena, a Maria de Nazaré, em Éfeso, na casa de João Evangelista; a Pedro, por algumas vezes; a Saulo de Tarso, às portas de Damasco.
            Onde, em tudo isso, a idéia de morte? Antes não ressumbra, de todos esses sucessos, a noção de “vida abundante”, de pensamento e ação por parte daqueles que formam o mundo incorpóreo?
            O Espiritismo, que se funda estruturalmente no Cristianismo, cuja pureza primitiva restaura em toda a plenitude, desfralda também a bandeira da imortalidade da alma, de eternidade do ser no Infinito do Tempo e do Espaço.
            Não há mortos e vivos, nem do lado de lá, nem do lado de cá, embora possa haver, tanto num quando noutro plano, mortos-vivos e vivos-mortos. Ninguém vai, ninguém fica, apenas alguns chegam e outros voltam, na longa caminhada de poder subir para saber descer, ajudando os outros a fim de ajudar-se a si próprio.
            A mediunidade, disciplinada espiriticamente, nos descortinou novas dimensões de vida, revelando ao mundo a existência de outros mundos e à Humanidade a presença de outras Humanidades disseminadas no turbilhão de astros que gravitam nos arcanos do Universo.
            2 de Novembro... Como os demais, dia de todos nós, encarnados e desencarnados, que buscamos na Terra ou na Erraticidade os valores do Espírito, a gloriosa realização de nós mesmos em Deus, libertos e purificados por todo o sempre, para empunharmos na destra a palma da vitória e cingirmos à frente a coroa de louros de almas redimidas e ressurrectas, integradas nas sublimes claridades dos cimos.


quarta-feira, 7 de março de 2018

Sexo e Obsessão


Sexo e Obsessão
Joanna de Ângelis
por Divaldo P. Franco
Reformador (FEB) Dezembro 1991

            Espíritos perturbados em si mesmos, reencarnam-se anatematizados por desequilíbrios físicos e psíquicos que procedem das lembranças negativas e dos erros anteriormente praticados.

            Espíritos inquietos reemboscam-se na indumentária fisiológica, açulados por falsas necessidades a que se atiraram impensadamente nas existências passadas.
            Espíritos aturdidos recomeçaram a experiência carnal sob o guante de paixões comprometedoras em que mais se infelicitam.

            Espíritos viciados se recondicionam no corpo somático e se permitem acumpliciamento com outros seres reencarnados em ultrizes processos de vampirização recíproca, em que desarticulam os centros genésicos, passando a experimentar desditas inenarráveis.

                                                                       *

            Estatísticas eficientes realizadas do lado de cá informam que os processos infelizes da criminalidade e do desespero procedem invariavelmente do ódio. Merece, porém, examinar, que o ódio resulta das frustrações afetivas, das ansiedades incontidas, do egoísmo exacerbado, da maledicência sinistra, da ira frequente, das ambições desmedidas, dos amores alucinados que se conjugam em nefandos conciliábulos de imprevisíveis resultados.

            Por isso, o amor é fundamental na vida de todos.

            E por ser o sexo a fonte poderosa que faculta a perpetuação da espécie, entre os homens, invariavelmente vai confundido nos delineamentos afetivos, como fator essencial para a comunhão, senão o único meio da exteriorização do amor.

            Diariamente, milhares de criaturas mal informadas ou desavisadas, fascinadas pelas ilusões do prazer, arrojam-se a despenhadeiros da loucura, por frustrações e desassossegos sexuais. Sublime campo de experiências superiores normalmente se converte em paul sombrio de miasmas asfixiantes e tóxicos nefastos.

            Através dele, todavia, o espírito que recomeça a caminhada na Terra, encontra o regaço materno, as mãos vigorosas da paternidade, os braços fraternos transformados em asas de socorro, o ósculo da amizade pura e a certeza do reequilíbrio na oportunidade nova, como porta abençoada para a própria redenção.

            Não o esqueças propositadamente nos cometimentos humanos em que te encontras. Não o espicaces levianamente, buscando as expressões da sua violência. Sublima-o pela continência, mediante a correção do comportamento, através da disciplina mental.

            Não esperes a senectude para que te apresentes sereno.

            Muitas pessoas idosas expressam amarguras, que decorrem de frustrações coercitivas a que se viram impelidas; outras se caracterizam conduzindo excessivas doses de pudor, após a travessia lamentável pelos rios do uso desequilibrado, de que se arrependem dolorosamente, descambando para a aversão sistemática; diversas fingem ignorá-lo, após perderem as exigências naturais pelo cansaço e disfunção que a velhice impõe...

            Muitos males que não podem ser catalogados facilmente decorrem de íntimas inquietações nos departamentos do sexo atribulado, desde os dias da juventude... Em razão disso, ama, quanto te permitam as forças.

            Não esperes, porém, que o ser amado seja compelido a responder-te às aspirações. Provavelmente esses espírito está vinculado a outro espírito e chagaste tarde, não te sendo facultado desatrelá-lo das ligações a que se permitiu prender espontaneamente.

            Se chegas antes, não o atormentes com exigências, porque é possível que o compromisso dele esteja à frente. Se te aproximas tardiamente e desfazes os laços que já mantém, não fruirás a felicidade, e, se impedes que marche na direção das tarefas para as quais reencarnou sofrerás, mais tarde, o travo da desilusão, quando passe o infrene desejo imediato...

            Entregue o teu a mor à vida e envolve-o nas vibrações da ternura que felicita e dulcifica aquele que ama, quanto o que é amado.

            Se, todavia, não possuíres força para o cometimento, não te permitas a conjetura de sonhos escravocratas. Antes, ora e roga o socorro do Alto, para que os anjos guardiães vigilantes te distendam mãos compassivas e bálsamo tranquilizador.

            O teu íntimo amor resplandecerá um dia, após a superação do tormento sexual, em paisagem de festa em que o teu espírito cantará a música da liberdade e da paz.

                                                                       *

            Há mentes viciosas, na Erraticidade, atormentadas e sedentas, vitimadas por paixões que ainda não se aplacaram, que estão realizando constante comércio obsessivo com os que se permitem, na Terra, as alucinações sexuais e os desavisos afetivos. Em conúbios terríveis atiram-se com virulência, explorando os centros genésicos dos encarnados e esfacelando neles a esperança e a alegria de viverem.

            Sutilmente instilam os pensamentos depressivos ou açulam falsas necessidades, absorvendo por  processos mui complexos as expressões do prazer fugidiço e instalando as matrizes de desequilíbrios irreversíveis. Vigia a mente e controla o sexo.

            Quando pensamentos inusitados te sombrearem os painéis mentais com idéias infelizes; quando afetos dúlcidos se transformarem nos recessos do teu coração em fornalha de desejos; quando a ternura com que envolves os a quem estimas ou amas se te apresentar ardente ou angustiante; quando passares a sofrer dolorosas constrições na organização genésica, tem cuidado! Certamente estarás sendo obsidiado por outros Espíritos, encarnados de mente vigorosa ou desencarnados infelizes, em trama contínua para te arrojarem nos despenhadeiros da alucinação. Levanta o pensamento a Jesus e a ele entrega-te em regime de total doação, certo de que o Vencedor de todos os embates te ajudará a sair da constrição cruel, encaminhando-te na direção da harmonia. Para tanto, ora e trabalha pelo bem comum e o bem de todos te oferecerá o lenitivo e a força para a libertação a que aspiras.

O Dois de Novembro



O Dois de Novembro
por Almerindo Martins de Castro
Reformador (FEB) Julho 1950
                      
        Caminhando por entre os paradoxos da vida social, a criaturas vão, a cada ano, em dois de Novembro, aos cemitérios, visitar os mortos, deslembrados de que, naquele chão, jazem apenas os mesmos rígidos cadáveres para ali conduzidos num esquife, e ali deixados para a incoercível transformação, na química silente da Terra, que destrói a carne e faz das amadas, formosas criaturas uma caveira, tétrica em seu rir sinistro, apavorante, muda porque sem boca, com os dentes sem a vestimenta dos lábios, através dos quais fluíam outrora expressões de amor e de carinho.
          
        Olhos e pensamentos voltados para o chão, onde inutilmente buscam ressonâncias com os túmulos, que não permitem rever os corpos já desfeitos pela desagregação da matéria, as criaturas não se voltam para o Alto, que é a pátria dos verdadeiros vivos - em Espírito, e não podem, por isso, suspeitar sequer o maior paradoxo expresso nessa pretensa “comemoração dos mortos”. Às necrópoles, em verdade, vão os mortos, Espíritos amortalhados nos sepulcros do corpo, em visita aos que reviveram para a imortalidade no Espaço, onde se entrecruzilham as estrelas da vida eterna, palmilhadas nos vários rumos do aperfeiçoamento redentor.

            Se pudessem desvendar os esplendores da vida espiritual, perceberiam a vibração daqueles chamados - mortos, que estão cumprindo, nos cimos siderais, as leis eternas que regem os mundos. Na materialidade das flores espargidas e nas velas acesas em torno das sepulturas, os visitantes obedecem a esse automatismo a que, cada vez mais, se reduzem as coisas do Espírito, nas arbitrárias criações dos credos e ritos meramente humanos.

            O verdadeiro cristão não necessita de dia certo, nem de recinto funerário para orar pelos seus entes queridos: ante Deus e em favor dos seres, o Espírito sobe, em espiral de preces, sem complementos materiais.

            Os monumentos marmóreos e as coroas de flores, vidro ou porcelana são apenas homenagens do egoísmo vaidoso e perdulário, oferecidas aos olhares dos que não conhecem o recôndito ritual da alma que deve ser praticado sem exterioridades, nem obediências a convencionalismos e preconceitos.

            O vero espiritualista não deve desfazer em  prantos e lamentos a mágoa dessa incoercível separação que, sendo - morte, é condição da - vida. A memória é um altar no qual se entronizam todas as lembranças meigas e suaves, puras e castas. Nesse deve ser acesa a pira da saudade, que é o incenso da alma sublimada, pela prece, até junto dos mensageiros de Deus. Esta deve ser a “comemoração dos mortos” para os espíritas, porque feita - do Espírito para Espíritos, e não a do convencionarismo adotado pelo comum das criaturas, todo ele alicerçado em exterioridades mais ou menos mercantilizadas. 

            O “dia de finados” não tem origem em ensinamentos dos Espíritos. Derivou da festa católica - romana de 1º de Novembro - “dia de todos os santos”.

            Quando da destruição dos templos pagãos, em Roma, um que entre todos foi poupado, porque constituía obra prima de arquitetura e riqueza. Construído por Marco Agripa, denominava-se - Panteão e nele, a 1º de Novembro, era celebrada, pelos pagãos, com excessos, a “festa de todos os Deuses”. O papa Bonifácio IV obteve-o, por doação do imperador Focas e fê-lo purificar, recolhendo a ele os tesouros e despojos mortais das catacumbas dos cristãos, e consagrou-o a Santa Maria dos Mártires. Nesse templo (que estivera fechado durante dois séculos), Gregório IV, em 835, instituiu (em antítese da “festa de todos os deuses”) a “festa de todos os santos” em homenagem aos santos que não tinham culto em dia destacado no calendário, universalizada depois para todo o orbe católico. Mas, para que não ficassem esquecidos ante Deus os fiéis da Igreja e os pecadores, foi estabelecido que no dia seguinte, 2 de Novembro, se fizessem no templo orações em intenção desses mortos.

            Só em 998, dez séculos depois do Cristo, o Abade da Ordem dos Beneditinos, em Cluny, instituiu, em todos os mosteiros da Ordem, na França, a “comemoração dos mortos”, o “dia dos finados”, nesse 2 de novembro, culto que a Santa Sé aplaudiu e oficializou para todo o ocidente. Assim foi o mundo profano levado a cultuar os seus mortos (outrora enterrados nas Igrejas e em “campo santo”  num dia determinado, quiçá na ingênua, ilusória esperança de que os Espíritos desencarnados fruiriam venturas celestiais, recebendo, nas covas das necrópoles, as flores e as luzes das velas, que, não raro, exalam hipocrisia e iluminam a treva das maldades e rancores de quem as acende.

            O tempo decerto conseguirá esculpir nos corações o ensinamento dos mestres da espiritualidade, fazendo com que as criaturas regressem à sincera e modesta maneira de encarar e reverenciar o nascimento e o decesso dos seres na face da Terra, práticas desvirtuadas pelas deturpações dos interessados e dos ignorantes. Os antigos tinham intuição ou ensinamentos bem mais aproximados do verdadeiro modo de interpretar o sentido da vida e da morte dos seres humanos.

            Heródoto (o denominado - Pai da História) diz que, na Trácia remota (território cujas fronteiras estão hodiernamente diluídas numa das províncias da Turquia), o nascimento de uma criança em uma família em torno do berço para, por entre lágrimas e tristezas, lamentar as provações a que viera o recém-nascido; enquanto que o falecimento de um ente querido era saudado jubilosamente, na antevisão de que o Espírito liberto iria fruir as venturas e galardões do Além.

            O Espiritismo contemporâneo veio encontrar o automatismo dos costumes e estipulações seitistas, consuetudinárias, que obscurecem de algum modo o lídimo sentido espiritual da vida e da morte; mas, suavemente, sem confundir a sinceridade dos que ainda não evoluíram para a integral espiritualidade, irá encaminhando as Almas para a verdadeira comunhão com os chamados mortos.

            Não está nos cemitérios o mundo dos Espíritos. Ali apenas podem permanecer transitoriamente os cegos desesperados, cujo passamento não os pode desligar da matéria em decomposição. Fora dali, no indefinível templo de nosso coração é onde devemos orar pela paz e pelo esclarecimento dos Espíritos liberados do corpo. Mas, principalmente, pelos sofredores.

            Os Espíritos de Luz, aqueles que, misericordiosamente ajudam os grilhetas da Terra, descem pela escada espiritual das nossas preces, dos nossos pensamentos de abnegada solidariedade com os chagados da alma, que gemem nos ergástulos da dor e do remorso, com os surdos e cegos, que ainda não ouviram, nem lobrigaram as harmonias iluminadas da Verdade que as “vozes dos silêncio” entoam para a glória de Deus e bênção dos arrependidos. Em cada dia da existência, nas horas de recolhimento, oremos pelos tristes, pelos abandonados que, na desolada noite de sua provação, não conheceram amor, caridade, consolo, bálsamo para as suas dores de alma.

            Deixemos os cemitérios onde se dissociam as moléculas da carcaça humana e pensemos no Mundo Alto, de onde tudo vem para a Terra e aonde sobem, de regresso, as refrações de todos os diferentes mundos dispersos no Infinito.

            Espiritualizemos os estágios da existência terrestre, mantendo o recôndito do nosso ser em ressonância com o mundo espiritual de amanhã, vivendo esta harmonia com os imperativos naturais da matéria, conservando, porém, o Espírito alertado para a devida obediência às leis que o regem, nas trajetórias das vidas sucessivas.

            Ante a morte do corpo, não nos impressionemos com o fogo-fátuo, que é a luz da matéria e que não pode ficar dentro da cova; busquemos o santelmo, a luz do Alto, que se acende no cimo dos montes, na vastidão dos mares, com as fosforescência que tem contato nas rutilâncias das claridades celestiais.

            Não façamos treva onde a vida se ilumina; não choremos ante o corpo inerte, porque o Espírito se está movendo no júbilo da libertação. Os espíritas não podem esquecer o simbólico ensinamento do Mestre: “... deixai que os mortos enterrem os seus mortos.” (Mt 8:22).

            A comemoração que, rotineiramente se celebra, a dois de novembro, deve ser substituída pela permanente comemoração dos - vivos verdadeiros - porque a noite da morte do corpo é a alvorada esplêndida do Espírito, despido da negra libré do cárcere, imergindo nas suaves, eternas claridades da aurora redentora...

segunda-feira, 5 de março de 2018

Saudades




S a u d a d e s
por Vinícius
Reformador (FEB) pág. 199 Ano 1934

               Sentimos, por vezes, necessidade de render culto aos nossos queridos que nos precederam na jornada para o Além. É o reconhecimento das qualidades que os distinguem; qualidades essas que nem sempre soubemos apreciar devidamente, quando os tivemos ao nosso lado.
             Os maus, quando partem, deixam no meio em que viveram uma impressão de alívio; os bons, uma sensação de vácuo.
              Esse vácuo é a saudade.
              A saudade tem gamas e tonalidades como o som, nuanças como a cores refletidas pela luz.
              A saudade é um sentimento agridoce, isto é, um misto de doçura e amargor. Entre essas duas propriedades, ela oscila como o fiel da balança.
              A saudade pode compor-se de amargor e doçura nas mesmas proporções. Isto se dá, quando jamais ofendemos aqueles que ora se encontram no Além.
             A saudade é mais amarga que doce, sempre que a consciência nos acusa de termos sido injustos com aqueles que hoje se acham separados de nós, no outro plano da vida.
             A saudade, finalmente, será muito mais cheia de doçura que de amargor, quando fizemos todo o bem ao nosso alcance aos seres ora ausentes; quando, em suma, realmente, lhes demos o nosso amor, reconhecendo suas aptidões e relevando seus senões.

***

             Porque havemos de reservar o melhor do nosso afeto àqueles que o destino colocou ao nosso lado, para depois de sua partida?
             Membros das famílias terrenas - estes ou aqueles - amai-vos uns aos outros, desde já, aqui na terra, para que o vosso amor continue no céu.
              Assim procedendo, a saudade que vierdes a experimentar um dia, será doce e suave; será um sentimento que contribuirá para aumentar a vossa ventura quando, de novo, vos reunirdes aqueles que vos são caros e cuja ausência tanto lamentais.
              Jamais alguém se arrependeu de amar e de haver perdoado. Das injustiças e do desamor resultam as lágrimas que se choram na Terra e os lamentos que ecoam nos profundos recôncavos do espaço.


Nossos mortos



                  Para nossa alegria, lembremo-nos sempre que "-Nossos mortos vivem." Uns, precisam de nossas orações. Outros, iluminam o nosso caminho.