Pesquisar este blog

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A Bíblia não proíbe a Mediunidade

           Durante muitos séculos, a ortodoxia religiosa tem invocado dispositivos bíblicos para condenar ou até mesmo tentar impedir a comunicação com seres desencarnados, através da mediunidade. Essa atitude "oficial" está aparentemente escorada no versículo 17 do capítulo 22 do Êxodo que, numa simples e sumária frase, diz o seguinte: "Não deixarás com vida a feiticeira." (1) Entendem os estudiosos que essa pequenina frase tenha também servido de apoio à nefasta doutrina da Inquisição, que tantas vítimas do "ódio teológico" espalhou pelos campos imensos da História. Essa norma fatal encontra-se no contexto do "Código da Aliança", colocado imediatamente após o Decálogo. O final do capítulo 20 e os três capítulos seguintes são um desenvolvimento, uma espécie de regulamentação das normas básicas contidas no Decálogo. É curioso, no entanto, observar que os chamados "Dez Mandamentos" nada dizem sobre feiticeiros e adivinhos e, quanto à pena de morte, são enfáticos e definitivos: "Não matarás".

            (1) Usaremos neste trabalho o texto da "Bíblia de Jerusalém", na sua versão espanhola de responsabilidade conjunta da Desclée de Brouwer S.A., da Bélgica, e das Ediciones Nauta, de Barcelona, Edição 1969.
  
            Como foi, então, que a impiedosa condenação das "feiticeiras" se alojou no texto?

            Em primeiro lugar, precisamos compreender bem o sentido das palavras. Nos tempos bíblicos, e mesmo nos que são representados no Novo Testamento, mediunidade era palavra inexistente. Os fenômenos psíquicos explodiam sem controle, sob todas as formas. Conforme a maneira sob a qual se manifestavam, recebiam um nome diferente: feitiçaria, adivinhação, augúrio, profecia, encantamento, magia, nigromancia e muitas outras modalidades intermediárias e complementares. Quando os textos bíblicos começaram a ser vertidos em grego, a palavra hebraica nabi foi traduzida pelo termo "prophetes". A questão é que profeta, literalmente, é aquele que prediz acontecimentos futuros. A transferência do texto hebraico para o grego obscureceu, dessa forma, o verdadeiro sentido da expressão nabi, e profecia passou a significar toda e qualquer manifestação psíquica, o que é bastante impreciso.

            Estudando as origens da palavra nabi, a Enciclopédia Britânica se sente algo perplexa. Primeiro, ao informar que sua origem é obscura, mas que suas derivações significam "intensa excitação", reportando-se a uma palavra assíria cujo sentido é "cair em transportes", ou seja, em transe. Conclui daí a Enciclopédia dizendo que tais conexões tornam "etimologicamente improvável" o significado da palavra. No entanto, temos excelentes razões para pensar de maneira inteiramente diversa. A palavra hebraica está perfeitamente identificada com suas origens etimológicas, pois que a profecia é uma forma de mediunidade e se manifesta exatamente pelo fenômeno da excitação espiritual ou, mais especificamente, do transe mediúnico.

            Não obstante, a mediunidade profética é apenas uma das muitas modalidades que compõem o quadro das faculdades psíquicas. Se usarmos apenas esse termo para descrever tais fenômenos, estaremos em erro, por generalizar, para toda sorte de manifestação, uma expressão que se aplica apenas a uma delas. Em outras palavras: todo profeta genuíno é médium, mas nem todo médium é profeta, tanto no sentido grego como moderno da palavra, ou seja, aquele que prediz acontecimentos futuros.


            Isso é tão verdadeiro que o excelente dicionário Funk & Wagnalls coloca a questão nos seus verdadeiros termos, com extraordinária lucidez, ao declarar que no contexto bíblico profetizar é "pronunciar verdades religiosas sob inspiração divina, não necessariamente predizer acontecimentos futuros, mas admoestar, exortar, confortar, etc."

            De qualquer forma, a palavra profeta e suas associadas profecia e profetizar ficaram consagradas numa amplidão de significado, que suas origens não justificam, ou seja, foram forçadas a significar muito mais do que primitivamente queriam dizer. Isto nos leva, com o conhecimento de que hoje dispomos, a propor uma correção ao texto bíblico, substituindo tais palavras pelas que a terminologia moderna consagrou, como: médium, mediunidade, manifestação mediúnica, etc. Se não podemos ainda introduzir no texto bíblico tais correções, pelo menos conservemos em mente essas informações, para que possamos entender a narrativa no seu exato significado, em face das conquistas da Doutrina Espírita.

            Dessa forma, palavras como feiticeiro, mago, adivinho, nigromante, encantador foram empregadas, através dos séculos, para rotular manifestações desconhecidas e mal estudadas da psique humana e que, pelo seu halo de fantástico, se tornavam, na melhor hipótese, suspeitas e, na pior, apavorantes e dignas da condenação mais dura da sociedade, de vez que o homem sempre temeu aquilo que desconhece.

            Vemos, então, sob os mais estranhos e terríveis nomes, manifestações que hoje sabemos serem simples formas de mediunidade e, como tal, suscetíveis de estudo e compreensão. Matar o médium, somente porque ele surge sob o nome de feiticeiro, é irracional, tanto quanto matá-lo, persegui-lo ou prendê-lo porque, por seu intermédio, os Espíritos dos "mortos" se manifestam para darem o seu recado.

       
     No entanto, o versículo 17 do capítulo do Êxodo manda matar os médiuns. É necessário buscar a razão de tão drástico e desumano procedimento, e isso faremos a seguir, procurando colocar-nos no contexto daqueles recuados tempos e das motivações dos homens que introduziram a norma na lei moisaica.

            O quadro é este: Moisés acabava de liderar seu povo para fora do Egito, retirando-o de uma escravidão longa e aviltante. Na realidade, aquela massa de gente não era ainda um povo, no sentido em que hoje entendemos essa palavra, mas apenas uma multidão, um ajuntamento de famílias e indivíduos frouxamente ligados por algumas tradições e hábitos comuns, mas certamente infestados de ideias estranhas a essas tradições, contraditórias e conflitantes. Moisés era mais que um líder religioso, pois o era também político e militar. Além disso, foi ainda o profeta da sua gente, isto é, seu médium. Através dele é que os poderes espirituais instruíam e dirigiam o povo nas suas grandes decisões e indecisões. Achava-se em pleno curso o processo de aglutinação daquela multidão heterogênea, com a qual um guia espiritual, falando em nome de Jeová, havia proposto um contrato, um acordo: em troca de fidelidade incontestável ao monoteísmo, Jeová tomava o povo sob sua proteção, como seus filhos prediletos, aos quais destinava um território fértil, onde poderiam fundar uma nação rica e poderosa. Fidelidade a troco de apoio. O monoteísmo é a ideia predominante em longos anos de pregação. Jeová não somente estimula a crença, mas ameaça com punições terríveis aqueles que se desviarem desse preceito básico. Mesmo assim, há evidências dramáticas de lapsos bastante sérios. Testemunho disso, por exemplo, é a cena em que Moisés, num impulso de desespero e de ira, quebra as pedras nas quais acabara de ser inscrito o Decálogo, de vez que, após breve afastamento, encontrou o povo recaído na idolatria. A crença no Deus único não estava, portanto, mesmo a essa altura, suficientemente consolidada no espírito da multidão errante.


            Por outro lado, preparavam-se os hebreus para tomar e ocupar terras estrangeiras, habitadas por povos estranhos que praticavam cultos diferentes e viviam sob outras tradições e diferentes hábitos e costumes.Que controle poderiam ter os líderes hebreus sobre sua gente, depois que se radicassem na Terra da Promissão e entrassem em comércio contínuo, permanente com os povos vencidos? Daí porque o livre exercício das faculdades psíquicas tornou-se mais que uma questão religiosa, um problema de segurança nacional. Grupos judeus que adotassem práticas mediúnicas locais estariam, sem dúvida, expostos à influência de estranhos guias, portadores de ideias diferentes que se chocariam com as que Moisés vinha ensinando, ao longo dos anos, à sua gente.

            Em lugar do Deus único, viriam incutir a idolatria e espalhar o tumulto no campo cuidadosamente preparado por Moisés no espírito de seus patrícios. Era imprescindível, pois, regulamentar, com extremo rigor, o exercício da mediunidade.

            É preciso ainda considerar, nesta altura, um ponto de extrema importância, que tem sido pouco apreciado. Moisés foi profeta de grande porte, ou seja, médium. Inegavelmente, foi a profecia - leia-se mediunidade - que criou a nação judaica, como afirma a Enciclopédia Britânica. Os profetas foram os "salvadores de seu povo", insiste a Britânica. E a tradição continuou e se consolidou. Depois de Moisés, praticamente todos os líderes politico-religiosos de Israel foram médiuns, escolhidos mediunicamente ou assistidos - e muitas vezes duramente interpelados - por vigilantes equipes espirituais, interessadas em dar forma e conteúdo à primeira nação fundada no princípio do monoteísmo.

            É estranho, por conseguinte, que, a despeito da suposta e tão proclamada proibição, toda a história de Israel seja espiritualmente orientada através da mediunidade de seus profetas e videntes. A moral judaica, que o Ocidente herdou, se apoia num documento incontestavelmente mediúnico: o Decálogo, recebido por Moisés, seja por psicografia ou por escrita direta. A evidência disso está em que, depois de quebradas as pedras, Moisés teve de retirar-se novamente para a solidão do deserto, no alto da montanha, para receber outra vez o texto, certamente porque era incapaz de reproduzi-lo com seus próprios recursos. A Bíblia é, assim, a narrativa de como um grupo de Espíritos desencarnados guiou uma nação inteira de irmãos encarnados, levantando-a da escravidão até ao estabelecimento de um Estado livre e consolidado. Não são apenas ensinamentos religiosos  que chegam do mundo espiritual, mas também observações e instruções de caráter político e até militar. Parece que a ideia era criar uma nação monoteísta, como sementeira e modelo das futuras nações da Terra. Isso é tanto mais verdadeiro que, ao decidir interferir pessoalmente nos negócios humanos, Jesus escolheu o povo de Israel como campo de trabalho.
            
Diante disso, é claro que a mediunidade devesse ser cuidadosamente regulamentada e policiada, para não tumultuar os planos. Do contrário, cada médium teria o seu guia diferente, ideias e conceitos diferentes, e seria impraticável fundir aquela massa toda numa só peça. Mas, inegavelmente, foi a mediunidade que colocou Israel no painel da História. É, pois, totalmente inconsistente a afirmativa de que a Bíblia proíbe o exercício da mediunidade; o texto apenas o restringe e regulamenta.

            Para comprovação disso, não precisamos buscar outras fontes; ela se encontra claramente na Bíblia mesma.

            Passado o período mais crítico do Êxodo, em que a existência de falsos guias poderia por em perigo a segurança do povo, vemos uma história bem diferente no Deuteronômio. Lemos aí, no capítulo 18, versículos 9 e seguintes, estas instruções:

            "Quando entrares na terra que Javé, teu Deus, te deu, não aprenderás a cometer abominações como as de tais nações. Não há de haver em ti ninguém que faça passar seu filho ou sua filha pelo fogo, que pratique adivinhação, astrologia, feitiçaria ou magia; nenhum encantador, nem quem consulte espetros, nem adivinho, nem evocador de mortos. Porque todo aquele que faz estas coisas é uma abominação para Javé, teu Deus, e por causa dessas abominações desaloja Javé, teu Deus, a estas nações diante de ti. Hás de ser totalmente fiel a Javé, teu Deus. Porque essas nações que vais desalojar escutam astrólogos e adivinhos, mas a ti Javé, teu Deus, não permite semelhante coisa. Javé, teu Deus, suscitará dentre vós, dentre teus irmãos, um profeta como eu, a quem ouvirás. É exatamente o que pediste a Javé, teu Deus, no Horeb, no dia da Assembleia, dizendo: "Para não morrer, não voltarei a escutar a voz de Javé, meu Deus, nem verei mais esta grande chama"; então, Javé me disse: "Está bem o que disseram. Eu suscitarei um profeta semelhante a ti, porei minhas palavras na sua boca e ele lhes dirá tudo o que eu mandar. (1) Se alguém não ouvir minhas palavras, as que este profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a ele. Mas, se um profeta tiver a presunção de dizer em meu nome uma palavra que eu não o tenha mandado dizer, e se falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá." Talvez digas no teu coração: "Como saberemos que tal palavra não foi dita por Javé? Se esse profeta fala em nome de Javé e o que diz permanece sem efeito e não se cumpre, então é porque Javé não disse tal palavra: o profeta a pronunciou por presunção; não hás de temê-to."

            Analisemos o texto em suas óbvias implicações. O povo judeu está prestes a entrar na posse da terra prometida e o Espírito manifestante o previne contra as falsas práticas e os falsos profetas, mas, definitivamente não proíbe o exercício da mediunidade; ao contrário, estabelece claramente que o povo continuará a ser orientado do mundo espiritual pela boca de novos profetas, que Deus suscitará. Tais profetas, no entanto, ou seja médiuns, serão recrutados no seio da própria gente judia. Será um profeta como eu, isto é, como o próprio Moisés. Surge, então, o problema crítico da autenticidade. Como poderá o povo saber se o médium é falso ou se está apoiado por um genuíno mandato divino? O Espírito que fala em nome de Javé ensina que se conhecerá o médium pelas suas obras (Jesus diria mais tarde que se conheceriam as árvores pelos seus frutos). Se o que o médium anunciar se realiza, então ele tem o suporte divino, se não se realiza, é falso e deve ser excluído do convívio do povo. Não seria legítimo também o médium que pregasse em nome de "outros deuses", pois era necessário preservar a ideologia religiosa da nascente nação. O teste da mediunidade autêntica era, pois, duplo: fidelidade absoluta à doutrina religiosa de Javé e realização, no plano humano, dos acontecimentos anunciados em estado de transe. É fácil concluir pela segurança desse duplo critério, pois nem um nem outro isoladamente seria suficiente para autenticar a mediunidade do "profeta".

            E foi assim que, ao correr dos séculos, a Bíblia passou a representar um repositório precioso de fenômenos mediúnicos da mais extensa variedade: psicografia, psicofonia, materializações, escrita direta, desdobramentos (1) espirituais, transfiguração, xenoglossia, sonhos premonitórios, transporte e tantos outros.



                (1) Esse texto tem sido, às vezes, interpretado como um anúncio da vinda do Cristo, opinião da qual não partilha o autor deste artigo. Deus não estabeleceria testes de autenticidade para Jesus, como o texto indica. Mesmo, porém, admitida aquela interpretação, não fica prejudicada a tese proposta no artigo, como se verá mais adiante.

            Em Gênese, capítulo 41, o faraó é avisado, por meio de um sonho premonitório, dos anos de penúria que iriam desabar sobre o Egito. José interpreta o aviso corretamente e, conquistando a confiança do faraó, acabou sendo seu principal ministro.

            No capítulo 3º do primeiro livro dos Reis, Eli é informado, através da nascente mediunidade de Samuel, que havia caído em desgraça porque não repreendera devidamente seus filhos pelo mau procedimento que haviam demonstrado. Ainda nesse mesmo livro, capítulo 9, versículo 17, Saul é apontado mediunicamente como futuro rei de Israel. Assim que Samuel pousou nele os seus olhos, Javé - isto é, o Espírito-guia - lhe disse ao ouvido: "Esse é o homem de quem te tenho falado. Ele reinará sobre o meu povo." O capítulo 28, ainda nesse mesmo livro, nos conta, com nitidez e sem artifícios, todo o desenrolar de uma sessão mediúnica, na qual Saul - cuja mediunidade, aliás, havia sido bruscamente retirada - busca desesperadamente falar com o Espírito Samuel, que pergunta secamente: "Para que me consultas se Javé já te abandonou e passou para outro?" Em seguida, anuncia o fim de Saul na batalha a ser ferida, o que realmente se deu.

            Em Daniel, capítulo 5º, a mão materializada de um Espírito escreve na parede da sala do festim uma mensagem em língua desconhecida. Como profeta e, portanto, médium, Daniel também é chamado a interpretá-las e anuncia corajosamente o fim do império de Baltazar.

            Estes são alguns dos muitos exemplos, mas a tessitura mediúnica se espalha por todo o Velho Testamento e alcança também o Novo, que conta não apenas os fenômenos produzidos por Jesus, como também os que se seguiram à crucificação, especialmente, neste último caso, nos Atos dos Apóstolos, que documentam a insofismável orientação mediúnica nos primeiros movimentos da Igreja primitiva, da mesma forma pela qual havia sido orientado o povo de Israel nos velhos tempos.

            Dessa maneira, não precisamos nem tocar nesse manancial de revelações mediúnicas que iluminou a Idade de Ouro da Profecia, quando viveram os grandes de Israel: Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, etc. Esses espíritos desassombrados levantavam a voz mesmo contra os poderosos da época, pregavam a palavra de Deus, anunciavam glórias e desgraças, mas havia um tema constante na pregação desses homens: a vinda do Messias, minuciosamente descrito e ansiosamente esperado. Tantos foram os sinais revelados profeticamente que o povo não poderia deixar de reconhecê-lo, mas, quando os tempos chegaram e veio Jesus, poderosos interesses contrariados conseguiram seu intento de assassinar o Messias sonhado, com o que, por sua vez também, se cumpriram as predições que anunciavam o seu fim trágico.

            Podemos, pois, afirmar com absoluta segurança que sem mediunidade não haveria Bíblia. Como aceitar, assim, a proibição do seu exercício?
          
           Há mais, porém. Se alguma dúvida ainda persistisse quanto ao funcionamento vigiado das faculdades psíquicas, bastaria o texto preservado no capítulo 11 de Números. Novamente, precisamos descrever o "background" dos acontecimentos, para entender bem o que aconteceu. O povo de Israel "proferia queixas amargas aos ouvidos de Javé". Já há muito andavam pelo deserto, em desconforto e pobreza e enjoados do maná; pediam carne e peixe, dos quais se lembravam dos tempos de cativeiro no Egito. Ouvidas as queixas impertinentes, Moisés também se irritou e sentiu todo o peso da sua própria responsabilidade na difícil liderança daquela gente turbulenta. E, por sua vez, lamentou-se diante de Javé, vergado ao peso das suas aflições e angústias: "Não posso carregar sozinho com todo esse povo: é demasiado pesado para mim. Se continuas a tratar-me assim, mata-me, por favor, se é que mereço a graça diante de ti, para que não vejas mais minha desventura."

            Javé lhe ordena, então, que reúna setenta anciãos de Israel na Tenda das Reuniões. "Eu baixarei para falar contigo - diz o Espírito -; tomarei parte do espírito que há em ti e o porei neles, para que levem contigo a carga do povo e não tenhas que levá-la sozinho."

            Em outras palavras: o Espírito propunha difundir mais a mediunidade - que até então pesava exclusiva sobre Moisés - entre outros membros da comunidade, para que se aliviasse a carga do grande profeta.

            Assim foi feito. "Saiu Moisés e transmitiu ao povo as palavras de Javé. Em seguida, reuniu setenta anciães do povo e os colocou em redor da Tenda. Baixou Javé na nuvem e lhe falou. Em seguida, tomou do espírito que havia nele e deu dele aos setenta anciãos. E assim que pousou sobre eles o espírito, se puseram a profetizar, mas não mais voltaram a fazê-Io."

            (1) Há aqui uma divergência. A tradução portuguesa da Bíblia, certamente feita da Vulgata, diz que
profetizaram e não cessaram de o fazer, ao passo que a Bíblia de Jerusalém informa que não mais voltaram a faze-lo, acrescentando, em rodapé, que a faculdade foi dada temporariamente.

            Há, porém, uma sequência extremamente valiosa para os objetivos deste trabalho. Vamos reproduzir o texto:

            "Haviam ficado no acampamento dois homens, um chamado Eldad e outro Meldad. Pousou também sobre eles o espírito, pois que, ainda que não tivessem saído da tenda, (2) estavam também entre os escolhidos. E profetizavam no acampamento. Um jovem correu a a visar Moisés: "Eldad e Meldad estão profetizando no acampamento." Josué, filho de Nun, que estava a serviço de Moisés desde sua mocidade, respondeu e disse: "Meu senhor Moisés o proíbe." Respondeu-lhe Moisés: "Que zelos são esses por mim? Quem me dera que todo o povo de Javé profetizasse, porque Javé lhes daria o seu espírito!" Em seguida, Moisés voltou ao acampamento com os anciãos de Israel" (capítulo II, versículos 26 a 30).

                (2) Certamente o texto indica que eles não saíram de suas tendas particulares para irem à Tenda das Reuniões. 

            Vejamos, pois, o que aí está. O guia espiritual de Moisés, falando sempre em nome de Javé, determina que sejam convocados setenta anciãos, aos quais, em memorável sessão, distribui faculdades mediúnicas, a fim de que pudessem, nesse campo, colaborar com Moisés e aliviar a carga de responsabilidades do líder. Dois desses homens, embora capazes do exercício da mediunidade, deixaram de comparecer à Tenda das Reuniões, mas, como estavam preparados, igualmente receberam Espíritos, do que Moisés foi imediatamente avisado. É notável, neste ponto, observar que o próprio Josué estava na crença de que Moisés proibia a manifestação mediúnica e não hesita em antecipar-se ao Mestre e declarar isso ao jovem. No entanto, Moisés sai com a desconcertante afirmativa de que gostaria que todo o povo de Israel fosse investido da faculdade de profetizar, isto é, exercer alguma forma de mediunidade, para que o Espírito de Deus se espalhasse por toda parte.


            De modo que, na próxima vez em que alguém disser que a Bíblia proíbe o intercâmbio com os "mortos", você pode informar com segurança que isso não corresponde à realidade dos textos. O contato com os irmãos desencarnados não é proibido; ao contrário, é desejado. O que se exige, porém, de quem se dedica a essas tarefas, é boa moral, experiência, conhecimento - e para isso foram escolhidos setenta anciãos - e boa dose de senso crítico, para examinar e testar o que dizem os Espíritos manifestantes e não aceitar cegamente o que nos transmitem, porque entre eles muitos falsos profetas se imiscuirão. Estes conselhos e observações milenares estão igualmente contidos no contexto da Doutrina Espírita codificada por Kardec, da mesma forma que foram lembrados nas Epístolas de Paulo e no Evangelho segundo João. Kardec preferia colocar nove verdades sob suspeição do que acolher uma falsidade.

            Vemos, assim, que, em essência, a mediunidade tem sido uma só, ao longo dos milênios e que, portanto, um só deve ser o cuidado com que a praticamos. Em todos os tempos, o médium tem sido o mensageiro dos irmãos espirituais desencarnados, intermediário entre uma forma de vida e outra, entre um mundo e outro, entre uma faixa vibratória e outra. Os cuidados com esse delicado instrumento de comunicação devem ser os mesmos, para que não se percam nem o instrumento nem o conteúdo da mensagem.

            Muita gente, antes de Kardec, assistiu ao exercício dessa maravilhosa faculdade, mas foi o Mestre de Lyon o primeiro a estudá-la e catalogá-la, de modo a tirar dela todo o proveito de que é capaz, identificando-lhe as imensas possibilidades, tanto quanto os riscos que pode oferecer.

A Bíblia
não proíbe a Mediunidade
Hermínio C. Miranda

Reformador (FEB) Maio 1972

domingo, 5 de julho de 2015

O Dr. Antoine Demeure e a correspondência de Kardec

O Dr. Antoine Demeure
e a correspondência de Kardec
por Francisco Thiesen
Reformador (FEB) Setembro 1974

            (...) agrada à maioria dos habitantes do globo terráqueo, e aquilo que a essa maioria agradará, não sabemos ou não podemos dizer. Ao homem só há duas ordens de assuntos que o podem Interessar: - a que satisfaz à sua curiosidade  de saber e de perscrutar o desconhecido,ou a que possa lisonjear a sua vaidade ou as suas inclinações viciosas, ou
 materiais. Tudo quanto saia desses dois campos é para ele metafísico ou desagradável.
            Ora o muito que há a dizer não satisfaz a nenhum desses dois casos." 

(Cezar Cantu (Espírito), mensagem psicografada por Fernando de Lacerda, em 3-12-1906,
cap. XIX, "Do Pais da Luz", vol. I, 5ª edição, 1952, FEB,)


            Antoine Demeure, (1) desencarnado em Albi (Tarn), França,  a 25 de janeiro
de 1865,  aos 71 anos, fora, segundo o próprio Kardec, o Cura d' Ars da Medicina: médico homeopata, humanitário, sempre disposto a socorrer sofredores e necessitados, encontrou, um dia, na doutrina do Espiritismo, ao tempo do Codificador, “a chave de problemas cuja solução debalde pedira à Ciência como a todas as filosofias". Abraçando o Espiritismo com ardor, tornou-se um de seus mais perseverantes divulgadores, pois, graças à "profundeza do seu espírito investigador" - é ainda Kardec quem observa (O Céu e o lnferno") 2ª Parte, cáp. II, 21ª edição, revista, 1974, FEB) - "compreendeu lhe subitamente todo o alcance".

            (1) Os escassos dados biogrãficos de Demeure foram colhidos nas obras de Allan Kardec - "O Céu e o Inferno", citada, e "Obras Póstumas", Segunda Parte, pp. 317/320, 13ª edição, 1973, FEB -, bem assim em "Les Pionners du Spiritisme en France", Première Partie - "Les Ainés", III - Docteur Antoine Demeure, pp. 28 e 29, editada por J. Malgras, 1906, e em "La Revue Spirite", nov./dez. 1969, pp. 238/240, "Un protecteur d'Allan Kardec: Le docteur Antoine Demeure", por Hubert Forestier.


            Demeure e Kardec não se conheciam pessoalmente mas correspondiam-se. Estabeleceu-se, assim, “mútua e viva simpatia" entre ambos, que a morte não só não fez cessar como tornou mais intensa e profunda, pois, cinco dias após a 30 de janeiro, escrevia o bondoso médico: “Aqui estou. Ainda vivo, assumi o compromisso de manifestar-me desde que me fosse possível, apertando a mão do meu caro mestre e amigo Allan Kardec. A morte emprestara à minha alma esse pesado sono a que se chama letargia, porém, o meu pensamento velava. Sacudi o torpor funesto da perturbação consequente à morte, levantei-me e de um salto fiz a viagem. Como sou feliz! Não mais velho nem enfermo. O corpo, esse era apenas um disfarce. Jovem e belo, dessa beleza eternamente juvenil dos Espíritos, cujos cabelos não encanecem sob a ação do tempo. Ágil como o pássaro que cruza célere os horizontes do vosso céu nebuloso, admiro, contemplo, bendigo, amo e curvo-me, átomo que sou ante a grandeza e sabedoria do Criador, sintetizadas nas maravilhas que me cercam. Feliz! Feliz na glória! Oh! quem poderá jamais traduzir a esplêndida beleza da mansão dos eleitos; os céus, os mundos, os sóis e seu concurso na harmonia do Universo? Pois bem: eu ensaiarei fasê-lo, ó meu mestre; vou estudar, e virei trazer-vos o resultado dos meus trabalhos de Espírito e que de antemão, como homenagem, eu vos dedico. Até breve. Demeure." (O Céu e o Inferno", ed. Citada, p. 202)

            A comunicação que vimos de reproduzir, revelando a jovialidade e toda a ternura de uma alma deslumbrada e sonhadora, amiga e agradecida, não sufocara, porém, a positividade científica e a acuidade filosófica do grande médico. Decorridos somente dois dias - sete após o próprio desenlace - a 1º de fevereiro, Demeure retoma para socorrer Allan Kardec num acidente por este sofrido: (2) (...) tende coragem e confiança em nós, porquanto essa crise, apesar de ser fatigante e dolorosa, não será longa, e, com os conselhos prescritos, podereis, conforme desejais, completar a obra que vos propusestes como fito da vossa existência." "Sou eu, Demeure, o amigo do Sr. Kardec - esta mensagem é a do dia seguinte, 2-2-1865 . Venho dizer-lhe que o acompanhava quando lhe sobreveio o acidente. Este seria certamente funesto sem a intervenção eficaz para a qual me ufano de haver concorrido. De acordo com as minhas observações e com os informes colhidos em boa fonte, é evidente para mim que, quanto mais cedo se der a sua desencarnação, tanto mais breve reencarnará para completar a sua obra. É preciso, contudo,  antes de partir, dar a última demão às obras complementares da teoria doutrinal de que é o iniciador. Se, portanto, por excesso de trabalho, não atendendo à imperfeição do seu organismo, antecipar a partida para cá, será passível da pena de homicídio (3) voluntário. É mister dizer-lhe toda a verdade, para que se previna e siga estritamente as nossas prescrições.         Demeure."

                (2) A natureza do acidente ou crise não ficou esclarecida. Mas, sabendo-se que o mestre Kardec  tinha problemas circulatórios, vindo a desencarnar ao rompimento de um aneurisma da aorta, é bem possível que um distúrbio cardiovascular o tenha atingido. A mensagem do dia 1º terminava com estas palavras: "Está muito quente aqui: esta fumaça é Irritante. Enquanto estiverdes doente, convém não fazer lume, a fim de não aumentar a vossa opressão. Os gases que aí se desprendem são deletérios. Vosso amigo Demeure."

            A questão da correspondência de Allan Kardec, cada dia mais volumosa, e a sua saúde, suscitando contínuos cuidados, trazem-lhe novos conselhos de Demeure, visando à restauração das energias físicas do missionário, seus afazeres doutrinários e, especificamente, a solução para o problema epistolar: Instrução relativa à saúde do Sr. Allan Kardec, comunicação mediúnica de 23-4-1866 (vide “Obras Póstumas", ed. citada, pp. 317/320). “As forças humanas tem limites que o desejo de que o ensino progrida te leva muitas vezes a ultrapassar. Estás errado, porquanto, procedendo assim, não apressarás a marcha da Doutrina, mas arruinarás a tua saúde e te colocarás na impossibilidade material de acabar a tarefa que vieste desempenhar neste mundo." “Ouve--me: deixa para mais tarde as grandes obras destinadas a completar a que está esboçada nas tuas primeiras publicações..." “(...) sou aqui o delegado de todos os Espíritos que tão poderosamente tem contribuído para a propagação do ensino, mediante suas sábias instruções. Eles te dizem, por meu intermédio, que esse atraso, que consideras prejudicial ao futuro da doutrina, é uma medida necessária de mais de um ponto de vista, quer porque certas questões ainda não se acham completamente elucidadas, quer para preparar os Espíritos a melhor assimilá-las. É necessário que outros tenham limpado o terreno, que se ache provada a insustentabilidade de certas teorias e que maior vácuo se haja produzido. Numa palavra: o momento não é oportuno; poupa-te, portanto; quando for tempo, indispensável te será todo o vigor de corpo e de espírito." "Farei aqui o que não  ousarias fazer por ti próprio: dirigindo-me a generalidade dos espíritas, pedir-lhes-ei, no interesse mesmo do Espiritismo, que te evitem toda sobrecarga de trabalho...” “Se a tua correspondência algo sofrer com isso, em compensação o ensino ganhará." “Às vezes, necessário se torna sacrificar as satisfações individuais ao interesse geral."

            A correspondência comum, Kardec passou a responde-la por intermédio de um substituto com o que as cartas a serem por ele mesmas preparadas, por abordarem assuntos relevantes, demandariam menores atrasos e em breve estariam em dia. Mas, como resolver o problema das cartas acumuladas, mais de quinhentas? “ preciso"- responde Demeure ”como se diz em linguagem comercial lança-las em bloco à conta de lucros e perdas. Noticiando esta providência pela “Revista”, os teus correspondentes saberão o que fazer; compreender-lhe-ão a necessidade e a considerarão justificada pelos conselhos que acabamos de dar. Repito: seria impossível que as coisas continuassem como têm ido. Tudo com isso sofreria: a tua saúde necessário, fazer os sacrifícios indispensáveis.”

            Demeure sabia muito bem a significação daquelas epístolas que saíam das mãos do Codificador, o seu poder de penetração nos espíritos e o alcance amplíssimo que elas tinham na época e teriam ainda no futuro: “A volumosa correspondência que recebes é para ti um precioso acervo de documentos e informações; ela te esclarece sobre a verdadeira marcha e os progressos reais da Doutrina; é um termômetro imparcial; proporciona-te, além disso, satisfações morais que por mais de uma vez te tem sustentado a coragem, mostrando-te a adesão que encontram tuas ideias, em todos os pontos do globo. Sob esse aspecto, a superabundância é um bem e não um inconveniente, mas com a condição de te auxiliar os trabalhos e não de os embaraçar, criando-te um acréscimo de ocupações."

* * *

            Em 1913, a FEB foi instada por confrades franceses a secundar "La Revue Spirite" (4) na divulgação da "Correspondência Póstuma de Allan Kardec", abrangendo o período de 1854 a 1869. "O Sr. Paul Leymarie, (5) diretor da "Revue Spirite", fundada pelo mestre em 1858, julgou de utilidade inserir na dita revista alguns extratos dessa correspondência,  cuja publicação parece impor-se, muito particularmente na época atual." "Escritores, pensadores, políticos, eclesiásticos, sábios, homens de todas as condições e de todos os países corresponderam-se com Allan Kardec." "Com incansável paciência e a fé esclarecida de um apóstolo seguro de sua missão com toda a sua energia e talento de escritor, o grande iniciador esforçou-se por consolar, satisfazer e instruir, abrindo às almas aflitas e torturadas as ridentes e doces perspectivas da vida supraterrestre. Minha correspondência, escreve em uma de suas cartas - a primeira que vai aparecer no número de dezembro  de 1913 da "Revue Spirite" -, será um dia, quando eu tiver desaparecido, uma coisa bem curiosa: será o mais vasto repertório da história do Espiritismo moderno."

            (4) o artigo "La" só foi preposto ao nome da "Revue Spirite" a partir de 1913. Mas, os franceses custaram muito a se habituar com a inovação; por isso, no início, ainda usaram várias vezes a grafia antiga na própria "La Revue Spirite".

            (5) Não confundir com o pai, Pierre-Gaétan Leymarie, companheiro e amigo de Kardec, e também administrador e redator-responsável pela "Revue" durante longo tempo.

            As palavras de Paul Bodier, (6) que reproduzimos entre aspas, são parte das que ele escreveu no prefácio à publicação referida e que estamos recolhendo do "Reformador", janeiro de 1914, pp. 4 a 7. O nosso órgão não se limitou a anuir ao convite que lhe vinha de Paris, acolhendo, desde logo, em suas páginas a importante correspondência do Codificador, pois teve, também, a primazia de estampar algumas cartas, às vezes seguidas de ligeiros comentários do apresentador aludido, já que a guerra europeia de 1914/1918 causou problemas à "Revue", obrigando-a a atrasos e interrupções, enquanto o "Reformador" , inobstante as dificuldades de outra ordem, peculiares à época e ao meio, conseguia manter-se à tona, propagando as questões e os ensinos, os fatos e as notícias pertinentes à doutrina e ao movimento do Espiritismo.

            (6) Os nossos leitores já o conhecem: é o autor do livro "A Granja do Silêncio" {Documentos póstumos m Doutor em medicina relativos a um caso de reencarnação, prefaciado por Gabriel Delanne, na qualidade de presidente da União Espírita da França, e traduzido por Guillon Ribeiro para a FEB.

            Mais tarde - dizia Paul Bodier -, a reunião de todas essas cartas, (7) classificadas cronologicamente, será suscetível de formar muitos volumes; mas, antes dessa exibição definitiva, achamos que devíamos dar importantes extratos, persuadidos de antemão de que serão favoravelmente acolhidos pelos admiradores do mestre."

            (7) Como é do conhecimento público, o Dr. Canuto Abreu é possuidor de volumosa correspondência original (rascunhos manuscritos) de Kardec. Em junho último, esse nosso confrade gentilmente nos exibiu algumas peças de sua vasta coleção, uma delas a pertinente à oferta de um exemplar de "O Livro dos Espíritos", em abril de 1857, pelo Codificador, ao Sr. Pâtier, responsável em parte pela iniciação de Allan Kardec no Espiritismo, segundo se depreende da referida carta. Quase todos os manuscritos são inéditos. Em virtude de as cartas publicadas na "Revue" dentro do esquema traçado pela sua direção e sob orientação de Paul Bodier, não terem atingido grande número de originais, como se esperava, entendemos que isso já foi decorrência das destruições de documentos por motivo da guerra 1914/1918 (fenômeno que se repetiu, com importantes papéis do Espiritismo em 1939/1945).
            Não excluímos a possibilidade, entretanto, de que muitos documentos tenham sido salvos, daqueles que constituiriam os muitos volumes do Sr. Paul Bodier, e estejam Integrando o rico e bem catalogado acervo do nosso amigo de São Paulo, Dr. Canuto Abreu.

***

            Veremos, a seguir, que as epístolas de Kardec, ainda aquelas redigidas por secretário, longe de ligarem-se a razões de mera formalidade convencional, obedeciam a ditames de invariável essencialidade, revelando na figura cativante do missionário de Lyon a clareza, a precisão e a lógica rigorosas que ressaltam dos seus trabalhos publicados, ao mesmo tempo que da sua superioridade moral, emergente das palavras, conceitos e atitudes, sobressaía aquela imensa humildade que fora a sua fortaleza de todas as horas, humildade que o conservara sereno e tranquilo na luta, até o fim da jornada.

***

            Em 1865, com carta de 24 de setembro, o Sr. J. P. Sanson remeteu de Madri a Allan Kardec, uma coletânea de poesias que escreveu com o fim de popularizar na Espanha as idéias espíritas. O mestre respondeu àquela missiva nestes termos: "Sr. Só muito tardiamente recebi vossa carta de 24 de setembro de 1865, assim como o volume de poesias que a acompanhava. Não agradeci mais cedo porque, não compreendendo a linguagem espanhola, não podia apreciá-las por mim mesmo, a meu pesar. Tive de confiá-Ias a pessoa mais capaz e só há pouco tempo foi-me restituído o volume com uma análise que me prova quanto a nossa bela doutrina felizmente vos inspirou. É uma mina fecunda para a literatura e as belas-artes, que um dia nela se avigorarão largamente, (...)"

            Depois dessas demonstrações de modéstia e humildade, e da previsão do desenvolvimento da literatura espírita - em plena realização no século XX - e da arte inspirada nos ensinos da revelação nova, vejamos uns parágrafos da carta de 30 de dezembro, do mesmo ano, endereçada ao Sr. Villou: "(.,,) mas estais enganado pensando que estou impaciente por deixar a Terra. Certamente, não é ela uma mansão agradável, mas, como minha tarefa não está ainda cumprida, peço a Deus que me dê forças e tempo para terminá-a. Entregue ao dever que ela me impõe, encaro, graças a Deus, as coisas de um ponto assaz elevado para suportar com indiferença as coisas da vida. Deus, em sua bondade, concede-me além disso tão doces e numerosas compensações que eu seria muito ingrato se me queixasse. Se aqueles que se ligam ostensivamente com meus inimigos pudessem ver o fundo de meu coração compreenderiam que perdem o tempo. O resultado que obtém é fazer-me extremar os amigos duvidosos dos amigos sinceros e devotados. Lastimo aqueles que esperam, por pequenas intrigas, impedir a marcha das coisas. Não é contra mim que eles se ligam, mas contra a vontade de Deus, que lhes pedirá contas do moral de todas as suas ações. Não é a mim que pertence julgá-los; não posso senão
Implorar para eles a misericórdia do soberano Mestre. Recebei, etc."

            A fé raciocinada era, na vida de Kardec, autêntica, experimental, como no-lo revelam suas palavras cheias de conformação às asperezas da existência e confiança na Providência Divina, mas conformação e confiança ativas no ininterrupto trabalho a que se impunha, no esforço de cumprir plenamente o seu dever - a sistematização dos ensinos do Espiritismo. Tudo isso mais se configura nas linhas abaixo, de 13 de janeiro de 1865, à Sra. Bouillant, de Lyon, além da polida e franca abordagem de delicadíssimo assunto contido na carta sob resposta: "Quando vejo os benefícios da doutrina, as consolações que ela oferece, considero-me largamente pago de todas as minhas fadigas e pergunto o que são a par disso as diatribes de alguns detratores invejosos e ciumentos que não pensariam em mim se não estivessem aterrorizados pelos progressos da doutrina." "Desejais tanto estar comigo em minha próxima volta à Terra que me recomendais incessantemente não me esquecer de vos inscrever. Não sabeis a quanto vos comprometeis; a tarefa será, talvez, mais rude do que supondes. Ser-me-ão necessários companheiros firmes que não recuem diante de nada; eu os manterei na vanguarda. Tanto pior para vós se vos arrependerdes mais tarde; estais arregimentados, vós e o Sr., Bouillant, e não podeis mais recuar, a menos de ser desertor (sic). Cumprimentos ao Sr. Bouillant e acreditai no devotamento de Allan Kardec."

            Quando escreveu, em 5 de janeiro de 1863, ao Sr. Normand, advogado, secretário da Sociedade Espírita de Tours, o mestre revelou-se atilado psicólogo e não menor estrategista no trato de problemas de alta relevância no âmbito do movimento espiritista: " ... em presença de semelhante resultado (pertinente ao futuro da humanidade), as questões de pessoas devem desaparecer, como quando se trata de uma grande batalha que deve decidir da sorte de um império. Considerar-me-ia feliz se pudesse inscrever a Sociedade Espírita de Tours no número dos melhores trabalhadores e aqueles que a dirigem no número dos melhores generais da grande falange espírita; mas, não se deve perder de vista que o melhor general é aquele que sabe aliar a prudência à coragem. Se virdes o inimigo extraviar-se, não vos apresseis em atacá-lo ; deixai-o, ao contrário, embaraçar-se na sua própria rede e então não tereis grande trabalho para vencê-lo, porque ele se enfraquece e se desacredita e mata-se, por si mesmo por seus próprios excessos". ("Reformador" de 1917, pp. 334, 408 e 409.)

            O trabalho de implantação do Espiritismo no mundo realmente não se consolidou sem lutas, e estas Kardec teve de vencê-las por fora e por dentro da área do edifício da codificação, envolto em considerável andaimaria. É o que observaremos mais pormenorizadamente, a seguir, principiando por tópicos da carta ao Sr. T. Jaubert, em resposta à que este lha endereçara em fins de 1865 e lida na Sociedade de Paris: "Há tantas pessoas que não apanham senão a superfície das melhores coisas! E, demais, é preciso considerar que alguns veem no Espiritismo muito menos assunto de convicção do que uma nova mina a explorar ... " "Finalmente, devemos fazer entrar em linha de conta os falsos irmãos, dóceis agentes de seitas tenebrosas, que tomam todas as máscaras para se insinuarem por toda parte; lobos que se vestem com pele de ovelhas para se introduzirem no redil; hipócritas de devotamento factício que, com o auxílio de falências verdadeiras ou simuladas esperam lançar a desordem e o desânimo nas fileiras..." "Sim, caro Sr., é preciso que a humanidade crie pele nova para se purgar de todas as suas chagas! Os inimigos mais poderosos do Espiritismo não são seus adversários abertamente. declarados, mas aqueles que lhe tomam a máscara. Fiscalizar todas as suas intrigas e frustrá-las com prudência não é a parte menos rude e menos penosa da minha tarefa. Felizmente, tenho por mim a coragem e a perseverança que dão a certeza de conseguir o fim. Conheço os homens e de nada me admiro; sei que as grandes ideias não se estabelecem sem luta; sei que terei ainda grandes obstáculos a vencer, mas não os temo porque sei que a vontade dos homens nada pode contra a vontade de Deus. O progresso é um parto laborioso que encontra resistência tenaz nos abusos que ele tem de arrancar e que lhe disputam o terreno, palmo à palmo. Digamos ainda- outra coisa - evito falar de mim -, é que se o sucesso de minhas obras é causa de alegria para os adeptos sinceros, é para alguns uma dor de coração: o crédito que esse sucesso me dá os ofusca. Não são verdadeiros espíritas, direis; de acordo; mas querem ter-lhes a aparência. Têm ciúmes da minha posição! Desejaria vê-los em meu lugar, trabalhando sem tréguas nem descanso, acabrunhado pela fadiga e pelas vigílias, com o espírito sempre tenso, o olhar constantemente sobre todos os pontos do horizonte para vigiar a minha barca à feição e conduzi-la mais seguramente ao porto e isso sem poder tomar o repouso que seria necessário à minha saúde. Ao menos o marinheiro, uma vez no porto, descansa ; para mim o porto é no outro mundo."

            As respostas dirigidas através de secretário não eram, como chamamos a atenção no início deste artigo, formais, superficiais. Eis parte da que foi dada a um professor que anteriormente merecera uma carta do mestre a propósito de comunicação de Voltaire, publicada na "Revue" em 1862: "O Sr. Allan Kardec, como outro qualquer, não tem a pretensão de satisfazer a todos; se achais o Espiritismo muito católico, outros supõem que não o é bastante. Entre estas duas apreciações, encontra-se uma massa, crescente dia a dia, que o considera como a filosofia mais racional." "Deixemos, pois, ao tempo o cuidado de esclarecer os pontos ainda obscuros, porque cada dia se alarga o círculo dos mistérios que ele revela. O Sr. Allan Kardec, que acompanha esse progresso, sabe também que não se deve, por uma impaciência inconsiderada, ultrapassar a ordem das coisas, e que, antes de colher, é necessário deixar que o grão amadureça." "Além de muitas questões secundárias que encontrarão solução ulteriormente, há uma que domina todas, é a prova da existência da alma e da vida futura, baseada em fatos e apresentada sobre aspecto mais racional do que até hoje se fizera; somente dessa prova decorrem consequências de incalculável alcance para o futuro da humanidade." "Termino dizendo-vos que o Sr. Allan Kardec tomou muito em consideração as vossas observações, que encontrarão seu lugar em tempo útil em seus escritos ulteriores. Recebei, etc." ("Reformador", 1914, pp. 7,8,9, 180 e 181.)

            A correspondência e a "Revue Spirite" constituíam para Kardec - e é importante lembrarmo-nos disso - vasto campo experimental, no qual ensaiava junto à opinião pública - aquela parte consciente e ativa da coletividade que se não confunde com a massa inconsciente e passiva - o desenvolvimento das ideias e a gradação dos ensinamentos, pois  não ignorava que tudo vem, no mecanismo sensível da evolução, no tempo próprio. É por isso que, às vezes, e não poucas, identificamos em suas cartas, como anteriormente constatáramos em artigos e mensagens mediúnicas na "Revue", estudos pelo mestre incorporados às páginas dos livros da Codificação e aos escritos que deixou entre seus papéis, e que P.-G. Leymarie reuniu e "fez publicar sob o título de "Obras Póstumas", em 1890 - vinte e um anos após a desencarnação do missionário de Lyon.

            Na carta abaixo, dirigida à Sra. M ...("Reformador", 1914, pp. 369 a 370), encontraremos Allan Kardec, em sua bondade e humildade habituais, analisando a situação da sua pessoa, da tarefa que lhe fora confiada, dos companheiros de lutas em face dos deveres comuns, das dificuldades que encontrava, da posição de firmeza por ele assumida e do rumo a ser seguido - tudo objetivando, sem equívocos nem ambiguidades, o fiel e integral cumprimento daquilo de que lhe incumbira o Espírito de Verdade: a implantação na Terra do Consolador prometido por Jesus-Cristo. O caráter sem jaça do valoroso codificador do Espiritismo pode ser avaliado por este documento transcrito integralmente, como o tem sido por outros tantos o termômetro imparcial, no dizer do Doutor Demeure, e o mais vasto repertório da história do Espiritismo moderno, na avaliação do próprio Kardec.


            "Cara Senhora. Embora tenha tido o prazer de ver o Sr. M ... -na sexta-feira última, «não me julgo dispensado de agradecer-vos pessoalmente ,a boa e afetuosa carta que tivestes a bondade de escrever-me e os testemunhos de simpatia que ela encerra.
            Minha pessoa é questão secundária: eu sei que a verdade será um dia conhecida e que isso não se dará para a maior glória de certas pessoas; mas, cada coisa deve vir a seu tempo e esta é desse número.
            Certamente, minha tarefa não é toda de rosas, e o que aumenta a dificuldade é que a maior parte cai sobre mim; é que muitas vezes aqueles que deveriam secundar-me trazem-me peias e suscitam embaraços. Mas, que é que isso me faz, desde que sei que hei de chegar ao fim? Sinto um pouco mais de peso e eis tudo. Isso não traz prejuízo nem a mim nem à doutrina, mas àqueles que não tiverem querido partilhar as fadigas e os perigos da campanha; colherão o que semearam.
            Não me lamenteis, porque eu próprio não me queixo; tenho a pele de um elefante para as mordidelas; ela está à prova de bala. Tenho além disso tantos bálsamos para acalmá-las, quando não fossem cartas da natureza da vossa. Tudo isso é necessário e tem sua utilidade. Jesus não teve seu Judas? Ora, eu, que estou longe de ser Jesus, devo admirar-me de os ter, às dúzias? Isso me está anunciado há muito tempo, e tudo que me acontece que me impede de seguir meu caminho reto e de marchar a meu fim. Dia virá, tenho a certeza, em que o Espiritismo terá, campeões devotados, que saberão falar alto e fazer calar as más línguas e em que eu próprio serei secundado por homens de coração na minha tarefa pessoal, que crescerá em lugar de diminuir.
            Não creiais, minha cara Senhora, que minhas respostas ,e explicações sejam de natureza a acalmar a malevolência; longe disso, quanto mais irrefutáveis forem elas, mais irritação causarão a certos indivíduos como é lógico, porque eles não procuram convencer-se da verdade: ora, quanto mais clara é a verdade, mais os ofusca. Aqueles, sobretudo, que se escondem sob falsas máscaras ficarão furiosos por se verem adivinhados. Não querendo confessar-se vencidos, forjam novas armas, inventam novos estratagemas, e, é querendo salvar-se que se perdem, porque se desmascaram.
            Há pessoas que nunca me perdoarão o ter sido bem sucedido e que prefeririam ver perecer o Espiritismo, ao verem prosperar em outras mãos que não as suas. Mas, se fui bem sucedido, não é ao meu mérito pessoal que o devo - porque não tenho a tola pretensão de ser o único homem no mundo, capaz de levar esse negócio a bom fim: é ao apoio dos bons Espíritos, que quiseram servir-se de mim, é pois dos Espíritos que eles se devem queixar de não terem sido escolhidos.
            Os Espíritos tem muita razão de dizer que o Espiritismo levanta a vasa do mundo encarnado e desencarnado e dele faz sair uma multidão de animais venenosos. Nunca doutrina alguma causou tanta inquietação nem cólera e é o que prova a sua importância.
            Parece-me ver bandos de pássaros que se agitam, se inquietam e gritam à aproximação da tempestade.
            Mas, embora rindo-me desse rebuliço, vejo que devo agir com extrema prudência para governar meu barco através dos escolhos; avançar ou parar a propósito, interrogando os quatro ventos do horizonte. É um combate perpétuo com o inimigo, que está em face, ocupado em barrar a passagem e o que está por trás, procurando nos morder as pernas e para o quais é muitas vezes de alta política fingir-se morto.
            É preciso que eu esteja sempre alerta, sempre trabalhando na construção do edifício. Semelhante aos colonos do deserto, é preciso que eu tenha a enxada numa mão e a a espada na outra.
            Mas, através da bruma, tenho uma bússola segura que me mostra a estrela polar e o ponto a que devo chegar; e se sucumbisse antes de alcançá-lo, Deus providenciaria, porque, falhe eu cedo ou tarde, Ele não deixará a sua obra inacabada: as obras divinas não repousam sobre a cabeça frágil de um homem.  Se um instrumento se quebra, é imediatamente, substituído. Deu tem-nos sempre de sobressalente; é para por em prova que Ele permite que certas pessoas se façam conhecer desde já pelo seu justo valor. Tenho sido, e sou ainda agora, ao mesmo tempo, o capitão e o tenente, mas o alferes virá e,por sua vez, tornar-se-á capitão; somente é preciso ganhar suas esporas.
            Perdão, Senhora, de toda esta verbiagem à qual me levou, sem que eu percebesse, não sei que Espírito tagarela. Se eu não o fizesse parar, ele diria muito mais.
            A Sra. Allan Kardec incumbe-me de vos apresentar e a vossas senhoritas os mais afetuosos cumprimentos e eu vos ofereço, assim como a toda a família, a expressão de meu inteiro devotamento.”
                                                                       Allan Kardec



Uma pequena mensagem...




"Na Terra, quanto contraste
No rol da mundana estima!..
Muitos sobem... para baixo,
Muitos descem.. para cima."



Lições da Estrada (trecho)
Gastão de Castro
por Chico Xavier

Reformador (FEB)  Junho 1970

Indulgência Ainda


            A indulgência não é apenas caridade para com os outros.

            Erige-se igualmente como processo de nos imunizarmos contra o impacto de
vibrações destrutivas. Por isto mesmo, o tato deve estar conosco, à feição de porta-verdade, a fim de que os nossos pensamentos não venham a ferir os outros, tornando de outros para nós, de maneira a ferir-nos.

            Assim nos expressamos porque a ideia em si é fonte de força em que a palavra se articula.

*

            Aprendamos, ainda e sempre, a empregar a indulgência construtivamente, em se tratando das pessoas.

            Quando esse companheiro ou aquela companheira se mostrarem autoritários,
de modo excessivo, mentalizemo-los por irmãos responsáveis e confiantes; surgindo os que se nos afigurem vagarosos, na execução das tarefas que lhes caiba, imaginemo-los por meticulosos e tímidos, nunca por preguiçosos ou lerdos; se aparecem por figurinos de avareza e se chamados a exprimir-nos, quanto a eles, interpretemo-los por amigos da poupança e não da sovinice; quando se revelarem portadores de opiniões demasiado francas, aceitemo-los por amigos sinceros mas não imprudentes; em se evidenciando facilmente irritáveis, vejamo-los por temperamentos emotivos e não por pessoas aborrecidas ou intolerantes; e quando se nos destaque aos olhos por irmãos indecisos ou amorfos, saibamos classificá-los por amigos cautelosos e moderados.

•

            Indubitavelmente, os pensamentos e as palavras, na expressão simbólica, são cores e tintas com que nos será lícito expressar a própria conceituação de acontecimentos determinados; no entanto, em se tratando de criaturas sensíveis quanto nós, sejamos observadores das ocorrências e irmãos das pessoas, a fim de auxiliá-las para que igualmente nos auxiliem. Busquemos sentir e pensar, agir e realizar no bem e saberemos sempre sacar do coração e do cérebro a boa palavra capaz de compreender e de amparar, orientar e servir.

Indulgência Ainda
Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Setembro 1974

sábado, 4 de julho de 2015

O Espírita perante a Lei

            A Lei, em termos humanos, é força atuante, representada por um complexo de normas do procedimento, segundo um mínimo ético - que seria a Moral - visando à disciplinação da própria pessoa (espírito), segundo moldes lógicos e necessários ao bem-estar coletivo.

            Em ângulo mais aberto, a lei previne e reprime; é profilaxia e terapêutica; age antes, durante e depois do fato que, em alguns casos, nela se enquadra plenamente. Com bastante convicção e tranquilidade, podemos mesmo afirmar que ela é elemento indispensável à ordem da sociedade, "stricto sensu", e do Universo, "lato sensu". Sem a Lei, rolaríamos definitivamente no abismo da desordem completa.

            Como comportar-se o espírita diante de realidade mais que verificada, amplamente comprovada? Em quem acreditar? .. Nas vozes de uma pretensa liberdade ou em verdadeiras promessas de "trabalho, suor e lágrimas", necessários ao burilamento íntimo? Será bom lembrarmos, para que se arrefeçam dúvidas, que liberdade absoluta é utopia, assim como igualdade total. Há hierarquia no Universo do Pai... Sempre houve e haverá. Galgamos posições as mais diversas na longa caminhada que nós mesmos escolhemos com nossas falhas, nossos erros e nossa teimosia. Pretender o contrário é invocar recurso surrado e desgastado, carecedor de correções prementes. Liberdade absoluta pressupõe desordem e arbitrariedade, sinônimos de anarquia. E a boa interpretação da Lei vem auxiliar-nos no entender de semelhantes verdades. Isto porque estamos condicionados a uma série de DEVERES impostergáveis para com o próximo e para com nós mesmos. Nós, espíritas, principalmente, precisamos imbuir-nos de um sentimento cada vez mais nobre e altruísta, esquecendo DIREITOS e cultuando DEVERES. O dia em que o homem pensar em termos de DEVER NATURAL o Direito despontará não mais como coerção, ainda necessária, mas como único educador, como termômetro seguro, apontando tensões e necessidades, estatuindo estágio mais feliz no campo das humanidades.

            O papel da Doutrina Espírita no terreno legal é, assim como em todos os demais, dos mais vastos e significativos, uma vez que, sendo o Cristianismo redivivo, fornece os subsídios indispensáveis a uma fiel compreensão dos problemas do mundo. De outro modo, aliás, não poderia ser, uma vez que o Espiritismo é também Ciência e Ciência marcha de acordo com infinito número de Leis. Todos os dias novas perspectivas são descortinadas por nossos olhos deslumbrados; a cada dia damos mais um passo em direção ao conhecer. Abreviemos semelhante processo pela prática do bem incondicional. Do mesmo modo, o Universo não é senão um conjunto de leis sublimes e atuantes, a gerar harmonia em todos os sentidos. Encarando a Lei Universal, afigura-se nos tão majestosa a obra do Pai de Misericórdia que, sem o menor embargo, podemos sentir ORDEM naquilo que, exteriormente, toma aparência de DESORDEM; é tudo uma fase preparatória ao advento do equilíbrio. Tudo, é necessário convir, segue um processo inadiável e irreversível de aprimoramento, de caminhar constante em direção à perfeição.

            Para o verdadeiro espírita, Deus é a perfeição única, a Lei das leis, Lei essa que se projeta concentricamente por todo o espaço, gerindo, criando sempre e transformando. A Lei Divina é eterna e imutável porque dela depende o equilíbrio de todo o Cosmo, da própria vida em todos os graus de evolução. E para que exista ou venha a existir felicidade em nosso mundo será necessário que as leis humanas, estruturadas, codificadas de acordo com as pálidas e anêmicas luzes de que nos fazemos portadores (quando não somos a própria treva), sejam fiéis interpretações, projeções autênticas da Lei Natural ou Divina. Semelhante entendimento, no entanto, encontra-se basicamente orientado por uma das facetas da Lei Divina e geral: a Lei do Progresso ou da Evolução. Nenhuma criatura foi gerada para permanecer estacionária, seja onde for. Dinâmica, movimento... são situações do próprio Universo! ... Nada para, nada cai em marasmo... tudo caminha, tudo prossegue e progride. Passando pelos reinos inferiores, pelas etapas intermediárias - aquele(s) elo(s) perdido(s) que procuramos -, somos, finalmente, racionalizados, investidos do livre arbítrio que, mal utilizado, nos leva à falência, à encarnação primeira, de acordo com a gravidade da falta cometida. Entender ao contrário seria renegar a própria Lei Divina que exaltamos diariamente, seria contra senso. Não pudemos seguir em linha reta, como o Cristo de Deus, mas, nem por isso a Lei do Progresso foi derrogada... Continuamos a seguir em ziguezagues, é bem verdade, mas sempre. O estágio em que nos encontramos não nos permite captar a Lei Divina senão extremamente deformada, desvirtuada. Por isso, por não compreendê-la sequer satisfatoriamente, surgem as legislações falhas, que fogem à realidade e à solução dos reais problemas do mundo.

            É a lei humana atuando segundo a lei do progresso que, a seu turno, funciona embasada na lei Divina.

            Concordamos, é bem verdade, em que aquela longe está da projeção divina e que, ao mesmo tempo, tal imperfeição - como já ficou patente - é produto de nosso estágio evolutivo. Mas, do mesmo modo, há que convir na impossibilidade de convivência sem o domínio da autoridade constituída por lei e em favor da observância da própria Lei, o que não implica acatamento cego, sem raciocínio e sem garantias afastadoras do próprio abuso legal.

            É neste sentido que a Constituição da República Federativa do Brasil, de 24 de janeiro de 1967, de acordo com a redação que lhe conferiu a Emenda Constitucional nº 1, de 17 de outubro de 1969, apresenta, em seu artigo 153, caput, bem como nos trinta e seis parágrafos que se seguem, tudo no Capítulo IV do Título II, os Direitos e Garantias Individuais, asseguradores de uma segurança a todos os que se encontrem no país. Assim se apresenta a Lei Magna:

            "Art. 153 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança (Direitos da Personalidade) e à propriedade (Direito Real), nos termos seguintes:"

            ...E seguem-se os trinta e seis parágrafos. Os parêntesis são nossos.

            Como o espírita deve encarar semelhante dispositivo da Lei humana Maior, somente comparável - dentro da jurisdição doméstica - à "grundnorm" "pacta surit servanda" do Direito Internacional?.. Continuamos a afirmar ser tudo uma questão de evolução, uma vez que horizontes mais amplos e mais esclarecidos são efeito de passos igualmente mais corajosos, de defeitos vencidos, que um dia nos conferirão a certeza e a tranquilidade do espírito seguro de si.

            Com efeito, ainda que precisemos estender nossa visão em um esforço para mais além, no intuito de assimilarmos a "mens legis" (o cerne da lei), somente descobrimos para nós DIREITOS e, para os semelhantes, DEVERES. Achamos sempre, em explosões de egocentrismo descabido, que a Lei nos assegura garantias, direitos contra todos, olvidando que A e B - nossos companheiros de jornada evolutiva - merecem tanto respeito, carinho e tolerância quanto nós mesmos. Mas, mesmo assim, nossa cegueira é tão extrema, tão assustadora que temos o poder (que lástima! ... ) de subestimar os valores de terceiros, não reconhecendo direitos e garantias a ninguém. Do ponto de vista do personalismo que ainda nos vergasta, dizemos sempre Direito à vida, Direito à honra, Direito à paz, Direito à liberdade, nunca recordando o Dever de assistência, o Dever de honrar, o Dever de dar paz, enfim, o Dever de acatar os direitos do semelhante!... Falamos sempre em Direito Natural, esquecendo o Dever Natural.

            É bem verdade que Direito sem Dever, assim como Dever sem Direito são posições exacerbadas, polos extremos que não produzem satisfatoriamente. Mas, é bem verdade também que, se somente pensarmos em termos de Eu, Eu e Eu, estaremos colaborando para o definitivo assentamento do império do egoísmo!.. Precisamos, paulatinamente - porque nada se realiza às pressas -, substituir a primeira pessoa do singular pela terceira para que, futuramente, alcancemos a primeira do plural: Nós. Precisamos pensar antes em DEVERES, depois em DIREITOS, até que alcancemos a posição ideal da perfeição com o Mestre e Senhor Jesus.

            O espirita perante a Lei deve ser o homem que tem como DEVER o acatamento dos DIREITOS de terceiros, daí aparecendo sua garantia; deve ser aquele que, em resumindo, ama ao próximo como a si mesmo e a Deus sobre todas as coisas.

            Se a legislação humana é falha em alguns pontos, é bastante lógica em outros... Consideremos as imperfeições que temos conosco, procurando extirpá-las pela vivência do preceito do auxílio mútuo e da caridade com o Mestre. Não entendamos com isso que devamos ser fanáticos, anulando o raciocínio que é dádiva de Deus, "batendo no peito" diariamente, repetindo o erro de outras religiões, igrejificando-nos, encastelando-nos em supostas torres de marfim. Procedamos justamente ao contrário: entendamos a Lei como elemento necessário ao equilíbrio nosso, como conjunto de normas imprescindíveis ao bom andamento da situação geral. E se achamos que a Lei deve aperfeiçoar-se ainda mais - e certamente isso ocorre diariamente -, acatemo-la mais ainda, porque assim estaremos pacificando um dos pontos fracos de nós mesmos: a intolerância... a impaciência.

            Não digamos que a Lei é ineficaz, que de nada serve... Nunca!... Se já somos tão insubordinados, com a Lei, que dizer sem ela?!..

            Para terminarmos entendendo plenamente a situação, imaginemos certos matizes de vocabulário, necessários a uma plena compreensão. Atualmente, distinguimos na Lei dupla função: a preventiva e a repressiva, com predominância desta. Futuramente, predominará a finalidade preventiva, porque a maioria deixará de agir insubordinadamente, pelo simples prazer de conturbar. E em épocas ainda mais remotas, em futuro muito distante, achamos, a Lei será tão-somente neutralizante; ninguém duvidará mais da verdade, da necessidade da fraternidade, porque, Espíritos redimidos, já estaremos na Terra vivendo a felicidade de Mais Alto. Mas, nem mesmo então permaneceremos na contemplação beatífica, porque Trabalho também é Lei Universal, projeção da Lei Divina ou Natural. Alhures em algum lugar do espaço, a Lei ainda estará na fase repressiva... e nós, que já compreenderemos a, Ordem Universal, envidaremos esforços máximos no sentido de amainar a desordem e infelicidade em que ainda gravitarão irmãos nossos, isso porque a LEI também é Cooperação, Fraternidade, Sacrifício e Compreensão!. .. Agiremos com eles tal como os mentores da Espiritualidade Maior, hoje, agem conosco.

            Seremos então um só com o Pai!..  E isso porque a LEI é AMOR!... Pacifiquemo-nos.

O Espírita perante a Lei
Gilberto Campista Guarino

Reformador (FEB) Fevereiro 1973