Pesquisar este blog

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

6b. AntiCristo senhor do mundo



6b

            "Era costume da Igreja - refere o historiador - se alguma heresia grave perturbava a sua paz interna, reunir-se em concílio; esse remédio, oportuno quando a autoridade eclesiástica ainda tinha prestígio, foi proposto logo que se manifestou o movimento (reformista), e os próprios protestantes apelaram para o concílio, das excomunhões dos papas. O imperador desejava que os dois partidos se conciliassem. Os católicos acreditavam que a tão falada reunião poria termo à discórdia; mas Clemente VII, nascido ilegitimamente e pouco legitimamente elevado ao pontificado, não podia desejar uma assembleia que teria muito que lhe censurar a ele e de acusar a instituição por ele representada, e que, além disso, talvez se declarasse superior ao papado, como a de Basileia. Tergiversou, portanto, e opôs muitas dificuldades à reunião do concilio, dizendo principalmente que, se era preciso um sínodo para definir doutrinas novas, não o podia ser para definir as que já tinham sido objeto de sentenças definitivas."
            "Alexandre Farnesio, que Clemente VII recomendara à hora da morte, sucedeu-lhe com o nome de Paulo III (novembro de 1534).  Tendo-se aplicado desde a infância às letras e às artes, principiou o mais famoso palácio do mundo e edificou uma esplêndida casa de campo perto de Bolsena; seduzido pelo exemplo de uma época de costumes tão fáceis, teve muitos filhos. Geralmente benquisto, afável, suntuoso, timbrava em não dizer uma palavra que não fosse clássica, mas acreditava no influxo dos astros."

            Fazendo-se com tudo rodear de excelentes cardeais, a fim de com eles repartir as graves responsabilidades de sua complexa missão, empreendeu algumas medidas preparatórias da grande assembleia, mas somente onze anos depois de sua investidura (setembro de 1545), conseguiu reunir em Trento o concílio, que devia prolongar por dezoito, intermitentes, anos os seus trabalhos e no qual se fez representar, como presidentes, por três legados seus, que ele chamava "anjos da paz".

            O fim da assembleia, segundo o declarou, "era extirpar as heresias, corrigir os costumes e a disciplina, restabelecer a concórdia entre os príncipes cristãos".

            "Os trabalhos preliminares - refere ainda o historiador - foram longos; houve renhida discussão, verdadeira luta entre duas opiniões antagônicas. O partido francês, de que era um dos corifeus o cardeal Contarini, desejava a reforma dos abusos papais, esperava que da confissão dos pecados e da sincera penitência viesse a resultar o restabelecimento da unidade da Igreja; o partido dos jesuítas, pelo contrário, queria apenas retemperar a autoridade do papa e afirmar a inflexibilidade do dogma. Esses dois partidos se digladiaram vigorosamente quando se tratou de saber se o concílio havia de tratar da disciplina ou do dogma, da reforma dos costumes eclesiásticos ou da renovação da fé; venceram afinal os jesuítas, e as questões teológicas preteriram as disciplinares. Em vista dessa vitória, os protestantes (que não compareceram ao concílio - advirtamos - por terem legitimamente pretendido, sem resultado, "que o papa comparecesse no seu seio, não como chefe, mas como parte", e haviam recusado "submeter-se previamente às suas decisões se os não admitissem nele e com voto deliberativo") declararam na dieta de Ratisbonna (1546) que se não submeteriam às decisões do concílio."

            Estava assim frustrado um dos principais objetivos da assembleia, que era obter o restabelecimento da unificação no rebanho chefiado pela igreja romana, e esse primeiro resultado foi devido, como se vê, à preponderância dos jesuítas nas suas deliberações. Essa influência dominadora continuou a se fazer sentir assim nas questões dogmáticas, que eclipsaram inteiramente as puras doutrinas evangélicas em seu espírito de mansidão e de concórdia, como no referente à discricionária autoridade papal, consoante, no prosseguimento da narrativa; que resumimos, o assinala o historiador. Traçado o mencionado rumo na orientação dos trabalhos, o concílio, depois de muito tempo gasto em tratar do cerimonial, das formas, do voto e até do seu titulo, começou a revisão do sistema católico, com o firme propósito da sua grande maioria de não fazer concessões. As primeiras deliberações versaram sobre assuntos capitais: declarou-se que todos os livros do antigo e do novo Testamento tinham igual autoridade; reconheceu-se como autêntica a tradução da Vulgata, de que se mandou fazer uma edição exata; admitiu-se o dogma do pecado original e condenou-se quem o negasse".

            "A doutrina da graça e da justificação, que era uma das causas principais da dissidência, foi tratada logo nas primeiras sessões. Contarini emitiu uma opinião conciliadora, fundada nos argumentos de Pflug e Gropper, que haviam impugnado Lutero. Queria ele que o concílio reconhecesse a coexistência de duas justiças: uma inerente ao homem, imanente nele, ativa nas suas obras, manifesta nas suas virtudes e pela qual ele é filho de Deus, mas só por si insuficiente; outra, a par dessa, ou superior a ela, a justiça divina, a do Cristo, por cujos merecimentos a humanidade é perdoada e remida, e que é a única salvadora, a única redentora, a única verdadeiramente completa. Mas os jesuítas Lainez e Salmeron rebateram esse plano de conciliação. Sustentaram que a justiça divina, inegavelmente distinta da humana, nem por ser distinta se separa do mundo, porque só se revela pela fé e pelas obras; que o homem não é simultaneamente governado por ambas, por um livre arbítrio e uma predestinação coexistentes e coeficientes; que Deus revela-se na fé e nas boas obras, e que os merecimentos das obras elevam a graça. A assembleia adotou essa opinião, reconheceu também a necessidade de desenvolver a graça com o auxílio dos sacramentos, e assim repeliu terminantemente qualquer transação com o protestantismo."

            Absorvidos, como se vê, pela preocupação de fazerem prevalecer os cânones de uma teologia que tinha tudo de humana, em lugar de buscarem na humildade de coração, que não possuíam, as inspirações da Verdade divina, esqueceram-se de remontar singelamente à fonte em que toda ela se contém, isto é, o Evangelho. Porque aí encontrariam, como tivemos, em capítulo anterior, ocasião de o assinalar, claramente enunciada a lei providencial da pluralidade de existências, mediante a qual todas as faltas cometidas no passado vêm a ser gradualmente resgatadas e a salvação final se oferece a todos os homens, como destino traçado por Deus às suas criaturas. Preferiram obstinar-se na ratificação do iníquo dogma do pecado original, transmissível por herança, e na proscrição, portanto, das doutrinas de Orígenes, que sustentava aquele magno princípio, para emaranhar-se em sutilezas que, longe de resolver o problema das desigualdades e do destino humano, o deixam envolto em inextricáveis obscuridades, com a única vantagem, meramente temporal, para a igreja de constituir-se ela o árbitro daquele destino, mediante a imposição de "sacramentos". Prevaleceram desse modo as preocupações e os interesses mundanos sobre as injunções superiores da Verdade.

            Como, porém, não ser assim, se nada, nas deliberações desse concílio, indica terem os seus membros inquirido, no santuário de suas consciências, se o que faziam era do agrado do Senhor Jesus e conforme aos seus ensinamentos? Deliberavam como filhos do século, representantes que eram do partido politico dominante na direção da cristandade.

            Por isso, adverte com razão o historiador que, na discussão das doutrinas, a que acabamos de aludir, "e em todas as outras os jesuítas foram os janizaros da papada", a tal ponto se fazendo sentir a sua preponderância que, "como Lainez sofria de febres intermitentes, suspendiam-se as sessões nos dias em que ele tinha acessos."

            O concílio teve, de resto, que ser suspenso em 1547 por Paulo III, para evitar um cisma quase suscitado por um antagonismo com o imperador Carlos V, para ser reaberto em dezembro de 1550 por Júlio III que sucedeu àquele pontífice.

            Dissolvido em 1552, depois de haver tratado apenas de alguns sacramentos, só tornou a reunir-se em dezembro de 1560, graças aos esforços do eminente prelado Carlos Borromeu, que adquirira notável e legítimo prestígio no pontificado de Pio IV - então reinante.

            Nesse longo interregno, que correspondeu exatamente ao pontificado do cardeal Caraffa, elevado ao trono com o nome de Paulo IV, ocorreram alguns sucessos dignos de registro com o índice do nível moral verificado na corte pontifícia, no momento em que se conjugavam, ou deviam conjugar-se, esforços no sentido de restituir à igreja, com a integridade de costumes dos seus membros, o prestígio espiritual, que só lhe poderia advir de uma perfeita conformidade com os preceitos evangélicos.

            Pondo de parte o espírito mundano e dominador de que se mostrou animado nos primeiros anos de sua investidura, em cujo ato declarou, respondendo à interrogação que lhe fora dirigida, que queria ser tratado "como um grande príncipe", assinalemos apenas que, na segunda fase do seu pontificado, em que procurou corrigir os desacertos de sua política e os abusos de sua autoridade espiritual, Paulo IV "quis dar à inquisição um vigor insólito, empregando nela seculares: mandou prender o cardeal Morone e o bispo de Modena, Egídio Foscarari, prelados muito considerados, Thomaz San Felice, bispo de Ia Cava, Luiz Priuli, bispo de Brescia, acusados de terem professado opiniões heréticas ou defendido mal os príncipes ortodoxos. A morte livrou o cardeal Pool de ser tratado do mesmo modo, e outros puderam justificar-se; mas em Roma foram queimadas e em Veneza afogadas diversas pessoas; nesta última cidade entraram três nobres para o tribunal do Santo Oficio, muitas outras pessoas tiveram de retratar-se por medo do castigo, e imaginou-se que as violências da inquisição podiam dar ao papado a autoridade moral que lhe não adviera do concilio".

            Em consequência desses e de outros excessos, ''o povo concebeu tanto ódio contra Paulo IV que lhe derribou a estátua, apenas ele morreu, e incendiou o palácio inquisitorial."

            Animado de um espírito diferente, seu sucessor, Pio IV, "percorria a cavalo as ruas da cidade, atendendo às pessoas que se lhe dirigiam; no pavilhão de Belvedere dava audiência sem etiqueta aos embaixadores; reprovava os rigores do seu antecessor e, apesar de ligado pela sua origem com a casa da Áustria, compreendeu os males da guerra e assegurou a Roma anos de sossego e de abundância". Entretanto, "mandou matar os três sobrinhos de Paulo IV, sem exceção do cardeal, talvez em obediência às sugestões da Espanha, que queria castigar Caraffa por se ter gabado de lhe arrebatar o reino de Nápoles. Foi também nepótico e deu o arcebispado de Milão, e logo depois a púrpura, a um mancebo de vinte e dois anos que nem sequer tinha recebido ordens."

            Trata-se do aludido Carlos Borromeu, que veio a ser canonizado e de quem diz o historiador: "felizmente o agraciado era digno das mercês; foi um dos prelados que mais honraram a igreja romana e mais trabalharam para a sua restauração" .

            "Os seus principais esforços - prossegue, depois de enumerar os consideráveis serviços por ele prestados - convergiram para a conclusão do concílio de Trento, que tornou efetivamente a reunir-se (29 de novembro de 1560). A nova assembleia foi mais numerosa e imponente que a primeira e nela tomaram parte muitos homens eminentes", cuja nomenclatura indica, mas pouco interesse apresentaria para o assunto que nos preocupa.
            "A história desse concílio - acrescenta - que ficou escrita por Paulo Sarpi e Pallavicino, é muito complicada e compreende episódios pouco edificantes, que tiraram uma grande parcela de autoridade moral às deliberações que nele se tomaram. No estado de fermentação em que se achavam os espíritos, foi perigoso reuni-lo, foi difícil, senão impossível, conte-lo dentro de justos limites. Os príncipes protestantes não quiseram intervir nele; as pretensões dos reis católicos, os protestos, os conluios dos cardeais e das nações criaram inúmeros e variadíssimos obstáculos a sua direção. Urdiram-se intrigas, empregaram-se estratagemas, subornaram-se consciências, praticaram-se violências. Como os prelados estrangeiros se mostravam exigentes e não davam sólido apoio ao partido de Roma, esse partido encheu o concilio de bispos italianos, mais pobres, mais dóceis; e, para que eles preponderassem, fez adotar a votação individual, em vez da votação por nações. Para nos resumirmos: os acérrimos defensores dessa famosa assembleia confessam que algumas das suas decisões foram determinadas por motivos políticos, e essa confissão deixa entrever quanto o tumulto das paixões e dos interesses mundanos deve ter afugentado de Trento a pomba do Espírito Santo. "
            "Na primeira sessão do concílio, celebrada durante a guerra de Smalkalde, o dogma da justificação, que ficou sendo a base do sistema católico, tinha sido definido claramente; restava discutir as questões de hierarquia. A residência e a instituição dos bispos eram de direito divino? Até que ponto chegava a independência deles em relação ao pontífice? As chaves tinham sido dadas unicamente a S. Pedro? Nesta grave questão os jesuítas foram, como sempre, os campeões de Roma. Lainez, então geral da companhia, no discurso mais monumental que se proferiu na assembleia, sustentou que o poder de jurisdição pertencia unicamente ao papa e que todas as outras jurisdições derivavam da sua. Essa opinião prevaleceu, e a supremacia dos pontífices, que se pretendera restringir, consolidou-se ainda mais; decidiu- se que só ele podia interpretar os cânones, só ele ditar as regras da fé e da moral."

            Nessa deliberação, que tão considerável soma de poderes espirituais, verdadeiramente absolutos, enfeixava nas mãos de um só indivíduo, conferindo-os implicitamente à função, sem os subordinar às virtudes de que houvesse dado prévio
testemunho o seu depositário e que deveriam ser, mas rarissimamente foram, o motivo da investidura pontifícia, mais que em qualquer outra decisão adotada pelo concílio, sob a preponderância dos jesuítas, se patenteia a influência dominadora do AntiCristo, de que ao demais se haviam eles constituído veículo preferencial.

            Já no concilio ecumênico, a que nos referimos precedentemente, reunido em Éfeso, no ano 431, essa influência transpareceu visivelmente, quando fez proclamar o pontífice “romano, o príncipe, a cabeça, a coluna da fé, o fundamento da Igreja”, destarte proscrevendo a única, suprema, insubstituível e divina autoridade do Cristo, como chefe, origem, esteio e base da Igreja, é verdade que de Deus, não dos papas, homens frágeis e prevaricadores, do que temos citado, como ilustração, alguns exemplos.

            O concílio de Trento, fortalecendo por forma discricionária a autoridade individual do pontífice romano, outra coisa não fez que confirmar, a uma distancia de onze séculos, aquela blasfema proclamação. Aproximação histórica esta, que se nos afigura oportuna, reveladora que é da unidade de pensamento na urdidura do plano tenaz, obstinado de demolição da Igreja Cristã, concebido pelo seu implacável, infortunado antagonista.

            Veremos, no seguimento destas páginas, como aos desacertos da assembleia de Trento soube o vigilante Pastor Divino opor salutares corretivos, suscitando emissários de sua graça e bondade no seio dessa mesma igreja, para edificação da cristandade. Por agora, completemos a narrativa das deliberações e resultados do concílio. 

6a. AntiCristo senhor do mundo


6a

VI. Efeitos salutares da Reforma. - Sua inferioridade relativamente ao culto sentimental do catolicismo. - Preponderância dos jesuítas nas deliberações do concilio de Trento. - Inácio de Loiola e os extravios da sua missão. - O espirito reacionário e intolerante permanece com o partido politico da Igreja. - Copérnico, Giordano Bruno, Galileu. – Florescimento espiritual da família cristã. - Renascimento expansivo da fé. - Grandes santos. - Missões e catequese. -
- Últimos clarões.

           
            Os efeitos salutares da Reforma não se fizeram apenas sentir na moralização dos costumes, levada ao seio da igreja romana, sobretudo após a reunião do concílio de Trento, nem na atividade mental determinada pela agitação dos assuntos teológicos, que despedaçou os moldes estacionários do dogmatismo em que se imobilizara o pensamento ocidental, nem ainda no inestimável benefício de por diretamente o povo em contato com os ensinamentos do Evangelho, mas se exprimiram por um apreciável desenvolvimento intelectual, graças à difusão da instrução pública, tornada indispensável ao estudo e conhecimento pessoal das sagradas letras.

            Na Suíça, com efeito, além de melhorar os costumes, dirigindo-se mais ao povo que propriamente ao clero, o movimento reformista vulgarizou profusamente a instrução e, com ela, difundiu preceitos morais, que são a base para a formação do caráter no indivíduo. "Estabeleceram-se muitas escolas elementares, e a nação, que havia sido até ali exclusivamente caçadora e guerreira, aplicou-se aos estudos."

            Esses efeitos se acentuaram no decorrer do tempo. E, assim que, ao fim de séculos e, mesmo numa época vizinha aos nossos dias, os cantões suíços reformados continuavam a apresentar visível contraste com os católicos, por um espírito de iniciativa mais acentuado e pelo adiantamento material e intelectual adquirido, enquanto os últimos, privados de instrução no mesmo grau, pelo menos com idêntica amplitude, permaneciam retardatários, acusam notável percentagem de analfabetos. Na Alemanha, o fenômeno da alfabetização geral, que veio a reduzir mais tarde a uma cifra quase nula o número dos iletrados e foi o ponto de partida de sua prodigiosa cultura em todos os ramos dos conhecimentos humanos, não pode ser dissociado da preponderância exercida pela sua formação e pela sua educação religiosas.

            O mesmo pode dizer-se não tanto da raça anglo-saxônica, como particularmente do núcleo que, fugindo às perseguições sectárias e fixando-se em o novo continente, veio a constituir o povo norte-americano, rival, em pouco mais de um século, da nação germânica, assim na quase total supressão do analfabetismo, como no vertiginoso desenvolvimento de suas atividades econômicas, industriais e científicas.

            Mas foi principalmente na esfera dos costumes religiosos, restabelecendo a tradição dos patriarcas e dos apóstolos, que não consideravam incompatíveis as funções eclesiásticas e o matrimônio, reconciliando, portanto, como o dissemos, aquelas funções com os nobilitantes encargos da família honestamente constituída e, desse modo, abolindo o celibato obrigatório instituído pela igreja - fonte de tantos secretos desregramentos e escandalosas uniões ilícitas - que a Reforma produziu os mais salutares e moralizadores efeitos.

            Dirigindo-se contudo mais à inteligência e à razão que ao sentimento e cingindo-se antes literalmente aos imperativos preceitos do mosaísmo que às misericordiosas e persuasivas doutrinas do Evangelho, veio, com os seus dogmas da justificação exclusiva pela fé e, sobretudo, da predestinação e da graça, de que resulta o aniquilamento do livre arbítrio humano e torna ineficazes as boas obras, a incutir em seus adeptos essa indiferença, pior ainda, essa implacável e egoística secura de coração que, não excluindo embora a retidão de caráter, que é o recomendável apanágio do homem de bem - característico dos pastores como, em geral, do rebanho protestante - constitui, entretanto, uma flagrante negação do que de mais sedutor se encontra no Cristianismo: a piedade e o amor ou, em suas mais altas e radiosas expressões, a Caridade.

            Neste sentido a igreja católica - falamos do espírito dominante na família cristã e não da interesseira influência do partido político que a explora - se mostrou sempre mais fiel às inspirações da indulgência, consubstanciada nas lições e nos exemplos do Senhor Jesus. Mesmo depois que as concepções teológicas, a instituição dos dogmas, entre os quais o da odiosa condenação aos suplícios eternos, e a adoção de um culto paganizado, porque duplicado de pomposo ritual, vieram substituir as puras doutrinas evangélicas e alterar a singeleza das primitivas práticas, o que na igreja subsistiu do pensamento cristão bastou para entreter nas almas a ternura dos sentimentos fraternos, expressos em tantas obras de assistência e de solidariedade humana.

            Enquanto a Reforma, proscrevendo rigidamente a doutrina das indulgências e a invocação dos santos, de alguma sorte isolava os homens neste mundo, colocando-os exclusivamente à mercê das inflexíveis injunções da Lei, para alcançar a salvação, a igreja, tendo suprimido a comunhão ostensiva com o mundo espiritual, praticada pelas primeiras gerações cristãs, como o demonstraremos oportunamente, mas que viera a tornar-se uma fonte de abusos e superstições, instituiu em seu lugar o culto dos santos, por cuja intercessão podem os pecadores obter misericórdia, com isso mantendo por uma outra forma aquela comunhão, graças à qual já se não sente o homem, na sua ínfima pequenez, tão distanciado da grandeza infinita do Criador e pode com Ele corresponder-se mediante aquela compassiva escala, desdobrada entre a terra e o céu.

            Mais, todavia, que o dos santos, o culto ela Virgem Maria constituiu sem dúvida e tem, através os séculos, constituído uma fonte não somente de inexauríveis consolações, mas de aperfeiçoamento e exaltação dos sentimentos humanos, porque, como o assinala o historiador, ele que nos temos socorrido, em termos calorosos, que fazemos nossos:

            "O nestorianismo e o concílio que o condenou são memoráveis especialmente porque foram causa do desenvolvimento que tomou o culto de Maria. Quando os hereges tentaram derriba-la do seu trono celeste, os católicos redobraram de veneração por ela, e muitos templos se converteram em igrejas consagradas a Maria. E assim começou a generalizar-se esse culto simpático, pelo qual o cristão adora a mãe de Jesus, presta homenagem às virtudes da mulher e dá expansão às ternuras desabrochadas em sua alma pelos carinhos maternos, pelo amor da esposa, pelo suave prestígio dos encantos femininos. Maria é uma das mais formosas criações elo Cristianismo e tem sido porventura uma das suas maiores seduções. Fala aos sentimentos mais essenciais da natureza humana e, por isso, na antiguidade auxiliou a Igreja a acabar de converter as gentilidades, e nos tempos modernos inspira as devoções mais sinceras e ardentes que ainda amparam o catolicismo."

            É verdade que a igreja, deificando o Cristo e, portanto, colocando Maria, como Mãe de Deus, acima do próprio Criador, veio a tornar, de certo modo, suspeito aos olhos dos puros teístas, sobretudo depois que o adiantamento dos conhecimentos astronômicos tanto contribuiu para modificar o conceito interpretativo da divindade de Jesus, tornar suspeito - dizemos - um culto que, radicado nos mais nobres impulsos do sentimento humano, foi por ela mesma conduzido aos exageros do que se denominou por fim "a Mariolatria", em detrimento da adoração suprema devida ao supremo Autor de todo o Universo e de todas as criaturas. De tal modo, nessa igreja, vigiada de perto pelo AntiCristo, as melhores práticas degeneram em abuso e o próprio bem, às vezes, se converte em mal.

            O inverso também, não raro, se observa, consoante os inescrutáveis desígnios da Divina Providência. A admissão, por exemplo, das imagens, generalizada e, por último, perpetuada, mas que fora objeto de impugnação e controvérsias, durante um século, em vários concílios, como a adoção de outros símbolos materiais, a introdução, nas cerimônias do culto, de certos acessórios, como a música e o incenso, do mesmo modo que o uso dos sinos, tudo em suma que lisonjeia os sentidos e constituiu, da parte da igreja, uma deturpação materializadora da espiritualidade característica do Cristianismo em suas primitivas formas, não deixou contudo de atrair para o catolicismo grande número de almas, imperfeitamente evoluídas, e contribuiu para conservar em seu seio muitas outras cuja mente, necessitada ainda de representações objetivas, seria porventura inacessível a formas religiosas de requintada espiritualidade.

            Não há dúvida que desse atraso mental cabe principalmente a culpa à própria igreja, desde que, renunciando aos superiores métodos persuasivos da conversão pela fé e os exemplos vivos da caridade, e assim se divorciando das instruções e do pensamento do Divino Mestre, entrou a substituir no ânimo entibiado dos seus ministros o essencial pelo acessório e a fazer desse acessório, cuja transitoriedade apenas seria admissível, o instrumento permanente do seu apostolado. Esquecida de que o Cristianismo é uma doutrina essencialmente dinâmica, destinada a caminhar na vanguarda do progresso humano, como agente de todas as suas transformações para melhor, e não um sistema religioso de acomodações retardatárias, a tal ponto consentiu no estacionamento dos seus métodos educativos e das suas práticas que deixou converter-se numa necessidade o que devera ser contido nos limites apenas de uma condescendência transitória. É por isso que, durante o movimento reformista na Suíça, "quando Zwinglio, Engelhard e Leão Judas se puseram a declamar contra as imagens, manifestou-se oposição popular" e o seu uso não foi abolido senão depois de vivas controvérsias. De tal modo se haviam os crentes identificado, ao fim de quase dez séculos de tolerância, com a integração da idolatria em seus hábitos de religiosidade.

            Como quer que seja e para não recusarmos o testemunho de nossa imparcialidade ao que pode considerar-se uma inevitável contingência dos tempos e da situação peculiar de certos espíritos, conviremos em que os símbolos materiais teriam contribuído para atrair ao seio da igreja povos incultos e grosseiros como os bárbaros do norte, ao termo de sua invasão no ocidente, e mais tarde as populações selvagens da África e da América, substituindo nestas os objetos do culto fetichista por outras expressões de natureza semelhante, mas de significação mais elevada.

            O grande mal que debilitava a igreja, ameaçando de irremediável colapso a sua influência espiritual, na época a que nos reportamos, não era tanto o se haver obstinado na conservação de práticas cultuais materializadas, senão, em seus efeitos dissolventes, os abusos extorsivos da cúria e os exemplos desmoralizadores com que o clero, em seus desregramentos, escandalizava o povo, abalando, quase destruindo os estímulos da fé, que havia geralmente perdido e lhe cumpria, entretanto, alimentar no espírito das multidões.

            A esses males viscerais é que urgia serem opostos eficazes e prontos remédios, reclamados pelo próprio instinto de conservação e tornados imperiosos pelo movimento revolucionário e oportuno da Reforma. Se, além disso, não pesasse sobre a igreja a ação obnubiladora do AntiCristo e aos seus dirigentes fosse, de outro modo, permitida uma clara visão das necessidades do futuro, teriam eles compreendido que uma série de medidas, no sentido liberal, se impunha igualmente em seus ensinos dogmáticos, substituindo as concepções terroristas de uma teologia, que fora porventura adequada ao período de formação das sociedades ocidentais, por novas concepções em harmonia com o adiantamento das ciências e, portanto, com as tendências racionalistas dos espíritos cultos, que já se não poderiam satisfazer com os velhos moldes de uma teodiceia obsoleta.

            O impulso de renovação introduzido pela Renascença na literatura e nas artes devia forçosamente propagar-se ao domínio religioso. A ânsia de liberdade, que fora dos mais poderosos motivos da extensa repercussão adquirida pela Reforma, a rapidez com que daí  em diante se efetuaria o progresso intelectual, graças à amplitude na circulação das ideias promovida pela imprensa, tudo isso estava a indicar que, ao lado das medidas moralizadoras e disciplinares reclamadas para reabilitação do clero e sua reintegração na estima e no conceito populares uma reforma igualmente se impunha nas concepções doutrinárias da igreja, pondo-as em concordância com os ensinamentos do Evangelho e, assim, com a Justiça, a Bondade e a Sabedoria de Deus, em torno das quais giram todos eles. E não apenas em suas concepções teóricas, senão que a primeira medida que se impunha era a abolição do sinistro aparelho de torturas - monstruoso testemunho negativo do espírito do Cristianismo - que era a Inquisição.

            Por essa e não por outra forma, satisfazendo, além das modestas necessidades da crença popular, as legítimas aspirações das inteligências esclarecidas e pondo termo, igualmente, ao odioso contraste daquela nefanda instituição com as misericordiosas doutrinas do Redentor e não exterminador dos homens, é que a igreja lograria sobrepujar a profunda e extensa crise que a atribulava, restituindo-lhe, com a missão apostólica e tutelar, de que se vinha, há séculos, divorciando, a quase perdida influência espiritual sobre a cristandade e o mundo, em vésperas de grandes transformações.


            Vejamos até que ponto lhe consentiu, ou se porventura o consentiu, a pressão escravizadora do AntiCristo por em prática esse programa libertador. 

domingo, 7 de dezembro de 2014

Poetas do Outro Mundo


“Poetas do Outro Mundo”
Humberto de Campos
Reformador (FEB) Maio 1955

            Sob o título acima, o brilhante acadêmico e inesquecível cronista Humberto de Campos escreveu no “Diário Carioca” de 10 de Julho de 1932, uma página de crítica referente à primeira edição do "Parnaso de Além-Túmulo", obra psicografada pelo médium Francisco Cândido Xavier.

            Ei-la, na íntegra:

            "Francisco Cândido Xavier é o nome de um moço de origem humilde, nascido em Pedro Leopoldo, Estado de Minas Gerais, em 1910. Após um estágio na escola primária de sua terra, entrou, como operário e órfão, para uma fábrica de tecidos e, em seguida, para um estabelecimento comercial. E como este mundo não lhe parecesse dos mais amáveis, começou a pensar no outro, aderindo ao espiritismo, com as altas funções e responsabilidades de "médium".

            Lidando nesta vida, com os espíritos medíocres que frequentam a casa de comércio em que trabalha, resolveu Francisco Cândido Xavier tornar-se mais exigente no reino das sombras, buscando, nele, para conversar, inteligências superiores, homens de letras e, especialmente, poetas, que já haviam passado por este mundo. Nessas palestras em que a boca se mantinha em silêncio, transmitiam-lhe os seus novos amigos algumas poesias elaboradas depois de desencarnados, e que o jovem caixeiro de Pedra Leopoldo ia escrevendo mecanicamente, sem esforço do braço ou da imaginação. Esses espíritos eram, ordinariamente, Guerra Junqueiro, Antero do Quental, Augusto dos Anjos, Castro Alves, Casimiro de Abreu, João de Deus, Auta de Souza, Pedro lI, Souza Caldas, Júlio Diniz, Cruz e Souza, Casimiro Cunha, poeta vassourense. Às vezes aparecia, também, um anônimo, cuja modéstia não desaparecera nem no outro mundo. E cada um deles escrevia o seu soneto, ou a sua poesia, com a pena de Francisco Cândido Xavier, o qual, reunindo-as, acaba de publicar o "Parnaso de Além-Túmulo", editado pela Federação Espírita Brasileira. O primeiro pensamento que assalta o leitor, antes de examinar o merecimento literário da obra, é a ideia de que, nem no outro mundo, estará livre dos poetas. A poesia é uma predestinação de tal modo fatal, irremediável, que a vítima não se livra dessa maldição nem, mesmo, depois da morte. Quem fez sonetos ou redondilhas neste planeta, está condenado a faze-las em todos os pontos do espaço e da eternidade a que o leve o dedo divino. E sem mudar de estilo. E sem variar de temas. E sem modificação de ritmos, de rimas ou de inspiração. Admitindo essa verdade, a vida literária no outro mundo deve ser mais variada, embora mais fatigante, do que neste. Lá estão, ainda, Anchieta, a celebrar a Virgem Maria em língua tupi; Botelho de Oliveira a cantar no estilo da "Ilha da Maré" e da "Música do Parnaso". Cláudio Manoel da Costa, escrevendo sonetos clássicos; Gonçalves Dias, com a sua lira romântica; e os parnasianos; e os simbolistas; e os futuristas, que morreram antes do futurismo morrer. A vantagem apresentada por essa reunião de escolas ficará, todavia, comprometida pela eternidade da produção. A superioridade que esta
vida apresenta sobre as outras, está, precisamente, no seu caráter transitório. Quando um indivíduo, entre nós, dizendo-se benquisto dos deuses, empunha a lira, ficamos certos, desde logo, que ele um dia emudecerá. E é esse consolo que não têm os habitantes do Astral, os quais se acham condenados a escutar os maus poetas até a consumação dos séculos.
            O Inferno Católico é, nesse particular, mais bem organizado do que os mundos em que o espiritismo coloca os mortos. Quando Dante nele penetrou, lá encontrou Virgílio, e outros mestres latinos e medievais. Travou, com eles, palestras, sobre a existência que levavam e, nenhum lhe recitou versos novos, - fato que prova, e sobejamente, que os Demônios lhes tomaram a lira, a bem da ordem interna do estabelecimento, no momento da entrada.
            O "Parnaso de Além-Túmulo" do Sr. Francisco Cândido Xavier torna-se, por isso mesmo, interessante para os poetas vivos, embora constitua uma terrível ameaça para os que detestam a língua rimada ou ritmada. "Lasciate ogni speranza, voi ch'entrate!" Lá dentro, no reino da Morte, há poetas, e eles cantam. E cantam como cantavam aqui, sem omissão, sequer, da linguagem preciosa que aqui utilizavam. "Muitas vezes - confessa o "médium" no prefácio da obra -, muitas vezes, ao recebermos uma destas páginas, era necessário recorrermos ao dicionário, para sabermos os respectivos sinônimos das palavras nela empregadas, porque tanto eu como os meus colegas as desconhecíamos em nossa ignorância." Não obstante a mudança de clima, cada um conserva, por lá, as suas virtudes e defeitos literários.
            - Eu faltaria, entretanto, ao dever que me é imposto pela consciência, se não confessasse que fazendo versos pela pena do Sr. Francisco Cândido Xavier, os poetas de que ele é intérprete apresentam as mesmas características de inspiração e de expressão que os identificavam nesse planeta. Os temas abordados são os que os preocupavam em vida. O gosto é o mesmo. E o verso obedece, ordinariamente, à mesma pauta musical. Frouxo e ingênuo em Casimiro, largo e sonoro em Castro Alves, sarcástico e variado em Junqueiro, fúnebre e grave em Antero, filosófico e profundo em Augusto dos Anjos, sente-se, ao ler cada um dos autores que veio do outro mundo para cantar neste instante, a inclinação do Sr. Francisco Cândido Xavier para escrever "à Ia manière de... " ou para traduzir o que aqueles altos espíritos sopraram ao seu.
            Essa identificação será todavia objeto de outro artigo. (*) Por enquanto eu quero, apenas, pôr de sobreaviso os poetas vivos contra o perigo que a todos nos ameaça com a ideia que tiveram os mortos de voltar a escrever neste mundo em boa hora abandonado por eles. Se eles voltam a nos fazer concorrência com os seus versos perante o público e, sobretudo, perante os editores, dispensando-lhes o pagamento de direitos autorais, que destino terão os vivos que lutam hoje com tantas e tão poderosas dificuldades?

            (*) Este outro artigo foi publicado no mesmo jornal, em 12 de Julho, com o título - "Como cantam os mortos ... ". Humberto de Campos, após rápida análise do estilo de alguns dos poetas constantes no "Parnaso", transcreve, parcial ou totalmente, uma poesia mediúnica de cada um deles, mostrando a identidade das ideias dos comunicantes desencarnados com as ideias deles quando vivos. A crônica terminava assim: "O Parnaso de Além-Túmulo me parece, como se vê, a atenção dos estudiosos, que poderão dizer o que há, nele, de sobrenatural ou de mistificação. No primeiro caso, o outro mundo deve ser insuportável, com os poetas que lá se acham E pior será, ainda, se houver, também, por lá, declamadoras... "  (Nota de "Reformador.)

            Quebre pois cada espírito a sua lira na tábua do caixão em que deixou o corpo. Ou, então, encarne-se outra vez, e venha fazer a concorrência aqui em cima da terra, com o feijão e o arroz pela hora da vida.
            Do contrário, não vale."

            Outra não poderia ter sido, naquela época, a linguagem do celebrado escritor maranhense, pontilhada de chiste, graça, ironia e descrença, mas, como viram os leitores; Humberto de Campos reconheceu a perfeita identidade das poesias mediúnicas com as que subscreveram os seus autores quando encarnados.

            Se ele houvesse conhecido pessoalmente o médium, e o visse receber as poesias, certamente que não levantaria a primeira hipótese, a do "pastiche" pois logo concordaria com as palavras do seu amigo, o renomado crítico Agripino Grieco, que, havendo presenciado, em 1939, o "modus operandi' do recebimento  das produções mediúnicas de Francisco Cândido Xavier, assim se externava: “Tendo lido as paródias de Albert Sorel, Paul Reboux e Charles Muller, julgo ser difícil (isso o digo com a maior lealdade) levar tão longe a técnica do ‘pastiche’.”


            Riscando, por improvável, a hipótese ‘à la manière de...’,só restaria então a Humberto de Campos pender para a segunda hipótese por ele enunciada, a da realidade das comunicações de além-túmulo, no qual, dois anos depois, ele ingressaria, e do qual, meses mais tarde, ele também voltaria, como ‘escritor do outro mundo’.

A Morte de Jesus


A Morte de Jesus

Os Quatro Evangelhos
Volume III - 7ª Ed. FEB (1990)
Coordenação: J.-B. Roustaing
Tradução: Guillon Ribeiro

            - Mateus, Cap. XXVII, vv. 31-32;
- Marcos, Cap. XV, vv. 33-37;
- Lucas, Cap. XXIII, vv. 44 e 46.

-  Jesus conduzido ao lugar do suplício.
- Simão de Cirene o ajuda a carregar a cruz.
- Palavras que dirige às mulheres que o lamentavam e pranteavam.

Mateus: v. 31.  Depois de o terem escarnecido, tiraram-lhe o manto escarlate, vestiram-lhe de novo as roupas e o levaram para ser crucificado. – 32. Ao saírem da cidade, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, e o obrigaram a carregar a cruz com Jesus.

Marcos: v. 20. Depois de o terem assim escarnecido, tiraram-lhe o manto de púrpura e lhe vestiram de novo suas vestes, feito o que o levaram para ser crucificado. - 21. E como por ali passasse um Cirineu, chamado Simão, pai de Alexandre e de Rufo, o qual voltava do campo, o obrigaram a carregar a cruz com Jesus.

LUCAS: V. 26. Quando o iam conduzindo, pegaram de um certo Simão, Cirineu, que vinha do campo, e o obrigaram a carregar também a cruz atrás de Jesus. - 27. Seguia-o grande multidão de povo e de mulheres, que o lamentavam e pranteavam. - 28. Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai por vós mesmas e por vossos filhos; - 29, porque dias virão em que se dirá: Ditosas as estéreis, ditosos os ventres que nunca geraram e os seios que nunca amamentaram. - 30.  Pôr-se-ão todos então a dizer aos montes: Caí sobre nós; e às colinas: Cobri-nos. - 31. Porque, se isto fazem com o lenho verde, que farão com o lenho seco?

N. 297. Jesus, depois de haver sido objeto do escárnio e das jogralidades de todos, foi manietado para ser conduzido ao suplício. Pilatos o entregou aos Judeus, que ansiavam por lhe dar a morte. Mas os soldados do Tetrarca eram os guardas do preso e os executores da sentença. Cumpria-lhes vigiar o condenado, a fim de que não escapasse pela fuga, nem lhes fosse arrebatado à força. Essas as ordens militares que os soldados tinham. Até ao último momento, até que os malfeitores crucificados houvessem exalado o último suspiro, eles eram obrigados a velar pelo cumprimento da sentença.

            Penosa foi a marcha de Jesus. Não tinha ele que mostrar aos homens até onde podiam chegar a resignação e a submissão?

            Nem uma só queixa, nenhum protesto lhe saíram dos lábios. Não digais: “Era-lhe fácil; a carne nada sentia."

            Jesus, naqueles momentos, sofria, sofria muito sofrimento no seu coração pelo endurecimento dos homens. Sofria por ver que séculos e séculos teriam que passar sobre as vossas cabeças, antes que o batismo do espírito vos purificasse. Sofria, vendo quantos sofrimentos o futuro reservava a seus irmãos, aos quais votava amor tão ardente que, para lhes mostrar o caminho que devem trilhar, consentiu em perlustrá-lo. (1)

            (1) Nota da Editora – Ver nº 287 de ‘O Consolador’, de Emmanuel.

            Experimentava as angústias que dilaceram o coração da mãe extremosa que vê transviados, criminosos, seus filhos diletos; que vê prestes a caírem sobre eles os rigores da lei; que lhes brada: "Vinde a mim, vinde a mim e eu vos salvarei; arrependei-vos e obterei o perdão para vós", e os vê surdos, a lhe voltarem as costas para prosseguirem no funesto caminho. Ela não sofre, é certo, na sua carne, a carinhosa mãe; seus ossos não são despedaçados. Mas, todas as fibras do seu coração estalam dolorosamente; torturam-na a ansiedade, a aflição pelo futuro de seus bem-amados!

            Sim, Jesus sofria, sofria no seu amor e sofre ainda, quando vos vê endurecidos. Amenizai esse sofrimento com o vosso amor e a vossa submissão, único bálsamo capaz de cicatrizar as chagas que a vossa ingratidão e os vossos crimes abriram.
           
            No que disse às mulheres que o pranteavam e lamentavam aludia figuradamente à destruição de  Jerusalém, assim como às calamidades, que a necessidade da depuração e da transformação do vosso planeta e da humanidade terrena faz inevitáveis, calamidades que de futuro ocasionarão a destruição da vossa Jerusalém moderna, do vosso mundo, a fim de que uma nova cidade e um templo indestrutível sejam reconstruídos.

            Porque, disse Jesus, se isto fazem com o lenho verde, que farão com o lenho seco?

            Estas locuções - lenho verde e lenho seco - eram proverbiais entre os Judeus, que por elas designavam os justos e os pecadores. Se daquela forma tratavam o justo, de que modo seriam tratados os pecadores? Essas palavras Jesus as proferiu também figuradamente,  a fim de impressionar, assim os que tivessem de as ouvir quando repetidas fossem, como os que mais tarde viessem a lê-las, mostrando a uns e a outros a sorte reservada ao culpado que despreza o Justo e a moral sublime que ele personifica.



Desligamento do mal


Desligamento
do Mal

Emmanuel
por Chico Xavier

Reformador (FEB) Janeiro 1962

            Antes da reencarnação, no balanço das responsabilidades que lhe competem, a mente, acordada perante a Lei, não se vê apenas defrontada pelos resultados das próprias culpas. Reconhece, também, o imperativo de libertar-se dos compromissos assumidos com os sindicatos das trevas.

            Para isso, partilha estudos e planos referentes à estrutura do novo corpo físico que lhe servirá por degrau decisivo no reajuste, e coopera, quanto possível, para que seja ele talhado à feição de câmara corretiva, na qual se regenere, e, ao mesmo tempo, se isole das sugestões infelizes, capazes de lhe arruinarem os bons propósitos.

            Patronos da guerra e da desordem, que esbulhavam a confiança do povo, escolhem o próprio encarceramento na idiotia, em que se façam despercebidos pelos antigos comparsas das orgias de sangue e loucura, por eles mesmos transformados em lobos inteligentes; tribunos ardilosos da opressão e caluniadores empeçonhados pela malícia pedem o martírio silencioso dos surdos-mudos, em que se desliguem, pouco a pouco, dos especuladores do crime, a cujo magnetismo degradante se rendiam, inconscientes; cantores e bailarinos de prol, imanizados a organizações corrompidas, suplicam empeços na garganta ou pernas cambaias, a fim de não mais caírem sob o fascínio dos empreiteiros da delinquência; espiões que teceram intrigas de morte e artistas que envileceram as energias do amor imploram olhos cegos e estreiteza de raciocínio, receosos de voltar ao convívio dos malfeitores que, um dia, elegeram por associados e irmãos de luta mais íntima; criaturas insensatas, que não vacilavam em fazer a infelicidade dos outros, solicitam nervos paralíticos ou troncos mutilados, que os afastem dos quadrilheiros da sombra, com os quais cultivavam rebeldia e ingratidão; e homens e mulheres, que se brutalizaram no vício, rogam a frustração genésica e, ainda, o suplício da epiderme deformada ou purulenta, que provoquem repugnância e consequente desinteresse dos vampiros, em cujos fluidos aviltados e vômitos repelentes se compraziam nos prazeres inferiores.

            Se alguma enfermidade irreversível te assinala a veste física, não percas a paciência e aguarda o futuro. E se trazes alguém contigo, portando essa ou aquela inibição, ajuda esse alguém a aceitar semelhante dificuldade como sendo a luz de uma bênção.


            Para todos nós, que temos errado infinitamente, no caminho longo dos séculos, chega sempre um minuto em que suspiramos, ansiosos, pela mudança de vida, fatigados de nossas próprias obsessões.

Divino Amparo


Divino Amparo
Emmanuel
por Chico Xavier
Reformador (FEB) Janeiro 1962

            Se acreditas que o hálito das entidades angélicas bafeja exclusivamente os cultivadores da virtude, medita na Providência Divina que honra o Sol, na grandeza do Espaço, mas induzindo-o a sustentar os seres que ainda jazem colados à crosta do Planeta, inclusive os últimos vermes que rastejam no chão.

            Contempla os quadros que te circundam, em todas as direções, e reconhecerás o Amor Infinito buscando suprimir, em silêncio, as situações deprimentes da Natureza.

            Cachoeiras cobrem abismos.
            Fontes alimentam a terra seca.
            Astros clareiam o céu noturno.
            Flores valorizam espinheirais.

                                                                                   *

            No campo de pensamento em que estagias, surpreenderás esse mesmo Infinito Amor, procurando extinguir as condições inferiores da Humanidade,

            Pais transfigurados em gênios de ternura.
            Professores desfazendo as sombras da ignorância.
            Médicos a sanarem doenças.
            Almas generosas socorrendo a necessidade.

            Não estranhes, assim, a atitude dos Espíritos benevolentes que estendem as mãos, através da mediunidade, a companheiros do mundo que te pareçam indignos.

            Recorda os lírios que desabrocham no estrume, as mães que se escravizam, por sublime renúncia, ao pé de filhos ingratos, e, ainda mesmo diante do irmão reconhecidamente criminoso ou viciado que te fale de esperanças e consolações recebidas do Alto, aprende a respeitar, junto dele, a manifestação da Esfera Superior que o solicita à renovação para o bem, tanto quanto já sabes rejubilar-te perante a luz que dissipa as trevas, E se alguém dogmatiza, a cerca de supostos privilégios na Criação, não olvides que o Criador é Bondade e Justiça para todas as criaturas, refletindo no Cristo que asseverou claramente não ter vindo à Terra para curar os sãos.


5e AntiCristo senhor do mundo


5e


            Tais foram os deploráveis excessos e os frutos do fanatismo. No movimento de emancipação suscitado pela Reforma e, como imensa fogueira ateada no coração da Europa, destinado a promover no seio da Igreja a reação purificadora, mais tarde objetivada nas deliberações do concílio de Trento, não é difícil reconhecer-se o impulso providencial de que falamos páginas atrás, do mesmo modo que aí se patenteia, sempre obstinado e vigilante, em contraste com a não-vigilância dos reformistas, o predomínio do AntiCristo, que a ele não renuncia em caso algum.

            Se, com efeito, apreciada em seu conjunto, a obra da Reforma se recomenda pelo saneamento moral que promoveu nos costumes, tanto como pela divulgação em ampla escala dos ensinamentos do Evangelho, postos ao alcance de todas as inteligências, no primeiro caso, com a abolição do celibato do clero e outras medidas disciplinares, reconciliando as funções eclesiásticas com os nobres e moralizadores deveres da família constituída, e no segundo, quebrando os grilhões do dogmatismo teológico, pela restituição das doutrinas do Cristianismo a sua fonte originaria, a atitude de espírito mantida, entretanto, pelos realizadores daquela obra veio patentear quão longe estiveram eles dos preceitos fundamentais do Mestre. Esqueceram-se de que Deus é Amor e ninguém pode agir nem dizer-se autorizado a agir em nome do seu Cristo, se não se inspira nos ditames desse atributo soberano.

            Que é o que fez a glória e assegurou a imortalidade à obra de Francisco de Assis, quaisquer que fossem as deturpações contra ela ulteriormente perpetradas pelo sectarismo e as ambições de Roma, escrava do AntiCristo! Precisamente o ter sido substancialmente fundada no amor e na humildade.

            Ora, a ação dos promotores, como a dos sectários da Reforma caracterizou-se pela intolerância, filha do ódio, e nas pelejas sustentadas, para destruir a autoridade pontifícia e "reformar" o edifício doutrinário da igreja romana, mostrou-se com frequência inspirada no orgulho. Pretendendo criar uma nova teologia, baseada no Evangelho, para explicar as relações do homem com Deus e definir a sua situação no mundo e os seus destinos espirituais depois da morte, em vez de cingirem-se à Palavra do Senhor Jesus e reconhecerem o grande principio da salvação universal, estabelecido, entre outras, na parábola do Filho Pródigo e nas passagens que atestam, como o vimos anteriormente, a pluralidade de existências, os reformadores erigiram, sob a influencia judaizante do Velho Testamento, essa monstruosa doutrina da predestinação e da graça, que divide os homens em réprobos e escolhidos e tantas legítimas repulsas havia de suscitar, incompatível que é com a justiça, a bondade e a sabedoria do Criador. Daí a deficiência do movimento reformista, inapto em sua forma e em seu objetivo para satisfazer as legitimas aspirações da humanidade e encaminhá-la à realização de seus destinos imortais.

            Explica-se, em todo caso, a obnubilação das inteligências chamadas a intervir naquele movimento, não só pelo implacável predomínio do AntiCristo, cuja intromissão se nota a cada passo nos desvarios e exaltações dos reformadores, como pelas próprias condições do ambiente em que operavam, as quais, de resto, não era estranha, senão que constituía o seu fator primordial, aquela mesma anarquizadora influência.    E é isso o que, de certo modo, os absolve.

            A época era singularmente agitada e se, de um lado, o partido político, em cujas mãos se enfeixavam os destinos da igreja, permanecia refratário à adoção das medidas reclamadas para o restabelecimento da ordem, pela implantação dos dignificadores preceitos elo Evangelho, por outro a disposição geral dos ânimos, naquele ambiente social de Roma, em que as tenebrosas falanges do invisível haviam, por assim dizer, instalado o seu habitat e operavam desde o tempo dos césares romanos, que lhes eram dóceis instrumentos, não opunha menos obstinada resistência a qualquer tentativa de reforma, a menos que se caracterizasse pela violência.

            Testemunho disso foi o malogro da iniciativa tentada por Adriano VI, o escrupuloso e exemplar pontífice que sucedeu a Leão X e ocupou o trono apenas de 1522 a 1523. "Convencido por argumentos escolásticos - refere o historiador - da verdade das doutrinas ortodoxas, não podia acreditar que os reformados procedessem de boa fé; mas entendia que os rigores os tinham levado a exceder-se. Por outra parte, educado no estrangeiro, reconhecia os abusos da cúria romana; quando anunciou o propósito de os extirpar, produziu um duplo efeito: sobressaltou a gente que o rodeava e, com a confissão desses abusos, acompanhada pela promessa de os corrigir, tornou os inimigos mais ousados".

            A esse tempo, quando o movimento da Reforma ainda se não extremara nos assuntos de doutrina e não tomara a amplitude que mais tarde veio a adquirir, ainda teria talvez sido possível, um acordo com os seus promotores, graças sobretudo ao espírito conciliador de que Melanchton e Adriano VI eram dotados.

            "Mas durante o governo desse pontífice, Roma patenteou quanto estava realmente corrompida. Adriano, que, assim como tinha conservado o nome próprio, conservara os antigos costumes, tinha levado a sua pobre governante, que o servia como dantes... Ora a sua simplicidade e a exatidão com que todos os dias dizia a sua missa pareceram ridículas no palácio acostumado ao teor de vida dos Medicis. O papa, que entre os seus havia sido considerado um protetor das letras, que removera as dificuldades opostas à fundação do colégio trilíngue de Louvain, foi tido como um bárbaro pelos literatos que não estipendiava. Quando lhe mostraram o Laocoente, murmurou: "Ídolos pagãos!" e desviou a vista da nudez clássica. Não foi preciso mais nada para se tumultuarem os homens de letras escandalizados. Pasquino o representou na figura de um pedagogo castigando os cardeais como se fossem colegiais. Se tivesse querido suprimir as vendas simoníacas, teria lesado e exasperado os que tinham adquirido legalmente o direito de as fazer. A abolição das sobrevivências às dignidades eclesiásticas cercou-lhe muitos inimigos. Como estrangeiro que era, faltavam-lhe relações de família e não formou relações novas, porque, antes de conceder benefícios, refletia tanto que adiava indefinidamente os provimentos. Só e sem apoio, exclamava: "É uma desgraça haver tempos em que o homem de melhores intenções se vê na necessidade de sucumbir!"

            E o historiógrafo remata com esta edificante observação:

            "Este pontífice, pio e zeloso, chegou a ser considerado um mal ainda mais funesto do que a peste, que então grassava. Quando morreu, houve públicas demonstrações de regozijo e suspenderam-se coroas à porta ao seu médico com a inserção: Ob urbem servatam."
                       
            A Reforma era, pois, necessária, como necessários e únicos eficazes eram os meios revolucionários, e não suasórios, que empregou, infelizmente conduzidos aos extremos da crueldade e das violências pessoais.

            Do livre exame contudo, da liberdade na interpretação individual das Escrituras o que veio a resultar não foi, como teria acontecido, se os reformadores obedecessem às inspirações do Espírito Divino, o consenso unânime no restabelecimento da Palavra do Senhor, mas a multiplicação e a rivalidade das seitas, mais empenhadas em fazer prevalecer as opiniões dos seus chefes, edificadas sobre motivos teológicos e disciplinares, do que os ensinamentos da Verdade. E como esta não pode, simultaneamente, residir em campos adversos e irreconciliáveis, como "todo reino dividido não poderá subsistir", a conclusão a tirar-se é que a Reforma, fracionaria e antagônica em seus diferentes ramos representativos, não esteve nem estará reservada à tarefa de restabelecer o Cristianismo na integralidade do seu espírito e de suas transfiguradoras realizações.

            Coube-lhe, sim, a função histórica e oportuna de sacudir o torpor da igreja romana, abrir uma válvula momentânea ao pensamento religioso comprimido, inaugurar uma era de liberdade espiritual, que, todavia, os seus promotores, sob a reacionária pressão dos servidores do AntiCristo, se encarregaram de mutilar e restringir a golpes de intolerância e fanatismo sectário. Mas nem por isso o movimento cessou de adquirir uma poderosa irradiação, que terminou, como estava nos desígnios da Providência, por impressionar os detentores dos destinos da igreja.

            Ao fim de quarenta anos, com efeito, "a Reforma tinha-se propagado desde os Pireneus até a Islândia, desde a Finlândia até aos Alpes, ocupando o espírito dos pensadores e convertendo nações inteiras. No território alemão dominava na Saxônia, no Brandeburg, no ducado de Brunswick, na Hesse, no Mecklenburg, em Holstein e noutras províncias setentrionais; ao sul, no palatinado, Baden, Wurtenberg e muitas cidades imperiais; como, porém, se dirigia mais à razão que à imaginação, tinha feito aí menos conquistas do que no norte. Um embaixador de Veneza calculava, em 1558, que na Alemanha só um décimo dos habitantes eram católicos e, na Áustria, só um terço. As universidades, que tantos campeões haviam dado à antiga religião, abriam-se à crença nova. Durante vinte anos nem um só estudante da universidade de Viena tomou ordens; em Ingolstadt chegou a não haver candidatos a certos cargos que nunca tinham sido exercidos senão por eclesiásticos. Em Colônia, depois de se ter procurado por muito tempo um novo regente, descobriu-se que o que tinha sido eleito era protestante. Na universidade de Dilligen, fundada precisamente para se opor às novas opiniões, faltou quem regesse as cadeiras; noutras partes quase todos os professores eram protestantes, e a mocidade bebia com o leite a aversão às instituições católicas."

            "A Reforma foi introduzida na Hungria por Martinho Ciriaci de Lotse, e os senhores debalde lhe opuseram o ferro e o fogo. Muitos mancebos magiares iam estudar a Wittenberg, donde saíam numerosos missionários. Formaram em Buda uma comunidade. Pedro Pereny fundou em Patak a primeira igreja, e a Bíblia foi traduzida em húngaro por Gabriel Panonius. Favorecidos pela conivência de Fernando da Áustria, recrutaram grande numero de prosélitos e, num sínodo celebrado em Eperies, em 1546, redigiram uma profissão de fé em harmonia com a de Augsburgo; mas os calvinistas, que em grande quantidade se introduziram no país, publicaram outra em Czenger."

            Até na Transilvânia, "apesar de comprometida ao começo pelos rigores de João Zapoly", a Reforma se propagou com extrema rapidez.

            Em resumo: "a Igreja, que na Idade Média tinha exercido legitimamente a suprema direção dos espíritos e havia sido a regra de todas as consciências e a fonte de todos os poderes, estava então sendo alvo de terríveis hostilidades, e parecia iminente a vitória do individualismo, não somente em matéria de crenças e de culto, senão também nos domínios da moral."

            Era tempo, conseguintemente, de que, a impulsos do instinto de conservação, em seu próprio seio se operasse a razão.