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sábado, 7 de janeiro de 2012

Diante do Mundo


Diante
do Mundo

Ante os pesares do mundo,
Observa, alma querida,
A dor que ilumina a vida,
Sob as provas, tais quais são ...
A Terra é uma grande escola
De que temos o usufruto,
Lembrando enorme instituto
De trabalho e elevação.

Nascemos e renascemos,
Atendendo a leis concisas,
Conforme as lições precisas
Que temos nós para dar;
No serviço que nos cabe,
Naqueles com quem vivemos,
Jazem os pontos supremos
De nosso próprio lugar.

Nas tarefas em que estejas,
Cumpre o dever que te assiste,
Se a vida parece triste,
Não te queixes de ninguém ...
Cada pessoa na Terra
Intimamente é chamada
A servir, de estrada à estrada,
Para a vitória do bem.

O homem robusto e moço
Que administra a riqueza,
Traz, por vezes, rude e acesa,
A fogueira da aflição;
A mulher que exibe ao colo
cruz em joias e luzes,
As vezes tem muitas cruzes
Por dentro do coração.

Nunca censures. Trabalha,
Crê, auxilia e não temas.
Cada qual guarda problemas,
Em forma de sombra e dor.
Quem mais serve e mais perdoa
É aquele que se renova,
Vencendo, de prova em prova,
Na grande escola do amor.

Maria Dolores

inCoração e Vida”, por Chico Xavier, (IDEAL 1ª Ed. 1978)




7 de Janeiro


07 Janeiro


Com amor e caridade,
com trabalho e paciência,
segue a Cristo, sem alarde,
em toda a tua existência.



 Cornélio Pires 
por Clovis H R Coelho  
in ‘Cornélio Pires no Rio Grande”  (G E Messe de Amor  1ª Edição 1992)



sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

02 'Doutrina e Prática do Espiritismo'


DOUTRINA E PRATICA DO ESPIRITISMO

DOUTRINA


1 -  Objeto e significação da vida. Aspectos e fases. O ponto de vista humano. O verdadeiro ponto de vista.

            Não há problema que mais deva interessar ao homem que o de sua própria existência neste mundo.

            Vivemos: - é um fato de que temos consciência. Mas, porque vivemos? Que somos? Donde vimos e para onde vamos? Perturbadoras interrogações, que se vêm, ha séculos, erigindo na mente de filósofos, pensadores e cientistas, sem lograr mais que respostas deficientes e pouco satisfatórias, afinal. Porque, apesar das consideráveis pesquisas empreendidas no campo da biologia; da físico-química, da fisiologia, a ciência, por seus mais eminentes cultores, não conseguiu sequer formular a respeito da vida uma definição vizinha, ao menos, da realidade .

            Por sua vez, os filósofos, erguendo o pensamento acima desse domínio positivo, para espraiar nas abstrações da metafísica, não tem sido mais felizes, por isso que os sistemas por formulados, nesse número incluídos mesmo os dos grandes fundadores de escolas - na antiguidade e em nossos dias - estão longe, não só de determinar com precisão o papel do homem neste mundo, a sua origem e os seus ulteriores destinos, como principalmente de explicar as variadíssimas desigualdades, anomalias e vicissitudes da existência humana. 

            Onde, pois, encontra a solução do magno problema?  Na religião?  Mas a índole dogmática dos seus  ensinamentos, admissível apenas para as inteligências timoratas, incapazes de por si mesmas empreender a resoluta pesquisa da verdade, é bem pouco própria para persuadir e esclarecer.

            Só uma doutrina, que enfeixe em seus métodos de investigação o cunho positivo da ciência e a amplitude dos processos filosóficos, pondo os seus resultados em harmonia com as aspirações religiosas, que palpitam no íntimo de toda criatura, poderá dizer sobre o assunto, senão decerto a última palavra, pelo menos o suficiente para incutir no homem, com o conhecimento de sua verdadeira natureza e de seus destinos imortais, os enobrecedores estímulos de que há mister pana os conquistar.  

            Estará neste caso o Espiritismo? – É o que nos esforçaremos por evidenciar nas páginas que seguem.

            Antes de tudo, porém, cumpre nos detenhamos, de passagem,  a considerar um pouco a vida humana, tomando-a como ponto de partida das indagações que nos propomos.

6 de Janeiro


06 Janeiro


Há dois males que nos fazem
A vida escura e enfermiça:
A chaga da ignorância
E a ulceração da preguiça.


 Casimiro Cunha 
por Chico Xavier
in ‘Gotas de Luz”  (FEB  4ª Edição 1977)


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

5 de Janeiro


05 Janeiro


 ‘Entrega-te a Deus’

Procuraste remédio
Para o mal que te aflige

Repouso demorado
Ampliou-te a aflição

Longas explicações
Aumentaram-te a dor.

Companhias aos montes
Fizeram-te mais só.

Detém-te, ora e  reflete,
Contemplando a ti mesmo.

Se pretendes curar-te,
Busca entregar-te a Deus.

Emmanuel   
por Chico Xavier
in ‘Cura”  (GEEM 1ª Edição 1988)


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

O Pior dos Crimes



O Pior dos Crimes       

por Demetri Abrão Nami

in ‘Páginas Espíritas’ Ed. Alarico 1960


            O Cristo foi, indubitavelmente, o maior revolucionário como igual o mundo jamais conhecerá. Isto, pelas verdades eternas que disseminou, desassombradamente, apesar das perseguições contumazes que Lhe moveram naquela época de corrupção desbragada e de fácil agressividade.

            Humilde que foi, soube vencer, galhardamente, pela persuasão que era a Sua característica, e cumprir, assim, a Sua sublime missão de Redenção Humana, moldada no amor de Deus e do próximo.  Por isso Ele será sempre o Príncipe da Filosofia Eterna.

            Os mundos se extinguirão; a Terra se dissolverá um dia, porém, jamais as Suas palavras, porque são eternas como eterna é a fonte donde provieram - Deus. Queiram ou não os homens, as Suas palavras se cumprirão até a última, porque é esta a vontade divina.

            Dos seus ensinamentos destacamos pela sua oportunidade aquele em que disse: não temais os que matam o corpo, mas os que matam a alma. Ensinamento profundo este e de grande alcance filosófico, porque desperta nossa alma à compreensão do pior dos crimes do qual devemos nos precatar como cristãos que desejamos ser.

            Jesus, assim ensinando, deixou evidente o seguinte: pior do que matar o corpo, é matar a alma.

            Mas, como se mata a alma? - Envenenando-a com falsas teorias e dogmas obsoletos; com ditos obscenos e subversivos; com exemplos pérfidos e clamorosos que levam, muitas vezes, as criaturas que os ouvem ou veem a alimentar sentimentos inferiores. Eis o que é pior do que matar o corpo, como o Cristo ensinou, porque essas inferioridades predispõem a alma à prática de graves cometimentos de terríveis consequências, acarretando aos seus fautores dolorosos resgates, aqui ou no Além.

            Ninguém ignora que são esses sentimentos mesquinhos, inoculados nas almas desprevenidas por indivíduos solertes, anarquizadores e sem Deus a origem de todos os males que tem chagado a humanidade em todos os tempos.

            Aos cristãos conscientes cabe a importante tarefa de combater e exterminar esses sentimentos do seio desta humanidade infeliz e sofredora, alteando a luz emanente do Evangelho do Cristo.

            

Coincidência


Coincidência

            Na última palestra do ano, na Federação Espírita Brasileira, focalizamos o fenômeno dos "Agêneres", com base em "O Livro dos Médiuns" (cap. VII, da 2.a parte); em "O Evangelho segundo o Espiritismo" (cap. XXV e XXVII); na "Revista Espírita" (fevereiro de 1859, págs. 38 a 44); no Antigo Testamento ("O Livro de Tobias") e, ainda, no Evangelho do Senhor Jesus (Mateus, cap. XI, v. 11).

            À noite, no "Fantástico", da TV Globo, em homenagem ao recém-desencarnado "Almirante", foi dramatizado um dos casos do seu arquivo, que é considerado um dos maiores do Brasil, organizado ao tempo em que dirigia o programa radiofônico "Incrível, Fantástico, Extraordinário".

            Coincidência ou não, o caso apresentado, escolhido entre milhares, ocorrido em São Paulo, foi o da  materialização espontânea de um Espírito ("agênere") que, no programa, foi considerado uma visita de "fantasma".

            Enfoquemos algumas passagens.

            O "fantasma" (sob a aparência de uma mulher) chega à casa onde os fatos se desenrolarão em companhia de uma senhora, que a conhecera na rua. Chegada natural, com as apresentações costumeiras, ficando esclarecido que a estranha "reside" no Rio de Janeiro e ali se encontra (São Paulo), para resolver um negócio. Conversação amena, interrompida pelo "fantasma" que, em dado momento, se levanta e, caminhando em direção a uma foto existente na sala, designa o nome de cada um dos fotografados, o que não pode ser confirmado pelas duas amigas que a recepcionam, pois a foto pertence ao marido da dona da casa, ausente. Ele, ao chegar, confirma os nomes indicados e se surpreende quando o "fantasma" lhe diz que o conhece de vista, pois que o via fazer refeições em determinado bar no Rio de Janeiro, o que é por ele confirmado prontamente.

            À pág. 40 da "Revista Espirita", de fevereiro de 1859, o Codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, assim se expressa:

            "Um Espírito cujo corpo fosse inteiramente visível e palpável dar-nos-ia a aparência de um ser humano, poderia conversar conosco, sentar-se em nosso lar, como qualquer visita, pois que o tomaríamos como um de nossos semelhantes."

            Apesar de ter "pernoitado" na casa, não aceitou alimentos e repetiu, muitas vezes, "tenho pouco tempo", "tenho sede".

            Em "O Livro de Tobias", cap. XII, v. 19, o "anjo" que acompanhou Tobias, a que se refere Allan Kardec nos capítulos XXV e XXVII, de "O Evangelho segundo o Espiritismo", esclarece:

            "A vós parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas eu sustento-me dum manjar invisível e duma bebida que não pode ser vista dos homens."

            Em nenhum momento o "fantasma" se identifica como desencarnado, embora citasse ter tomado veneno e que fora submetido a uma operação cirúrgica, indicando o tempo decorrido, o nome e a localização da Casa de Saúde, no Rio de Janeiro (o que foi, posteriormente, confirmado pelo dono da casa).

            O insigne Codificador da Doutrina Espírita, pág. 41, do já citado número da "Revista Espírita", ensina:

            "O agênere propriamente dito não revela a sua natureza e aos nossos olhos não passa de um homem comum."

            No dia seguinte o "fantasma" vem descendo a escada em direção à sala de refeições, onde as duas amigas já a esperam para o lanche, e, após repetir "tenho pouco tempo", "tenho sede", "estou cansada", se desmaterializa! Aqui os parabéns à TV Globo! Que exemplo de técnica! Milhões de telespectadores "viram" a desmaterialização!

            Pois, no cap. XII, v. 21, do focalizado "O Livro de Tobias", encontramos:

            "E tendo dito estas palavras, desapareceu diante deles, e eles não o puderam ver mais."

            No final, quando o marido telefona para dar a notícia de que estivera na Clínica, confirmara todos os dados e acrescenta que a visitante "morrera" na mesa de operações, a dona da casa "compreende" que hospedara um "fantasma". Registre-se que a dona da casa ainda está encarnada e, entrevistada no início do programa, confirmou o fato.

            É por isso que dizemos que o Espiritismo não veio criar ou inovar, veio esclarecer.

            Os agêneres existiram, existem e existirão, mas só a Doutrina Espírita os explica de forma simples e racional, tirando o aspecto milagroso ou sobrenatural, como indica o Codificador em "O Livro dos Médiuns", em especial no capítulo VI, da 2ª parte, ao se referir ao perispírito e às suas propriedades.



José Dias Innocêncio

in “Reformador” (FEB) Fevereiro 1981

A Problemática da Juventude na obra de Léon Denis


A Problemática 
da Juventude
 na obra de 
léon Denis
        
            Torna-se deveras necessária uma explicação mais extensa e satisfatória em torno da produção de Léon Denis.

            Filósofo dos mais profundos, mestre do pensamento esclarecido e dono da palavra sadiamente empolgada, não se pode dirigir a obra do escritor a determinadas faixas etáriías, uma vez que tem a caracterizá-Ia a universalidade de ensinos; ela não se acha adstrita a particularismos grupais.

            Mas, como nos dizem os Espíritos amigos, "a verdade está na síntese" - assertiva essa já proclamada a viva voz por grande número de filósofos. Por isso mesmo, o perigo de distorção da produção de Denis está exatamente na interpretação que mentes imaturas lhe podem dar.

            Já de Imediato, como entender a unidade de problemas suscitada pelo filósofo quando, a páginas 54 do livro "O Problema do Ser, do Destino e da Dor", edição de 1961, colocamo-nos face a face com a seguinte asserção?:        

            "O primeiro problema que se apresenta ao pensamento é o próprio pensamento", ou seja, "o primeiro problema que se apresenta ao ser pensante é o próprio pensamento." E, mais adiante: "O problema do ser e o problema da alma fundem-se num só."

            Vamos, como pensadores evangelizados, dissecar a peça anatômica que se apresenta à nossa frente.

            Inicialmente, o que é a UNIDADE, ou a UNICIDADE suscitada por Denis? Certamente, se pusermos em movimento toda a nossa capacidade de compreensão, entenderemos a Unidade como uma interligação mental, e portanto, interior, com reflexos na vida exterior, isto é, na vida de relação, e não uma vinculação interna totalmente desmembrada do exterior.

            No entanto, como dissemos, nem sempre é fácil interpretar o pensamento de Denis. O seu vocabulário riquíssimo e belo esconde uma profundidade e complexidade (esta, em relação ao nosso parco entendimento) plenamente justificáveis face à amplitude da visão espiritual do filósofo.

            Assim é que boa parte da juventude entende Denis como um grande "reacionário", ou um socialista extremado, dentre outros qualificativos, como o de pessimista no que toca aos destinos da sociedade terrena. Um segundo Nietzche, enfim.

            A maioria, após a leitura (não o estudo) de suas obras, enterra-se em um castelo de sólidas rochas, reagindo egoisticamente no que concerne aos problemas do mundo - que também são dela - e adota a filosofia do protesto pela não intervenção no campo prático da coletividade. Refutam usos e costumes; atacam maciçamente o arcabouço que lhes foi legado ou que por eles foi herdado, esquecendo-se de que "renovar não é destruir" (André Luiz, "Agenda Cristã", FEB, psicografia de Chico Xavier) e de que o marasmo não cria. Com tal proceder, fatalmente surge a piora de uma situação que podemos classificar como negra, acionando os mecanismos da Lei de retorno, gerando o verdadeiro caos social.

            Cultiva-se, de tal modo, a desordem mental, que os Espíritos amigos sempre condenaram, condenam e condenarão com veemência. E muitos, meus amigos ... muitos. justificam suas posições irrefletidas neste ou naquele volume de Léon Denis! ... E, o que é pior, muita gente dentro da própria Doutrina Espírita procura combater a orientação segura do Alto, resguardando-se no socialismo, no não conformismo e em tantos outros "ísmos", "que Léon Denis proclamou no livro tal, à página tal", ou, então, "com base no que ele afirmou na mensagem que o médium Y recebeu no Centro Z".

            Por aí se compreende que uma pequena frase de uma simples página, de um só livro do grande batalhador espírita é o bastante para abarcar uma série de problemas que se apresentam jungidos uns aos outros, formando uma unidade, e que existirão ainda por muito tempo. Além disso, esquecem-se os arautos desses "ismos" de que o nosso mundo ainda precisa depurar--se. A maioria dos espíritos que aqui reencarnam trazem profundos débitos de vidas pregressas, que se manifestam sob a forma de expiação e de prova por encarnações inteiras. De tal modo, o entrelaçamento de fios vinculatórios de uma causa às demais exterioriza-se como uma verdadeira teia, onde a aranha venenosa (o embotamento total do homem pela própria culpa) é suprema dominadora.

            Denis mostra claramente - muito embora, repetimos, não seja um Nietzche - que essa realidade dominadora se projeta a terrenos afastados, ameaçando minar toda uma estrutura cristã. E um dos campos mais propícios às suas sinistras investidas é o dos jovens, esclarece-nos.

            "Nos meios universitários, reina ainda a mais completa incerteza sobre a solução dos mais importantes problemas com que o homem jamais se defrontou em suas passagens pela Terra."

            Aqui ressurge a mencionada unidade, como produto mesmo da própria natureza gregária do Homem. A juventude não deve e não pode passar à crisálida do insulamento, alegando um choque de gerações e, suas desilusões, gerando a descrença e, consequentemente, o medo. Tudo isto nos esclarece Léon Denis.

            Ainda em "O problema do Ser, do Destino e da Dor", Denis enfoca, à plena luz de sua compreensão, o problema do jovem no mundo moderno, aludindo inclusive à obra de Carl du Prel, "La Mort et l'au delà", onde, a páginas 7, o conhecido mestre nos diz que a Filosofia não auxiliava a resolver o problema da mortalidade que afligia a idade adulta e, ainda mais, os jovens.

            Fruto de uma visão falha, que não prepara a juventude para a vida, embasava-se ela no Naturalismo de um Hegel, no Positivismo de um Auguste Comte ou, o que é pior, no Materialismo de um Stuart Mill, tudo isso na busca de um ideal "incerto" e "flutuante". Denis nos mostra, com uma clareza meridiana, que a descrença gera o medo, que embota toda e qualquer perspectiva mais ampla, mais acalentadora. Esta é, aliás, a tônica da obra de Denis. O pessimismo e o fanatismo contribuem ainda mais para a descrença na Força Maior que dirige o Universo inteiro, chegando-se ao ápice da negação com a frase, ou melhor, a sentença "Deus está morto", com o que Nietzche consubstanciou a sua posição de negador de si mesmo, porque nenhum homem que negue a Deus pode reconhecer-se a si próprio.

            Raoul Pictet, que Denis também cita com frequência, afirma que "o desânimo precoce e o pessimismo dissolvente são ameaças terríveis para o futuro".

            A mocidade, cultuando, quer o êxito e a riqueza, quer o protesto contra o estabelecido de há muito - que lentamente irá mudando -, não atingiu ainda a posição de síntese que nos é apresentada pela Espiritualidade Maior. Em ambas as posições configura-se a descrença na Providência Maior e nas próprias forças que ela nos outorga. Cultua-se o acaso e a influência de condições primárias, em que a vontade não intervém, conforme nos elucida Raoul Pictet em sua obra "Étude Critique du Matérialisme et du Spiritisme par Ia Physique Expérimentale".

            Ressalte-se ainda uma posição muito em voga, adotada por criaturas de todas as idades, segundo a qual a existência deve ser considerada como mero caso fortuito, produto, tanto ela quanto o Universo, de uma gigantesca explosão que teria lançado os corpos celestes em movimento de rotação em torno de um centro, que para o nosso sistema planetário seria o Sol. Parece-nos, sem dúvida, ter havido semelhante explosão, mas... perguntaríamos se se poderia prescindir de um motor inicial que movimentasse os corpos e provocasse a própria explosão. Mais uma vez, vamos beber ensinamentos na opulenta obra de Denis, que nos informa que o choque inter atômico das moléculas que, segundo Kant, teria, ocasionado a movimentação é totalmente improcedente, uma vez que a energia desprendida por tal explosão é igual em todos os sentidos, o que, como facilmente se depreende, não estaria em condições de gerar movimento. Além disso, vamos lembrar a resposta de Albert Einstein, quando inquirido sobre o acaso:

            - "Não creio no acaso porque igualmente não creio que Deus pudesse jogar dados com o Universo."

            Seria necessário mais algum depoimento?

            Naturalmente, alguém há de alegar que Einstein estaria fora de suas faculdades quando assim disse. Quanto a estes, deixemos que novas luzes se façam para eles.

            Tal é a situação de grande parte dos moços na atual vida terrena... e talvez ainda o seja por muitas encarnações. Descrentes de si mesmos, tudo negam, tudo rebatem e atacam; não percebem, entretanto, que, ao negar a Deus, negam-se a si mesmos e a toda a humanidade, à Natureza, enfim, à própria vida de que somos o exemplo mais gritante, uma vez que já estamos investidos do livre arbítrio é, conseguintemente, já nos encontramos raciocinando.

            Se a essência espiritual veio do reino mineral, passou pelo vegetal, animal... se no vegetal só possuía sensação e no animal adquiriu instinto... do mesmo modo, no estágio humano conscientizou-se de uma liberdade maior, muito embora a igualdade perante Deus imponha determinadas restrições, em benefício da própria harmonia universal. É essa harmonia que os jovens negam, isolando-se em castas e em seitas utópicas, onde podem viver plenamente as ilusões do clima em que gravitam... ilusões das quais não são os exclusivos culpados, uma vez que, indubitavelmente, o meio influencia aqueles que ainda não se encontram embasados no Santo Evangelho do Cristo de Deus!

            Não obstante, conforme nos diz Léon Denis, "as potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações", tudo para melhor.

            Por isso, os Espíritos amigos não se cansam de nos aconselhar o estudo e o raciocínio. Denis assim também o faz.

            Antes de vermos em suas obras monumentais o socialista intransigente, entendamos seus propósitos primeiros. Como todo verdadeiro espírita, como o próprio Cristo o fez, Denis é socialista na medida em que acha que devemos dar a cada um um pouco do que é nosso, principalmente nossos valores morais: nosso amor, nosso carinho, nossa compreensão, nosso alento e nosso discernimento.

            Não vamos, é imprescindível, misturar política com Doutrina Espírita! ... Se compreendermos Denis, compreenderemos também que não podemos mudar o mundo, que não podemos destruir sem construir; que não nos achamos, mesmo, em condições para assim agir. Deixemos que o progresso se faça aos poucos. Não vamos simplesmente afirmar que Denis dá ao substantivo pobreza sempre e sempre o sentido material. "Entre nós sempre haverá pobres", diz-nos Antônio Luiz Sayão, a páginas 433 de seu "Elucidações Evangélicas". Haverá sempre a pobreza moral e, mesmo quando esta houver desaparecido, haverá sempre espíritos mais evoluídos que outros; assim sendo, sempre existirão os mais pobres. E, materialmente falando, o mesmo Sayão, a páginas 434 da mesma obra, nos diz:

            "O desaparecimento, a cessação completa da pobreza material, de maneira que cada um viva folgadamente do seu labor, será um sonho, enquanto a nossa depuração moral não nos houver suavizado as futuras expiações."

            Novamente perguntamos:

            Será necessário mais algum testemunho?

            Tudo isto que vimos dizendo, nesta exposição, traduz o pensamento de Léon Denis quanto aos problemas do mundo. À idade adulta, ele pede um pouco mais de paciência e compreensão; um pouco mais de esclarecimento e lealdade para com a juventude. A esta, ele pede um pouco mais de calma, de perseverança, de raciocínio, de entendimento das premissas maiores de espiritualização.

            Relembremos as palavras do filósofo:

            "As potências da alma são inúmeras e somente esperam o alarma vitorioso para que entrem em funcionamento, criando, modificando e extinguindo situações, tudo para melhor."

            Não são poucos os amigos da Espiritualidade Maior que se manifestam em apoio às palavras de Denis, com esclarecimentos que são da própria Doutrina Cristã.

            Bezerra de Menezes chama a atenção para a presença do Evangelho na vida de cada um, inclusive como medida de levantamento das forças íntimas, de que Denis tanto nos fala. Assim:

            "Sobrevém a queda, acarretando sérias consequências àquele que conhece as forças que traz em si e que cai, fragorosamente, esquecido do Evangelho."

            Do mesmo modo, externa-se o venerável Bittencourt Sampaio, lembrando ao homem que a lei é evolução e que o marasmo é o câncer da alma:

            Dentro das possibilidades de cada um, manifesta-se o manancial de forças espirituais.

            "Mesmo assim, nada obsta a que o esforço próprio venha acentuar a evolução, desenvolvendo aos poucos a vista espiritual."

            Ainda Eurípedes Barsanulfo assevera:

            "Lutemos com todas as forças que nos são próprias e que dormitam em nosso imo, encaminhando-as para a ação paulatina e franca nas searas do Mestre."

            Mesmo ante todos estes testemunhos, corroboradores da mensagem de Léon Denis, há os que objetam que a tendência do Espírito é o que verdadeiramente atua, cerceando todos os esforços dirigidos a mais além. Concordamos em parte com semelhante tese. É bem verdade que as tendências espirituais são dominantes, não podendo ser imediatamente transformadas. Mas. relembramos novamente o filósofo do Espiritismo quando, dirigindo-se a todas as idades, fala da vontade, potência-chave da alma, que pode elevar, se assim o quisermos, bem como obrigar-nos ao estacionamento, se assim o desejarmos. "A vontade", assevera Denis, "é um meio para pormos em movimento as demais forcas, pelo uso persistente e tenaz desta faculdade soberana que nos há de permitir modificar a nossa natureza. vencer todos os obstáculos, dominar a matéria, a doença e a morte."  ("O Problema do Ser, do Destino e da Dor", pág. 305.)

            Ainda a esse propósito. manifestou-se com muita sabedoria o Espírito Ubaldo Ramalhete, relembrando com todo o seu carinho uma frase de Suffis Ferdousis, que se acha contida na obra de Denis e que bem expressa o descaso da humanidade pelos tesouros eternos do espírito:

            "Vós viveis no meio de armazéns cheios de riqueza e morreis de fome à porta."

            Como abrir essas portas do tesouro eterno? Como possibilitar a exteriorização da alma, rasgando o véu que encobre o firmamento de glórias sublimes?

            Não pelo ódio ou pelo rancor; muito menos pela inveja ou pelo prazer fútil. Mas, sim, diz-nos Léon Denis, "pelo amor e compreensão que alcançamos pela dor, essa revelação que a natureza guarda e contra a qual tanto nos debatemos". Mais adiante, visivelmente inspirado pelo Alto, prossegue:

            "Abri o vosso ser interno, abri as janelas da prisão da alma aos eflúvios da vida universal e, de súbito, essa prisão encher-se-á de claridade, de melodias... um mundo todo de luz penetrará vosso ser!"

            Frequentemente, escutamos as mais bizarras interpretações das assertivas de Denis, No entanto, os Espíritos amigos sempre nos lembram a paciência e a tolerância, como apanágio do verdadeiro espírita ... E, relembrando o próprio Cristo, nunca tivemos notícia de que ele tenha abandonado a cruz ao meio do caminho para entrar em luta com a multidão. Cabe-nos apenas transmitir a mensagem de amor que a Espiritualidade Maior derrama sobre todos nós, relembrando sempre que o homem progride, malgrado as aparências ... que tudo isto é necessário à caminhada (Denis assim também o afirma).

            "A todo homem é dada a ventura da elevação espiritual. Esta é um progresso contínuo, ininterrupto, porque é essencialmente vida, ainda que a aparência seja de natureza contrária para nossos modestos sentidos." (Bittencourt Sampaio.)

            Para que todos entendam em espírito e em verdade a obra de Léon Denis, é apenas necessário que consigamos, pela vontade e pelo amor, dizer o "abre-te, Sésamo" que nos mostrará a mais intensa claridade do "entendimento com Jesus".

Gilberto Campista Guarino

inReformador(FEB) Dezembro 1972.

4 de Janeiro



04 Janeiro


 Caridade em nossos passos
- Puro amor que nos irmana –
É Jesus abrindo os braços
No campo da vida humana.

 João de Deus 
por Chico Xavier
in ‘Cura”  (GEEM 1ª Edição 1988)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

01 'Doutrina e Prática do Espiritismo'


PRELIMINAR

            Este livro, que representa o fruto de dezenove anos de aprendizado espírita, pretende ser também uma particularizada afirmação de fé.

            Momentaneamente eclipsado pelas audaciosas negações do materialismo científico, reassume em nossos dias o Espiritualismo, sob várias modalidades, o prestigio que havia perdido nas inteligências, constituindo salutar e oportuna reação contra os desmoralizadores efeitos daquela aberração negativista. É' como um polo magnético, de irresistível atração para quantos, ansiosos de ideal, se não resignam a cerrar obstinadamente o entendimento à ilimitada pesquisa da Verdade.

            Entre as modalidades atuais do Espiritismo nenhuma, todavia, em nossa opinião, reúne mais satisfatórios requisitos, não apenas como especulação filosófica, mas para realizar a obra de regeneração moral e de reorganização social, que se elabora para o mundo, que o Espiritismo.
  
            Contemporâneo, por assim dizer, de todas as idades por sua fenomenologia, há pouco mais de meio século é que ele surgiu no domínio do pensamento como doutrina sistematizada. E desde então, graças à experimentalidade objetiva de suas demonstrações e à índole racionalista de seus  ensinamentos, a que as eternas e consoladoras verdades do Evangelho servem de magnífico remate, não cessou de, por toda parte, aliciar prosélitos, ao mesmo tempo que já apresenta os contornos de uma vasta organização associativa .

            Mas o Espiritismo, quer no ponto de vista doutrinário, quer no da aplicação de seus métodos de iniciação, como de sua ação social e pratica - aspectos que necessariamente se integram como desdobramentos de uma ideia fundamental - só preencherá os fins que lhe estão superiormente assinalados, sob a condição de não permanecer- estacionado.  Livre racionalista e evolutivo por natureza, "tendo dito a primeira palavra, mas não pretendendo jamais dizer a última", no lapidar conceito, daquele que foi o seu clarividente codificador, o primeiro, imprescritível dever dos que o professam é estudar.

            Com esta expressão não pretendemos designar unicamente a leitura das obras, consideradas propriamente clássicas, fundamentais do Espiritismo e, para os seus vulgarizadores, a repetição mais ou menos desenvolvida ou literal das sínteses doutrinárias que ali se acham enfeixadas. Falamos da meditação, pelo sentido íntimo, das transcendentes verdades codificadas por Allan Kardec. Mais ainda: no paralelismo, que se pode num bom e verdadeiro sentido denominar concorrência vital, em que com o Espiritismo se vêm apresentando as outras doutrinas espiritualistas , a que acabamos de nos referir, entendemos que os espíritas, se querem conservar, sempre mais opulento; o precioso depósito que lhes é confiado, como um perpétuo convite às inteligências mais esclarecidas e exigentes, não podem se desinteressar do exame das demais doutrinas, sendo por isso uma das medidas aconselháveis aos círculos de iniciação e propaganda a adoção do estudo comparativo das religiões. 

            Tanto quanto nos tem sido possível ajuizar da observação dos fatos, o Espiritismo se encontra presentemente numa situação comparável à do Cristianismo em contato com a escola filosófica de Alexandria, de que resultou aquele magnífico florescimento da teologia cristã dos primeiros séculos, a breve trecho, contudo, mutilada em suas mais adiantadas  afirmações pela intolerância exclusivista dos posteriores depositários do divino legado.

            Sem duvida o Espiritismo tem na própria incessante revelação dos espíritos um veículo de perpétuo rejuvenescimento e evolução. Mas, sem desprezar essa preciosa fonte, peculiar a sua mesma índole, há toda vantagem, para ele, no que se refere a sua conservação e desenvolvimento, não somente em incorporar ao seu patrimônio as novas descobertas que, pelo futuro adiante, lhe tragam as pesquisas da ciência, como em assinalar das doutrinas espiritualistas, que ao seu lado começam a vicejar, os princípios e ensinamentos que um estudo aprofundado e oportunas comprovações demonstrem verdadeiros. E tão convencido estamos dessa necessidade que, sem pretender arvorarmos em profeta, ousamos, todavia, formular esta alternativa: ou os espíritas estudiosos, principalmente aqueles que têm assumido os encargos de propaganda e direção, entram nessa via larga de um prudente e judicioso ecletismo, velando por que se não imobilize a doutrina, sobrepujada por outras que se lhe pretendem avantajar no descortino filosófico, e nesse caso lhe hão de  assegurar uma irradiação cada vez mais ampla nas inteligências, oferecendo-Ihes o máximo que poderiam aspirar na esfera do conhecimento; ou, enclausurando-se num infecundo exclusivismo, arriscam-se a ver desertar de suas fileiras apreciáveis elementos de colaboração, com que necessita contar o Espiritismo para o aperfeiçoamento de seus métodos, sob pena de ser abandonado ao puro domínio do empirismo e da superstição.

            Porque, na concorrência vital, a que aludimos, há de forçosamente prevalecer a lei de economia biológica, expressa no fenômeno da sobrevivência dos mais aptos. Assimilar, ou ser assimilado e desaparecer - é o dilema irrefragável .

            Ora, uma das características do nosso tempo, aspiração que ao demais lateja no íntimo de quantos buscam servir o magno ideal da paz e da fraternidade universal, é a tendência para a unificação. E seria deplorável que uma doutrina como a espírita, que, pela amplitude e tolerância de suas afirmações, como por seu cunho universalista, apresenta excelsas condições para essa obra de unificação no terreno religioso, viesse a falir, por Inadvertência de seus depositários, à missão que tais eminentes caracteres Ihe assignam.

            Livre, com efeito, de tradições obsoletas, avesso a todo formalismo, não hostilizando nenhuma crença, a todas não obstante se propõe trazer um elemento de espiritualização, isto é, de adiantamento e de progresso, concorrendo para emancipar os homens das obscurecedoras limitações de toda exterioridade ou esoterismo e oferecendo-lhes em troca as provas, documentalmente objetivas, da sobrevivência, com todo o seu cortejo de ensinamentos e consolações.

            Esse domínio experimental, entretanto, não é isento de obscuridades e perigos, constituindo mesmo o que Allan Kardec, fundado na observação e experiência adquirida, considerava o escolho do Espiritismo. Para os neutralizar, só um caminho se oferece aos pesquisadores conscienciosos: o aperfeiçoamento dos  métodos de investigação, duplicado da observância de regras iniciáticas, tendentes a elevar e esclarecer a moral dos praticantes.

            Uma permanência de quatorze anos consecutivos na presidência da Federação Espírita Brasileira  nos permitiu, de um lado, adquirir alguns conhecimentos nesse domínio, graças principalmente à iluminadora assistência do Alto, que nunca cessou de nos favorecer, e do outro aquilatar, com aproximada justeza pelo menos, quais os moldes mais convenientes. a adotar, no que se refere ao programa e organização das associações espíritas .

            Abordando, por isso, na primeira parte deste livro uma síntese doutrinária, com os desenvolvimentos pela nossa incapacidade permitidos, mas procurando fazer obra de propaganda, isto é, traçando um plano expositivo em que da apreciação dos fatos mais elementares procuramos sucessivamente remontar aos mais complexos problemas, com eles nos esforçando por familiarizar a mente dos não iniciados na doutrina, foi sobretudo na segunda parte, relativa à prática do Espiritismo, que buscamos por a modesta experiência, ali adquirida, ao serviço dos adeptos.

            Escritos nos anos mais tormentosos talvez de nossa vida, em meio de embaraços e sofrimentos de múltipla natureza, ressente-se de inevitáveis imperfeições, porventura graves, que sirva aquela circunstancia para atenuar. Tal como, todavia, o entregamos à publicidade, ao mesmo tempo que um convite ao estudo - subsidio que representa em tal sentido - é o testemunho de um duplo e altruístico desejo: ser útil aos nossos semelhantes e servir à Causa, a que devemos a maior fortuna que poderíamos, no mundo, ambicionar.