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terça-feira, 28 de setembro de 2021

Reencarnação - Cap. VIc - As causas dos nossos sofrimentos

 “Reencarnação

- estudo sobre as vidas sucessivas."

Capítulo VIc 

 ‘As Causas Dos Nossos Sofrimentos'

 por Aurélio A. Valente 

Editora: Moderna - Ano: 1946

Biblioteca Espírita Brasileira

REPARAÇÃO

             Reparação é a vida de abnegação e devotamento por aqueles que foram sacrificados de todos os modos, em existências passadas. Segundo as Leis da Misericórdia Divina, reúnem-se no mesmo meio perseguidores e perseguidos, algozes e vítimas, para o resgate. Podem nascer no mesmo país, na mesma cidade e até no mesmo lar, conforme o modo de reparação. É por esse modo que se explica haver simpatias e antipatias, homens desprendidos que tomam a si o interesse alheio e pugnam pelo direito dos seus semelhantes com verdadeiro devotamento. É a renúncia pessoal em benefício da coletividade. Quem desconhece a vida de Vicente de Paulo, o fundador dos orfanatos e asilos para as criancinhas abandonadas nas ruas de Paris, quando a degradação moral havia atingido ao auge?

            Segundo revelado do além, esse vulto adorado pela Igreja Romana e respeitado pelos acatólicos foi a reencarnação de Herodes – Rei dos Judeus, que mandou degolar os meninos que nasceram no tempo de Jesus; os recolhidos das suas ordens”. Ao que nós recrutamos: “É verdade, porém, no cumprimento de ordens tais, os soldados não se excedem, não exorbitam? Além disso, há uma pergunta a fazer: Devem-se cumprir ordens absurdas, loucas, que repugnem a nossa consciência? O leitor pode responder livremente de acordo com o seu caráter.

            Clemente XIV, Papa (1773) , que extinguiu a ordem dos jesuítas, segundo revelação que lemos algures, foi a reencarnação de Loiola, que veio desfazer a sua obra nefasta. Nessa ocasião, a ordem dos Jesuítas fundada por Inácio de Loiola, pelos grandes males que disseminou no mundo, foi expulsa quase ao mesmo tempo dos principais países do mundo. Essa ordem foi restabelecida em 1814 por Pio VII, mas já sem a mesma força que usufruía anteriormente.

            João Batista foi a reencarnação de Elias segundo as profecias bíblicas e revelação de Jesus a seus discípulos (Mateus, Cap. 17, vv. 10 a 14). A sua decapitação foi o resgate do seu crime como profeta, ordenando a degolação dos sacerdotes do Baal (Reis, 18, vv. 40).

            Há também uma revelação que apresentou Joanna d’Arc como a reencarnação de Judas, depois de numerosas, pungentes e ignoradas expiações terrenas.

            Além dessas reencarnações, que fizeram os seus heróis conhecidos do mundo inteiro, outras houve que passaram despercebidas da humanidade, por súplica dos próprios espíritos falidos, tal a situação de vergonha sem limites, se fossem reconhecidos através das miseráveis existências com corpos cujas carnes iam aos poucos caindo de podres.

            Quando o espírito consegue expiar e reparar de modo satisfatório os seus crimes, volta ainda novamente à Terra para submeter-se a provas de resistência, que conhecemos com o nome de

PROVAÇÕES

             Provação é a situação em que se encontra o espírito para experimentar as tentações do mal e vence-las. Feliz daquele que sabe vencer, pois do contrário terá que voltar em condições ainda piores.

            Recorrendo ainda ao livro “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, apresentamos o caso de

                                               M. FELICIEN

             “Era um homem rico, instruído, poeta de espírito, possuidor de um caráter, são, obsequioso e ameno, duma perfeita honradez.”

            “Falsas especulações comprometeram-lhe a fortuna, e não lhe sendo possível repará-la, em razão da idade alcançada, cedeu ao desânimo enforcando-se em dezembro de 1864, no quarto de dormir.

            “Não era materialista, nem ateu, mas um homem de gênio um tanto superficial, ligando pouca importância ao problema da vida de além túmulo. Conhecendo-o intimamente, evocamo-lo quatro meses, após o suicídio, inspirados pela simpatia que lhe dedicávamos.”

             Evocação – Choro a Terra na qual tive decepções, porém menores do que as experimentadas aqui. Eu, que sonhava maravilhas, estou abaixo da realidade do meu ideal. O mundo dos espíritos é bastante promíscuo, e para torna-lo suportável fora mister uma boa escolha. Não torno a ele. Que esboço de costumes espíritas se poderia fazer aqui! O próprio Balzac, estando no seu elemento, não faria tal esboço senão de modo rústico. Não o lobriguei porém... Onde estarão esses grandes espíritos que tão energicamente profligaram os vícios da humanidade? Deviam eles, como eu, habitar por aqui antes de alçarem-se a regiões mais elevadas. Apraz-me observar este curioso “pandemonium” e assim, fico por aqui.

             “Apesar de o espírito nos declarar que se acha numa sociedade assaz promíscua e, por conseguinte, de espíritos inferiores, surpreendeu-nos a sua linguagem, dado o gênero de morte, ao qual, aliás, não faz qualquer referência. A não ser isso, tudo mais refletiu o seu caráter.

                “Tal circunstância deixava-nos em dúvida sob a identidade.

             P. - Tende a bondade de nos dizer como morrestes...

R. - Como morri? Pela morte por mim escolhida, a que mais agradou, sendo para notar que meditei muito tempo nessa escolha com o intuito de me desembaraçar da vida. Apesar disso, confesso que não ganhei grande coisa: libertei-me dos cuidados materiais, porém para encontra-los mais graves e penosos na condição de espírito, da qual nem sequer prevejo o termo.”

P. - (ao guia do médium) – O espírito em comunicação será efetivamente o de M. Félicien? Esta linguagem, quase despreocupada, torna-se suspeita em se tratando de um suicida...

R. - Sim. Entretanto, por um sentimento justificável na sua posição, ele não queria revelar ao médium o seu gênero de morte. Foi por isso que dissimulou a frase, acabando, no entanto por confessá-lo diante da pergunta direta que lhe fizestes e não sem angústias. O suicídio fá-lo sofrer muito e, por isso desvia, o mais possível, tudo o que lhe recorde o seu fim funesto.   

P. - (ao espírito) – A vossa desencarnação tanto mais nos comoveu, quanto lhe prevíamos as tristes consequências, além da estima e intimidade das nossas relações. Pessoalmente, não me esqueci do que éreis obsequioso e bom para comigo. Seria feliz se pudesse testemunhar-vos a minha gratidão e fazer algo de útil para vós.

R. - Entretanto, eu não podia furtar-me de outro modo aos embaraços da minha posição material. Agora, só tenho necessidade de preces: orai principalmente para que me veja livre estes hórridos companheiros que aqui estão junto de mim obsediando-me com gritos, sorrisos, e infernais motejos. Eles chamam-me covarde, e, com razão, porque é covardia renunciar à vida. É a quarta vez que sucumbo a essa provação, não obstante a formal promessa de não falir... Fatalidade?... Ah! Orai! Que suplício o meu! Quanto sou desgraçado! Orando, fazeis por mim mais que por vós pude fazer quando na Terra; mas a prova, ante a qual fracassei tantas vezes, aí está retraçada indelével diante de mim! É preciso tenta-la novamente em dado tempo... Terei forças? Ah! Recomeçar a vida tantas vezes: lutar por tanto tempo para sucumbir aos acontecimentos, apesar de tudo é desesperador mesmo aqui! Eis porque tenho carência de força. Dizem que podemos obtê-la pela prece... Orai por mim que eu quero orar também...

 “Este caso particular de suicídio, posto que realizado em circunstâncias vulgares, apresenta uma feição especial. Ele nos mostra um espírito sucumbindo muitas vezes à provança que se renova a cada existência, e que se renovará até que tenha forças até que tenha forças para resistir-lhe.

“Assim se confirma o fato de não haver proveito no sofrimento, sempre que deixemos de atingir o fim da encarnação, sendo preciso recomeça-lo até que saiamos vitoriosos da campanha”.

“Ao espírito de M. Félicien. – Ouvi, eu vo-lo peço, ouvi e meditai sobre as minhas palavras. O que denominais fatalidade é apenas a vossa fraqueza, pois se a fatalidade existisse, o homem deixaria de ser responsável pelos seus atos. O homem é sempre livre, e nessa liberdade está o seu maior e mais belo privilégio. Deus não quis fazer dele o seu autômato obediente e cego, e se essa liberdade o torna falível, também o torna perfectível, sem o que somente pela perfeição poderá atingir a suprema felicidade. O orgulho somente pode atingir a suprema felicidade. O orgulho somente pode levar o homem a atribuir ao destino as suas infelicidades terrenas, quando a verdade é que tais felicidades terrenas promanam da sua própria incúria. Tendes disso um exemplo bem patente, na vossa última encarnação, pois tínheis tudo que se fazia preciso à felicidade humana, na Terra: o espírito, talento, fortuna, merecida consideração; nada de vícios ruinosos, mas, ao contrário, apreciáveis qualidades... Como, no entanto, ficou tão comprometida a vossa posição? Unicamente pela vossa imprevidência. Haveis de convir que, agindo com mais prudência, contentando-vos com o muito que já vos coubera, antes que procurando aumentá-lo sem necessidade, a ruína não sobreviria. Não havia nisso nenhuma fatalidade, uma vez que podíeis ter evitado um tal sucesso. A vossa provação consistia num encadeamento de circunstâncias que vos deveriam não a necessidade, mas a tentação do suicídio; desgraçadamente, apesar do vosso talento e instrução, não soubestes dominar essas circunstâncias e acarretais agora com as consequências da vossa fraqueza.

“Essa prova, tal como pressentis com razão, deve renovar-se ainda; na vossa próxima encarnação tereis de enfrentar acontecimentos que sugerirão a ideia do suicídio, e sempre assim acontecerá até que de todo tenhais triunfado.

“Longe de acusar a sorte, que é a vossa própria obra, admirai a bondade de Deus, que, em vez de condenar irremissivelmente pela primeira falta, oferece sempre os meios de repará-la.

“Assim sofrereis, não eternamente, mas por tanto tempo quanto reincidires no erro. De vós depende, no estado espiritual, tomar a resolução bastante enérgica de manifestar a Deus um sincero arrependimento, solicitando instantemente o apoio dos bons espíritos.

Voltareis então à Terra blindado na resistência a todas as tentações. Uma vez alcançada essa vitória, caminhareis na felicidade com mais rapidez, visto que sob outros aspectos o vosso progresso é já considerável. Como vedes, há ainda um passo a franquear, para o qual vos auxiliaremos se com as nossas preces. Estas só serão improfícuas se nos não secundardes com os vossos esforços.   

- R. – Oh! Obrigado! Oh! Obrigado por tão boas exortações. Delas tenho tanto maior necessidade, quanto sou mais desgraçado do que demonstrava. Vou aproveitá-las, garanto, no preparo da próxima encarnação, durante a qual farei todo o possível por não sucumbir. Já me custa suportar o meio ignóbil do meu exílio.”                                         Félicien

 Como acabamos de ver, esse espírito teve que voltar à Terra quatro vezes, nas mesmas condições, para passar pela prova da riqueza, transformada bruscamente em miséria.

A provação é tão necessária para a alma como o alimento para o sustento do corpo. É ela que lhe proporciona a aquisição dos predicados morais que nos aproximam de Deus. Ela facilita a conquista da paciência, da bondade em todas as modalidades, até culminar no dom da serenidade, que é a forma impassível com que a alma recebe tudo, seja bom ou mau, como o rochedo que, aos embates das ondas mansas ou bravias, mais se limpa e melhor reflete os raios do sol.

A serenidade é apanágio dos espíritos aureolados pela conquista da virtude. Sem as provações, como poderia a alma demonstrar a fortaleza da sua fé, e estar no caminho que conduz à perfeição?

Há homens que se mostram dóceis, educados, afáveis, morigerados até o momento em que são feridos nos seus interesses, na sua honra, no seu amor próprio, daí em diante transformam-se em animais e agem mais pelo instinto que pela razão. São feras despertadas para a luta sem escrúpulos. Há pessoas que são sérias enquanto não sentem pairar sobre si a nuvem negra da tentação, e por essa razão, podemos dizer que há muita gente honesta, mas poucas virtuosas.

Sem tentação, especialmente nos dias amargurados em que a adversidade anda de braço dado conosco, não há virtude, mas apenas honestidade, o que já é uma virtude mas apenas honestidade, o que já é uma grande coisa, pois a honestidade purifica e a virtude santifica.

De todas as provas as mais difíceis são a riqueza e a elevada posição social - a autoridade. Foi por esse motivo que o nosso Amado Jesus disse que era mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus.

O rico e o homem de elevada posição social inebriam-se com as suas situações entre os demais, e sentem vertigem, julgam-se privilegiados, predestinados dos céus.

A miséria, com todo o seu séquito de dores, vexames, fome e sede, é muito mais fácil de vencer.

Aqueles que se submetem a tais provas difíceis precisam ter qualidades excepcionais para vencerem galhardamente. Felizmente, são numerosas as pessoas que chegam ao túmulo como vencedoras. Pedro de Alcântara, o nosso Imperador, foi um desses homens vencedores no plano espiritual e vencidos para o mundo terreno.

Não menos dolorosas são as provações que suportamos dentro do recinto do lar, a ingratidão daqueles por quem nos devotamos durante anos, são os desregramentos dos filhos apesar da boa orientação que receberam. São as feridas causadas pela calúnia, pela infâmia daqueles a quem concedemos a honra de sentar à nossa mesa para comer dos mesmos elementos. Eles lembram esses bubões sifilíticas que corroem corpos e quando saram deixam cicatrizes profundas e negras que nos acompanham à sepultura. É por isso que devemos agradecer a Deus a Misericórdia da Reencarnação, porque na mesma existência é difícil e penosa, e porque não dizer hipócrita – a reconciliação e volta da confiança anterior.

Quase que podemos dizer que é sumamente difícil e, para alguns, impossível, porque precisam de várias reencarnações para amortecerem os impulsos de vingança e estabelecer uma amizade.

Os ricos devem considerar-se como meros depositários de Deus e, assim, preparam-se para a final prestação de contas.

A riqueza não foi facultada para servir de instrumento de orgulho e vaidade, para simples caprichos individuais, mas para ser empregada em benefício da humanidade.

A riqueza não pode ser, como querem muitos, um mal social, pois no mundo há mais perdulários e pródigos, do que sensatos e previdentes, mais apáticos que esforçados, mais ambiciosos que idealistas, e assim, é natural que haja o acúmulo de bens nas mãos de alguém que saiba administrar bem, do que repartida e, portanto, desvalorizada. O mal não está na sua existência, mas no mau uso. A célebre anedota do milionário com o comunista ´´e bem cabível e como talvez o leitor a desconheça, vamos narrá-la.

Um magnata passava por uma rua escura de Paris quando foi assaltado por um homem que lhe encostou um revólver no peito.

- C. – Dê-me a parte que me toca na sua riqueza; não negue, pois conheço muito bem o senhor!

- M. Perfeitamente. Sabe a quanto monta a minha riqueza?

- C. – Quarenta milhões.

- M. – Quantos habitantes tem a França?

- C. – Quarenta milhões.

- M. Tome, pois, um franco – disse-lhe o magnata, metendo-lhe na mão e continuando o seu caminho. O assaltante ficou perplexo.

A provação não deixa de ser uma situação difícil e às vezes cheia de profundas amarguras, pelas terríveis tentações do mundo. Imaginemos o que não há de sofrer uma linda e honesta mulher, maltratada por um marido ébrio e brutal, a resistir às tentações de alguém que a estima e a pode tornar feliz?

Que provação horrível será a do homem probo, cheio de dificuldades financeiras, vendo a esposa doente, os filhos curtindo fome, tendo sob a sua guarda haveres de outrem?      A posição de mando é uma espada de dois gumes. É uma provação que acarreta responsabilidades incalculáveis pelos terríveis efeitos que causam aos subordinados, a falta de justiça, de estímulo, de reconhecimento do mérito de cada um.

A humanidade não tem progredido mais depressa porque muitos dos condutores de povos e reformadores têm falido no meio do caminho, sobrepondo os interesses pessoais aos da coletividade. Mas se nós sofremos, os gemidos de todos são abafados pelos clamores dessa alma só, causadora de todos os males alheios. Vós tendes a direção dos vossos irmãos, meditai muito sobre os vossos atos, pois muitos daqueles que mais humilhais, serão talvez várias vezes superiores a vós no mundo espiritual. E lá nesse mundo, do qual não quereis ter conhecimento, ficareis na situação de Lázaro, citado na famosa parábola de Jesus (Lucas, 16 – vv. 19/31)

Vós que tendes uma parcela de autoridade, lembrai-vos que amanhã podereis estar entre os últimos, pois Jesus advertiu: Aquele que quiser ser o primeiro no reino de Deus, seja o último na Terra. (Marcos, 9 – 33/37).

A posição social, a riqueza e a beleza pertencem ao mundo e desse modo aqui ficam, são efêmeras, na presente existência podemos perde-los e ficar reduzidos a destroços.

Pela provação é que o espírito prepara a sua redenção.

Redenção é a última etapa terrena. É a vida já desprendida de qualquer mundanismo. É fácil reconhecermos as pessoas emancipadas do erro. São essas meigas criaturas que suportam infâmias com sorrisos, empurrões com desculpas amáveis, que silenciam ante os insultos e querem ser antes vítimas que algozes, que são incapazes de se prevalecer na sua situação para humilhar qualquer pessoa, ainda que seja o seu pior inimigo.

Emancipados do mal são todas as criaturas que têm o ideal do bem e do belo, e procuram induzir aqueles que as cercam a se conduzirem sempre com inteireza de caráter. São ainda essas pessoas fascinantes que irradiam simpatia por todos os lados, seduzem pela afabilidade, pela naturalidade das suas boas maneiras. São essas pessoas que impõem respeito e atraem pela bondade, e até mesmo justiça das mesmas e não têm coragem de qualquer represália.

Nessa altura, já estão em condições de ir para o espaço, e muito antes do desenlace pressentem o momento da partida. Preparam os amigos e parentes, com aquela fé e confiança que só a nobreza espiritual pode sentir.

Essas criaturas sorriem com os venturosos e choram com os desgraçados. Pertencem a todas as religiões, porque respeitam a sua e toleram amavelmente as dos outros.

Felizes, muito felizes, serão aqueles que, como Nelson, o grande almirante inglês, podem dizer à aproximação da morte: “- Agradeço ao Senhor por ter cumprido o meu dever”. 

A hora da partida para o espaço é muito mais grave e solene que a do nascimento. Esta é a da chegada de um espírito para a luta do qual depende todo o seu esforço e amparo dos que o cercam para vencer. Aquela é a da volta do vencido ou vencedor. Assim, conforme o caso, será motivo de júbilo ou mágoa dos que ficaram e principalmente daquele que se foi. Quando a humanidade compreender melhor os desígnios do Senhor, talvez haja choro quando uma criança nascer e alegrias quando desencanarem os vencedores.

Vida gloriosa na Terra é aquela que a Providência Divina concede aos espíritos eleitos do Senhor, para ensinarem aos homens como alcançar a perfeição. São as Missões.

Há missões diversas. Há os missionários da Ciência e os do Bem. Uns fazem a humanidade caminhar pela estrada do progresso, iluminando-lhe a inteligência; outro, enternecendo-lhe os corações.  Eles nascem por toda a parte. São os gênios de que falamos no capítulo: “A Hereditariedade em Face da Reencarnação”. Deus prodigaliza a todos os países do mundo a oportunidade de servirem de berço aos gênios para que os homens vejam que não há privilegiados, predestinados e réprobos. Eles são superiores a todas as convenções mundanas, e por isso consideram a sua pátria o Universo. Em todas as partes rendem-lhe homenagens.

Se o redimido se evola em direção dos paramos celestes, o missionário regressa dele com o esplendor da sua individualidade, com as forças do Bem hauridas nessas regiões do Belo, do Saber e do Amor, para espalhar na Terra a semeadura que deve produzir o alimento das almas enfermas e aflitas.

Os missionários também estão sujeitos à tentação por parte dos espíritos das trevas. A tentação de Jesus, de que nos falam os Evangelistas, é bem o símbolo da ameaça que paira até sobre aqueles que já conquistaram elevado grau de pureza espiritual.

Allan Kardec, o missionário da Nova Revelação, em “Obras Póstumas” faz referência a isto, apresentando a resposta dada pelo seu guia espiritual:

“... Não, mas a missão dos reformadores é cheia de perigos e tropeços. A tua é rude, previne-te, porque tens de resolver e formar o mundo inteiro. Não suponhas que basta publicar um livro, dois, dez e ficar tranquilo em casa; não, será preciso expor a tua pessoa. Levantarás contra ti ódios terríveis; inimigos conjurarão a tua perda; serás alvo da maledicência, da calúnia, da traição, até dos que te parecem mais dedicados; as tuas   melhore instruções serão desprezadas e adulteradas; mais de uma vez vergarás ao peso da fadiga; em uma palavra, haverá uma luta quase constante, e o sacrifício do teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde, e até da tua vida; porque, sem isto, viverias mais tempo. Pois bem! Nem um passo para trás deves dar quando, em vez de um caminho juncado de flores, encontrares, sob os teus pés, urzes, aguas pedras e venenosas serpentes. Para tais missões não basta a inteligência; é preciso, principalmente, para agradar a Deus, humildade, modéstia e desinteresse, porque Ele abate os orgulhosos, os presunçosos e ambiciosos”.

“Para lutar contra os homens é preciso coragem, perseverança e inabalável firmeza; igualmente é preciso prudência, jeito, para levar as coisas de modo a não comprometer os sucessos por medida ou palavras intempestivas; é preciso, finalmente, dedicação e disposição para o sacrifício.

“Já vês que a tua missão é subordinada a condições que só de ti dependem.”

                                               Espírito de Verdade

Ninguém deve, pois, revoltar-se pela sua situação, nem se deixar abater pelo desencanto. Deve resignar-se e lutar. Resignação não é, como pensam algumas pessoas, uma conformação abúlica, com abandono de todo propósito de livrar-se da adversidade. Resignação é saber suportar com paciência as dores do mundo por necessárias ao nosso progresso, lutar com firmeza e vencer, fazendo o dia de hoje melhor do que o de ontem, e o de amanhã melhor do que o de hoje.

Analisemos a nossa vida, consultemos a nossa consciência para conhecermos as causas dos nossos sofrimentos. Nós erramos muito por pensamentos, por palavras e por obras, e, assim, recebemos em retorno aquilo que semeamos, e, se de tudo não encontrarmos uma causa presente ou remota nesta vida, então é possível estar nas anteriores existências.

Deus, infinitamente Bom, Justo e Misericordioso, não poderia fazer-nos sofrer inocentemente, apenas para nos lembrar nos dele.

Disse Jesus: “Se, pois, sendo maus como sois, sabeis dar boas dádivas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos Céus, dará verdadeiros bens aos que lhos pedirem.” (Mateus, cap. VII, vv. 7/11) Não há sofrimento que não tenha a sua razão de ser.

- A imperfeição dos nossos sentimentos e a mácula do interesse e resquícios do instinto sobre o amor ideal e nobre, levam pessoas aferradas à Terra a terem certa repulsa pela Lei da Reencarnação, por causa dos laços afetivos da família.

Os casados ciumentos pensam na perda do objeto dos seus amores, as mães egoisticamente só se lembram de seus próprios filhos, e outros no amor de interesse material, quando essa Lei abençoada esclarece perfeitamente o assunto. Ela fortalece e amplia o verdadeiro amor que deve reinar na Terra.

Os espíritos reúnem-se no espaço formando famílias homogêneas pelos sentimentos idênticos e, assim, vêm à Terra encarnando corpos diferentes para a conquista da perfeição. O corpo não passa de uma roupagem do espírito e o sexo uma condição material para conservação e propagação da espécie humana. Os espíritos superiores colocam o amor sublime acima daquele que sentimos na Terra, modificado pela influência da carne. Para os espíritos já evoluídos não importa que aquela que foi esposa numa existência seja filha ou irmã em outras, porque o amor continua e é o mesmo. Algumas vezes, enquanto os mais adiantados permanecem no espaço, os outros voltam logo a este mundo, sem que essa aparente separação seja um entrave para recíprocas influências.

A Lei da Reencarnação não somente solidifica o amor das famílias como se estende aos outros espíritos estranhos, pois todos nós somos filhos de Deus e temos que nos unir pelos laços da Fraternidade Universal.

- Por sabermos que os sofrimentos pungentes, as deformações, enfermidades repugnantes, as obsessões, a embriaguez, a fascinação pelo do jogo, são provações ou expiações, não se infira que não devemos amenizar as dores dos infelizes, na persuasão de que vamos perturbar a Justiça e não são eles que vão modifica-las. Esse ´pensamento é anticristão e puro egoísmo. Quem conhece os desígnios da onipotência Divina? Quem poderá saber como e quando terá término uma pena imposta? E quem pode saber se não está a nosso cargo justamente a tarefa de servir de instrumento da Bondade de Deus para assisti-los na desgraça e possivelmente curá-los? Quem sabe se num desses náufragos da felicidade não se escondem alguns dos nossos mais respeitados antepassados?

Quantos já passaram horas de angústia e desespero, lembram-se sempre de alguém que, providencialmente, os socorreu, e isso justamente na ocasião em que a paciência parecia transbordar a sua taça de esperança?

Essas considerações são para aqueles que ainda não adotaram o Espiritismo, pois os nossos confrades, compreendendo bem a nossa Doutrina, tudo fazem para a solidariedade reinar na Terra, e esta só será efetiva quando os homens virem uns nos outros, não os semelhantes, mas os irmãos, filhos do mesmo pai – DEUS.

- Quando um engenheiro assina um contrato, comprometendo-se a construir uma estrada, ele já tem o seu plano delineado. Plata, orçamento, operários, possíveis imprevistos e outros fatores que a experiência aponta, ele levou em consideração, para o início da obra. Contudo, como “o homem põe e Deus dispõe”, segundo um velho provérbio, surgem inesperados acontecimentos, chuvas torrenciais e prolongadas, um surto epidêmico entre os trabalhadores, falta de material por deficiência de transporte, um veio d’água ignorado, tudo isso o deixa meio confuso nos primeiros momentos; porém, se ele está afeito a esses percalços do ofício, fácil lhe é remover um a um todos os obstáculos do ofício, fácil lhe é remover um a um todos os obstáculos.

Assim acontece ao espírito quando vem à Terra. O seu plano foi estudado e delineado, mais ainda, firmado fortemente na memória interior. Pátria, família, constituição física, profissão, tudo, enfim, para ele poder principiar a sua nova existência, foi tomado em consideração, mas... como no caso do engenheiro, surgem os imprevistos, e como ele tem o seu livre arbítrio para conduzir-se, claro está que, na resolução dos problemas inesperados, atraídos na maior parte das vezes por ele mesmo, é que ele revela o seu verdadeiro valor.  

Não há, portanto, inexorável determinismo, a não ser para as dolorosas expiações, durante as quais a liberdade do espírito está cerceada pelo corpo disforme e deficiente nas funções orgânicas.

O espírito quando baixa à Terra tem tudo mais ou menos traçado, podendo ele no decurso da vida agravar, melhorar, modificar a sua própria situação. Suponhamos que um homem segue despreocupado por uma rua, quando em sua frente aparece um amigo e diz-lhe: “Meu caro, não sigas por aí; lá na esquina duas pessoas, em pontos diferentes, aguardam a tua passagem para assassinar-te.”

Ele, desdenhando do conselho, continua, é alvejado e sucumbe. Não teria havido aí uma imprudência? Havia chegado a sua hora?

Vejamos agora o caso inverso. Ele ouve satisfeito o conselho. Desvia-se por outra rua, na qual, repentinamente, um indivíduo agride a outro, atira, e ele é vitimado. Neste caso, sim, a sua hora já havia chegado. Ele ouviu submisso a voz da prudência, mas a fatalidade, o determinismo, o aguardava.

Não passa esta digressão de uma história, uma hipótese, mas passemos da imaginação à realidade, apresentando um fato verídico, deixando de mencionar o nome, em consideração e respeito à sua memória.

Um médium de extraordinárias faculdades, dessas que raramente aparecem, desencarnou no meio de torturas cruéis e prolongadas como soem ser causadas por queimaduras. O seu corpo era uma chaga e a sua agonia durou um dia inteiro.

Todos estarão prontos para dizer: foi expiação, tinha de acontecer, estava escrito, mereceu. Sim, tudo isso é verdade, mas em parte.

Segundo revelação do próprio espírito e seu anjo de guarda, a história do seu passado foi escrita com sangue de várias vítimas, muitas das quais tiveram seus corpos em cima de fogueiras, que, num requinte de malvadez, eram alimentados a fogo lento.

Após um período incalculável de anos de sofrimentos no espaço e expiações horríveis na Terra, esse espírito, acabrunhado, curvado ao peso de uma carga enorme de responsabilidades, implorou para libertar-se mais depressa dos seus tormentos, uma vida honesta, de renúncia e reparação. Apavorava-lhe a ideia de morrer também pelo fogo. Suplicou, não uma missão, porque esse encargo só é concedido aos eleitos do Senhor, mas uma tarefa árdua, penosa, que lhe apressasse o resgate da dívida, de modo diverso.

Ele foi previamente advertido dos perigos. A carga seria demasiada; contudo ele insistiu.  E se não vencer? Perguntou-lhe o encarregado de zelar pela Justiça Divina. Nesse caso... cumpra-se a lei de Talião.

Reencarnou. No tempo determinado revelou-se lhe a faculdade excepcional, deslumbrante, rara. Com o início do desempenho da sua tarefa, o Espiritismo tomou um impulso desusado. Produziu-se uma verdadeira revolução social. Os fenômenos assombravam e confundiam os mais céticos. Os ateus, encanecidos na negação do Grande Arquiteto do Universo, renderam-se à evidência dos fatos.

A repercussão dos fatos transpôs fronteiras e uma nova era parecia anunciar-se para dias próximos.

Mas... ao lado disso estava o reverso da medalha. Os inimigos da causa, quais marimbondos assanhados com pedradas no cortiço, atiravam-se furiosos, com ferrões em riste, e nada pouparam, nada respeitaram. Arrastaram-no pela rua da amargura. Não teve mais um minuto de sossego.

Esses corifeus da ciência e fariseus hodiernos, na suposta defesa do bem e religião da humanidade, sepulcros caiados de branco, habituados a viver nos charcos, escolheram a lama mais pútrida para atirarem à sua honra. O ridículo serviu apenas como arma secundária. A infâmia, a calúnia, a injúria, tudo foi jogado sobre ele, numa ânsia louca de abafar a verdade com o manto dos seus sentimentos miseráveis.

E esse médium, apesar do conforto moral daqueles que o cercavam, que o exortavam á resistência, começou a vacilar. Vergou não como o caniço, para voltar à posição natural após a ventania. Não conseguiu afrontar a tempestade como a maravilhosa castanheira amazônica, mas vergou como a palmeira a quebrar-se. A avalanche de insultos atingiu o nível da sua paciência. Deixou de trabalhar, e no seu cérebro, com sutileza, o espírito das trevas inoculou-lhe o veneno de um pensamento tenebroso. Esse pensamento guardaremos conosco. E quando ele pareceu tomar forma, corporificar-se para expandir-se, o nosso próprio médium, acidentalmente, inexplicavelmente, foi vítima de queimaduras gravíssimas, por quase todo o corpo. Faliu. Lamentavelmente faliu. Morreu pelo fogo, quem pelo fogo fez morrer...

Que lição proveitosa poderemos tirar, especialmente os médiuns, desta história verdadeira. Quantos sucumbem porque suplicaram uma carga além do que lhes permitiam as suas forças?

Médiuns, irmãos nossos, lembrai-vos que estais no desempenho de uma penosa e abençoada tarefa, imposta no desempenho de uma penosa e abençoada tarefa, imposta ou pedida por vós mesmos para a vossa purificação. Não abandoneis o arado. Não fecheis as vossas portas àqueles que batem em busca da caridade, e nem cerrai os ouvidos àqueles que vos imploram. O vosso compromisso é grande para com o Senhor. Sois os trabalhadores da última hora e Deus vos assalariou. Cuidado, muito cuidado, não vos desvieis do caminho reto do dever!

Se na Terra o modo de tratar os criminosos evoluiu tanto, ao ponto de hoje dar-se liberdade condicional aos sentimentos de boa conduta, porque seria que Deus, infinitamente Bom e Misericordioso, não poderia modificar uma expiação, desde que a alma se portasse à altura de merecer uma indulgência?

Para consolar alguns pois que choram pelos filhos queridos, dizemos sempre: “É preferível chorar a morte que a desgraça.” Quantas vezes nessa frase não expressamos uma grande verdade, se tivermos em vista que os pais foram merecedores de uma modificação de expiação por causa do procedimento honesto e virtuoso?

A velhice é o crepúsculo da vida terrena. Esse período da existência, ou é coroado pela alvura dos cabelos brancos, a refletirem a glória espiritual que aguarda o homem virtuoso, ou é estigmatizado pela decrepitude como recompensa natural das loucuras da mocidade, nesta ou nas passadas encarnações.

O primeiro, no sono, esse momento de liberdade espiritual, antegoza a festiva recepção no espaço, enquanto o segundo, vê a sombra de ridículo e piedade, que envolve o seu corpo, tão gasto pelo tempo e pelos desvarios.

O primeiro, confiante no futuro, sorri à aproximação da hora da partida, e avisa com satisfação seus parentes exortando-os a terem fé na vida de além túmulo; o segundo, amedrontado da punição que o aguarda, retarda a sua viagem, apesar de sentir a ânsia com que aqueles que a cercam a desejam.

É a hora também da prestação de conta dos missionários falidos, dos Napoleão, Lutero, Calvino e outros, que, empolgados pela glória, pelo orgulho, pela vaidade, pela fama, também vergaram e quebraram-se diante dos tormentos mundanos.

Precisamos meditar seriamente sobre estes fatos porque deles nenhum homem escapa. Preparemo-nos para a grande viagem por que ela é certa, mas ninguém sabe a hora. O nosso descaso por este assunto é lamentável. Neste mundo de miséria, para qualquer parte que desejamos ir, cuidamos de tudo, condução, roupa, passadio, companhias, tudo enfim, entretanto, para a maior e mais certa de todas, apenas a despreocupação, e depois... quando já estamos do outro lado, ficamos em desespero a clamar pelos que aqui ficaram, e suplicamos nas mesmas condições que o rico que se banqueteava, enquanto Lázaro permanecia faminto à sai porta (Lucas, 16. Vv. 19-31).        

É preciso trabalharmos pela redenção do mundo. Quando jovens, sonhamos com riquezas e posições para que a velhice nos seja venturosa e, para isso, agimos para que a velhice nos seja venturosa e, para isso, agimos com denodo, trabalhamos com afinco, preparando o futuro. Pois bem, façamos isso, não somente em nosso benefício mas em benefício de quantos nos cercam, porque ao voltarmos a este mundo o ambiente estará sensivelmente melhor, fraternizado, porque maior será o número de espíritos purificados.

Hoje, gozamos de uma liberdade que não tiveram os nossos antepassados, temos o conforto que eles nunca sonharam, porém tudo que possuímos não é produto de uma geração única.

Para haver liberdade de consciência que o mundo goza hoje, quantos deram a sua vida em holocausto, morrendo nas fogueiras acesas no meio da rua pelo fanatismo da época? Quantos sofreram torturas, privações indescritíveis, simplesmente por terem reclamado para o seu tempo aquilo que temos em nossos dias? Assim, pois, lembremo-nos do passado, da história desses homens e mulheres que se sacrificaram em nosso benefício trabalhando pelo seu próprio, e por nossa vez não sejamos pusilânimes diante do respeito humano, covardes diante da montanha de obstáculos, egoístas desprezíveis, deixando de trabalhar pelos nossos pósteros. Da forma como abençoamos e glorificamos os seus nomes, seremos também recordados.

Glória aos benfeitores da humanidade!       


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