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domingo, 19 de setembro de 2021

AB IMO PECTORE

 


AB IMO PECTORE (com profundo sentimento)

 por M. Quintão

Reformador (FEB) 1º Março 1918

             Se o valor da Doutrina espírita estivesse circunscrito à sua fenomenologia (tão velha quanto o mundo, diga-se de passagem) como querem alguns adeptos, tudo ao presente estaria feito ou pouco restaria fazer, uma vez que os fatos aí estão ao alcance do primeiro observador de boa vontade e, o que mais é para todos os paladares e capacidades.

            Nem mesmo para ser espiritista importaria estudar as obras fundamentais, porquanto a história de todas as religiões, a própria mitologia neles se radicam e os evidenciam à saciedade.

A imortalidade da alma, a possibilidade de sua comunicação “post-mortem” e a própria teoria da reencarnação, não constituem novidades para os estudiosos de todos os tempos.

E isso se dá nas camadas esclarecidas cuja cultura literária ou filosófica vai um pouco além de mero ornato social em revérberos de pura ficção; nas mais rústicas ou menos lavradas predominam os laivos da origem comum, de mistura à fantasia e à superstição, que o tempo e a educação modificam, colorem, mas não extinguem.

A que propósito viria pois, a doutrina espírita reivindicar a diretriz das consciências, prometer-lhes mais sólido pábulo (alarde), se de fato não trouxesse no conjunto de suas demonstrações positivas algo mais que essas velharias de todos os credos?

Decididamente os que assim pretendem não procuram abstrair do problema esse prisma pessoal tão coercitivo à elucidação da verdade, ainda mais quando ela se faz para gerações inteiras.

Não querem seja o espiritismo uma religião. E daí? Encerrados nesse preceito, ou melhor, nesse preconceito, fazendo simples jogo de palavras, esquecem-se que as coisas são o que são não o que desejamos que elas sejam ou nos pareçam ser.

No caso vertente, da nossa doutrina, precisamos atender a que ela gira em torno de verdades capitais, que são a estrutura integral de todo o sistema filosófico. Estas verdades são: Deus - princípio imanente, causa originária; Espirito - criatura inteligente, eternamente perfectível; - Matéria - cabedal do espírito, eterna como ele e variável ao infinito. Ora, em boa tese, ninguém dirá não haver aí o essencial de todas as religiões como de todas as ciências e com perfeita correlação de causas e efeitos.

Procurar Deus no templo do universo, perquirir as suas leis de sabedoria, ama-lo nas suas obras é tão religiosamente religioso como busca-lo através de fórmulas e símbolos, que não deixam de ter o seu valor relativo, concernentes ao itinerário gradativo da inteligência e da razão humana.

Emmanuel Vauchez imaginou na sua bela obra “La Terre” uma religião sem Deus, calcada nos fatos da Nova Revelação, mas a verdade é que Deus não deixaria de existir por não pensarmos na sua existência, seja qual for o sincretismo que nos obrigue o raciocínio.

Depois, convenhamos os próprios espíritos desencanados e da mais alta envergadura moral, têm vindo falar da existência real desse Deus, em que pese a incapacidade dos nossos sentidos para defini-lo; portanto, se somos coerentes, aceitando a manifestação dos espíritos, devemos aceitar os seus ensinamentos, tendentes todos ao princípio da religiosidade bem entendida, isto é, baseada num amor ativo que não em liturgias mortas, em dogmas abstrusos, já agora incompatíveis com o senso comum.  

Tocamos aqui no ponto principal, que é provar o ascendente moral sobre o especulativo, quando este não tenha outro móvel que o da constatação de um fenômeno naturalíssimo e, porque não dizê-lo? – já agora corriqueiro pela sua frequência em todos os meios sociais.

Ver espíritos, confabular com espíritos, nada adianta se não estivermos moralmente preparados para tirar desses fatos as premissas dele decorrentes para o progresso da humanidade, progresso que, seja dito, há de se fazer partindo do simples para o complexo, isto é, melhorando o indivíduo para melhorar a sociedade.

Mas melhorar o indivíduo não é sequestra-lo da sociedade, isola-lo ou sequer desloca-lo, porque a ninguém fora dado frustrar a grande lei da prova que, coletivamente se afirma na multiplicidade dos seus aspectos, na variedade das condições sociais, gerando o esforço, o trabalho, o mérito de cada qual.

Não vem, pois o espiritismo melhorar a posição terrena dos seus prosélitos, mas melhorá-los a eles na posição que ocupam por força das provas que escolheram e da sua própria capacidade.   

Eis porque, a ciência espírita como tal exclusivamente considerada, jamais congraçaria os homens, dando-lhes desde já essa paz, que os mensageiros de Jesus tão bem simbolizam na promessa do seu reinado.

Mas, o que a ciência não faria jamais pode fazê-lo o amor, esse humaníssimo amor de que são suscetíveis todos os homens, desde o humilde e probo operário ao mais elevado burocrata.

E é por assim compreendermos, que sobrepomos à ciência impassível dos fatos a religião sublime do amor.

Aliás disse-o aquele sobre cuja autoridade não pendem controvérsias  - “amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a vós mesmos”.

            Toda a lei e os profetas aí estão contidas nestas palavras, ditas não para uma confraria nem para uma geração, mas para a humanidade inteira no seu ascenso eterno para Deus.

“Qui habet aures audiendi audiat ...” (Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.)

 

1-3-916.

M. QUINTÃO.


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