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sábado, 5 de setembro de 2020

Materialismo sacerdotal e religioso


Materialismo Sacerdotal

A Redação
Reformador (FEB) 1º Setembro 1917

            Ao iniciar este artigo, lembramos um fato ocorrido durante a era dos mártires,  relatado por Lactâncio, antigo sacerdote de Júpiter convertido ao cristianismo e seu eloquente apologista.

            Quando o prefeito do pretório em cumprimento de ordem do imperador Diocleciano. foi demolir o principal templo cristão da Nicomedia, na Bitinia não encontrou, porque não havia, nem podia haver, objeto algum material destinado ao culto, a exceção da escritura sagrada.

            A simplicidade do culto cristão, consoante as lições de Jesus e como fora praticado na era apostólica, fazia violento contraste com as magnificências, os esplendores, as pompas, os ritos e as cerimônias do culto pagão.

            Não permitiram os homens a conservação do puro manancial primitivo. Turvou-se a límpida corrente. Se o tempo é edaz, mais destruidor ainda é o homem – tempus edax, homo edacior. (‘O tempo é cego, o homem é estúpido‘ frase de Victor Hugo)

            Em fins do terceiro século começaram os cristãos a usar; timidamente, de emblemas religiosos, que de suas casas passaram para as igrejas.

            Seriam inocentes figuras alegóricas para representar sentimentos religiosos? Não seriam antes ensaios de idolatria?

            Toda gente sabe o que houve depois. Já dissemos algo a respeito em artigos anteriores. A nova religião, convertida em sacerdotal, absorveu o paganismo com os seus vícios, erros e superstições. Os seus dirigentes hierarquizados e constituídos em castas não se limitaram a adotar fórmulas, símbolos e emblemas para atrair e agradar as multidões amantes de espetáculos teatrais. Foram além.

            Coisas materiais, como a água, o óleo, o vinho, o pão, foram, mediante palavras sacramentais, aplicados aqueles e ingeridos como coisas essenciais, sob a sanção de penas eternas, para a adoração de Deus, que, sendo Espírito, em espírito e verdade, deve ser adorado.
             
            Afastando-se, a olhos vistos, das normas evangélicas, a igreja foi aumentando o arsenal devocionário, que constituiu uma vasta exploração mercantil. Não precisamos mencionar as indulgencias, os escapulários ou bentinhos, os rosários, as palmas, os cordões, as fitas, as velas, os círios, as medalhas, etc.

            Supomos que alguns confrades não conhecem o fetiche papal denominado agnus dei.

            No primeiro ano do pontificado, sábado in albis, o papal procede a benzedura, com grande solenidade, de uma figurinha de cera que é distribuída entre os fiéis, como objeto de máxima devoção.

            De sete em sete anos o mesmo papa reproduz o ato. Os monges da ordem de Citeaux gozam do excelso privilégio da fabricação do fetiche papalino. Se as feiticeiras da idade média fabricavam figurinhas de cera para crivando-as de agulhas, perseguir os desafetos - e por essa operação muitas foram queimadas - está claro que as figurinhas do papa só podem produzir verdadeiros milagres, que já foram cantados nos versos de Andrea Pari, enviados, com exemplares de agnus dei, ao imperador João Paleólogo pelo papa Urbano V. (1)
           
            No Evangelho de S. João não há esta palavra de N. S. Jesus Cristo:

            O espírito é que vivifica: a carne para nada aproveita - Spiritus est qui vivificat; caro non prodest quid-quan” (VI, 64).

            (1) Abbé André – Cours alphabétique et méthodique de droit canon, vº Agnus dei.

            Os teólogos e liturgistas ensinam, ao contrário, que sendo o homem composto, substancialmente, de corpo e espirito, o corpo destinado a ressurgir no juízo final, deve adorar a Deus, como o espírito.  

            “Eis aí porque”, dizíamos em outro artigo: “as religiões sacerdotais, que acolhem e ensinam essas monstruosidades, exigidas em dogmas, desprezaram e sepultaram os Evangelhos, afastaram-se da espiritualidade, gravitam para a matéria, para a lama e tornaram-se fatores positivos e decisivos, grandes fatores da incredulidade moderna, da irreligião contemporânea.” 

           Voltemos ao Evangelho.

  Materialismo Religioso
A Redação
Reformador (FEB) 16 Setembro 1917

            Adotando uma cautelosa medida de prudência, nos moldes da política eclesiástica, o concilio de Trento recomendou aos pregadores, encarregados de doutrinar os fiéis, que evitassem dissertações sobre os dogmas. Os que se aventurassem em explicações a respeito entrariam em terreno escabroso onde Satã poderia armar ocultas ciladas.

            Para que despertar a atenção dos crentes e aguçar lhes o desejo de pesquisa? O raciocínio é inimigo perigoso e pernicioso.

            Instituindo a missa para que a velha concepção do sacrifício vinda do judaísmo e do paganismo, ficasse perpetuada e o sacerdócio mantivesse o privilégio excelso de oferece-lo à Divindade, envolvendo-a em complicado e misterioso ritualismo que pudesse impressionar os fiéis, prescreveu a igreja que ela fosse celebrada em latim para que eles a não entendessem.
           
            Bastar-lhes-iam as cerimônias, as pompas, as solenidades externas.

            Como é sabido, a igreja proibiu a leitura da Bíblia, que ficou neste particular equiparada aos livros heréticos, postos no Índex, e que os crentes não podem ler, sob pena de excomunhão.

            São expedientes da perspicaz política sacerdotal, que se afirma sob diversos modos e sabe estender os tentáculos apreensores em várias direções.

            Os nossos confrades estudiosos podem ler com proveito, obras teológicas, apologéticas e litúrgicas para por em confronto as antigas concepções eclesiásticas, consideradas religiosas (?) ora em declínio, com a nossa doutrina. 

            Só temos a lucrar com esse confronto, mormente quando há leva de broqueis entre os adversários.

            Daremos, hoje, um exemplo.

            Mais de uma vez nos temos referido, em artigos desta seção, ao materialismo religioso predominante nas igrejas, radicalmente oposto ao ensino evangélico, ao ensino espírita.

            Consideramos o corpo físico um instrumento de que se serve a alma durante a encarnação.

            Novos corpos materiais adquire o espírito em vidas sucessivas, necessárias ao seu adiantamento, impostas pela lei do progresso.
  
            As igrejas tem uma grande preocupação pelo destino do corpo humano putrescível – caro data verminibus. (carne dada aos vermes (?))

            Aceitam e proclamam o dogma da ressurreição da carne. Admitem dois julgamentos, após a morte.

            O primeiro é particular e vai sendo pronunciado a proporção que as almas vão deixando os seus amados corpos.

            O segundo é universal. Será proferido no dia, dies irae, (palavras iniciais da evocação do dia do Juízo Final no famoso hino atribuído ao monge Tomás Celano (meados do sXIII)), em que acabar o mundo. (1) Então todos os corpos humanos destruídos, desde o começo do mundo, durante o decurso dos séculos e dos milênios, ressurgirão.

                (1) Como curiosidade: O reverendo abbé De La Tour de Noé, comentando a profecia sobre os papas, de S. Malaquias, sustenta que o fim do mundo terá Iugar ao terminar o pontificado de Petrus Romanus, último da série.
                Calculando a vida média dos papas, o autor fixa para o fim do mundo o ano de 1933. (‘La fin du monde’, 21ª ed. Paris – H. Daragon 1904.)

            Cada alma tomará ou receberá o seu antigo companheiro de carne e ossos, com os seus órgãos e aparelho, e, formando com ele um só todo indivisível seguirá para o céu ou para o inferno.

            O padre Goud (2) procura sustentar (?) o dogma com largas transcrições de Tertuliano c fazendo a apologia da carne.

            (2) Anthelmo Gould – ‘A eternidade ou destinos futuros do homem, do mundo e da humanidade’. Ed. de 1879.

            Inserimos alguns trechos, que dispensam comentários:

            “A carne do homem está cheia de dignidade e de nobreza na sua origem, na sua união com a alma, na sua santificação e nas suas imolações: logo, não pode ser presa eterna do túmulo...

            “A sua (do corpo) dignidade exige que Deus lhe restitua um dia a vida, uma vida gloriosa e imortal. E não se diga que a sua carne, infecionada pelo pecado, merece ser para sempre sepultada nas profundezas da terra ou do nada, porquanto ela foi purificada, enobrecida, e, em certo modo, divinizada pelo sangue de Jesus Cristo."

            Admira-se o leitor? O principal argumento (?) com pretensões a filosófico, é o seguinte: Depois de nos informar que homem é composto, essencialmente, de alma inteligente e de corpo carnal, diz o padre:

            É tão contrário à natureza o homem o ter uma alma sem corpo, como um corpo sem alma; e como nada daquilo que é violento e oposto à essência das coisas pode ser perpétuo, é mister concluir pela ressurreição futura dos corpos, a não ser que se admita (o que não pode ser e é mesmo blasfematório) que Deus arranca cruelmente à alma humana a sua tendência natural para unir-se ao corpo de que ela é a forma necessária: forma corporis: que faça decair da sua condição própria; que ai condene a permanecer eternamente em um estado contrário a natureza; que se esqueça no tumulo o seu indispensável companheiro, e que consinta em ver eternamente quebrado sob os seus olhos o homem, obra prima do seu poder.”

            Não precisamos prosseguir.

            Eis aí porque as religiões sacerdotais, que acolhem e ensinam essas monstruosidades, erigidas em dogmas, desprezaram e sepultaram os Evangelhos, afastaram-se da espiritualidade, gravitam para a matéria, para a lama, e tornaram-se fatores positivos decisivos, grandes fatores da incredulidade moderna da irreligião contemporânea.

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