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segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Conceitos às Avessas


‘Conceitos às Avessas’

por Alberto Nogueira da Gama
Reformador (FEB)  Junho 1970

           
Isto que vamos escrever, retificando, certamente Você nunca disse nem jamais dirá, mas admitimos já tenha ouvido alguém dizer.

Como se trata de coisas que, de modo truncado, se entendem com o Espiritismo, talvez valha a pena entendermos o Espiritismo com relação a elas, em sentido trocado e contrário,  mas certo, assim mesmo às avessas.

Veremos, então, que, por vezes, os extremos se tocam.

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“- Meu santo é forte.”

- Certo, concordo. Um Espírito bondoso é sempre forte. Graças a ele, Você se vê livre de perigos ou se sai bem de situações difíceis. Todos os “santos”, caro amigo, são “fortes”, porque se trata precisamente de Espíritos Guias e Protetores, que nos assistem e amparam, nos orientam e defendem. Realmente, seu santo é forte.

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- “Nossos santos não combinam.” “Meu santo não vai com o dele, de jeito nenhum.”

- Errado, não concordo. Os ”santos” sempre se combinam. Você é que não combina com o seu, porque não quer combinar com o próximo, com Beltrano ou Sicrano que o magoou. Experimente perdoar para ver se a combinação não é completa, entre Vocês dois e os seus respectivos santos. Eles não podem é empurrar um para o outro, mas nunca deixarão de se alegrar com as pazes que se fizerem reciprocamente, com toda a sinceridade.

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- “Eu tenho o corpo fechado.” “Meu corpo é fechado: nada me pega.””

- Acredito que Você possa de fato ter o corpo fechado, não pelas tatuagens que ele apresenta ou pelos pontos que cantou ou pelos despachos que fez ou pelo patuá que carrega ao pescoço com a “oração” que aprendeu e se acha bem dobradinha dentro dele.

Se o Amigo tiver a mente pura e o coração limpo, isto é, se estiverem os dois sem maldade, seu perispírito, note bem: perispírito (seu invólucro fluídico) e não corpo (sua armação de carne) será inacessível às influências más, o mal não repercutirá em suas fibras, ninguém o prejudicará, porque Você próprio não se prejudica. Pensando, sentindo e fazendo o melhor, receberemos também o melhor. Seu Corpo perispiritual é fechado, sim, mas só assim desta maneira -- por sintonizar numa faixa vibratória elevada, torna-se ele inacessível às impurezas do meio ambiente, ao qual ajuda a purificar com as suas influências benéficas.

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- “Seu Espiritismo é de mesa, o meu é de terreiro.”

- Eu não tenho um espiritismo meu, antes desejo ter o Espiritismo em mim ou comigo. A Doutrina Espírita não é propriedade de ninguém, embora todos possam possuí-Ia na intimidade de suas almas.  Feita esta ressalva, devo dizer que não sei em que sentido o amigo se expressa, mas entendo que o Espiritismo pode ser de mesa. Este é o principal móvel de uma casa, onde habitualmente os familiares fazem as suas refeições, ou seja, se alimentam. Ora, os ensinamentos desta maravilhosa Doutrina são verdadeiros alimentos para as nossas almas. Daí, em todos os Centros bem organizados haver mesas com obras da Codificação Kardequiana para estudos, que são lidas e comentadas normalmente duas vezes por semana. Quero dizer: é posta a mesa para alimentação de todos os presentes. Mas entendo também que o Espiritismo pode ser não só de mesa, como igualmente de terreiro, de planície, de colinas e montanhas, de campos e vales, de terra, mar e ar, porque ele está em tudo e em toda a parte, como nós podemos estar com ele a qualquer hora do dia e da noite onde quer que nos encontremos.

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- “Eu sei que o amigo não gosta destas coisas, porque pertence à linha branca.”

- Na realidade, eu pertenço, aliás, nós pertencemos - eu, Você e todo mundo -- à linha dos encarnados e dos desencarnados. Se ela, por vezes, apresenta cor, nem sempre será uma só para todos os casos. Vê-la-emos parda, cinzenta, amarela, vermelha, preta e azul, de acordo com a natureza dos sentimentos de que estivermos animados uns para com os outros, quer no mundo corpóreo, quer no incorpóreo. A nosso ver, não há linhas de cores no Espiritismo e sim cores de linhas nos espíritas, conforme se conduzam de uma maneira ou de outra, espelhando na sua aura colorações que atraem entidades desencarnadas afins com elas. Neste sentido, podemos dizer que seguimos uma linha dentro da Doutrina Espírita (linha reta e justa), quando não perdemos a linha dentro dele, que poderá ter, então, qualquer outra cor, menos a branca e a azul que denotariam em nós a presença de paz e serenidade. Questão de interpretação, meu caro, pura questão de interpretação.

Realmente, eu não gosto do que Você gosta, mas reconheço-lhe o direito de não gostar do que eu gosto. No entanto, não tenhamos dúvida de que chegaremos, um dia, nós ambos, à destinação áurea e gloriosa que nos aguarda nas altiplanuras da Espiritualidade, mesmo pensando e agindo hoje de maneira diferente.

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- “Quem é do científico ou do Kardecismo não aceita estas coisas.”

- Eu não sou do científico nem do Kardecismo, como o amigo admite. O Espiritismo não é nem isto, nem aquilo, nem uma coisa nem outra. Ele é um todo indivisível, sem nome de personalidade humana, ainda que se trate da respeitabilíssima pessoa do seu Codificador.  Não sou do científico, porque sou também do filosófico e do religioso, três aspectos que igual e inseparavelmente o Espiritismo encerra em si. Por isso, sou simplesmente espírita, pertenço única e exclusivamente ao Espiritismo, sem qualquer outro “ismo” senão o dele mesmo, embora seja dos que admitem que o conhecimento da Doutrina pede necessariamente o estudo criterioso e metódico da Codificação Kardequiana.

Digamos apenas: Espiritismo, espírita, espiritista, com exclusão das palavras Kardecismo e kardecista.

De fato, o aspecto científico identifica o caráter racional e lógico do Espiritismo; o filosófico demonstra e comprova tudo; mas, só o cunho moral, religioso ou evangélico classifica e qualifica o profitente na sua real condição de adepto da Nova Revelação.

Eu não aceito as coisas que Você pensa, diz e faz, porque as situo em outro ângulo de convicções, mas não me permito constrangê-lo a aceitar as minhas. Continue lá, que eu continuo cá. Aqui ou aí, trabalhamos alimentando a esperança de que, separados, hoje, por injunção das circunstâncias, estaremos juntos, amanhã, por determinismo divino.



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