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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

2c 2d 2e 'Regressão de Memória'



2c. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Julho 1972


            Em Louise (caso nº 5) descobre uma encarnação anterior na qual a paciente havia sido sacerdote católico. Ao morrer, muito idoso, sente-se mergulhado numa atmosfera cinzenta que não compreende, pois achava que deveria estar no céu, ou pelo menos no purgatório, mas nada vê que justifique suas crenças.

            A certa altura, a paciente toma a cabeça entre as mãos e se põe a chorar copiosamente, explicando que se sente infeliz porque ensinou aos outros coisas inexatas. De Rochas lhe responde que não se aflija, pois foi bem melhor falar do céu e do inferno aos seus paroquianos do que deixá-los crer que nada existe depois da morte.

            - Sim, é verdade - diz o paciente -, mas infelizmente eles não creem mais no inferno e se estivessem convencidos de que há uma série de existências, nas quais expiamos as faltas cometidas nas vidas precedentes, eles se conduziriam muito melhor.

            - Você deseja, então, se reencarnar?

            - Sim, para poder me instruir bastante e difundir a verdade entre os homens, ao cuidar deles.

            - Diga-me, é preciso encarnar-se numa família rica que lhe proporcionará instrução?

            - Não. É preciso, ao contrário, que eu nasça na miséria para conhecê-la.

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2d. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Julho 1972



            Com a Senhorita Mayo o relato das experiências toma 55 páginas. É impraticável reproduzi-lo resumidamente sem sacrificar pormenores preciosos. Nesta paciente ressalta, de maneira incisiva, uma qualidade que em outros se manifesta sempre, mas algo atenuada: a resistência deliberada e irredutível a certas ordens do magnetizador, o que vem uma vez mais provar que a vontade do paciente não fica à mercê do experimentador. Quando a regressão ou progressão são muito rápidas, ela reclama do seu magnetizador, repetidas vezes, queixando-se de que não pode ir tão depressa. Mergulhada nas recordações de uma dama antiga da corte, chamada Madeleine Saint-Marc, resiste tenazmente à ordem de despertar. É preciso uma verdadeira "cena" para isso.

            Não há, nesses casos, contradições nem desmentidos. As histórias são sempre as mesmas, tal como as datas, os nomes, os lugares, em todas as existências percorridas. O Espírito se acha diante de sua própria consciência e se analisa friamente, ou apaixonadamente, segundo sua capacidade de julgamento e estado evolutivo. Com Madame J., em 1905, onze existências são evocadas. Na décima, o Espírito se acha no
século terceiro da nossa era.




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2e. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Julho 1972


            Na terceira parte do livro, o autor se ocupa dos "fenômenos análogos". É uma coletânea de fatos, narrativas e observações de grande interesse, retirados de depoimentos diversos em primeira mão, ou relatados em livros e memoriais. Na quarta parte, são narradas ainda algumas experiências do próprio coronel De Rochas e o caso famoso de Mademoiselle Smith. Seguem-se as observações finais do autor e suas conclusões.

            Um capítulo nos merece consideração especial. Chama-se "Excursão nos domínios do Espiritismo" (pág. 457). "Contrariamente ao que pensa muita gente - escreve o autor -, jamais me ocupei de espiritismo. Assisti a algumas sessões para saber como as coisas se passavam; mantive-me atualizado acerca do que se escrevia sobre o assunto que diz respeito tão de perto ao problema da sobrevivência, mas reservei meu tempo e meus esforços aos estudos mais conformes à minha educação científica."

            Achava ele que já havia muita gente interessada nas comunicações mediúnicas, experiências essas que - na sua opinião - "não exigiam nenhuma aptidão especial", o que não é verdadeiro. Foi uma pena que assim pensasse, pois teria feito trabalho ainda mais proveitoso, dado que, mesmo no decorrer de suas experiências, via-se às vezes diante do problema da mediunidade. Ele próprio o diz, ao declarar que "malgré moi", ou seja, a despeito de si mesmo, frequentemente se viu envolvido com manifestações espíritas ou com a teoria da comunicação com os que chama "defuntos". Não é, pois, espírita. Quanto à doutrina da reencarnação, no entanto, não há como fugir dela. Suas experiências, nesse ponto, são conclusivas e dificilmente outra hipótese as explicaria com lógica e segurança. No entanto, inclui no capítulo final do livro intitulado "La Religion de I'Avenir", página 490 e seguintes, um notável resumo tirado, segundo ele, de um livro de autoria do general Fix sob o título de "Étude Philosophique", publicado em Paris, em 1899. Essa obra, conforme observação do próprio De Rochas, em rodapé, "é uma exposição sobre o estado atual da filosofia que decorre das pesquisas experimentais de espiritualistas independentes".

            Não se pode deixar de resumir o texto, porque ainda hoje os espíritas poderiam tranquilamente subscrevê-lo:

            1) Uma inteligência suprema rege os mundos.
            2) Toda a criação se desenvolve segundo uma cadeia sempre ascendente, ininterrupta, do reino mineral ao homem, sem que se note uma linha demarcatória nítida.        
            3) A alma se elabora no seio de organismos rudimentares e evolui através dos reinos da natureza, de um estado inconsciente à consciência total (teoria, aliás, de Geley).
            4) A evolução da alma é infinita e cada existência é a folha de um livro eterno.
            5) A alma progride tanto na carne como no estado de liberdade.
            6) No intervalo das existências corporais, a alma vive a existência espiritual que não tem duração determinada. O estado feliz ou infeliz da alma decorre do seu grau de perfeição.
            7) Uma vez adquirida a experiência que um mundo pode proporcionar, ela o deixa, para encarnar-se em outro mundo mais adiantado.
            8) A alma possui um corpo fluídico (perispírito) de substância retirada do fluido universal ou cósmico, que a forma e alimenta. O perispírito é mais etéreo ou menos etéreo segundo os mundos que habita e o grau de depuração da alma. O perispírito é o plano sobre o qual a alma forma o corpo físico, sendo o intermediário entre a alma e o corpo. É o órgão de transmissão de todas as sensações e liga-se ao corpo pela força vital. O perispírito não fica contido dentro do corpo como se estivesse numa caixa: ele se irradia por fora e forma em torno do corpo uma atmosfera. 

            Ao finalizar o livro, o autor diz que suas experiências levam a duas sortes de conclusões, umas certas e outras simplesmente problemáticas:

            1.        Que, por meio de passes magnéticos, a alma se desprende do corpo dos sensitivos e alcança regiões do espaço e do tempo usualmente inacessíveis nos estados normais de vigília.

            2.        Que se pode conduzir o paciente a épocas anteriores à vida presente, fazendo-o reviver e não apenas recordar fatos relacionados com essas épocas.

            3.        Que é possível, também, obter alucinações em alguns pacientes.

            4.        Que por meio de passes transversais pode-se projetar o paciente no futuro, fazendo-o viver cenas e acontecimentos que ainda estão por acontecer.

            Passa o autor, em seguida, a discutir algumas hipóteses formuladas com a intenção de explicar o fenômeno sem a aceitação literal do que dizem os sensitivos, ou seja, fora da doutrina da reencarnação. A primeira hipótese seria a de que o espírito do sensitivo criaria os estados que relata com base em ideias que as novas faculdades lhe permitem perceber. A segunda hipótese seria a da intervenção dos Espíritos desencarnados. A terceira seria a de que os sensitivos captariam a ideia das vidas sucessivas do próprio cérebro do magnetizador. De Rochas não critica as hipóteses. Seja porque as achou evidentemente sem substância, seja porque desejou deixar a decisão final com o leitor. Inclino-me pela primeira alternativa, dado que sua aceitação das vidas sucessivas é inegável. Além do mais, sem ter aderido ao Espiritismo, como informa no final do seu livro, diz também que, ao relatar suas experiências, deseja unicamente "fornecer novos documentos ao processo que se desenrola diante da opinião pública e não para condenar de modo genérico a teoria espírita, que me parece apoiada em bases sólidas e que é, em todos os casos, a melhor hipótese de estudo dentre as que têm sido formuladas".

            O depoimento do coronel Albert De Rochas é, como dizia de início, insuspeito e constitui precioso acervo de observações para instrução do processo de conhecimento dos mecanismos do Espírito. Sua contribuição é valiosa. Por ela, vemos, experimentalmente, que o ser preexiste, sobrevive e se reencarna. Dos seus diálogos com os Espíritos desprendidos ressaltam, evidentes, princípios consagrados na doutrina ordenada por Allan Kardec, provando mais uma vez que, sob determinadas condições, o Espírito vai inapelavelmente ao Espiritismo, qualquer que seja sua posição filosófica. A dominante das suas pesquisas é a multimilenar ideia da reencarnação.

            Quantos séculos consumimos para que a doutrina das vidas sucessivas se incorporasse, afinal, ao nosso patrimônio espiritual de seres encarnados? Vamos e voltamos entre este mundo e o outro, e sempre que aqui aportamos, mergulhados num corpo de carne, novamente nos esquecemos de que somos Espíritos imortais em trânsito para Deus. Sem isto, de que nos servirá a multidão de outros conhecimentos? Que desta vez nos fique gravada, indelevelmente na memória espiritual, a lição abençoada das vidas sucessivas, para que não aconteça, um dia, nos perguntem em nome do Cristo: Então, és mestre e ignoras isso?


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