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quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Colombina


Colombina        

Mascarada mulher o rabecão trouxera.
Morrera em pleno baile a frágil Colombina
E, no egrégio salão de culto à Medicina,
O professor leciona, em voz veemente e austera.

-“Rapazes, comtemplai! É rameira e menina.
Também ébria no vício e com certeza era
Devassa meretriz, mistura de anjo e fera,
Flor de lama e prazer, Vênus e Messalina.”

Em seguida, a cortar, rompe a seda sem custo
Desnuda-lhe, solene, a alva pele do busto,
Afasta, indiferente, as flores de rendilha...

No entanto, ao descobrir-lhe a face triste e bela,
O mestre cambaleia e chora junto dela...
Encontrara na morta a sua própria filha.

Júlia Cortines por Chico Xavier
in “Luz no Lar” (2ª Ed. FEB 1972)


'Do Calvário ao Apocalipse'



‘Do Calvário ao Apocalípse’

por Bittencourt Sampaio

Psicografia de Frederico Pereira da Silva Jr
(6ª Ed. FEB 1994)

     Eis mais um sazonado fruto colhido na divina seara, por graça do Senhor, que, ainda uma vez, veio entre os publicanos de nova espécie, entre os mendigos de virtudes, trazer-lhes a sua bendita palavra, sobre as verdades eternas, por intermédio de um dos seus dedicados e fiéis obreiros, para ser com os seus irmãos da terra repartida.

     Desobrigado da tarefa que ainda desta vez me coube, de coordenar e publicar o presente trabalho, obtido juntamente com os meus companheiros de estudo dos Santos Evangelhos, sob a proteção do bom Guia Ismael, exulta  o meu espírito diante da esmola recebida, rendendo graças ao Senhor pela grandeza da misericórdia que me dispensou, concedendo-me a ventura de chegar ao termo da jornada.

     Aí tendes, pois, irmãos em Cristo, mais uma dádiva do céu, mais um dulçuroso fruto dessa puríssima Doutrina Espírita, que tanto apodo e escárnio prova da parte daqueles a quem, mais do que a outrem, incumbe difundir as verdades que ela ensina, mas que o não fazem, tão somente por amor dos seus próprios interesses.

     Tomai-o em vossas mãos com o carinho de verdadeiros crentes em Jesus e, libertando-vos dos preconceitos que porventura tenhais, procurai a largos sorvos libar o néctar precioso que ele encerra.

     Meditai sobre essas páginas que ora se vos oferecem, onde divisareis a rota a seguirdes e a segura orientação dos vossos destinos.

     Não vos importeis, se de mãos inquinadas do pecado elas vos vêm, pois, em verdade, essas mãos convosco repartem apenas a esmola que para si também recebem; buscai compreendê-las à luz dos Evangelhos, aceitando ou rejeitando-as, segundo o que vos ditar a consciência. Se nelas encontrardes lenitivo às vossas dores, o doce conforto às duras mágoas que vos punjam, em meio ao vosso caminhar terreno, demandando a terra prometida – o seio do Amantíssimo Cordeiro, júbilos indizíveis experimentará a alma dos pequeninos e obscuros trabalhadores do Grupo “Ismael”, por terem sido, pela Divina Misericórdia, escolhidos portadores de tão magnífico presente.


                                 Junho – 29 – 1907
                                              Pedro Luiz de Oliveira Sayão


Prefácio

     Virgem Gloriosa, santo e abençoado refúgio, onde todas as dores se adormentam, minha alma te engrandece, no dia consagrado, em que toda a cristandade conduz aos seus altares as oblatas do seu amor e gratidão!

     Maria, Bendita Estrela, em cujos raios busca o viajor errante a benfazeja luz que lhe mostre as voltas do caminho! Maria, Mãe do meu Senhor, em cujo estrelado manto encontra sempre abrigo o desgraçado, eis-me de novo, entre velhos companheiros, tentando, num supremo esforço, algo produzir, em honra ao teu Amado Filho!

     Ao teu seio imaculado se acolhe, ó! Virgem Pura, o meu espírito! Dá, Senhora, que da coroa, que te circunda a fronte de Soberana dos Céus, um raio se desprenda, iluminando a minha inteligência, para que eu possa, seguindo a trilha dos Apóstolos e revelando toda a grandeza dos ensinamentos que encerram os seus “Atos”, chegar ao “Apocalipse”, traduzindo perante os meus irmãos da Terra, todo esse grandioso “Sonho de Verdade” de João Evangelista.

     Bem sei, ó Mãe Santíssima, quanto ao nosso espírito, ainda tão fraco, vai custar esse arrojo! Mas, assim como a Graça do Senhor me concedeu que por ti fosse hoje ouvida a minha prece, em prol dos meus irmãos, assim também creio que chegarei ao termo da jornada, a despeito até mesmo da vontade de todos esses infelizes, convivas insaciáveis do banquete de sangue do Calvário!

     E, se é certo que é de espinhos a tarefa, eu a enceto, ó Virgem Santa, no teu glorioso dia, para que me não deixes só, na umbrosa estrada que pretendo percorrer, para mais divulgar, se de divulgação ainda precise, o nome sacrossanto do teu Dileto Filho.

     Escolhi este dia, em que se comemora a tua Conceição, mas em que bem poucos dos que o fazem compreendem a sublimidade e a grandeza dos indizíveis sacrifícios da tua alma impoluta, apenas baixada à Terra para a maternidade da Dor – para essa Conceição sem mácula – que, entretanto, aos profanos olhos, te mostrava como a última das mulheres, a pérfida desposada, que houvera conspurcado o tálamo nupcial!

     Quando, ó Virgem Mãe, a Humanidade puder compreender quem foi Maria, não mais verá, é certo, as multidões enchendo os templos, em busca das fórmulas rituais, que nada valem -; terá, porém, em cada coração de crente, um tabernáculo, onde, cheio de fé, o espírito se levante, para dizer – abençoado para todo o sempre seja o sagrado nome de Maria!

     E, quando bem avaliarem o teu sublime sacrifício, expondo às multidões a tua castidade, almas abrasadas, corações ungidos de verdadeiro amor, entoarão salmos, clamando – bendito para todo o sempre o nome de Maria, a Mãe de meu Senhor!



'Nascimento de Jesus'


Nascimento
 de Jesus
        
2,1  Naqueles tempos, apareceu um decreto de César Augusto, ordenando o recenseamento de toda a terra. 2,2  Este recenseamento foi feito antes do governo de Quirino, na Síria.2,3 Todos iam alistar-se. Cada um na sua cidade. 2,4 Também José subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, à Judéia, à cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, 2,5  para se alistar com a sua esposa Maria, que estava grávida. 2,6  Estando eles ali, completaram-se os dias dela.2,7  E, deu à luz seu Filho primogênito e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio, porque não  havia  lugar  para  eles  na  hospedaria 2,8 Havia nos arredores alguns pastores, que vigiavam e guardavam o seu rebanho nos campos durante as vigílias da noite 2.9 Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu ao redor deles, e tiveram grande temor. 2,10 O anjo disse-lhes: -Não tmais! Eis que vos anuncio uma boa nova que será alegria para todo o povo 2,11
Hoje vos nasceu, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor. 2,12  Isto vos servirá de sinal: Achareis um recém nascido envolto em faixas e posto numa manjedoura! 2,13  E, subitamente, ao anjo se juntou uma multidão do exército celeste que louvava a Deus e dizia:2,14 “Glória a Deus nas alturas, paz na terra e boa vontade para com os homens.”2,15  Depois que os anjos os deixaram e voltaram para o céu, falaram os pastores uns com os outros: -Vamos até Belém e vejamos o que se realizou e o que o Senhor nos manifestou. 2,16  Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e O menino deitado na manjedoura. 2,17 Vendo-O, contaram o que se lhes havia dito a respeito deste menino. 2,18  Todos os que os ouviam admiraram-se das coisas que lhes contavam os pastores.2,19  Maria conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração.2,20  Voltaram os pastores, glorificando e louvando a Deus, por tudo o que tinham ouvido e visto e que estava de acordo com o que lhes fora dito.

         Para Lc (2,1-21) -Nascimento de Jesus  - leiamos  “Elucidações Evangélicas” (FEB), de Antônio Luiz Sayão

            “A concepção, em Maria, como tudo mais que a isso se seguiu até ao suposto nascimento do nosso Redentor, tudo considerado uma obra miraculosa, por inexplicável mediante os conhecimentos de  então e que inexplicável se conservou até ao advento da Terceira Revelação, mais não foi que o resultado de uma ação magneto-espírita, exercida com o emprego de fluidos apropriados.

            E fundamento não há para se não admitir que assim possa ter sido, posta de lado toda e qualquer idéia de milagre, porquanto este seria o “sobrenatural”, que não existe, visto que implicaria a derrogação de leis naturais, que são imutáveis, porque oriundas da sabedoria divina, ao passo que aquela ação se assenta numa lei da Natureza, que o estudo e a experiência descobriram e os atos hão provado incessantemente, fatos que a todo instante podem ser verificados. É a lei do Magnetismo, que se desdobra em espiritual e humano e se exercita por meio da ação fluídica.

            É sabido, com efeito, que Jesus não revelou aos homens toda a verdade. Ele próprio disse que apenas ensinava o que os homens podiam suportar; que, quando viesse o Espírito da Verdade, esse sim, lhes daria a conhecer todas as coisas (João 16,12-13).

            Ora, não podendo essa revelação de verdades referir-se aos ensinamentos por Ele ministrados, é claro que, decorridos dezenove séculos, ao cabo de todo o progresso que a Humanidade tem feito nesse espaço de tempo, não mais pode ela, por outro lado, conservar-se estacionária na cegueira dos milagres, dos dogmas, das tradições supersticiosas. Fora condenar-se às trevas eternas e ao indiferentismo que esses absurdos geram.”

            “A Virgem pura e imaculada, nossa Mãe Santíssima, era filha de Ana e Joaquim. Ana, como Isabel, foi tida por estéril durante muitos anos. Ambas rogavam ao Senhor se condoesse da aflitiva condição em que se encontravam, visto que, naqueles tempos, a esterilidade da mulher era considerado um opróbrio. Ana se doía dessa humilhação, porém não desesperava de alcançar a graça que deprecava.

            Vindo a festa dos essenianos, foi Joaquim, como os demais, fazer sua oferenda ao Senhor. Esta, no entanto, o sacerdote a repeliu com desprezo, estranhando que a fizesse alguém sobre o qual pesava a maldição de Israel. A seita dos essenianos se distinguia pela sua extrema austeridade.

            Ana e Joaquim, transpassados de dor, elevaram, súplices, seus pensamentos ao céu e, orando com fervor ao Deus de infinita misericórdia, obtiveram o auxílio dos bons espíritos, que confortam a alma dando-lhe forças para vencer os transes mais difíceis.

            Findaram-se-lhes, afinal, os dias de provação, com o lhes conceder o Eterno uma filha, que seria a escolhida para Mãe do Senhor. Pondo-lhe o nome de Maria, o Anjo a proclamou cheia de graça e determinou a seus pais que, em observância dos votos que haviam feito, a consagrassem ao Senhor desde a infância. Assim é que Ana, ao cabo de vinte anos de esterilidade, concebeu e que, no momento oportuno e na casa onde costumava pousar, quando com seu marido chegava a Jerusalém, veio ao mundo a Virgem predestinada. Segundo era uso em Israel, ao 9º dia de nascida, à menina, perante toda a família reunida, foi-lhe dado nome, ouvindo todos, da boca de Joaquim, que ela se chamava Maria que, em hebraico, significa “Estrela do mar” e, na linguagem siríaca, quer dizer, “Soberana”.
            Passados quarenta dias, foi Ana ao templo purificar-se, levando nos braços a sua primogênita. Depois de fazer a oblata das vítimas a serem sacrificadas, proferiu o voto de consagrar ao serviço de Deus a menina que, com três anos e dois meses de idade, foi confiada à guarda do respectivo sacerdote, que, dizem, era o santo Zacarias, marido de Isabel, prima irmã da Virgem Maria. Terminada a cerimônia, entrou esta para o templo, onde se educavam as donzelas, que lá permaneciam até se casarem.

            Aos onze anos, achando-se ela ainda no templo, morreu-lhe o pai, em avançada idade. Aos quinze, em obediência ao que ordenava a lei, cumpria-lhe tomar esposo, para sair do templo amparada.

            Cumpriu-se o preceito, ao celebrar-se a festa da nova dedicação, escolhendo os parentes de Maria, com os sacerdotes, para seu marido, a José, natural de Nazaré, da mesma tribo que a Virgem, pelo lado varonil. Celebraram-se os esponsais, tendo ela quinze anos e José de trinta e cinco a quarenta.” 

4 de Agosto


4 Agosto

Depois da morte, a saudade
É um muro não sei de quê:
De um lado a pessoa enxerga
Do outro ninguém vê.


 Da Costa e Silva
por Chico Xavier e Waldo Vieira
in ‘ Trovadores do Além’  (4ª Ed. FEB 1994)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

'Confiança'



Confiança

          Plainando no ar, inconscientemente, a ave colorida confia...
          Desabrochando ante a luz, o botão confia e desata perfume, beleza, pólen e vida...
          Nas cambiantes da vida, só o homem se atormenta, buscando não sabe o que, enquanto, sem notar, crê e confia...
          Crê no automatismo orgânico e dele não se dá conta.
          Confia que despertará amanhã após a noite de sono e nada lhe atesta que o conseguirá...
          Assinala compromissos a largos prazos e crê que logrará superá-los, apesar de segurança alguma lhe afirmar o êxito.
          Confia no pão que ingere, para o “milagre” da digestão...
          Confia na água que sorve sem a qual não pode sobreviver, mas não duvida da sua potabilidade.
          Confiança é sol interior.
          Fé é luz divina emboscada na mente a verter esperança para o coração sedento de amor.
                                               *
          Alma peregrina do amor e da beleza, confia!
          Se os teus pés doem no roteiro áspero – avança!
          Se tens sede de ternura – ama!
          Se desejas vencer a amargura e a aflição – confia!
          Confiança é presença de Deus no coração vertendo bênçãos para a mente em ardência de agonia.

 Eros    por Divaldo Franco
 in “Heranças de Amor” (2ª Ed 1983 - L. E. Alvorada Editora)

Nascimento de João Batista



Nascimento de João Batista
        
   1,57 Completando-se para Isabel o tempo de dar à luz, teve um filho 1,58 Os seus vizinhos e parentes souberam que o Senhor lhe manifesta sua misericórdia e congratulam-se com ela. 1,59 No oitavo dia, foram circuncidar o menino e o queriam chamar pelo nome do pai, Zacarias 1,60 Mas sua mãe interveio: -Não! Disse ela, ele se chamará João. 1,61 Replicaram-lhe:- Não há ninguém na tua família que se chame por este nome! 1,62 e perguntaram, por acenos, ao seu pai, como queria que se chamasse 1,63 Ele, pedindo uma tabuinha, escreveu nela as palavras: -João é o seu nome!  Todos ficaram pasmados. 1,64 e logo se lhe abriu a boca e soltou-se-lhe a língua e ele falou, bendizendo a Deus. 1,65 O temor apoderou-se de todos os seus vizinhos; o fato divulgou-se por todas as montanhas da Judéia. 1,66 Todos os que o ouviam, conservavam-no no coração, dizendo: 1,67 Zacarias, seu pai, ficou cheio do Espírito Santo e profetizou, nestes termos:

            Para Lc (1,57-67) -Nascimento de João Batista - tomemos a Antônio Luiz Sayão, em “Elucidações Evangélicas” (FEB):  

            “João, filho de Zacarias e de Isabel, o Precursor de Jesus, nasceu seis meses antes do aparecimento deste e desencarnou com 31 anos de idade. Cheio de um Espírito Santo desde o ventre materno, como diz o Evangelho, ele foi, conforme o declarou o divino Mestre, o maior dentre os nascidos de mulher (Mt 11,11).

            Jovem ainda, retirou-se para o deserto, a fim de se entregar a uma vida de rigorosa austeridade, donde só regressou para dar início ao desempenho da sua missão, no ano 15 do império romano, aos 29 anos de idade, sob o reinado de Herodes Ântipas. Entrou a pregar e a administrar o batismo de penitência, donde lhe veio o cognome de Batista. Grande médium vidente e audiente, como o foram todos os profetas, recebeu no deserto a inspiração de que soara a hora de ter começo a missão, que trouxera, de Precursor do Cristo e que consistia em preparar os caminhos que este teria de percorrer, em abrir brechas nas consciências, por onde penetrasse a luz de que Jesus era portador. Foi o que fez, pregando, ensinando, aconselhando aos homens que lavassem de toda impureza suas almas, que se arrependessem de suas culpas e praticassem a penitência, para se tornarem dignos de receber aquela luz, consubstanciação da moral divina. Quer dizer que João aparelhava o terreno para a obra que o Cristo descera a realizar.

            O batismo, que ele administrava, era precedido da confissão, feita em público e em altas vozes pelo batizando, de suas faltas e pecados, para lhe despertar no íntimo o sentimento da humildade e para o constranger a evitá-las pela vergonha de as ter que confessar publicamente.

            A prática dessa confissão durou longo tempo.

             Depois, os que se arvoraram em representantes de Cristo dela se apossaram e a fizeram cair no desprestígio e na desmoralização que conhecemos, imposta como mandamento pelos que pregam o que não praticam.”

Nascimento de João Batista   (2)
         1,68   -Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e resgatou o seu povo 1,69  e, suscitou-nos Um poderoso salvador, na casa de Davi,,  seu  servo   1,70 (como haviam anunciado, desde os primeiros tempos, os profetas) 1,71  para nos livrar dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam. 1,72 Assim, exerce sua misericórdia com nossos pais, e se recorda de sua aliança, 1,73 segundo o juramento que fez a nosso pai Abraão: De nos conceder que,sem temor, 1,74  libertados das mãos inimigas, possamos servi-Lo, 1,75  em santidade e justiça, em Sua presença, todos os dias de nossa vida. 1,76 E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, 1,77 para dar seu povo conhecer a salvação,   pelo   perdão   dos  pecados.  1,78 Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do sol nascente, 1,79    que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no  caminho  da  paz.1,80 O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel.

            Para  Lc (1,68-80) -Nascimento de João Batista - sigamos com Antônio Luiz Sayão, em “Elucidações Evangélicas”:  

            “João, cuja elevação espiritual as palavras de Jesus patentearam (... o maior dentre os nascidos de mulher), era, no entanto, menor do que, por exemplo, Melquisedec, rei de justiça e paz, que foi sem pai, sem mãe e sem genealogia, que não teve princípio, nem fim de vida, que fez o seu aparecimento na Terra à semelhança do Filho de Deus, Jesus Cristo, cuja natureza puramente espiritual, sob as vestes de um corpo celeste e não terrestre, aquelas palavras comprovam, comprovando, portanto, que ele não “nasceu”, nem “morreu”, que a sua vida humana foi apenas aparente.

            Não obstante tratar-se de um Espírito superior em missão, como Maria e José, João, por estar encarnado, se achava olvidado da sua existência anterior, dela perdera a consciência.

            Assim é que não se lembrava de que fora Elias.

            Para abater o orgulho dos hebreus, que só consideravam filhos do Senhor os que suportavam o jugo de Moisés, tal qual a Igreja Romana, que assim só considera os que cegamente lhe aceitam os dogmas, João, missionário celeste, disse que poderoso é Deus para fazer das pedras filhos de Abraão, que estes, portanto, não são somente os que dizem: Senhor!, Senhor! e vivem preocupados com fórmulas exteriores, ritos, cerimônias etc., mas os que trazem puros os corações; que a árvore que não dá bons frutos será arrancada e lançada ao fogo, isto é, que o Espírito encarnado, que não progride, mediante as expiações, as provas e as reparações a que o sujeitam seus erros e transviamentos, que não apresenta frutos de regeneração, será, depois da desencarnação, a que comumente chama “morte”, lançado no fogo dos remorsos das torturas morais, correspondentes ao grau da sua culpabilidade.

            O batismo, que João ministrava e a que Jesus se submeteu para exemplo, consistia na ablução, ou lavagem do corpo, fato material destinado a simbolizar a purificação da alma, pela humildade, pelo arrependimento, de que era prova a confissão pública das faltas e crimes cometidos.

            Era um meio material de impressionar homens materiais, mas, ao mesmo tempo um ato emblemático, como um selo posto ao compromisso assumido de regeneração moral, a efetuar-se pelo batismo em fogo e em Espírito Santo, que tem sua expressão nos sofrimentos purificadores e na assistência dos Espíritos purificados, assistência que faculta ao culpado os meios e as forças de levar a cabo a sua purificação integral.

            O conjunto dos Espíritos superiores, dos Espíritos purificados, fiéis cumpridores dos desígnios de Deus, é, com efeito, o que devemos entender, de modo indeterminado, por Espírito Santo.”

            

'Elos Doutrinários' (Ed. FEB)



Elos Doutrinários”
de Ismael Gomes Braga
(3ª Ed. FEB - 1978)

.......... A Confirmação Necessária ........

     Diante de inúmeras mensagens que, psicograficamente, vêm sendo recebidos do Alto, por vários médiuns, dentre os quais convém destacar três que já têm publicadas grandes obras consagradas pelos mais cultos espíritas, parece-nos oportuno fazer uma síntese que permita se evidencie estar sobejamente demonstrado ter sido Kardec um notável missionário, auxiliado por outros companheiros, ressaltando-se, dentre estes, a personalidade de Roustaing, como encarregado de organizar o trabalho da fé, dando confirmação às duas Revelações anteriores.

     Os três médiuns a que nos referimos são Zilda Gama[1], América Delgado[2] e Francisco Cândido Xavier[3]. Deixamos de citar outros por não estarem ainda conhecidos por meio de obras de grande significação doutrinária.

     A Primeira Revelação abrange todo o Velho Testamento e anuncia a vinda do Messias em muitas profecias, das quais basta citarmos o primeiro livro de Moisés, “Gênesis”, cap. 49, v. 10.

     “Não se afastará de Judá o cetro, nem a vara do comando dentre seus pés, até que venha aquele de quem ela é, e a esse obedecerão os povos.”

     Isaías, cap. 7, v. 14:

     “Portanto, o Senhor mesmo vos dará um sinal; eis que uma donzela conceberá e dará à luz um filho, e por-lhe-á o nome de Emmanuel.”

     Esses dois eminentes vultos da Primeira Revelação, Moisés e Isaias, foram nominalmente citados e confirmados por Jesus como propostos de Deus, grandes profetas. Cumpridos os tempos, veio o Messias. Vamos transcrever o relato de dois evangelistas sobre o seu aparecimento:

     Mateus, cap. 1, vv. 18 a 23:

     “Ora, o nascimento de Jesus-Cristo foi assim: Estando Maria, sua mãe, já desposada com José, antes que se ajuntassem, ela se achou grávida por virtude do Espírito Santo. José, seu marido, sendo reto e não a querendo  infamar, resolveu deixá-la secretamente. Quando, porém pensava nestas coisas, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonhos, dizendo: José, filho de David, não temas receber a Maria, tua mulher; pois o que nela foi gerado é por virtude do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, a quem chamará Jesus; porque ele salvará o seu povo dos pecados deles. Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que dissera o Senhor pelo profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado Emmanuel, que quer dizer – Deus conosco.

    Lucas, cap. 1, vv. 26 a 38

     “No sexto mês foi enviado da parte de Deus, o anjo Gabriel a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de David; o nome da virgem era  Maria. Aproximando-se dela, disse: Salve! Altamente favorecida, o Senhor é contigo. Ela, porém, ao ouvir estas palavras, perturbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria esta. Disse-lhe o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça diante de Deus. Conceberás no teu ventre, e darás à luz um filho, a quem chamarás Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai David, e ele reinará eternamente sobre a casa de Jacob, e o seu reino não terá fim. Maria perguntou ao anjo: Como será isso, uma vez que não conheço varão? Respondeu-lhe o anjo: O Espírito Santo virá sobre ti, e a virtude do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso, o que há de nascer, será chamado santo, Filho de Deus. Isabel, tua parenta, também ela concebeu um filho na sua velhice, e já está no sexto mês aquela que era chamada estéril; porque nenhuma palavra, vinda de Deus, será impossível. Disse Maria: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra.  E o anjo retirou-se.”

      Os aparecimentos e desaparecimentos de Jesus, antes e depois do drama do Calvário, demonstraram a natureza excepcional de seu corpo, mas ficara reservado ao futuro, à Terceira Revelação, o confirmar e explicar essa concepção supranormal.

     Quando surgiu a obra “Os Quatro Evangelhos”, de Roustaing, Kardec notificou-lhe o aparecimento em sua revista, às páginas 190, 191 e 192, de junho de 1866, apresentando-a como obra considerável, com o mérito de não estar em contradição com a Doutrina ensinada em “O Livro dos Espíritos”, em “O Livro dos Médiuns” e em “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (únicas obras até então transmitidas ao Codificador), ressaltando que ela continha ensinamentos incontestavelmente bons e verdadeiros, e que merecia consultada com proveito pelos espíritos conscienciosos.

     Como se tratasse de assuntos novos, completamente inéditos, quase, diríamos, revolucionários para os meios religiosos da época, Kardec, receoso de que os Espíritos não a aprovassem, receio esse não confirmado, pois que na imensa coleção de “Revue Spirite”, entre numerosíssimas comunicações publicadas, nem uma só encontramos contra a obra de Roustaing, Kardec, dizíamos, por precaução, e pesando sua responsabilidade de Codificador, declarou que ele não havia escrito uma obra semelhante, porque não a julgava oportuna, e que, apesar de a teoria do corpo fluídico de Jesus nada apresentar de impossível, ele não a aprovava e nem reprovava, até que os Espíritos se manifestassem, visto que a obra fora recebida por intermédio de um único médium.

     Vemos que a opinião de Kardec foi pessoal, mas, em vista do seu grande e inigualável valor, surgiram espíritas mais realistas do que o rei, os quais julgaram, erradamente, a prudente reserva de Kardec como condenação definitiva da obra, sem levar em conta que, hoje, a mesma já está com a única sanção que para ela exigia o mestre: a confirmação dos Espíritos.

     No Brasil, houve quem julgasse um crime a tradução da obra, e pusesse em dúvida a honra e a dignidade da médium Mme. Emilie Collignon e de Roustaing... para não irmos mais longe.

     Para que nossos confrades possam conhecer a opinião de Kardec sobre essas duas respeitáveis personagens, vamos transcrever a palavra do mestre mesmo, de “Revue Spirite” de 1861, páginas 167 a 172:

     “Os princípios que aí são altamente expressos (na carta que lhe escrevera Roustaing), por um homem cuja posição o coloca entre os mais esclarecidos, darão que pensar aos que, supondo possuírem o privilégio da razão, classificam todos os adeptos do Espiritismo como imbecis.

     “Vê-se que Roustaing, apesar de recentemente iniciado, tornou-se mestre em matéria de apreciação; é que ele tem séria e profundamente estudado, o que lhe permitiu apreender rapidamente todas as consequências da importante questão do Espiritismo, e que, ao contrário de muitos, não ficou na superfície.

     “Infelizmente, nem todos têm, como ele (Roustaing), a coragem de dar a sua opinião, e é isso que alimenta os adversários.

     Quando a Mme. Emilie Collignon, de Bordéus, médium absolutamente mecânica, dama da alta sociedade, e que, pessoalmente, não concordava com a teoria do corpo fluídico, enquanto os Espíritos a lançavam pelo seu lápis, transcrevemos a palavra de Kardec na página 288 da “Revue Spirite” de 1865, em noticiário por ele assinado:

     “Temos o prazer e o dever de chamar a atenção de nossos leitores para essa brochura (“Palestras Familiares sobre o Espiritismo”, por Mme. Collignon) que inscreveremos, com prazer, entre os livros recomendáveis.”

     A autoridade indiscutível de Kardec reconhecia, pois, na médium e no compilador de “Os Quatro Evangelhos”, criaturas superiores, capazes; e hoje, diante da aprovação geral por parte dos Espíritos, nós, espíritas conscienciosos que seguimos o conselho do Codificador, lendo e consultando a obra de Roustaing, temos o dever de aproximar as obras dos dois missionários, e não nos orientarmos por processos dissolventes, como procedem confrades de outros países, onde até hoje combatem a Codificação Kardequiana, por não aceitarem o a que chamam dogma da reencarnação.

     Toda a razão tinha Kardec em deixar a teoria do corpo fluídico para ser julgada pelos que lhe sucedessem, depois que os Espíritos se manifestassem, como ele mesmo veio a manifestar-se favoravelmente pela médium Zilda Gama e outros. Toda notícia do Além deve ser julgada com as mesmas precauções, e a responsabilidade do mestre era enorme; mas, ele mesmo teve a fortuna de inserir em sua revista, em 1868, págs. 45 a 55, numerosas comunicações de Espíritos que se apresentaram com nomes respeitáveis, assegurando todas elas que um novo Messias, que restabeleceria o Evangelho de Jesus Cristo, já estava encarnado, apesar de os comunicantes não estarem autorizados a revelar o lugar em que ele havia nascido (pág. 45).

     Em nota a essa mensagem, recebida em 1861 e publicada em 1868, escreveu o mestre:

     “Esta revelação é uma das primeiras que nos foram transmitidas, mas, outras lhe sucederam. Há muito tem vindo, espontaneamente, grande número de comunicações sobre o mesmo assunto, em diferentes centros espíritas da França e do estrangeiro.”

     E termina assim a nota:

     “Isto é um exemplo dos mais notáveis da simultaneidade e da concordância dos ensinos dos Espíritos, quando é chegado o tempo de uma questão ser apresentada.”

     Todos sabemos que os Espíritos, quando querem enganar, podem, igualmente, fazê-lo através de numerosos médiuns, e isso se teria verificado, se admitíssemos que Kardec fora ludibriado com tais comunicações, publicadas em sua revista, por não se haver confirmado o aparecimento de qualquer messias; mas, se concluirmos que Kardec não foi ludibriado, como cremos, aquelas mensagens, iniciadas em 1861, época em que o Evangelho de Jesus Cristo começou a ser mediunicamente explicado, em espírito, pelos próprios evangelistas e outros Espíritos, para dois livros diferentes – “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, de Kardec, no qual aparecem mensagens dos anos de 1859 a 1863, e cuja primeira edição apareceu em 1864, e “Os Quatro Evangelhos”, de Roustaing, recebido de 1861 a 1865, e publicado em 1866 -, somos de parecer que as referidas mensagens indicavam exatamente este acontecimento: preparação dos dois livros destinados a promover a compreensão e o revigoramento do Evangelho. Elas confirmavam-se: uma dizia que nasceu um novo messias, outras afirmavam que eram vários messias, e outras informavam que já eles estavam encarnados, na França.

     As coincidências das datas e o estudo em conjunto dessas comunicações, que tanto interessaram ao mestre, levam-nos à conclusão de que os Espíritos comunicantes não tinham permissão de revelar tudo, mas apenas de indicar vislumbres.

     Pelo conjunto das comunicações, podemos, hoje, concluir que a notícia real a transmitir seria esta:

- vários enviados (messias) desceram à Terra, procuraram dois iniciados encarnados na França, e retransmitiram-lhes o Evangelho de Jesus Cristo, restabelecendo-o, explicando-o, para duas obras que se completam, cada uma, porém, destinada a um público, conforme prometido para a época da vinda do Consolador. De tudo isso concluímos, com os Espíritos, que Kardec, o grande missionário, ao descer à Terra, veio acompanhado de vários missionários auxiliares: “Roustaing, para o trabalho da fé; Léon Denis, para o desdobramento filosófico; Delanne, para a estrada científica, e Flammarion, que nos desenharia as maravilhas das paisagens celestes.[4]

     As Três Revelações – Velho Testamento, Novo Testamento, Espiritismo – formam um todo inseparável, um conjunto único em sua essência, e não se pode atacar uma parte sem abalar todo o edifício. Quando um judeu nega o Cristianismo, um católico nega o Espiritismo, ou um espírita nega uma das Revelações anteriores, não percebem que estão minando sua própria fortaleza: a eternidade e universalidade das manifestações espirituais. Se não fosse confirmada a natureza excepcional do corpo de Jesus pelo Espiritismo, as duas Revelações anteriores teriam de cair, e o Espiritismo não subsistiria, porque tais aparições formam a base das três Revelações. Felizmente, está sobejamente confirmada a natureza excepcional do corpo de Jesus, em numerosas comunicações, e, com isso, consolidada a obra de Kardec, e confirmados o Cristianismo e o Judaísmo.

      Continuemos tranquilamente nossa tarefa.

     Que Deus nos abençoe a todos, dando-nos a graça de compreender os seus missionários, unindo-os definitivamente entre os homens, que, em sua estreita visão, tanta vez se servem das coisas mais sublimes como bandeira de separação e lutas. Graças a Deus, nada mais existe para que as obras dos dois mestres não nos guiem a todos, rumo ao futuro. Todas as incompreensões devem cessar.

    





[1] V. “Diário dos Invisíveis”, págs 241-63
[2] V. “Os Funerais da Santa Sé”, 3ª Ed., pág.69
[3] V. “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, capítulo XXII.
[4] “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, de Francisco Cândido Xavier, pág. 158, 1ª Edição, cap. XXII.

3 de Agosto



3 Agosto

O bom conselho comigo
Tem este velho embaraço;
Sempre aponto ao meu amigo
Tudo aquilo que não faço.


 Emílio de Menezes
por Chico Xavier e Waldo Vieira
in ‘ Trovadores do Além’  (4ª Ed. FEB 1994)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

'Fé Raciocinada'


A Fé Religiosa –
Condição da Fé Inabalável
       
        Sob o ponto de vista religioso, a fé é a crença nos dogmas particulares que constituem as diferentes religiões, e todas as religiões têm seus artigos de fé. Quanto à fé, ela pode ser raciocinada ou cega. A fé cega nada examina, aceita sem controle o falso como o verdadeiro, e se choca, a cada passo, com a evidência e a razão; levada ao excesso, ela produz o fanatismo. Quando a fé se baseia no erro, cedo ou tarde se desmorona; mas a que tem por base a verdade garante o futuro, porque nada tem a temer do progresso das luzes, porquanto o que é verdadeiro na sombra também o é na claridade. Cada religião pretende ter a posse exclusiva da verdade, porém, preconizar a fé cega sobre um ponto de crença é confessar sua impotência para demonstrar que está com a razão.

         Diz-se vulgarmente que a fé não se receita, daí muitas pessoas afirmarem que, se não têm fé, não é por sua culpa. Sem dúvida, a fé não se receita, mas se adquire, e não há ninguém a quem seja recusado possuí-la, mesmo entre os mais refratários. Nós falamos de verdades espirituais fundamentais, e não desta ou daquela crença em particular. Não é a fé que deve ir até eles, são eles que devem ir ao encontro da fé, e se a procurarem com sinceridade, a encontrarão. Tende, pois, como certo que aqueles que dizem: “Não desejamos nada melhor do que crer, mas não o podemos”, o fazem com os lábios, não com o coração, visto que, ao dizerem isso, eles fecham os ouvidos. As provas, no entanto, são muitas à volta deles; por que, então, se recusam a vê-las? Em uns, é pela indiferença; em outros pelo medo de serem forçados a mudar de hábitos e, na maioria, pelo orgulho, que se recusa a reconhecer um poder superior, que os faria inclinar-se diante dele.

         Entre algumas pessoas a fé, de alguma forma, parece inata; uma centelha é suficiente para desenvolvê-la. Essa facilidade em assimilar as verdades espirituais é um sinal evidente de progresso anterior; em outras, ao contrário, elas só penetram com dificuldade, sinal não menos evidente de uma natureza em atraso. As primeiras já acreditaram e compreenderam; trazem, ao renascer, a intuição do que sabiam: sua educação está feita. As segundas têm tudo a aprender: sua educação está por fazer. Ela, porém, se fará, e se não for terminada nesta existência, será em uma outra.

         A resistência do incrédulo, é preciso convir, quase sempre é devida mais à maneira como lhe apresentam as coisas do que a ele mesmo. Para se ter fé necessita-se de uma base, e essa base é a compreensão perfeita daquilo em que se deve crer; para crer não basta ver, é preciso principalmente compreender. A fé cega não é mais deste século[1]; ora, é precisamente o dogma da fé cega que causa, atualmente, o maior número de incrédulos, porque ela quer se impor, porque ela exige a abdicação de uma das mais preciosas prerrogativas do homem: o raciocínio e o livre-arbítrio. É contra essa fé, sobretudo, que se revolta o incrédulo, o que confirma a afirmativa de que a fé não se impõe. Não admitindo provas, ela deixa no espírito um vazio de onde nasce a dúvida. A fé raciocinada, que se apóia sobre os fatos e a lógica, não deixa nenhuma obscuridade; a pessoa crê, porque tem a certeza, e só tem a certeza porque compreendeu. Eis por que essa fé não se dobra: visto que não há fé inquebrantável senão aquela que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade.

         É a esse resultado que o Espiritismo conduz, triunfando também sobre a incredulidade, todas as vezes que não encontra a oposição sistemática e interessada.
Allan Kardec
in Cap. XIX “O Evangelho segundo o Espiritismo” (2ª Ed CELD)


[1]  O século a que Kardec se refere era o XIX, mas hoje a fé cega torna-se ainda mais inconcebível, porquanto a Ciência vem demonstrando a veracidade de muitos dos chamados fatos milagrosos, ou religiosos, ou sobrenaturais. (N.T.)