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sábado, 13 de outubro de 2018

Luzes e sombras do Espiritualismo



"Luzes e Sombras do Espiritualismo"
por Hermínio C. Miranda
Reformador (FEB) Janeiro 1974

A Prática do Espiritismo, ou seja, a participação em trabalhos mediúnicos, não desobriga o espírita do estudo da doutrina; pelo contrário, é aí, mais do que nunca, que se faz necessário o exame contínuo e repetido das questões doutrinárias que explicam e interpretam a fenomenologia, que nos orientam no meio da extraordinária multiplicidade de caminhos que vemos diante de nós. Nunca serão suficientemente repetidos esses conceitos. É bom que, de tempos em tempos, a gente repasse os fundamentos em que se apoia a nossa experiência. Quantos médiuns de excelentes perspectivas não se deixam extraviar porque julgaram dispensáveis os estudos doutrinários. Muitos, por acharem que os próprios espíritos ensinam a doutrina; outros por se julgarem já bastante instruídos na matéria, sem necessidade de "perder tempo" com leituras cansativas. Há, também, aqueles que desejam desenvolver uma prática mediúnica toda pessoal, inteiramente livres dos cuidados recomendados pela boa doutrina. Há os que não se interessam mesmo pelo estudo, como ainda os que somente desejam do Espiritismo a manifestação prática, o fenômeno. Quase todos se dizem espíritas, mesmo desconhecendo as obras básicas da Codificação. E é por isso que se perdem pelos desvios, levados com sutileza, pela habilidade de espíritos desencarnados, que se dizem portadores de revelações pessoais, mensageiros diletos do Cristo ou o próprio Cristo!

Tais coisas não precisavam mais acontecer. Há um século a Codificação de Allan Kardec está aí para esclarecer, orientar e apontar os cuidados que o exercício da mediunidade deve merecer da parte de todos aqueles que se interessem pela fenomenologia. Mesmo antes de Kardec, já encontrávamos nos escritos do apóstolo Paulo - especialmente na sua Primeira Epístola aos Coríntios - advertências, conselhos e sugestões para o seguro desempenho das faculdades mediúnicas. Como qualquer fenômeno natural, a mediunidade é regida por leis próprias, que precisam ser estudadas e respeitadas. Sua prática nos coloca em relação direta com espíritos desencarnados que nos trazem uma verdadeira multidão de problemas, de dificuldades, de dúvidas, tanto quanto de ensinamentos preciosos, ao oferecerem a nós, encarnados, a oportunidade de aprender as leis de Deus no próprio desempenho das nossas tarefas de fraternidade. Para esse trato com irmãos desencarnados, muitos dos quais em penosíssimas situações espirituais criadas por falhas clamorosas de procedimento, precisamos estar preparados, não apenas com o coração aberto, iluminado pelo verdadeiro sentimento de amor cristão, como também munidos de conhecimento das leis mais elementares que regulam as manifestações. É indispensável uma sólida noção geral da Doutrina Espírita, da lei da reencarnação, da lei de causa e efeito, das condições do espírito desencarnado no outro lado da vida, dos aspectos morais contidos e implícitos em tudo isso.

E se ainda agora, repetimos, tantos e tantos médiuns se perdem, tendo diante de si, ao alcance da mão, um roteiro seguro, imagine-se o que não foi no passado o exercício da mediunidade. Quanta aberração, quanta obsessão desencadeada, quanta gente fascinada por ideias fantasiosas, quantas tolices e ingenuidades cometidas, quantas doutrinas fantásticas que chegaram até a servir de apoio às mais absurdas seitas místicas.

Tive há pouco a feliz oportunidade de encontrar um livro bastante raro hoje, que nos leva àquele período em que a Codificação lutava bravamente contra uma enorme hostilidade do ambiente para divulgar o Espiritismo ordenadamente, racionalmente, cuidadosamente, alertando quanto às práticas perniciosas, advertindo quanto ao exame atencioso dos fenômenos e das ideias suscitadas nas sessões.

Essa época de tumultuada fascinação diante do fenômeno foi a segunda metade do século XIX.

Como se sabe, foi quase que exatamente no meio do século, isto é, em 1848, que a Espiritualidade deslanchou, como se diria hoje, o plano, na tentativa última de chamar o homem à realidade de sua condição espiritual. A celeuma foi enorme entre detratores apaixonados e negadores irredutíveis de um lado, e, os primeiros convertidos, do outro lado. De certa forma, a controvérsia continua, porque haverá sempre aqueles que se empenham em não tomar conhecimento do progresso irreversível da humanidade, mas a coisa está hoje bastante mudada, porque as questões religiosas não suscitam mais as paixões antigas que, por exemplo, levantaram toda a Alemanha no século XVI, por ocasião da Reforma. Naquele tempo, desde o humilde artífice até o Príncipe Eleitor, eram todos teólogos amadores, a discutirem acirradamente dogmas e pontos de vista religiosos.

Hoje, as doutrinas religiosas que se opõem à concepção formulada pelos Espíritos junto a Kardec, estão muito esvaziadas do seu próprio conteúdo e de sua autoridade. Por outro lado, uma parcela significativa da humanidade encarnada, talvez a maioria, no momento, desinteressou-se das questões espirituais, voltando-se mais para as condições suscitadas pela vivência do ser encarnado, para os aspectos meramente materiais, imediatistas, oportunistas, numa sede insaciável de prazeres, que coloca todos os demais valores da vida em plano secundário. Em muitos círculos sociais, se hoje declararmos nossa condição de espíritas, a reação será normal, como se disséssemos que somos fluminenses, ou nordestinos, ou gaúchos. Na Idade Média, qualquer posição contrária à religião oficial acarretava punições tremendas. Com o passar do tempo, o "ódio teológico" abrandou-se, mas ainda no século XIX predominava um resíduo considerável de preconceito religioso.

Por isso, ao surgir a Doutrina Espírita, passado o primeiro momento de curiosidade e até de algum espanto, quando as diversas correntes do pensamento humano começaram a tomar posição, vimos um verdadeiro desatar de paixões contra ela e contra o seu codificador. E, coisa curiosa, não eram só os materialistas e descrentes, nem somente os religiosos das diversas seitas que se esforçaram por combater a jovem doutrina - foram também aqueles que tinham conhecimento do fenômeno mediúnico e sabiam por experiência própria que os fatos eram autênticos. Vemos essa posição no Barão de Guldenstubbé, no seu hoje raríssimo livro "Realité des Esprits" - que ainda examinaremos aqui, em outro artigo - e vemos igual posição nos escritos e pronunciamentos até de médiuns que, como ninguém mais, deveriam estar preparados para corroborar a doutrina revelada a Kardec com os exemplos abundantes suscitados pela prática mediúnica. Está neste caso o médium Daniel Dunglas Home, cuja vida de precursor estudamos em "Reformador" de abril de 1972.

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Há muito andávamos à procura de seus livros. Localizamos um deles na preciosa biblioteca da Federação Espírita Brasileira. O original inglês chama-se "Lights and Shadows of Spiritualism" ("Luzes e Sombras do Espiritualismo"). O exemplar da FEB é a tradução de Henry La Luberne para o francês, sob o título "Les Lumiêres et Les Ombres du Spiritualisme", datada de 1883. Baseia-se no original inglês escrito em 1876, há quase um século, portanto. Ao ser publicado o livro de Home, fazia 19 anos que saíra "O Livro dos Espíritos" e apenas 7 anos que desencarnara Kardec. A obra tem, pois, o valor de um depoimento pessoal, retrato de uma época difícil para o Espiritismo em que, a despeito da sua rápida expansão no seio da classe média, a doutrina enfrentava terrível campanha de oponentes de muitas cores, tendências e propósitos. Uniam-se nessas lutas contra o Espiritismo, correntes religiosas e agnósticas, materialistas e crentes, e até médiuns!

A prática mediúnica desordenada e descontrolada se desenvolvera fantasticamente, porque sob o impacto da novidade e diante do insólito dos fenômenos suscitados, toda a gente queria ver espíritos, conversar com espíritos, receber mensagens, dar notícias, pedir informações, buscar conselhos, solicitar curas de seus males e resolver problemas humanos, sem nenhum conhecimento doutrinário orientador.

Funcionou aí, também, a velha lei econômica da oferta e da procura. O assédio aos médiuns foi tão intenso que a mediunidade tornou-se rendosa. Ainda que o médium não procurasse ficar rico, pelo menos gostava da projeção e da fama que alcançava facilmente. Se as faculdades lhe eram retiradas, aprendia a forjar os fenômenos, a fingir comunicações, enfim, a enganar o próximo, pois a clientela, pagante ou não, ali estava para ser atendida. Quando começaram a se popularizar os fenômenos de materialização, por exemplo, foi um Deus nos acuda: os médiuns de efeitos físicos eram solicitadíssimos, principalmente pelas altas rodas sociais da nobreza. Todas as portas se abriam e os acolhiam principescamente. Os grandes médiuns se hospedavam em palácios e levavam uma vida mansa e farta, adulados, cercados pela admiração de gente importante: imperadores, reis, príncipes, poderosos de toda a sorte e damas da nobreza e da riqueza.

Com o conhecimento que hoje temos da doutrina e com a experiência que se acumulou ao longo de todos esses anos, é fácil imaginar as enormes tolices que foram cometidas em nome do Espiritismo, mascaradas de Espiritismo ou supostamente acobertadas pelo Espiritismo.

O livro de Home é, pois, um testemunho valioso dessa época. Ele próprio, a despeito de suas notáveis faculdades - sua mediunidade era multiforme -, não compreendeu Kardec, nem aceitou a sua doutrina, que combateu energicamente. Foi, no entanto, um médium honesto no exercício de suas faculdades, prestou-se docilmente à experimentação científica, trabalhava às claras, sem mistificação, e jamais foi apanhado em fraude. Quando os Espíritos lhe anunciaram certa vez que sua mediunidade seria suspensa por um ano - e foi -, retirou-se discretamente, recusando-se a qualquer prática fraudulenta para manter-se em evidência. O próprio imperador da Rússia, que desejava conhecê-lo, foi fielmente informado pelo médium de que suas faculdades haviam sido retiradas. O imperador, muito diplomaticamente mandou dizer-lhe que desejava conhecer o homem e não apenas o médium, no que foi gentilmente e com alegria atendido por um Home extremamente lisonjeado.

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O livro de Home apresenta um esboço histórico das antigas crenças da humanidade, desde o tempo dos caldeus, babilônios e egípcios até gregos e romanos, passando pela Índia e pela China e estudando, em algumas páginas breves, as crenças dos judeus e depois o Cristianismo. Entra, a seguir, na apreciação do espiritualismo moderno, em cujo terreno se sente mais à vontade. Home é um autor inteligente e dono de razoável cultura. Sem ser um escritor no verdadeiro e amplo sentido da palavra, expõe suas ideias com facilidade e, às vezes, com certa veemência. As farpas do estilo ele as reserva para Kardec e sua doutrina, principalmente para a reencarnação, que combate tenazmente, com argumentos insustentáveis e até infantis. (Veremos isso.)

Sente-se na obrigação de escrever o livro, como um testemunho pessoal, cuja autoridade se apoia na sua experiência de longos anos de prática mediúnica: ao escreve-la, em 1876, estava com 43 anos de idade e viveria ainda mais 10. É, pois, uma obra destinada a colocar as coisas no seu devido lugar, tal como ele, Home, entendia que deveriam ficar.

A ideia de escrever esse livro não foi bem recebida por vários de seus amigos, enquanto outros a apoiaram, invocando a autoridade de que ele se achava investido para opinar sobre a matéria. Seu famoso amigo William Crookes foi de uma franqueza algo rude ao dizer-lhe, sem rebuços: "Duvido que um livro como o seu possa prestar grandes serviços. Os médiuns, você sabe, são muito ciumentos uns dos outros. Ora, uma acusação por mais bem provada que seja, do momento em que seja levantada por um médium contra outro médium torna-se, por esta simples razão, duvidosa; é posta, logo de início, na conta do ciúme e perde seu valor." E por aí vai. Home, no entanto, deixou-se convencer pelos que apoiavam seu projeto e meteu mãos à obra.

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Depois da exposição histórica e de uma breve apreciação do espiritualismo moderno, o autor, já no capítulo VI, intitulado "Ilusões", entra na apreciação da balbúrdia em que se encontrava o exercício da mediunidade no seu tempo e dos médiuns que se perdiam em fantasias e induziam tantas pessoas a prática de loucuras e infantilidades. Dois desses "profetas", ambos ex-reverendos protestantes, cometeram os maiores desacertos. Chamava-se um J. D. Scott e o outro T. L. Harris. Mantinham em Auburn, (Nova York), um círculo mediúnico a que deram o nome de "The Apostolic" ("O Apostólico"), onde pontificava como médium uma senhora Benedict. Os espíritos manifestantes se diziam todos pertencentes aos primeiros anos da era cristã, tendo vivido na Judeia. Dentro em pouco havia um boletim para divulgar as ideias dos espíritos que, declarando-se seres sobrenaturais, portadores de uma revelação superior, conseguiram criar uma seita fanática, cuia sede fizeram deslocar-se para Mountain Cave, na Virgínia, onde uma comunidade foi fundada para dar início à idade de ouro da fraternidade. Dentro de algum tempo, Scott, cuja ambição fora crescendo incessantemente, declarava ter visto o próprio Deus face a face. Tornara-se seu médium absoluto, dizia. A entrada obrigatória para o céu era o templo sagrado de Mountain Cave e em torno dessa comunidade muitos e poderosos interesses começaram a se agrupar. "Ao cabo de alguns anos, diz Home, a "Nova Jerusalém" - pois assim designavam a comunidade - virou Pandemônio" e a fortuna entregue aos profetas pelos crentes ingênuos desapareceu para sempre.

Em Genebra, em 1856, apareceu uma obra intitulada "Roma, Genebra e a Igreja do Cristo", ditada - dizia a primeira página - por meio da mesa, pelo próprio "Filho de Deus, o Salvador do mundo".

Uma pobre senhora conta a Home como se eixou envolver, e ao marido, numa lamentável aventura mediúnica, na qual o casal perdeu uma fortuna considerável que foi entregando, por vários meios e processos, ao médium, seus familiares e amigos. O marido, professor de matemática, morreu ao cabo de alguns anos, deixando a viúva numa terrível miséria sob a indiferença total dos antigos beneficiados de sua fortuna.

"Os únicos espíritos que produzem esse tipo de monomania religiosa são os vaidosos e orgulhosos", diz Home e continua: "O mesmo se pode dizer das fantasias de Allan Kardec, cujos adeptos são recrutados sobretudo nas classes burguesas da sociedade. É um consolo para essas pessoas que nada são, acreditarem que foram grandes personagens antes do nascimento e que serão ainda importantes depois da morte."

Home oferece aqui uma pequena amostra da sua posição diante de Kardec e principalmente ante a reencarnação, mas é no capítulo seguinte, "A doutrina de Allan Kardec", que ele desenvolve mais longamente suas críticas ao Espiritismo. Vejamos.

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"Classifico a doutrina de Allan Kardec, diz ele logo de início, entre as ilusões deste mundo e tenho boas razões para isso, como se verá. Conheci o iniciador, ou antes, o renovador dessa fase moderna do velho paganismo". Prossegue dizendo que não põe em dúvida a sua boa fé (ainda bem), mas que ele pretendeu iluminar o mundo com a velha doutrina pitagoriana das vidas sucessivas. Para isso, segundo Home, Kardec magnetizava os médiuns e fazia-os dizerem aquilo que ele, Kardec, queria que eles dissessem. Muito simples. Estranha o médium-autor que Jâmblico tenha aprendido tão bem a escrever em francês nas suas comunicações a Kardec e que Pitágoras tenha esquecido o grego. Julga-se com direito a fazer essas críticas ao dizer: "Sou conhecido por ser o que se convencionou chamar um clarividente; tenho, assim, o direito de falar com conhecimento de causa quanto a essa fase particular da psicologia." E volta a  insistir na sua tese: Kardec não era médium e sim um mero magnetizador: “Sob o império de sua vontade enérgica, seus médiuns não passavam de máquinas de escrever, que reproduziam servilmente seus próprios pensamentos.” E junta um testemunho, da seguinte maneira: “Atesto a veracidade do seguinte fato. Antes mesmo que eu tivesse conhecimento da morte de Allan Kardec, recebi dele, na presença do Conde de Dunraven, hoje Visconde Adare, uma mensagem nos seguintes termos: “Lamento haver ensinado a doutrina espírita. Allan Kardec.” 

Como as nossas paixões são artificiosas e como descobrimos mil modos e meios para satisfazê-las... O próprio Home. Em exemplos pelo seu livro afora, recomenda que se acautele o médium com o exame cuidadoso do que dizem os espíritos e tome suas precauções contra as falsas identidades e fantasias. Quando chega, porém, o momento de manifestar um ponto de vista que lhe é próprio, qualquer mensagem é considerada autêntica. Essa mensagem, no entanto, nem o Sr. Jean Vartier, (1) um século depois, conseguiu aceitar como autêntica. Não era mesmo para desconfiar que logo em seguida à sua desencarnação, a primeira coisa que o Espírito Kardec se lembra de fazer é vir atestar junto a Home o seu arrependimento por ter pregado o Espiritismo?

Mas isso ainda não é tudo. Home reproduz uma mensagem que teria sido recebida por Morin que, segundo ele, Kardec considerava "um dos seus melhores médiuns". Nessa mensagem, Kardec, também arrependido, teria feito sua "confissão póstuma", repudiando os ensinamentos que difundira "em vida" e se acusando de "orgulho insensato" por ter desejado passar por um semideus salvador da humanidade, quando tudo não foi além de um egoísmo ridículo que somente conseguiu impressionar as classes mais humildes da população!

A evidente falsidade da mensagem e sua total discordância com o verdadeiro espírito de Kardec, não impressionam ao médium Home, que não põe em dúvida sua autenticidade.

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Passa em seguida à crítica de alguns pontos da doutrina, concentrando-se sempre na espinhosa - para ele - questão da reencarnação. Não se conforma com a resposta dos Espíritos de que a doutrina reencarnacionista é fundada na justiça e oferece condições para expiação das nossas faltas passadas. Evidentemente Daniel D. Home não se aprofundou no estudo da Codificação, pois suas críticas, nesse particular, revelam irreparáveis lacunas. Para Home, Kardec pregou que a conquista do céu se dava através do "baralhamento total da identidade das criaturas" através das encarnações sucessivas e que a ordem que reina em toda parte na natureza não encontra a sua contrapartida no mundo dos Espíritos. Onde está isso em Kardec, meu Deus? Acha ele também que os Espíritos são dominados pelo constante temor de se esquecerem de suas experiências terrestres "porque se eles perdem a lembrança de um único incidente, são reenviados cá para baixo para adquirirem um pouco mais de memória" e, por isso, submetem-se a inúmeras encarnações"...

Em seguida, manifesta sua estranheza e repulsa ante as situações que a reencarnação pode criar, no que manifesta, mais uma vez completo desconhecimento do problema. A seu ver, são incalculáveis as perplexidades contidas nessa "doutrina monstruosa". A avó pode vir a ser a sua própria neta. (E daí?) O Nero do primeiro século pode metamorfosear-se (palavra sua) na mística Madame Guyon do último século, o que é um tanto duvidoso, mas não impossível. "A alma de um criminoso pode transformar-se na de um São Vicente de Paula." E isto não é maravilhoso? Um Espírito pejado de crimes saber que com arrependimento sincero e muito trabalho regenerador pode chegar a tornar-se um verdadeiro santo, no sentido lato da palavra? Que há nisso de monstruoso ou errado?

Outros aspectos da questão parece perturbarem sobremodo o famoso médium. Partindo do ensinamento doutrinário segundo o qual o Espírito pode renascer ora como homem, ora como mulher, Home imagina "corolários revoltantes", que mal se arrisca a indicar, de tanto pavor que lhe inspiram. Um exemplo: duas pessoas se unem pelo matrimônio. Têm filhos, depois morrem e renascem com as posições trocadas. "Se se casassem novamente, como explicar o enigma de sua paternidade e da paternidade de seus filhos?" Não entendi. Não há enigma algum. Os componentes de um casal que renasce na mesma família guardam novas relações de parentesco, qualquer que seja o sexo escolhido para a encarnação. O relacionamento anterior é meramente histórico. Sou hoje o pai do meu filho, tanto quanto poderei ser amanhã seu neto, seu genro, ou seu sobrinho. Qual é o problema? Para Home, o problema está em que a doutrina da reencarnação "destrói toda a consanguinidade". É que os Espíritos não se ligam pelo sangue, pela matéria; unem-se pelas afinidades espirituais ou se repelem pela ausência delas. Os laços de sangue, a hereditariedade biológica, física, representam vínculos ocasionais. As vezes confirmam antiquíssimas relações de amizade ou de amor, mas nem sempre o Espírito renasce dentro dos seus grupos habituais; somos às vezes "desterrados" para grupos estranhos, onde os vínculos de sangue realmente nada representam senão uma situação transitória que temos de suportar com tranquilidade, paciência e amor, a fim de que possamos aprender a lição da fraternidade. É até provável que no novo grupo, com o qual não temos grandes afinidades, venhamos a fazer grandes e inseparáveis amigos novos.

Diversamente do que pensava Home, a doutrina da reencarnação não nos prende, como condenados, a uma cadeia eterna de vidas sem remissão. Ao contrário, se não estivéssemos submetidos à lei da reencarnação é que ficaríamos para sempre a errar por aí, como almas perdidas, sem perdão e sem condições de reparar o mal que praticamos.

Para Home, "o mundo reencarnacionista é como um teatro onde as marionetes aparecem, fazem umas piruetas e desaparecem, sujeitas à vontade de quem manipula os cordéis". Diz ele que a natureza humana "se revolta diante de tais exageros". Mais adiante, apresenta outras "confusões revoltantes": ele próprio teve "a honra de encontrar pelo menos doze Marias Antonietas, seis ou sete Marias Stuart, uma porção de São Luizes e outros reis, além de uma vintena de Alexandres e Césares, mas jamais um simples joão-ninguém". E que tem isso a ver com a justeza da doutrina reencarnacionista? Não é por causa disso que a reencarnação vai deixar de existir. O que ele testemunhou, se são exatos os dados que apresenta, foi a existência de uma porção de Espíritos vaidosos, iludidos, fantasistas, mal informados, que se julgam figuras eminentes do passado.

As pesquisas de regressão de memória revelam, às vezes, uma ou outra personalidade eminente, mas revelam também - e sempre - existências em que o Espírito mergulhou no anonimato, no sofrimento, na miséria, na ignorância, na dor, exatamente para redimir faltas cometidas quando estava lá em cima na escala social ou no ápice do poder temporal. A paixão do argumento leva Home a observações totalmente infantis: Onde estariam hoje, pergunta ele, os heróis do passado, Turenne, Bayard, Condé, que não vêm socorrer a França no momento em que os exércitos alemães se acampam sob os muros de Paris (refere-se, naturalmente, à Guerra de 1870)? "Onde estavam esses heróis no dia da agonia de sua pátria? Ou a ausência de patriotismo é uma virtude na doutrina de Kardec ou toda grandeza da alma "é uma impureza da qual os espíritos devem se despojar"?

Sua confusão é total. Supõe ele, a certa altura, que um Espírito que foi sucessivamente Nero, Constantino, Maomé, Carlos Magno, Bacon - uma impossibilidade flagrante em tão curto espaço de tempo - "e se vê subitamente encarnado no corpo do primeiro, a vida inteira não lhe bastaria para decidir-se a adotar uma das quatro proposições" que apresenta a seguir: botar fogo em Paris e tocar violino enquanto a cidade se incendeia; mudar a capital da França; reunir numa só crença católicos, voltaireanos, protestantes e positivistas; inventar um novo produto para matar os homens. (A invenção da pólvora é atribuída a Bacon, o Roger, não a Francis.)

Acha ele, portanto, que as faculdades espirituais que compõem a personalidade de Nero, por exemplo, se encontram no corpo físico de Nero e não no seu Espírito. Não sabe ele - e se diz autorizado a falar como médium - que é o Espírito que impõe suas tendências, vícios ou virtudes à personalidade do homem encarnado. O corpo físico nada é senão um instrumento de trabalho; uma vez abandonado pelo Espírito, é matéria que se decompõe e deixa de oferecer condições para abrigar a alma. Como é que o corpo de Nero, já apodrecido há milênios, vai receber um Espírito - que Espírito? - e influenciá-lo com as suas tendências? Além do mais, decorridos tantos séculos, é de esperar-se que Nero já esteja   bastante diferente do que foi, pela evolução irreversível da alma através do tempo.  Seu Espírito, hoje reencarnado num corpo que ele próprio formasse deveria, por certo, apresentar-se de maneira mais tranquila e moralizada, pelas duras lições que deve ter estudado ao longo de vinte séculos de muitas dores. Que seria do pobre Nero - já que Home se refere a ele mais de uma vez - se não fosse a maravilhosa lei das vidas sucessivas? Que seria de nós?

E assim, sem entender os princípios sobre os quais se apoia a doutrina da reencarnação, Home não entende nem aceita as suas consequências. Por exemplo: se os Espíritos evoluem de vida em vida, como ensina Kardec, para ele "a Grécia de hoje seria mais inteligente que ao tempo de Homero e Sócrates e a França menos imoral que era há quinze séculos". Isto seria verdadeiro se ao longo de todos esses séculos, exatamente os mesmos Espíritos voltassem continuamente a se reencarnar nas mesmas regiões da Terra; sabemos, no entanto, que aqueles que atingiram um estágio superior na evolução espiritual, ficam liberados da dura condição de renascerem na carne. Só virão se e quando desejarem, em missões especiais de sacrifício ou de esclarecimento, ditadas pelo mais puro amor. Para aqui só voltam, obrigatoriamente, aqueles como nós, que ainda muito devemos perante a lei do nosso Paz. Não que Ele nos venha cobrar, como um Deus implacável e temível, mas porque Ele colocou em nossa própria consciência o sonho imortal da felicidade e o anseio invencível da paz que vamos encontrar nas realizações superiores do verdadeiro amor.

Para demonstrar as "incongruências" da reencarnação, Home cita alguns casos. Diz ter conhecido um homem que se lembrava de ter permanecido no seio da terra por longos séculos "como um metalóide"! Depois, encarnou--se no corpo de um tigre real e a essa "encarnação" atribuía seu temperamento fogoso e atirado. Outro seu conhecido lembrava-se de ter sido "uma lâmina de aço"! Casos evidentes de pobres seres ingênuos, montados numa ignorância comovente e servidos por uma imaginação fértil e fantasista, que são tomados como exemplos para demonstrar a falsidade da doutrina da reencarnação. Assim não dá nem para argumentar.

Home conclui seu capítulo dizendo que, fora essas ilusões, nada resta da doutrina de Allan Kardec. "É um sonho, uma alucinação como tantas outras."

Kardec não passaria de um escolar da idade média, discípulo de Tomás de Aquino, que veio ao século dezenove para perturbar as pesquisas de um grupo de sábios positivistas.

Traz na mão direita um pergaminho com as seguintes palavras enigmáticas: "Minha missão é dupla: tomo o lugar do Cristo e confundo a identidade da criatura"..

*

Tais são, segundo Home, as sombras do Espiritismo. As luzes ele reserva para o último capítulo, no qual narra alguns episódios interessantes, mas banais, de sua própria mediunidade, nos quais identificou Espíritos, fez tocar acordeão por mãos invisíveis, apanhou brasas com as mãos, na lareira, moveu peças de mobiliário, etc., tudo muito legítimo e muito interessante, mas a velha pergunta retorna: e daí? Para substanciar esses relatos, transcreve depoimentos pessoais de amigos seus, quase sempre da nobreza da época. Modestamente, reproduz até elogios como este da Condessa Catarina Lugano di Panigai, de Florença: "Uma noite de julho de 1874, tive a felicidade de assistir a uma sessão dada pelo Sr. Daniel Dunglas Home, médium célebre, do qual não farei aqui o retrato; o Sr. D. D. Home é muito conhecido pelas suas distintas qualidades e por aquela leal e franca conduta que distingue o verdadeiro cavalheiro." O que, aliás, é estritamente verdadeiro, diga-se em favor da justiça. Home foi realmente uma pessoa de excelente educação, grande desembaraço social, de conduta irrepreensível e que jamais comerciou a sua mediunidade e nem procurou fraudar fenômenos para ganhar prestígio ou dinheiro. Sua dificuldade esteve em conciliar os fenômenos que produziu com um corpo doutrinário coerente, racional e amplo como a Codificação de Allan Kardec. Todo o seu trabalho - e foi extremamente valioso - concentrou-se em comprovar a sobrevivência do Espírito. Muitos seres humanos atraiu para essa ideia redentora e, com isso, dava-se por satisfeito. De certa forma, deixou passar a sua oportunidade, naquela encarnação. Sendo contemporâneo de Kardec, não quis ouvir o chamado da Doutrina. Mas, afinal de contas, a reencarnação, que tanto combateu sem entender, já o trouxe, segundo suspeitamos, de volta à carne, para espalhar por toda parte, a palavra redentora do Espiritismo puro. O mestre lionês, a quem então não entendeu, é hoje objeto de sua profunda e respeitosa veneração; nele reconhece o mensageiro que nos trouxe a ciência e a moral, a lógica e o amor, a explicação e a esperança, contidos num só corpo doutrinário. Que mais poderia desejar o ser humano, além e acima desse breviário de paz, desse roteiro para as mansões da luz a que Kardec chamou de Espiritismo?

Graças a Deus, Daniel Dunglas Home também encontrou um dia a sua estrada de Damasco e, algo aturdido, perguntou como Saulo: - Senhor, que queres que eu faça?

E Jesus lhe mostrou a grandeza da obra e o trabalho que ela exige para expulsar, com as novas luzes, as sombras dos nossos descaminhos. 

(1) Vide o artigo "Allan Kardec e o Mistério de Uma Fidelidade Secular", publicado em "Reformador" de abril de 1973, pág. 101.



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