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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Multiplicam-se os pães (a palavra de Mateus)



Multiplicam-se
os pães

14,13 A esta notícia, Jesus partiu dali numa barca para se retirar a um lugar deserto, mas o povo soube e a multidão das cidades o seguiu a pé.
14,14 Quando desembarcou, vendo Jesus essa numerosa multidão, moveu-se de compaixão para com ela e curou seus doentes.       
14,15 Caía a tarde. Agrupados em volta dele, os discípulos disseram-lhe: -Este é um lugar deserto e a hora é avançada. Despede essa gente para que  vá  comprar  víveres  na  aldeia.   
14,16 Jesus respondeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer!
14,17 -Mas, disseram eles, nós não temos aqui mais que cinco pães e dois peixes.
14,18 “Trazei-mos!”, disse-lhes Ele.   
14,19 Então, mandou assentar os homens na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao céu, abençoou-os. Partindo, em seguida, os pães, deu-os aos seus discípulos, que os distribuíram ao povo.
14,20 Todos comeram e ficaram fartos e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cestos cheios.
14,21  Ora, os convivas foram, aproximadamente, cinco mil homens, sem contar as mulheres e as crianças.

            Para  Mt (14,16) -Dai-lhes vós mesmos de comer... - leiamos “Fonte Viva” de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Diante da multidão fatigada e faminta,  Jesus recomenda aos apóstolos:
 “Dai-lhes vós de comer”. A observação do Mestre é importante, quando realmente poderia ele induzi-los a recriminar a multidão pela imprudência de uma jornada exaustiva até o monte, sem a garantia do farnel.

            O Mestre desejou, porém, gravar no espírito dos aprendizes a consagração deles ao serviço popular. Ensinou que aos cooperadores do Evangelho, perante a turba necessitada, compete tão somente um dever - o da prestação de auxílio desinteressado e fraternal.

            Naquela hora do ensinamento inesquecível, a fome era naturalmente do corpo, vencido de cansaço, mas, ainda e sempre, vemos a multidão carecente de amparo, dominada pela fome de luz e de harmonia, vergastada pelos invisíveis azorragues da discórdia e da incompreensão.

            Os colaboradores de Jesus são chamados, não a obscurecê-la com o pessimismo, não a perturbá-la com a indisciplina ou a imobilizá-la com o desânimo, mas sim a nutri-la de esclarecimento e sublime esperança.

            Se te encontras diante do povo, com o anseio de ajudá-lo, se te propões contribuir na regeneração do campo social, não te percas em pregações de rebelião e desespero. Conserva a serenidade e alimenta o próximo com o teu bom exemplo e com a tua boa palavra.

            Não olvides a recomendação do Senhor: - “Dai-lhes vós de comer.” ”

          Para  Mt (14,19) - Mandai Assentar os Homens, encontramos a palavra de Emmanuel, no livro “Caminho, Verdade e Vida”, psicografia de Chico Xavier:
           
            “Esta passagem do Evangelho de João é das mais significativas. Verifica-se quando a multidão de quase cinco mil pessoas tem necessidade de pão, no isolamento da natureza. Os discípulos estão preocupados. Filipe afirma que duzentos dinheiros não bastarão para atender à dificuldade imprevista. André conduz ao Mestre um jovem que trazia consigo cinco pães de cevada e dois peixes.

            Todos discutem.

            Jesus, entretanto, recebe a migalha sem descrer de sua preciosa significação e manda que todos se assentem, pede que haja ordem, que se faça harmonia. E distribui o recurso com todos, maravilhosamente. A grandeza da lição é profunda.

            Os homens esfomeados de paz reclamam a assistência do Cristo. Falam nEle, suplicam-lhe socorro, aguardam-lhe as manifestações. Não conseguem, todavia, estabelecer a ordem em si mesmos, para a recepção dos recursos celestes. Misturam Jesus com as suas imprecações, suas ansiedades loucas e seus desejos criminosos. Naturalmente se desesperam, cada vez mais desorientados, porquanto não querem ouvir à calma, não se assentam para que se faça a ordem, persistindo em manter o próprio desequilíbrio.”

            Para Mt (14,13-21), transcrevemos, a seguir, Kardec , no Cap. XV de “A Gênese”:

            “A multiplicação dos pães é um dos milagres que mais têm intrigado os comentadores e alimentado, ao mesmo tempo, as zombarias dos incrédulos. Sem se darem ao trabalho de lhe perscrutar o sentido alegórico, para estes últimos ele não passa de um conto pueril. Entretanto, a maioria das pessoas sérias há visto na narrativa desse fato, embora sob forma diferente da ordinária, uma parábola, em que se compara o alimento espiritual da alma ao alimento do corpo.

            Pode-se, todavia, perceber nela mais do que uma simples figura e admitir, de certo ponto de vista, a realidade de um fato material, sem que, para isso, seja preciso se recorra ao prodígio. É sabido que uma grande preocupação de espírito, bem como a atenção fortemente presa a uma coisa fazem esquecer a fome. Ora, os que acompanhavam a Jesus eram criaturas ávidas de ouvi-lo; nada há, pois, de espantar em que, fascinadas pela sua palavra e também, talvez, pela poderosa ação magnética que ele exercia sobre os que o cercavam, elas não tenham experimentado a necessidade material de comer.

            Prevendo esse resultado, Jesus nenhuma dificuldade teve para tranquilizar os discípulos; dizendo-lhes, na linguagem figurada que lhe era habitual e admitido que realmente houvessem trazido alguns pães, que estes bastariam para matar a fome à multidão. Simultaneamente, ministrava aos referidos discípulos um ensinamento, com o lhes dizer: “Dai-vos vós mesmos de comer.” Ensinava-lhes assim que também eles podiam alimentar por meio da palavra.

            Desse modo, a par do sentido moral alegórico, produziu-se um efeito fisiológico, natural e muito conhecido. O prodígio, no caso, está no ascendente da palavra de Jesus, poderosa bastante para cultivar a atenção de uma  multidão imensa, ao ponto de fazê-la esquecer de comer. Esse poder moral comprova a superioridade de Jesus, muito mais do que o fato puramente material da multiplicação dos pães, que tem de ser considerada como alegoria.

            Esta explicação, aliás, o próprio  Jesus a confirmou, nas  passagens seguintes:

             O Fermento dos Fariseus -Mt(16,5-12), O Alimento do Filho -Jo(6,22-29) e  Pão da Vida - Jo(6,30-50);

            Na primeira passagem, lembrando o fato precedentemente operado, Jesus dá claramente a entender que não tratar de pães materiais, pois, a não ser assim, careceria de objeto a comparação por ele estabelecida com o fermento dos fariseus: “ainda não compreendeis, diz ele, e não vos recordais de que cinco pães bastaram para cinco mil pessoas e que dois pães foram bastantes para quatro mil?  Como não compreendestes que não era de pão que eu vos falava, quando vos dizia que vos preservásseis do fermento dos fariseus?” Esse confronto, nenhuma razão de ser teria, na hipótese de uma multiplicação material. O fato fora de si mesmo muito extraordinário para ter impressionado fortemente a imaginação dos discípulos, que, entretanto, pareciam não mais lembrar-se dele.

            É também o que não menos claramente ressalta, do que  Jesus expendeu sobre o pão do céu, empenhado em fazer que seus ouvintes compreendessem o verdadeiro sentido do alimento espiritual. “Trabalhai, diz ele, não para conseguir o alimento que perece, mas pelo que se conserva para a vida eterna e que o Filho vos dará ”. Esse alimento é a sua palavra, pão que desceu do céu e dá vida ao mundo. “Eu sou, declara Ele, o pão da vida; aquele que vem a mim não terá fome e aquele que em mim crê nunca terá sede.”

            Tais distinções, porém, eram por demais sutis para aquelas naturezas rudes, que somente compreendiam as coisas tangíveis. Para eles, o maná, que alimentara o corpo de seus antepassados, era o verdadeiro pão do céu; aí é que estava o milagre. Se, portanto, houvesse ocorrido materialmente o fato da multiplicação dos pães, como teria ele impressionado tão fracamente aqueles mesmos homens, a cujo benefício essa multiplicação se operara poucos dias  antes,  ao  ponto  de  perguntarem  a  Jesus:

            “Que milagre farás para que, vendo-o, te creiamos? Que farás de extraordinário?”
           
             Eles entendiam por milagres os prodígios que os fariseus pediam, isto é, sinais que aparecessem no céu por ordem de Jesus, como pela varinha de um mágico.

            Ora, o que  Jesus fazia era extremamente simples e não se afastava das leis da Natureza; as próprias curas não revelavam caráter muito singular, nem muito extraordinário. Para eles, os milagres espirituais não apresentavam grande vulto.”

10. 'Mediunidade e Saúde'



10) Mediunidade e Saúde

por Indalício Mendes

Reformador (FEB) Julho  1959


            O bom exercício da mediunidade constitui, em muitos casos, uma defesa para o médium. Enquanto ele se devota com plena noção de responsabilidade a esse mister, abre diante de si maiores possibilidades de assistência espiritual, em virtude do ambiente favorável que se forma ao seu derredor. Evidentemente, a mediunidade não concede a médium algum prerrogativas de imunidade, porque ele também, às vezes até mais do que aqueles que não são médiuns, está sujeito às leis de causa e efeito, e, portanto, obrigado a amortizar seus débitos. Acontece, entretanto, que a mediunidade enseja a possibilidade de mais ampla amortização, segundo o comportamento do médium e a sua maneira de encarar as responsabilidades da importante tarefa.

            Emmanuel, o esclarecido mentor do Espiritismo evangélico, tem chamado a atenção dos médiuns para o perigo do personalismo. E afirma que "o primeiro inimigo do médium reside dentro dele mesmo. Frequentemente é o personalismo, é a ambição, a ignorância ou a rebeldia, no voluntário desconhecimento dos seus deveres à luz do Evangelho, fatores de inferioridade moral que, não raro, o conduzem à invigilância, à leviandade e à confusão dos campos improdutivos. Contra esse inimigo, é preciso movimentar as energias íntimas pelo estudo, pelo cultivo da humildade, pela boa-vontade, com o melhor esforço de autoeducação, à claridade do Evangelho". ("O Consolador.") Recomendamos com muito empenho, a todos os médiuns, a meditação sobre essas palavras, que encerram profunda lição, Médium sem Evangelho é como lâmpada que se alimenta de mau azeite: ilumina mal e depressa se apaga. Longe de nós, entretanto, a pretensão de pretender ensinar o que quer que seja de Espiritismo, pois o quase nada que possamos conhecer tem diante de si um universo que ainda desconhecemos. Nesta série de escritos dirigidos aos médiuns, apenas realizamos um trabalho de compilação ou externamos algo do que nos foi possível assimilar de leituras e observações pessoais. Sempre recorremos aos luminares da Terceira Revelação, entre os quais Allan Kardec, Emmanuel, André Luiz, Léon Denis e outros. Achamos que, de quando em quando, é útil ir respigando trechos que, relembrados em artigos, reavivam a memória de antigas leituras efetuadas ou servem de guia àqueles que mais facilmente leem as páginas de uma revista do que muitos livros.

*

            Hoje, desejamos tratar da saúde do médium em face dos trabalhos mediúnicos. A boa saúde constitui uma das bases do serviço mediúnico eficiente, pois o exercício da mediunidade sempre determina um certo dispêndio de força nervosa, em maior ou em menor proporção, consoante a natureza da tarefa consumada. Evidentemente, os médiuns de efeitos físicos despendem maior proporção de força nêurica do que os médiuns de efeitos intelectuais, Mas nem por isso se deve pensar que somente os médiuns de efeitos físicos podem fatigar-se. Precisamos recordar que todos nós, além das obrigações inelutáveis que nos impõe a vida material, sempre cansativa, temos os deveres que nos estão fixados no Espiritismo. Nessas condições, o acúmulo de preocupações e de trabalhos nos dois setores pode contribuir para que, em uma ocasião dada, o nosso organismo se apresente necessitado de repouso. Geralmente, os médiuns precisam de estar com boa saúde para oferecerem aos trabalhadores invisíveis melhores e maiores facilidades de "comunicação". Vamos ler em Léon Denis ("No Invisível") esta frase expressiva: “É preciso também velar pelo corpo: mens sana in corpore sano." O velho axioma de Juvenal, citado por Denis, numa adaptação ocasional, significa que a mente fica mais clara e ativa, se o corpo está em boas condições de saúde. Nesse caso é a mente que domina o corpo. Em caso contrário, o corpo pode perturbar a clareza das ideias, porque a mente não encontra o apoio que busca nas energias físicas e perde muito da sua desenvoltura. O mesmo se poderá dizer, mutatis mutandis, do espírito. Embora o comando seja sempre dele, sua autoridade pode ser influenciada se o corpo está enfraquecido ou enfermo. Procuramos dar esse exemplo para fixar bem a importância que o corpo tem e os cuidados que deve merecer. É a nossa máquina, a máquina de que se vale o Espírito para poder cumprir na Terra os seus compromissos humanos e, concomitantemente, espirituais. Em suma, o médium com saúde desempenha melhor o seu papel mediúnico do que o médium enfraquecido ou enfermo. Se ele é apenas o instrumento físico de que se vale
o Espírito desencarnado para poder atuar no mundo material, esse instrumento, esse "aparelho", deve estar em boas condições para não dificultar a ação do comunicante espiritual. E é ainda Léon Denis que o afirma: "A saúde do médium parece-nos ser uma das condições de sua faculdade. Conhecemos grande número de médiuns que gozam perfeita saúde; temos notado mesmo um fato significativo, e é que, quando a saúde se lhes altera, os fenômenos se enfraquecem e cessam até de se produzir." (o grifo é nosso.)

*

            Somente em casos excepcionais se deve permitir o exercício da mediunidade por pessoas enfermas, como, por exemplo, nos casos de real emergência. Os próprios Espíritos, quando compreendem a imprescindibilidade da ação mediúnica rápida ou enérgica, podem utilizar-se de um médium cujas condições de saúde sejam precárias, pois adotam providências acauteladoras e excepcionais, que protegem o médium, conforme nos descreveu André Luiz. Mas são hipóteses que não devem preocupar o médium, visto como os Espíritos elevados jamais o sacrificam e sempre decidem pelo melhor.

            Há enorme diferença entre a mediunidade "espontânea", isto é, entre a mediunidade exercida por iniciativa do Espírito que deseja comunicar-se ou agir através do médium, e a mediunidade provocada pelo médium, sem necessidade essencial. No primeiro caso, os Espíritos apressam a recuperação fluídica e restabelecem mais rapidamente o equilíbrio nervoso para compensar a perda de energia que, porventura, o médium haja sofrido. Não se pode saber, no entanto, se o médium contará com essa valiosa assistência em todas as ocasiões em que ele, fatigado ou enfermo, contraria o bom-senso e toma a iniciativa do trabalho mediúnico, sem se encontrar no estado ideal para exercê-la. Em "O Livro dos
Médiuns", Kardec esclarece: "O exercício muito prolongado da faculdade mediúnica pode causar fadiga?" Resposta: "O exercício muito prolongado de qualquer atividade acarreta fadiga; a mediunidade está no mesmo caso, principalmente a que se aplica aos efeitos físicos, ela necessariamente ocasiona um dispêndio de fluido, que traz a fadiga, mas que se repara pelo repouso." (o grifo é nosso.) Este outro trecho completa o esclarecimento: "Pode o exercício da mediunidade ter, de si mesmo, inconveniente, do ponto de vista higiênico, abstração feita do abuso?" Resposta: "Há casos em que é prudente, necessária mesmo, a abstenção, ou, pelo menos, o exercício moderado, tudo dependendo do estado físico ou moral do médium. Aliás, em geral, o médium sente e, desde que experimente fadiga, deve abster-se." (são nossos os grifos.)

            Deduz-se, do estudo da Doutrina, que o médium deve ser metódico em sua atividademediúnica, embora às vezes tenha necessidade de aumentá-la para atender a casos imprevistos. O repouso, depois do exercício mediúnico, é aconselhável, assim como o repouso periódico, após vários meses de trabalho. Isso só pode ser vantajoso, quer para o médium, quer para os Espíritos que dele se valem e até mesmo para aqueles que costumam beneficiar-se com os efeitos da mediunidade. Conhecemos médiuns que, apesar da idade, insistem em trabalhar mediunicamente horas a fio, embora cansados, porque consideram que o repouso representa uma desatenção aos Espíritos. Semelhante atitude não tem defesa. Todo excesso, nesses casos, é prejudicial. Será melhor trabalhar menos, mas bem, do que muito,
deficientemente. Em certas ocasiões, a fadiga ou a enfermidade provocam o desaparecimento da mediunidade, que pode ser ou não demorada. Convirá, pois, que o médium não cometa excessos, sempre nocivos ao seu equilíbrio orgânico.

            A falta de suficiente estudo da Doutrina é a causa de muita incompreensão. Para se achar bem amparado, o médium não pode prescindir destes dois reforços importantes: "O Evangelho segundo o Espiritismo" e "O Livro dos Médiuns". Estudar a Doutrina, orientar-se por ela, ao mesmo tempo que iluminando a alma no estudo e na exemplificação do Evangelho, é o caminho que seguem os médiuns bem orientados e o que devem palmilhar aqueles que desejam ter a consciência tranquila por haverem cumprido corretamente suas tarefas. 

terça-feira, 2 de julho de 2013

24. 'Revelação dos Papas' - Pascal



24a

‘Revelação dos Papas’
(Obra Mediúnica)

- Comunicações d’Além Túmulo -


Publicada sob os auspícios da
União Espírita Suburbana
Rua Dias da Cruz 177, Méier

Officinas Graphicas d’A Noite
Rua do Carmo, 29
1918


Pascal, o físico


O espírito apresenta-se sob o aspecto de um homem 
de chapéu de copa alta e abas grandes.
Está no meio de uma luz prateada muito branca, 
entrecortada de raios azuis e roxos e facho verdes.
O médium não consegue ver as feições do espírito, 
parecendo-lhe, entretanto,
ser as de uma pessoa moça, de rosto comprido.
A luz é deslumbrante.

________________

            Esperei este momento para vir à Terra falar aos homens em nome de Jesus.

          Aguardei esta hora para manifestar-me às criaturas e dizer-lhes que grandes serão os sacrifícios que fará a humanidade para alcançar a sua liberdade espiritual. Longos serão ainda os sofrimentos que a mesma humanidade terá que suportar.

          Venho dizer-lhes também que uma nova ordem de coisas se estabelecerá na Terra e grandes mudanças se operarão em todos os ramos, principalmente na ciência, que, de ateia e incrédula, passará a inspirar-se na fé apoiada na razão e nos fatos.

          Grandes conquistas fará a nova ciência, imensos horizontes se abrirão para ela, novas luzes hão de guiar os passos do homem de ciência na Terra. Ciência e religião serão inseparáveis, uma não existirá sem a outra; viverão irmanadas. Ninguém duvidará do que não estiver ao alcance da percepção do homem, o que só por dedução e, sobretudo, pela fé o homem poderá conceber. Nada do que hoje se sabe na Terra satisfará ao homem de amanhã. Todas as conquistas da ciência atual ficarão muito aquém das que há de alcançar a ciência do futuro.

          As leis conhecidas pelos homens são ainda em número deficiente para que se possa conferir aí o título de sábio a alguém, por maiores que sejam os seus conhecimentos.

          Confesso que fui em vida e continuo a ser o maior dos ignorantes, visto que os meus conhecimentos nada representam, comparados aos de outros espíritos que conheço e cujas lições tenho recebido com viva satisfação e a mais completa humildade. Tenho imenso prazer em declarar que não fui além dos conhecimentos que possui qualquer aprendiz nos mundos superiores à Terra, nos quais a ciência assombra, deslumbra, ofusca de modo esmagador a ciência deste planeta.

          Estou apenas um pouco mais esclarecido acerca das causas e não as confundo com os efeitos, tomando a nuvem por Juno, como outrora fiz. Tenho já algumas certezas adquiridas com o auxílio das faculdades espirituais, faculdades que se embotam durante a vida corpórea. Tenho feito estudos especiais sobre a matéria e a força, que, sei agora, são coisas distintas, existindo independente uma da outra - pois a força é a vontade de Deus que se modifica, e d’Ele emana diretamente, e a matéria elemento criado por Deus, dirigido pelas forças que são reflexos da Vontade Eterna, que se transforma segundo o plano onde exerce a sua ação, o ponto sobre o qual faz sentir os seus efeitos.

          Força e matéria, portanto, são, hoje para mim, coisas bem distintas no seu modo de ser e de agir.

         Nada mais existe além da vontade de Deus - causa única de todos os efeitos. Tudo que se mostra aos olhos da criatura são efeitos e as causas, aí constatadas pela ciência, são apenas aparentes, transitórias.

          Desde que me desprendi da matéria, adquiri nova concepção do Universo e suas leis. Nada do que trouxe para aqui serviu de base aos estudos que realizei após a morte, pois muito reduzidos eram os meus conhecimentos. Para cada estado que atravessamos, para cada meio onde vamos viver, são precisos novos estudos, novas pesquisas para entrarmos no conhecimento das leis ignoradas no meio de onde saímos.

          Quem vive na Terra ou em planeta da mesma categoria, ao passar para os mundos de categorias diferentes, tem que reformar todos os seus conhecimentos, visto que, desde que vieram as condições mesológicas ─ calor, pressão, densidade, humidade, poder de absorção dos corpos, etc., não se pode aplicar a esse meio os mesmos princípios, processos e métodos usados no meio onde o espírito viveu e adquiriu os seus conhecimentos.

          Mundos existem onde a lei da atração é constantemente modificada pelas forças compensadoras, que a cada passo, atenuam os efeitos daquela lei, sendo necessário, ali, para o estudo da gravidade, entrar-se no conhecimento das leis que regem tais forças e o seu modo de agir isolada ou conjuntamente, estudo esse que se torna difícil, à vista do grande número de modalidades que apresentam as referidas forças compensadoras.

          Habito atualmente em um ponto do Universo onde os corpos abandonados no espaço, ao invés de buscarem o centro da terra, como acontece no nosso planeta, se mantém a uma certa altura do solo, devido à ação das forças compensadoras, que atenuam a ação da gravidade, e todos os corpos, bem como os seres, não guardam a mesma altura, porque a sua estabilidade varia segundo a categoria a que pertencem. Nesse mundo não se anda como na Terra, os meios de locomoção são muito diversos dos adotados no vosso planeta.

          Ali, portanto, não podem ter aplicação as leis da mecânica conhecidas na Terra, ou, para maior clareza, poderemos aplicá-las, dando, porém, os devidos descontos para as modificações que as referidas leis sofrem sob a influência das forças compensadoras; e, nestas condições muito mais complicado deve ser o estado da mecânica nesse mundo, onde as condições mesológicas, as necessidades biológicas e mesmo sociológicas dos seres que habitam essa esfera, diferem por completo das da Terra.

          Estou de tempos a tempos, em contato com habitantes de um meio superior aquele onde vivo, que me dizem que na atmosfera do seu mundo não há vapores, pois fenômeno algum de condensação se verifica; os seres que habitam esse mundo feliz nada absorvem do ambiente que os envolve, nenhuma pressão suportam os corpos, porquanto nesse meio, rarefeito em extremo, nenhum gás existe em suspensão, não havendo, como no vosso planeta, os gases permanentes e aeriformes e também a mistura dos gases que formam o ar que respirais e sem o qual não podeis viver na superfície do vosso globo. Tudo ali é visto de modo muito diverso daquele pelo qual encaramos as coisas no mundo onde vivo e, maior é ainda a diferença entre as maneiras de sentir as coisas naquele mundo e no vosso. Ali os vossos barômetros nada acusariam, as agulhas imantadas conservar-se-iam em repouso eterno, os vossos ácidos e os respectivos sais não se manteriam coesos e uniformes, perderiam os seus principais característicos, ficando reduzidos a mera aglomeração de átomos, desaparecendo para sempre todas as suas propriedades, deixando, portanto, de ter ação sobre a vossa sensibilidade.

          Assim, variam, de categoria a categoria, as condições dos mundos que caminham no espaço.

          Os mundos que gravitam em certos pontos sofrem modificações na sua estrutura física, de acordo com o destino moral de cada planeta e fim moral a que se destinam os corpos celestes, os mundos, influi grandemente na sua rotação e também no seu movimento de translação.

          Para os mundos superiores, chamados mundos espirituais e divinos, o movimento de rotação é muito maior que o dos mundos de categoria inferior, denominados materiais ou planetas de expiação, e o movimento de translação é proporcional ao de rotação. Imaginai a velocidade que desenvolvem tais mundos! Nenhum ser habitante do vosso planeta suportaria essa velocidade e muito menos a falta de pressão atmosférica; qualquer habitante da terra, para ali transportado tal qual se acha organizado, ao chegar a superfície de um desses mundos arrebentaria, ficando reduzido a poeira.

          Todas as condições mesológicas, nos mundos que gravitam no Universo, estão de acordo com o destino moral desses mundos; espíritos evoluídos, que não mais vivem sujeitos as contingências da vida material, não carecem de ambiente pesado, concreto, saturado de matérias deletérias, habitados por seres infinitamente pequenos, como os que vivem em suspensão na vossa atmosfera e tantos males ocasionam a vossa saudade; espíritos que já não suportam os limites da forma, que não podem viver enclausurados dentro do acanhado espaço do corpo humano, vão habitar um meio onde todos os seres se contem no ilimitado, onde as coisas só se concretizam no pensamento dos que habitam essas paragens, quando se comunicam com os habitantes dos mundos de categoria inferior.

24b

‘Revelação dos Papas’
(Obra Mediúnica)

- Comunicações d’Além Túmulo -


Publicada sob os auspícios da
União Espírita Suburbana
Rua Dias da Cruz 177, Méier

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Rua do Carmo, 29
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Pascal, o físico


          Ai tendes como a vida moral influi sobre a material, à medida que o espírito sobe na hierarquia espiritual, à proporção que caminha para a perfeição. Quanto mais se apuram as faculdades morais do espírito, vão cessando também as contingências, diminuem as necessidades, - um que atua, o outro que reage.

          Os seres que habitam aquelas terras privilegiadas nada recebem do exterior, materialmente falando, assim como também nada devolvem ao meio. E porque o meio está assim organizado, por isso mesmo atrai os seres análogos a ele, que ali desfrutam uma vida deliciosa, vida contemplativa, vida de êxtases, viver de santos e bem-aventurados. Quem sobe a essas paragens - onde tudo parece feito de luz, onde há só claridade, onde as consciências se refletem a distância e as ondas finíssimas do éter levam o pensamento a distâncias incalculáveis (tendes uma pálida imagem dessa telepatia divina na vossa telegrafia sem fio) - fica deslumbrado, sem saber - dizem os que lá foram - como se pode viver em tais condições, e só, depois que se adapta ao meio começa a entender a razão e o porquê das coisas. Os habitantes desses mundos são os espíritos escolhidos por Deus para as missões especiais, cuja responsabilidade não podemos medir nem calcular.

          Fora da Terra, portanto, variam por completo as condições mesológicas e, para cada meio são necessários órgãos especiais e a adaptação das faculdades da alma às condições do ambiente onde o espírito é chamado a cumprir a sua provação. Onde há luz, são necessários aparelhos especiais para suportar as vibrações do ar e distinguir as imagens, a forma e cor dos objetos; onde há ausência de luz, não mais são necessários os nervos óticos; as retinas e outros acessórios indispensáveis à visão, mas tateia-se, apalpa-se. Desenvolve-se então o tato, a seleção é feita por meio de órgão apropriados, com auxílio dos quais o ser consegue saber se está em face de um corpo sólido, líquido ou gasoso, e até perceber os característicos pelos quais são distinguidos os seres e as coisas.

          São mundos inferiores esses onde a luz escasseia, onde não há coloração, onde tudo é opaco, obscuro, pesado e sombrio, mundos onde habitam os que começam a evoluir, os que hão de um dia chegar aos mundos de luz, das claridades eternas.

          Como vedes, o espírito parte da treva para a luz e, a medida que a sua consciência vai despertando, ele vai cada vez mais banhando-se na luz, mergulhando nas vibrações sempre mais rápidas e sutis do éter, purificando-se, depurando-se, despindo-se das impurezas materiais, tornando, a cada etapa, o seu perispírito mais brilhante, aumentando-lhe o poder de irradiação, até transformá-lo num sol vivo, fazendo-o mais diáfano, pensante, consciente da sua existência no tempo e no espaço, caminhando em demanda da bem-aventurança, identificando-se com o seu Criador, cujos desígnios aprende a decifrar, cujas leis consegue interpretar, de cuja sabedoria participa, de cujo amor vive por toda a eternidade!

          Ai tendes a diferença existente entre o vosso mundo e os demais que povoam o Universo.

          Que Deus vos dê, a todos vós, coragem e ânimo para que possais vos aperfeiçoar, a fim de irdes, cada dia, subindo nessa escada de luz, cujos degraus são os mundos, e que deveis galgar a custa dos mais ingentes esforços e suportando duras provações, certos de que, aos chegar ao alto da luminosa escada, encontrareis a compensação de todos os esforços, o prêmio para todos os sacrifícios que houverdes feito durante a gloriosa ascensão.
         
            Que assim seja - diz o vosso irmão.

Pascal, o físico
Março de 1917


Informações Complementares - Blaise Pascal (Clermont-Ferrand, 19 de Junho de 1623 — Paris, 19 de Agosto de 1662) foi um físico, matemático, filósofo moralista e teólogo francês.

09. 'Mediunidade e Perseverança'




09) Mediunidade e Perseverança

por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Dezembro 1958

            Há pessoas de mediunidade ainda incipiente que não concordam em se entregarem a paciente e demorado trabalho de desenvolvimento de suas faculdades. Admiram os grandes médiuns e querem chegar depressa a fazer o que eles fazem, esquecidos de que "a natureza não dá saltos". Há ocasiões em que a mediunidade repentinamente evolve e o médium passa a fazer trabalhos que outros médiuns não conseguem realizar senão depois de longo tempo de exercício. Todas as particularidades do mediunismo são explicadas em "O Livro dos Médiuns", de Allan Kardec. Muitas vezes a mediunidade requer ambiente propício a seu desenvolvimento. Todos sabemos que semelhante faculdade, na sua parte técnica, independe da vontade individual e da moralidade, posição social, educação, crença, raça e estado da pessoa, tal como sucede relativamente à inteligência e ao talento. A mediunidade não é hereditária, mas há casos de famílias inteiras possuírem membros dotados de recursos mediúnicos.

            Está em moda, agora, graças aos esforços dos inimigos do Espiritismo, negar a mediunidade. Não importa que a neguem, porque semelhante atitude não impedirá que os médiuns apareçam e desempenhem as atividades inerentes ao mediunismo. Isto tem sido assim desde que o mundo é mundo, de modo que não seria hoje em que o Espiritismo está disseminado e melhor compreendido, porque as possibilidades de leitura, estudo e prática são infinitamente mais amplas que sucederia o contrário.

            Os que se iniciam nos mistérios da mediunidade devem dar atenção a estas palavras de Léon Denis: "Muitas decepções e dissabores seriam evitados se se compreendesse que a mediunidade percorre fases sucessivas, e que, no período inicial de desenvolvimento, o médium é, sobretudo, assistido por Espíritos de ordem inferior, cujos fluidos, ainda impregnados de matéria, se adaptam melhor aos seus e são apropriados a esse trabalho de bosquejo, mais ou menos prolongado, a que toda faculdade está sujeita.”

            "Só mais tarde, quando a faculdade mediúnica, suficientemente desenvolvida, adquiriu a necessária maleabilidade, e se tornou dúctil o instrumento, é que os Espíritos elevados podem intervir e utilizá-la para um fim moral e intelectual. O período de exercício, de trabalho preparatório, tão fértil muitas vezes em manifestações grosseiras e mistificações, é pois uma fase normal de desenvolvimento da mediunidade; é uma escola em que a nossa paciência e discernimento se exercitam, em que aprendemos a nos familiarizar com o modo de agir dos habitantes do Além.”

            "Nessa fase de prova e de estudo elementar, deve sempre o médium estar de sobreaviso e nunca se afastar de uma prudente reserva. Cumpre-lhe evitar cuidadosamente as questões ociosas ou interesseiras, os gracejos, tudo em suma que reveste caráter frívolo e atrai os espíritos levianos.”


            “É preciso não se deixar esmorecer pela mediocridade dos primeiros resultados, pela abstenção e aparente indiferença dos nossos amigos do espaço. Médiuns principiantes, ficai certos de que alguém vela por vós e de que a vossa perseverança é posta à prova. Quando houverdes chegado ao ponto requerido, influências mais altas baixarão a vós e hão de continuar a vossa educação psíquica. Não procureis na mediunidade um objetivo de mera curiosidade ou de simples diversão; considerai-a de preferência um dom do céu, uma coisa sagrada, que deveis utilizar com respeito, para o bem de vossos semelhantes. Elevai o pensamento às almas generosas que trabalham no progresso da Humanidade; e elas virão a vós e vos hão de amparar e proteger. Graças a elas, as dificuldades do começo, as inevitáveis decepções que experimentáveis não terão desagradáveis consequências; servirão para vos esclarecer a razão e vos desenvolver as forças fluídicas.”

            "A boa mediunidade se forma lentamente, no estudo calmo, silencioso, recolhido, longe dos prazeres mundanos e do tumulto das paixões. Depois de um período de preparação e expectativa, o médium colhe o fruto de seus perseverantes esforços; recebe dos Espíritos elevados a consagração de suas faculdades amadurecidas no santuário de sua alma, ao abrigo das sugestões do orgulho. Se guarda em seu coração a pureza de ato e de intenção, virá, com a assistência de seus guias, a se tornar um cooperador utilíssimo na obra de regeneração que eles vêm realizando." (“No Invisível” - Educação e função dos médiuns.)

            Transcrevemos apenas alguns trechos dessa obra admirável de Léon Denis; muito útil à leitura de todos aqueles que desejarem conhecimentos maiores a respeito do Espiritismo e particularmente acerca da mediunidade. A parte em que esse grande apóstolo francês trata da educação dos médiuns é importantíssima. Em nossa opinião, todos os indivíduos dotados de mediunidade, estejam ou não em fase de desenvolvimento, devem ler "O Livro dos Médiuns" e outras obras, como "No Invisível", de Denis, "Estudando a Mediunidade", de Martins Peralva, etc., para adquirir conhecimentos e assimilar conselhos de grande utilidade. Quanto mais o médium procurar ambientes favoráveis, melhor. A mediunidade deve ser tratada com muito carinho, o médium deve interessar-se por ela e defendê-la, porque, sem dúvida alguma, sua situação será sempre influenciada por essa faculdade prodigiosa. Tratá-la com indiferença ou mal tratá-la constituirá perigo para si próprio. Deve, pois, resguardá-la e defendê-la, porque estará defendendo a si mesmo. Nem se pense que a mediunidade é atributo exclusivo de espíritas. Ela pode surgir e manifestar-se em qualquer indivíduo, espírita, protestante, católico, muçulmano, budista ou ateu. Não importa. Não é um produto de crença nem de educação. Por isto é que não podemos deixar de sorrir quando os inimigos do Espiritismo, desejando combater a mediunidade, negam-lhe a existência ou afirmam, embora intimamente convictos da insubsistência da afirmativa, que ela é uma influência diabólica... Por pensarem assim é que muitas pessoas se atormentam, sofrendo os efeitos da "retenção da mediunidade". São médiuns e não se desenvolvem, ou não querem trabalhar. Tornam-se, não raro, joguetes de Espíritos inferiores, e não vale água benta e exorcismo para afastá-los.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

13. 'Rimas do Além Túmulo - o peregrino





13
‘Rimas do Além Túmulo’
Versos Mediúnicos de
 Guerra Junqueiro

Grupo Espírita Roustaing
Belém do Pará 1929

Casa Editora Guajarina

O Peregrino

             
            O Peregrino exul (exilado) parou naquela estrada,        
depois de muito andar. A face amargurada,
banhado de suor, ajoelhou-se e orou 
uma oração de dor, que para Deus voou,
            apoiada nos galhos de arvore frondosa.
qual meigo passarinho de asas cintilantes
que adejasse no ar e que em breves instantes 
fosse ao ninho pousar, alegre num gorjeio... 
Assim, a oração do Justo foi ao seio
de Deus e aí tornou-se um lírio sacrossanto,
perfumado e singelo, orvalhado de pranto!
Quem era esse mendigo, humilde e esfarrapado,
que assim, naquela estrada, achava-se prostrado,
sem que ninguém viesse ouvir-lhe o soluçar?
 Num sorriso de paz e num bem triste olhar
humilde, ele dizia, em voz terna e velada:
Meu Pai, estende a mão por sobre a desvairada 
Humanidade impura e somente imbuída
 nas seduções do Mal que povoam a vida. 
passageira e vã, que se extingue e que se escoa,
qual vela pequenina tremulando à toa
ao relento da noite em fria tempestade,
que não resiste à rija impetuosidade
do vento, a zunir numa invencível ira,
aos montes e rochedos com furor se atira
            qual um gigante audaz, colérico, iracundo,
que tentasse quebrar a carcaça do mundo!
Ai, ergueu a fronte o pobre Peregrino
e, naquele momento, um sorriso divino,
mesclado de piedade e comiseração,
 espalhou no semblante do Justo a expressão
de imensa dor atroz e mágoa tão sentida,
que uma ave inocente parou, comovida,
de cantar, e quedou-se a fitá-lo, amorosa,
apoiada nos galhos de árvore frondosa.
Naquele mesmo instante, por Ele passavam
criaturas que nem sequer o enxergavam,
aquelas pelas quais tanto orava e pedia,
ajoelhado assim na terra húmida e fria!
E o Justo inda falou, banhado em triste pranto:
Ó vós que tanto amei, ó vós por quem eu tanto
sofri, que fazeis dos santos Mandamentos?
Circundados de trevas e mil sofrimentos,
procurais abafar a voz da Consciência,
preferis as loucuras do Vício à Inocência,
que ri no berço e em cada pétala de flor,
com extraordinário e empírico dulçor...
Tenho pena de vós, almas que tanto adoro!
Oh, quantas vezes eu inda clamo, inda choro,
ao contemplar de Lá, os vossos corações,
cheios de iniquidades e de tentações!
Ai de vos, criaturas que vos abismais
nos erros, nas maldades, cada vez mais;
sofrereis consequências dessas impurezas;
se transformais o mundo num caos de torpezas
não é porque vos falte a Palavra que encerra
Sabedoria, Amor: nos recantos da Terra,
a Palavra do Pai se expande na grandeza
desta Bíblia sem par, imensa - a Natureza!
E o pobre esfarrapado ergueu-se, e, brandamente
cercado pela luz escassa do poente,
alevantou a mão, num gesto indescritível      
- do mártir que abençoa um monstro inflexível
E o seu vulto, que tinha um todo misterioso,
de Bom, de Justo, de mágico e poderoso,
sumiu-se, abandonando aquela árida estrada,
 terra sem vida e quieta e imobilizada!
Mas, seu rastro ficou qual poeira de luz...
O pobre Peregrino, ouviu-me, era JESUS!
            18 de Agosto de 1927. 

08. 'É preciso estudar mais...'


08) É preciso estudar mais
 a Doutrina Espírita
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Setembro 1959



            Onde quer que se estude e se busque a interpretação correta da Doutrina Espírita, com a consequente exemplificação de seus postulados, haverá uma orientação sadia, conducente ao desenvolvimento do Espiritismo. Por isto, é preciso formar doutrinadores que não se empolguem por fantasias oratórias, mas que permaneçam adstritos às necessidades do esclarecimento do povo, esmiuçando os textos de Kardec, explicando-os com simplicidade, clareza e poder de síntese.

            Espiritismo não é uma superstição: é uma doutrina racional, que se baseia na lógica, na realidade da vida e, sobretudo, na comunhão da vida física com a vida espiritual. Não se é espírita somente por receber "passes" ou frequentar sessões práticas. É-se espírita pela exemplificação evangélica, pela observância dos preceitos doutrinários do Espiritismo, pela realização permanente do esforço destinado à melhoria moral do indivíduo que aceita e procura pôr em prática esses preceitos, interessando na obra de soerguimento todos aqueles que com ele se põem em contato. De nada adianta dizer-se alguém espírita, se a sua conduta e suas obras não comprovem a veracidade dessa afirmativa. O espírita não tem outra maneira de demonstrar que o é, a não ser pela exemplificação cotidiana.

            Muitas vezes um orador sobe à tribuna de um centro espírita e, como tem facilidade de expressão, fala muito, fala bonito, criando imagens que extasiam os ouvintes. Todavia, depois de haver falado trinta ou quarenta minutos, pouco terá dito, pela falta de objetividade doutrinária em sua oração. Há mais forma do que essência no seu arrazoado. Tudo espremido, quase não dá sumo... Porquê? A resposta não é difícil: porque o orador não tem sólido conhecimento doutrinário ou se preocupa muito mais consigo mesmo do que com a obra espírita.

            A preparação de doutrinadores é tarefa de grande importância dentro do Espiritismo. Conhecer o Evangelho, os livros de Allan Kardec, de J. B. Roustaing, de maneira a poder transmitir aos ouvintes, com plena segurança, as prodigiosas lições que contribuem para a melhoria do caráter humano, isso, sim, será obra espírita. Estudar esses livros, assim como outros de autores consagrados, como Léon Denis, Delanne, André Luiz, Emmanuel, Padre Alta, Irmão X, Flammarion, será seguir caminho certo para a formação ou consolidação da cultura espírita.

            Dentro do Espiritismo religião, o Evangelho do Cristo ocupa lugar preeminente. Os benefícios que a Humanidade vem alcançando com o Espiritismo Cristão provam a realidade da nossa crença como força capaz de levar o homem a um estágio superior de vida moral, sem esquecer os seus problemas terrenos, sem divorciar-se das necessidades e conveniências inerentes à vida física. O Espiritismo prepara a criatura humana para viver bem na Terra e lhe abre o caminho para a vida espiritual a que, um dia, terá de regressar.

            Allan Kardec aconselhou se instituíssem nos lares as sessões de estudo doutrinário do Espiritismo e que se fizesse também o culto do Evangelho segundo o Espiritismo. Numerosos são, hoje, aqueles que seguem essa prática louvável, superiormente orientados. O Espiritismo precisa de ser fundado em todos os lares, para que todos os lares se habituem ao estudo dó Cristianismo puro, do Cristianismo redivivo, do Espiritismo Cristão, sem dogmas, sem ritos, sem imagens, mas absolutamente Espiritismo e absolutamente cristão.

            Muitos se queixam de mistificações e embustes e os adversários do Espiritismo estão vendo sempre, mesmo sem provas, charlatanices e tapeações. Ora, ninguém mais do que os espíritas têm interesse em descobrir e eliminar as mistificações de falsos médiuns ou de médiuns que se prestam a pantomimas dessa ordem. Às vezes, porém, a mistificação é involuntária, porque os indivíduos acusados de praticá-la são iludidos também pelo animismo. Supõem estar recebendo Espíritos, quando apenas servem de veículos a manifestações simples de animismo. Desta maneira, será necessário que se aja com tolerância e boa vontade com eles, esclarecendo-os, sujeitando-os a um controle superior por meio de guias capazes de restabelecer a ordem natural dos fatos. Não é difícil que, em alguns casos, o animista, que pode ser um médium ainda não desenvolvido, se transforme num excelente trabalhador da causa espírita e a sua peculiaridade animista poderá também ser controlada, educada, conduzida a uma situação tal que se torne benéfica. Mercê de um "tratamento" contínuo em sessões mediúnicas seguramente dirigidas, é possível "curar" o animista, que, recuperado para o bom serviço no Espiritismo, poderá ter oportunidade de prestar serviços à Causa.

            Aconselhamos, portanto, que, mesmo nos casos de mistificação, convirá não agir precipitadamente, porque poderá tratar-se de uma manifestação de animismo e, nesta hipótese, toda a cautela será aconselhável. A notável obra de Bozzano - "Animismo ou Espiritismo?" e o excelente livro de Aksakof - '.'Animismo e Espiritismo" devem merecer a atenção dos estudiosos. O Dr. Aksakof foi homem de sólida cultura, dotado de uma probidade inatacável. Cientista de renome, era, além disto, um extraordinário e nobre caráter. Suas lições devem ser estudadas com carinho. E não se acuse ninguém por ser vítima da ilusão animista. Mediunidade é uma coisa, animismo, outra. Todavia, há sempre uma certa correlação entre ambos. O espírita fortalecido no conhecimento da Doutrina de Kardec não se equivoca tão facilmente no exame desses casos, qual sói acontecer com aquele que procura orientar-se apenas por sua "intuição". O indivíduo dotado de grande sensibilidade é, geralmente, médium. E o médium pode ser vítima do animismo, sendo, neste caso, o primeiro a ser iludido, mas não ludibria voluntariamente os que acreditam nas suas manifestações. Submetido a "tratamento" em sessões mediúnicas adequadas, sob a orientação espirítico-evangélica de um diretor de trabalhos bem orientado, poderá libertar-se das pseudomanifestações mediúnicas, desenvolver-se normalmente e vir a ser prestimoso médium.

            O Espiritismo não é uma religião para ser seguida cegamente. Não tem dogmas nem sacerdotes profissionais interessados em fazer que os profitentes sejam autômatos e fanáticos. Ao Espiritismo interessa que todos os que o aceitam se esclareçam e façam uso do discernimento que Deus costuma dar a todas as criaturas. Não deseja o Espiritismo que os espíritas se tornem presas da superstição. Por isto, Kardec aconselhou sempre o estudo da Doutrina como a primeira condição para alcançar a liberdade dentro do Espiritismo.

            Incrementemos o culto espirítico-evangélico nos lares, sob orientação segura, e os benefícios abençoarão aqueles que se devotarem santamente a esses esforços. Procuremos. formar doutrinadores esclarecidos, doutrinadores que conheçam realmente a Doutrina espírita e procurem disseminá-la sem fantasias oratórias nem literárias. A unificação espírita será melhormente mantida através do estudo da Doutrina e de sua interpretação legítima, que é dada pela Casa Máter do Espiritismo, que é a Federação Espírita Brasileira. Unificar mais e mais o trabalho doutrinário, para que as discrepâncias de interpretação, se houver, sejam eliminadas, é trabalhar para o gigantesco trabalho de consolidação do Espiritismo no Brasil. Nestas condições, merecerão todos, mais do que nunca, as luzes maravilhosas de Ismael, Espírito que vela pelo progresso espiritual deste País.



07. Mediunidade é...



07) Mediunidade é
ensejo de aprimoramento espiritual

por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Agosto 1958

            Sem profundo espírito evangélico não será possível viver o Espiritismo Cristão. Nem os médiuns que se dedicam ao nobre e difícil trabalho de caridade espírita podem prescindir da orientação evangélica. Preciso se torna, contudo, seguir de perto, sem desânimo, antes com crescente interesse e não pequena tenacidade, o roteiro doutrinário que naturalmente conduz a criatura à compreensão da vida humana, porque confina com o Evangelho. Para que possa usufruir os benefícios espirituais de uma semeadura bem feita, o homem necessita, principalmente se lhe cumpre executar tarefas mediúnicas, ter em mente que a vida na Terra está subordinada a uma Lei de Solidariedade, que o traz ligado ao passado e ao futuro. Ninguém pode, no presente, permanecer liberto dos compromissos adquiridos ontem e dos que vai assumindo agora, em cada instante. Esses compromissos se refletem fatalmente no porvir e são eles que estabelecem a diretriz que o Espírito encarnado terá de seguir amanhã. A essa Lei de Solidariedade acha-se unida uma outra lei, de ação positiva e inexorável: a Lei de Causa e Efeito. Estejamos agindo bem, ou estejamos procedendo mal, jamais podemos fugir à ação dessa importante lei. Eis porque se torna muito valioso para cada um de nós seguir, com a maior fidelidade possível, a Doutrina Espírita, identificando-a com os luminosos princípios evangélicos.

*

            Torna-se aconselhável que todos os centros e núcleos espíritas do País procurem uniformizar seus trabalhos, tomando por norma a Doutrina codificada por Allan Kardec. Nos esforços realizados para consolidar cada vez mais o Pacto Áureo, muita coisa pode ser feita por qualquer espírita, de per si, buscando familiarizar-se com as determinações doutrinárias, ao mesmo tempo que abandonando quando não se encontrar compatível com esses ensinamentos. Fortalecer o Espiritismo é o dever de todos, mas só há um caminho certo para isso: estudar e propagar a Doutrina através da exemplificação quotidiana. Nenhuma propaganda é mais positiva do que o exemplo. É isto o que os Espíritos de grande envergadura moral esperam de todos os que se dizem espíritas. Espiritismo não é passatempo nem diletantismo: é compromisso sério de cada um com todos, com a Humanidade, sem restrições de ordem ideológica, partidária ou de que natureza for. Trazemos no espírito a marca do passado e o futuro nos apontará os estigmas do presente. Dizer-se que Deus castiga é uma expressão vinda de religiões mal cristianizadas, e não corresponde à verdade. Deus não castiga. Sabemos o que nos cabe fazer para nos elevarmos moral e espiritualmente. Acontece que estamos subordinados a Leis e sofremos quando as infringimos, assim como somos felizes quando vivemos de acordo com elas. Atribuir a Deus atitudes coléricas como as do Jeová bíblico, será negar a própria substância do espírito cristão. Essa ideia herética é fruto de uma desmoralizada técnica dogmática, destinada a indivíduos sem liberdade de discernir ou que, por fanatismo ou ignorância, abdicam o direito de raciocinar com lógica, transferindo a outrem o exercício da reflexão e do pensamento. Um Deus infinitamente bom não pode castigar nem matar, nem fazer sofrer. Temos leis a cumprir e essas leis vigoram para o rico e para o pobre, para o forte e para o fraco, para o poderoso e para o desamparado, para todas as raças humanas, sem distinção.

*

            Somos responsáveis por nossos atos e sofremos as consequências deles, ainda que muitas vezes nos suponhamos atingidos por punições imerecidas, porque não nós recordamos de ocorrências de vidas anteriores à presente. Portanto, somos nós mesmos que nos castigamos e premiamos. Temos a nosso alcance a possibilidade de melhorar a nossa posição em face do presente e do futuro, harmonizando a vida com as Leis acima referidas. E essas Leis se encontram sabiamente expostas na Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec. A mediunidade, em nossa opinião, pode ser, na maioria dos casos, uma evidência de dívidas a amortizar. Por isto é que os médiuns muitas vezes têm de arrostar sacrifícios e de enfrentar dificuldades não pequenas, que lhes parecem injustas. Pensando bem, no entanto, tais sacrifícios e dificuldades constituem provas que eles precisam superar e devem fazê-lo galhardamente, com uma compreensão muito clara das obrigações espirituais assumidas. Não há médium sem tarefas. Aqueles que, portadores do dom mediúnico, fogem ao trabalho, cometem erro grave contra o futuro de seu Espírito. Os que mercantilizam a mediunidade, felizmente poucos, pagam juros pesadíssimos, cuja cobrança pode começar na presente peregrinação terrena. Esta é uma verdade, inelutável.

*

            O médium que não estuda “O Livro dos Espíritos" e “O Livro dos Médiuns", fortalecendo-se em “O Evangelho segundo o Espiritismo", age sem orientação doutrinária, que é essencial à segurança e eficiência de seu trabalho. Pelo menos esses três livros são imprescindíveis a uma boa diretriz. Todavia, o ideal será conhecer todos os livros de Kardec, como, ainda, “O Céu e o Inferno", “A Gênese" e “Obras Póstumas". Acrescente-se a extraordinária obra que Roustaing legou ao Espiritismo e que contém amplos e notáveis esclarecimentos sobre o Evangelho: "Os Quatro Evangelhos", obra esta que Antônio Luiz Sayão sintetizou em "Elucidações Evangélicas". Compreendemos que nem todos os médiuns em atividade possam ler muitas obras. Neste caso, façam de “O Livro dos Espíritos", “O Livro dos Médiuns" e “O Evangelho segundo o Espiritismo" seus companheiros frequentes nas sessões de estudos, sempre úteis a encarnados e desencarnados.

            O exercício adequada da mediunidade enseja a quem a ele se entrega o aprimoramento espiritual, porque ajuda a criatura humana a quebrar os grilhões de erros e faltas passadas. Deste modo, a mediunidade deve ser abençoada e protegida.