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quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Um "Diabo" versado em latim, na Borda da Mata


Um "Diabo" versado em latim, 

na Borda da Mata

Túlio Tupinambá (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Junho 1953

             De quando em quando, o "Diabo" (com "D" maiúsculo) resolve despreocupar-se de seus múltiplos quefazeres e subir à Terra para distrair-se um pouco. É o que está acontecendo na cidade mineira de Borda da Mata, segundo interessante reportagem de Margarida bar, na revista “O Cruzeiro”, desta capital, em sua edição de 9 de Maio, sob o título “O Capeta apareceu no sul de Minas...” Naturalmente, o “capeta” está necessitando de “matéria prima” para as caldeiras de Pero Botelho, prejudicado, sem dúvida, pelas restrições de Cexim... E o “Diabo” está fazendo o diabo na Borda da Mata. Pedimos vênia a “O Cruzeiro” para transcrever alguns trechos da deliciosa reportagem, ilustrada com fotografias expressivas dos protagonistas do acontecimento, inclusive do valoroso sacerdote que, em vez de negar o fato, pelo contrário o confirma, com a seguinte frase: "Embuste não houve, afirmo". Começa a repórter: “A crer na voz do povo, o Diabo subiu das profundezas do inferno para, na Terra, habitar a casa-de-fazenda que fica no cimo da mais alta montanha de Borda da Mata, município do Sul de Minas. Isso dizem os 4.000 habitantes da cidade, os 15.000 do município e, por cidades mineiras e paulistas, milhares de outras pessoas repetem, aumentando, no pavor do sobrenatural, o propagado eco das serras.”

            Esclarece a reportagem que o “Diabo” costuma ser pontual. Convenhamos que isto já é uma virtude. Mas, prossigamos: “Depois que o Vigário Cooperador de Borda da Mata, Padre José Oriolo, falou do púlpito da velha igreja, dizendo que o Demônio tinha aparecido na casa da montanha, e depois que se soube ter Frei Belchior, da Ordem dos Capuchinhos, de Ouro Fino, adoecido em virtude da forte impressão que tivera do contato com o diabo, durante o exorcismo, não foi mais possível controlar o povo da região.” Após algumas considerações, a repórter elucida: "Conosco ficou Padre Oriolo, Vigário Cooperador, a quem coube, e mais ao Sacristão Manoel Cardoso. na noite de quinta para sexta, 11 de Abril, acompanhar o Padre Capuchinho de Ouro Fino, Frei Belchior, à casa mal-assombrada. Nessa noite, o Padre Capuchinho, com ordem expressa do Bispo de Pouso Alegre, praticara a cerimônia do exorcismo. Eis o que disse o Vigário da Borda da Mata:

             - Diante dos rumores de barulho e vozes sobrenaturais, fomos à casa além da Ponte da Pedra. É natural, o Padre precisa ver. Mas nada lhe posso adiantar porque foi Frei Belchior quem interrogou a voz. A minha parte se resumiu em rondar ao derredor da morada com o sacristão, de lanterna em punho, varejando inclusive o porão, em vigilância contra algum embuste. Embuste não houve, assevero-lhe."

             Louvável, portanto, a sinceridade do sacerdote: “não houve embuste”. Adiante, na reportagem, lê-se: “em outra noite, ao invés de um, apareceram dois espíritos”. A casa mal-assombrada é a residência de “Alberto Simões de Carvalho, mais conhecido por Alberto Proença (ou o “Português”), com a família, a mulher, Durvalina e seis filhos”. Suspeitavam eles da menina Valdalina, que foi vigiada e chegaram à conclusão de que não era ela que fazia “aquilo”. E nós atribuímos que ela seja médium, simplesmente, e, por força da sua capacidade mediúnica, encontre o espírito, que tanto barulho está fazendo na Borda da Mata, condições para se manifestar.

             Entretanto, não desejamos fazer muitos comentários, mas cingirmo-nos apenas ao que se encontra publicado na revista acima referida. Assim, transcrevemos a palavra de Frei Belchior ali estampada:

             “Sem rodeios, assim se manifestou o irmão religioso da Ordem dos Capuchinhos:

            - Que as coisas que se passam na casa da montanha não são brincadeira, não são. São coisas muito sérias. Mas provas positivas de que são coisas demoníacas, ainda, não tenho. Posso afirmar-lhe, porém, que não se trata nem de visão nem de assombração. Será obsessão ou possessão do demônio. A voz que eu ouvi não é a da menina Valdalina, de jeito nenhum. Agora, se ela está envolvida no caso, é um assunto a estudar.”

             - Donde vinha a voz que o senhor ouviu, Frei Belchior?

             - A voz vinha do teto, e a casa não tem forro. Eu a interroguei fazendo uso do latim e de uma mistura de dialetos italianos, E a voz respondia por vários modos, mas sempre afirmando: “Eu sou o Capeta, o Demônio, o Diabo”. E sempre em voz cavernosa.”

             E deste modo termina a curiosa reportagem: “O povo diz que Frei Belchior, aliás com reputação de sábio e santo, está fazendo penitência para novamente defrontar o fantasma.”

 *

             Aí está, como a ocorrência de um simples fenômeno espírita põe alguns milhares de pessoas, sem esclarecimento da Verdade, em polvorosa... Não se trata de “capeta”, “diabo” ou “demônio” pois que tudo isto é imaginário. Trata-se, evidentemente, de Espirito perturbado que, encontrando ambiente propício à sua manifestação, o faz, valendo-se de algum inconsciente médium de efeitos físicos. Já o fato de sacerdotes católicas confirmarem a realidade dos fenômenos, já vale alguma coisa. Vê-se que o “Diabo” é versado em latim, dialetos italianos, etc. Não é para se desprezar, portanto, essa prova salutar de cultura linguística...

            E é para se admirar que, numa época tão conturbada, em que o inferno deve estar superlotado, tenha o “capeta” tempo disponível para vir brincar na Borda da Mata...


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