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sábado, 30 de abril de 2011

05 Escravidão e Espiritismo




-V-
 ‘Planejamento:
Expiação e Resgate’

por Alberto de Souza Rocha
Reformador (FEB) Abril  1988

            Comecemos por transcrever, de uma obra didática, o que se segue:

            “A pretexto de salvar as almas, a bula Dum Diversas, do Papa Nicolau V, de 1452, autorizava a escravidão. Permitia aos portugueses, nas suas viagens de descobertas, penetrar no reino dos sarracenos (destaque do autor), dos pagãos e de outros inimigos de Cristo e tomar como escravos seus prisioneiros. Estes deveriam ser batizados para terem as suas almas ‘salvas’.  O que viria depois, segundo a moral da época, isto é, escravidão ou a exploração do homem, era de importância secundária.” (Panorama Geográfico Brasileiro”, Melhen Adas, Editora Moderna, 2ª Edição.)

            Sigamos. Então, os fatos.
            Chegavam por mar às terras brasileiras para os grandes latifúndios os indefesos e pobres cativos. Em suas pátrias e dentro da respectiva cultura seriam muitos deles nobres e senhores, reis em suas tribos. Mas vinham eles a ferros, em infectos porões, para serem vendidos quando a peste não lhes dava por túmulo o oceano. Ouçamos o que deles nos diz Humberto de Campos (Espírito) no livro já citado (“Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”), na p. 51 da 16ª ed. FEB, pondo o autor espiritual a exposição nos lábios do próprio Governador do Planeta:

            “- Havia eu determinado que a Terra do Cruzeiro se povoasse de raças humildes do Planeta, buscando-se a colaboração dos povos sofredores das regiões africanas; todavia, para que essa cooperação fosse efetivada sem o atrito das armas, aproximei Portugal daquelas raças sofredoras, sem violência de qualquer natureza. A colaboração africana deveria, pois, verificar-se sem abalos perniciosos, no capítulo das minhas amorosas determinações. O homem branco da Europa, entretanto, está prejudicado por uma educação espiritual condenável e deficiente. Desejando entregar-se ao prazer fictício dos sentidos, procura eximir-se aos trabalhos pesados da agricultura, alegando o pretexto dos climas considerados impiedosos. Eles terão a liberdade de humilhar os seus irmãos (...) mas, os que praticarem o nefando comércio sofrerão, igualmente, o mesmo martírio, nos dias do futuro, quando forem também vendidos e flagelados em identidade de circunstâncias.”

            O referido autor espiritual, na mesma obra (págs 68 e 69 da 16ª ed. FEB), esclarece que formavam os escravos coletividades espirituais reencarnadas, já então sinceramente arrependidos de seu passado delituoso:

             “- Aí se encontravam antigos batalhadores das cruzadas, senhores feudais da Idade Média, padres e inquisidores, Espíritos rebeldes e revoltados, perdidos nos caminhos cheios da treva das suas consciências poluta

            Encontravam eles

” (...) nos carreiros aspérrimos da dor que depura e santifica, a porta estreita para o céu de que nos fala Jesus nas suas lições divinas”.

Façamos uma reflexão: O esquecimento das vidas passadas, dir-se-ia, poderia importar na inutilidade do sofrimento-reparação. Mas as vidas sucessivas são solidárias, é bom não esquecermos. E, como sabemos, esse esquecimento é relativo. Em alguns instantes de afastamento do Espírito, de emancipação da alma, recorda-se a criatura, de uma forma mesmo que nebulosa, mas suficientemente esclarecedora, de compromissos assumidos e, quando desperta, consoante o próprio esforço, momentos há em que se lhe fica, sob a condição de reminiscência, um certo resíduo, traduzido naquele desejo insistente de resistir às tendências que resultam na provação por que esteja passando. Tanto maior quanto os seus méritos e a sua capacidade de resistência. Mas prossegue aquele amigo espiritual reportando:

“- Foi por isso que os negros do Brasil se incorporaram à raça nova, constituindo um dos baluartes da nacionalidade, em todos os tempos. Com as suas abnegações santificantes e os seus prantos abençoados, fizeram brotar as alvoradas do trabalho, depois das noites primitivas. Na Pátria do Evangelho têm eles sido estadistas, médicos, artistas, poetas e escritores, representando as personalidades mais eminentes.”

E diz, mais:

Todos os grandes sentimentos que nobilitam as almas humanas eles os demonstraram e foi ainda o coração deles, dedicado ao ideal da solidariedade humana, que ensinou aos europeus a lição do trabalho e da obediência, na comuna fraterna dos Palmares, onde não havia nem ricos nrm pobres e onde resistiram com o seu esforço e a sua perseverança, por mais de setenta anos, escrevendo, com a morte pela liberdade, o mais belo poema dos seus martírios nas terras americanas.” 

Voltemos a páginas atrás do mesmo livro:

– Através das linhas tortuosas dos homens, realizou Jesus os seus grandes e benditos objetivos, porque os negros das costas africanas foram uma das pedras angulares do monumento evangélico do Coração do Mundo. Sobre os seus ombros flagelados, carrearam-se quase todos os elementos materiais para a organização física do Brasil e, do manancial de humildade de seus corações resignados e tristes, nasceram lições comovedoras, imunizando todos os Espíritos contra os excessos do imperialismo e do orgulho injustificáveis  das outras nações do planeta, dotando-se a alma brasileira de fraternidade, de ternura e de perdão.”

“Mémorias de um Suicida”, uma obra de peso da lavra do grande Camilo, na psicografia de Yvonne A. pereira, também esclarece no mesmo sentido:

Grandes falanges de romanos ilustres, do Império dos Césares; de patrícios orgulhosos, de guerreiros altivos, autoridades das hostes de Diocleciano, como de Adriano e Maxêncio, dolorosamente arrependidos (...) expungiram sob o cativeiro africano a mancha que lhes enodoava o Espírito” (p. 534)”. E conta, nas páginas 526 e seguintes, os dramas vividos e o suicídio de um ex traficante de escravos, suas paixões inferiores e sua prepotência. O escravo, sua vítima, o perdoara. Contudo, faz-nos uma severa advertência (página 532):

As sociedades brasileiras (...) sofrem hoje e sofrerão ainda, por espaço de tempo que estará ao seu alcance dilatar ou reprimir, as consequências das iniquidades que em pleno domínio da era cristã permitiram  fossem cometidos em seu seio. (...) Se não foi crime individual e sim coletivo, será a coletividade que expiará e reparará o opróbio, o grande martírio infligido a uma raça carecedora do amparo fraternal da civilação cristã (...).”


04 Escravidão e Espiritismo




-IV-
 ‘Escravidão
no Novo Mundo’

por Alberto de Souza Rocha
Reformador (FEB) Março  1988

            Comecemos por lembrar a história dos Grandes Descobrimentos, do caminho marítimo costeando a África e descerraremos para breve o espetáculo com que alguns países colonizadores – Portugal, no nosso caso – assumiram o privilégio da venda de negros para a América em pleno século XVI, mais precisamente para A América do Norte, para as Antilhas e para o Brasil. Há uma data de início mais ou menos provável, o ano de 1526.
            Pois, enquanto as bandeiras e as entradas tentavam aliciar o índio trazendo-o de suas matas para a lavoura, os navios negreiros traziam para os portos brasileiros as primeiras cargas de negros, a ferros. Chegavam como se fossem animais bravios, selvagens, como se neles não houvesse sentimentos nem consciência.
            Sobre a tentativa de escravidão do índio, no lado espanhol, o governo da Metrópole doava latifúndios a produtores rurais incluindo a posse dos índios que aí habitassem... Eram as ‘encomiendas’. Certo número de índios eram cedidos para as minas. A ‘encomienda’ e a ‘mita’ apenas mascaravam a escravidão do índio. (’Diálogo Médico’, Roche, ano 13, nº 7/87.) Já o padre (Diogo Torres) recomendava aos missionários não permitissem a escravidão do índio (idem).
           
Os bandeirantes, apontados ufanisticamente como desbravadores do sertão, na verdade encarregavam-se de dizimar tribos inteiras e escraviza-las para os engenhos.” 
(a mesma revista, textualmente).

Não se tendo o ameríndio, autóctone, submetido à escravidão, teria ela que prosseguir com o povo vindo do outro lado do Oceano... Pois, chegaram ao Brasil só no século XVIII 1.300.000 negros e no século XIX, apesar da proibição, 1.600.000.
Falando-nos do Rio de Janeiro no tempo dos Vice-Reis, Humberto de Campos (Espírito), em ‘Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho` (Capítulo XII, págs. 105 e 106 da 16ª ed. FEB), descreve:

“(...) um dos espetáculos mais dolorosos e comovedores ofereciam-no os mercados de escravos, como o do Valongo, onde os miseráveis se amontoavam aos magotes, esperando o comprador que lhes examinava os pulsos e os dentes, selecionando os mais fortes para os duros trabalhos das fazendas. Ali, encontravam-se representantes dos negros de Guiné, de Cabinda e de Benguela, que eram separados dos pais e das mães, dos irmãos e dos filhos, nos sucessivos martirológicos da raça negra, na qual os próprios padres de Portugal não viam irmãos em humanidade, mas os amaldiçoados descendentes de Cam.”

Nem tudo seriam horrores, todavia. Por isso, o autor espiritual ameniza:

“(...) Costumes fraternos surgem espontaneamente no seio da população de todas as cidades brasileiras O hábito de apadrinhar os negros faltosos, ou fugitivos, nunca é desrespeitado pelo senhor. Reconhece-se o direito de propriedade aos escravos, e o costume de ceder um dia ou dois aos trabalhos dos cativos é confirmado por lei, em 1700. Alastra-se o precioso movimento das alforrias na pia batismal, onde, com um óbulo insignificante, são declarados livres os filhos dos escravos”. (Pág. 107.)
                       
E o mesmo autor, em palavras reconfortantes:

“(...) As ordens religiosas possuíam os seus pretos, que eram bem tratados e jamais podiam ser vendidos. (...) nunca a emancipação foi impedida por lei, como em outras nações. (...) nunca teve o Brasil um código negro, à maneira da França e da Ingleterra.” (Pág. 108.)


03 Escravidão e Espiritismo




-III-
 ‘Escravidão sempre...’

por Alberto de Souza Rocha
Reformador (FEB) Fevereiro  1988

            De vez em quando a imprensa expõe situações dolorosas em que ainda hoje vive considerável parcela da Humanidade em diferentes pontos do Planeta. Em página dominical de 13/9/1987, ‘O Globo’ afirma em títulos avantajados: ‘Mundo tem 200 milhões vivendo como escravos’. A nota é de um correspondente em Londres, jornalista Jader de Oliveira, e dá conta de uma sociedade anti escravatura ainda lutando por esses ideais e de sua estatística, que justifica o título. Reporta-se a uma afirmação do porta-voz dessa sociedade, Sr. Alan Whitaker: ‘Embora não exista uma legislação, em qualquer país, que aprove a escravidão, ela ocorre em muitos pontos do mundo. Enfatiza especialmente a exploração do trabalho das crianças. Textualmente se lê: ‘Em Bangkok, até hoje, é possível comprar uma criança em frente à principal estação ferroviária da cidade por pouco mais de 100 dólares. E adita: ‘Esta é uma tragédia que tem de acabar’.
            Ora, ‘O Livro dos Espíritos (1857), um monumento ao bom senso, adianta-se em conquistas de índole social sem descer ao chão dos conceitos político-partidários. Nele podemos ler hoje aquilo que, à época de seu lançamento, representava um avanço conceitual notável. Na Questão 54 está dito:

            ‘Todos os homens são irmãos em Deus, porque são animados pelo espírito e tendem para o mesmo fim’.

            E na Questão 803 (comentário de Kardec):

            ”Todos nascem igualmente fracos, acham-se sujeitos às mesmas dores e o corpo do rico se destrói como o do pobre.”

            A Questão 806 reconhece que as desigualdades sociais são obra do homem e não de Deus. Logo a seguir, na Questão 807 pergunta:

            P.: Que se deve pensar dos que abusam da superioridade de suas posições sociais, para, em proveito próprio, oprimir os fracos?

            R.: “Merecem anátema! Ai deles! Serão, a seu turno, oprimidos: renascerão num existência em que terão de sofrer tudo o que tiverem feito sofrer aos outros.”

            Quanto ao problema do trabalho, a Questão 674 define-o como lei natural a que estão todos sujeitos; uma necessidade para todos. Longe, naturalmente, aqui, o sentido de castigo subentendido na expressão bíblica: “Comerás o pão com o suor do teu rosto.” E prossegue o estudo: Questão 684:
            P.: Que se deve pensar dos que abusam de sua autoridade, impondo a seus inferiores excessivo trabalho?

            R.: “Isso é uma das piores ações (...).”

            Não seriam precisas outras palavras.
            E, concordemos, ainda em nossos dias, aqui em nossa Pátria, com as melhores leis sociais, massas humanas ainda são aliciadas por empresas, em condições equivalentes ás de animais de carga, reunidas aos magotes e transportadas para áreas de produção pouco mais que a pão e água. São os chamados bóias-frias.
            Naturalmente que, sem a chave da Reencarnação, a própria história da Humanidade permaneceria recheada de incógnitas relacionadas à Justiça Divina. Em verdade, como nos lembra Humberto de Campos (Espírito) na obra, que citamos enfaticamente, “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” (Pág. 202):

            “Os Espíritos em prova no cárcere da carne têm a sua bagagem de sofrimentos expiatórios e depuradores, mas tem igualmente a possibilidade necessária para o cumprimento de deveres meritórios, aos olhos misericordiosos do Altíssimo.”

            E Léon Denis, em “O Problema do Ser, do Destino e da Dor” (Págs 374 e 375, da 14ª ed. FEB:

            “O gênio não é somente o resultado de trabalhos seculares; é também a apoteose, 
a coroação de sofrimento (...). Sua elevação mede-se pela soma dos sofrimentos que passaram (...) Há como uma esteira luminosa que segue, no Espaço, os Espíritos dos heróis e dos mártires.”

            Vem a pelo trazer a palavra do abolicionista Luís Gama (Espírito) em “Falando à Terra’, pelo médium F. C. Xavier:
           
            “Escravidão! Escravidão! Quantos contrastes surpreendentes encerras! Não raro, o homem que se vale dos semelhantes para fins inconfessáveis, simplesmente estaciona, desditoso, na estrada, para favorecer o engrandecimento íntimo dos que o servem, quando não se impõe sobre os demais, arrojando-se, então, no desfiladeiro da miserabilidade.”

            Recordemos ainda  a palavra autorizada do grande José do Patrocínio, em “Parnaso de Além-Túmulo”, médium F.C. Xavier:

            “Nova Abolição

            Prossegue a escravidão implacável e crua...
            Não mais senzala hostil, escura e desumana.
            A incompreensão do amor, no entanto, continua
Em domínio cruel de que a treva se ufana.

Mas a luz do Senhor não teme, nem recua,
Na ansiedade e na dor, sublime, se engalana,
E, das graças do templo aos sarcasmos da rua,
Erige a liberdade augusta e soberana...

Irmãos do meu Brasil, encantado e divino,
Do Amazonas ao Prata ergue-se a Deus um hino
             Que exalça no Evangelho a grandeza de um povo!                           

Fustiguemos o mal, combatendo a descrença,
Descortinando, além da noite que se adensa,
A alvorada feliz de um mundo livre e novo.”

02 Escravidão e Espiritismo




A Escravatura
e o ‘Livro dos Espíritos’

por Alberto de Souza Rocha
Reformador (FEB) Janeiro  1988

            Na obra fundamental da Doutrina Espírita não passaria em branco a questão relacionada com a escravatura. E as afirmações não permitem evasivas:

            Questão 829 ‘Haverá homens que estejam, por natureza, destinados a ser propriedades de outros homens?’
            R.: ‘É contrária à lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem.
A escravidão é um abuso da força, Desaparece com o progresso, como gradativamente desaparecerão todos os abuso.’

            E é Kardec quem prossegue:

            ‘É contrária à Natureza a lei humana que consagra a escravidão, pois que assemelha o homem ao irracional e o degrada física e moralmente.’     

            É ainda o Codificador que dirá, através da ‘Revista Espírita’ de fevereiro de 1862;

            Escravidão!  Quando se pronuncia esse nome, o coração sente frrio, porque vê à sua frente o egoísmo e o orgulho’.

            Na Questão seguinte (830) de ‘O Livro dos Espíritos’, leremos:

            P.: ‘Quando a escravidão faz parte dos costumes de um povo, são censuráveis os que dela aproveitam, embora só o façam conformando-se com um uso que lhes perece natural?’

            R.: ‘O mal é sempre o mal e não há sofisma que se torne boa uma ação má. 
A responsabilidade, porém, do mal é relativa aos meios de que o homem disponha para compreende-lo.’

            E prossegue o esclarecimento:

            ‘Aquele que tira proveito da lei da escravidão é sempre culpado de violação da lei da Natureza. Mas, aí, como em tudo, a culpabilidade é relativa. Tendo-se a escravidão introduzido nos costumes de certos povos, possível se tornou que, de boa fé, o homem se aproveitasse dela como de uma coisa que lhe parecia natural.’.

            Mas logo adiante vem o reverso da medalha:

            (...) ‘desde que, mais desenvolvida e, sobretudo, esclarecida pelas luzes do Cristianismo, sua razão lhe mostrou que o escravo era um seu igual perante Deus, nenhuma desculpa mais ele tem’.

            Kardec fere agora um aspecto novo. É o da Questão 831:
           
            ‘A desigualdade natural das aptidões não coloca certas raças humanas sob a dependência das raças mais inteligentes?’

            E a resposta não se fez esperar:

            ‘Sim., mas para que estas se elevem, não para embrutecê-las ainda mais pela escravidão. Durante longo tempo, os homens consideraram certas raças humanas como animais de trabalho, munidos de braços e mãos, e se julgaram com o direito de vender os dessas raças como bestas de carga. Consideram-se de sangue mais puro os que assim procedem. Insensatos! Nada vêem senão a matéria. Mais ou menos puro não é o sangue, porém o Espírito.’

            Continuemos com ‘O Livro dos Espíritos’; agora a Questão 832:

            P.: Há, no entanto, homens que tratam os seus escravos com humanidade; que não deixam que lhes falte nada e acreditam que a liberdade os exporia a maiores privações. 
Que dizeis disso?

            R.: ‘Digo que esses compreendem melhor os seus interesses. Igual cuidado dispensam aos seus bois e cavalos, para que obtenham bom preço no mercado. Não são tão culpados como os que maltratam os escravos, mas, nem por isso deixam de dispor deles como uma mercadoria, privando-os do direito de se pertencer a si mesmos.’

            A questão um pouco antes suscitada, o problema racial, em que se observam culturas diferentes, poderia dar alguma razão à escola materialista, a primeira vista. Entendamos no entanto o que está em ‘Obras Póstumas’, pág 175:

            ‘A reencarnação no mesmo meio é a causa do caráter distintivo dos povos e da raças.’

            A  identidade entre as pessoas do grupo social resulta de encarnações de Espíritos que entre si já se identificam e que dessa forma se afinizam. Não há, contudo, inflexibilidade dessa regra geral. Vejamos a Questão 273 da obra básica:

            P.: ‘Será possível que um homem de raça civilizada reencarne, por expiação, numa raça de selvagens?’

            R.: É, mas depende do gênero da expiação. Um senhor, que tenha sido de grande crueldade para os seus escravos, poderá, por sua vez, tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que infligiu a seus semelhantes.’

            E é bom lembrar que também até mesmo por missão. Ora, o homem conscientemente se interna na selva para ajudar coletividades, mesmo havendo nascido na Civilização.
            Há, não resta dúvida, justiça nas aflições. Mas é sempre bom termos em mente, antes de qualquer juízo apressado, falando-se, em tese, o que nos diz Léon Denis em ‘O Problema do Ser, do Destino e da Dor’:

            ‘Nem todos os que sofrem são forçosamente culpados em vias de expiação. Muitos escolhem vidas penosas e de labor, para colherem o benefício moral correspondente.’

            São exceções, certamente. Por outro lado, dominadores, de longínquo passado, quantos de nós guardamos ainda sensíveis reminiscências, quais imagens fugidias, de certos atos de prepotência. ..
            Ao profligarmos o regime de servidão, que estertora, que oficialmente está sendo banido das leis e de nossos hábitos, pouco ainda estaremos fazendo pela remissão daquelas faltas... Mas, pelo menos, fazemo-lo com a autoridade de um sentimento profundo, a brotar nas raízes da consciência.
            É dessa forma que saudamos os vultos cujos atos libertários, em nossa Pátria, escoaram para a grande comporta que se romperia espetacularmente a 13 de maio de 1889, e estamos às vésperas do grande Centenário. 


01 Escravidão e Espiritismo




Em 13 de Maio de 1988 comemorou-se o 1º Centenário da Libertação dos Escravos no Brasil. A fim de ressaltar esse evento de grande significado social e espiritual para a Pátria do Evangelho, Alberto de Souza Rocha escreveu uma série de artigos sobre o magno assunto, cuja publicação ‘Reformador’ iniciou em Dezembro de 1987.

A Escravidão 
na História da Humanidade

por Alberto de Souza Rocha

Reformador (FEB) Dezembro 1987

            Ao desabrochar da razão, e por isso mesmo, o homem cedo percebeu que poderia economizar as próprias forças e intuitivamente utilizou os primeiros insti’ntos, ainda rústicos, dando um passo decisivo no caminho do progresso a que se destinava no volver dos milênios. De suas mãos ainda grosseiras nascia o protótipo da máquina. Num segundo tempo, poderemos dizer, uitilizou-se, para isso, dos animais, domesticando-os, pondo-os a seu serviço. Com a instituição do Estado, mais tarde, ampliando-se o nicho em tribo e estas em áreas de dominação, a conquista e a pilhagem assumiram proporções de poder; o poder de grupamentos humanos sobre outros. As disputas já poderiam chamar-se guerras. Os derrotados não apenas pagariam com muitas vidas a sua eventual inferioridade bélica, mas com a sua dependência. Cobravam-se altos tributos e até meso as suas terras estariam sob o domínio dos conquistadores. Surgiram os primeiros impérios. Era uma forma essa que, embora dolorosa, serviu para a miscigenação dos costumes e disseminação das culturas primitivas. Não satisfeitos, porém, os dominadores teriam ainda  seu serviço o braço do vencido, a quem não reconheciam habitualmente os mais comezinhos direitos humanos. Eram estes os escravos. Mulheres jovens e belas submetiam-se a vexames, servindo à concupiscência dos conquistadores. A Bíblia reporta-se a esses fatos e também os romances de época o fazem. Vendiam-se pessoas dominadas pela força bruta e até em emboscadas, para trabalhos forçados em minas, para a lavoura, para a guerra ou para serviços domésticos. Em Roma, escravos vigorosos eram gladiadores e expunham suas vidas para gáudio dos patrícios. Escravos cultos, como eram ao gregos, serviam de preceptores aos filhos de nobres romanos. Mesmo os que obtivessem a graça da libertação não alcançavam direitos iguais: eram ‘os libertos’.
            Escravos notáveis: Terêncio, Fedro, Esopo, Platão, Espártaco. Esopo foi libertado pelo seu último dono, mas depois cndenado a morrer lançado de um rochedo, em Delfos. Platão, prisioneiro de guerra vendido aos flibusteiros em Egina, readquiriu a liberdade, comprado que fora por um discípulo, José, filho de Jacob, vendido por 20 moedas de prata, decifrou o sonho do Faraó e foi feito primeiro ministro do Egito. Jesiel é feito prisioneiro das galés romanas. Por que adoecera, ia se atirado ao mar; deixado, porém, em terra, torna-se cristão e vem a ser o primeiro mártir do Cristianismo, com o nome de Estevão. Mouros escravizam cristãos na sua invasão da Europa. E os ditos cristãos não fazem por menos. Assim foi o mundo por muitos milênios. Eis que, com os tempos novos, movimentos revolucionários questionam direitos de pessoa humana. E na velha Europa o regime de exploração do homem pelo homem como força de trabalho escravo cede à pressões e às revoluções. Tivemos mesmo em Roma, em tempos idos (73-71 a.C.) a chamada ‘revolta dos escravos’ (e eram 70000!) com Espártaco à frente. Em passado recente, a Revolução Francesa e, nos EUA, a Guerra da Secessão. Mesmo assim as Metrópoles por muito tempo conservaram colônias distantes, especialmente na África, exploradas de forma desapiedada.
            Antes de entrar diretamente nesse problema em relação ao nosso país, assinalando o centenário da epopéia libertária, faremos outras considerações, dentro, especialmente, do enfoque espírita.
            Quando Moisés,, segundo a tradição, recebeu as Tábuas da Lei, seria curioso indagar por que razão não houve um quesito mais ou menos assim: ‘Não escravizareis vosso semelhante, nem branco, nem negro, nem amarelo’... Pelo contrário, a servidão, de certa forma, é admitida no 10º Mandamento: ‘Não cobiçareis o servo nem a serva, nem o boi nem o jumento (...)’. Nesse mandamento, o homem (escravizado|) e o jumento nivelam-se como alimárias que se não devem cobiçar ao vizinho... Embora Moisés houvesse lutado contra a escravidão do seu povo em terras do Egito – e os hebreus vieram a ser escravos dos babilônios também – havia lá no velho Egito outros tantos escravos que não os israelitas, inclusive negros. Escravos negros no continente da negritude... Alguma semelhança com o que ainda hoje se passa nas terras do sul.
            Teria Jeová dito a Abraão: ‘-Cortareis a carne como sinal de minha aliança. Toda criança masculina será circuncidada, mesmo aquela nascida de escravos comprados de estrangeiro e que não pertençam à vossa raça.’ (‘Da Bíblia aos nossos dias’, Mário Cavalcanti de Melo, pág 184). Ora, a lei mosaica reflete, embora bem inspirada, não há dúvida, condições de uma época. E trás algo em si que recorda os conhecimentos bramânicos, por seu turno introduzidos nos egípcios e considerados secretos. E Brama conserva a divisão em castas...
            Contudo, o Mandamento maior, do Cristo – AMAI-VOS UNS AOS OUTROS – por abrangente, superior, definitivo, é suficientemente forte, claro, consistente para dirimir dúvidas quanto à verdadeira posição do que chamamos o Cristianismo do Cristo, autêntico, dentro da questão.
            E não se discutiria aqui, consideremos, tão só o aspecto de uma liberdade ou de uma sevidão em termos de propriedade física. Há que se reconhecerem todas as formas de libertação: liberdade de consciência, de pensamento, de direcionamento de suas vidas.
            Mas o homem sequer consegue muita vez libertar-se da escravidão dos preconceitos, dos vícios, da própria ignorância, do fanatismo... Questão de faixa vibratória.
            Voltemos a Jesus: ‘-Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso pra vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve’ (Mateus 11: 28 a 30). Seu jugo é a observação da Lei, para que a Justiça nos alivie o fardo dos sofrimentos, tornando-os suportáveis e úteis ao nosso progresso.
            Dir-se-ia que, por estarem as criaturas (no caso, aquelas conduzidas ao cativeiro) resgatando – praticamente todas elas – um passado delituoso, poder-se-ia supor que o regime escravagista tivesse pleno aval dentro da lei dos destinos. Engano.  
            Lembramo-nos de que Jesus dissera que ‘o escândalo é necessário; porém ai daquele por cujo intermédio o escândalo venha’. Léon Denis (‘O Problema do Ser, do Destino e da Dor’, pág 290, 14ª Edição FEB) expõe:
            ‘A doutrina das reencarnações aproxima os homens mais que qualquer outra crença, ensinando-lhes a comunidade de origens e fins, mostrando-lhes a solidariedade que os liga a todos no passado, no presente, no futuro. Diz-lhes que não há, entre eles, deserdados nem favorecidos, que cada um é filho de suas obras, senhor de seu destino. Nossos sofrimentos, ocultos ou aparentes, são conseqüências do passado ou também a escola austera onde se aprendem as altas virtudes e os grandes deveres.’
            E diz mais (pág. 296):
            ‘Com a lei dos destinos, a questão muda logo de face; não somente o mal que tivermos feito recairá sobre nós e teremos de pagar as nossas dívidas até o último centil, como o estado social que tivermos contribuído para perpetuar com seus vícios, com as suas iniqüidades, apanhar-nos-á na férrea engrenagem, quando voltarmos à Terra, e sofreremos por todas as suas imperfeições.’
            As obras espíritas, que proximamente comentaremos, são todas elas, de modo geral, um manancial de convicções e um repositório de confirmações nesse mesmo sentido.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Jesus não é Deus


‘Jesus não é Deus’
por Luciano dos Anjos


Contracapa do livro ‘Jesus não é Deus’
contendo a série de artigos de autoria
de Adolfo Bezerra de Menezes
e publicados no ‘Jornal do Brasil’em 1895.

 Coordenação e notas por Jorge Damas Filho

          Nem católicos nem protestantes se arriscam, intelectualmente a acreditar ainda que Jesus é Deus. Os espíritas, desafeitos ao obscurantismo, nunca absorveram esse disfarçado antropomorfismo, que o Concílio de Nicéia inventou, em 325. Todos os argumentos lógicos contra essa metafísica sem meta (com perdão do trocadilho) já são amplamente conhecidos. Seria, então, anódico um compêndio de 109 páginas destinadas a evidenciar, ainda hoje, que Jesus não é Deus? Talvez, se o autor não fosse Adolfo Bezerra de Menezes. De sua pena tudo é sempre atual. Primeiro, pelo sabor de se ler ou reler algumas construções muito bem carpinteiradas, que valem não propriamente pela novidade, mas pela arquitetura cuidadosa de um dos mais notáveis estudiosos da teodicéia espírita. Segundo, pela vantagem de se possuir enfeixado em livro esse repertório dialético do chamado Kardec brasileiro, com vista à melhor preservação histórica e ao testemunho de contagiante fé religiosa. Terceiro, pela lição oferecida a todos em termos de clamor evangélico acidulado pela indignação sincera contra os adversários do espiritismo e em favor das idéias por que se vive.

            Quando deparamos com os cuidados cosméticos dos que acham que para atrair é necessário silenciar as belezas doutrinárias; quando observamos as lideranças passeando entibiadas entre o amor e a culpa, a esconderem  a crença por medo da crítica; quando anotamos a conduta de dirigentes de instituições patinando na acomodação suspicaz e fugindo ao dever de enfocar questões de suma importância apenas para afagar  os ânimos do movimentos espírita; quando, enfim assistimos aos marqueteiros da ilusão propagarem que para ser cristão e espírita é preciso amordaçar a verdade – eis, nessas circunstâncias, a importância dos textos de Bezerra de Menezes.. Eles podem até ser considerados anacrônicos pelos mais avoados, que não vêem neles o que realmente exibem: a fibra, a coragem,  empenho, o destemor sempre atuais de quem nunca  curvou a espinha, nunca usou meios clandestinos de argumentação, nunca tentou vender uma imagem domesticada do movimento espírita nacional. E apesar disso, sempre soube amar profundamente tanto amigos quanto inimigos.

            Nisso consiste, em especial, o valor e a oportunidade desta obra produzida pelo talento e pela fé do inesquecível Bezerra de Menezes, grande presidente da veneranda Federação Espírita Brasileira.



02 Irmãos na Caminhada Terrestre...




Irmãos queridos da caminhada terrestre!
                        
Louvemos sempre o santo nome do Senhor!

 Quisera levar a todos a grandeza, o amparo, de que se serve nosso Pai, para nos proteger das intempéries da vida!  Somos constantemente vigiados, solidarizados, pela força espiritual. Mas, isto não nos isenta de termos confiança em nós próprios. Ante as dificuldades, é justo que invoquemos auxílio espiritual, que virá em forma de intuições elucidativas. Ouçam, pois, uma vibração interior que sempre chega como resposta ou sugestão. Somos todos filhos de Deus, que existe dentro de cada um de nós. Somos uma centelha, indivisível, indestrutível e eterna da sabedoria divina. Aprendamos,pois, as lições da Vida, que sempre nos mostram,  mesmo pelo sofrimento, o quanto é sublime e compensador viver, 
aprender e redimir-se.
            Que Jesus, nosso Amado Mestre,  Mentor, Amigo e Irmão, a todos abençoe !
                                                                                           

‘Rama’

por  Zilda de Carvalho  em 07/1994
C E   Jacques  Chulam  -  RJ RJ.

08/12 Estudando com Emmanuel: 'Carta aos Romanos'


8/12

“Tu, porém, por que julgas teu irmão? 
e tu, por que desprezas o teu? 
pois todos compareceremos 
perante o Tribunal de Cristo.”
       Romanos  14,20
           
            Constrangido a examinar a conduta do companheiro, nessa ou naquela circunstância difícil, não lhe condenes os embaraços morais.
            Lembra-te dos dias de cinza e pranto em que o Senhor te susteve a queda a poucos milímetros da derrota.
            Não te acredites a cavaleiro dos novos problemas que surgirão no caminho...
            Todo serviço incompleto, que deixaste na retaguarda, buscar-te-á, de novo, o convívio para que lhe ofereças acabamento. E o remate legal de todas as nossas lutas pede o fecho do amor puro como selo da Paz Divina.
            As pedras que arremessaste ao telhado alheio voltarão com o tempo sobre o teto em que te asilas, e os venenos que destilaste sobre a esperança dos outros tornarão, no hausto da vida, ao clima de tua própria esperança, testando-te a resistência.
            Apreende, pois, desde hoje, a ensaiar tolerância e entendimento, para que o remédio por ti mesmo encomendado às mãos do “agora” não te amargue a existência, destruindo-te o coração.
            Toda semente produz no solo do tempo e as almas imaculadas não povoam ainda a Terra.
            Distribuí, portanto a paciência e a bondade com todos aqueles que se enganaram sob a neblina do erro, para que te não faltem a paciência e a bondade do irmão a que te arrimarás no dia em que a sombra te ameace o campo das horas.
            Auxilia, enquanto podes.
            Ampara, quanto possas.
            Socorre, quanto possível.
            Alivia, quanto puderes.
            Procura o bem, seja onde for.
            E, sobretudo, desculpa sempre, porque ninguém fugirá do exato julgamento na Eterna Lei.

'Palavras de Vida Eterna' (Ed. FEB)



 “De maneira que cada um de nós 
dará conta de si mesmo a Deus.”
Romanos 14,12

            É razoável que o homem se consagre à solução de todos os problemas alusivos à esfera que o rodeia no mundo; entretanto, é necessário saiba a espécie de contas que prestará ao Supremo Senhor, ao termo das obrigações que lhe foram cometidas.
            Inquieta-se a maioria das criaturas com o destino dos outros, descuidadas de si mesmas. Homens existem que se desesperam pela impossibilidade de operar a melhoria de companheiros ou de determinadas instituições.
            Todavia, a quem pertencerão, de fato, os acervos patrimoniais do mundo? A resposta é clara, porque os senhores mais poderosos desprender-se-ão da economia planetária, entregando-a a novos operários de Deus para o serviço da evolução infinita.
            O argumento, contudo, suscitará certas perguntas dos cérebros menos avisados. Se a conta reclamada refere-se ao círculo pessoal, que tem o homem a ver pelas contas de sua família, de sua casa, de sua oficina? Cumpre-nos, então, esclarecer que os companheiros da intimidade doméstica, a posse do lar, as finalidades do agrupamento em que se trabalha, pertencem ao Supremo Senhor, mas o homem, na conta que lhe é própria, é obrigado a revelar sua linha de conduta para com a família, com a casa em que se asila, com a fonte de suas atividades comuns. Naturalmente, ninguém responderá pelos outros; todavia, cada espírito, em relacionando o esforço que lhe compete, será compelido a esclarecer a sua qualidade de ação nos menores departamentos da realização terrestre, onde foi chamado a viver.
 'Caminho, Verdade e Vida' (Ed. FEB)



Os Mortos... quem cuida?


Deixai aos mortos o cuidado
de enterrar seus mortos... 

Mateus 8,21-22   

“Outra vez, um dos discípulos Lhe disse; 
- Senhor, deixa-me ir primeiro enterrar meu pai. 
Jesus, porém, lhe respondeu: 
“-Segue-me e deixa aos mortos o cuidado de enterrar os seus mortos”
                       
            Mais um tema que ganha total  entendimento após reflexão sobre as palavras de Kardec em “O Evangelho Segundo O Espiritismo”, apresentadas a seguir...

            “Essas palavras encerram um sentido profundo que só um conhecimento mais completo da vida espiritual poderia fazer compreender. A vida espiritual, com efeito, é a verdadeira vida; é a vida normal do Espírito; sua existência terrestre não é senão transitória e passageira; é uma espécie de morte comparada ao esplendor e à atividade da vida espiritual. O corpo não é senão uma veste grosseira que reveste momentaneamente o Espírito, verdadeira cadeia que prende à gleba da Terra, e da qual se sente feliz de estar livre. O respeito que se tem pelos mortos não se prende à matéria mas, pela lembrança, ao Espírito ausente; é análogo aquele que se tem pelos objetos que lhe pertenceram, que tocou, e que aqueles que o amam guardam como relíquias.
            É o que esse homem não poderia compreender por si mesmo;  Jesus lho ensina, dizendo:
Não vos inquieteis com o corpo, mas pensai antes no Espírito; ide ensinar o reino de Deus; ide dizer aos homens que sua pátria não está na Terra, mas no céu, porque lá somente está a verdadeira vida.

O que é o Céu?


Em Mateus (11,11), Jesus, ao referir-se à elevação espiritual já alcançada por João Batista, afirma: “Em verdade vos digo, entre os nascidos de mulher, não surgiu outro maior que João Batista. No entanto, o menor no reino dos céus é maior do que ele.” Este versículo nos sugere inúmeros caminhos de estudo. Nesta oportunidade, optamos por melhor entender a que  Jesus se refere quando fala “no reino dos céus”. A orientação é encontrada no Cap. III de “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, uma das cinco obras em que se baseia o Espiritismo:

O que é o Céu ?

“Em geral, a palavra céu designa o espaço indefinido que circunda a Terra, e, mais particularmente, a parte que está acima do nosso horizonte. Vem do latim coelum, formada do grego coilos, côncavo, porque o céu parece uma imensa concavidade.
Os antigos acreditavam na existência de muitos céus superpostos, de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por Centro. Girando essas esferas em torno da Terra, arrastavam consigo os astros que se achavam em seu circuito. Essa idéia, provinda da deficiência de conhecimentos astronômicos, foi a de todas as teogonias, que fizeram dos céus, assim escalados, os diversos degraus da bem-aventurança: o último deles era abrigo da suprema felicidade. Segundo a opinião mais comum, havia sete céus e daí a expressão - estar no sétimo céu - para exprimir perfeita felicidade...”
“A ciência, com a lógica inexorável da observação e dos fatos, levou o seu archote às profundezas do Espaço e mostrou a nulidade de todas essas teorias. A Terra não é mais o eixo do Universo, porém um dos menores astros que rolam na imensidade; o próprio Sol mais não é do que o centro de um turbilhão planetário...”
“Revelando-nos a Ciência mundos semelhantes ao nosso, Deus não podia tê-los criado sem intuito, antes deve tê-los povoado de seres capazes de os governar.”
“O homem compõe-se de corpo e Espírito: O Espírito é o ser principal, racional, inteligente; o corpo é o invólucro material que reveste o Espírito temporariamente, para preenchimento de sua missão na Terra e execução do trabalho necessário ao seu adiantamento...” “Existem, pois, dois mundos: o corporal, composto de Espíritos encarnados, e o espiritual, formado dos Espíritos desencarnados. Os seres do mundo corporal, devido mesmo à materialidade do seu envoltório, estão ligados à Terra ou a qualquer globo; o mundo espiritual ostenta-se por toda parte, ao redor de nós como no espaço, sem limite algum designado...”
“Pelo progresso, os Espíritos adquirem a felicidade, de sorte que, de dois Espíritos, um pode não ser tão feliz quanto outro, unicamente por não possuir o mesmo adiantamento intelectual e moral, sem que por isso precisem estar, cada qual, em lugar distinto....”
“Sendo a felicidade dos Espíritos inerente às suas qualidades, haurem-se eles em toda parte em que se encontram, seja à superfície da Terra, no meio dos encarnados, ou no Espaço.” “O mundo espiritual tem esplendores por toda parte, harmonias e sensações que os Espíritos inferiores, submetidos à influência da matéria, não entrevêem sequer, e que somente são acessíveis aos Espíritos purificados...”
“A suprema felicidade só é compartilhada pelos Espíritos perfeitos, ou, por outra, pelos puros Espíritos, que não a conseguem senão depois de haverem progredido em inteligência e moralidade..”
“A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades...”
Uma só existência corporal é manifestamente insuficiente para o Espírito adquirir todo o bem que lhe falta e eliminar o mal que lhe sobra...”
“Mas Deus, que é soberanamente bom e justo, concede ao Espírito tantas encarnações quantas as necessárias para atingir seu objetivo - a perfeição...”
“No intervalo das existências corporais, o Espírito torna a entrar no mundo espiritual, onde é feliz ou desgraçado, segundo o bem ou o mal que fez...”
 “A reencarnação pode dar-se na Terra ou em outros mundos...” “A suprema felicidade consiste no gozo de todos os esplendores da criação, que nenhuma linguagem humana jamais poderia descrever, que a imaginação mais fecunda não poderia conceber.
 Consiste também na penetração de todas as coisas, na ausência de sofrimentos físicos e morais, numa satisfação íntima, numa serenidade d’alma imperturbável, no amor que envolve todos os seres, por causa da ausência de atrito pelo contato dos maus, e, acima de tudo, na contemplação de Deus e na compreensão dos seus mistérios revelados aos mais dignos. A felicidade também existe nas tarefas cujo encargo nos faz felizes. Os Espíritos puros  são os Messias ou mensageiros de Deus pela transmissão e execução das suas vontades. Preenchem as grandes missões, presidem a formação dos mundos e a harmonia geral do Universo, tarefa gloriosa, a que se não chega senão pela perfeição. Os da ordem mais elevada são os únicos a possuírem os segredos de Deus, inspirando-se no seu pensamento, de que são diretos representantes. ”
“Nessa imensidade ilimitada, onde está o Céu? Em toda parte. Nenhum contorno lhe traça limites. Os mundos adiantados são as últimas estações do seu caminho, que as virtudes franqueiam e os vícios interditam.”