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sábado, 7 de julho de 2018

Olá meu Irmão!


Olá meu Irmão!
Humberto de Campos por Chico Xavier
Reformador (FEB) Novembro 1943

- A disposição amiga, acentuava Cipriano Neto - é verdadeiro tônico espiritual. Não raro, envenenamos o coração, à força de insistir na máscara sombria. Má catadura é moléstia perigosa, porquanto as enfermidades não se circunscrevem ao corpo físico. Quantos negócios de muletas, quantas atividades nobres interrompidas, em virtude do mau humor dos responsáveis? Claro que ninguém se deixe absorver por malandros de esquina, mas o respeito e a afabilidade para com as criaturas honestas, seja onde for, constituem alguma coisa de sagrado que não esqueceremos sem ferir a nós mesmos,

E, frente à pequena assembleia, toda ouvidos, Cipriano, com a graça de sua privilegiada inteligência, continuou, após longa pausa: - Na Terra, o preconceito fala muito alto, abafando vozes sublimes da verdade superior. Nesse capitulo, tenho minha experiência pessoal, bastante significativa.

Meu amigo vagueou o olhar muito lúcido, através do horizonte longínquo, como a vasculhar o passado, calou-se por alguns momentos e prosseguiu:

É quase inacreditável, mas o meu fracasso em Espiritismo não teve outra causa. Não ignoram vocês que meu coração de pai, dilacerado pela morte do filho querido, fora convocado à doutrina dos Espíritos, ansioso de esclarecimento e consolação. Banhado de conforto sublime, senti que minhas lágrimas de desesperação se transformaram em orvalho de agradecimento à bondade de Deus. Meu filho não morrera. Mais vivo que nunca, endereçava-me carinhosas palavras de amor. Identificara-se de mil modos, Não havia lugar à dúvida. Inclinei-me, então, à doutrina renovadora. Saciado pela água de santas consolações, não sabia como agradecer à Fonte. Foi aí que recordei minhas possibilidades intelectuais. Não seria justo servir ao Espiritismo, através da palavra? Poderia escrever para os jornais ou falar em público. Fundamente reconhecido à nova fé, atendi à primeira sugestão que um amigo me ofereceu e dispus-me a fazer uma conferência. Anunciou-se o feito e, no dia aprazado, compacta assistência esperou-me a confissão. Seduzido pela beleza do Espiritismo cristão, falei longamente sobre a caridade. Aplausos, abraços, sorrisos, felicitações. No círculo de meus companheiros de literatura, porém, o assunto fizera-se obrigatório. Voltando à Avenida, no dia imediato ao acontecimento, meu esforço foi árduo por convencer aos confrades de letras que não me achava louco. Infelizmente, contudo, minha decisão não se filiava senão à vaidade. Pronunciara a conferência como se o Espiritismo necessitasse de mim. Admitia, no fundo, que minha presença honrara, sobremaneira, o auditório, que a codificação kardeciana encontrara em mim prestigioso protetor. Desse modo, alardeava suma importância em minhas novas palestras, Citava a antiguidade clássica, recorria aos grandes filósofos, mencionava cientistas modernos. Quando nos encontrávamos, meus colegas e eu, no ápice das discussões afetuosas, eis que surge o Elpídio, velho conhecido meu e antigo tintureiro em Jacarepaguá. Sapatos rotos, calças remendadas, cabelos despenteados, rosto suarento, aproximou-se de mim e estendeu-me a destra, exclamando alegre:

- Olá meu irmão! Meus parabéns. Fiquei muito satisfeito com a sua conferência!

Entreolharam-se meus amigos, admirados. E confesso que respondi à saudação efusiva, secamente, movimentando levemente a cabeça e sentindo-me profundamente humilhado. Face ao meu silêncio o tintureiro, despediu-se, mostrando enorme desapontamento. "É de sua família?" - indagou um companheiro mais irônico. "Estes senhores espiritistas são os campeões da ingenuidade!", exclamou outro circunstante. Enraiveci-me. Não era desaforo de semelhante homem do povo chamar-me irmão, ali, em plena Avenida, frente aos colegas de tertúlias literárias? Estaria, então, obrigado a relacionar-me com toda espécie de vagabundos? Não seria aquilo irmanar-me a rebutalhos de gente, na via pública? O incidente criou em mim vasto complexo de inferioridade. Cegavam-me, ainda, velhos preconceitos sociais, e a ironia dos companheiros calou-me, fundo, no espírito. A ausência de afabilidade, a incompreensão grosseira dominaram-me por completo, O fermento da negação trabalhou-me o íntimo, levedando a massa de minhas disposições mentais. Resultado? Voltei à aspereza antiga e, se cuidava de doutrina, confinava-me a reduzido círculo doméstico. Não estimava a companhia ou a intimidade daqueles que considerava inferiores. Os anos, todavia, correm metodicamente, alheios a nossa vaidade e Ignorância e impuseram-me a restituição do organismo cansado ao seio acolhedor da terra. Sabem vocês por experiência própria, o que nos acontece a essa altura da existência humana. Gritos estentóricos de familiares, pavor de afeiçoados, ataúde rescendendo aromas de flores das convenções sociais. Em meio da perturbação geral, senti que um sono brando apoderava-se de mim. Nunca pude saber quantos dias gastei nesse repouso compulsório. Despertando, porém, debalde clamei por meu filho bem amado. Sabia perfeitamente que abandonara a esfera carnal e ansiava por encontrar-lhe o carinho. Deixei a residência antiga, ferido de amargurosas preocupações. Atravessei ruas e praças, de alma opressa. Atingi a Avenida, onde me dava ao luxo de palestrar sobre ciência e literatura. E ali mesmo, junto ao café aristocrático, divisei alguém que não me era estranho às relações individuais. Não tive dificuldades no reconhecimento. Era o Elpídio, integralmente transformado, evidenciando nobre posição espiritual, trocando ideias com outras entidades da vida superior. Não mais os sapatos velhos, nem o rosto suarento, mas singular aprumo, aliado à expressão simpática e bela, cheia de bondade e compreensão. Aproximei-me, envergonhado. Quis dizer qualquer coisa que revelasse minha angústia, mas obedecendo a impulso que jamais soube explicar, apenas pude repetir as antigas palavras dele: "Olá meu irmão! meus parabéns!"

Longe, todavia, de imitar-me o gesto grosseiro e tolo de outro tempo, o generoso tintureiro de Jacarepaguá abriu-me os braços, contente, e exclamou com sincera alegria:

Ó meu amigo! que satisfação! Venha daí, vou conduzi-lo ao seu filho!

Aquela bondade espontânea, aquele fraternal esquecimento de minha falta eram, por demais eloquentes e não pude evitar as lágrimas copiosas!...

Nossa pequena assembleia de desencarnados estava igualmente comovida. Cipriano calou-se, enxugou os olhos úmidos e terminou:

A experiência parece demasiadamente humilde, entretanto, para mim, representou lição das mais expressivas. Através dela, fiquei sabendo que a afabilidade é mais que um dever social, é alguma coisa de Deus que não subtrairemos ao próximo, sem prejudicar a nós mesmos.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Desencarnação



Desencarnação
Joanna de Ângelis
por Divaldo Franco
em 02/03/74, C E Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

            Resultando da orientação religiosa deficiente que situou a morte como ponte entre a vida física e a sobrenatural, onde a Divina Justiça aguarda o Espírito para brindar-lhe a paz ou a desdita, o conceito errôneo ensejou aos céticos anotações devastadoras, tornando-a simples retorno ao pó donde se teria originado, portanto, ao aniquilamento.
            Não obstante sua remota antiguidade, o culto dos mortos recebeu do hedonismo grego terrível reação, quando os usufrutuários do prazer situaram os impositivos do existir simplesmente no ideal físico e estético da beleza e do gozo com as decorrências imediatas da dissolução dos tecidos e das expressões do pensamento.
            Os estóicos, que se lhe opunham, esforçavam-se por colocar resistências ao pavor da morte, numa tentativa de se evitarem a tristeza e a dor, mediante um fatalismo racionalista com que se deve superá-las, através do esforço sobre-humano para enfocar as realidades do dia-a-dia, vivendo-se com valor cada hora no mundo material.
            O Cristianismo foi, na História, a mais eloquente mensagem de louvou à vida e à morte, considerando-se que a ética vivida e ensinada por Jesus é toda vazada na ‘negação do mundo material’ para a afirmação de Deus e da vida espiritual. A sua mensagem impele o homem ao entesouramento dos valores morais que não transitam nem se perdem quando se decompõe as aparências orgânicas, permanecendo além-túmulo como superiores recursos para a sobrevivência feliz. Além disso, o seu contato com os chamados mortos, em contínua convivência, suas horas de solidão com Deus atestam a grandeza do princípio espiritual sobrepujando as limitações do veículo carnal.
            Como se não bastassem as eloquentes comprovações de que se fez ímpar agente, retornou, ele próprio, do além-túmulo, à presença de um sem-número de testemunhas, com elas confabulando e convivendo com expressões de vitalidade incontestável...
            Em todos os tempos ressumam os atestados imortalistas, no incessante intercâmbio entre as duas esferas: a orgânica e a espiritual.
            Mentes áridas e atormentadas, no entanto, hão procurado sepultar no ‘nada’ a glória imortal. Não obstante o atavismo dessa negação, no inconsciente humano mantido pela sistemática da descrença, jamais foi utilizada a expressão niilista sobre a vida imortal nos incontáveis conúbios de que foram instrumento médiuns, santos e apóstolos, afirmando sempre a sobrevivência... Em todos esses fenômenos paranormais, o verbete Imortalidade superou o aniquilamento do ser, reafirmando a indestrutibilidade do Espírito à decomposição dos tecidos carnais...

                                   ***

            Não há morte, ninguém se equivoque.
            Só há vida, onde quer que se detenha o pensamento.
            Da decomposição pestilencial da matéria surgem multiplicadas, complexas formas de vida.
            Morre a lagarta em histólise de desagregação para surgir a borboleta em histogênese admirável...     
            Morre a semente para libertar a planta...
            Morre o sêmen para formar o corpo...       
            Morre o corpo para que se liberte o Espírito que dele se utiliza como de um veículo em romagem purificadora.
            Sem dúvida, a morte constitui dor inominável quando arrebata o ser querido, retirando-o da convivência e da ternura dos que a amam... Possivelmente, é a dor moto contínuo de maior duração, graças ao apego e valor que se atribuem aos grilhões carnais.
            A ausência do corpo não impede, porém, a presença do ser, desagregado na forma, não todavia, aniquilado na essência. Ninguém sobreviverá sine die enquanto no ergástulo fisiológico.
            Indispensável considerar que a vida orgânica, iniciada no ovo, se dilui quando cessa a circulação sanguínea por falta de oxigenação; todavia, a causa que aglutinou as moléculas e as transformou prossegue, agora livre, continuando os rumos que deve vencer.
            Ninguém é genitor ou filho, esposo ou amigo afeiçoados por caprichos do acaso. Quando se rompem as argamassas não se dessorem os vínculos superiores que os precederam ao berço e os sucederão ao túmulo.
            Imperioso considerar, mediante reflexão continuada, a problemática da morte, a fim de que a surpresa, decorrente da imantação ao corpo físico, não se transforme em rebeldia inútil ou exacerbação dissolvente.

                                                ***

            Os seres amados recebem, onde se encontram vivos após a morte, os dardos da revolta negativa para eles como as lembranças afáveis do amor.
            O pensamento é força vital gravitando no Universo.
            Imã poderoso mantém sua própria força e atrai as ondas semelhantes que nele se fixam ou às quais se liga.
            Assim, recorda os teus mortos com alegria e ternura, mesmo que isto te pareça paradoxal.
            A morte não visita apenas o teu lar. Passa por todas as portas, invariavelmente. Se amas, conforme dizes, atesta-o com nobreza e não por meio da insensatez.
            Uma memória que inspira desesperação, realmente não foi útil nem nobre.
            Somente o amor verdadeiro inspira ânimo e confiança, alegria e esperança.
            Coloca-te no lugar de quem partiu e considera a forma como te sentirias se foras a causa do infortúnio da pessoa que, dizendo amar-te, pensa em fugir, em vingar-se, em abandonar a vida...
            Refletirás melhor e transformarás a dor em flores de alegria, guardando a certeza de que o amanhã fará o teu reencontro com quem amas.
            A vida sempre devolve conforme recebe. Irisa o céu da tua saudade com a luz da oração pelos teus amados imortais. E começa a preparar-te para a vilegiatura que te alcançará logo mais... Rompe as algemas da paixão, quebra as peias do egoísmo, organiza o programa de liberação das mágoas, reflete nas dores e, quando chegar o teu momento, que nenhuma retentiva te prenda na retaguarda...
            Vivendo, está-se desencarnando a pouco e pouco. O golpe final resulta de todos esses pequenos morreres, que lançam a alma na realidade da consciência livre e indestrutível.
            Desencarnar é desembaraçar-se da carne.
            Morrer, literalmente, significa cessar de viver.
            Do ponto de vista espiritual, porém, morte é vida e vida no corpo pode afigurar-se como morte transitória da liberdade e da plenitude da lucidez.
            Vive, pois, de tal forma que, advindo a morte ou desencarnação, estejas livre e prossigas feliz.

Oh! Quando?!


Oh! Quando?!
Stanislav Schulhof
Reformador (FEB) Dezembro 1951

             
Oh! quando virá o dia feliz em que sobre toda a Terra brilhará a luz do Sol do saber, do Bem e da Verdade, e desaparecerá todo flagelo do sofrimento?

Só depois do pleno resgate de todas as dívidas, só quando a última centelha da maldade for extinta pelo amor e pelo sacrifício na vontade e na imaginação de cada homem.

Assim como já morreu a mente canibalesca, seja a atual, a mente canibalesca, seja a atual, a mente combativa, substituída pelo Amor fraterno.

Que assim façam todas as almas e a Humanidade proclame a Paz. Cada um o faça desde já em seu próprio coração.

Hospitalização Carcerária



Hospitalização Carcerária
Emmanuel  por Chico Xavier
Reformador (FEB)  Fevereiro 1977

            Quando tiveres de anotar o comportamento dos irmãos reeducandos, em retiros carcerários, deixa que a compaixão se te instale no espírito, antes que a palavra te configure as considerações.
            Presídios são escolas-hospitais, dignas de apreço.
            Irmãos internados nesses educandários se erigem à posição de enfermos em tratamento espiritual.
            Magistrados desempenham a função de especialistas, cominando preceitos penalógicos, à feição de recursos curativos para a supressão de desequilíbrios determinados.
            E, de nossa parte, devemos ser os irmãos compreensivos de quantos se vejam na condição de doentes da alma, integrando com eles a grande família humana.
            Somos todos Espíritos imortais, companheiros da mesma caminhada evolutiva.
            De que maneira condenar os semelhantes, se não dispomos de meios para analisar-lhes o sofrimento, quando o sofrimento lhes extravasa do ser, em forma de ignorância e doença, obsessão e criminalidade?
            Que espécie de dor terá erguido o braço daqueles que promoveram a destruição do próprio corpo?
            Quem terá impulsionado a mão do homicida contra aqueles que lhe experimentaram os golpes?
            Quantos dias de resistência gastaram os corações queridos, mas ainda inseguros, até que se emaranhassem nas trevas da tentação?
            Que forças invisíveis na Terra induziram ao enfraquecimento e ao desânimo almas belas e cultas, quando desertaram dos compromissos que elas próprias criaram na Causa do Bem?
            E qual teria sido o nosso comportamento se houvéssemos faceado as inquietações e os problemas em que os nossos semelhantes, considerados em erro, se matricularam em rudes provas?
            Meditemos nessas indagações, já que não nos é dado conhecer os dramas da sombra, desde o princípio, a fim de que não venhamos a intensificar os obstáculos de quantos se reajustam, muitas vezes, à custa de tribulações e de lágrimas.
            Entendemos a legitimidade dos tribunais humanos e todos somos chamados a respeitar-lhes as determinações.
            Entretanto, nas trilhas do relacionamento mútuo, situemo-nos todos - todos nós, os Espíritos ainda vinculados à evolução terrestre - ao esquema das consciências endividadas, ante os foros da Divina Justiça. E, longe de agravar as aflições dos nossos irmãos, sob assistência carcerária, auxiliemo-nos na reabilitação das próprias forças, rogando à Misericórdia Divina para que se compadeça de todos nós.


Missaria Espírita



Missaria espírita
João Fernandes
Reformador (FEB) Dezembro 1951

Quando ouço o anúncio pelo rádio ou leio o convite, pela imprensa, para uma prece por seu Fulano, desencarnado em tantos do mês tal, percebo logo que os promotores da homenagem vieram do Catolicismo e, misseiros que eram, ainda se acham saudosos de suas antigas cerimônias litúrgicas: o defunto precisa de missas.

E assim vemos, por ar, dentro do Espiritismo, "missas" de 7º e de 30º dia, além das anuais, e, ao lado disso, os batizados (sem cuspe, felizmente) e até os casamentos - proh pudor! vão conseguindo o seu lugarzinho, à imitação da Roma eterna, eternamente pagã.

E a coisa se vai ampliando, numa adaptação perfeita à orientação católica: reuniões públicas de preces pelo restabelecimento da saúde do Sr. Pafúncio, ou pela formatura do filho do Doutor Pulquério, ou, mesmo, pela passagem do dia do aniversário do Sr. Anastácio Polimério.

Isso tudo, com os meses marianos disfarçadamente restabelecidos, mês de Kardec, semana disso, dia daquilo, muitas vezes com festanças e homenagens estilo profano, tudo servindo de pretexto para as tais supostas comemorações, isso tudo, com ou sem bandas de música, com ou sem foguetes, com ou sem barraquinhas de mafuá, com ou sem vesperais dançantes, isso tudo, dizemos, é a prova provada, documentada, estereotipada, indelevelmente gravada, de que muita gente ainda não assimilou sequer os ensinamentos contidos em "O Livro dos Espíritos", livro sobre o qual repousa toda a estrutura da Terceira Revelação.

Da ingratidão



....A ingratidão do mundo é a mais comum das recompensas que podemos esperar do bem que fizermos. Isto quer dizer que não se deve fazer o bem senão por amor ao bem, ainda que nos façam mal; nunca, porém, para recebermos qualquer paga ou agradecimento." 
                                                      Indalício Mendes in Reformador (FEB) Outubro 1947 (trecho)

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Consequências da Doutrina e da Moral Espírita



Consequências da Doutrina Espírita
Dr. Gustave Geley (Tradução por Luiz de Almeida)
Reformador (FEB) Agosto 1944

“A Ciência é incapaz de nos fornecer uma explicação ou uma interpretação aceitável do Universo. Ela é incapaz de criar uma moral. Ela é incapaz, enfim, de substituir a Religião na evolução social da Humanidade." (Brunetière - "Revue des Deux Mondes", 15 octobre, 1896).

Contentemo-nos, por ora, de encarar algumas das consequências que resultarão imediatamente, sem dúvida, da constatação rigorosamente científica dos dois principais fundamentos da doutrina espírita:

1°) Persistência do eu consciente depois da morte e
2°) Evolução progressiva da alma pelos seus próprios esforços.

É evidente que esta nova ciência arrastará uma revolução completa na filosofia, na moral, na vida social e individual. No domínio da filosofia, ela permitirá, enfim, por de lado, definitivamente, as obscuridades sistemáticas, as doutrinas incoerentes e caducas, sem demora esquecidas em face da simplicidade luminosa da nova ideia e, também, diante da satisfação completa que ela conduz ao nosso instinto de felicidade, ao nosso desejo de imortalidade, à nossa esperança de conhecer o Além.

Nos domínios da FÉ, ela fará desaparecer as ideias niilistas tão deprimentes e tão desesperadoras; assim também os dogmas religiosos tão pouco satisfatórios. Ela substituirá as crenças impostas pela convicção raciocinada. Desembaraçará o espiritualismo dos ouropéis sob os quais, durante tantos séculos, se esforçou por escondê-lo e mascará-lo o gosto de diversas teocracias. Ela nos libertará desses deuses antropomórficos, amiúde caprichosos e cruéis, intervindo constantemente na criação através dos milagres, da graça e da predestinação; reservando seus favores a raros eleitos; exigindo sacrifícios sangrentos e escolhendo as vítimas destinadas a "aplacar sua cólera" entre as melhores de suas criaturas, semeando as tentações sob nossos passos e, pela menor falta, punindo-nos com a eternidade; prostrando-nos, enfim, durante nossa miserável existência, com provas e dores que não são mais que o ressaibo de castigos ainda mais cruéis!

Com esta ideia nova desaparecerão certas prescrições dogmáticas impondo crenças extravagantes, restringindo, até anulá-lo, nosso livre arbítrio, estorvando nosso desenvolvimento consciente; - desaparecerá esta interpretação, incrivelmente mesquinha, do Universo, submetendo toda a criação à humanidade terrestre!

Desaparecerá o dogma do pecado original, com suas consequências injustas e bárbaras. (1)

(1) Consequências que vão, para certos teólogos, até à condenação das crianças mortas sem batismo.

Desaparecerá a noção da "salvação" pelas preces e pelos sacramentos.

Desaparecerão, sobretudo, estas aberrações ferozes sobre o inferno, suas legiões de demônios e seus suplícios eternos!

Quanto estes dogmas infantis parecem miseráveis em comparação com os ensinamentos da nova filosofia: dupla ideia de involução e de evolução abarcando tudo em um panteísmo grandioso. (2) Evolução progressiva dos mundos e dos seres por suas próprias forças, sem intervenção caprichosa da divindade!

(2) A respeito destas magníficas concepções panteístas, não posso impedir-me de citar as belíssimas almas palavras de M. Marius George - Humanité integrale, janeiro de 1896 - "parafraseando uma citação célebre, eu disse uma vez: sou homem e tudo que toca ao homem me é muito caro; mas o que deveria realizar-se fora de seu destino não poderia tocar-me. Se existe um Deus ou vários deuses, anjos ou arcanjos não tendo jamais conhecido nem o esforço, nem a luta, nem o sofrimento, não tendo jamais atravessado a noite angustiosa da ignorância, estes seres exteriores não me são nada, não sendo humanos. Eu não quero e não posso receber por irmãos, mesmo que tão alto estejam na glória, senão os primogênitos em humanidade, os vencedores das nossas mesmas misérias, aqueles que, embora possuindo mais luz, irradiando mais amor e harmonia, passaram também maior tempo que nós pela luta, pelo sofrimento e pela conquista."

"A mais alta ideia que se pode fazer de um ordenador, disse justamente Léon Denis, é de supô-lo formando um mundo capaz de se desenvolver por suas próprias forças e não por contínuos milagres ... "

A divindade não pode ser compreendida fora do Universo.

“A ideia de Deus não exprime mais hoje, para nós, um ser qualquer, mas a ideia do ser, o qual contém todos os seres... Nada de criação espontânea, nascida, miraculosa; a criação é continua, sem começo nem fim... O mundo se renova incessantemente em suas partes, mas no conjunto ele é eterno. (3)

(3) Léon Denis - "Depois da Morte".

A terra sobre a qual, segundo expressão de Flammarion, as religiões querem concentrar todo o pensamento do Criador, não é senão um ponto insignificante no Universo. Uma só existência sobre esse planeta, por outro lado, não é mais que um momento insignificante na série das encarnações numerosas do ser vivente. A alma individual não foi criada completa, com as faculdades que desejou assinalar-lhe o capricho do Criador. Forma-se e se desenvolve ela mesma pelos seus esforços, seus trabalhos e seus sofrimentos. De si própria que se liberta então, pouco a pouco, do mal agarrado necessariamente nas fases inferiores de sua evolução; dela mesma é
que chega à compreensão do verdadeiro, do belo e do bem; que retirará lentamente os elementos conquistados para sua felicidade futura.

No Além, a compreensão perfeita das desigualdades humanas e a solução completa do problema do mal - estas duas condições da vida terrestre - é que se conciliam tão dificilmente com a noção de uma Providência ativa.

As desigualdades humanas, sob o ponto de vista da inteligência, da consciência e do coração, desigualdades que nem a hereditariedade, nem a influência do meio explicam suficientemente, encontram sua interpretação fácil nas diferenças evolutivas dos seres.

"A pluralidade das existências pode, sozinha, explicar a diversidade dos caracteres, a variedade das aptidões, a desproporção das qualidades morais, em uma palavra, todas as diferenças que ferem nossos olhares... Sem a lei da reencarnação é a iniquidade que governa o mundo". (Léon Denis)

A explicação do mal não é menos satisfatória. O mal não é o produto das forças cegas da Natureza, impondo às nossas personalidades efêmeras sofrimentos sem compensação. Não é a consequência injusta de um pecado original; não é uma experiência, ainda menos castigo ou vingança da divindade.

O Mal é tão somente a medida da inferioridade dos mundos e a condição necessária para seu aperfeiçoamento.

O mal é o grande aguilhão da atividade dos seres, necessário para impedir sua imobilização no estado presente. Mesmo na humanidade avançada, a dor física ou moral desfruta de um índice expressivo. Ela impõe o trabalho e impede o retardar-se durante muito tempo nos prazeres inferiores.

Certos privilegiados da existência poderão perder vidas inteiras na ociosidade, mas cedo ou tarde sofrerão a advertência do mal. A doença, um grande desgosto, a dor sob qualquer de suas formas, o fará compreender a inutilidade dos prazeres materiais, lastimar o tempo perdido e, então, lhe dará uma ideia mais elevada e, consequentemente, o desejo da verdadeira felicidade.

Sob condições evolutivas o mal é inevitável. Mesmo seus excessos, as grandes catástrofes, as infelicidades imerecidas, são a consequência do livre desenvolvimento dos mundos pelas suas próprias forças, e não poderiam ser reprovados pela divindade.

O mal diminui paulatinamente consoante a escala da evolução. A história da Terra, desde os tempos mais remotos até nossos dias, é uma prova evidente disso. Não há mais lugar, em face desta interpretação do Universo, para as ideias de paraíso ou de inferno. Punições e recompensas vêm de nós mesmos e são a consequência natural, forçada, de nossas faltas ou de nossos esforços.

"A vida atual (Léon Denis) é a consequência direta, inevitável, de nossas vidas passadas, como nossa vida futura será a resultante de nossas ações presentes. (4) Nós somos aquilo que somos feitos, por nós mesmos.

(4) Não se poderá censurar a possibilidade de exceções acidentais, impondo encarnações dolorosas imerecidas. Semelhantes acidentes são inevitáveis, nada tendo com a intervenção de uma Providência em nossa evolução. Mas eles serão compensados nas encarnações ulteriores. É necessário encarar o conjunto e não os detalhes; e pensar bem que uma só existência não é quase nada, no curso de nossa evolução. Quase sempre aliás, as provas e os sofrimentos foram prévia e livremente escolhidos pelo Espírito antes de sua reencarnação, no seu interesse ou pelo de seus semelhantes.

A sanção de nossas faltas será simplesmente o estacionamento nas encarnações inferiores, segundo as condições que resultam, matematicamente, para cada existência, das existências já vencidas. A recompensa e compensação que devemos esperar de nossos esforços, de nossos sofrimentos, de nossas virtudes, é a passagem para um estado superior, e esta recompensa resultará das leis evolutivas e não de um julgamento divino. Nosso progresso nos assegurará a felicidade, resultado natural da diminuição do mal, coincidindo com o desprendimento da consciência, da liberdade e das faculdades emotivas. Esta felicidade nós a obteremos apenas pelo nosso merecimento, em virtude dos livres esforços.

Para ser capaz de admirar um estado superior é necessário, antes de tudo, elevar-se ao seu nível. Não se poderá desfrutar de um bem que não seja compreendido.
Não vejamos, sem sair da vida ordinária, pessoas incapazes de saborear prazeres estéticos, de apreciar a beleza, de experimentar emoções elevadas! Não procuremos saber em que consistirá nossa felicidade futura. O desenvolvimento prévio é a condição necessária, não somente para a obtenção, mas também para a compreensão
desta felicidade. Isto basta para saber que ela resultará, necessariamente, dos progressos evolutivos.

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Nota do tradutor - O excerto presente foi extraído do "Essai de revue génerale et d'interprétation synthétique du Spiritisme", do famoso sábio francês Dr. Gustave Geley que, a 28 de janeiro de 1918, perante a Sorbonne, deu conta de seus primeiros trabalhos, no domínio das ciências psíquicas. Grande foi sua contribuição ao assunto pois que, em outros livros de notável transcendência, depôs o fruto de suas experiências aclaradas à luz da análise fria e meticulosa. Cumpre assinalar, entanto, para esclarecimento do leitor, uma ressalva do texto, no trecho em que o autor se refere ao termo - panteísmo. Aqui, não se justifica, a rigor, o significado filosófico delineado como sistema religioso. Ele quer admitir o que a razão comum acolhe: sendo as criaturas partículas divinas, cabe em todas elas a essência do Criador. Os Atos dos Apóstolos testificam, nos v. 28 e 29, cap. 17: "Porque nele vivemos e nos movemos, e existimos, como também alguns de vossos poetas disseram: pois somos também sua geração. Sendo nós, pois, geração de Deus, etc.". Em outro número daremos algumas das Consequências Morais que o ilustre psicólogo anteviu, como fundamento pré-estabelecido, para o círculo da conduta humana, dilatado pela força incoercível da Nova Revelação.


Consequências morais da Doutrina Espírita (1)
Dr. Gustave Geley (Trad. De Luiz de Almeida)
Reformador (FEB) Outubro 1944

As consequências filosóficas que precederam (v. "Consequências da Doutrina Espírita", em número anterior) arrastarão consequências morais de uma importância capital. A nova moral constituirá uma ciência cujos princípios sério rigorosamente deduzidos dos conhecimentos adquiridos sobre nosso destino. Como tal, sua influência será verdadeiramente poderosa. Mas, como tal também, ela sacrificará impiedosamente o montão de preconceitos, de obrigações artificiais, de restrições inúteis que embaraçam a moral tradicional, e que os homens parecem ter acumulado por prazer, para tormento reciproco. Ela se apoiará sobre três bases principais:

1º) O conhecimento das leis e condições evolutivas;
2º) A necessidade do livre desenvolvimento individual;
3º) A noção da relatividade da liberdade moral, apoiada sobre a compreensão do mal e das desigualdades humanas.

DO CONHECIMENTO DAS LEIS EVOLUTIVAS se deduzirão:

A necessidade do trabalho pessoal;

A necessidade de cultivar, sobretudo, nossas faculdades intelectuais e afetivas, e de nos desvencilhar o mais possível das sujeições materiais;

A solidariedade forçada entre os homens, pelo encadeamento das existências sucessivas as quais se acham sujeitos, nas condições e meios os mais diversos. Disto gera a necessidade do altruísmo que, segundo expressão do Dr. Gibier, será o egoísmo verdadeiro, pois auxiliando o aperfeiçoamento do seu próximo e da sociedade,
a criatura ajudará seu próprio avanço e tornará menos penosas as encarnações futuras.

A NECESSIDADE DO LIVRE DESENVOLVIMENTO INDIVIDUAL é uma lei que se deduz necessariamente do conhecimento do livre desenvolvimento do mundo. Guardamos em nós tudo que é necessário para assegurar nosso progresso; e este progresso deve resultar dos nossos esforços pessoais. Portanto, nos limites do possível, a moral humana deve deixar livre o indivíduo. Não é somente inútil, mas nocivo, impor um dever que a pessoa não compreende ser um dever (1).

(1) Seria inútil registrar que não se trata aqui da educação da infância. Haveria muita coisa a dizer sobre este objetivo enquadrado na nova filosofia, mas, no momento, isto nos arrastaria muito longe.

O ideal da moral será instruir, mas não impor, e advertir a criatura sobre as consequências de suas ações. A luta é necessária ao desenvolvimento de sua inteligência (2).

(2) Um exemplo fará melhor compreender meu pensamento: suponho dois adolescentes em nível psíquico semelhante. O primeiro se encerrará em um convento, onde passará a vida a orar, sem nada saber dos trabalhos, dos prazeres, das dores, das tentações ou das faltas da Humanidade. Terminará, portanto, sua existência, sem ter sobre a consciência um só pecado mortal. O segundo, na sociedade, lutará, trabalhará, conhecerá prazeres e dores. Sem ter sido criminoso, terá cometido muitas faltas. É certo que este último estará mais avançado, na morte, e melhor preparado para a vida futura.

Cedo ou tarde, as faltas, os erros cometidos serão, sob a advertência da dor e, consequentemente debaixo da percepção intelectual, julgados e compreendidos pelo próprio culpado e, então, sua liberdade moral dará um passo acima. Bem entendido, este respeito completo pelo livre desenvolvimento do homem não passa de um ideal. Praticamente, ele deve ser subordinado sob justa medida à segurança e à liberdade dos seus semelhantes. Mas todas as restrições e todas as imposições que não visam exclusivamente este objetivo são nocivas e devem ser rejeitadas.

O terceiro princípio que servirá de base à moral futura, o da RELATIVIDADE DA LIBERDADE MORAL, vem em apoio das considerações precedentes, e prova também o perigo das restrições mundanas ou sociais. Da parte da lei da evolução, o livro arbítrio está sempre proporcional ao progresso do Espírito (3).

(3) Esta solução do problema da liberdade moral constitui um dos mais belos ensinamentos da Doutrina Espírita.  

Consequentemente, a gravidade de uma falta não pode ser apreciada em si mesma, nem mesmo após as circunstâncias; mas, antes de tudo, de acordo com o grau de evolução do culpado. Isto significa que os julgamentos humanos, baseados sobre o princípio da igualdade moral, são sempre acoimados de injustiça. É, pois, prudente e sábio abster-se de julgar. É suficiente, aliás, lembrar-nos do nosso passado, para nos convencer da necessidade de uma indulgência completa para com as faltas do próximo. Todos nós, em encarnações diversas, temos sido criminosos e miseráveis; e se soubemos elevar-nos para o conhecimento do belo e do bem, seria rebaixar-nos ao nível dos pecadores toda vez que lhes dispensássemos desprezo.

O espírito elevado não considera faltas ou crimes as consequências do vício, as manifestações da maldade, do egoísmo, do ódio, da inveja, do espírito de vingança, de todos os sentimentos baixos que fazem a infelicidade humana, como produtos inevitáveis de um estado inferior. Ele sabe que existe, no mundo, muito menos culpabilidade que ignorância (4).

(4) Não se argumente que certos criminosos, bem conhecidos, estejam instruídos e inteligentes; semelhantes exceções não poderão ser opostas a uma regra geral. Seria, aliás, provável que estes malfeitores, apesar de algumas faculdades lúcidas, pudessem ser, em conjunto, seres inferiores. Um ser realmente superior é necessariamente bom e não pode jamais agirem função do crime.

Também buscará, antes de tudo, instruir os culpados ou preveni-los sobre suas más ações. Ele não se rebaixará jamais para punir ou para vingar. Ele sabe que os castigos inventados pelos homens são inúteis para melhoria do culpado e que toda a ação carrega em si a própria sanção.

Vê-se o alcance de princípios parecidos na atividade humana. Ao contrário da moral clássica, a moral evolucionária será sobretudo positiva, e reduzirá ao mínimo o número e a importância das restrições, o número e a importância dos deveres (5).

(5) Em uma humanidade suficientemente evoluída, quer dizer, suficientemente inteligente e boa, o princípio de obrigação tomará o lugar do princípio de liberdade. A noção do dever desaparecerá quase inteiramente para ser substituída pela noção do amor. Isto se tomará, com efeito, um prazer em praticar o bem e um sofrimento em praticar o mal.  

Na vida individual ela aconselhará, antes de tudo, o trabalho; sobretudo, bem entendido, o trabalho intelectual e a cultura das nossas faculdades emotivas e afetivas.

Podemos desenvolver-nos em qualquer um dos ramos da atividade psíquica, porque importa menos chegar a conhecer muitas coisas que dilatar nossa capacidade de saber. Aquilo que se aprende é menos importante, em si, que o exercício intelectual necessitado para instruir o aperfeiçoamento consecutivo. É inútil, aliás, tentar, numa existência terrestre, abraçar um punhado de conhecimentos. Evitando uma especialização estreita, sempre nociva, nós nos esforçaremos por cultivar disposições inatas e adquirir o mais possível nesse sentido. É a melhor regra, tanto para a sociedade como para nós mesmos.

Ao mesmo tempo em que trabalhar por si, a criatura, com efeito, em face da Lei do Altruísmo imposta como a encaramos segundo a noção das vidas sucessivas, deverá trabalhar pelo aperfeiçoamento de seus semelhantes.

Ela fará o bem sem inquietar-se com resultado imediato.

Desdenhará pensar sobre o reconhecimento que auferirá de seus benefícios e não exigirá reciprocidade.

Menosprezará as injúrias pessoais, esforçando-se por reprimir qualquer sentimento de ódio ou de ciúme.

Não se vingará.

Saberá desculpar e compreender nos outros os vícios e os defeitos, inexistentes por si mesmos, e, na medida do possível, evitará julgá-los.

Deverá aliás, antes de tudo, trabalhar, fazer prova desse testemunho, oferecendo aos olhos dos seus semelhantes o exemplo de uma bondade ativa, consagrada pelo amor e pelo auxilio.

Não fará, pois, nada que a possa diminuir.

Aproveitando o mais possível sua atual encarnação, deverá cuidar do corpo, instrumento de sua atividade.

Evitará, portanto, os excessos, os perigos inúteis, a preocupação de uma morte prematura.

Não terá nulamente que rejeitar de "caso pensado" os prazeres da existência terrestre, nem considerá-los "pecados".

Somente não esquecerá que apenas os prazeres elevados da inteligência e do coração é que serão úteis ao seu aperfeiçoamento, que os gozos puramente sensuais são apanágio de seres inferiores, acompanham-se quase sempre de desilusões e de dores, podendo, em certa medida, retardar o processo da evolução.    

Pensará, sobretudo, na renúncia de todo prazer que poderá prejudicar o próximo.

(6) Nos quais limites em que pode e deve manifestar-se este amor do próximo, é o que não é poss1vel fixar. Aí, ainda, o evolucionismo não estabelecerá senão leis gerais, deixando toda liberdade para as interpretações individuais.

                                                          
                                                                         Gustave Geley                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                       
 Consequências morais da Doutrina Espírita (2)
Dr. Gustave Geley (Trad. De Luiz de Almeida)
Reformador (FEB) Novembro 1944

Esforcei-me por examinar fielmente a parte essencial do Espiritismo. Eu o fiz sem "parti pris", se bem que enlaçado por certa simpatia que não posso dissimular, mas esta simpatia mesma me impede concluir de maneira formal, no temor de uma possível ilusão de minha parte.

Contentar-me-ei, para finalizar, com algumas reflexões que me parecem ponderáveis.

Os fenômenos espíritas têm sido observados por inúmeros testemunhos conscienciosos, controlados por numerosos sábios, para serem agora negáveis "a priori". Vou mais longe: ninguém tem o direito de repudiar, sem prováveis contra-experimentações, as conclusões investigadoras de Crookes, Wallace, Zõelner, Aksakof, Oliver Lodge, Myers, Lombroso, Richet, De Rochas e tantos outros não menos ilustres. A Doutrina Espírita, seja justificada ou não, é por demais grandiosa para não impor aos pensadores, aos filósofos e aos sábios, uma discussão aprofundada.

Grande número dentre eles concluirá, certamente, após exame sério, que uma doutrina baseada sobre fatos experimentais igualmente numerosos e precisos, de acordo com todos os conhecimentos científicos nos diversos ramos da atividade humana, dando uma solução bastante clara e satisfatória dos grandes problemas psicológicos e metafísicos, que uma tal doutrina - arrisco eu - é verossímil. Bem melhor, que ela deve ser verdadeira; que ela é muito provavelmente verdadeira.

Em todo caso, não se trata mais hoje de se satisfazer com ilusões, de se deixar embalar por "velhas canções", nem de dormitar sobre o "fofo travesseiro da dúvida".

Nós devemos saber. Nós queremos saber. Nós podemos saber.

Agora a Ciência abateu para sempre as velhas concepções do Universo.

- Distinção essencial entre os animais e o homem, por este ser provido de alma imortal. - Criação relativamente recente, antropocêntrica e geocêntrica. - Divindade exterior ao Universo, céu, empíreo, etc.

Todas estas noções desapareceram da face do progresso das Ciências Naturais e da Astronomia, mesmo porque se tornaram insuportáveis para a consciência moderna as ideias de um inferno eterno e de um Deus punidor e vingativo.

O evolucionismo se impõe, bom grado ou mau grado, a todo aquele que pondera e raciocina; e, portanto, o Espiritismo evolucionista é a única doutrina que pode hoje em dia ser oposta cientificamente ao niilismo.

- Que a Evolução encarada sob suas duas faces é infinitamente mais satisfatória que a evolução orgânica pura, isto é evidente, pois que ela atende nossos desejos de imortalidade e de ventura, oferece uma sanção moral, satisfaz os anseios do coração e da razão, reunido numa única síntese a Ciência, a Filosofia e a Religião.

- Mas esta doutrina tão bela será verdadeira? (1)

(1) A propósito desta pergunta aleatória, convém realçar que o renomado cientista que foi o Dr. Gustave Geley, na França, estabeleceu esta CONCLUSÃO - para seu pequeno estudo "Essai de Revue Genérale et d'Interprétation Synthétique du Spiritisme", ainda em 1897, nos pródromos do Espiritismo europeu, quando ensaiava, então, suas primeiras experiências. Estudos pacientes e continuados na investigação dos fenômenos, muitos dos quais englobados na conferência que proferiu na Sorbonne, a 28 de janeiro de 1918, nos vieram demonstrar que esse químico e psicólogo veio a abraçar mais tarde, e definitivamente, as teses da 3ª Revelação.
Afirma seu amigo íntimo e prefaciador Sr. Jean Meyer: "no curso de suas fortes páginas, Geley afirma a sobrevivência com uma lógica, uma largueza de vista e uma elevação de espirito que sua autoridade, como experimentador, torna singularmente impressionante".
Nas experiências realizadas em 1924, expostas em seu livro - "L'Ectoplasmie et Ia Clairvoyance" - Gustave Geley, embora sem uma conclusão relacionada com qualquer sistema, assim se expressa: "a única conclusão que tirarei no momento, da exposição árida dos fenômenos, é a certeza de sua autenticidade". Porém, em seu anterior e recente livro - "De l'inconscient au conscient" - deixa transparecer, nestas linhas, sua convicção definida: "na sequência das existências, uma vida terrestre não tem mais importância relativa que uma jornada no curso desta vida. Uma vida, um dia; uma e outro tem, na evolução, importância comparável e uma verdadeira analogia".
Morrendo em 1924, nos arredores de Varsóvia, em consequência de uma queda de avião, deixou no campo da investigação científica seleta sementeira de estudos que hoje frondejam e frutificam para as almas sequiosas da realidade palpável. Liderou com Charles Rlchet o movimento psiquista na França, tendo sido diretor do Instituto Internacional de Metapsíquica. - Nota do tradutor.  

A palavra está com a Ciência. Pode-se, porém, declarar bem alto: a Ciência não poderá mais, hoje em dia, desinteressar-se pelos estudos psíquicos. Que existam lá apenas ilusões ou quimeras, ou que eles sejam o prefácio de uma transformação completa na atividade humana, a Ciência nos deve uma conclusão precisa a respeito.

Nenhum sábio, nenhum pensador, nenhum homem um pouco instruído poderá desdenhar interessar-se por estes empolgantes problemas.  

A imortalidade - disse Pascal - é coisa que tão forte nos importa, que nos toca tão profundamente, que é necessário ter perdido todo sentimento para ser indiferente ao que existe nela."
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