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sexta-feira, 6 de março de 2020

O Temor do Inferno



O Temor do Inferno
por Djalma de Matos
Reformador (FEB) Janeiro 1942

            A crença na existência do inferno... O temor do inferno, como mansão de penas eternas, como lugar destinado a sofrimentos horríveis que jamais têm fim, para as desditosas almas que nele, por suprema desgraça, chegam a ingressar, - se em outras eras, de maior atraso moral e intelectual, teve a sua utilidade, para refrear instintos perversos de consciências endurecidas no crime e na impiedade, já agora, na nossa época, em que predomina o livre pensamento, o livre exame e a livre manifestação da ideia, malgrado ao sangrento esforço em contrário dos fazedores de guerra, é de todo ineficaz e contraproducente.

            Causa estranheza que os sacerdotes das igrejas se empenhem, com tanto zelo, em propagar tal crença, como se fosse ensinamento cristão, quando, evidentemente, não há nada mais contrário ao espírito do Cristianismo, que se inspira no amor e no perdão, pregados e exemplificados pelo seu excelso fundador.

            Esse dogma, incompatível com o grau de evolução mental e espiritual a que chegamos, não pode mais ser aceito sinceramente por quem tenha a faculdade de raciocinar.

            Se a uma criança, que vive num meio em que ainda não penetraram os melhoramentos da civilização, alguém quiser assustar com o papão, é bem possível que consiga o seu intento. Usar, porém, do mesmo expediente com um menino ou menina, que se acostumou a andar de automóvel, a ouvir rádio, a assistir cinema e a ver aviões cruzarem os ares quase que diariamente, o efeito será negativo, porque, dispondo de elementos para raciocinar e esclarecer-se, compreenderá logo o absurdo da ameaça.

            Acontece, não obstante, que muitas crianças ladinas fingem acreditar no papão, para não parecer que estão convencidas de que os maiores - quase sempre os pais - não estão falando a verdade, e se esforçam, a seu turno, por convencer aos mais pequenos da real existência do papão.

            O mesmo fenômeno mental, ou psicológico, conserva-se nos pregadores e fiéis das igrejas cristãs, em relação à existência do inferno, com a condenação eterna e Satanás. São, por via de regra, bastante inteligentes e sensatos para intimamente não aceitarem tais absurdos, incompatíveis com a noção que se deve ter da justiça de Deus, equânime e misericordiosa, mas, fingem acreditar - os pregadores, por amor á intangibilidade do dogma, que juraram defender, e os fiéis, porque se sentem no dever de proclamar como verdade indiscutível tudo que sai da boca dos sacerdotes de sua infalível religião. Jesus jamais se referiu a inferno como mansão circunscrita de penas eternas e sim como planos, ou diversos estados, em que as almas pecadoras se encontrarão pelos sofrimentos e expiações: as trevas exteriores, onde haverá "choros e ranger de dentes", para as criminosas, endurecidas, impenitentes, e o "fogo", fogo das más paixões e dos desejos impuros, para as viciosas de toda especie.

            Amai a Deus sobre todas as coisas - Amai ao próximo como a vós mesmos - Amai-vos uns aos outros - Não façais aos outros o que não quereis que vos façam - Perdoai para serdes perdoados - Perdoai não sete vezes, mas setenta vezes sete - Não julgueis para não serdes julgados. .. Estes ensinamentos que se confirmam e se completam uns aos outros, repetidos, quase todos, várias vezes, no Evangelho de Jesus, consubstanciam os fundamentos de sua santa e consoladora doutrina, como ninguém poderá negar.

            E, assim sendo, porque querer obscurece-los, dando mais importância a frases isoladas, atribuídas ao meigo Nazareno, que falam em inferno, condenação e satanás, e que, se realmente proferidas, por Ele, se não referiam a estados transitórios das almas pecadoras, só podem ser levadas à conta de força de expressão?

            Como admitir que o Divino Messias fosse incoerente e contraditório, certificando da bondade e misericórdia do Pai, e ao mesmo tempo, ameaçando com a vingança extremada desse mesmo Pai, com a condenação eterna e satanás?

            Oh! Cegueira dos homens! Dizem-se cristãos, mas, como não encontram em seus corações a predisposição para o amor e o perdão, que o Cristo pregou e exemplificou, querem ver, de preferência, nas suas palavras, o inferno e satanás, à previdente sabedoria e misericórdia de Deus, que elas revelam - a condenação e a intolerância, ao "perdoai setenta vezes sete vezes" - o exclusivismo de seita, ao "amai-vos uns aos outros" - a hostilidade em nome da fé, ao "não façais aos outros o que não quereis que vos façam" - o direito de julgar em nome do Cristo, à sua formal declaração de que não veio para julgar o mundo e sim para salvá-lo, e ao conselho de não julgarmos para não sermos julgados. Como não querem reformar-se, para adaptar os atos aos preceitos evangélicos; lidam por moldar o Cristianismo ao sabor de suas mentes e sentimentos.

            Nós, espíritas, temos convicção de que não existe inferno com condenação eterna, nem diabo ou satanás, rival ao mesmo tempo que carcereiro de um Deus vingativo e cruel. Para nós, Deus é pai de amor e misericórdia, que não quer a perdição de nenhuma de suas criaturas, e nenhum poder contrasta à sua vontade onipotente e sabedoria infinita.

            Sabemos que nas consequências do nosso modo de agir neste mundo - em pensamento, palavra e atos - estão a punição e a recompensa.

            Os crimes que cometemos, os vícios que adquirimos, as imperfeições que conservamos, aderem à nossa personalidade e, ao desencarnarmos, levamos no perispírito - no corpo espiritual a que se referia S. Paulo - esse lastro indesejável, que mantém o nosso ser preso à pesada atmosfera da Terra, impedindo-o de elevar-se e de evoluir. É possível que, não sendo a carga muito pesada, ainda no estado de desencarnados possamos dela livrar-nos, por um vigoroso e persistente esforço da vontade. O regular, porém, - o que por via de regra acontece, é termos que reencarnar na Terra, algumas ou muitas vezes, para, experimentando o mal que fizemos aos outros, padecermos, sofrendo com aquilo que antes nos deu ilícito prazer, e nos irmos corrigindo e depurando.

            Neste processo de depuração, mais ou menos doloroso, mais ou menos prolongado, conforme as imperfeições a corrigir e a força de vontade empregada, consiste o inferno aceito e reconhecido pelos espíritas, o qual, por não ser eterno, mas transitório, condicionado às circunstâncias de cada caso e consentâneo com a bondade e sabedoria do Criador e com as esperanças da criatura, é tomado mais a sério, concorrendo muitíssimo mais para a regeneração da humanidade do que o temor absurdo das penas eternas.


quarta-feira, 4 de março de 2020

Oração e Vigilância



Oração e vigilância
Ypoméa de Oliveira
Reformador (FEB) Janeiro 1943

            Através das inspiradas obras de Allan Kardec e outros ilustrados pensadores, sabemos que a vida não extingue com a desorganização do corpo terreno, quando este, baixando ao tumulo, vai obedecer à lei inelutável das transformações. Provada, por conseguinte, nossa existência imaterial, na multiplicidade indefinível das vidas sucessivas, cumpre não descurarmos do futuro - além-tumulo. Para que a vida nos transcorra feliz e calma nas estâncias espirituais, necessário se torna atendermos aos imperativos cristãos, que nos dizem: "Nem só de pão vive o homem: porém, muito mais, de cumprir a vontade do Pai que está nos céus". E a vontade de Deus é a vontade do Bem. O homem bom - eis o verdadeiro cristão! - É um Evangelho vivo a irradiar luz em todos os espíritos. Vários são os caracteres com que o podemos distinguir em qualquer parte onde esteja. Dentre esses caracteres, destacamos o seguinte: o homem bom não é ambicioso, por ser a ambição, no sentido em que vulgarmente se aplica o vocábulo, o maior obstáculo às conquistas de ordem moral e, pois, ao progresso do Espírito. Mal tão pernicioso que, por ele subjugado, criamos uma atmosfera de antipatias e atribulações, de invejas e despeitos, ódios absorventes, paixões corrosivas!

            Procedemos erroneamente quando procuramos, apenas, satisfazer, em prejuízo da coletividade irmã, aos nossos caprichos pessoais. O apego absoluto às coisas perecíveis da Terra aniquila as qualidades eletivas da alma. Por isso, a vida do Divino Mestre, para demonstrar que mais vale o trato do espírito, foi de martírios, de renúncias aos bens efêmeros e combate à ambição. Pelos seus exemplos, pois, devemos regular nossa vida, moderando nossas aspirações, desprendendo-nos de todos os sentimentos de egoísmo e orgulho, certos de que a verdadeira felicidade está menos nos palácios dos reis do que nas choupanas dos pobres... Se cuidarmos exclusivamente de nossos interesses materiais, fugimos à norma cristã: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, que o Filho do Homem vos dará".

            Meditando este ensinamento, verifica-se que o desapego dos bens terrenos constitui a pedra angular da verdadeira felicidade, que é a felicidade espiritual. Assim, estejamos sempre vigilantes para não sermos vitimas de uma sociedade onde fermentem paixões brutais, incoerências, má vontade em servir ao próximo, e em que a pedra de toque seja a - ambição!

            A filosofia espirita nos veio proporcionar os melhores meios para a completa reabilitação das energias psíquicas, fazendo-nos entrever que a alma - essência imortal - só poderá criar para si uma vida ditosa e perfeita, vencendo a matéria, pela educação, exercício da vontade e renúncia a todos os atos contrários à boa disciplina mental. Eis ai a higiene espírita.

            Se a ambição, com os seus tentáculos de polvo, quer enredar-nos o espirito, lutemos, declarando-lhe guerra aberta e franca. Quem se abroquela naquele ensino de Jesus - amar ao próximo como a si mesmo - pondo-o em prática em espírito e verdade, certo que possui a couraça dos gladiadores jamais vencidos nos entrechoques das arenas...

            Oh! humildade, como exaltas! Oh! Orgulho, como deprimes! Cegos, porque vos precipitais nos torvelinhos dos erros, em que a alma, colhida nas negras malhas das iniquidades, se torna filha indigna da luz espiritual?

            A humanidade muito tem padecido. E continuará ainda a sofrer males de toda a espécie - morais e materiais - porque, infelizmente, a maioria dos elementos que a compõem mais se prende à vida transitória, em prejuízo da verdadeira vida eterna e feliz!

            A ambição há sido causa de grandes dores, a produtora nefasta de todos os flagelos. Os homicídios, furtos, atentados monstruosos; as guerras que se intensificam e em que sucumbem jovens cheios de esperança e ficam em abandono, à mercê das mais cruéis vicissitudes, infelizes crianças órfãs; os lamentos que pelo infinito sobem, partidos dos corações maternos; enfim, toda miséria e miopia moral que se verificam neste mundo nada mais são que consequências desastrosas provocadas por esse monstro insaciável - a ambição!

            Evitemo-Ia, portanto; pois, o apego aos bens terrenos é um forte entrave ao progresso do espírito. O amontoar riquezas materiais abafa o amor ao próximo, endurecendo o coração com o concreto da avareza! Não esqueçamos, um dia que seja, as palavras do Mestre Amado, com as quais encerramos a presente página: "Não amontoeis tesouros na Terra, onde a ferrugem e os vermes roem e onde os ladrões os desenterram e -roubam; mas, acumulai-os no céu, onde nem a ferrugem, nem os vermes os roem; porque onde estiver o vosso tesouro também está o vosso coração".



"Bem-aventurados os que choram..."



“Bem-aventurados os que choram...”
José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Julho 1960

            Naquela tarde o bom velhinho chegara cansado, mas contente. Perguntei-lhe a razão da alegria e ele respondeu com certa discrição:  

            - Hoje consegui realizar todas as obrigações da minha lista.

            E apontou para uma tira de papel cheia de anotações.

            - Que é isso?

            - Uma pequena relação do meus deveres de cada dia. Há muito anos venho tentando realizar tudo quanto nela escrevo todas as manhãs, ao sair de casa. Ora fazia umas coisas e não cumpria outras: ora não conseguia realizar nenhuma. Não me deixava, porém, a esperança de um dia alcançar todos os objetivos assinalados. Hoje fui de tal sorte favorecido pelas circunstâncias que consegui riscar a lista toda. Explico-lhe: cada vez que cumpria uma da obrigações que me impunha, riscava a linha que a ela se referia.

            - Posso ver o que aí está escrito, ou é segredo?  

            - Pode, sim. Não tenho segredos.

            Então, li:

            “Egoísmo - devo combatê-lo com o desinteresse e a generosidade.
            Ambição malsã - preciso substituí-la pelo espírito de renúncia, e pela solidariedade espontânea, sincera.
            Vaidade - urge desterrá-la do meu modo de ser.
            Orgulho - é do meu dever dominá-lo integralmente pela humildade e compreensão.
            Inutilidade - devo cooperar com todos os que precisam de ajuda, desfazendo em mim, a indiferença pelo próximo e a esterilidade da minha vida de relação.  

            - Realmente, amigo, foi uma grande tarefa.

            - Árdua tarefa que me tem tomado longos anos de tentativa. Felizmente, aprendi no Espiritismo a não desaminar e a ter a certeza de que nunca estou só. Se a a minha intenção for firme, sempre saberei de que nunca estou inteiramente. Ao retornar a casa, fortalecia-me! o desejo de ser mais feliz na próxima vez e ia fazendo aM minhas fraquezas uma reserva de forças. Quantas vezes mostrei o firme propósito de proceder sempre bem, mas, quando me apercebia do que se passava, estava sendo miseravelmente egoísta, torpemente orgulhoso e mais vaidoso que nunca! Ah! A virtude é muito mais difícil de adquirir mas os vícios são extremamente fáceis... Se alguém me contrariava ou se eu ouvia algo desagradável, meu orgulho repontava belicoso, não deixando lugar para a humildade. Porém, se me elogiavam por qualquer coisa, eu já me supunha um super-homem. Enfeitava-me com o sorriso superior dos fátuos e ficava convencido de que valia muito mais do que os que me rodeavam: ...Grande tristeza me cobria a alma sempre que me pilhava vogando nesse mar perigoso, que traía as minhas melhores intensões. Reforçava-me de vontade para reagir e reagia durante algum tempo. Às vezes,  pensando mais em mim prejudicava outras pessoas. A batalha era terrível. Eu era o maior obstáculo à minha reabilitação. Mas fui progredindo. Muito pouco, mas fui. Quando consegui escorar-me, ainda vacilante, na renúncia, no desapego ao ao meu “ego”, compreendi os benefícios da solidariedade sincera e a função negativa da ambição malsã, tão perniciosa e má quanto o egoísmo, porque dele provém.

            Então, hoje é um dia feliz, não é?  

            - Sim, não deixa de ser um dia feliz. Não constitui, no entanto, uma vitória, mas uma reação satisfatória. Somente terei triunfado quando não houver mais nenhuma possibilidade de ocorrer uma derrota diante das provas agora vencidas. Recebi as graças de hoje como misericordioso estímulo para os dias de amanhã, que serão muito mais difíceis. Porquê? Sempre que avançamos um centímetro, as dificuldades se multiplicam. Temos de defender esse avanço com o maior empenho. Somos como um objeto lançado para cima, que tende a cair por efeito da lei da gravidade...

            - Você é um homem admirável!

            - Não me diga isso; amigo! Ajuda-me a levantar, não a cair. Admiráveis são os que já conseguem não cair mais. Nossa vida é feita de quedas e levantamentos, de recuos e avanços, de derrotas e vitórias. O mérito está em ir cada vez caindo menos, em conservar-se cada vez mais de pé. Achamo-nos muito longe do Cristo para pretendermos, por enquanto, viver sem decair. Nele, através dos trabalhadores do Além, buscamos alento  para persistir na luta: sem esmorecimento. Há mérito, sem dúvida, nos que, apesar de falharem muitas vezes; teimam corajosamente na ânsia de superar as próprias deficiências, certos de que um dia, que pode estar perto, como pode estar muito distante, alcançarão o nobre desiderato.

            Eu olhava, admirado, para esse velho de alma juvenil. Que exemplo maravilhoso me proporcionava o ancião!

            E prosseguiu:

            - Temos o dever de trabalhar todos os dias pela melhoria do nosso caráter, pelo fortalecimento das nossas aquisições morais, pelo aprimoramento dos bons conhecimentos que adquirimos. Se falharmos por imprudência, tanto pior. Se cairmos porque ainda somos inexperientes ou incapazes de resistir com êxito, poderemos procurar em nós mesmos as forças necessárias a tentativas menos frágeis. Seja como for; a beleza está em persistir e jamais ceder aos reveses. Cada vez que retomarmos a luta, estaremos dando ao Alto um testemunho de honestidade, determinação e de pura boa vontade.

            Fez-se pequeno intervalo. O velhinho passou o lenço nos olhos e rematou:

            - Há muitos anos que eu não obtinha o resultado que hoje alcancei. Fui premiado, mas não me envaideço por isso. Contudo,é justo que meu coração esteja jubiloso. Agora, terei de redobrar a minha vigilância, porque a subida será bem mais áspera. Quanto mais se sobe, mais se cansa. É preciso coragem, é preciso, sobretudo, fé. Deus teve pena de mim, oferecendo-me, neste fim de encarnação, a bênção dessa oportunidade. Deu-me forças,  deu-me coragem, deu-me principalmente fé em mim mesmo para que eu pudesse  reafirmar a fé que n’Ele deposito! Daqui por diante, necessito de muita humildade, muita mesmo, para não esbanjar, como um perdulário inconsciente, a grande esmola recebida.
           
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            Ao ver a lágrimas correrem, francas e desembaraçadas, pelas faces enrugadas do animoso ancião, fui-me afastando discretamente, envergonhado da minha inferioridade, da minha fraqueza, das imperfeições e defeitos que me marcam a individualidade. Se aquele velhinho se julgava sem valor, que valerei eu, deficiente e covarde, que não posso sequer imitá-lo?  Diante daquelas lágrimas sinceras, tive a impressão de ouvir, docemente proferidas, estas palavras do Sermão da Montanha:

            - Bem-aventurados os que choram porque serão consolados!

terça-feira, 3 de março de 2020

Quinze minutos

Chico Xavier

Quinze Minutos
Hilário Silva por Chico Xavier
Reformador (FEB) Julho 1960

I

            Aristeu Leite era antigo lidador da Doutrína Espírita.

            Assíduo cliente das sessões.

            Dono de belas palestras. Edificava maravilhosamente os ouvintes.

            Bom leitor.

            Correspondente de instituiç:ões distintas.

            Mantinha com veemência o culto do Evangelho no lar.

            Extremamente caridoso. Visitava, cada fim de semana, vários núcleos beneficentes.

II

            NaqueIa sexta-feira. foi para easa exultante.

            Vivera um dia pleno de trabalho, coroado à noite pela oração ao pé dos amigos.

            Entrou. Serviu-se de pequeno porção de leite e, logo após, dirigiu-se ao quarto de dormir, onde a esposa e as filhinhas repousavam.

            Preparou-se para o sono.

            Sentia, porém, necessidade de meditação e voltou à sala adjacente.

            Abriu pequeno volume e releu trecho breve:

            “O cristão é testado, a cada instante, em sua fé, pelos aconhecimentos naturais do  caminho.
            Por isso mesmo, a oração e a vigilância, recomendadas pelo Divino Mestre, constitui elementos indispensáveis para que estejamos serenos e valorosos nas menores ações da lida.
            Em razão disso, confie na Providência Maior, busque a benignidade busque a benignidade e seja otimista.
            A caridade, acima de tudo, é infatigável amor para todos os infelizes.
            Por ela encontraremos a porta de nossa renovação espiritual,
            Acalma-se, pois, sejam quais forem as circunstâncias e ajude a todos os seres da Criação, na certeza de que estará ajudando a si mesmo.”
             Aristeu fechou o livro, confortado. e refletiu: - “Estou satisfeito, Vivi bem o meu dia. Continuarei imperturbável. Auxiliarei a todos. Estou firme. Louvado seja Deus.”

            Sem dúvida, sentia-se mais senhor de si.

            Realizava-se. E em voo mais alto de superação do próprio valor acreditou-se em
elevado grau de ascensão íntima .

            Nesse estado d'alma, proferiu breve oração e consultou o despertador. Uma e quinze da madrugada. Apagou a luz e recolheu-se.

III

            Penetrava de leve os domicílios do sono, quando acordou sobreexcitado.

            Alguém pressionava de manso a porta.

            A esposa despertou trêmula.

            Aterrada, não conseguia sequer falar.

            Aristeu, descontrolado, pode apenas balbuciar:

            - Psiu, psiu... Ladrão em casa.

            Lembrou-se, num átimo, de antigo revólver carregado, em gaveta de seu exclusivo conhecimento.

            Deslizou à feição de gato.

            E porque o rumor aumentasse, disparou dois tiros contra o suposto intruso.

            Dispunha-se a continuar. quando voz carinhosa exclamou assustadiça:

            - Meu filho l Meu filho! Sou eu, seu pai! Sou eu! Sou eu!..

            Desfez-se o tremendo engano.

            O genitor do chefe da casa viera de residência contígua. Possuindo as chaves domésticas, não vacilara, aflito, em vir rogar ao filho socorro médico para a esposa acamada, com febre alta.

            Algazarra.

            Vizinhos em cena.

            Meninas em choro de grande grito.

            Aristeu, envergonhado, abraçava o pai, saído incólume, e explicava aos circunstantes o acontecido .

            Enquanto revirava pequena farmácia familiar, procurando um calmante, deu uma olhadela no relógio.

            Uma e meia da manhã.

            Entre os votos solenes e a ação intempestiva que praticara, havia somente o espaço de quinze minutos...


Universalismo


Ismael Gomes Braga


Universalismo
Antônio Túlio (Ismael Gomes Braga)
Reformador (FEB) Janeiro 1943

            A presente guerra (2ª Guerra Mundial 1938-1945) nos está dando preciosa lição de universalismo, ou, em outras palavras, demonstrando que o progresso moderno tornou todas as nações solidárias entre si. Uma ideia má e perniciosa, divulgada, por exemplo, no Japão, nos prejudica e ameaça; interessa-nos, portanto, muitíssimo.

            Nos tempos passados não nos importava muito saber o que outros países diziam e faziam a dentro de suas fronteiras; isso era lá com eles e, se a ideia nos desagradava, simplesmente. não fixaríamos residência naquele país e estaríamos salvos. Limitavam-se os povos a chamar de bárbaros aos que tinham idéias diferentes das suas.

            Agora tudo é diferente. A revolução comunista na Russia fez correr sangue no Brasil, o fascismo da ltália igualmente pôs em perigo a nossa estabilidade e custou o sangue de muita gente.

            O transporte da palavra e do homem tornou-se tão rápido, que praticamente foram abolidas todas as fronteiras. O isolacionismo egoístico já se tornou impossivel. Todos vivemos a vida de todos, todos sofremos dores e sobressaltos idênticos. Findas a guerra e as eventuais revoluções, que talvez a acompanhem, a humanidade terá ficado com essa preciosa lição prática: tudo no mundo é solidário. Não bastará cogitemos de educar o nosso povo, de lhe incutir boas idéias, conduta moral pura: será necessário fazer todas essas coisas planetariamente, porque o que fere um povo no Extremo Oriente repercute e põe em perigo os homens que moram no Extremo Ocidente e vice-versa. Será um grande passo para sentirmos a solidariedade humana, como diriam os materialistas, ou o amor à humanidade, como diriam os cristãos.

            Resumindo estas idéias, diremos que as propagandas locais ficam prejudicadas e podem ser interrompidas por forças externas. O belo movimento espírita da Holanda desapareceu, porque aquele país foi ocupado por um povo materialista, que não tolera tais idéias. Tudo tem que ser feito em escala mundial, porque o mundo já é um todo.

            A propaganda espírita no Brasil é feita com ardor, com verdadeiro entusiasmo e vai produzindo - mercê de Deus - belos frutos. Nenhum brasileiro, porém, cogita de estender essa mesma propaganda a todos os outros países;  parece-lhes que só lhes compete trabalhar para o nosso, pois que para isso aqui nascemos e aqui vivemos. É demasiado limitada e egoística essa concepção para o futuro. Vivemos dentro das limitações linguísticas e supo-mo-nos ilusoriamente apartados de todos os outros povos.  

            Não é e não poderá ser assim, se bem assim já tenha sido.

            O futuro não será uma cópia do passado. O programa de ensino de um pais interessa a todos os outros e a soberania das nações - da qual tanto hão abusado alguns povos - terá que sofrer sérias limitações, para não se tornar coisa ridícula, como os antigos cavaleiros andantes, que corriam mundo à procura de injustiças a corrigir.

            Em que pode esse assunto interessar nestas colunas consagradas sempre à doutrina, já de si mesma universal, dos Espíritos? Não estará fora de lugar tudo isso que vimos dizendo? Supomos que não. Se temos recebido muito, temos que dar muito, temos pesados compromissos. E o que tem recebido o movimento espírita brasileiro não é apenas muito, é muitíssimo. Temos recebido ditados mediúnicos de valor incalculável, os quais já formam uma biblioteca admirável que cresce sempre, até mais do que os editores podem acompanhar. Nessa literatura mediúnica há tesouros demasiado grandes para serem julgados hoje, os quais só o futuro julgará com justiça, pelas consequências diretas e indiretas que hão de produzir nos costumes. Nossa pregação pelo livro, pela imprensa, pela tribuna e pelo rádio é muito maior do que a de qualquer outro país.

            No entanto, todo esse glorioso trabalho dos nossos Maiores, em nosso beneficio, vem sendo feito em vernáculo, isto é, numa língua que não tem universalidade alguma. Simultaneamente com a divulgação do Espiritismo, processa-se no Brasil a divulgação do Esperanto, cujo nascimento já é universal, pois que a propaganda do esperanto se faz igualmente em todos os países. Nestes últimos anos, foi inspirada e poderosamente amparada a divulgação do esperanto entre os espíritas do Brasil pela Federação Espírita Brasileira, seguindo-lhe o exemplo algumas outras das nossas instituições espíritas - jornais, revistas, programas radiofônicos, etc. - precisamente sob o influxo das mesmas Entidades que do Alto superintendem o progresso do Espiritismo, como bem se nota da mensagem de Emmanuel com o título “A Missão do Esperanto”, que já se acha amplamente divulgada. Todo esse conjunto de acontecimentos demonstra o caminho do futuro. Temos que estender o nosso serviço de propaganda além fronteiras, a todas as nações. O instrumento para isso está à nossa disposição, é o esperanto. Teremos que começar pelas obras fundamentais, depois pela fundação de revistas, organização de programas de rádio em ondas curtas, etc.

            O programa geral é infinito no tempo e extensivo a todo o planeta. Difícil será unicamente o começo, porque no começo só teremos que dar e nada que receber; mas, depois de vencidos os primeiros tempos, de todos os pontos da terra surgirão colaboradores. Em todas as línguas há excelentes livros doutrinárias a ser traduzidos para o esperanto e incorporar-se a uma biblioteca espírita universal. Entretanto, as obras de mais universalidade, as que podem interessar realmente a todos os povos, devem partir do Brasil, por ser a nação onde a publicidade espírita está mais adiantada, justamente como há meio sáculo passado deveriam partir da França e assim sucedeu.

            Não dizemos que este trabalho vai ser iniciado, porque na verdade já se acha iniciado. Já fizemos a experiencia de lançar alguns livros em esperanto pela Livraria Editora da Federação Espirita Brasileira e os resultados são animadores. Nossas edições foram recebidas com real simpatia pelos esperantistas de diversos lugares. Esperemos que, logo termine a guerra, possamos realizar em grande escala o serviço que até agora só fizemos como experiencia. O paciente leitor de certo sentirá no coração o desejo de colaborar nessa seara imensa que o Senhor nos está abrindo.

            O primeiro passo é aprender esperanto ou, se já o souber, exercitar-se em traduzir nossos livros de doutrina na língua auxiliar.

O Blog pergunta a seus leitores: Passados uns 70 anos da publicação deste artigo, como ficou a difusão do Esperanto no Brasil e no mundo?

segunda-feira, 2 de março de 2020

O Bom Pastor



           O Bom Pastor                                     

10,11 “ -Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá sua vida pelas ovelhas. 
10,12  O mercenário, porém, que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge. O lobo rouba e dispersa as ovelhas.    
10,13 O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas.  
10,14 Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas Me conhecem a Mim. 
10,15 Como o Meu Pai Me conhece e Eu conheço o Pai, dou a Minha vida pelas minhas ovelhas. 
10,16  Tenho ainda outras ovelhas que não são deste curral. Preciso conduzi-las também, e ouvirão a Minha voz e haverá um só rebanho e um só pastor. 
10,17 O  Pai Me ama, porque dou a Minha vida para a retomar. 
10,18  Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou de Mim mesmo e tenho o poder de a dar, como tenho o poder de a reassumir. Tal  a ordem que recebi de Meu Pai.” 
10,19  A propósito destas palavras, originou-se nova divisão entre os judeus. 
10,20 Muitos deles diziam: -Ele está possuído. Ele delira. Porque O escutais vós? 
10,21 Outros diziam: -Estas palavras não são de quem está obsidiado.    
Acaso pode um espírito do mal abrir os olhos a um cego?

         Para   Jo (10,11-21), -Jesus é o Bom Pastor - destacamos a  J.-B. Roustaing:

            “Grande importância têm estes versículos, do ponto de vista da natureza extra humana de Jesus; do de sua morte no Gólgota, morte que os homens consideraram real, mas que foi apenas aparente; do das condições e do modo por que se deu o seu aparecimento entre os homens; do seu reaparecimento chamado “ressurreição”; do de suas aparições sucessivas às mulheres e aos discípulos e do de seu desaparecimento definitivo, elevando-se às nuvens, na época dita da “Ascenção”. Também grande importância apresentam do ponto de vista da sua missão e dos resultados desta dada a sua qualidade de protetor e governador do planeta terreno, de encarregado do vosso desenvolvimento e progresso e de vos conduzir à perfeição.

            Vv.11-13 -    Para  o  Bom  Pastor  não  há interesse pessoal, nem fadiga.

            Vv.14-16 - Aludia Jesus à sua missão terrena, aos frutos que ela há de dar; à sua missão espiritual como protetor e governador do planeta terrestre e aos resultados que há de produzir, resultados que prediz aos homens...

         Ao proferir aquelas palavras, Jesus envolvia no seu pensamento a humanidade inteira, de quem é ele o bom pastor, todas as gerações de Espíritos que, em via de purificação, tinham encarnado na terra antes de sua missão, estavam encarnadas quando a desempenhava e nela ainda haviam de encarnar e que, dóceis à sua voz de Messias, às dos Espíritos em missão, encarnados e errantes, órgãos do Espírito da Verdade, hão de chegar, de progresso em progresso, de purificação em purificação, à perfeição moral humana. Então é que, sob o império da lei do amor, não haverá mais que um único rebanho e um só pastor. Então é que Jesus, vosso protetor e governador, virá, como soberano, visível para as criaturas purificadas, em todo o seu fulgor espírita, ao vosso planeta igualmente purificado. 

            Vv.17-18 -Estas palavras, a que se não tem dado muita atenção, a que se não tem ligado grande importância, confirmam o que havemos dito sobre a natureza e a origem de Jesus.

            Vv.19-21 -Eram as mesmas discussões que se travam sempre que uma verdade, tida como nova pelos que se julgam possuidores de toda a ciência, assume o direito de cidade no seio da humanidade terrena, sem que tenha antes feito visar seus passaportes pelas autoridades científicas.

            Os Vv. 17-18 - mereceram comentários de Leopoldo Cirne em seu “A Personalidade de Jesus”. Vamos ao texto:

            “Que é necessário para que se dê a encarnação?  -Que, a par das necessidades morais de progresso planetário, haja entre as moléculas perispirituais do Espírito errante e o organismo material em formação a afinidade que aproxime os dois princípios e os fusione por fim. Enquanto o Espírito não se purificou completamente, ao ponto de gravitar para esferas mais altas e mais puras, há de fatalmente sentir a atração que sobre os restos de materialidade existentes em seu invólucro fluídico exerce a vida planetária. Quando, porém, tem atingido o maior grau de pureza, quando por sua virtude e elevação tornou-se incompatível com a encarnação material, como encontrar afinidade entre o seu perispírito, tornado então de luminosa limpidez, e o modo vibratório particular da matéria organizada? 

            É o caso precisamente de Jesus. Daí a necessidade dessa incorporação meramente fluídica, mas de condensação suficiente para dar ao seu corpo todas as propriedades e aparência humanas, permitindo, todavia, ao mesmo tempo ao seu Espírito toda a livre manifestação de suas faculdades e o exercício dos seus altos poderes, extremes da barreira que por outro modo lhe oporia a encarnação no seu processo ordinário.

            Admitida assim a natureza especial do corpo de Jesus, sensível por um lado às manifestações do mundo exterior, e por outro lado assegurando-lhe a permanência do seu estado sempre espiritual, de modo a permitir-lhe, com o conhecimento constantemente lúcido de sua missão, a comunhão mental com o Criador, de cujas volições em relação à Terra fora encarregado, os fatos aparentemente miraculosos de sua vida se aclaram de uma nova luz, que os torna logicamente compreensivos, fazendo-os entrar no domínio de leis, novas sem dúvida, mas leis da natureza, reguladoras simultaneamente dos mundos material e espiritual, estabelecendo e harmonizando as suas relações recíprocas.”


A Posse definitiva



A Porta das Ovelhas /
Posses Definitivas            
                 
10,01 “ -Em verdade, em verdade vos digo: Quem não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão ou salteador. 
10,02  Mas quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 
10,03  A este, o porteiro abre e as ovelhas ouvem a sua voz. Ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz à pastagem. 
10,04  Depois de conduzir todas as suas ovelhas para fora, vai adiante delas; e as ovelhas seguem-No, pois Lhe conhecem a voz. 
10,05  Mas não seguem o estranho. Antes, fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.” 
10,06   Jesus disse-lhes esta parábola, mas não entendiam do que queria falar. 
10,07  Jesus tornou a dizer-lhes: “ -Em verdade vos digo, Eu sou a porta das ovelhas. 10,08 Todos quanto vieram, antes de mim, foram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não os ouviram.
10,09   Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo: tanto entrará, como sairá e encontrará passagem. 
10,10  O ladrão não vem senão para furtar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e para que a tenham em abundância.

          Tomemos Emmanuel em “Caminho, Verdade e Vida” (Ed.FEB), para os devidos esclarecimentos:
                       
            “Se a paz da criatura não consiste na abundância do que possui na Terra, depende da abundância de valores definitivos de que a alma é possuída.

            Em razão disso, o Divino Mestre veio até nós para que sejamos portadores de vida transbordante, repleta de luz, amor e eternidade.

            Em favor de nós mesmos, jamais deveríamos esquecer os dons substanciais a serem, amealhados em nosso próprio espírito.

            No jogo de forças exteriores jamais encontraremos a iluminação necessária. Maravilhosa é a primavera terrena, mas o inverno virá depois dela. A mocidade do corpo é fase de embriagantes prazeres; no entanto, a velhice não tardará. O vaso físico mais íntegro e harmonioso experimentará, um dia, a enfermidade ou a morte.

            Toda a manifestação de existência na Terra é processo de transformação permanente.

            É imprescindível construir o castelo interior, de onde possamos erguer sentimentos aos campos mais altos da vida.

            Encheu-nos Jesus de sua presença sublime, não para que possuamos facilidades efêmeras, mas para sermos possuídos pelas riquezas imperecíveis; não para que nos cerquemos de favores externos e, sim, para concentrarmos em nós as aquisições definitivas.

            Sejamos portadores da vida corporal.

        Não nos visitou o Cristo, como doador de benefícios vulgares. Veio ligar-nos a lâmpada do coração à usina do Amor de Deus, convertendo-nos em luzes inextinguíveis.”         

            Para Jo (10,7) -Eu sou a porta - leiamos “Fonte Viva” (Ed. FEB) de Emmanuel por Chico Xavier:

            “Segundo os léxicos, a palavra “porta” designa “uma abertura em parede, ao rés do chão ou na base do pavimento, oferecendo entrada e saída.”

            Entretanto, simbolicamente, o mundo está repleto de portas enganadoras. Dão entrada sem oferecerem saída. Algumas delas são avidamente disputadas pelos homens que, afoitos na conquista de posses efêmeras, não se acautelam contra os perigos que representam.

           Muitos batem à porta da riqueza amoedada e, depois de acolhidos, acordam encarcerados nos tormentos da usura. Inúmeros forçam a passagem para a ilusão do poder humano e despertam detidos pelas garras do sofrimento.

            Muitíssimos atravessam o portal dos prazeres terrestres e reconhecem-se, de um momento para outro, nas malhas da aflição e da morte.

         Muitos varam os umbrais da evidência pública, sequiosos de popularidade e influência, acabando emparedados na masmorra do desespero.

            O Cristo, porém, é a porta da Vida Abundante. Com ele, submetemo-nos aos desígnios do Pai Celestial e, nessa diretriz, aceitamos a existência como aprendizado e serviço, em favor de nosso próprio crescimento para a imortalidade.

            Vê, pois, a que porta recorres na luta cotidiana, porque apenas por intermédio do ensinamento do Cristo alcançarás o caminho da verdadeira libertação ”

            Para Jo (10,10) -Vim para que tenhais vida e vida em abundância - leiamos “Palavras de Vida Eterna” (Ed. CEC) de Emmanuel:

            “Existimos. Existem todas as criaturas saída do Hálito Criador. A pedra existe, a planta existe, o animal existe... Existem almas nos passos diversos da evolução.

            Em sentido espiritual, no entanto, viver é algo diferente de existir. A vida é uma experiência digna da imortalidade.

             Há muita gente que se esfalfa, perdendo saúde e possibilidades em movimento vazio, quando não se mergulha nas tramas do mal, entretecendo reencarnações dolorosas.

            Há muita gente que destrói o próprio cérebro, escrevendo sem proveito, quando não expressa o pensamento para inspirar negação e crueldade, entrando em sofrimentos reparadores.

            Há muita gente que aniquila as horas, falando a esmo, quando não se utiliza do verbo para ferir e enlouquecer os semelhantes, adquirindo débitos escabrosos.

            Há muita gente que pede essa ou aquela concessão para frustrá-la em atividades sem sentido, quando não a maneja em prejuízo dos outros, criando lágrimas que empregará longo tempo para enxugar.

            Todos esses agentes da inutilidade e da delinquência existem como todos nós existimos.

            Observa, assim, o que fazes.

            O berço confere a existência, mas a vida é obra nossa. ”