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domingo, 6 de fevereiro de 2011

As 5(?) Encarnações do Codificador por Luciano dos Anjos

                   

Luciano dos Anjos, jornalista e escritor, sem dúvida um dos 5 maiores nomes do movimento espírita hoje  encarnados entre nós, nos lega o esplêndido trabalho que transcrevemos abaixo:


As 5 (?) Encarnações do Codificador
             Luciano dos Anjos
Reformador (FEB)
Agosto  1974
           
            Não tendo sido um agênere, como Jesus o foi, é curial que Kardec houvesse tido várias outras encarnações, antes de renascer pela última vez, em Lyon, no ano de 1804. É precisamente no rastro delas que segui, visando à redação deste artigo. O que se sabe vulgarmente é que o Codificador fora um sacerdote druida, na Gália antiga, ao tempo em que Júlio César imperava no mundo. Essa notícia, quem no-la dá é Henri Sausse, aliás, o melhor biógrafo de Kardec, seu contemporâneo. As duas biografias são muito curtas e pouco nos dizem do biografado: uma, de Camille Flammarion, constante do discurso que pronunciou à beira do túmulo do mestre (‘Obras Póstumas’, págs. 17 a 26 da 11ª edição da FEB); e a outra, divulgada pela ‘Revue Spirite’, de maio de 1869 (apud ‘Obras Póstumas’, págs. 9 a 16, idem, ibidem). Henri Sausse, porém, fez excelente trabalho, agora inserto na obra ‘O que é o Espiritismo’, à págs. 7 e segs. da 11ª edição da FEB.  A certa altura, afirma o biógrafo:
            “Uma noite, seu espírito protetor, Z., deu-lhe, por um médium, uma comunicação toda pessoal, na qual lhe dizia, entre outras coisas, tê-lo conhecido em precedente existência, quando, ao tempo dos Druidas, viviam juntos nas Gálias. Ele se chamava, então, Allan Kardec, e, como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar, prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado, e que facilmente levaria a termo.”
            Isto ocorreu na casa de Emilie Charles Baudin, e Z., como se sabe, era a abreviatura de Zéfiro. Àquela época, nas Gálias, Allan Kardec era superior a Zéfiro, na hierarquia sacerdotal. Em termos de evolução espiritual, Kardec também lhe estaria acima, conforme se lê em ‘Obras Póstumas’.
            Noutro trecho de seu trabalho biográfico, Henri Sausse registra:
            “Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico, em virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo originar uma confusão, talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que, segundo lhe revelara o guia, ele tivera ao tempo dos Druidas.” (apud ‘O que é o Espiritismo’, pág. 19, 11ª edição da FEB).
            E aqui chamo a atenção do leitor para um fato bastante curioso e ignorado de muitos. Ele  mesmo, Kardec, parece não haver deixado nada escrito sobre essa encarnação entre os druidas. Digo parece, por questão de prudência, mas a rigor eu a afirmaria. A revelação, porém, sabe-se que foi feita em 1856, através da cestinha escrevente de Baudin, com a médium Caroline. As notas sobre o fato estavam, em 1921, na Livraria de Leymarie. Em 1925 eram transferidas para o arquivo da ‘Maison des Spirites’, onde em 1940 foram afinal destruídas pelos alemãos, durante a invasão de Paris. Entretanto, enquanto estiveram na Livraria de Leymarie, chegaram a ser copiadas quase totalmente pelo nosso estudioso confrade Canuto Abreu.
            Outro fato curioso; ignora-se completamente quem alvitrou a Kardec subscrever seus livros com aquele nome. A respeito, meu particular amigo e colega Indalício Mendes escreveu no ‘Reformador’ de outubro de 1954, pág. 227 (“Tri-Cinquentenário do Codificador”):
            ‘Ignora-se, porque isto não consta das obras que tratem da vida do Codificador, quem deu o alvitre, se a idéia foi sua ou se a recebeu de alguém encarnado ou desencarnado. Todavia, não há negar que foi felicíssima a sugestão, por se tratar de dois nomes curtos e eufônicos, de pronta retenção pela memória.’
            Nada obstante, o próprio Indalício Mendes admite, mais adiante, que o alvitre partira do Espírito Zéfiro, mentor do Codificador:
            ‘A revelação de Zéfiro, Espírito guia de Rivail, fora altamente benéfica ao movimento que se iniciava. Talvez dele tenha partido o toque intuitivo que levaria o famoso discípulo de Pestalozzi a adotar o nome que usara em encarnação precedente: Allan Kardec.’       
            Pretendendo homenagear o movimento druídico, Allan Kardec escreveu, um ano depois do aparecimento de ‘O Livro dos Espíritos’, interessante artigo sobre o Espiritismo entre os druidas, divulgado na ‘Revue Spirite’ de abril de 1858. André Moreil também chama a atenção do Codificador ao druidismo ( vide ‘Vida e Obra de Allan Kardec, pág. 67 da tradução brasileira de Miguel Maillet).
            Antes de passarmos ao exame de outra encarnação do grande missionário de Lyon, vejamos rapidamente quem eram os druidas. Professavam eles uma doutrina muito semelhante à cristã. Os autores da Antigüidade consideravam-nos muito mais sábios do que propriamente sacerdotes. Não chegavam a formar uma casta. Para tornar-se druida eram necessários estudos especiais; mas a condição sacerdotal não proibia a participação ativa na vida pública de relações. Apenas ficava dispensado de fazer o serviço militar e de pagar impostos. A função religiosa dos druidas consistia em presidir aos sacrifícios. Acredita-se que dessas funções também fazia parte o exercício da magia. A eles recorrias inclusive as autoridades, a fim de julgar processos. Quem recusasse submeter-se a seus laudos era ameaçado de excomunhão religiosa e social. Os druidas praticavam o voto eletivo para escolha de seu chefe. Disputavam a dignidade, não raro pelas armas. Só existiram druidas, segundo atesta a História, na Grã-Bretanha, na Irlanda e numa parte da Gália. Nesta última, o druidismo foi abolido pelo Imperador Tibério, persistindo porém ainda por muito tempo na Irlanda e no País de Gales.
            Allan Kardec era um dos sacerdotes druidas. Considerando que Júlio César imperou na Gália de 58 a.C. a 44 a.C., é nessa faixa que temos de localizar a encarnação do Codificador, àquela época. Isto porque, conforme esclareci antes, pela médium Caroline fora revelado que tal existência ele a vivera ao tempo em que aquele notável guerreiro imperava sobre o mundo, inclusive a Gália.
            Vejamos agora a sua existência no século XIV, encarnando a figura estóica e varonil de Jean de Husinec (Jan Hus, que em tcheco quer dizer ganso ou pato). A notícia dessa outra encarnação foi dada psicograficamente, através do médium Ermance Dufaux, no ano 1857. O registro do fato também se achava na Livraria de Leymarie e foi copiado por Canuto Abreu. Teve, com a invasão nazista, o mesmo destino da outra nota.
            João Huss foi um reformador tcheco. Filho de camponeses, nasceu em Husinec, cerca de 1369. Após ser queimado vivo pela Igreja, em Constança, no ano de 1415, acabou tornando-se herói da Boêmia Herética. Sua fama não é apenas literária, decorrente das suas preciosas obras. João Huss simboliza o ponto de partida dum movimento de idéias. Muitas de sua obras foram escritas em latim, deixando porém alguns tratados e algumas cartas em língua tcheca. Essas cartas (sobretudo as últimas, que escreveu na prisão, em Constança) são duma comovedora singeleza. João Huss foi ainda o simplificador e normatizador da ortografia tcheca, estabelecendo o uso dum alfabeto quase completamente fonético. Seu estilo inaugura uma época nova e suas frases, secas e precisas, vão direto ao alvo.
            Duas principais obras escritas em tcheco objetivaram a reforma dos costumes, do Clero e do povo: ‘O Espelho do Pecado’ e ‘Tratado da Simonia’. Nesta, o próprio papa é violentamente atacado.
            Petr Chelcicky (cerca de 1390-1460), camponês livre do Sul da Boêmia, levou as idéias de João Huss ao extremo da lógica, despojando-as de toda teologia especulativa. Seu programa era a volta ao Cristianismo primitivo, o que lhe representava a não resistência ao mal e a abolição do direito de propriedade. Foram ainda as idéias de João Huss que inspiraram as obras do bispo Rokytsana (1397-1471), célebre pregador e comentador dos Evangelhos. Também o ‘Regulamento do Exército’, de Jan Jijka de Trotsnov, general dos exércitos taboritas (nome dos partidários de João Huss), no qual se encontram amalgamados preceitos religiosos e instruções militares, sofreu grande influência das idéias de João Huss.
            Estudante em Praga, onde se bacharelou em Artes e Teologia, João Huss acabou sendo nomeado deão da Faculdade de Filosofia e, mais tarde, reitor da Universidade. Deixou-se empolgar pelo escritor Wycliffe, professor da Universidade de Oxford, considerado um dos maiores sábios da sua época e autor da obra ‘De Domínio Divino’, na qual procurava provar que a autoridade é Deus, com Quem a criatura entrava em relação direta, sem necessidade da intermediação da Igreja. Combateu e ironizou o papa, negou os dogmas, criticou os santos. Só não acabou também na fogueira, qual João Huss, dada a sua grande habilidade e astúcia.
            Por volta de 1400, João Huss sofreu terrível crise religiosa, com o que aprofundou os seus estudos do Cristianismo. Foi nomeado então pregador da Capela de Belém, em Praga, capital da Boêmia. Carlos IV subiu ao poder e, alimentando as aspirações dos tchecos, acabou favorecendo a revolta de Praga contra os abusos eclesiásticos. João Huss era abertamente pela reforma e pela preponderância nacional da Boêmia, embora sem entrar em conflito com o Clero. Decidiu, porém, publicar um tratado no qual a tese de que um cristão não deve correr atrás de milagres. O Clero irritou-se e tomou-lhe o cargo que lhe havia dado, de pregador sinodal. A rainha Sofia, porém, gostava dele e daí ter-se João Huss transformado em chefe do partido nacional. O rei Vaclav, filho de Carlos IV, decidiu ficar neutro entre os dois papas que aspiravam à chefia do mundo católico: Gregório XII e Alexandre V. Este último acabou sendo eleito pelo Concílio de Pisa, e então, pela bula de 1409, exigiu a retratação dos wiclifitas e a apreensão dos livros de Wycliffe. Mas o Clero inferior, a Universidade, o rei e o povo ficaram com João Huss, que continuou suas prédicas na Capela de Belém, apesar da bula.
            O tempo correu. Mais tarde João Huss vai entrar em luta contra o papa João XXIII, atacando a venda das indulgências e a política agressiva do Vaticano. Jerônimo de Praga se engajou também na liça, mas o rei de Nápoles estabeleceu a pena de morte para quem ofendesse o papa. Os hussitas (seguidores de João Huss) fizeram, em represália, um enterro simbólico do papa, que ameaçou a Boêmia de excomunhão. João Huss foi aconselhado a deixar a capital e obedeceu. Mas fez uma apelação (Apellatio), enquanto em seu retiro escrevia o tratado ‘De Ecclesia’. A situação se agravou. O imperador Sigismundo prometeu um salvo-conduto a João Huss, se ele consentisse em comparecer ao Concílio de Constança, convocado para a pacificação religiosa da Boêmia. João Huss acedeu. Ao chegar a Constança, recebeu de fato o salvo-conduto onde se lia que ele podia ‘transire, stare, morari et redire libere’. Não obstante, foi traiçoeiramente preso e internado no Convento dos Dominicanos. Instauraram processo contra ele, cabendo a Etienne Palec a acusação. Como medida de maior segurança, transferiram-no para o Castelo de Gottlieben, e deste para o Convento dos Franciscanos. O Concílio condena as teorias de Wycliffe e de João Huss. Não o deixaram sequer defender-se. Em meio ao tumulto, Huss mantém corajosamente as suas idéias e se compadece dos seus inimigos, escrevendo-lhes cartas de devotamento. No dia 6 de fevereiro de 1415, foi afinal condenado e logo executado, mas antes o degradaram publicamente, colocando-lhe à cabeça um chapéu de papel com a inscrição: ‘Hic est hoeresiarcha’. Conduzido a um terreno baldio, despiram-no, amarraram-no a um poste e queimaram-no vivo. Ouviram-no cantar a litania: ‘Christo, Fili Dei vivi, miserere nobis’. Quando ia entoar o segundo verso ‘Qui natus es ex Maria’, foi envolvido pelas chamas e pela fumaça. Suas cinzas foram lançadas no Reno.
            Atestam os historiadores que João Huss era uma alma boa, sensível, piedosa, pulcra e honesta. Dera grande importância à pureza do Cristianismo, pregando sempre que a verdadeira Igreja era a do Cristo. Tinha rara inteligência e sua lógica era impressionante.
            Terminado esse breve escorço biográfico do pregador religioso João Huss, convido o leitor a meditar nos muitos pontos de correlação entre suas idéias, suas reações, suas lutas, e as de Allan Kardec. Não há por que duvidar da estreita ligação entre as duas figuras, no que obviamente nenhum reencarnacionista se surpreende, já que o espírito de ambos seria ou era um só...
            Mas, e as outras vidas do professor Hippolyte-Léon Denizard Rivail? A rigor, nada ou quase nada se sabe. Entretanto, vejamos algumas interessantes referências que merecem ser meditadas, tendo em vista as fontes onde fui buscá-las. São registros que passam despercebidos a muita gente, mas que me proponho a ressaltar, embora sem nenhuma preocupação de coonestá-los.
            Remontemos ao pequeno período que vai do ano 30 ao ano 33 de nossa era. Período curto, é bem verdade, mas que encerra as mais profundas e gratas recordações de toda a cristandade. De 30 a 33 Jesus exerce seu celeste mandato. (Mantenho aqui os anos 30/33 apenas por tradição, pois hoje é sabido que nosso calendário gregoriano tem um erro de 4 anos para trás.) Foram 3 anos de surpresas, de deslumbramento, de paixão e de glória. Ter podido reencarnar nesse período, nessa faixa histórica, é merecimento e prêmio até mesmo para os que houveram de suportar terríveis provações. É natural também que se aceite como apanágio razoável a importância de terem os principais Espíritos responsáveis pela Terra participado dum modo ou doutro da pregação de Jesus, da época de Jesus. Em outras palavras: é muito sensato que Kardec, Ghandi, Francisco de Assis, Emmanuel (este, com certeza), etc. tenham tido a ‘sorte’ de estar na Terra quando o Cristo nela se materializou, embora, evidentemente, isto não seja essencial à evolução de ninguém. Certo é que, se me afirmarem que Kardec viveu aqui no tempo de Jesus, em princípio aceito-o de bom grado.
            Ora muito bem. Entre 30 e 33 teria reencarnado neste planeta um Espírito que se chamou Quirílius Cornélius. Seu pai fora soldado. A mãe e os tios habitavam a casa do avô, um rico e sábio filósofo. Esse avô quis fazer de Quirílius Cornélius um sábio também, mas o pai acabou conduzindo-o à carreira das armas. Estagiou pela primeira vez em Massília, nas Gália. Dali foi destacado para servir em Jerusalém, na Judéia, província então governada, como é sabido, pelo procurador romano Pôncio Pilatos. Quirílius Cornélius tinha grande facilidade de aprender línguas. Em Jerusalém, passou a ocupar um cômodo na casa de certo galileu, homem pobre, de numerosa família, mas muito honesto. Uma de suas filhas, jovem muito bonita chamada Abigail, veio a agradar sobremaneira a Quirílius. Foi ali, naquela casa e naquele ambiente, que ele ouviu falar pela primeira vez em Jesus, com quem irá posteriormente ter contato pessoal. Quem era Quirílius Cornélius? Seria Allan Kardec. Onde se encontram essas informações? Numa obra seríssima, muito bem feita, de grande repercussão mundial, ditada por respeitável autor espiritual, psicografada por médium de excepcionais recursos e, finalmente - o que é importantíssimo - editada sob a chancela da Federação Espírita Brasileira, em tradução de Manuel Quintão. Trata-se do livro ‘Herculanum’, do conde J. W. Rochester (na realidade, o poeta inglês John Wilmot, desencarnado em 1680, boêmio e cortesão de Carlos II, da Inglaterra), livro recebido pela médium mecânica Wera Krijanowsky, de nacionalidade russa. A informação sobre Allan Kardec é apresentada de forma muito clara e muito explícita. O ponto essencial se contém à pág. 351, da 4ª edição, e está vazado nos seguintes termos:
            ‘A esses, como conquistá-los? Como encontrar a pista de suas almas? Tu mesmo, tu, valoroso centurião que não há muito foste Allan Kardec; tu que na última encarnação foste Allan Kardec; tu que na última encarnação te devotaste à fundação de uma doutrina que esclarece e consola a Humanidade, quantos dissabores não amargaste?’
            Mais adiante, à página 353:
            ‘Depois, o Espírito Kardec ascendeu aos páramos infinitos.’
            Com a revelação sobre Quirílius Cornélius podemos seguir curto fio de ariadne e bater noutra figura referida naquele mesmo livro. Trata-se do eremita João, que, aliás, na narrativa de Rochester, é a personagem que interessa. Quirílius só surge porque João recorda sua encarnação anos atrás, ao tempo do Cristo. A rigor, a personagem de ‘Herculanum’ é João, o eremita. Vivia ele no ano 79, época da erupção do Vesúvio, numa espécie de gruta, perto da cidade de Herculano. Era um homem alto que comumente aparecia envolto num hábito cinzento. Tinha idade avançada, porém denotando vigor e porte. Na história, é uma figura austera, centro dos principais acontecimentos, embora surgindo muito poucas vezes no enredo. A referência principal de Rochester está contida a partir da pág. 191 da edição citada. João, o eremita, aparece narrando, à personagem central da história, passagens de sua vida pretérita, quando tinha sido o centurião Quirílius Cornélius.
            Era então o responsável por Jesus, na prisão, mas, como não acreditava na culpa do Salvador, propôs-lhe uma troca: tomaria o seu lugar, deixando que Jesus se evadisse; morreria pelo Cristo. Este, porém, lhe teria respondido:
            -“Agradeço-te e muito aprecio o teu devotamento, mas não posso aceitá-lo. Acaso consideras menor o meu sacrifício, se houvera de permanecer neste mundo em que me é tão difícil praticar o bem? Não, amigo, eu deploro a minha sorte, a mesma que tiveram os profetas que me precederam, mortos pelos homens. Mas, não suponhas, também, que eu desdenhe o sacrifício da tua vida (parou com os olhos no vácuo, dando à fisionomia uma feição singular), pois tu hás de morrer por mim e estou a ver as chamas da fogueira que te espera... Mas, isso não será por agora... (...)
            -“Que dizes com isso, meu pai João? Será que estejas mesmo fadado a morte assim horrível? - atalhou Caius.
            -“Filho, certa feita, cheguei a crer-me destinado à glória do martírio, quando milhares de irmãos tombaram imolados à sua, à nossa fé; e foi quando tive um sonho profético que me assinalou essa glória para existência futura. (1)
            Há aqui uma nota de rodapé, no livro. Vou transcrevê-la:
            “(1) João Huss, queimado em Constança em 1415.”

            Resumindo, para entendimento maior do leitor: o eremita João está se recordando da sua vida na pessoa do centurião Quirílius Cornélius, ao tempo de Jesus. Quer morrer no lugar do Mestre. Este lhe diz então que seu sacrifício será aproveitado no futuro, quando reencarnar como João Huss. Dessa encarnação, também o eremita João já tivera um sonho profético. Assim se interligam e têm seqüência encarnatória as personagens de Quirílius Cornélius (o eremita João), de João Huss e de Allan Kardec, todas referidas por Rochester em seu curioso trabalho aqui citado, diante do qual, porém, sempre caberá uma indagação: seria apenas uma ficção?
            Mas vamos um pouco mais adiante. Sabemos que as obras do conde Rochester (‘O Chanceler de Ferro’, ‘Sinal de Vitória’, ‘Romance de uma Rainha’, ‘A Vingança do Judeu’, ‘Herculanum’) mantém entre si o contexto dum plano concatenado e cronológico. Trata-se quase dos mesmos Espíritos que desencarnam e reencarnam, vivendo diferentes épocas e variegadas situações cármicas. Assim, é possível que Kardec esteja citado noutros livros. Num deles, por exemplo, há passagem que se refere de certa forma à aurora da Terceira Revelação, na qual alguns estudiosos pretendem ver, também ali, alusão implícita a outra encarnação do Codificador. Contudo, como o texto não me pareceu absolutamente claro e positivo, preferi não considerá-lo neste trabalho, visto que a referência tem cunho muito impessoal, podendo ser identificado nela não apenas Allan Kardec, mas qualquer líder espírita... [1]
            A título de curiosidade (curiosidade?) e apenas para que este trabalho não omita nenhum detalhe constante das obras sérias até aqui conhecidas, vou levar o leitor até o livro de Camille Flammarion ‘Narrações do Infinito (Lúmen)’, 2ª Edição FEB, 1963, no qual, em tom dialogal, Lúmen explica a Quaerens inumeráveis aspectos do passado longínquo da Terra e de outros tipos de vida existentes na Criação há milhares de anos.
            Na ‘Quinta Narrativa’, que é a última, escrita por Flammarion em 1869, Lúmen descreve a constelação de Órion, onde há um planeta em que “os seres não têm a natureza vegetal, nem animal;  não poderiam mesmo caber em nenhuma das catalogações terrenas, ou ainda, em uma das grandes divisões - reino vegetal e reino animal. No encontro verdadeiramente maneira de os comparar, para vos dar uma idéia da forma respectiva. Vistes, acaso, nos jardins botânicos, o aloés gigantesco, o cereus giganteus? (...)  Pois bem! os homens de Theta Orionis oferecem alguma parecença com essa forma’(pág. 160). Mais adiante, à pág. 164, temos então a informação capital:
            “Lúmen - Esse mundo de Theta Orionis, com os sete sóis rodantes, é povoado por um sistema orgânico análogo ao que vos defini. Vivi ali há vinte e quatro séculos.
            “Foi lá que conheci o Espírito (encarnado no presente na Terra) que publica seus estudos sob o nome de Allan Kardec. Durante nossa vida terrena, não nos recordamos, mas nos sentimos, por vezes, atraídos um para o outro por singulares aproximações de pensamentos. Agora que retornou, tal qual eu, ao mundo dos Espíritos, ele se lembra também da singular República de Órion e pode revê-la.”
            Ficção? Fantasia?  Ou revelação? Ao leitor transfiro a opção. Meu cuidado foi apenas o de levantar os dados, sempre tomados à literatura respeitável e, portanto, desprezada toda aquela que escape a essa adjetivação.
            No limiar do final deste artigo e diante dos informes aqui coligidos, podemos agora estabelecer a seguinte linha encarnatória para aquele Espírito a quem tanto ficaremos eternamente devendo, pelo muito que nos legou, com a vitória da sua missão excelsa:
            Ano 531 a.C. (vinte e quatro séculos antes de 1869): Ser extraterreno, num planeta da constelação de Órion.
            Ano 58 a.C./44 a.C. ( faixa que vai desde a chegada de Júlio César à Gália até a sua morte): Allan Kardec sacerdote druida, na Gália, hoje França.
            Ano 30/33 (faixa que vai, tradicionalmente, desde o início do ministério de Jesus até a sua crucificação): Quirílius Cornélius, centurião romano, em Jerusalém, Palestina, hoje Israel. Mais tarde, no ano 79, era João, sábio eremita, em Herculano, Roma, hoje Itália.
            Ano 1369/1415 (faixa aproximada, pois não é absolutamente certa a data de 1369): João Huss, filósofo, reformador religioso, na Boêmia, hoje Tchecoeslováquia.
            Ano 1804/1869: Hippolyte-Léon Denizard Rivail, pedagogo, em Lyon, na França.
            Apenas como Hippolyte-Léon Denizard Rivail os anos acima traduzem rigorosamente encarnação e desencarnação. Nos demais casos aqueles anos representam apenas um período, uma faixa, durante a qual se tem notícia da passagem do Codificador pela Terra.
            E por falar em passagem do Codificador pela Terra, penso que vale também, como registro, reproduzir a informação (de caráter geral ou particular?) dada pelo Espírito da Verdade ao próprio Allan Kardec e contida na obra mais importante do Pentateuco: ‘O Livro dos Espíritos’. O Codificador encarnara, por mais de uma vez, como ... antropófago. É o que esclarece a questão 787, letra ‘b’:
            “Assim, pode dizer-se que os homens mais civilizados tenham sido selvagens e antropófagos?”
            “Tu mesmo o foste mais de uma vez, antes de seres o que és.”
            Finalmente, desejo voltar a chamar a atenção do leitor para um aspecto já mencionado, e em seguida aludirei a outro, mais grave e muito mais importante. As referências foram colhidas em trabalho respeitabilíssimo, de autor e médium irreprocháveis, editado pela Federação Espírita Brasileira. Mas - e aqui entra o outro aspecto - não tenho, nem ninguém terá, a necessária certeza que baste à comprovação dos fatos. Rochester romanceou?  Não vejo nem afirmo nada, embora as fontes unanimemente aceitas sobre as figuras do sacerdote druida e do precursor do Protestantismo talvez sejam tão frágeis quando as de Rochester, já que do Codificador, dele próprio, nada tenho escrito. Por outro lado, uma indagação ficará sempre em suspenso: por que apenas Rochester sabia dessas coisas?
            Assim, apresento o tema à guisa exclusivamente de estudo, até que outras informações se alinhem e possamos documentar, sem receio de enganos, as vidas terrestres do grande missionário da Terceira Revelação. Uma coisa é certa e indiscutível e, é óbvio, foi alguém no passado distante, tanto quanto o será ainda, no futuro próximo, se porventura já  não o é... Resta saber apenas se desta feita estará voltando ainda para resgatar faltas do passado ou - por que não? - na condição exclusiva de missionário, a exemplo da encarnação de Maria, quando o Cristo fluídico se manifestou.



[1] ‘Le Pharaon Mernephtah’. Confronte-se com a ‘Revue Spirite’ de 1890, pág. 184

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Huss - 2 preciosos artigos sobre Jan Huss




Notas Históricas sobre
João Huss
por Celso Martins
Reformador (FEB) Março 1981

Nota da Redação do Reformador:
            “De há muito carecíamos de umas “Notas Históricas sobre João Huss”. O Professor Celso Martins no-las elaborou a fim de tornar menos penoso o esforço de síntese do espírita que precisa de dados para as suas palestras ou artigos, mas que só são encontráveis desde que se compulsem muitos volumes.
            Para que se tenha uma noção disso, basta que se registre ser preciso recorrer a duas obras de grande valor para encontrar o seguinte: “A Bohêmia considera-o a um tempo patriota e mártir da fé. Como escritor, tinha fixado a ortografia e reformado a língua tcheca.” (Grande Enciclopédia Delata Larousse). “Livros em tcheco e latim: Questio de Indulgentiis (1412), Explication de la foi (1412), De Ecclesia (1413), Explication des Saint Évangiles (1413).” (Dictionnaire Universel des Noms Propres - “Petit Robert”, volume 2, p. 885)
            Em setembro de 1869, há um trabalho na Revue Spirite, pp. 264 a 272, que consiste em artigo do Siècle, de 11-7-1869 (a propósito do 5º aniversário de Jean Huss), comentários da redação da RS e mensagens mediúnicas de 14-8-1869 (assinada Jean Huss) e 17-8-1869 (assinada Allan Kardec).
            No Anuário Espírita (1973) foi estampado artigo de Wallace Leal V. Rodrigues: “João Huss na História do Espiritismo”, do qual Reformador colheu algumas gravuras, tendo-o feito igualmente do “Larousse du XXe Siècle”.
            De mensagem ditada pelo Espírito H. de Campos a F. C. Xavier, aos 22-9-1942 (lida no Pacaembu, em S. Paulo, dia 03-10-1942), publicada em “Reformador” de setembro de 1978, p. 239, extraímos os seguintes tópicos:

            “Depois de se dirigir aos numerosos missionários da Ciência e da Filosofia, destinados à renovação do pensamento do mundo no século XIX, o Mestre aproximou-se do abnegado João Huss e falou, generosamente:
            -Não serás portador de invenções novas (...), mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. (...)
            -Preparam-se os círculos de vida planetária a grandes transformações nos domínios do pensamento. Imenso número de trabalhadores no mundo, desprezando o sentido evolucionário da vida, crê na revolução e nos seus princípios destruidores, organizando-lhe movimentos homicidas. Em breve, não obstante nossa assistência desvelada, que neutralizará os desastres maiores, a miséria e o morticínio se levantarão no seio das coletividades invigilantes. A tirania campeará na Terra, em nome da liberdade, cabeças rolarão nas praças públicas em nome da paz, como se o direito e a independência fossem frutos da opressão e da morte. Alguns condutores do pensamento, desvairados de personalismo destruidor, convertem a época de transição do orbe em turbilhão revolucionário, envenenando o espírito dos povos. O sacerdócio organizado em bases econômicas não pode impedir a catástrofe. A Filosofia e a Ciência intoxicaram as próprias fontes de ação e conhecimento!...
            É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da humanidade.
            O Evangelho do Amor permanece eclipsado no jogo de ambições desmedidas dos homens viciosos!... Vai, meu amigo. Abrirás novos caminhos à sagrada aspiração das almas, descerrando a pesada cortina de sombras que vem absorvendo a mente humana. Na restauração da verdade, no entanto, não esperes os louros do mundo, nem a compreensão de teus contemporâneos.
            Meus enviados não nascem na Terra para serem servidos, mas por atenderem às necessidades das criaturas. Não recebem palmas e homenagens, facilidades e vantagens terrestres, contudo, minha paz os fortalece e levanta-os, cada dia...
            (...) Ante a emoção dos trabalhadores do progresso cultural do orbe terreno, o abnegado João Huss recebeu a elevada missão que lhe era conferida, revelando a nobreza do servo fiel, entre júbilos de reconhecimento.
            Daí a algum tempo, no alhor do século XIX, nascia Allan Kardec em Lyon, por trazer a divina mensagem.”

            Amaral Ornellas, responsável, à época, pela Secretaria de Reformador, publicou em 3-10-1920 trabalho de sua lavra intitulado “O Codificador”, que encerrou desta maneira:

            “Quem conhece a biografia de Kardec e sabe com que serenidade estóica ele enfrentou os ódios da inimizade intransigente, da calúnia, da inveja e do ciúme, armas terçadas pela inquisição moderna contra aqueles que pairam acima das trivialidades mundanas, tem a consoladora certeza de que esse elevado Espírito soube cumprir com galhardia a missão que Jesus lhe confiara.
            Glorioso Rivail, nós aguardamos a tua volta, se é que ainda não estás no planeta acumulando forças para novos empreendimentos!
            E quando, no velho ou no novo mundo, aparecer um filósofo que venha continuar a tua obra de evangelização, nesse gigante do pensamento, em qualquer parte do Universo em que nos encontrarmos, saudaremos o João Huss que ardeu na fogueira de Constança e o inesquecido Kardec a quem a inquisição retardatária feriu com o seu último auto-de-fé, mandando incinerar-lhe as obras, por ordem de um bispo, numa colina em que pereciam os condenados à morte, na católica cidade de Barcelona.
            Assim, após essas terríveis convulsões sociais, nascidas dessa tremenda expiação coletiva que foi a guerra, uma aurora de paz e de concórdia despontará no planeta e, como fortalecido pela fé, um Denizard Rivail mais alentado pelo amor, unindo todos os credos filosóficos à palavra do Cristo, para que se estabeleça na Terra a verdadeira fraternidade.”  (Reproduzido em 1977, pp. 297 a 299)
                                   *
            Por tudo quanto foi aqui exposto, o contributo de Celso Martins é benvindo: ele nos coloca no contexto da época de João Huss, dentro dos episódios históricos e diante das personalidades que cercaram o inolvidável missionário que efetivamente representa a gênese de um movimento que ainda continua no mundo, com outro nome, pregando a volta do Cristianismo à pureza simples dos tempos apostólicos e dos mártires da fé.                            A Redação


1 - A Idade Média ou Medieval

            Por idade Média ou Medieval entendemos o período da História da Humanidade que vai do século V até o século XV. Segundo alguns historiadores, teria início no ano de 395, quando o Império Romano se dividiu em Império do Ocidente e Império do Oriente ou Império Bizantino. E terminaria em 1453, quando os turcos otomanos tomaram Constantinopla, a
capital do Império Bizantino. Para outros pesquisadores, a Idade Medieval começaria em 476, quando Roma (capital do Império do Ocidente) foi submetida aos bárbaros; e findaria em 1492, quando Colombo descobriu o Novo Mundo.
            São da Idade Média as Cruzadas, atirando cristãos (católicos, para dizer melhor) contra os maometanos. É desta fase histórica a ação dos chamados bárbaros, ou seja o ataque dos hunos, dos vândalos, dos lombardos, dos visigodos, entre outros, contra as nações cristãs do continente europeu. Da Idade Medieval são figuras famosas as de Maomé, Carlos Magno, Constantino, Ricardo Coração de Leão, João Sem Terra, Francisco de Assis, Joana  D’ Arc, etc. Por fim, é da Idade Média a Guerra de Cem Anos, entre a França e a Inglaterra. Encontramos ainda nesta época os Principados e os Ducados Russos, o Reino da Suécia, o da Noruega, das Castela, de Aragão, da Polônia, da Hungria, etc.
            Submetida em parte pelos árabes, adeptos do Islamismo de Maomé, a Europa medieval estava também dividida em feudos, sendo que, não raro, os proprietários destas grandes extensões territoriais detinham muito mais autoridade do que os próprios reis. Muito influente na época, de igual maneira, a Igreja Católica, que, através de seus dignatários, controlava em larga escala a política então vigente.

2. - A Boêmia

            Numa tentativa de centralização, formou-se a partir de 1254 o Sacro Império Romano Germânico, sob a liderança da Germânia (futura Alemanha), reunindo regiões como a Áustria, a Morávia, inúmeras cidades italianas, etc. Desse Sacro Império Romano Germânico fazia parte a Boêmia, sendo que o referido Império perdurou até 1808.
            Conquistada no século V pelos eslavos,  a Boêmia constituiu-se em reino independente até 1556, quando foi anexada à Áustria. Em 1919 passou a integrar a Tchecoeslováquia, o que se dá até os nossos dias, com ligeira interrupção entre 1939 e 1944, quando esteve anexada à Alemanha Nazista.

3 - O Descontentamento dos Boêmios

            Jan Hus (que em tcheco quer dizer ganso) nasceu filho de camponeses, em 1369, na pequena cidade de Husinec, pertencente à Boêmia. Devido à pobreza de seus pais, João Huss só pode estudar por ser dotado de viva inteligência, granjeando a simpatia de alguns monges. Por estes amparado, em 1398 Huss formou-se em artes, pela Universidade de Praga, e começou a lecionar Teologia, fazendo-se bastante conceituado nos meios universitários. Conseguiu ser nomeado deão da Faculdade de Filosofia e, mais tarde, reitor da Universidade. Data de 1400 a sua ordenação como padre católico.
            Mas acontece que, naquela ocasião, havia um grande descontentamento entre os habitantes da Boêmia. Primeiramente, porque o feudalismo estava como que entravando o pleno desenvolvimento do comércio. As corporações dos artesãos e as ligas dos mercadores deveriam pagar altas taxas aos senhores feudais, o que encarecia as mercadorias em geral. É a situação se fazia mais crítica porque a maior parte dos senhores feudais eram alemãs, uns bispos e outros simplesmente leigos. Os boêmios desejavam- libertar-se da dominação germânica. A própria Universidade de Praga (fundada em 1247, por Carlos VI) era constituída de duas nações germânicas (bávaros e saxões) e de duas nações eslavas (boêmios e poloneses). Por ela se tentava levar a Teologia dos alemães para os eslavos, mas não conseguindo, porém, pois eram constantes as brigas entre estudantes em plena Praga, já capital do Reino da Boêmia.
            O outro grande motivo de descontentamento derivava da desmoralização generalizada da Igreja, sob cujo poder espiritual estava a Boêmia submetida.

4 - Da História da Igreja

            Em 1305 o Papa Benedito XI se viu obrigado a retirar-se da Itália por sentir-se ali ameaçado por seus inimigos, fixando residência em Avignon, na França. Esta cidade ficou sendo a sede dos papas até 1377, quando Gregório XI, atendendo aos apelos que lhe vinham de todas as partes, sobretudo da Itália, resolveu terminar com o que os italianos chamavam de ‘cativeiro de Babilônia’. Resolveu voltar para os Estados da Igreja, fixando-se em Roma.
            Falecendo Gregório XI no ano seguinte (1378)  diversos cardeais elegeram Urbano VI. Dezesseis  outros cardeais, no entanto, não endossaram tal eleição e elegeram o francês Clemente VII, que ficou, de novo, em Avignon. Morrendo um e outro, novos sucessores foram eleitos, um em Roma e outro em Avignon, agravando-se a cisão do mundo católico, pois a cada papa de sua parte se considerava o legítimo representante de Deus na Terra, junto aso homens, e dizendo ser o outro o antipapa. De seu lado, os reis arrogavam-se o direito de escolher qual dos dois sumos pontífices seus súditos deveriam servir.
            Assim é que, em 1398, o Rei Venceslau, da Germânia (Alemanha), acertou com o Rei da França a abolição daquela situação bipapal. Foram os dois abolidos. Mas os cardeais não aceitaram esta intromissão dos reis citados. Reuniram-se em Pisa, no ano de 1409, depuseram Gregório XII, de Roma e Benedito XIII, de Avignon. E elegeram um terceiro (!) papa, na pessoa do grego Alexandre V.
            O arcebispo de Praga, a princípio, obedecia a Gregório XII. Quando, entretanto, percebeu que o Reino da Boêmia era fiel ao novo papa de Pisa (Alexandre V), reconheceu-o também. Para demonstrar-lhe gratidão por este gesto, o terceiro papa ordenou a queima das obras de Wiclef e proibiu ao Mestre João Huss pregar.
            A par desse descalabro nas altas esferas da Igreja, o clero também não dava exemplos dignos de ser seguidos. Ao invés de espiritualizar-se e espiritualizar o povo, a maioria dos sacerdotes caiu nas baixezas mundanas. Levavam uma vida de aventuras amorosas, de riscos guerreiros, de prazeres do estômago, muito distantes das virtudes cristãs. Muitos andavam armados como se soldados fossem e exerciam cargos civis, auferindo, assim, rendimentos consideráveis.

5 - As Idéias de Wiclef

            Na Inglaterra viveu, de 1320 a 1384, João Wiclef (ou John Wycliffe).
            Desde 1337 aquele Reino estava se debatendo em luta com o da França  (Guerra de 100 anos). Em razão das operações militares, várias mudanças sociais foram sacudindo o povo inglês. Entre estas transformações da sociedade ressaltou-se a oposição que se fazia aos impostos eclesiásticos: admitiam os britânicos que o dinheiro arrecadado pelos padres iria enriquecer os seus adversários franceses, de vez que o papa  (um deles) estava em Avignon.
            Wiclef, reitor do Colégio Balliol, em Oxford (desde 1356), e guardião de Canterbury (1365), ilustre teólogo, colocou-se ao lado do Rei Eduardo III contra os impostos papais. Em verdade, durante sua vida elaborou nada menos do que 96 obras em latim (idioma oficial da Igreja), 65 em inglês e ainda traduziu a Bíblia para a língua nacional, a fim do pô-la ao alcance do povo.. No trabalho intitulado Sobre a Eucaristia, por exemplo, negava terminantemente o milagre da transubstanciação, isto é, não aceitava a transformação do vinho em sangue nem do pão em corpo de Cristo, pela consagração. Ora, era a mais grave das heresias, pois atingia em cheio um dos mais importantes dogmas da Igreja Católica.
            Mais tarde, Wiclef passou a atacar o alto clero porque ele não exercia mais atividades de caridade nem observava o voto de pobreza. Ao contrário, sendo os seus componentes elementos que vinham da nobreza, viviam em alto luxo, gozando os benefícios das ricas heranças das famílias feudais, metendo-se em negócios do Estado, enquanto o baixo clero, formado de elementos oriundos do seio do povo, continuava pobre e analfabeto.
            Em 1376 lançou o livro Sobre a Propriedade Privada, onde declarava que as terras da Igreja deveriam ser tomadas pelo Estado, já que no seu entender a Igreja deveria cuidar exclusivamente de assuntos espirituais.
            O Papa Gregório XI tentou silenciá-lo. No entanto, contando com o apoio do Parlamento inglês, Wiclef logrou defender-se sempre. E de fato teve tanta liberdade de ação que se voltou contra aquela situação anômala de dois papas simultâneos. Voltou-se ainda contra outros dogmas, como o da absolvição dos pecados e até mesmo contra a hóstia.
            Termina então a Guerra dos Cem Anos com a derrota inglesa. O rei se viu na obrigação de proteger os interesses da nobreza e teve de agir sobre as classes pobres, de vez que a miséria se alastrava por todo o país. Os camponeses tentaram reagir mas foram, por fim, submetidos a um regime de servidão. Esta derrocada do povo desprestigiou a Igreja pobre. Não obstante, Wiclef continuou em sua luta propugnando uma reforma religiosa, morrendo em virtude de um derrame cerebral nas últimas horas do ano de 1384.
            Seus seguidores foram perseguidos, mas na Boêmia é que vai surgir a figura de seu adepto mais fervoroso, na pessoa de João Huss.

6 - O Mestre João Huss

            Nomeado pregador da Capela de Belém, desde cedo mostrou-se o mestre Huss favorável às idéias de Wiclef. Entre outras coisas, não admitia a ocorrência de milagres. O clero se irritou com isto e tomou-lhe logo o cargo de pregador. E o citou perante a Cúria Romana. A Rainha Sofia, porém, por gostar dele, contribuiu para torná-lo chefe do partido nacional. E Huss não compareceu perante o papa para defender-se de seus acusadores.
            O Reino de Boêmia, por questão de prudência, talvez, a princípio não se meteu na briga entre Gregório XII e Alexander V. Mas quando este último (sediado em Pisa) começou a perseguir os adeptos de Wiclef, todo o clero inferior, a Universidade de Praga e mesmo o povo da Boêmia se colocaram ao lado de João Huss, que continuou a pregar, apesar da proibição expressa em bula pelo Papa Alexandre V. Prosseguiu sua vida de bondade e de fidelidade às leis de Deus.
            A 15 de março de 1411, por ordem do Arcebispo Zbynek foi anunciada em Praga a excomunhão, decretada pelo Cardeal Oton de Colona, contra Huss, pelo fato de ele não ter comparecido ao tribunal do papa, agora não mais Alexandre V, ao que consta envenenado, mas sim João XXIII.
            O Rei da Boêmia, Venceslau IV, se irritou com o papa que não atendeu aos seus apelos (bem como os da Rainha Sofia), no sentido de anular as exigências do falecido pontífice. Ausentando-se de Praga o Arcebispo Zbynek castiga os padres da cidade, que apoiavam Huss. Em represália, Venceslau IV favorece os wiclefistas, confiscando os bens do arcebispo, atirando-o a uma situação financeira precária. Para por fim àquelas disputas, o Rei criou um tribunal conciliatório (6 de julho de 1411): de um lado João Huss e seus adeptos submetiam-se ao arcebispo e este, então, diante da confissão de fé de Huss, intercederia em seu favor, com o apoio real, junto ao papa. Doutra parte, os bens do eclesiástico ser-lhe-iam devolvidos integralmente.
            João Huss aceitou a decisão do tribunal de conciliação. O arcebispo chegou a preparar uma carta para o papa. Como, porém, o Rei demorasse muito em fazer-lhe a devolução dos bens. Zbynek vai buscar auxílio de Sigismundo, Rei da Hungria e imperador da Alemanha, por sinal irmão do próprio Venceslau. Não chegou, no entanto, o arcebispo até a corte de Sigismundo - morreu em viagem, em 28 de setembro de 1411. E seu sucessor (Albik), amigo de Venceslau, deixa Huss em paz!
            Ocorre que, tendo subido à cadeira papal em Pisa a 4 de maio de 1410, o napolitano João XXIII passou a hostilizar abertamente seu colega Gregório XII (sediado em Roma); entrou em guerra contra o Rei de Nápoles, de nome Ladislau. E assim, a 12 de abril de 1411, João XXIII se apoderou de Roma; em junho do mesmo ano obrigou Ladislau a reconhecê-lo como legítimo representante de Deus junto aos homens e ainda em setembro de 1411, por não confiar em Ladislau, acaba por excomungá-lo.
            Como se tudo isso não bastasse, o novo papa pregou uma cruzada contra o pobre Rei de Nápoles e promulgou indulgências a todos que, pessoalmente, ou por meio de dinheiro (sic), o auxiliassem naquela campanha!
            Vários sacerdotes, então, foram encarregados de vender tais indulgências. Os seus compradores estariam remidos das penas purgatoriais enchendo de moedas e mais moedas os cofres da Igreja de Roma!... Evidentemente, tal comércio gerou indignação e tumultos por todos os lados. Os teólogos da Universidade de Praga, do qual João Huss fazia parte, não se definiram claramente se deveriam ou não cooperar com o papa naquela empresa. João se insurge abertamente declarando que só Deus tem o poder de dar indulgências. Os padres podem anunciá-las, jamais vendê-las! No que foi seguido por um discípulo chamado Jerônimo, mais tarde conhecido como Jerônimo de Praga.
            Em torno do assunto, na Boêmia, levantou-se tanta confusão, que os emissários do papa para recolher o dinheiro não eram mais respeitados. Mesmo porque o povo estava instruído por João e por Jerônimo.
            Sabendo das lutas travadas em Praga contra a venda vergonhosa das indulgências, João XXIII indeferiu as apelações a favor de Huss, entregando o processo ao Cardeal Pedro degli Stefaneschi, o qual na verdade confirmou a bula anterior excomungando-o, proibindo-o de celebrar missas e casamentos e determinando fosse a bula lida em todas as igrejas.
            Novas determinações perseguiram seus amigos, parente e até criados.  Em setembro chegou a ordem de demolição da Capela de Belém; e mais - chegou a ordem de prender João Huss, onde quer que estivesse, julgá-lo e queimá-lo vivo porque era um herege. Como se sabe, o Tribunal da Inquisição, que tanta gente levara à fogueira, fora  instalado no século XIII, por determinação do Papa Inocêncio III. Novos distúrbios se verificaram na capital da Boêmia, pois o povo não aceitava as ordens papais. Huss, para evitar inúteis tumultos, refugiou-se no Sul do país, na fortaleza de um amigo, onde escreve canções religiosas, obras teológicas e morais em língua tcheca, destinadas ao povo ao qual ainda falava, nos castelos, nas aldeias, nas vilas, até mesmo à beira das estradas, quando os padres não lhe abriam as portas de suas capelas.

7 - O Concílio de Constança

            Contando com apoio do Rei Sigismundo, João XXIII resolveu convocar para 1º de novembro um Concílio na cidade alemã de Constança, a fim de dar solução a questões de costumes e de direitos eclesiásticos, bem como esclarecer a unificação da Igreja Católica Romana, repartida entre 3 papas.
            Prometendo protegê-lo, Sigismundo consegue convencer João Huss a comparecer ao referido Concílio para defender-se das acusações de que estava sendo vítima. Antes, porém, de seguir viagem, nem o inquisidor de Parga (Bispo Nicolau) nem um sínodo do clero convocado para este fim, em agosto de 1414, encontraram provas contra o pregador tcheco. O próprio Arcebispo Conrado, interpelado pela Assembléia Nacional, em setembro do mesmo ano, declarou que não considerava aquele sacerdote de modo algum um herege. Ao contrário, foi reconhecido como verdadeiro cristão.
            Assim, acompanhado de fiéis amigos (mais ainda, fiado num salvo-conduto do Rei), partiu para Constança. Mal sabia ele que seu maior inimigo estava ali em Praga mesmo, na pessoa de Estevão Palec, doutor em Teologia da mesma Universidade, autor de um Tratado da Igreja, o qual não se conformava em ser sobrepujado por Huss em popularidade. Muito embora fosse antes amigo de João, com o tempo a inveja e o despeito fizeram-no seu adversário ferrenho, e que tudo faria em Constança para vê-lo obrigado a retratar-se, humilhar-se, abrir mão de suas idéias wiclefistas. Se isso ocorresse, então as suas idéias, dele, Palec, ganhariam popularidade entre os doutores e mesmo entre o povo da Boêmia.
            A 3 de novembro João Huss chega à Constança, onde já se encontrava o papa desde 28 de outubro, com um séquito de mil homens. Aliás, a cidade fervia de gente. Contava com a presença de 3 patriarcas, 29 cardeais, 33 arcebispos, 150 bispos, 300 teólogos, 108 abades, e priores, deães, cônegos, além de 3 eleitores, um margrave[1], 39 duques, 32 condes, muitos embaixadores, cavaleiros, fidalgos, bacharéis, estudantes, num total de 150 mil pessoas e 30 mil cavalos!
            Levados por amigos fiéis, como Wenceslau de Dubá, Henrique Lacemborck e João de Chium, Huss compareceu perante o papa, dele recebendo promessa de total proteção. Mas, na primeira oportunidade, o papa fugiu à palavra dada: instigado por Estevão Palec, por Miguel de Causis e pelo Bispo João de Litomysle, João XXIII consente em sua prisão, declarando que o fazia porque era os próprios compatriotas de Huss que o exigiam. E a prisão se dá em 28 de novembro a despeito do salvo-conduto do Rei Sigismundo, que lhe garantiria voltar à Boêmia. Os cardeais pouco valor deram ao documento real e João Huss foi atirado a uma cela onde, embora ficando seriamente doente, escreveu várias cartas aos companheiros distantes.
            Mas o Concílio ia tendo lugar. E a mais espantosa ocorrência se deu quando os cardeais obrigaram João XXIII a renunciar, se os outros papas fizessem o mesmo (Benedito XIII e Gregório XII). João XXIII foge para Schafhausen, aí decretando a dissolução do concílio. Os cardeais não acatam esta decisão papal e depuseram os três pontífices e, com o auxílio dos soldados de Sigismundo, a 5 de junho de 1415 prenderam o ex-Papa XXIII.

8 - O Processo contra Huss

            Se quisesse, o Rei Sigismundo poderia libertar João Huss. Mesmo porque nenhum cardeal pessoalmente desejava cuidar do caso. Nem mesmo o bispo de Constança. Mas o Rei insistiu em deixar o assunto a cargo do Concílio, de sorte que Huss ficou na dependência de uma comissão de 4 membros, presididos pela arcebispo de Ragusa.
            Em abril de 1415, veio a ter a Constança o discípulo fiel Jerônimo de Praga. Recomendado por amigo a que regressasse à Boêmia, o jovem tentou o regresso, mas foi aprisionado, metido em dura prisão e - para encurtar a história - queimado no ano seguinte (1416).
            Chegando aos boêmios a notícia da prisão de Huss, 250 aristocratas daí e da Morávia se manifestaram contra o Rei Sigismundo, de nada valendo, porém, esta manifestação dos seus patrícios. Agora, sob a presidência do Cardeal João de Brogni, o processo foi ganhando seqüência durante audiências a que João Huss só era admitido depois de feitas as acusações, sem lhe ser dada a oportunidade de defesa. Novo julgamento a 7 de junho de 1415, na presença de seus amigos João de Chlum, Wenceslau de Dubá e Pedro Mladenovice, presidido pelo Cardeal Pedro de Ailly, durante o qual, como antes, Huss não tem ocasião de defender-se, quer dizer, um julgamento tipicamente inquisitorial Ciente da sorte que o aguardava, o intrépido pregador da Boêmia a 10 de julho de 1415 escreveu aos seus patrícios sua última carta na qual conclamava o povo de Praga a respeitar e ouvir a palavra de Deus; a levar uma vida digna e reta, voltada para o estudo e para o trabalho, tendo em vista a glória de Deus, o melhoramento da comunidade e a salvação de suas almas; a orar ao Criador pelo Rei e pela Rainha; mas também a acautelar-se contra homens astutos e sacerdotes indignos que por fora são ovelhas e, por dentro, lobos vorazes!

9 - Atirado às Chamas

            Finalmente, a 6 de julho de 1415, cardeais, arcebispos, bispos, prelados, doutores em Teologia, membros do Concílio se reúnem na Catedral, na presença do Cardeal João de Grogni e do Imperador Sigismundo, João Huss deve ser condenado como herege e, por isso mesmo, queimado vivo! Depois do sermão, o Bispo Henrique de Pino, procurador do Concílio, leu em voz alta a sentença. Huss tentou defender-se, mas se viu proibido de falar. Diante da intolerância, o incansável pregador caiu de joelhos e implorou perdão de Deus para seus implacáveis inimigos. Enquanto isso, numa fogueira armada perto da igreja e diante do cemitério, seus livros são queimados.
            Em seguida o arcebispo de Milão comanda a sua desordenação: Huss é desvestido das vestes sacerdotais. E, tendo recebido uma ridícula coroa de papel, onde aparece o epíteto de ‘heresiarca’, é entregue ao Conde palatino Luís que, por sua vez, entrega-o ao alcaide (prefeito) da cidade, a fim de ser queimado. Note-se que João Huss não súdito de Sigismundo e sim de Venceslau, a quem deveria ser entregue. Mas isto pouco importa aos seus algozes. Desejavam queimá-lo e pronto! E assim, guardado por mais de 3 mil homens armados, seguido por grande massa popular, foi levado à fogueira medieval. Quando se aproximava do lugar do suplício, vendo que uma pobre velhinha acrescentava gravetos à lenha empilhada, o mártir, com um sorriso de amor, exclamou: -Santa simplicidade!”
            Tendo ajoelhado, pediu a proteção de Deus e rejeitou a confissão final, declarando que não lhe pesava nenhum pecado mortal. O carrasco preparava a queima da madeira enquanto o grande apóstolo do Cristo, recitando salmos, profetiza o advento de Martin Luthero, o famosos reformador alemão, declarando:
            “-Assais agora um ganso; mas daqui a anos virá um cisne que não podereis assar.” Como se viu, a palavra Huss significa, em tcheco, exatamente ganso.
            As chamas são acesas e lhe cobrem o corpo. O valente pregador de Husinec continuou a orara a Deus, implorando perdão pelo ato dos seus inimigos, e se negou a qualquer idéia de retratação.
            Queimaram o corpo de Huss. Mas não queimaram suas idéias de reforma dos costumes da Igreja. Não queimaram o ideal superior das almas que seguem sempre os ensinamentos da verdadeira Igreja do Cristo de Deus. Não queimaram da memória e da gratidão da Humanidade a lembrança de um de seus maiores vultos.

10 - Nota Final

            Consta que através da mediunidade de Ermance Dufaux foi dito que Allan Kardec teria sido o mesmo João Huss, evidentemente em vida anterior. Tal registro estaria guardado em documento da Livraria de Leymarie, chegando a ser visto pelo pesquisador patrício Canuto Abreu. Mas veio a invasão nazista, na última guerra mundial, e tal documento foi destruído.



João Huss


Inaldo Lacerda Lima
Pág. 294 Reformador (FEB) 1993

            Uma das mais autênticas figuras do Cristianismo, na Idade Média, foi, sem dúvida, o sacerdote e filósofo Jan Huss, nascido em Husinec (donde lhe veio o nome), na Boêmia, em 1369.
            Embora filho de pais camponeses, conseguiu completar seus estudos na Universidade de Praga, formando-se em Teologia, em 1394, e Artes, em 1396.
            Em 1400, ordenou-se sacerdote com o objetivo de servir ao Cristo com o coração. E, já em 1402, passava a ocupar o cargo de reitor da referida Universidade, dedicando ao magistério superior todo o devotamento possível.
            Um fato, porém, começava a inquietar a alma e o coração do jovem sacerdote: a decepção com a conduta de seus superiores eclesiásticos, que emprestavam à Igreja uma posição que muito o desagradava, principalmente a ele que devotava profundo respeito pelas coisas sagradas, sobretudo pelo culto da verdade.
            Assim, na mesma ocasião em que assumia o cargo de reitor da Universidade em que se graduara  em Teologia e Artes, alguns anos antes, travava conhecimento com a obra do  reformador inglês John Wycliff, passando a considerar-se  seu fiel discípulo.
            Exatamente no mesmo ano em que tomava conhecimento da obra de Wycliff, era nomeado pregador da Capela de Belém, em Praga. Não é difícil aquilatar os conflitos espirituais que passavam, então, a acicatar a mente desse homem extraordinário.
            Diante disso, a pouco e pouco iam-se escapando de seus sermões críticas ao clero, o que, ao mesmo tempo, punha em evidência as simpatias de Huss pelas idéias do odiado reformador inglês.
            Desse modo, não obstante as advertências que recebia em face de seu obstinado combate à cobrança de indulgências e à confissão auricular, foi em 1410, finalmente, excomungado. Enquanto isso, crescia a admiração pelo seu trabalho honesto, levando toda a população de Praga, em tumulto incontido, a proclamá-lo com o título de Herói Nacional, sob a proteção do Rei Venceslau da Boêmia.
            Isso fez crescer ainda mais a onda de perseguições dentro da Igreja contra João Huss, decretando o Vaticano nova excomunhão contra ele, em 1412. É que Huss passara a afirmar dos púlpitos que as escrituras sagradas deviam ser as únicas regras a ser obedecidas pela Igreja do Cristo e que somente ao Cristo considerava soberano único da Igreja.
            Diante de tal situação, foi João Huss premido a abandonar a cidade de Praga, onde sempre vivera.
            Roma, no entanto, utiliza-se de mais uma estratégia sagaz para exterminar a vida do ousado reformador. Decreta a realização do Concílio de Constança, em 1414. E, para ele, João Huss é convidado sob a garantia de um salvo-conduto do Imperador Sigismundo da Alemanha e Rei da Hungria. A Igreja  mostrava-se democrata e desejosa de melhor conhecer as idéias de Huss.
            Desse modo, o grande reformador e precursor da Reforma que ocorreria no século seguinte, tendo em vista as ponderações ardilosas, resolveu comparecer, intimorato, ao referido Concílio, mantendo aí os seus pontos de vista sem se arreceiar diante das ameaças, logo que percebeu ter sido vítima de uma armadilha.
            A grande verdade é que foi condenado à morte pelo fogo, pois esse,  e não outro, fora o objetivo da famigerada assembléia, uma vez que falso foi o salvo-conduto do Imperador da Alemanha.
            Assim sendo, e percebendo baldos os esforços pela sobrevivência, fez questão de enfatizar as suas idéias, e submeteu-as à terrível fogueira, expirando no dia 6 de julho de 1415, numa das praças de Constança.
                                   *
            Possivelmente, nenhum dos circunstantes presentes no sórdido e hediondo espetáculo representado por um homem indefeso, no alto de uma fogueira criminosa, percebia que, ali, na figura daquele homem sério e superior ocultava-se a alma de um grande missionário.
            Graças, todavia, à mediunidade sublimada de Francisco Cândido Xavier, tivemos a oportunidade e saber que homem era aquele que há cinco séculos e setenta e oito anos foi pela Igreja queimado vivo numa cerimônia espetacular.
            Conforme o relato mediúnico de Humberto de Campos, em 22 de setembro de 1942, na psicografia de Francisco Cândido Xavier, reproduzido na revista O Revelador, de São Paulo (SP) e, mais tarde, na revista Reformador, da FEB, de setembro de 1978 (págs. 293-294), ali estivera, na fogueira, sobranceiro, o Espírito que renasceria, em Lyon, na França de Joana d’Arc, a 3 de outubro de 1804, para o cumprimento de mais uma luminosa missão dignificando e imortalizando pelos séculos futuros o nome de Allan Kardec.
            Para melhor conhecimento dos espiritistas de nossos dias, citemos alguns trechos rápidos do relato acima mencionada:

            “Depois de se dirigir aos numerosos missionários da Ciência e da Filosofia, destinados à renovação do pensamento do mundo no século XIX, o Mestre aproximou-se do abnegado João Huss e falou, generosamente:
            -Não serás portador de invenções novas, não te deterás no problema de comodidade material à Civilização, nem receberás a mordomia do dinheiro ou da autoridade temporal, mas deponho-te nas mãos a tarefa sublime de levantar corações e consciências. (...)
            É indispensável estabelecer providências que amparem a fé, preservando os tesouros religiosos da criatura. Confio-te a sublime tarefa de reacender as lâmpadas da esperança no coração da Humanidade. (...)
            É preciso, porém, erigir o santuário da fé e caminhar sem repouso, apesar de perseguições, pedradas, cruzes e lágrimas!...
            Ante a emoção dos trabalhadores do progresso cultural do orbe terreno, o abnegado João Huss recebeu a elevada missão que lhe era conferida, revelando a nobreza do servo fiel, entre júbilos de reconhecimento.”
                                   *
            O restante de história nós, espíritas, já conhecemos. Cumpre, porém, não esquecermos a nossa modesta mas indispensável contribuição: servir à Doutrina do Consolador com coragem, confiança e a imprescindível disposição de ânimo.
            Urge sejamos todos, pela conduta e pelo coração, o espelho em que os homens se possam mirar. Quanto às fogueiras, já não temos que temê-las. Elas se apagaram para sempre. Mas é necessário mantenhamo-nos ao calor de novo fogo representado pela chama da fé viva, hoje, no amanhã e para todo o sempre.
           
 



[1] Título que outrora se dava aos príncipes soberanos de certos estados fronteiriços da Alemanha. (Nota do Compilador.)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Biografias - Aristides Spínola

Sem data certa, estarei postando algumas biografias de Espíritas do passado que, por motivos que não compreendemos bem, foram levados ao esquecimento.


        
  BIOGRAFIAS
Aristides Spínola

Caetité, Bahia
29-08-1850
Rio de Janeiro, RJ
09-07-1925

                Advogado do Espiritismo. É o que se pode dizer, logo de início, de Aristides de Souza Spínola, nascido na Bahia, tal como outros grandes espíritas: José Petitinga, Luiz Olímpio Teles de Menezes, Leopoldo Machado e Carlos Imbassahy. Homem voltado ao bem da pátria e do povo. Herdara do pai, o Cel. Francisco de Souza Spínola, deputado geral pela Bahia em três legislaturas, o pendor para a política, onde também se destacou, criado que fora “em rígidos princípios morais, sabendo ver o valor de um nome honrado”, como se lê na sua biografia, incluída em “Grandes Espíritas do Brasil”, de Zeus Wantuil. Antes, porém, de escrevermos sobre o espírita valoroso que ele foi, sempre pronto a defender o Espiritismo de ataques levianos, tão comuns até alguns anos atrás, torna-se necessário, para que melhor o compreendamos, anotar, embora de modo sucinto, algo de sua vida de homem público.
            Bacharelou-se em Direito em 1871, após cursar com brilhantismo a Faculdade de Direito de Recife, aluno assíduo, interessado em formar uma grande cultura jurídica. Advogou em sua terra natal, sem deixar de lado os estudos. A história, principalmente, o atraía. E tal era seu entusiasmo pela matéria, que percorreu, por mais de uma vez, o vale do rio são Francisco e outras regiões, para coligir apontamentos para seus estudos.
            Em 1878, bem moço ainda, foi eleito deputado provincial pela Bahia; de 1879 a 1880, Presidente da Província, hoje Estado, de Goiás, tendo sido elogiado pelo Imperador Pedro II, que exaltou os predicados morais e intelectuais de que já dera provas. Em 1881, na primeira eleição direta que houve, em nosso país, representou a Bahia na Assembléia Geral do Império. Conquistou, definitivamente, o eleitorado baiano. Reelegeu-se em 1885 e de 1886 a 1889. Sempre deputado geral. Não cabe narrar, nesta página, a atuação de Spínola na política brasileira, basta que se diga que tem seu nome registrado no Dicionário Bibliográfico Brasileiro, de Sacramento Blake, 1º Volume, onde é  repetida uma notícia biográfica do periódico “A Lei”: Um dia, lecionava Filosofia o sábio frei Antonio da Virgem Maria Itaparica e, num debate franco entre aluno e mestre, este, para assombro geral, convidou o moço a sentar-se na cátedra que ocupava e tomou lugar entre os discípulos, para ouvi-lo. Ao ser proclamada a República, exercia o cargo de 1º secretário da Câmara. Só em 1909 a 1911, voltou a eleger-se, afastando-se, então, definitivamente da política, para se dedicar à advocacia, ao estudo. Já era espírita. Adepto sincero e fervoroso da Doutrina Espírita. As palavras do seu biógrafo, insertas em “Reformador” e coligidas por Zêus Wantuil, sem indicação do autor, melhor do que podemos fazer, traça a figura do homem ilustre e bom: “-Dentro da política, do mesmo modo que fora dela, nunca deixou de ser impecável o seu proceder, o que, de par com a estima dos que a seu lado militavam no Parlamento, lhe assegurou a admiração e o respeito de quantos lhe apreciavam a ação parlamentar, invariavelmente visando a superior objetivo, assim como o saber e a moral postos ao serviço dessa ação. É indiscutível que, dispondo a seu talante de tantos fatores eficientes para a obra do engrandecimento humano, se em sua alma, ele encontrasse agasalho à ambição das glórias e grandezas mundanas, houvera sido um dos que os homens consideram grandes e houvera talvez vivido na opulência e nos gozos que a riqueza propicia. Tal, porém, não podia acontecer, pois seu espírito pairava acima das contingências humanas, em busca de objetivos mais altos, nobres e duradouros. Tão logo banhara a alma com as claridades do Espiritismo, pautou suas atitudes políticas pelos novos ensinos reveladores, até que, soada a hora, ele a tudo renunciou para se tornar, só e só, servo de Cristo e diligente obreiro do espiritismo.” “-Foi esse um passo difícil, - diz o “Reformador”, que exigiu de Aristides Spínola a virtude da humildade, renúncia que constituiu o ponto culminante da sua  trajetória terrestre, o grande exemplo, a lição magnífica que nos legou, lição e exemplo que fazem avultar imensamente aos nossos olhos a sua grandeza moral e no-lo mostram, soberbo e admirável, na sua verdadeira grandeza espiritual.” Ingressou, em 1905, na FEB, levado por Pedro Richard, e a ela se dedicou, de corpo e alma, durante 21 anos seguidos, até a sua desencarnação. E foi vice-presidente da Casa de Ismael, substituindo o  Dr. Geminiano Brazil, presidente em 1914, 1916 e 1917,1922 e 1924. Ao falecer, era, de novo, vice-presidente. Um abnegado. Não disputava cargos, mas encargos. Estava pronto a ser o porteiro da instituição, caso só ali pudesse ser útil.  Outra vez damos a palavra a seu biógrafo, talvez Guillon Ribeiro, talvez o próprio Richard, seu grande amigo. “-O que queria era trabalhar. E trabalhou sempre, e muito, e trabalhou bem.      Dentre os serviços prestados, merecem ser destacados os que ele teve ensejo de dispensar à FEB, como advogado, de todas as vezes que o espiritismo se viu alvejado pela ciência oficial, sob a forma de perseguições aos médiuns, por exercício ilegal da Medicina.
            O último caso dessa natureza verificou-se em 1923, com a vitória de Spínola na ação que intentaram contra a médium receitista e curador Inácio Bittencourt. Em todos esses episódios jurídicos, a quem o amor que consagrava à doutrina dos espíritos o levara a especializar-se inigualavelmente nesse gênero, encontrou oportunidade para produzir trabalhos que, tendo sempre conduzido ao triunfo as causas por ele pleiteadas, ficaram e permanecerão quais padrões indestrutíveis da sua vastíssima cultura jurídica e do profundo conhecimento que tinha, não somente do conjunto da Doutrina Espírita, mas também do espírito de cada um, dos princípios que a alicerçavam, do altíssimo objetivo da seus ensinos e da sua mais ampla finalidade. “Foi homem de Direito. Amante apaixonado da justiça. Defensor corajoso da mediunidade tão incompreendida e em nossa terra, perseguida. Com sereno entusiasmo se batia pela boa causa do espiritismo. E era jornalista de mérito, que colaborou nos grandes jornais do país.  Obras Publicadas: Além de trabalhos políticos e parlamentares, a tradução de ‘Ensaio de revista geral e da interpretação sintética do Espiritismo’, de E. Guel, e ‘Caridade Perseguida’, memorial de recurso criminal, ‘Estudos sobre os índios que habitam as margens do rio Araguaia (carajás).’

1ª Mensagem do Espírito de Bezerra de Menezes




Mensagem do Espírito de         Bezerra de Menezes



Fonte:  Editorial do  Reformador (FEB)  em 16.04.1926
           
            Foi aos 11.04.1900, há 26 anos, quase às 11:30 horas de outonal manhã, serena, suave, luminosamente rodeado da família que eram todos seus discípulos, deixava o alquebrado corpo material o espírita hoje considerado sem favor e com justiça - Missionário da Doutrina no Brasil.
            O seu trespasse, dizem os que a ele assistiram emocionados, revestiu-se das características dos que o vulgo define e simplifica nesta frase: “Morreu como um Justo!”... 
            ...Recordar-lhe o exemplo, evocar-lhe a memória em momento de acerbas lutas e lamentáveis desvios, qual o que vamos amargurando todos os que lhe tomamos o pesado legado, é dever tão grato como necessário.
            Presidente da Federação desde 1889  e a ela chamado justamente quando profundas divergências cendiam o rebanho espírita em torno de idéias personistas e secundárias, o ilustre mestre - que de fato o era - traçou logo o seu programa na orientação evangélica, que temos procurado manter dentro do lema: Deus, Cristo e Caridade.
            Dizer da projeção desse espírito de escol, desse servo de Jesus, na evolução da Doutrina em nosso país, fora tarefa superior às nossas forças, enquadrável aos demais nos moldes de um simples registro de noticiário e também inútil, porque a sua obra não foi esquecida e muito menos interrompida, mas aí está abrolhante de vida em cérebros e corações.
            Ela está no culto de respeitoso afeto que lhe tributam quantos o reconheceram pelo exemplo na vida de relação e quantos dele recebem o influxo do mundo espiritual, através de comunicados que são verdadeiras esmolas divinas, pela solidez da Fé e pelo espírito de Caridade - os traços inconfundíveis da sua personalidade humana.
            Médico ilustre, político prestigioso, ele que teve do mundo e no mundo todos os elementos de triunfo - talento, saber, fortuna, renome - tudo, tudo deu em nome d’Aquele que o chamava à colaboração do restabelecimento do seu reinado na Terra, realizando em toda a inteireza grandiosa o grandioso preceito: “Aquele que quiser seguir-me renuncie a si mesmo!”
            Era fatal, era lógico: o médico ilustre, o político eminente, o parlamentar brilhante, o diretor da Companhia S. Cristóvão, morreu pobre, paupérrimo...!
            Não teve necrológios brilhantes de colunas inteiras nas gazetas da época; não teve funerais pomposos com serpentinas de carruagens luxuosas; não teve exéquias realçadas com o registro de nomes feitos, mas teve um exército de pobres, de obscuras e humildes criaturas que ele amou e protegeu, serviu e consolou das quais muitas, ainda hoje entre nós, trocaram as lágrimas da saudade de então, pelos amavios de uma prece, nessa comunhão permanente que as tonaliza para lhe seguirem a esteira, apesar de todos os percalços e fraquezas.
            Para dar aos nossos caros irmãos e leitores uma idéia da lucidez com que desencarnou o prógono do Espiritismo Evangélico, que foi de todos nesta casa o mestre insubstituível, damos abaixo a comunicação dele recebida no Grupo Ismael, de que fora Diretor, no dia imediato ao do seu passamento quando esse Grupo, fiel ao seu programa, comemorava a ‘Ceia do Senhor’.

            “Paz. Quanta ventura gozas, Oh! minha alma! Quanto sonhei, alma pecadora, filho que eu era dos vícios e do crime, aqui vir em espírito, no dia em que os discípulos, comemorando as endoenças, lêem e gravam nas suas almas o testamento de Jesus, assistir a essa comemoração!
            Mãe Santíssima, puro abrigo de todos os infortúnios, manancial celeste que dessedenta todas as almas, foste tu de certo, celeste Esposa, quem, orando ao Senhor, dirigindo-lhe uma oração, qual só a Virgem Imaculada pode fazer, despiu a minha alma das fezes do mundo que acabo de deixar e me restituiu ao Teu amado Filho, como se eu houvera sido lá na Terra um verdadeiro discípulo Seu; como se tivesse direito de sentar-me à mesa do banquete divino, de comer o sagrado pão e de beber o generoso vinho!
            Mãe Santíssima! Abrigaste-me no teu mundo celestial, aqueceste meu Espírito no teu puríssimo e santo seio. Sê bendita, Senhora sempre boa. Baixa os teus olhos sobre os meus amigos, oh! Virgem Gloriosa!
            São também teus filhinhos, como eu, que aflito, gemi e padeci na Terra, sempre de olhos cravados em Ti. Dá que eles possam compreender, oh! Virgem Imaculada, esse ensinamento que nos mostra o teu amado Filho, rei absoluto deste planeta, curvado como humilde servo, diante dos humildes pecadores, a lhes limpar os pés do pó da estrada que, peregrinos, trilhavam! Que eles possam compreender esse - AMAI-VOS UNS AOS OUTROS - certos, convencidos de que o amor que irradiarem de suas almas pelos seus irmãos evola-se, livra-se aos páramos, donde reina sobre a terra o teu bendito Filho, porque é  amor elevadíssimo que de Jesus lhes vem.
            Meus companheiros, meus amigos, é demais a recompensa!
            Saudades! Ouvi de mais de um essa palavra. Mas saudades, por que?
            Vê tu, meu velho amigo (dirige-se a Sayão), vejam todos vocês, como é fraco o Espírito do homem.
            Vocês, espíritas, meus companheiros, que falam a todo momento comigo, têm saudades e choram! Eu também choro a minha fraqueza.
            Oh! Deus! Oh! Jesus Cristo! Quando, pelos verdadeiros elos da amizade, pela verdadeira compreensão de teus ensinos, se estancarão as nossas lágrimas e essa palavra deixará de ter sentido na linguagem das criaturas, vivendo todos sempre unidos e ligados pelo coração?
            Estou junto de vocês, meus caros companheiros. Peço-lhes que não quebrem nunca essa cadeia sagrada.
            Como isto é belo, como isto nos eleva as almas!
            Obrigado a todos vocês, a todos vocês, obrigado. O Bezerra estará sempre unido aos vossos corações. O Bezerra pede a Deus e Deus há de permitir que ele continue a trabalhar e a produzir na seara bendita.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A 'Mediunidade'



A  Mediunidade


Editorial da Edição de 15.12.1895 de Reformador (FEB)
(reeditado à pág. 27 no ano de 1917)
Escreveu o Dr. Bezerra de Menezes

            Quem empreende um trabalho delicado premune-se dos necessários instrumentos e se, posto em obra, reconhece que um mais daqueles instrumentos tem falhas, que os tornam inaptos para o desejado fim, despreza-os e procura outros.
            A mediunidade é instrumento valiosíssimo para a propagação da nova revelação comunicada à terra pelos espíritos do Senhor.
            A mediunidade foi para tal fim dada aos homens, que assumem por isso a responsabilidade de instrumentos vivos da vontade onipotente.
            O médium, que desempenha consciosamente e de boa vontade a alta missão que lhe foi dada, prestando seu aparelho tanto lhe permitirem suas condições psíquicas e as da vida de relação, receberá do juiz supremo de nossas ações o prêmio prometido aos trabalhadores da seara de Jesus.
            Aquele, porém, que fizer do divino dom meio de especulação, ou empregá-lo em crises fúteis e sem proveito para a humanidade, ou furtar-se ao serviço de sua missão
por preguiça ou qualquer outro motivo inconfessável, esse será repelido como instrumento imprestável.
            O que pode haver mais glorioso do que receber de Deus a faculdade de ser instrumento de seu Santíssimo filho, cooperando com Ele na obra de regeneração da humanidade terrestre?
            Quem, pois, será tão inimigo de si próprio que, em vez de empenhar-se por corresponder a tão alta confiança, cultivando aquela faculdade e pondo-a de boa vontade ao serviço a que foi destinado, se esquive à alta função, ou a empregue mal e de modo condenável?
            A mediunidade é uma graça, que faz o homem sócio de Jesus na propagação das verdades eternas; e, pois, é coisa de ser ambicionada com veemência, nunca, porém, desprezada ou desconsiderada.
            Quem a possui deve dar graças a Deus, e fazer o que estiver em suas forças por bem desempenhá-la.
            Como em tudo, o homem dotado da mediunidade é livre em aceitar ou recusar a graça, e em corresponder-lhe tíbia ou vivamente; mas, como em tudo, o homem dotado de mediunidade é responsável pelo modo como usar de sua liberdade com relação a esta missão que lhe foi dada.
            E muito maior será sua responsabilidade se for espírita, porque tem a compreensão de verdades que outros ignoram; e mais se pedirá a quem mais se tiver dado.
            Delicadíssima é a posição do médium, eleito do Senhor para instrumento do ensino de Jesus. Não é um simples propagandista, é uma máquina de propaganda.
            O médium, pois, deve ser cauto, mais do que qualquer outro, na satisfação das necessidades materiais; deve ser dedicado ao trabalho da vinha santa, deve incessantemente cultivar sua inteligência nos ensinos da doutrina, especialmente na parte que se refere à sua especialidade.
            O médium pode ser equiparado ao sacerdote, a quem não é lícito considerar levianamente as coisas do seu ministério.
            Também por isso o bom ou mal êxito dos trabalhos espíritas dependem mais das condições do médium do que da soma das condições de todos os outros circunstantes.
            Uma sessão, em que o diretor dos trabalhos e o médium forem crentes bem de alma, forem bem conhecedores da doutrina, forem trabalhadores de boa vontade e guardarem o respeito devido às coisas sagradas, dará sempre frutos preciosos, embora nem todos os circunstantes estejam compenetrados de seus deveres.
            O diretor dos trabalhos e o médium forem quem  eles se fazem, são as colunas principais do edifício, que será um monumento se os demais membros que constituem o Centro corresponderem de boa vontade para que haja uma concentração e unidade de pensamento para o bem, meios infalíveis de serem atraídos os bons e afastados os maus espíritos.
            Um trabalho feito nestas condições jamais será perturbado pelos enganosos, salvo se, para lição, lhes é permitido entrarem, caso em que sua atenção nunca poderá ficar oculta.
            Imagine-se, depois disso, o que será um trabalho feito em condições opostas: um diretor incompetente, um médium sem a consciência de seu dever e circunstantes mais dominados de curiosidade do que do desejo do bem.
            Não será uma calamidade, porque a misericórdia de Deus não o permite; mas será uma verdadeira bacanal, em que representarão os papéis que bem lhe parecerem os espíritos enganadores, sempre em tais casos tomados a sério, com prejuízo gravíssimo para a verdade e para o bem, porque a multidão de invisíveis que assistirem ao espetáculo sairão dele, em vez de edificados, mais incrédulos do que vieram.
            E a responsabilidade de tão lamentável desastre?
            Entre os dois extremos aqui figurados, é de simples extensão que existe uma longa escala, em cada um de cujos degraus diminuem as condições do trabalho em regra, e aumentam proporcionalmente os do trabalho contra a regra.
            Melhor fora que os autores deste último se abstivessem dele; porque isto menos lhes pesaria; melhor fora que o diretor incompetente; se não quisesse preparar-se, fosse assistir aos trabalhos de outros grupos, e que os indivíduos, em consciência não preparados, se deixassem  ficar em cada.
            Pelo menos assim, se não evitarem a responsabilidade de não se utilizarem do bem que lhes foi dado, evitarão a do escândalo que vão dar, trabalhando sem se terem convenientemente preparado.
            Nada disso se entende com o médium ainda não desenvolvido e que trabalhe para se desenvolver; mas este deve escolher onde praticar. 

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Aron, um espírita


Aron é o que anuncia no blog: um espírita. Apenas isso. Suas origens mesclam o Judaísmo, o Catolicismo, a corrente Batista do movimento evangélico sem nunca ter tido outro entendimento sobre religião que não o do Espiritismo. Colecionou material de rara divulgação. Entende que é hora de sua veiculação.