Pesquisar este blog

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Renovação Permanente do Espiritismo

         O interesse crescente da juventude pelos problemas da vida tem proporcionado  considerável desenvolvimento aos grupos denominados “mocidades espíritas”, comprovando, assim, o incessante progresso do Espiritismo Cristão em todo o território
brasileiro. Ê claro que tal acontece em meio a dificuldades que vão sendo superadas,
quer da parte das “religiões tradicionais”, quer de certas ideologias negativas e perturbadoras, que procuram insinuar-se, adotando comportamento mimético e poluidor.

            Semelhante avanço no setor dos jovens é extremamente auspicioso, porque deixa evidente que a enorme maioria está seriamente empenhada em estudar e ampliar seus conhecimentos também no Espiritismo Cristão, já convencida de que a vida terrena se acha indissoluvelmente ligada à vida extraterrena, que o mundo físico tem permanente contato com o mundo espiritual. Aprende a juventude esclarecida pela Doutrina Espírita e o Evangelho, em espírito e verdade, que nenhum problema humano pode ser definitivamente solucionado pela violência, pela divisão dos homens, pela segregação e pela anacrônica “luta de classes”. Isso foi o que deixou Jesus em seu Evangelho de trabalho, paz e amor, amplamente demonstrado através dos séculos e, não faz muito tempo, pelo Mahatma Ghandi, que não sendo cristão por profissão de fé o foi muito mais pelo exemplo, vencendo governos poderosos e bem armados sem usar outra arma senão a palavra mansa e objetiva, clara e lógica, profunda e incontestável, da não-violência.

            Os centros espíritas, as casas espíritas, enfim, o ambiente do Espiritismo Cristão é feito de amor e paz, de solidariedade no bem e de coragem e espírito de renúncia para vencer o mal. Dessa maneira, os jovens vão adquirindo, a pouco e pouco, a orientação de que necessitam para se transformarem em homens e mulheres que, em futuro não distante, tomarão com segurança o destino que mais convém ao progresso do Brasil e da humanidade. País predestinado a ser, como disse Humberto de Campos, “o coração do mundo e a pátria do Evangelho”, o Brasil está realmente cumprindo a sua destinação. É, hoje, o maior país espírita-cristão do mundo, com uma juventude interessada em construir e nunca em destruir; em fortalecer a família e a sociedade a que pertence, jamais em dessorar as energias indispensáveis ao trabalho útil, em desviar sua atenção do caminho que lhe assegurará a felicidade a que todos temos direito, porque ninguém alcançará pela violência contra seus irmãos em Deus o bem que deseja para si, para a família e para a terra em que nasceu. Eis por que o Evangelho em espírito e verdade é a luz que ilumina a estrada da Doutrina Espírita, rumo a Jesus, que é Verdade, Caminho e Vida.

   Segundo a palavra autorizada de Léon Denis, o Espiritismo é lei fundamental da Natureza. E acrescenta o grande escritor francês: “Sempre existiram relações entre homens e Espíritos, com maior ou menor intensidade. Por esse meio, contínua revelação se propagou no mundo. Flui, através dos tempos, uma grande corrente de energia espiritual, cuja fonte é o mundo invisível. Por vezes, essa corrente se oculta na penumbra; vai-se encontrar dissimulada sob a abóbada dos tempos da Índia e do Egito, nos misteriosos santuários da Gália e da Grécia; só dos iniciados e dos sábios é conhecida. Mas, também, às vezes, em épocas determinadas pela vontade de Deus, surge dos lugares ocultos, reaparece em pleno dia, à vista de todos; vem oferecer à humanidade esses tesouros, essas magnificências esquecidas, que a vêm embelezar, enriquecer, regenerar. É assim que as verdades superiores se revelam através dos séculos, para facilitar, estimular a evolução dos seres. Com o concurso de poderosos médiuns se patenteiam entre nós, pela intervenção dos Espíritos geniais, que viveram na Terra e que nela sofreram pela Justiça e pelo Bem. Esses Espíritos de escol foram restituídos à vida do Espaço, mas não cessaram de velar pela humanidade e com ela corresponder-se. Em certos momentos da História, um sopro do alto perpassa pelo mundo; as brumas que envolviam o pensamento humano se dissipam; as superstições, as dúvidas, as quimeras se desvanecem; as grandes leis do destino se revelam e a verdade reaparece. Felizes, então, os que a sabem reconhecer e agasalhar!”

        
    Essas magníficas palavras de Léon Denis, escritas quase que no alvorecer do Espiritismo Cristão, são joias de legítimo valor, que se comprovam dia a dia, no campo doutrinário e no campo experimental. Torna-se imperioso, pois, encaminhar
os jovens para a leitura das obras clássicas do Espiritismo, para que melhor compreendam o gigantesco esforço que, desde o seu aparecimento, vem sendo despendido; para que reforcem seus conhecimentos evangélicos e científicos, nos livros espíritas, a fim de que possam melhor avaliar da grandeza da Terceira Revelação, como Religião, Ciência e Filosofia.

            Estudar, estudar, estudar. Mas estudar mesmo, buscando compreender e interrogando os mais experientes, quando encontrarem dúvidas que lhes pareçam
irremovíveis. Nada há de oculto no Espiritismo, porque, seguindo o preceito evangélico, seguimos o caminho livre da verdade. Não nos refugiamos em dogmas ininteligíveis ou herméticos. Não há o chamado “ocultismo” no Espiritismo. Não temos mistérios nem produzimos milagres. Tudo é simples, tudo é claro, tudo é compreensível. O cientificismo tem tentado, infrutiferamente, interromper a trajetória da Terceira Revelação, criando princípios abstratos, mas com o engodo de um fraseado ou uma terminologia nefelibata ( que busca se esquivar da realidade), ambígua, complexa e fechada àqueles que estão do lado de fora de seus gabinetes. O Espiritismo Cristão é de Deus, não pode ser sequer abalado. Um dia, se sobreporá a toda  a humanidade, porque as dúvidas, os preconceitos, os tabus desaparecerão, como desapareceram outros, com a evolução dos conhecimentos humanos, com o progresso da verdadeira ciência, da Ciência que não teme confessar a Verdade que contraria postulados até considerados infalíveis, pois nada é absoluto na vida humana, a não ser Deus.

Renovação Permanente do Espiritismo
Tasso Porciúncula / Indalício Mendes
 Brasil Espírita Maio 1972 /

Reformador (FEB) Maio 1972

Personalismo e Espiritismo


            Expandindo-se, popularizando-se, passando a merecer as atenções de todas as classes que constituem a sociedade humana, o Espiritismo teria de sofrer também, como está sofrendo, a invasão de indivíduos que a ele foram atraídos mais por ambições personalistas do que, verdadeiramente, por sentirem necessidade de seguir diretrizes novas, capazes de os levar à desejada renovação interior. Todavia, o Espiritismo não os repele, não os condena, mas tem a preocupação de os esclarecer, desejando que se esforcem para combater o egotismo, banhando o espírito nas luzes da Doutrina e do Evangelho. Há, todavia, pessoas que se deslumbram com os ouropéis da própria inteligência e não admitem se lhes tente restringir os voos da ambição exibicionista. Como Narciso, enamoram-se de si mesmos e se perdem, afinal.

            Não pode o Espiritismo conservar-se passivo, por mal compreendida tolerância, ante as consequências realmente danosas do personalismo. Cabe-lhe o direito de defender-se, porque sua Doutrina não aceita essa expressão insofismável de egoísmo, tanto assim que, em “O Livro dos Espíritos”, onde se trata da “Perfeição moral”, há a seguinte resposta à pergunta nº 893, sobre “Qual a mais meritória de todas as Virtudes?": "Toda virtude tem seu mérito próprio, porque todas indicam progresso na senda do bem. Há virtude sempre que há resistência voluntária ao arrastamento dos maus pendores. PORÉM, A SUBLIMIDADE DA VIRTUDE ESTA NO SACRIFÍCIO DO INTERESSE PESSOAL PELO BEM DO PRÓXIMO, sem pensamento oculto . A mais meritória é a que assenta na mais desinteressada caridade." Diante disto, recusando o personalismo, a Doutrina se firma num princípio evangélico. Em outra trecho esclarecem os Espíritos, na mesma obra, que o sinal mais característico da imperfeição é o interesse pessoal.

            O Espiritismo, contudo, não expulsa de seu seio os personalistas, como não rejeita ninguém. Acolhe-os, porque sua missão é melhorar o homem, promover sua reforma íntima, para que, um dia ele seja realmente espírita, isto é, um homem perfeitamente integrado na Doutrina e, por isto mesmo, útil à sociedade, aos seus semelhantes, por sua valorização moral, por seus sentimentos apurados, por sua inteligência cultivada no altruísmo. Ensina Allan Kardec, em "Obras Póstumas", que "a inteligência nem sempre constitui penhor de moralidade e o homem mais inteligente pode fazer péssimo uso de suas faculdades. Doutro lado, a moralidade, isolada, pode, muita vez, ser incapaz. A reunião dessas duas faculdades, INTELIGÊNClA e MORALIDADE, é, pois, necessária a criar uma preponderância legítima"...

            A maneira mais positiva de se combater o personalismo, que medra em certos setores espíritas, será a difusão cada vez maior da Doutrina, sua explanação clara, a interpretação cuidadosa e repetida de seus diferentes pontos. Pela compreensão progressiva dos deveres doutrinários, a criatura humana irá aprendendo a modificar-se, realizando tentativas sobre tentativas para usufruir os benefícios resultantes da condição de espírita consciente de suas responsabilidades no Espiritismo e, concomitantemente, na vida de relação. Demonstrar os erros e excessos do personalismo é tarefa benfazeja, porque a ação dele é corrosiva. Pode esconder-se na simulação, tornando-se, aí, ainda mais perigoso, por induzir os menos atentos a solidariedades negativas, embora com a aparência de incontestável apoio na verdade. É fácil distinguir o espírita verdadeiro do falso espírita. Quem demonstra por atos e palavras estar fiel à Doutrina e ao Evangelho, e nada faz que desminta essa fidelidade, é espírita; quem apenas fala, mas não consolida suas palavras com a exemplificação inequívoca, não é espírita. Não nos esqueçamos de que “a árvore que produz maus frutos não é boa e a árvore que produz bons frutos não é má; portanto, cada árvore se conhece pelo seu próprio fruto” - diz o Evangelho. “Guardai-vos dos falsos profetas que vêm ter convosco cobertos de peles de ovelha e que por dentro são lobos rapaces” - adverte ainda a lição evangélica. “Levantar-se-ão muitos falsos profetas que seduzirão a muitas pessoas; e, porque abundará a iniquidade, a caridade de muitos esfriará. Mas, aquele que perseverar até ao fim se salvará” - disse o Cristo.

            Só podem iludir-se, portanto, os que não estão em dia com os postulados doutrinários e os ensinamentos evangélicos. Para muita gente, o essencial, nos atribulados dias de hoje, é cultivar a aparência, para melhor iludir. Ser espírita é uma coisa, parecer que o é, outra bem diversa. Os espíritas compenetrados de seus deveres em face da Doutrina nada aceitam sem exame, sem passar cada ideia, cada opinião, cada atitude pelo crivo doutrinário, à luz do Evangelho. Às vezes uma ideia parece muito boa, quando defendida por indivíduos sagazes e de fácil expressão. Analisada com serenidade, pode revelar, por trás do brilho enganador, propósitos incompatíveis com a realidade espírita. Eis por que o Espiritismo tem de permanecer alerta, para que os espíritas que confiam na Doutrina codificada por Allan Kardec não sejam vítimas de simuladores, cujas ideias são para a nossa religião o que foi para os troianos o “cavalo de Tróia”.

Personalismo
e Espiritismo

Túlio Tupinambá / (Indalício Mendes)

Reformador (FEB) Julho 1958

Instrução e Educação


            É preciso não confundir instrução com educação. A educação abrange a instrução,
mas pode haver instrução desacompanhada de educação.

            A instrução relaciona-se com o intelecto; a educação com o caráter. Instruir é ilustrar a mente com certa soma de conhecimentos sobre um ou vários ramos científicos. Educar é desenvolver os poderes do espírito, não só na aquisição do saber, porém especialmente na formação e consolidação do caráter.

            O intelectualismo não supre o cultivo dos sentimentos. “Não basta ter coração, é preciso ter bom coração", disse Hilário Ribeiro, o educador emérito cuja extraordinária competência pedagógica estava na altura da modéstia e da simplicidade que exornavam seu formoso espírito.

            Razão e coração devem marchar unidos na obra do aperfeiçoamento do espírito, pois em tal importa o senso da vida. Descurar a aprendizagem da virtude deixando-se levar pelos deslumbramentos da inteligência é erro de funestas consequências.

           
Sobre este assunto, não há muito, o presidente dos Estados Unidos da América do Norte citou ,um julgado da Suprema Corte de Justiça de Massassuchets, no qual, entre outros princípios de grande importância, se enunciou o de que “o poder intelectual só e a formação científica sem integridade de caráter podem ser mais prejudiciais que a ignorância. A inteligência, superiormente instruída, aliada ao desprezo das virtudes fundamentais constitui uma ameaça".

            Convém acentuar aqui que a consciência religiosa corresponde, neste particular, ao fator principal na formação dos caracteres. Já de propósito usamos a expressão - consciência religiosa - ao invés de religião para que se não confundam ideias distintas entre si. Religiões há muitas mas a consciência religiosa é uma só. Por tal designação entendemos o império interior da moral pura, universal e imutável conforme foi ensinada e exemplificada por Jesus Cristo. A consciência religiosa importa em um modo de ser, e não em um modo de crer.

            É possível que nos objetem: mas, a moral cristã é tão velha, e nada tem produzido de eficiente na reforma dos costumes. Retrucaremos: não pode ser velho aquilo que não foi usado. A moral cristã é em sua pureza e em sua essência, desconhecida da humanidade. Sua atuação ainda não se fez sentir ostensivamente. O que as religiões tem espalhado como sendo o Cristianismo é a sua contrafação. Da sanção dessa moral é que está dependendo a felicidade humana sob todos os aspectos.

            O intelectualismo, repetimos, não resolve os grandes problemas sociais que estão convulsionando o mundo. O fracasso da Liga das Nações é um exemplo frisante; e, como esse, muitos outros estão patentes para os que tem olhos de ver.

            O que veio fazer no mundo a Sabedoria divina encarnada em Jesus-Cristo? pergunta o grande Vieira. Em seguida responde magistralmente: “A Sabedoria divina, descendo do céu à Terra a ser Mestre dos homens, a nova cadeira que instituiu nesta grande universidade do mundo e a ciência que professou foi só ensinar a ser bom e nenhuma outra. A retórica deixou-a aos Túlios e aos Demóstenes; a filosofia aos Platões e aos Aristóteles; as matemáticas aos Ptolomeus e aos Euclides; a medicina, aos Apolos e aos Esculápios; a jurisprudência, aos Solões e aos Licurgos; e para si tomou só a ciência de formar caracteres impolutos e corações amoráveis.


            "Em todas as ciências é certo que há muitos erros dos quais nasce a diferença de opiniões; em todas as ciências há muitas ignorâncias, as quais confessam todos os maiores letrados que não compreendem nem alcançam. Pois se veio a Sabedoria divina ao mundo, por que não alumiou estes erros, por que não tirou estas ignorâncias? Porque errar ou acertar em todas as matérias, sabê-las ou não as saber, pouca coisa importa; o que só importa é saber salvar, o que só importa é acertar a ser bom: e isto é o que nos veio ensinar o Filho de Deus. Nem ensinou aos filósofos a composição dos contínuos nem aos geômetras a quadratura do círculo, nem aos mareantes a altura de leste a oeste, nem aos químicos o descobrimento da pedra filosofal, nem aos médicos as virtudes das ervas, das plantas e dos mesmos elementos; nem aos astrólogos e astrônomos o curso, a grandeza,  o número e as influências dos astros: só nos ensinou a ser humildes, só nos ensinou a ser castos, só nos ensinou a fugir da avareza, só nos ensinou a perdoar as injúrias, só nos ensinou a sofrer perseguições pela causa da justiça, só nos ensinou a chorar e aborrecer o pecado e armar e exercitar a virtude; porque estas são as regras e as conclusões, estes os preceitos e os teoremas por onde se aprende a ser bom, a ser justo, que é a ciência que professou e veio ensinar o Filho de Deus."

            É de semelhante espécie de ensino que precisam os homens de nossos dias. Todos os problemas do momento atual resumem-se em uma questão de caráter: só pela educação podem ser solucionados.

            Demasiada importância se liga às várias modalidades do saber, descurando-se o principal, que é a ciência do bem.

            Os pais geralmente preocupam-se com a carreira que os filhos deverão seguir,
deixando-se impressionar pelo brilho e pelo resultado utilitário que de tais carreiras possam advir. No entanto, deixam de atentar para a questão fundamental da vida que se resolve em criar e consolidar o caráter. Antes de tudo, e acima de tudo os pais devem curar da educação moral dos filhos, relegando às inclinações e vocações de cada um a escolha da profissão, como acessório.

            É oportuno fechar estes comentos recordando as sábias palavras que Jesus dirigiu à Marta: “Marta, Marta, estás muito ansiosa e te preocupas com muitas coisas; entretanto poucas são necessárias, ou antes uma só; pois Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada."

(Ext. do "Reformador" de 10-12-1927, páginas 227-228-229.)


Instrução e Educação
Vinicius

Reformador (FEB) Setembro 1972

Centenário de nascimento de Leopoldo Cirne


            Quem, na Terra, acende a lâmpada do amor e da verdade, alimentada com o azeite da fé e da humildade, e a coloca bem alto, jamais será esquecido por seus pósteros, porque os luminosos lampejos dessa lâmpada o farão sempre lembrado a todos os instantes, lampejos que cantam suavemente no íntimo de nossas almas, concitando-as a sentirem Deus e a meditarem sobre os esplendorosos ensinamentos do Cristo à luz da Terceira Revelação.

            Em sua romagem terrena, esta figura verdadeiramente angelical, que se chamou Leopoldo Cirne, e cujo primeiro centenário de nascimento ocorreu a 13 de Abril último, assim procedeu em sua vida.

            A ele coube a responsabilidade, não pequena, de ser o sucessor, na presidência da Casa de Ismael, do querido e inesquecível apóstolo do Espiritismo: - Dr. Adolfo Bezerra de Menezes, quando da sua desencarnação, nesta cidade, a 11 de Abril de 1900.

            A Federação Espírita Brasileira não sofreu qualquer solução de continuidade no seu trabalho, com a atuação de seu novo presidente, porque Leopoldo Cirne outra coisa não fez que seguir as pegadas de seu ilustre antecessor, que não admitia a Doutrina Espírita sem o vínculo religioso, isto é, sem o entrelaçamento dos princípios normativos do Evangelho.

            Leopoldo Cirne nasceu na Paraíba do Norte a 13 de Abril de 1870, e por dificuldades financeiras não pode concluir o estudo de Humanidades.

            O Dr. Leoni Kaseff, que teve o privilégio de, por alguns anos, privar da intimidade de Leopoldo Cirne, ao prefaciar o último livro desse seu amigo - O HOMEM COLABORADOR DE DEUS, obra que só em 1949, portanto, oito anos após a sua desencarnação, foi dada à publicidade, informa-nos que “Cirne lia muitíssimo e anotava, com sobriedade, suas impressões; que as melhores obras de religião, filosofia, ciência, arte e literatura eram-lhe familiares; que conhecia profundamente a Bíblia e a Imitação de Cristo, e que poucos terão estudado, como ele, esse “quinto Evangelho”; e mais ainda, que depois dos Evangelhos propriamente ditos, era, talvez, o livro que mais o atraía. Guardava-lhe capítulos inteiros e aplicava-lhe as máximas, até em situações imprevistas, com a segurança com que recorria às citações do Velho e do Novo Testamento.”

            Leopoldo Cirne veio para o Rio de Janeiro lá pelo ano de 1891, quando, portanto, contava mais ou menos 21 anos de idade, incorporando-se logo ao lado de Bezerra de Menezes, com ele trabalhando ardorosamente no aprendizado e difusão do Espiritismo, e por isso granjeou imediatamente a simpatia e a estima de seus companheiros de ideal. A Federação Espírita Brasileira a ele é devedora por inúmeros serviços prestados, não só como eficiente administrador, senão também como magistral condutor dos trabalhos evangélicos e doutrinários.

            A sua sede na Avenida Passos foi, por assim dizer, obra sua, a qual lhe exigiu esforços sem conto, no propósito de sua conclusão ser prontamente atingida, sem jamais dar mostras de desânimo na concretização desse seu acalentado ideal, qual o de ver a instituição, a que presidia, instalada num prédio próprio e condizente com a magnitude da obra espiritista em terras guanabarinas. E no prazo de dezessete meses, isto é, a 10 de Dezembro de 1911, esse prédio era inaugurado, de cujo acontecimento, aliás, todos os periódicos desta Capital, sincera e espontaneamente, deram extraordinária cobertura. Pela manhã desse dia, o jornal  O P AIZ, em longo artigo, fazia, entre outras considerações, a de que “a nova sede da Federação Espírita Brasileira tinha, considerada no seu ponto de vista particular, o valor, já hoje raro, de exprimir uma dedicação extraordinária dos homens agremiados naquele centro de atividades, dedicação praticada em uma quase penumbra, sem alarde, sem benemerências conclamadas, sem nomes postos em foco, com a modéstia efetiva dos crentes sinceros e dos generosos por dever; que em cada pedra, em cada bocado de argamassa da sua construção, havia um pouco de coração e de consciência, dominados por um alto sentimento e um sugestivo dever”.

            E Leopoldo Cirne, no ato solene da inauguração, profundamente emocionado, sem, todavia, se afastar daquela simplicidade que lhe era peculiar, a ela presidiu, no vasto salão de conferências, que estava superlotado . De sua oratória, destacamos este trecho: “Era tempo de que o Espiritismo tão malsinado, tão pouco compreendido por uns e tão mal julgado por outros, oferecesse este testemunho da sua força e capacidade organizadora. Era tempo de que esta obra, que avulta pela sua significação moral para a propaganda da verdade espírita, viesse dar lugar à aproximação, cada vez mais ampla, entre os que a ignoram e os que já desfrutam os seus salutares benefícios.”

            Leopoldo Cirne, através de sua já citada obra -- O HOMEM COLABORADOR DE DEUS, deixou bem positivado seus nobres e alcandorados sentimentos cristãos, e sua inabalável fé e confiança na bondade e justiça infinita de nosso Pai Celestial, tanto que inicia o seu primeiro capítulo, dizendo: “Erguei o coração para o Alto e tende confiança no futuro que vem próximo. 

            “Porque eu vos anuncio a nova aurora de que são precursoras as sombras que de todos os lados nos envolvem neste angustioso crepúsculo da história e da existência humanas.”

            Sua arraigada convicção de que a finalidade precípua da Doutrina Kardequiana, através de suas teses de alta filosofia transcendental, era justamente a de recristianizar as criaturas, disse, ao iniciar a obra que ele intitulou ANTICRISTO -- SENHOR DO MUNDO: “Só o amor pode salvar o mundo, que se perde. O amor e a humildade. Porque o mundo evidentemente se perde, no sentido espiritual, transcendente, portanto, do vocábulo, por excesso de indiferença e de orgulho.”

            E ele foi o exemplo vivo, constante, da humildade, e esta humildade constituía a sua maneira de ser, era espontânea, natural, sem afetação, e por isso deixou consignado, em seu citado livro ANTICRISTO - SENHOR DO MUNDO (1) , que “O Espiritismo, convencendo o homem da sua contingente pobreza espiritual e adotando a doutrina tão animadora, do Anjo da Guarda, ou Espírito protetor, a toda a criatura proposto neste mundo, faz da humildade, que é o broquel por excelência contra as funestas sugestões do Espírito maligno, a pedra angular do seu aperfeiçoamento, humildade que foi a primeira lição dada por Jesus, no presépio de Belém, aos orgulhosos filhos deste mundo. Humildade, finalmente, sem a qual não pode haver no homem nenhuma outra virtude, nem fé, nem paciência, nem caridade, nem mesmo sapiência”.

                (1) Do Blog: Temos este livro parcialmente postado aqui.

            Leopoldo Cirne jamais ocupou a tribuna da Casa de Ismael sem que, durante cerca de uma hora antes de iniciar a sessão a que então presidia, permanecesse isolado de todos, em profunda meditação. E a sua oratória era um cascatear verdadeiramente admirável, cheio de belas imagens que tocavam fundo o coração de todos os assistentes. É que suas palavras tinham vida, respondiam às mais diversas e íntimas indagações que, em pensamento, eram feitas pelos assistentes. E quantas lágrimas rolavam dos olhos dessas criaturas!

            Conforme consta do substancioso livro organizado por Zêus Wantuil e intitulado GRANDES ESPÍRITAS DO BRASIL, “Cirne possuía o dom precioso de expositor da Doutrina Espírita, e ele mais se afirmou, presidindo a Federação Espírita Brasileira, exímio pregador e instrutor notável, a cuja penetração mental nenhum embaraço insuperável oferecia qualquer ponto da matéria que versava, por mais obscuro que fosse”.

            Durante toda a sua vida, foi um constante estudioso de tudo que lhe pudesse iluminar o espírito, que melhor lhe alegrasse o coração e lhe transmitisse forças para continuar a trabalhar com entusiasmo até os derradeiros instantes da permanência de seu espírito em corpo somático, tal como aconteceu a seu idolatrado mestre Allan Kardec, porque a vida na Terra nos foi concedida não para ficarmos indolentes, mas, sim, para, com nosso trabalho honesto, sermos úteis à coletividade.

            E seu fulgurante Espírito, há alguns anos, lá das etéreas paragens, disse-nos, através de uma mensagem medianímica: -- “Estudemos e trabalhemos, amemo-nos e instruamo-nos, para melhorar a nós mesmos e para soerguer a vida que estua, soberana, junto de nós. A obra gloriosa do Codificador trouxe, como sagrado objetivo, a recuperação do amor e da sabedoria, da fraternidade e da justiça, da ordem e do trabalho, entre os homens, para a redenção do mundo.” (*)

            Leopoldo Cirne foi um marido exemplar, de extremo carinho para com a sua companheira e esposa muito querida.

            E foi com os olhos postos nessa companheira que tão bem soube compreendê-lo, amá-lo e encorajá-lo na sua laboriosa vida farta de espinhos, e balbuciando uma doce e compassiva prece, que o Espírito de Leopoldo Cirne abruptamente partiu, em 31 de Julho de 1941, para essa pátria que ele tanto amou!

                (*) Instruções Psicofônicas, pág. 207. Edição da FEB, 1956.

Centenário de nascimento de
Leopoldo Cirne
Sylvio Brito Soares

Reformador (FEB) Junho 1970

Elementos de Filosofia Espírita


            A poucos passos da serenidade que nos proporciona a Doutrina Espírita, encontramo-
-nos com um mundo perplexo e atormentado pelas suas próprias criações transitórias, à semelhança de um grande barco agitado pelas vagas ameaçadoras de um mar revolto, com seus representantes anotando dolorosamente:

            Nossa cultura é muito superficial hoje, e nossos conhecimentos são muito perigosos, já que a nossa riqueza em mecânica se contrasta com a nossa pobreza de propósitos. O equilíbrio de espírito que haurimos outrora na fé ardente, já lá se foi; depois que a ciência destruiu as bases sobrenaturais da moralidade, o mundo inteiro parece consumir-se num desordenado individualismo, refletor da caótica fragmentação de nosso caráter.
           
            Novamente somos defrontados pelo problema atormentador de Sócrates: como encontrar uma ética natural que substitua as sanções sobrenaturais já sem influência sobre a conduta do homem? Sem filosofia, sem esta visão de conjunto que unifica os propósitos e estabelece a hierarquia dos desejos, nós malbaratamos nossa herança social em corrupção cínica de um lado e em loucuras revolucionárias de outro; abandonamos num momento nosso idealismo pacífico para nos mergulhar nos suicídios em massa da guerra; vemos surgir cem mil políticos e nem um só estadista; movemo-nos sobre a Terra com velocidades nunca antes alcançadas, mas não sabemos para onde vamos, nem se no fim da viagem alcançaremos qualquer espécie de felicidade. (1)

                (1) Will Durant, Filosofia da Vida, tradução de Monteiro Lobato, 7ª edição, Cia. Editora Nacional, páginas VIII e IX de "Convite".

            O grito de perplexidade, diante dos quadros humanos de nosso mundo, não é articulado por quem ignore as luzes do Cristianismo. O seu Autor, num subjetivo respeito, anota no subtítulo de seu trabalho: “In my Father's house are many mansions(2), consagrando, na dinâmica do Cristianismo, a filosofia por plano do Universo, onde o homem se encontra com a Vida, buscando compreendê-la em sua unidade, origem e fins. Porém, embora essa sua sutil raiz cristã, não alcança equacionar o existencial pelo gênio da doutrina de Jesus e se mantém sem rumo definido.

            (2) "Na casa de meu Pai há muitas moradas" - Jesus.

            É o gemido profundo e sincero daqueles que se renderam, aturdidos, sob o peso de suas próprias obras e agora se indagam, por entre as brumas do panorama humano conturbado: o que fazer e como fazer para encontrar um roteiro seguro.

            Mas, o que para o filósofo é o horizonte da angústia, a incógnita que completou o  vórtice reencenando, na ribalta da existência, a problemática da era socrática: a busca de uma ética que substitua as sanções sobrenaturais - no Espiritismo é a fase do processo evolutivo que, pelo exercício de nosso livre-arbítrio, inscrevemos por contristador estágio de nossa maturação espiritual.

            Eis a ocorrência:

            Na eclosão da Ciência, o homem foi bruscamente remetido para diante da realidade objetiva, induzido a desligar-se de fábulas e superstições, de fé dogmática e sistemas estanques de filosofia. Essa repentina integração no existente promoveu o surgimento de duas atitudes mentais diametralmente opostas:

            - a daqueles que haviam rompido o cordão umbilical com sua natural tendência religiosa, gerando um monstro teratológico, fecundado pelo egoísmo-orgulho: o materialismo;

-          a daqueles que não aviltaram a sua natureza íntima e que, pelo avanço da Ciência, se ajustaram para senhorear-se da fenomenologia mediúnica - que é de todos os tempos - já não mais no sentido mítico ou terra-a-terra de oráculos e pitonisas e sim na dimensão da racionalidade, surgindo com esses o espiritualismo científico: o Espiritismo-cristão.

            Esse comportamento filosófico, decorrente da inter-relação com a Espiritualidade, súmula das atividades evolutivas do espírito, teve a sua aurora com “O Livro dos Espíritos”, onde o seu coordenador esclarece: “Como especialidade contém a doutrina Espírita; como generalidade, liga-se à doutrina espiritualista, da qual apresenta uma das fases. Essa a razão por que traz sobre o titulo as palavras: Filosofia Espiritualista.” (3)

                (3) Allan Kardec, "O Livro dos Espíritos", in "Introdução ao Estudo da Doutrina Espirita", edição da FEB.

            Vivendo Allan Kardec, codificador do Espiritismo, numa época de profundas renovações, em todos os campos dos conhecimentos e das atividades humanas, e sendo os ensinamentos que recolheu dos Espíritos a mais profunda e ampla renovação de conceitos, revivendo o Cristianismo do qual herdou o gênio, não se ocupou o mestre lionês em fundar uma escola sistemática, em que se criaria uma realidade temporal e que terminaria, como outras, por fugir do plano objetivo. Contrariamente ao condicionamento de criaturas a uma realidade, lançou as bases da compreensão dentro dos horizontes individuais, aceitando por inevitáveis os mais conflitantes comportamentos e as mais divergentes ideações, porque o homem sempre emerge mais enriquecido espiritualmente depois dos mergulhos nos oceanos de suas paixões.

            A filosofia Espírita, atingida pelo nosso crescimento intelectual e afetivo, não é, portanto, a construção de um sistema que encarcere o pensamento e que estabeleça uma realidade, impondo-se ao homem do exterior para o interior, limitando-lhe a área de experiências individuais com fé fundamentada no sobrenatural ou numa autoridade humana, já que o evento da Ciência, dissolveu a ascendência dogmática e hierárquica.

            No processo do desenvolvimento integral, o homem primeiro treinou a sua razão, no contato direto com o meio tangível e mensurável pelos seus sentidos comuns. Despiu-se das gangas teológicas e das emoções primitivas, desordenadas, atingindo as fronteiras de sua maturidade. Já na divisa do imponderável, dominava regularmente as leis naturais mais próximas, ou seja, aquelas que falavam aos seus sentidos objetivos, tendo condições, então, para mensurar novas leis com o seu sentido objetivo, a mediunidade.

            Senhor de suas sensações, tendo frenado e ordenado a emotividade, desvinculando-se de escolas dogmáticas, por força de sua nova condição, estava apto à realidade psicofísica, seguindo a metodologia de suas experiências de Ciência, com a amplitude da racionalidade.

            O Espiritismo-cristão surgiu, assim, por coroamento de um laborioso processo evolutivo. Não, evidentemente, resultante da inventiva humana, mas como decorrência do novo estágio psíquico atingido em que o homem tem mais amplo descortino do Universo. Foi conquista, conjugada com a Espiritualidade Superior. A filosofia Espírita, à semelhança do próprio Sócrates, libertou-se dos cânones tradicionais e vem realizando, com substancional mutação de técnica e de forma, sem desmerecer mas sem utilizar o glossário técnico do filósofo profissional, o diálogo vital, na plataforma da razão. Não contribui para aumentar o acervo de páginas obscuras e nem de páginas rendilhadas por elegantes torneios de expressão, sem substância objetiva. Suas conclusões não são formas interrogativas de quem se aturdiu com o exame da Vida e nem são editais de falência de nossa Humanidade.

            É uma orientação assistemática do pensamento.

            O filósofo angustiado, perplexo, não entreviu, ainda, a nova ética espírita-cristã, substituindo as sanções sobrenaturais, assentada amplamente no raciocínio, em que se estabelece “a visão de conjunto que unifica os propósitos”. Seus liames, contudo, são bastante difusos e profundos, gerando as bases de uma nova civilização, entretendo-se com o homem para a reforma do atual estágio transitório de nossa civilização. Opera-se tal qual com a semente depositada no seio da terra e que arrosta as intempéries, fortalecendo-se para garantir o fruto nutritivo do amanhã.

Surge Emmanuel

            O processo filosófico, inaugurado por Allan Kardec, numa doutrina fundamentalmente religiosa - mas onde religião não tem o significado tradicional de dogma, de hierarquia sacerdotal, de ritos e paramentos exteriores, de culto organizado, nem de verdade única e integral ou mesmo de medida salvacionista -, após exatamente sessenta anos do aparecimento de “O Livro dos Espíritos”, viria aflorar, dinâmico, atual, com o Espírito de Emmanuel, através da mediunidade psicográfica de Francisco Cândido Xavier.

            No primeiro encontro do médium com o Espírito de Emmanuel ficou inteiramente definido o seu roteiro de atividades, pelas suas palavras e pelo símbolo, dentro do qual se fez visível:

            Via-lhe os traços fisionômicos de homem idoso, sentindo minha alma envolvida
na suavidade de sua presença; mas o que mais me impressionava era que a generosa
entidade se fazia visível para mim, dentro de reflexos luminosos que tinham a forma de uma cruz. Às minhas perguntas naturais, respondeu o bondoso guia: - “Descansa! Quando te sentires mais forte, pretendo colaborar igualmente na difusão da filosofia espiritualista. Tenho seguido sempre os teus passos e só hoje me vês, na tua existência de agora, mas os nossos espíritos se encontram unidos pelos laços mais santos da vida e o sentimento afetivo que me impele para o teu coração tem suas raízes na noite profunda dos séculos...(4)

            (4) Francisco Cândido Xavier, no livro "Emmanuel", do Espírito de Emmanuel, 6ª edição da FEB.

            Nesse primeiro reencontro, Emmanuel fez uma síntese, figurada, dos propósitos e do processo da filosofia espiritualista que propagaria pelo mediunato de Chico Xavier. Era o continuísmo existencial, em planos que se interrelacionam continuamente, embora nem sempre assinalados conscientemente pelo homem. E a cruz, que irradiava de seus reflexos luminosos, instrumento de regeneração consagrado pelo Cristo, seria a geratriz, através da qual seriam examinadas as atividades evolutivas de nossa Humanidade.

            É por demais expressivo esse quadro!

            A visão global do homem, em si considerado e compondo o complexo de sua marcha ascendente, só poderia ser alcançada com o auxílio de sabedoria que transcenda ao mutável e que possa abarcar o conjunto do fenômeno evolutivo, sem visão deformada pelo poliedro do condicionamento vital.

            O Sol integral é dos que estão acima dos horizontes.

            O Espírito de Emmanuel, por força do plano em que se situa e em decorrência de seus estágios evolutivos, desfruta dessa visão integralizada, dentro do gênio da doutrina do Cristo. Veio, assim, de espírito limpo. Não trouxe o propósito de organizar uma escola filosófica ou religiosa, nem pretendeu inaugurar uma sistemática inusitada e estranha ou mesmo de abordar a problemática filosófica para disseminar princípios transitórios em essência ou relacionados a uma determinada época ou evento. Revelou-se fiel ao Mestre, sem trair por um só momento a dinâmica da reconstrução de mundo novo com o Senhor Jesus e, em consequência, sem se distanciar ou conflitar com a Doutrina codificada por Allan Kardec, ditada pelo Espírito de Verdade.

            Todas as obras de Emmanuel podem ser analisadas do prisma da mais pura filosofia, representando a Filosofia Espírita, numa posição de extraordinário avanço direcional e horizontal, enriquecendo os temas e aspectos propostos e implícitos na Codificação Doutrinária. Seria oportuno, de futuro, uma tomada global, para ensaiar compreendê-lo na sua genialidade cristã. Contudo, ficaremos restritos, por ora, ao exame de apenas quatro de suas produções:

Emmanuel

A Caminho da Luz

O Consolador

Roteiro (5)

                (5) Obras do Espírito de Emmanuel, psícografadas pelo médium Francisco Cândido Xavier, edições da FEB.

A obra “Emmanuel”

            A linha central do pensamento Espírita estava perfeitamente delineada, em seus princípios fundamentais, no pentateuco kardequiano, dispensando o seu continuador, o Espírito de Emmanuel, de retornar à origem primeira para reeditá-la. Desse marco básico deveria irradiar-se, abarcando detalhes e questões que aflorariam no campo do conhecimento humano, à medida que se processa o sazonamento de nosso senso-moral.

            A obra “Emmanuel” traz a dinâmica vital da filosofia Espírita, sendo valioso e precioso subsídio para construir a mente na renovação do Cristianismo redivivo. Seu escopo central se destaca na titulação das duas grandes partes em que se divide:

I - Doutrinando a fé
II - Doutrinando a ciência.

            Submetendo fé e ciência à iluminação da doutrina espírita-cristã, realiza o seu Autor uma arrojada projeção do pensamento humano, revelando a objetividade da filosofia nova que não se deteria nas masmorras dos sistemas utópicos e nem se confinaria a enregelantes torres de marfim. É o exame das cartas, com as quais a Humanidade faz o seu jogo de evolução, dentro dum realismo transcendental, sem o injetar de fel em nossa boca.

            Além da exposição em torno de “importantes questões que preocupam a Humanidade”, aborda dialeticamente quatro questões que têm gerado vasta literatura:

             1. Determinismo e livre-arbítrio - onde elucida que o determinismo é o trajeto previsto para o viajor da evolução; contudo, o livre-arbítrio é uma lei irrevogável, pela qual pode o homem e as coletividades alterarem o seu destino.

            A proposição é a conciliação dos extremos - que são extremos tão somente para a nossa visão que, não fazendo uma tomada do todo, se confunde com os detalhes das partes. Explica a nossa responsabilidade nos atos, sem extrair-nos da marcha evolutiva a que nos submetemos.

            2. Tempo e espaço - não têm expressões objetivas, no plano das realidades eternas, são, contudo, figuras precisas ao homem como expressões de controle dos fenômenos de sua existência.

            Apresentando-nos tempo e espaço por condição transitória, permite-nos ilações sobre o eterno presente da vida humana, para almas de sublimada condição, abrindo o campo da fenomenologia de psicometria, de profecias célebres, de reexame existencial do pretérito.

            3. Espírito e matéria -- podem ser considerados como estados diversos de uma essência imutável, para chegar-se a estabelecer a unidade substancial do Universo, fazendo-se preciso, porém, considerar a matéria como um estado negativo e o espírito como um estado positivo dessa substância.

            Que brilhante antecipação do energetismo!

            Se matéria fosse essência diversa do Espírito - sendo este a criação eterna do Pai - o tenderia um dia a desaparecer, como todas as formas-transitórias. Ocorrendo ser, todavia, estado diverso e não criação diversa, consubstancia a eternidade de sua essência e oferece os princípios da gradação da energia.

            4. O princípio da unidade - em que encarece que, mesmo nos planos elevados do Espírito, observa os princípios da unidade e variação, sem haver descoberto o seu ponto de interação. Todavia, como o princípio da unidade absorve todas as variações, crê que, sem perdermos a consciência individual no transcurso dos milênios, chegaremos a reunir-nos no grande princípio da unidade, que é a perfeição.

            Emmanuel não fecha, em definitivo ou dogmaticamente, as questões propostas, dando-nos uma visão relativa que podemos ter sobre as mesmas. Não deixa, contudo, de expender conceitos novos, numa linguagem direta e fundamentalmente inteligível, seguindo o mesmo estilo diáfano de Sócrates, rico de eloquente simplicidade nos problemas que nossa mente tornou complexos.

A obra “A Caminho da Luz”

            A razão examinou as religiões.

            Entrechocando-se com dogmas e hierarquias humanas, com princípios refratários ao progresso, com sistemas artificiosos que não suportaram a sua análise fria - verdadeiras furnas de morcegos que se vitalizam com as sombras da ignorância - o homem, obnubilado pelas suas ideações materialistas, concluiu que a religião é uma decorrência das civilizações.

            Foi tomada a causa por efeito.

            A religião, assim, teria de ser um elemento condicionado às civilizações, refletindo-lhes as aspirações, os anseios, podendo, inclusive, excluir a ideia de Deus de seus princípios fundamentais, porque Deus seria uma consequência dos homens!

            Emmanuel, sem deter-se formalmente no exame desse teorema que precipita dolorosas consequências psicofísicas, aviltando até sacerdotes e condutores de almas - Emmanuel escreve, por Francisco Cândido Xavier: “A Caminho da Luz”, um livro magnífico que é “contribuição à tese religiosa elucidando a infância sagrada da fé e o ascendente espiritual no curso de todas as civilizações terrestres”.

            O ascendente espiritual é causa e não efeito.

            Pela proposição, as civilizações se originam do influxo espiritual, do crescimento psicofísico da Humanidade, cabendo aos homens renovarem-se nos princípios religiosos, renunciando de si, sem o louco tentame de estabelecer condições para que a fé sobreviva.

            A obra se inicia na gênese planetária “quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem no tempo e no espaço as balizas de nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta” e termina dissertando sobre o “Evangelho e o Futuro”, quando “luzes consoladoras envolverão todo o orbe regenerado no batismo do sofrimento. O homem espiritual estará unido ao homem físico para a sua marcha gloriosa ao Ilimitado, e o Espiritismo terá retirado dos seus escombros materiais a alma divina das religiões, que os homens perverteram, ligando-as no braço acolhedor do Cristianismo-restaurado”.

            Por conclusão, afiança: “Em nosso modesto estudo da história, um único objetivo orientou as nossas atividades - o da demonstração da influência sagrada do Cristo na organização de todos os surtos da civilização do planeta, a partir de sua escultura geológica.

            Essa interpretação filosófica da História, dentro da área Espírita-cristã, restabelece ao Cristo, para nossa visão, o seu ascendente multissecular sobre a nossa Humanidade. É nos facultado compreender que Ele não se encontra entre os homens apenas há dois mil anos e nem acompanha de longe os lances de nossa evolução, após ter contribuído com seus exemplos. É o eterno-presente, o sempre hoje em nossa vida.

            Esmaece, também, o conceito do fortuito em História.

            Nossa evolução é dirigida no seu todo e, em linhas gerais, responde a um determinismo místico. No curso da caminhada, contudo, seguimos com nossas próprias pernas, escrevendo, dia a dia, as páginas de nossa história, no exercício do livre-arbítrio. Nos momentos cruciais, no entanto, somos beneficiados pela companhia de grandes Instrutores da Espiritualidade Maior, liderando-nos e retificando-nos a senda de nosso progresso.

            Embora as dores, estamos a caminho da Luz.

A obra “O Consolador”

            O Espírito de Emmanuel, no livro “O Consolador”, reformula e conceitua os departamentos da filosofia Espírita, desmembrando-lhe o campo da História, que transfere para o capítulo de Ciências Combinadas; o campo da Política, que agrega à Sociologia e o campo da Religião que, muito apropriadamente, afirma ser o ápice sublime de todo esforço humano e divino.

            É uma atitude extraordinária!

            Após esse desmembramento admirável, procede a uma classificação das cinco áreas da filosofia espiritualista com uma acuidade que só poderemos classificar de genial:

                                                           I - Vida -                                aprendizado
                                                                              experiência
                                                                                                          transição

                                                           II - Sentimento                   arte
                                                                                                          afeição
                                                                                                          dever

                                                           III - Cultura                          razão
                                                                                                          intelectualismo
                                                                                                          personalidade

                                                           IV - Iluminação                   necessidade
                                                                                                          trabalho
                                                                                                          realização

                                                           V - Evolução                         dor
                                                                                                          provação
                                                                                                          virtude

            Observemos, ainda, que, após tal disposição dos departamentos da filosofia Espírita, Emmanuel realiza uma triangulação que poderíamos dizer pragmática ou objetiva, induzindo-nos a aceitar a filosofia por orientação de vida e não por mero exercício ou ginástica mental. Assim, no primeiro departamento, nas bases, ele coloca: aprendizado e experiência, tendo por ápice a transição, que é a passagem do Espírito de um estágio inferior para outro imediatamente superior. No segundo departamento, ele ajusta como alicerces: arte e afeição, culminando em dever. No terceiro, encontramo-nos com a cultura e seus problemas, tendo razão e intelectualismo por fundamento da personalidade. Após, necessidade e trabalho promovem a realização. E, finalmente, dor e provação culminam com a virtude.

            Esse processo, ele só em si, é mensagem inteiramente nova.

            Toda a problemática da filosofia está em “O Consolador”, nos seus mais absorventes prismas, com a visão de unidade que conduz o homem ao encontro e à compreensão de si mesmo. É o autoexame do “conhece-te a ti mesmo”, a fim de burilar-nos, de aparar nossas arestas espirituais, aproximando-nos da interação do homem-físico com o homem-espiritual.

A obra “Roteiro”

            A visão global da vida gera a esperança.

            A certeza de que nos encontramos a meio caminho de um porvir dadivoso nos provisionará de imensurável consolação e coragem, transmudando nossas lágrimas de sinônimo de angústia em pérolas de fé raciocinada.

            A filosofia Espírita é renovação.

            Não poderemos satisfazer-nos com o brilho externo de seus conceitos inovadores, qual se estivéssemos frente a maravilhosa vitrine de sublimadas criações. Espiritismo não é doutrina salvacionista, isto é, de ingresso garantido a um paraíso desejável. O Cristianismo-
-redivivo é bússola que nos pede o esforço da mutação interior de valores, sem o dualismo de personalidades que aceitam-mas-não-fazem, acreditam-mas-não-se-transformam, pregam-mas-não-realizam.

            “Roteiro” é um roteiro autêntico, a partir de seu prefácio que é um diálogo, cuja resposta nos pertence:

            “Em verdade, meu amigo, terás encontrado no Espiritismo a tua renovação mental.

            O fenômeno terá modificado as tuas convicções.

            As conclusões filosóficas alteraram, decerto, a tua visão do mundo.

            Admites, agora, a imortalidade do ser.

            Sentes a excelsitude de teu próprio destino.

            Mas se essa transformação da inteligência não te reergue o coração com o
aperfeiçoamento íntimo, se os princípios que abraças não te fazem melhor, à frente
dos nossos irmãos da Humanidade, para que te serve o conhecimento? Se uma força superior te não educa as emoções, se a cultura te não dirige para a elevação do caráter e do sentimento, que fazes do tesouro intelectual que a vida te confia?

            Repetiremos que Emmanuel, representando o continuísmo da filosofia Espírita, é pragmático, ou seja, identifica o verdadeiro com o útil; revela a verdade, objetivando a reforma íntima. Não resolve e nem agita problemas: apresenta soluções, orientando o pensamento humano. Por isso, suas indagações são feitas sem ressalva, dialogando com nossa consciência:

            - Para que te serve o conhecimento?

            - Que fazes do tesouro intelectual que a vida te confia?

            A seguir, escreve quarenta preciosíssimas ponderações, no contexto de “Roteiro”, colocando-nos ante as grandezas infinitas do Universo, sem que nos ameace com desfechos derrotistas e amargosos. Sua grandiloquente afirmativa é de que o Universo não vale, para o Pai Celestial, o mesmo que uma simples alma repleta de paixões e de defeitos e, por isso, a criatura  se reerguerá da posição a que se confiou no movimento de sua ascensão espiritual.

*

            Emmanuel não é grande demais para o nosso tempo.

            Temos de convir que o relógio divino nunca está sequer num segundo adiantado e nem um segundo atrasado. O seu tempo é sempre tempo justo e, em decorrência, era tempo de Emmanuel, na filosofia Espírita.

            Com Emmanuel, a filosofia Espírita atingiu um cume, permitindo-nos ver mais além, entredivisar detalhes, mensurar esse complexo que se chama vida, projetando-se para o futuro como uma das mais sublimes revelações do Plano Maior.

Elementos da
Filosofia Espírita
Roque Jacintho

Reformador (FEB) Junho 1970