Pesquisar este blog

sábado, 29 de junho de 2013

03. 'A Rebeldia dos Médiuns'



03) A Rebeldia dos Médiuns
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Abril 1958

            Em se tratando da mediunidade, é preciso muita cautela no exame das diferentes questões que podem surgir no transcurso de uma exposição doutrinária. Sempre que se notar a já clássica manifestação de rebeldia do médium, pode-se admitir, em princípio, a necessidade de ele ser  submetido a um trabalho de observação e esclarecimento ainda mais meticuloso. Os médiuns são criaturas naturalmente sensíveis. Tem-se de examinar suas atitudes e suas reações, quer no estado normal, quer em transe, já a caminho do exercício mediúnico. Pode suceder, muitas vezes, que a rebeldia não seja propriamente do médium e, neste caso, convirá a realização de trabalhos cuidadosos para a identificação da causa da sua irritabilidade. Sendo o médium pouco desenvolvido, a rebeldia pode também originar-se da ação fluídica de Espíritos sobre ele, aproveitando-se da sua capacidade mediúnica em evolução. Se já é um médium desenvolvido, a causa pode ser a mesma, convindo, então, uma outra série de providências que levem a descobrir as razões determinantes da infiltração fluídica, infiltração que o médium não percebe e fica, assim, à mercê de entidades invisíveis cujas intenções desconhece.

            Se as causas da rebeldia não são de natureza orgânica, podem ser de natureza fluídica. Muitas vezes uma carga fluídica pode contribuir para perturbar a harmonia psíquica do médium ainda não desenvolvido, ou, se desenvolvido, pouco atento a seus deveres mediúnicos. Neste caso, as condições orgânicas do alvejado podem ser afetadas se ele aumenta a sobrecarga fluídica, por não saber ou não querer aliviá-la através de tarefas mediúnicas bem ordenadas. Nem sempre a rebeldia do médium é causada por ação fluídica; nem sempre suas perturbações orgânicas têm origem nas sobrecargas fluídicas que ele recebe sem disto se aperceber: Positivada, porém, a origem fluídica de suas perturbações, quer orgânicas, quer mediúnicas, então é tempo de agir, pondo-o sob observação direta para que a origem dessas perturbações possa ser depressa localizada.

            Temos dito da importância do exercício mediúnico metódico e persistente. O médium somente deve “trabalhar” sozinho depois de ter sido positivado o seu desenvolvimento completo, sem o que poderá estar sujeito a surpresas desagradáveis e não terá meios de defender-se, dando, por isto, passagem a quantas cargas fluídicas sejam dirigidas contra ele. As consequências podem ser desagradáveis e convirá, diante disto, evitar ao máximo o “trabalho” isolado.

            Através do estudo de “O Livro dos Médiuns” e “O Livro dos Espíritos”, o médium pode adquirir conhecimentos teóricos que lhe serão muito úteis no desempenho das atividades mediúnicas. Desde que alcance razoável desenvolvimento, já seu espírito se habilitará, com naturalidade, a identificar a natureza das aproximações fluídicas e também com a maior naturalidade fará a seleção das descargas que o atingem, dando passagem às que sente serem satisfatórias e recusando as que pressente desfavoráveis. Por isto é que o médium deve desenvolver-se num centro espírita idôneo, exercitando-se com paciência e tenacidade, sem pressa, mas com o desejo forte de fazer sempre o melhor e de servir sempre o melhor. O essencial não é “trabalhar”, mas “trabalhar” bem. O médium experimentado, esclarecido, fortalecido pelo estudo e pela própria conduta, sabe que todos os médiuns estão cercados de Espíritos ansiosos por se manifestarem no mundo terreno. Os Espíritos menos purificados são os mais aflitos. Não se conformam com o haverem sido despojados da vida física e permanecem no ambiente terreno, causando distúrbios, perturbações, aborrecimentos, algumas vezes até involuntariamente. O médium não desenvolvido recebe qualquer um, porque não sabe sentir a diferença de fluidos, o que não sucede com o médium já apto ao trabalho ativo, que faz a distinção automática e insensivelmente, não dando passagem a Espíritos inferiores ou perturbados, senão quando isto se faz necessário para a doutrinação e o esclarecimento dos mesmos.

            Temos visto médiuns incipientes que se lastimam por não poderem ainda trabalhar sozinhos. Outros, mais afoitos, se lançam a essa aventura, convencidos de que já podem assumir a responsabilidade de seus atos. Muitos têm sido os que recordam, arrependidos, a iniciativa tomada contra as determinações de seus instrutores visíveis e invisíveis. O conselho que se poderia dar aos médiuns que estão começando a se desenvolver é o de que não tenham pressa em trabalhar a sós. Procurem estudar “O Livro dos Médiuns”, “O Livro dos Espíritos”, “O Evangelho segundo o Espiritismo”, assim como as lições recebidas nas sessões de estudo e de desenvolvimento mediúnico. Não pensem logo em fazer maravilhas, porque o destino do médium não é maravilhar, mas servir ao próximo. Mas, para servir bem, é mister que esteja bem preparado.

            Estudar e praticar, sem pressa de acabar, é o caminho mais curto. Que nenhum médium pare de estudar e praticar. Tem de estudar e praticar a vida inteira, porque Espiritismo não é um curso de uma existência, mas um curso que tomará diversas vidas do Espírito, tantas e tão profundas as lições constantes de sua Doutrina. Se o essencial é servir bem, deve o médium preocupar-se em adquirir o estado mediúnico que lhe permita ser útil. Escore-se no Evangelho, viva o Evangelho e faça dos ensinamentos evangélicos a reserva de seu Espírito para os momentos mais delicados de sua existência.


sexta-feira, 28 de junho de 2013

21. 'Revelação dos Papas' - Leão X


Leão X


          21

‘Revelação dos Papas’
(Obra Mediúnica)

- Comunicações d’Além Túmulo -


Publicada sob os auspícios da
União Espírita Suburbana
Rua Dias da Cruz 177, Méier

Officinas Graphicas d’A Noite
Rua do Carmo, 29
1918

Leão X

O médium vê um homem alto, magro, com os cabelos caídos sobre os ombros,
trajando túnica branca e tendo na cabeça a tiara; traz em uma das mãos uma cruz
e com a outra empunha o cetro pontifical. Não pode, porém, a vidente distinguir
as feições do espírito, por ser muito intensa a luz que o circunda.
_______________________


         Compareço também à barra deste grande tribunal para depor contra o meu pontificado, acusando-me, perante Deus e os homens, como o papa que na Terra deu as maiores provas de impiedade e falta de fé e de ausência do verdadeiro espírito cristão. Está presente o espírito do papa que maiores males produziu durante o seu pontificado. Aqui está, diante do maior tribunal que até hoje se constitui na Terra, o papa cuja ação provocou os mais vivos e enérgicos protestos, cujos atos deu lugar as mais severas e acres censuras, as mais intensas e merecidas acusações. Tendes na vossa presença um dos maiores réus que até hoje compareceram perante os tribunais da humanidade; ides julgar um dos grandes criminosos que tem comparecido ante a justiça de Deus e dos homens, neste planeta.

          Aqui está Leão X com todas as suas culpas, vergado ao peso dos seus erros, sucumbindo ante o juízo imparcial da história, humilhado, abatido, cabisbaixo, ruído pelos remorsos, atormentado pelas tristes recordações dos pecados e dos crimes que cometeu quando papa aqui entre vós.

         Quem hoje aparece a barra deste importante tribunal é o espírito de um papa que foi mais homem que sacerdote, mais da Terra que do céu.

          Ele vem guiado pela luz da graça divina, mas a sua alma está ainda presa às recordações nefastas, às reminiscências cruéis, às lembranças horríveis; pairam lhe ainda no espírito densas nuvens que a instantes, toldam o céu azul onde hoje a sua alma se deleita na contemplação dos esplendores e das belezas da vida espiritual, que desfruta - graças aos imensos esforços, aos grandes e incalculáveis sacrifícios feitos para merecer de Deus a permissão de poder viver na luz e repartir esta mesma luz com os que necessitam dela para iluminar lhes o caminho da vida.

          Leão X vem a vossa presença para se declarar culpado e criminoso dos mais abjetos crimes, de nefastos erros e injustificáveis faltas que cometeu como papa, na qualidade de chefe supremo da cristandade; sente-se porém feliz, porque, ao mesmo tempo que paga uma dívida de honra, contraída com os cristãos, pratica também um ato de humildade cristã, mostrando aos homens como são falsos e pueris as honras e galardões que o mundo nos confere quando ali nos achamos à frente de alguma instituição humana, à testa de qualquer governo terreno, na chefia de um estado, sagrado ou profano.

          Dá o papa Leão X provas da sua obediência à vontade de Deus escrevendo esta mensagem, na qual se confessa culpado e, ao mesmo tempo, mostra a grandeza e a perfeição infinita da justiça do Pai, que o condenou e absolveu, dando-lhe sucessivamente aquilo a que fez jus pelas suas boas e más obras. Cumpre o maior de todos os deveres que um espírito pode almejar, qual o de instruir os seus irmãos acerca do que com ele se passou na vida espiritual, onde sofreu as mais fortes desilusões, experimentou as mais cruéis e pungentes dores quando a sua consciência, enegrecida pelos atos reprovados que ele praticou, o acusou perante Deus.

          Leão X foi dos papas o que mais se deixou arrastar pelas coisas da Terra, o que mais amor e apego teve ao que era mundano. Foi de todos os pontífices o que maiores provas de orgulho e vaidade deu perante o mundo; foi o menos tolerante dos papas, o mais autoritário e desumano de todos os pontífices católicos. A sua vida, eivada de erros, eriçada de atos impiedosos intemperantes, cruéis alguns, desumanos muitos, envergonham a sua época, cobre de lodo e amesquinha a Igreja cujo governo e destino estiveram confiados a sua guarda.

          A vida deste papa que ora vos fala é um conjunto de erros gravíssimos, de crimes nefandos, de abusos, de intolerantes, de perversidades inqualificáveis, que o apontam ao juízo imparcial da história como réu autor dos mais graves delitos que a mesma história registra e condena.

          Fui papa no tempo em que o espírito cristão, abalado pela barbaria que reinou durante a idade média, necessitava de calma, da ação branda e moderada de um papa que, possuindo clarividência e sentimento cristão da religião, aliasse o mais extremado e meticuloso cuidado, pugnando pela causa do Cristianismo e tendo, ao mesmo tempo, como principal objetivo, o apaziguamento dos ânimos, o arrefecimento dos ódios e do espírito irrequieto dos povos que acabavam de sair das lutas encarniçadas da idade média. Era de mister um pontífice que se impusesse mais pela cordura, obediência aos princípios sagrados da doutrina de Jesus, que pela vontade pessoal autoritária e absoluta, que foi sempre o traço característico do papa Leão X. Precisava o mundo neste tempo, ouvir uma voz consoladora e meiga que, falando de paz e de concórdia, fosse um toque de rebate, não para a guerra, mas para o congraçamento de todas as facções em que se achavam divididos os estudos europeus; necessitava a humanidade escutar uma palavra autorizada, repassada do verdadeiro sentimento de fé, ungida pelos hábitos de um crente fervoroso, saída da boca de um homem que lhe falasse com a fé e a pureza no coração, que lhe desse exemplos de firmeza e não de tirania, lhe ensinasse a verdade com carinho e amor, mas a não impusesse despótica e atrabiliariamente.

          Exigia o espírito da época muita tolerância e complacência, moderação e brandura, energia associada a uma bondade natural, nascida do conhecimento exato das coisas sagradas, tendo por base o amor dos homens e a confiança nos destinos gloriosos do cristianismo.

          Nesses dias, que já vão longe para vós outros, mas que posso ainda rever daqui neste momento, era necessário a frente da cristandade um homem que tivesse a força e o critério para resistir ao espírito de revolta e, ao mesmo tempo, contemporizar com os revolucionários a fim de impedir o surto violento da revolução, retardando lhe a marcha, dispondo as coisas de modo a atenuar lhe os efeitos, caso não fosse possível sustar a explosão que ameaçava abalar todo o mundo cristão, dividindo os crentes em pequenos grupos e seitas, estabelecendo assim a confusão hoje reinante na Terra. Havia necessidade de um braço e uma cabeça que agissem de acordo, resistindo um, enquanto a outra procurasse achar a solução para o delicado problema da unidade religiosa, que então se impunha de maneira absoluta e insofismável.

          Havia, além de tudo isso, tradições a manter, patrimônios a zelar, legados preciosos do passado, relíquias de um valor inestimável que ao papa cumpria defender.

          Era chegado o momento decisivo da reconstrução do edifício que vinha sendo abalado pelo espírito impiedoso e iconoclasta da idade média; era a hora da reivindicação de todos os direitos dos quais a Igrejas havia sido despojada. Soará o momento em que todas as forças deviam estar aparelhadas para a luta que, mais dia, menos dia, havia de ser travada entre o verdadeiro espírito cristão e o egoísmo e as ambições da época. Tudo fazia crer ter chegado a hora principal em que a fé devia ficar para sempre consolidada no espírito humano radicada na consciência dos homens. Apareciam já os sintomas alarmantes da decomposição moral em que jazia o mundo; sinistros clarões do incêndio que, dentro em pouco, lavraria em toda a Europa, se divisavam no horizonte. Por toda parte se faziam sentir os rumores que precedem as grandes comoções, aos cataclismos sociais. Todas as consciências sentiam o aproximar dessa hora tristíssima e lutuosa para a humanidade cristã; reinava em todos os espíritos as mais torturantes e aflitivas dúvidas; incertezas produziam profunda mágoa em todos os corações.

          A Reforma veio afinal; o protesto tomou vulto, conquistou adeptos, granjeou simpatias, fez prosélitos, penetrando por toda parte, desde a choupana ao palácio; estendeu-se por toda a Europa, foi à Ásia, atingiu a América, em suma, empolgou o mundo inteiro!

          O papa, sempre indiferente às questões sagradas, preso, ligado aos mais pueris preconceitos, tendo mais interesse pelas coisas do mundo profano, pelas quais abandonava as de ordem moral e religiosa, manteve-se firme, inabalável nos seus erros, limitando-se a lançar anátemas e maldições contra a revolução que ele e os seus antecessores haviam ateado com os seus erros, faltas e crimes, com as devassidões que escandalizam o mundo e as luxurias que deram causa à revolta e à indignação de que os homens sensatos, honestos e puros se acharam possuídos ante a intemperança e desbragada volúpia dos pontífices.

          Nada fez o papa Leão X para por termo à revolução que estalara sem que partisse do Vaticano uma medida preventiva para refrear a fúria indomável dos inimigos da fé cristã. Nenhum ato de sabedoria e prudência praticou o representante de Cristo na Terra para por cobro à desordem que avassalara todos os espíritos, dominara as consciências, abalando profundamente o Cristianismo, que ficou enfraquecido pela depressão dos fieis, pela divisão dos crentes a invasão do sectarismo que se implantou no mundo, estabelecendo a Babel religiosa em que vive hoje a humanidade.

          O papa Leão X não teve, nesse caso, força, clarividência, cautela, critério, prudência, tolerância, fé e sabedoria - os principais predicados indispensáveis a todo o grande sacerdote incumbido de velar e zelar pelas coisas sagradas, confiadas à sua guarda. É, portanto, culpado, criminoso, responsável pela invasão da onda sectária que dominou a Terra, pela formação desses igrejas que nada valem, coisa alguma ensinam e só servem para agravar a situação moral e religiosa em que se debate o mundo.

          Cabe a Leão X toda a responsabilidade, é ele o maior culpado das vossas infelicidades, homens da Terra; por isso aqui está, diante de vós, a implorar o vosso perdão e a misericórdia de Deus para as suas faltas e os seus crimes. Compadecei-vos dele; tende pena da sua miséria, piedade da sua fraqueza e desdita, e ouvi, apesar de tudo, o aviso que ele traz dizendo-vos:

          “Sede sempre bons, crentes e piedosos, cumprindo o melhor possível os vossos deveres cristãos, procurando sempre merecer a misericórdia e perdão de Deus, que é um pai amantíssimo, bondoso até o inferno, do mesmo modo o céu, tal como o concebeis, não existe também. Ficai certos de que o infinito, razão por que vos anuncio não existir o inferno, do mesmo modo o céu, tal como o concebeis não existe também. Ficai certos de que o inferno só existe nas consciências dos maus e dos perversos, assim como o céu está na consciência dos bons, dos justos, dos santos e dos anjos; logo, podeis desde já viver no céu ou no inferno, e isto depende da maneira pela qual vos conduzirdes na vida terrena. Tende, portanto, fé e esperanças, porque não existem pena eternas, nem pecados irremissíveis. Deus perdoa sempre a quem se arrepende sinceramente dos seus crimes e aceita com prazer a condição, que Ele impões, de depurar-se em existências sucessivas. Quem vos fala neste momento já aqui voltou quatro vezes em existências amarguradas, nas quais expurgou grande parte das suas imperfeições e dos seus defeitos, poliu o seu espírito, para poder hoje apresentar-se perante vós cercado da luz da Misericórdia Divina. Não vos esqueçais nunca de Jesus; tende sempre em mente as suas palavras e os seus ensinamentos; observai as suas lições, ouvi o que, em nome de Deus, vos dizem os papas nesta “Revelação”.

          Assim, despeço-me de vós com a alma banhada de alegria, inundada de prazer, por se me ter proporcionado para falar-vos, para confessar-me criminoso diante de vós, pedindo-vos persevereis sempre no caminho da moral e do bem, na prática da caridade e de todas as virtudes cristãs, para poderdes um dia, quando abandonardes o corpo material, gozar a felicidade eterna que já começa a desfrutar o espírito do papa Leão X, que vos diz daqui um afetuoso adeus, abençoando-vos em nome de Deus, a quem rogará sempre pela vossa felicidade nesta e na futura vida, onde entrareis hoje ou amanhã.

          Que assim seja.

          Adeus.
Leão X
Outubro de 1916

Informações complementares

            Papado de 11 de março de 1513  a 1º de Dezembro de 1521
            Ainda segundo Eamon Duffy, Leão X, papa Médici, filho de Lorenzo, o Magnífico, de Florença, foi ordenado clérigo aos sete anos de idade e nomeado cardeal aos treze. Quando papa, aos 37 anos, passou a governar ao mesmo tempo Roma e Florença (Firenze). Foram as indulgências que ele traficava para custear as obras da reforma da basílica de São Pedro que levaram Lutero a publicar as Noventa e Cinco Teses e precipitaram a Reforma. Ao morrer, deixou a igreja dividida e o papado à beira da bancarrota.

?

Um 'statement' do Dr Hermínio Miranda



Um ‘statement’ 
do Dr Hermínio
por Hermínio C Miranda

Trechos de um artigo sob título ‘Lendo e Comentando’
publicado em Reformador (FEB) Junho 1964


            “E no que diz respeito ao conhecimento espiritual, ainda estamos engatinhando. Antes de nos aventurarmos a examinar certos aspectos do mecanismo do espírito, precisamos criar e desenvolver uma nova Física, uma nova Psicologia, uma nova Biologia, uma nova Química, uma nova Mentalidade, enfim. Não creio seja para esta geração.”

          Você discorda?
          Nós não.

Vida & Vidas



O famoso Espírito de Silver Birch.

            “...Silver Birch se manifestava através do próprio Maurice Barbanell, Redator-chefe de «Two Worlds", jornalista, escritor e pregador conhecido.

            ...Barbanell, já em transe, começa a falar serenamente como instrumento do lúcido Espíríto. Este insiste em que é apenas um ser humano, "como vocês", mas que caminhou uns passos mais ao longo dos caminhos da vida e voltou para contar-lhes "o que vocês encontrarão lá na frente, quando cruzarem os portões da morte".

            “Se o corpo sofre – diz Silver Birch – é porque nem a mente nem o espírito se encontraram a si mesmos. Quando o espírito está certo, a mente também está e o corpo também. Tudo quanto acontece no corpo, reflete o que acontece à mente e ao espírito. Chamam a isso agora de psicossomatologia, mas rótulos não importam, o que vale é  a verdade eterna. Se a alma fica doente, o corpo adoece; se a alma é sadia, o corpo deve ser sadio. Curar os corpos não é importante; tocar as almas, isso sim, é que importa. 

            "O Evangelho do Materialismo - continua ele é: enriqueçamo-nos fisicamente, acumulemos tudo quanto a matéria pode oferecer e sejamos indiferentes ao bem-estar alheio e - infelizmente - a si próprios."

            "Esse evangelho é reforçado por muitos sacerdotes que se extraviaram e se esqueceram das origens de suas religiões, da finalidade para a qual seus templos e igrejas foram construídos. Estão interessados na casca e na aparência do dogma defunto, na doutrina decadente e não na inspiração, único poder vibrante e vivificante que existe."

Trecho de um artigo sob título ‘Lendo e Comentando’

publicado em Reformador (FEB) Julho 1964

Espiritismo



            “O Espiritismo é uma doutrina dinâmica, na qual, mantendo-se o núcleo central, comprovadamente genuíno e maciçamente irremovível como a substância da Verdade, cada um tem sua liberdade de pensar e deve faze-lo, para que não vire tudo um corpo dogmático, cristalizado e imóvel, como já tem acontecido com as religiões do passado.         O mesmo se dá com a doutrina do Cristo. Há nela um núcleo de verdade eterna, que, por mais que se queira; não se deforma, e os dogmas que montaram, em torno dessa doutrina, não suportaram o teste do tempo. Isso porque os filósofos do cristianismo eclesiástico cometeram o engano de achar que deviam fornecer as ideias já inteiramente mastigadas e digeridas ao povo. Infelizmente, por outro lado, muitos de nós sofremos de certa "preguicite" mental e parece cômodo não ter de pensar. É muito mais fácil receber as ideias já arrumadinhas e pensadas, mas nada há de mais pernicioso para o desenvolvimento do espírito. 

           Devemos pensar com a nossa cabeça e não com a dos teólogos ou a dos articulistas que lemos. Por isso, procuro dar a estes modestos trabalhos o tom de uma conversa despretensiosa com o leitor, para que ele também se sinta encorajado a pensar, mesmo a discordar do que afirmo. Entendo ser este o meio de prevenir a eclosão de dogmas no seio do nosso movimento. Além do mais, nas suas origens gregas a palavra dogma não significa uma declaração de princípios que a gente deve aceitar cegamente, mas simplesmente opinião. Não é à toa que o Espiritismo, segundo o entendemos, não deseja culto organizado, nem sacerdócio - essa fórmula já fracassou no passado inúmeras vezes: O leitor certamente sabe disto melhor do que eu, mas sempre é bom repisar, porque todos nós às vezes descuidamos um pouco e escorregamos na "comodidade" de deixar que os outros pensem por nós. E, quando "acordamos", já estamos acorrentados.”

Trecho de um artigo sob título ‘Lendo e Comentando’
publicado em Reformador (FEB) Julho 1964
           


2) Espiritismo e Mediunidade


02) Espiritismo e Mediunidade
por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Março 1958


            Nas relações do mundo visível com o invisível, torna-se imperioso não perder de vista o papel importantíssimo da mediunidade, elo que liga os dois mundos, permitindo se estabeleça valioso intercâmbio para o desenvolvimento moral e espiritual de encarnados e desencarnados.

            Doutrinas espiritualistas e pseudo espiritualistas não faltam ao homem na Terra. O Espiritismo, porém, não fantasia nem se engrandece à custa de liturgias misteriosas e enigmáticas, como também não se oculta por detrás de dogmas absurdos, irracionais e intolerantes. Nossa Doutrina está natural e perfeitamente integrada no pensamento do Cristo. Não sugestiona o homem com afirmativas confusas e paradoxais. Não ensina que o homem foi redimido por Jesus, porque todos sabemos que os fatos demonstram ainda se encontrar a Humanidade a caminho da redenção, e que Jesus, tal como está no Evangelho, deixou claros os meios de que o homem precisa para alcançar essa redenção, reeducando-se, aprimorando suas qualidades morais, purificando seus sentimentos, combatendo primeiro suas próprias inferioridades, antes de pretender fazê-lo às de seus semelhantes. Limitemo-nos ao “Sermão da Montanha” e veremos que ali está um admirável código de moral capaz de disciplinar o homem, preparando-o para a salvação, através do trabalho, que não é castigo, mas que é bênção. O Espiritismo ensina que se torna necessário o progresso moral do indivíduo, para que este possa influir na coletividade a que pertence, estimulando-a; levando-a a progredir incessantemente. As dores do mundo irão diminuindo à medida que a Humanidade for evolvendo moralmente. Não ensina o Espiritismo fique o homem inativo, à espera de milagres que o absolvam dos erros cometidos. Assim como não há penas eternas, assim também todos estamos subordinados à lei do progresso.

*

            O único milagre admissível está na reforma individual. O homem, terá que derrotar seus instintos inferiores e dominá-los. Não precisa temer as consequências de seus atos, se buscar por suas próprias mãos o aperfeiçoamento moral de que necessita. Sujeito que está a vidas sucessivas, que são imposição do progresso, que a lei de causa e efeito acoroçoa, colherá sempre o que semear. O Espiritismo ensina-lhe o caminho da redenção pelo disciplinamento de sua conduta perante seus companheiros de jornada terrena. Para auxiliar esse esforço gigantesco, a mediunidade desempenha função essencial. Por isto, os médiuns precisam dar muita atenção a essa faculdade, que permite o contato com o Além. Se um homem prevenido vale por dois, segundo o anexim popular, um médium preparado vale muito mais que vários médiuns sem base doutrinária e evangélica, sem recursos morais para precatar-se de perigos previstos e perfeitamente esclarecidos, por exemplo, em “O Livro dos Médiuns”, do nosso insigne Allan Kardec, assim como em “Os Quatro Evangelhos”, de J. B. Roustaing, que nos deu magníficas lições complementares da obra do Codificador, que permitem clara compreensão do Espiritismo Cristão.

*

            O Espiritismo é objetivo em seus ensinamentos. Instrui, orienta, encaminha, ampara, fortalece a posição do homem em face da vida, porque lhe diz porque se nasce, para que se nasce, a razão do sofrimento, a razão da morte física e a necessidade da reencarnação. Mostra como pode a criatura humana atenuar os encargos espirituais, preparando-se hoje para um amanhã melhor, que lhe permita alcançar alegrias puras, que não sejam apenas festas para os olhos, mas, sobretudo, festas para a alma.  O Espiritismo tem elevada função pedagógica, é igualmente didático. Mostra-nos a razão da vida terrena, o destino que podemos ter, consoante a lei cármica, de causa e efeito. Não ilude: esclarece; não persegue: auxilia; não condena: educa; não abandona: ampara; não repele: acarinha; não deturpa a personalidade: aprimora-a; não estimula o egoísmo: substitui-o pelo altruísmo consciente.

*

            As ferramentas do médium capacitado de sua responsabilidade são a Doutrina Espírita e o Evangelho segundo o Espiritismo. Estudá-los, reestudá-los todos os dias, exercitando-se sempre na exemplificação de seus princípios, eis o que melhor se poderá oferecer à dignificação da mediunidade. Veja o médium quantas belezas derivam do trabalho mediúnico metódico, feito com dedicação e amor! Não vá o médium inexperiente lançar-se a cometimentos prematuros e inadequados ao seu grau de desenvolvimento. Dedique-se ao estudo e ao trabalho, com menos pressa e mais devotamento e assiduidade. Dentro de pouco tempo colherá os frutos da semeadura inteligente. Em “O Livro dos Médiuns” está o roteiro completo, que permite avançar com segurança através da mediunidade. A preocupação deve ser sempre esta: SERVIR e nunca pretender maravilhar. Nada deve ser forçado; tudo deve obedecer a um plano metódico de trabalho, sob a supervisão de experimentado diretor de serviços mediúnicos, em dia com a Doutrina e familiarizado com o Evangelho.

*

            Sem dúvida, há e pode continuar havendo médiuns sem preparação doutrinária e evangélica, para os quais surpresas desagradáveis podem estar reservadas, se sua linha de conduta não coincidir com aquelas determinadas na Doutrina Espírita e no Evangelho. Muitas vezes o médium sem orientação nem apoio doutrinário e evangélico acaba por ceder a injunções das trevas e acabará por se ver arrastado a complicações difíceis de destruir, arrastando na desventura os que se entregarem cegamente ao seu arbítrio. O médium consciente de seus deveres morais não anda separado da Doutrina e do Evangelho. Reaprende todos os dias as lições que a vida nos dá, buscando condicioná-las aos imperativos doutrinários e transmitir a outrem os frutos da experiência cotidiana. Precisamos tanto da Doutrina Espírita e do Evangelho segundo o Espiritismo, como do ar que respiramos. Este é imprescindível à nossa sobrevivência física; aqueles, à nossa sobrevivência moral.

*

            Para combater os erros, temos os recursos da Doutrina e do Evangelho, que nos permitem corrigi-los sem ódios nem prevenções. Preguemos e propaguemos, mais do que nunca, em todos os lugares e de todas as formas, principalmente pela exemplificação leal e diária, o Espiritismo de acordo com as determinações doutrinárias e evangélicas, sem jamais esquecermos de que “fora da Caridade não há salvação”. E a caridade não se resume apenas no óbolo entregue ao mendigo que sofre a sua provação, pois se estende a todos os pensamentos e atos. Tanto pode estar representada na palavra falada e escrita, como nas atitudes de todos os momentos. Tolerância não quer dizer conivência, assim como bondade não significa passividade ante o mal. A tolerância tem de ser ativa: ao exercê-la, devemos apontar ao que dela se beneficia o caminho da reabilitação. A bondade não nos manda fechar os olhos ao mal. Diz-nos que os abramos mais para podermos vencer o mal e seus efeitos com a assistência moral, os conselhos oportunos, a energia temperada de amor, mas não debilitada pela incompreensão. Jamais a violência deve tisnar o pensamento ou o ato do verdadeiro espírita. Para demonstrar nossa caridade pelos que nos atacam ou perseguem, também pelos que se prevalecem da nossa tolerância para incursões sorrateiras e lamentáveis à nossa seara, temos que proceder evangelicamente. Como temos fé, oramos; como temos esperança de que os desviados e transviados de hoje um dia estarão conosco, oramos; como temos caridade para quantos tentam trair-nos a confiança ou ferir-nos desapiedadamente, oramos. E orando cumpriremos também um dever doutrinário e, sobretudo, um dever evangélico.

*

            Em tão grande obra de expansão do Espiritismo, a tarefa dos médiuns sobreleva de importância, e eles, como vanguardeiros do trabalho de ligação entre o mundo visível e o mundo invisível, estão sempre convocados para as experiências mais sérias e de maiores consequências. 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

01) A tarefa mediúnica no mundo em crise


              Quando da leitura recente de um artigo sobre Mediunidade escrito pelo Indalício Mendes ainda em 1959, deparamo-nos com a afirmação dele que aquele artigo fazia parte de uma série de artigos já publicados em Reformador (FEB) desde o início de 1958, todos sobre o tema Mediunidade.
            Afortunadamente, estão à nossa disposição praticamente todos os exemplares do biênio 1958-59 de Reformador - órgão maior de divulgação do Espiritismo no Brasil.
            Assim sendo, aqui vão 15 artigos sobre Mediunidade escritos pelo saudoso Indalício Mendes.  Não garantimos que conseguimos juntar todos eles para o período abordado mas já é um bocado de material para nossa reflexão e estudo.       
            Fraternalmente,
            A Equipe do Blog.
            PS
            Ao final, a palavra do professor Eurípedes e de outros luminares. Vocês vão gostar. Temos certeza.


01) A tarefa mediúnica
 no mundo em crise

por Indalício Mendes
Reformador (FEB) Fevereiro 1958

            São bem árduos os tempos atuais, porque a Humanidade se encontra superexcitada pela ameaça permanente de conflitos armados e entende que a melhor maneira de se libertar das preocupações cotidianas está no recurso ao hedonismo, que considera o prazer o fim da existência humana. E é justamente nessa corrida louca para os prazeres que está a maior ameaça à felicidade humana. Compreende-se, portanto, a importância excepcional que o exercício da mediunidade assume contemporaneamente e, paralelamente ao trabalho mediúnico metódico, a obra de esclarecimento espírita, fundamentada no Evangelho.

            O Espiritismo não estimula o misticismo mórbido, porém orienta, educa o sentimento do homem e lhe ensina o caminho da reabilitação moral. De nada adianta falar aos ouvidos humanos, sem que se atinja o coração das criaturas. Nem os espíritas intentam falar na salvação da Humanidade, mostrando-lhes a efígie trágica de Jesus crucificado, porque o Jesus que sofreu no Gólgota está vivo e nos fala pelas páginas do Evangelho, conclamando-nos a todos para a luta incruenta pela redenção do homem pelo próprio homem!

            Devemos considerar o Espiritismo evangélico, que é o Consolador prometido pelo Mestre, como o instrumento da salvação humana. Todavia, preciso se torna compreender que somos nós que temos de trabalhar por alcançar a redenção, corrigindo-nos, mostrando-nos tolerantes e amigos, bem como pacientes e pertinazes na grande batalha contra as inferioridades que nos retardam a evolução moral.

            Que papel pode desempenhar o médium, nesse caso? Fora de dúvida, um papel importantíssimo, porque ele tem a faculdade de servir de intermediário aos ensinamentos que nos chegam do mundo invisível e pode ajudar poderosamente a levar a Humanidade para o caminho certo, desde que se desincumba dedicada e lucidamente de seus misteres mediúnicos.

            Há necessidade de incrementar o trabalho de desenvolvimento dos médiuns potenciais, como há necessidade de organizar suas tarefas, para que a mediunidade não se faça estéril, não se perca em ambientes inadequados nem os médiuns acabem por desinteressar-se de tão abençoadas obrigações.

            Não basta se fale em Evangelho. O essencial é que se viva o Evangelho, que se tenha o Evangelho nos atos e nas palavras, no pensamento e na intimidade do coração. Todos precisamos adquirir o hábito da conduta evangélica. Principalmente para aqueles que nos agravam é que precisamos de usar a tolerância esclarecida. Não devemos ceder a doutrinas enganosas, que procuram vicejar à sombra do Espiritismo, tentando enfraquecer-nos o esforço doutrinário. Temos o dever de resistir evangelicamente, usando, em nossa defesa e na defesa do Espiritismo, a Doutrina que nos foi dada pelo Alto, através da Codificação realizada por Allan Kardec.

            A Federação Espírita Brasileira sempre foi uma Casa do Evangelho. Lembramo-nos bem dos vultos que por ela têm passado, palmilhando a senda do Espiritismo Cristão. Lembramo-nos, então, de figuras tradicionais dos nossos meios, como Bezerra de Menezes, Bittencourt Sampaio, Leopoldo Cirne, Antônio Luiz Saião, Guillon Ribeiro, Manuel Quintão, Pedro Richard, Paiva Júnior, além de outros que exaltavam a Doutrina e explanavam os Evangelhos, oferecendo soberbas lições de exegese do Cristianismo segundo o Espiritismo.

*

            Acha-se o nosso mundo em aguda crise desde a última Grande Guerra, melindroso período de transição que o materialismo torna torturante. A Humanidade é presa de uma nevrose que a conduz rapidamente ao desespero. Como sempre acontece durante as crises da Humanidade, surgem pobres irmãos atordoados por confuso misticismo, aumentando a confusão reinante, ajudados pela ânsia indefinível de muitas criaturas que têm olhos de ver e não veem que o que lhes é oferecido não possui consistência nem lógica. Por isto, não são poucos os que se deixam iludir e se põem a acompanhar visionários que estão fora da realidade espiritual. O Espiritismo Cristão, de que a Federação Espírita Brasileira é um símbolo, mostra ao homem o rumo que deve seguir, para que não seja como o navegante perdido na imensidão do mar, sem a bússola retificadora de seu itinerário. No Espiritismo, os homens são secundários, pouco representam, se não corporificam a Doutrina Espírita, se não ilustram sua vida na exemplificação evangélica. Por isto é que não seguimos homens: acompanhamos a Ideia, concretizada na Doutrina codificada por Kardec e nos postulados do Espiritismo Cristão que Roustaing apresentou ao mundo, reafirmando a ciclópica tarefa do Codificador. Precisamos distinguir essa situação que se faz dúbia quando não se possui a compreensão real da importância do Espiritismo na vida individual e coletiva dos homens.

            Quando se fala em Doutrina, quando se alude ao Espiritismo Cristão, a mediunidade ressurge naturalmente, como elemento prodigioso de trabalho, como instrumento magnífico de amor ao próximo, no desempenho da caridade em suas múltiplas formas. O que fica da vida de cada ser humano é o que ele pensa e efetua em função do bem. Quando vemos o esforço quase miraculoso da Assistência aos Necessitados da FEB, compreendemos o enorme prestígio da caridade prática, da caridade objetiva e subjetiva, da caridade em espírito e verdade. O trabalho mediúnico realizado segundo a Doutrina Espírita é sempre um trabalho de caridade, principalmente se assente na orientação evangélica. É preciso, no entanto, que se compreenda perfeitamente a ilimitada extensão do conceito de caridade, que não se resume só em dar pão aos que têm fome e água a quem tem sede. A assistência à matéria não dispensa a assistência ao espírito. Nem tão pouco a caridade se limita a conselhos evangélicos, sem o auxílio material oportuno. Por isto é que no Espiritismo compreendemos a razão impressionante do lema: “Fora da caridade não há salvação.”

            Não se suponha estejamos a dar presumidamente lições aos confrades. Nem se pense estarmos dizendo estas coisas apenas para a meditação dos que nos leem. Dizemo-las principalmente a nós mesmos, porque somos dos mais necessitados de luz e evangelização. Vivemos em tentativas diárias para acertar o passo, mas nunca tivemos em mira, quando escrevemos, ministrar ensinamentos a quem quer que seja, porque, na verdade, estamos na categoria de ínfimos aprendizes, que precisam insistir no estudo e principalmente na exemplificação, para assimilarem um mínimo de tão proveitosas lições de Kardec e Roustaing. O que transmitimos está nas obras assinadas pelo Codificador e em “Os Quatro Evangelhos”. À força de repeti-las, pode ser que o nosso Espírito se beneficie no aprendizado permanente. Cultivar a humildade digna é um propósito que não desejamos esquecer, muito embora nem sempre saibamos dar o testemunho indispensável e falhemos quando mais urgente se torna a demonstração de que efetivamente perseguimos esse intento. Na série de artigos que vimos escrevendo sobre a mediunidade e os médiuns, recolhendo das obras básicas do Espiritismo os argumentos expendidos, temos apenas o objetivo de cooperar de algum modo para ajudar o esforço dos espíritas bem esclarecidos. Sentíamos a necessidade desta afirmativa, porque vemos sempre em nossa lembrança os exemplos magníficos de homens que tanto valorizaram o Espiritismo no Brasil, com o testemunho da humildade e com a humildade do testemunho. A figura tradicional de Pedro Richard, por exemplo, jamais foi esquecida, como não deixa nunca de viver na nossa memória a grandeza moral de Guillon Ribeiro, que sabia esconder sua grande cultura humanística, sua sabedoria, no manto alvo e inconsútil da humildade.

*

            Saibam os médiuns, portanto, que seus compromissos com o presente e o futuro são gigantescos e estão intimamente ligados a compromissos sérios com o passado. Quanto mais se devotarem ao cultivo da Doutrina e do Evangelho segundo o Espiritismo, mais penetrarão no foco de luz que assinala a progressão espiritual. O Espiritismo não teme que o combatam e o neguem, porque confia na sua própria força, oriunda do Alto. E sabe que poderá contar com os médiuns na difusão de seus princípios de paz, amor e compreensão da vida humana em correlação com a vida espiritual. Todos, pobres e ricos, grandes e pequenos, fortes e fracos, indistintamente, terão de tomar o mesmo caminho, porque só há um itinerário para a felicidade humana, que é o Cristo em Espírito e Verdade. Ninguém foge à Lei de Causa e Efeito, porque ninguém escapa à Lei do Progresso, condicionada às reencarnações purificadoras.

            Quanto mais sofre o mundo, mais importante se torna o trabalho dos médiuns. É imprescindível que eles compreendam a magnitude de sua atividade mediúnica e que a exerçam com dedicação crescente e perfeita noção dos deveres determinados na Doutrina Espírita. Para isso, aí está o Espiritismo Cristão, que eleva diante de nós Jesus-Espírito, Jesus-Vivo, Jesus radiante de bondade e amor, fora da cruz, livre da coroa de espinhos! Cumpre aos médiuns, tanto quanto aos doutrinadores, a difusão do Espiritismo, que é o Cristianismo do Cristo, tal como ao tempo da peregrinação visível do Mestre pela Terra!


O Pensamento de Silver Birch (extratos)


O pensamento
de Silver Birch (1) (espírito)...
por Hermínio C Miranda

Trecho de um artigo sob título ‘Lendo e Comentando’
publicado em Reformador (FEB) Junho 1964

            “A morte, ... em certo ponto, é uma liberação: Não chore porque a gaiola se abriu e o pássaro se libertou."

            "Mesmo sem sermos vistos ou ouvidos, conseguimos alcançar-vos, exercendo influência silenciosa, mas real, em vossas vidas, guiando-vos, incentivando-vos, tentando orientar-vos, ajudando-vos a tomar decisões corretas, de forma que o vosso caráter possa desenvolver-se, evolver as vossas almas e encaminhar-vos naquelas sendas que vos habilitarão a extrair da vida tudo quanto seja necessário para o vosso desenvolvimento e compreensão."

            “Quanto maior for o vosso conhecimento das verdades espirituais, maior deverá ser o vosso desejo de servir àqueles menos afortunados do que vós. Não importa qual seja o nome pelo qual designais essas verdades. Não Importa que as rotuleis de política, economia, religião ou filosofia, - isso não tem importância. O que importa é que nossas verdades sejam utilizadas para libertar o mundo de todas as suas injustiças e possibilitar, àqueles que ainda não receberam a sua parte, obtenham a herança a que têm direito."


(1) Do Blog: Silver Birch (espírito) deu larga contribuição psicográfica aos leitores da
revista inglesa ‘Two Worlds’. Por anos, Hermínio Miranda
comentou no Reformador (FEB) a respeito dessa revista.


12. 'Rimas do Além Túmulo' - Ao Papa



12
‘Rimas do Além Túmulo’
Versos Mediúnicos de
 Guerra Junqueiro

Grupo Espírita Roustaing
Belém do Pará 1929

Casa Editora Guajarina

Mensageiro da Paz


Ao Papa,

À luz veloz da ciência, o mundo inteiro
uniu uma doutrina - olímpico luzeiro,
que veio esclarecer o pensamento humano.
E, ante o seu fulgor, ideal, soberano, 
os monstros, os chacais ficaram estarrecidos
-inimigos da Luz, querem estar escondidos
na Treva que ensanguenta o sórdido Passado;
foi em vão que tentaram afogar o brado
que veio despertar da escura letargia
o mundo ignorante que, há séculos, dormia...

E ao crente que acorda aos raios desta Aurora,
não se atira de novo ao letargo de outrora...

Os torpes argumentos falham, são mesquinhos
farrapos em mistura à lama dos caminhos:
ninguém para eles olha: o Porvir, radioso,
esmaga sob os pés um Passado enganoso!

Onde enclausuraste, ó papa, o teu critério?
Se ao passado te chama o vulto de Tibério,
acena-te ao porvir a imagem de Jesus
curvado no caminho ao peso de uma cruz!
Qual preferes dos dois, o Justo ou o criminoso?
Se o Culpado te aponta o poderio, o gozo,
o Redentor te ensina a dar pela pobreza,
cheio de Caridade, essa enorme riqueza
acumulada, aí, no Vaticano - um templo
no qual os santos dão o escandaloso exemplo
da vaidade, cobertos de pedras preciosas,
com mantos de cetim e sedas valiosas,
no largo pedestal de altares cintilantes,
cercados de rubis e d’ouro, diamantes,
-mas, sem fulguração igual ao Nazareno
que espalhou pela Terra o Seu olhar sereno...

A Crença está unida à ciência indiscutível:
descrer do Espiritismo, ó papa, é impossível!
Em face da Verdade, podes duvidar?  
Confessa-te vencido, e desce desse altar;
rasga a púrpura, e veste a mais humilde túnica; 
de Jesus cada servo, na aspiração única
de praticar o Bem, viveu humildemente,
sem taças de champanhe e pipas de aguardente!
Abaixo as sombras tonsuradas de batina,      
ministros que escolheram a risível sina
de querer derrubar, com farsas, o alvião
possante da verdade! Isto, é uma irrisão!
 
Escuta, ó papa: enfim, vou dar-te um bom conselho:
queres excomungar-me? - deixa este aparelho (1)
em paz; olha não vás lança-lo ao Purgatório:
a médium não tem culpa deste palavrório
indiscreto demais, e um poucochinho certo...
Mas, que queres, ó papa, o céu não foi aberto
p'ra mim, e eu não conheço ainda o padre-eterno,
tampouco me lançaram inda no Inferno...
(Então onde estou eu? .. No Espaço, eis a verdade,
no meio de outras Almas, na erraticidade.)

Nota (1) – Alusão à médium, srta. América Delgado, que recebeu estes versos,
em 19 de Dezembro de 1927. Os Espíritos chamam aos médiuns – “aparelhos”.

Achando-se Junqueiro livre da prisão
da Carne, ao Deus de Amor pediu inspiração.
Ideias infernais, de um sonhador antigo,
que após já ter dormido inerte num jazigo;
levanta-se, e vem dar - entusiasticamente
- as RIMAS DE ALÉM TUMULO à liberta gente!

Bem cedo despertou, quem ousa contesta-lo?
poeta que tombou, depois de forte abalo,
e, cansado, vai ter por leito a sepultura;
mas, passada esta fria e trágica tortura,
lobrigando o fulgor de novos horizontes,
ele se extasiou ao pé de claras fontes
de essência - luz, de essência pura da VERDADE!

E bebeu, e bebeu até à saciedade,
da essência bendita, a essência sem par,
como a tonta falena que quer penetrar
no âmago das flores, bebendo o seu perfume...
Como o cego que busca nas trevas um lume
que o oriente, assim o sonhador dizia
alguém que o amparava, alguém que o conduzia:
Como sou pequenino ao pé destas grandezas!
Oh! dize-me por que contemplo estas belezas,
sem poder explica-las? sou analfabeto,
menor que um grão de areia, menos que um inseto!
E assim respondeu-lhe a imagem soberana:
Não tem valor algum a sapiência humana!..

Ó papa, eu não te odeio, quero esclarecer-te;
estas rimas do Além vim lesto oferecer-te,
esperando encontrar em ti um velho amigo.
Papa, eu não te destrato; papa, eu não maldigo:
talvez maldigas, tu, a voz que, desse Além,
ansiosa te chama à prática do Bem!

Sê vigário de Deus, mas vive na humildade;
pisa o báculo, quebra a tiara - Vaidade!
E, se desejas cumprir a cristã missão
das Almas conduzir ao porto - Salvação,
caminha pela Terra aliviando as dores
dos fracos órfãozinhos, entes sofredores
que gemem no silêncio horrível e sombrio,
famintos, maltrapilhos, a tremer de frio!

Coberto com burel humilde de pobreza,
terás, perante Deus, a divina riqueza
da Perfeição, tesouro esplendoroso
que aos Justos proporciona o verdadeiro gozo;
cumprindo a Lei de Deus, trabalha sem cessar,
repele a Farsa feita à sombra do Altar.
A Idolatria ê um crime; as Almas benfazejas
não vivem em altares, não moram nas igrejas!..
E, quando de regresso à verdadeira Vida,
receberes do Alto a benção merecida,
irmão, volve um olhar pela amplidão sem fim...

Não te esqueças, ò papa, orar também por mim!