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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Um estudo sobre aparições -parte 1


Um estudo sobre apariçõesparte 1
Hermínio C. Miranda
Reformador (FEB) Julho 1959

            Mais um livro sobre fenômenos espíritas nos é dado apreciar. Trata-se, desta vez, de obra dedicada exclusivamente às aparições, e foi  escrita por G. N. M. Tyrrell, ex-presidente da Society for PsychicaI Research, da Inglaterra. O livro chama-se “Apparitions'' e nasceu de uma conferência pronunciada pelo autor, em 1942, sob os auspícios do ''Frederic W. H. Myers Memorial". A edição que temos em mão é a que foi revista para o público e veio à luz em 1953.

            Os patrocinadores da publicação - a própria Society for Psychical Research (SPR) - classificam a obra como clássica em sua especialização. Mr Tyrrell é engenheiro eletricista, dedicando-se há muito tempo a esse tipo de pesquisa. Escolheu,  nos vastíssimos anais da Sociedade, os casos mais bem documentados e atestados de aparições, "assombrações" e fenômenos similares, a fim de estudá-los.

            Diz ele: "Fiquei fortemente surpreendido por duas razões: a primeira, de que a evidência era muito mais forte do que eu havia previamente admitido; a segunda, de que essa evidência faz incidir um verdadeiro facho de luz sobre o mecanismo da personalidade humana. "

            Vejamos, pois, o que tem Mr. Tyrrel a dizer sobre o assunto. Em face das credenciais que exibe é de esperar-se importante contribuição no estudo de tais fenômenos. Sobre isso falaremos mais adiante, se a paciência do leitor for suficiente para nos acompanhar.

            Logo de inicio tenho minhas dúvidas de leitor despretensioso, ao notar que o prefaciador da obra, que situa o livro de Mr. Tyrrell em muito boa conta, nos informa que a teoria física para explicação dos fatos registrados nas aparições é "unpromissing", isto é, não tem futuro. Por conseguinte, precisamos - diz ele - procurar uma teoria psicológica. Até aí, muito bem. São pontos de vista. Mas qual a teoria psicológica que resolveram escolher para atacar o problema? Nada mais que a da alucinação, salvo seja. Esse é o ponto de partida de toda a obra, como se pode ver, já no prefácio, que aliás se estende por muitas páginas. O prefaciador é Mr. H. H. Price, Professor de Lógica da Universidade de Oxford. Diz Mr. Price que, “para situar o argumento cruamente, sabemos de outras fontes de evidência, que é possível ver ou ouvir alguma coisa que não está realmente ali". De minha parte, com todo o respeito pela eminente personalidade do autor, eu diria simplesmente que não vejo futuro na sua premissa, porque ele está admitindo, a priori, que a aparição é fenômeno subjetivo, o que vem de encontro aos próprios fatos que Mr. Tyrrell catalogou, como se verá. Mas, vamos devagar.

            Para complicar coisas que, por sua natureza, nada têm de complicado, O Dr. Price tece várias considerações transcendentais, para depois dizer, numa frase curta, como quem liquida o assunto: “We may describe them as telepathic allucinations''. Ou por outra: "podemos descrevê-las (as aparições) como alucinações telepáticas". Para dizer isso, creio, não seria preciso escrever um livro, mas continuemos, pois o livro não e só o prefácio. Logo abaixo, o próprio Dr. Price levanta o caso das aparições post-mortem e se pergunta: "será que a explicação alucinatória serve também para estes casos?" Ele acha que sim, no que parece concordar com Mr. Tyrrell. E se propõe a explicar toda a história. O prefácio vai muito além disto, mas temos que encarar o livro todo e não somente o prefácio.

                                                                       *

            No primeiro capítulo, Mr. Tyrell trata do Recenseamento das alucinações, tal como vem sendo feito minuciosamente pela S.P.R., desde 1882. Em algumas pesquisas levadas a efeito entre o público, verificou-se que 1 pessoa em 10 passa por alguma sorte de experiência desse tipo a que o autor chama "alucinação sensorial". Examina, então, o aspecto estatístico do fenômeno, a fim de verificar, matematicamente, a possibilidade de coincidência. Recai aqui na mesma trilha batida pelos parapsicólogos da atualidade. É o velho desejo de medir tudo, reduzir tudo à escala ínfima da compreensão humana. Mr. Tyrrel, no entanto, tem momentos de lucidez ao afirmar que "a fraqueza da estatística, quando aplicada aos casos espontâneos. está em que ela não se acha em condições de lidar satisfatoriamente com acontecimentos quantitativamente complexos". (pág. 22)
           
            Os resultados estatísticos - a não ser em casos mais simples de cômputo
numérico de cartas de baralho, como nas experiências do Dr. Rhine, por exemplo - apresentam-se, como acentua Mr. Tyrrell, fortemente Influenciados em favor da teoria do acaso.

            Passa, então, o autor a comentar as principais conclusões que ressaltam do estudo de dados acumulados pela S.P.R.. Entre outras coisas, esclarece que as aparições têm maior incidência em torno do momento da morte. Outro aspecto importante, referido pelo autor, é o de que o fenômeno nada tem que ver com a morbidez; ocorre em plena lucidez, com pessoas inteiramente sadias.

            Como não poderia deixar de ser o problema da sobrevivência tinha que vir à tona nestas discussões iniciais. De fato, um relatório organizado sobre as pesquisas feitas informa, a certa altura - deixando ao leitor a liberdade de tirar suas próprias conclusões: "A distribuição das aparições reconhecidas antes, durante e após a morte da pessoa vista fornece argumentos em favor da continuidade da vida psíquica e da possibilidade de comunicação com os mortos. A quantidade de evidência, no entanto, não parece constituir nada parecido com uma conclusão positiva em favor da atuação post mortem.”

            Essa é a maneira, sempre dúbia, de concluir que temos encontrado em trabalhos desta espécie. Falta-lhes a coragem da afirmativa; mostram os fatos mas, no final, como que receosos de serem mal interpretados pela chamada ciência. Oficial, fazem ressalvas cautelosas.

            O próprio Mr. Tyrrell (pág. 27) diz que "um ponto sempre esquecido na crítica do fenômeno psíquico é o de que, se uma crítica séria está sendo tentada, não basta dizer, de maneira generalizada, que a evidência é insuficiente para permitir a conclusão supranormal". E mais adiante: "É necessário, também, mostrar que alguma explicação se adaptará razoavelmente a cada caso."

            Isso é o que veremos se ele consegue, quando aplicarmos, às suas próprias teorias, as condições que ele imaginou como teste para as teorias alheias.

            Quanto à autenticidade dos fenômenos, diz o autor que seria, extremamente ridículo que centenas de pessoas honestas, de reconhecido caráter e integridade e que sempre agiram com absoluta lisura, de repente resolvessem imaginar uma história fantástica para enganar o próximo. Aí está uma coisa que a razão não poderia aceitar. Há um número considerável de casos que se colocam nitidamente acima de qualquer suspeita de fraude, motivo pelo qual sua aceitação é praticamente imposta ao mais refratário racionalista.

            Ao concluir o exame das várias objeções que poderiam ser interpostas, diz o autor (pág. 33): "A principal conclusão que emerge do nosso exame de casos espontâneos é a de que o acaso não pode razoavelmente explicá-los e a de que ninguém, no decorrer de meio século, jamais demonstrou, de maneira séria e pormenorizada, que o acaso é uma explicação razoável."

            É interessante observar, para que fique bem claro no espírito do leitor, que Mr. Tyrrell considera as aparições como fenômeno de considerável importância e que - se satisfatoriamente compreendido é explicado - possibilitaria profundas sondagens no recesso da personalidade humana.

            Já à página 42, começa ele a estudar as diversas teorias explicativas das aparições. Inicialmente  toma a de Myers que, em 1888, decidiu que os fantasmas de vivos ou de mortos são fenômenos telepáticos. (Sempre a confusão entre Animismo e Espiritismo).  De acordo com essa teoria sob pressão de alguma crise, o agente - vivo ou morto - envia uma mensagem telepática ao recipiente que, incorporando a mensagem de forma sensorial, produz o fenômeno da aparição. Mr. Tyrrell acha que a teoria deixa muita coisa por explicar, mas admite que contenha alguma substância. Um dos grandes óbices da hipótese - é ainda ele quem o diz - é o fato de que há considerável número de aparições coletivas. Para  que os fatos se passassem conforme Myers imaginou, seria preciso que a mensagem telepática, enviada pelo agente em crise, alcançasse simultaneamente a todos os presentes e produzisse exatamente a mesma reação psicológica que resultaria na aparição. Convenhamos que é preciso muita boa vontade para admitir tudo isso. Mas, continuemos.

            Outro autor (Gurney), citado por Mr. Tyrrell, ainda complica mais a coisa. Parece uma criança apanhada em mentira e que, para justificar uma, tem que contar mais três ou quatro. Gurney apresenta três alternativas para explicar o fenômeno da aparição coletiva: 1) A presença física do fantasma no local onde é visto; 2)  O agente “A” influencia telepaticamente os receptivos “B”e "C", independentemente, e cada um deles cria sua própria imagem sensorial: 3) O agente  “A" influencia telepaticamente, em primeiro lugar, o perceptivo primário “B", no qual está. Interessado, e este, ao criar sua imagem, transmite a aparição a "C", que repete o processo e a retransmite a "D" e assim por diante. Gurney resume esta última hipótese, dizendo que o processo é uma espécie de "infecção".

            A primeira possibilidade é rejeitada por Myers e pelo próprio Gurney. A segunda é considerada como improvável, principalmente porque, nas aparições post-mortem, seria necessário admitir que a mensagem telepática ficasse retida por algum tempo o que tornaria dificilmente explicável a aparição coletiva, de vez que se teria que fazer coincidir o período de retenção de maneira tal que o momento da aparição coincidisse para várias pessoas.

            Resta-lhes, então, a terceira, por mais fantástica que seja. Pois é a preferida e sobre ela Mr. Tyrrell muito terá que falar através de seu livro.

            As páginas seguintes são dedicadas a minuciosa análise das teorias, especialmente nos casos de percepção coletiva. Não importa que os fatos sejam o mais formal desmentido à absurda teoria.

            É incrível que, dispondo de uma hipótese tão simples e que se ajusta perfeitamente a todos os fatos os chamados homens de ciência se empenhem tão fundamente em procurar explicações das mais complexas, que, somente à força de verdadeiras "marteladas" no bom-senso do leitor, conseguem ser examinadas. Já que se admite, como hipótese de trabalho, a absurda teoria da "infecção" de Gurney, porque não se admitir, na mesma base pelo menos, a da presença física do fantasma, isto é, do Espírito, no local em que ocorre a manifestação.

            Acho dum ridículo espantoso essas discussões acadêmicas. No futuro, muito se surpreenderá o estudioso que se der ao trabalho de examinar a tremenda massa de tolices que se acumulou em torno deste assunto, a tinta que se gastou e o tempo que se consumiu nestas discussões estéreis. A vaidade da ciência oficial se recusa sistematicamente a admitir, até mesmo como simples hipótese, verdades milenares que espíritos livres de preconceitos sempre aceitaram como legitimas. Tal como hoje, ao examinarmos o passado, achamos ridículas e fantásticas as objeções levantadas à ideia de Pasteur, de que os germes causavam a infecção. Naquela ocasião, também, a hipótese mais simples e racional foi afastada em favor de complexas teoria da geração espontânea e outras que tais. O novo conceito, no entanto, impunha uma revisão tão brusca nas doutrinas vigentes, que a vaidade científica não o deixava prevalecer.

*

            No segundo capítulo, Mr. Tyrrell examina as características das aparições, apresentando os casos retirados dos arquivos da S.P.R. . Estuda, em primeiro lugar, a apresentação espacial das aparições que surgem em diferentes tipos de ambientes, cercados de acidentes próprios, fora da perspectiva habitual do perceptivo.

            Em seguida, é estudado o aspecto não físico das aparições. O autor, embora reconhecendo que há aspectos físicos - nas aparições - como no caso de "poltergeist", informa que esse aspecto está fora dos objetivos do seu trabalho. É uma pena e uma falha, porque, se há evidência de caráter físico, este deve ser considerado no conjunto sem o quê, a tese do autor ficará seriamente prejudicada. Mas, vejamos o que tem ele a dizer.

            Em capítulo especial, relaciona as diversas características das aparições, tal como a faculdade de aparecerem e desaparecerem dentro de cômodos fechados, de passarem através de paredes, portas, objetos físicos em geral e também a de serem atravessadas por pessoas, que nelas não encontram resistência, bem como o fato de, algumas vezes, serem vistas ou ouvidas por alguns dos presentes, mas não por outros, etc. Novos casos são apresentados em apoio desses diferentes aspectos.

            A seguir, Mr. Tyrrell estuda o que chama ''imitação da percepção normal", Em sua opinião, as aparições procuram imitar a realidade. À primeira vista, nem parecem fantasmas; mas seres humanos de verdade, chegando mesmo a projetarem sombra, ao atravessarem diante de um foco luminoso, ou a refletirem sua própria imagem em espelhos, etc. Mais casos são relacionados e comentados.

            Outros aspectos apresentados a seguir, dizem respeito à faculdade que têm as aparições de se mostrarem vestidas, cercadas de objetos, animais, etc., Daí a reação de certas pessoas que, segundo Mr. Tyrrell protestam, dizendo que, além de acreditarem em fantasmas, terão também que acreditar em roupas fantasmagóricas.

            Ao discutir o fenômeno da aparição coletiva, Mr. Tyrrell volta a examinar as teorias de Myers e Gurney. O primeiro admitiu, nesses casos, que o agente da aparição - isto é, o fantasma - estava presente "materialmente", mas não fisicamente, no local da aparição. Aí vemos novamente a substituição de um conceito simples por outro mais complexo e de mais difícil explicação. Um grande problema para esses teoristas é apontado por Mr. Tyller: as pessoas que vêm a aparição, observam-na dentro de todas as leis da perspectiva, logicamente colocada no espaço físico, como uma pessoa real.

            Assim, um expectador situado na frente da aparição veria seu rosto, à frente do corpo, etc., enquanto que outro, colocado atrás, veria a parte de trás da cabeça, as costas; um terceiro, ao lado, a veria de perfil - e assim por diante. Corno aplicar, pois a teoria da "infecção" de Gurney? Se a imagem é retransmitida de um para outro, ela deveria ser idêntica. Acho que podemos  estabelecer aqui uma relação curiosa. Um transmissor de televisão envia exatamente a mesma imagem, na mesma perspectiva, no mesmo ângulo, a todos os aparelhos sintonizados com aquela estação. Seria dum ridículo insustentável querermos convencer alguém de que cada aparelho de televisão deveria logicamente receber uma imagem diferente, de acordo com o ponto de vista do telespectador e sua posição no espaço físico. Aqui, como no fenômeno da aparição, o fato é objetivo e não subjetivo a despeito de todas as teorias que se construírem.

            Para sair do impasse Gurney só tinha uma fórmula e usou-a sem a menor cerimônia: duvidou de que os fatos se passassem da forma descrita, isto é, que cada um visse a imagem de seu próprio ponto de vista. Se isso fosse verdade - e é -, então a teoria subjetiva das aparições é uma grande tolice - e é, também. O fenômeno é objetivo, repitamos, Mas, não vamos deixar disparar o carro.

            Mr. Tyrrell acrescenta, mais além, que os vários observadores das aparições coletivas as situam no mesmo ponto do espaço. Em outras palavras, se três pessoas vêem um fantasma sentado numa cadeira de braços, ao canto da sala não há o que contestar; é porque, de fato, o fantasma está ali sentado, quer queiram ou não os teóricos. Se o fantasma se move, os três observadores o verão mover-se e as descrições que fazem concordam, ponto por ponto. Dessas dificuldades não sai Mr. Gurney, o autor da teoria da ''infecção''.

            Ainda no capítulo sobre as características das aparições, Mr. Tyrrell apresenta a descrição do que seria uma aparição perfeita, reunindo para isso todos os elementos que deveriam contribuir para que esse fenômeno ocorresse. São 19 as condições de uma aparição perfeita, segundo o autor. É uma lástima que não as possamos listar minuciosamente para o leitor. Referem-se à sua aparência física, ao modo de andar, aos efeitos de luz e sombra que incidem sobre a figura, ao ruído de suas roupas ao caminhar, ao ruído de sua respiração, se chegarmos bem perto dela, à reflexão da imagem em um espelho, às sombras que projetaria ele. etc. Claro que existem nos arquivos da S.P.R.  casos comprovados de cada aspecto desses. Em outras  palavras, houve aparições que projetaram sombras, que produziram ruídos ao caminhar, que se refletiram em espelhos, etc.. Agora, o que muito surpreende na exposição de Mr. Tyrrell e que nos põe de sobreaviso sobre suas próprias concepções é o que contem o item 11 de suas características da aparição perfeita. Diz ele: "Além de suas roupas, a figura poderá ter outros acessórios, tal como uma bengala ou outro qualquer objeto. E poderia ser acompanhada por um cão ou mesmo por um ser humano. Estes teriam a aparência normal e procederiam de maneira normal. Com respeito à companhia humana, acho que não faria nenhuma diferença o fato de ter ou não essa figura complementar.  Picwick ou Sherlock Holmes fariam o mesmo que Charles Dickens ou Sir Arthur Conan Doyle e teriam a mesma aparência de vida e naturalidade."

            Em apoio dessa suposição, o autor não tem nenhum fato recolhido pela S. P. R.. Caso contrário, tê-lo-ia citado, como os demais. Menciona, porém, Myers e Gurney.

*

            O capítulo terceiro é dedicado à teoria das aparições e o autor envereda por complicadíssimos raciocínios de psicologia para construir os fundamentos das teorias que pretende arquitetar.

            Não creio que o leitor leigo, como eu, tenha algum interesse no esmiuçamento dessas ideias preliminares. No entanto, já à pág. 88, o autor começa a tirar algumas de suas conclusões. Uma delas é a de que as "aparições telepáticas" têm uma origem psicológica e não física; apenas imitam a realidade mas não participam dela. É interessante observar que o autor teve uma intuição do problema, mas não soube ou não quis admitir o fato. Diz ele: "Parece que as alucinações sensoriais são produzidas por um mecanismo semi psicológico - algo que estaria a meio caminho entre a mente e a máquina, isto é, algo com características semi conscientes."

            Nós diríamos que esse mecanismo existe de fato e se chama perispírito. Está localizado  exatamente nas fronteiras entre a matéria grosseira e o espírito imaterial. Quanto ao subconsciente, ou seja, às condições semi conscientes a que ele se refere, acredito que um dia, encontrará a Ciência, no substrato das vidas anteriores o imenso porão da nossa personalidade.

            Não obstante suas ideias sobre alucinações sensoriais e sua admissão do caráter subjetivo (em contraposição ao caráter objetivo) das aparições, Mr. Tyrell relata, às páginas 98 e seguintes, o caso que levou o número 35. Este é um caso deveras importante porque, a meu ver, contem outras implicações que não foram mencionadas pelo autor.

            Trata-se do seguinte: um cidadão, chamado Mr. A., perdeu a vista esquerda numa operação de glaucoma, ao mesmo tempo que a direita ficou seriamente afetada. O centro de seu campo visual era todo obscurecido, como que envolvido em permanente névoa. Quanto ao mais, Mr. A. era uma pessoa perfeitamente normal. Ora, esse cavalheiro, que mal distinguia as coisas, os seres e objetos, tinha visões de extraordinária nitidez, que duravam dias até. Da primeira vez, viu apenas um muro ao longo de uma estrada num trecho que ele tinha certeza de não haver muro algum. E não via como usualmente seus olhos defeituosos mostravam as coisas. Não. Via tudo com nitidez absoluta: as pedras, a argamassa, o reflexo dos raios solares nas pedras. Ocorreu-lhe, então, que, mesmo fechando os olhos, talvez ele continuasse a "ver" o muro. E, de fato, fechou-os e ainda via tudo como dantes. Lá estava o muro, com os mesmos detalhes, brilhando ao sol. Outras imagens surgiriam mais tarde, como a de uma senhora que caminhava à sua frente, tão junto de si que ele mal podia evitar pisar-lhe a cauda do vestido. A saia era vermelha e continha grupos de linhas brancas (um traço largo com duas linhas finas de cada lado). As vestes da moça se agitavam naturalmente, com os movimentos do corpo. Era tudo real, perfeito, sem sombra de dúvida.

            Os comentários de Mr. Tyrrell são deveras surpreendentes. Diz ele que o caso revela a existência, na personalidade humana, de uma completa, maquinaria  para produzir imagens visuais idênticas às da percepção normal, inclusive o ambiente, isto é, o local onde ocorrem as visões e que nem sempre coincide com o plano físico onde se acha o vidente. Acha então, o autor, que por isso, os órgãos não são necessários em tais experiências. Por conseguinte - é ainda ele quem o diz -nada há de supranormal no fenômeno.

            Para início da conversa, acho que seria necessário esclarecer o que se esconde atrás dessa palavra supranormal. A meu ver, a própria classificação de normal e supranormal é arbitrária. Qual o critério adotado pelos que atiram tal ou qual fenômeno para lá ou para cá da linha demarcatória? Não há outro senão o estatístico. Se há uma tendência muito grande, isto é, se o fenômeno ocorrer com relativa frequência (também arbitrariamente estimada ou prefixada), então é normal. Se ocorrer mais raramente, então é tido como supranormal. Tenho a pretensão de achar que esse critério de classificação não resiste à análise séria do raciocínio mo desapaixonado. Há quarenta anos, a passagem de um avião, cortando os espaços, era acontecimento raríssimo e até mesmo considerado impossível por muitos, porque o mais pesado que o ar não poderia logicamente manter-se suspenso no espaço. Como se resolve o problema? O vôo do avião era então um fenômeno supranormal? Sim, se o avaliarmos pelos padrões de Mr. Tyrrell e outros. Não, se o submetermos às imposições do raciocínio. Assim considerados os fatos, fica muito abalado o conceito de supra normalidade, tese que os espíritas jamais reivindicaram. O fenômeno espírita é absolutamente normal na faixa vibratória em que ocorre, embora de incidência estatística relativamente baixa, naquela em que estamos, os encarnados.

            A complicada teorização de Mr. Tyrrell não explica o fenômeno da percepção de Mr. A., um homem que mal podia enxergar com seus olhos físicos. Quer queiram, quer não, a   visão de Mr. A. era um fenômeno objetivo, isto é, o muro lá estava "de verdade", ainda que num plano diferente das realidades físicas a que estamos acostumados, como também lá estava a moça que caminhava à sua frente. Abramos aqui um parênteses, As visões que ele experimentava eram função especifica de seus órgãos perispirituais; os correspondentes órgãos físicos não participavam do fenômeno. A prova está em que, fechando estes, ele continuava a ver tudo com a mesma nitidez e perfeição. A grande significação desta experiência está exatamente na comprovação do fato irrecusável de que o corpo físico é mero ponto de apoio da ação espiritual; simples instrumento grosseiro de que se vale o Espírito para exercer sua atividade física. Enquanto estiver atado à matéria, o Espírito estará mais ou menos limitado a essa contingência, chegando mesmo a perder parte de suas faculdades se desaparecem ou se mutilam os órgãos físicos correspondentes. Dessa forma, a não ser excepcionalmente , como acabamos de verificar, se extirpamos os olhos físicos, a criatura humana deixa de ver, da mesma forma que, se nos deceparem as pernas, deixaremos de andar. A deficiência permanecerá enquanto o Espírito estiver ligado ao corpo físico. Quando se desprender, após a crise da morte, suas faculdades lhe serão devolvidas Intactas, como o tem comprovado as inúmeras comunicações recebidas. Se os nossos pesquisadores modernos quisessem admitir isto, pelo menos como hipótese, dariam um grande passo à frente, porque um dos fundamentos básicos do materialismo científico e pseudo científico está precisamente nessa errônea concepção de que a atividade mental é uma espécie de subproduto da função física. O próprio Dr. Rhine, sobre o qual temos falado em artigos anteriores. vai pelo mesmo caminho ao afirmar que a dificuldade, no enquadramento científico do que chamamos Espírito, está em que o desenvolvimento das faculdades intelectuais acompanha o desenvolvimento do corpo físico e que a privação de um órgão físico acarreta a perda da atividade correspondente. Por conseguinte, dizem os cientistas, a atividade mental é decorrência direta, do mecanismo físico e nada tem de transcendental, como querem os espiritualistas do mundo inteiro.

            Para essas conclusões materialistas concorrem, como estamos vendo, até mesmo os autores que, caolhamente, admitem o fato - porque é inegável -, mas buscam inutilmente explicá-lo com teorias inadaptáveis àqueles mesmos fatos que observaram.


A Ciência à procura do Espírito - parte 2 e final


A Ciência à Procura do Espírito – Parte 2 e final
Hermínio C Miranda
Reformador (FEB) Fevereiro 1959
                      
            O leitor talvez tenha lido, em “Reformador” de Janeiro, alguns comentários despretensiosos sobre a livro “The Reach of the Mind” do mestre americano da Parapsicologia, Dr. J. B. Rhine.

            Logo em seguida ao preparo daquele artigo, proporcionou-me distinto amigo a oportunidade de ler também - desta vez em tradução francesa - um livro mais reoente do Dr. Rhine: “New World of tbe Mind” que, em francês, tomou o título de “Le Nouveau Monde de Esprits”. Ora, entre o primeiro livro citado e este último, vai um espaço de cinco anos, pois que “The Reach of the Mind” é de 1948 e “New World of the Mind”, de 1953. São cinco anos preciosos, em que o Autor estudou, 
pesquisou e teve oportunidade de descobrir novos roteiros filosóficos.

            Claro que não se pode ainda dizer que o Dr. Rhine se bandeou para o campo espiritualista; mas, comparando a substância filosófica dos dois livros, a gente quase que pode sentir a luta do cientista cético, sendo arrastado pela evidência esmagadora, irresistível, dos fatos que ele próprio vai analisando. E por isso, aqui e ali, 
o livro do Dr. Rhine parece algo contraditório, como se o Autor hesitasse 
na escolha de suas conclusões.

            Não sei que tem feito o Dr. Rhine nestes outros cinco anos, de 1953 a 58. Certamente que continua pesquisando, com o critério habitual, e nem sei mesmo onde andarão suas dúvidas, no momento. Rogo ao leitor paciente um pouco de sua atenção para percorrermos. na companhia do Dr. Rhine, o campo de pesquisa, tal como se desdobrava aos seus olhos há cinco anos.

*

            Logo no pórtico de seu livro, o Dr. Rhine fixa o objetivo da obra, que é o de reunir os fragmentos existentes sobre o assunto da Parapsicologia, indicar seu lugar no quadro do conhecimento e avaliar sua importância para a vida humana. O Dr. Rhine reconhece que esses fragmentos começam a mostrar - mesmo ao frio pesquisador - indícios de um desenho regular. Ele está sentindo as primeiras alegrias do homem que começa a acertar com o caminho. porque vislumbrou uma luzinha bruxuleante, lá na frente. A nota dominante de seu livro é o combate ao materialismo cego, que ele encontrou especialmente entre seus colegas cientistas e, no meio destes, de modo muito particular, entre os psicólogos.

            Nada de otimismos exagerados, porém, leitor espírita. O Dr. Rhine ainda não está preparado para dizer ao mundo aquilo que nós sabemos: que o Espírito é uma realidade, que sobrevive à desintegração do corpo físico. Suas perplexidades ainda são muitas, tal como suas dúvidas e reservas. Mesmo depois de muito observar e catalogar fenômenos, documentá-los, analisá-los, ele ainda hesita em tirar dos fatos as conclusões óbvias que eles indicam. Suas observações 
vêm cheias de ressalvas, temores e reticências. 
Mas, não nos antecipemos.

*

            No primeiro capítulo, o Dr. Rhine informa que não se trata de um mundo inteiramente novo para a Ciência. Em todos os tempos tem havido manifestações espontâneas, que a História conservou em seus registros. A seu ver, o mérito das experiências espontâneas está justamente no fato de haverem provocado o interesse da Ciência pelo assunto. Daí o nascimento da Parapsicologia. Cita casos, colhidos por ele mesmo. É uma pequena amostra desses muitos milhares de casos que todos nós conhecemos, que estão acontecendo diariamente, conosco, com pessoas conhecidas, parentes, amigos: premonições, visões, manifestações, enfim, de toda ordem. Tais fenômenos. a que ele também chama psíquicos, não somente são inexplicáveis, a seu ver, como ainda “são absolutamente impossíveis, se as concepções do mundo e do homem, ensinadas pelos manuais existentes, estão corretas”. Donde se 
conclui que os manuais precisam ser retificados, acrescentamos nós.

            O Dr. Rhine começa então a discutir o estranho paradoxo de que até mesmo na Psicologia, ciência da natureza humana, predominam as cegas concepções materialistas. Fechadas assim, na estreiteza de seus limites, as escolas psicológicas tornaram-se exemplos vivos da mais legitima antítese do espírito científico, chegando ao cúmulo de decidir que tudo quanto não admita explicação física sofre 
suspeição de supra-naturalismo. 
Isto, numa ciência que cuida da alma, é imperdoável.

            Ora, os exemplos citados e alguns que o Autor cita mais adiante, são absolutamente inexplicáveis, dentro dos processos materiais. A alternativa é lógica e o Prof. Rhine a apresenta com suas habituais reservas, nestes termos: “Esses casos e uma multidão de outros semelhantes levam inegavelmente a pensar (não digo que eles demonstrem) que certas pessoas são às vezes tomadas de uma consciência perceptiva que lhes traz uma revelação, etc...” Notem as reservas, mas também a atitude de quem não pode e não quer deixar de admitir a verdade dos fatos.

            Falando depois sobre telepatia, ele vai um pouco mais longe, ao afirmar que “casos do que parece ser um contato entre espíritos, além da barreira do espaço, mais ainda que a própria clarividência, levam a pensar que existe, no espírito, algo que escapa às sujeições da matéria, impressionando as funções sensoriais. Permitem 
crer numa certa separação, pelo menos funcional, do espírito e do corpo”.

       Convenhamos que já é uma grande concessão para um cientista que admite, claramente, seu próprio ceticismo.

       Mas, o Dr. Rhine lamenta que existam ainda tantas barreiras ao progresso 
mais rápido da Parapsicologia. A seu ver, seria preciso, inicialmente, 
que se separassem nitidamente as duas noções: a de espírito e a de pessoa. 
Só assim poderiam ser ultrapassadas os limites atuais das pesquisas 
parapsicológicas... Suas dúvidas, no entanto, levam-no 
a inexplicáveis contradições, pois que, após fazer tantas afirmativas seguras, 
sai com um disparate, dizendo que as pesquisas estão 
mais ou menos paralisadas, no momento, porque 
ninguém sabe se existe mesmo o espírito, 
no sentido segundo o qual o entendemos”.

*

       Logo em seguida, retomando o fio da discussão, informa que a confirmação “aparente” (note-se a ressalva) da sobrevivência se encontra 
em toda uma série de casos inexplicáveis. 
E cita alguns casos de efeitos físicos, como de louça partida, 
quadros desprendidos da parede, pêndulos paralisados, etc. 
exatamente no instante em que ocorrem mortes, acidentes, ou outras emoções profundas com pessoas amigas, a distância. 
Ainda sobre esses casos, o Dr. Rhine reclama 
a necessidade de um estudo mais metódico do fenômeno, 
pois que não é possível qualquer progresso, 
quando os cientistas fecham os olhos a todos os fatos estranhos
produzidos pela Natureza e se recusam a estudar o que não podem explicar satisfatoriamente. Muitos chegam mesmo a declarar que tais fatos são impossíveis.

       O que é, de fato, impossível é analisar uma obra tão rica em sugestões, 
como a do Dr. Rhine, num comentário que, afinal de contas, 
precisa estar contido dentro de certos limites. Vamos prosseguir.

       Nas páginas seguintes, o Dr. Rhine se propõe a dizer alguma coisa sobre as conclusões a que chegou, depois de analisar o resultado dos inúmeros  
testes realizados com seres humanos normais 
(o grifo é meu e sobre o assunto ainda se dirá algo mais adiante). 
Confessa o Dr. Rhine que examinou todas as hipóteses que poderiam explicar os fenômenos ou que tenham sido até aqui invocadas para explicá-Ios. 
As hipóteses que acolhi - diz ele - não haviam sido consideradas
 como razoáveis até aqui, a não ser nos domínios da Religião.
 Mas elas foram verificadas pelos métodos mais rigorosos
 da investigação experimental.”

       O capítulo seguinte nos conta as dificuldades 
que a Parapsicologia está encontrando, 
da maneira mais paradoxal do mundo, entre os psicólogos. 
Nós outros, que conhecemos 
a cega e fatal resistência que as religiões dominantes 
oferecem ao progresso do Espiritismo, simpatizamos com o Dr. Rhine. 
O normal seria que justamente entre os psicólogos fosse a Parapsicologia
 encontrar seus mais firmes defensores e os maiores interessados em seu progresso, Engano, leitor amigo: o que existe é uma tremenda reação, 
que muito surpreende o Dr. Rhine mas não aos veteranos batalhadores da causa
 espírita. Já sabemos - após um século de lutas - 
quanto têm custado as nossas vitórias. 
A Parapsicologia também terá que lutar pelas suas. 
E o combate mais renhido e mais desleal a espera justamente no campo
daqueles que mais aptos estão para estender-lhe a mão.

       Numa enquete feita nos Estados Unidos, de cada três psicólogos um declarou que estava convencido de que não se produzia nenhum fenômeno extra-sensorial, 
mesmo sem se darem ao trabalho de examinar sequer os resultados 
e os relatórios organizados sobre as exaustivas pesquisas feitas. 
É inacreditável semelhante atitude da parte de homens que se dizem cientistas. 
Há mais, porém. Um deles, examinando os trabalhos do Dr. Rhine,
escreveu extenso arrazoado, concluindo que seus 
critérios externos de Física e de Psicologia dizem que ela 
(a percepção extra-sensorial) não existe, a despeito dos fatos relatados. (!)
 É até ridículo que um psicólogo, isto é, 
um cidadão que tem por obrigação conhecer um pouco da mente humana, 
nos venha afirmar, como qualquer materialista ignorante, 
que não acredita na percepção extra-sensorial porque
 os fenômenos respectivos não podem ser materialmente explicáveis. 
Afinal de contas, esses homens cuidam da Psicologia, 
que, por definição, é a ciência da alma, 
do comportamento humano e não da Biologia ou da Fisiologia.

       O fato certamente chocou o Dr. Rhine, que se mostra algo irritado com seus colegas, chegando a dizer, de maneira bastante justa e pitoresca, que esses homens “estão serrando o galho sobre o qual se acham sentados”.

       Particularmente, acho que as religiões dominantes estão sentadas nesse 
mesmo galho. Sobre esse tema solicito ao leitor paciente que aguarde outra oportunidade para conversarmos melhor.

*

       O Dr. Rhine faz extensos comentários sobre a atitude surpreendente dos psicólogos, dizendo que o preconceito materialista é universal. Alguns cientistas ainda se deixam convencer, quando colocados diante dos fatos; outros se recusam terminantemente a admitir os próprios fatos. Sem dúvida que, 
esperar que fatos psíquicos se encaixem, 
como peças de “puzzle” no quadro da ciência materialista, 
é o cúmulo da tolice, por mais erudita que seja essa tolice. 


       Em todo caso, o Dr. Rhine se consola ao afirmar que, em 1938,  8.8% dos cientistas consideravam a hipótese da percepção extra-sensorial como fato estabelecido,
 enquanto que, em 1952, a percentagem havia subido para 16.6%.  Ainda bem. 
A verdade vai-se impondo, lenta mas seguramente.

       O Autor continua doutrinando, aparentemente para seus colegas recalcitrantes, 
e acrescenta que a “percepção” extra-sensorial é hoje um fato experimental.
 O postulado metapsíquico, que pretende que todo testemunho da lei natural seja material, é falso. As hipóteses devem ceder diante dos fatos que as contradizem, 
senão a Ciência deixará de concordar com as realidades da Natureza ...” 
E adiante: “os psicólogos se aperceberão de que dizer que toda a Natureza deve ser material não era senão uma hipótese de trabalho da qual se tem abusado demais”.

       Em seguida ele relaciona os homens eminentes da Ciência que, 
nos tempos correntes. se têm dedicado seriamente ao estudo
 da Parapsicologia e concluído pela sua legitimidade.

       O capítulo conclui afirmando que já se dispõe de uma base sólida de fatos experimentais que confirmam pelo menos algumas das hipóteses sugeridas pelas experiências psíquicas espontâneas.

*

       O capítulo seguinte estuda as fronteiras atuais das pesquisas. Seu objetivo inicial é 
o de estabelecer distinção nítida entre telepatia e clarividência, de um lado, 
e o a que ele chama “precognição” e “psicocinesia”, de outro. 
Creio que são detalhes técnicos que interessam mais ao leitor especializado que nós, simples homens da rua em busca de esclarecimentos gerais.

       Não obstante esse capítulo contém alguns comentários preciosos sobre psiquismo e patologia, que convém ser referidos nestas notas. Ao contrário do que certos pseudo-cientistas apregoam - especialmente aqui no Brasil -, e certamente ao contrário do que muitos dos respeitáveis senhores da Igreja gostariam que fosse, as 
faculdades parapsíquicas não são sintomas de doenças nervosas é não se 
enquadram nos domínios da Psiquiatria e da Psicologia  patológica. 
Raras vezes o Dr. Rhine é tão enfático, tão positivo no que afirma, 
como neste ponto. “É  indiscutível, diz ele, que, no estágio atual das pesquisas,
 não encontramos nada que permita ligar as funções parapsíquicas
à psicopatia ou a quaisquer “anomalias”. (Pág. 114.)

       Martelando várias vezes a mesma tecla, ele insiste em outras palavras: “não existe incontestavelmente, razão alguma para duvidar delas (experiências psíquicas espontâneas) nem de as considerar como mórbidas”. (Pág. 116.)

       Mais abaixo, na mesma página, afirma novamente o mesmo pensamento, 
ao dizer que algumas pesquisas foram feitas em hospitais de alienados, nos 
Estados Unidos e na Europa. Sua conclusão: “O menos que se pode dizer é que não há nenhuma razão especial em procurar, entre os doentes mentais, aptidões 
parapsíquicas excepcionais.” Pelo contrário, como adverte mais além, quanto 
mais bem adaptado o indivíduo, maiores são suas chances de êxito” (pág. 117). 
E ainda (pág. 118): “Assim, então, o parapsiquismo é normal. 


       Julgo oportuno insistir nesse pormenor. Creio que já é tempo de aconselhar 
nossos inimigos a abandonarem o tolo argumento de que Espiritismo é sinônimo de loucura. Se a afirmativa já era inútil, tornou-se inconveniente, 
nestes últimos tempos. É bom recolher o argumento ao museu de inutilidades 
e colocá-lo perto daquele outro que afirmava ser de origem demoníaca
o fenômeno espírita.

*

            No capítulo seguinte, na segunda parte do livro, o Dr. Rhíne se propõe a analisar a realidade imaterial da Natureza. Mais uma vez volta ao tema da reação 
dos psicólogos aos fatos da Parapsicología. “O que é surpreendente, diz o Dr. Rhíne, 
é que não são os físicos mas os psicólogos, que têm protestado mais vivamente 
contra a conclusão de que o parapsiquismo transcende a explicação física.” (Pág. 165.)

       O certo é que os fatos são incontestáveis. “No momento, devemos concluir que 
há, nos resultados dos testes parapsíquicos, alguma coisa que exige um tipo ou 
uma ordem de realidade extra-física. Que o futuro da Física e o futuro da 
Parapsicologia se arranjem.” (Pág. 166.)

       Passa, então, o Dr. Rhine a discorrer sobre o lugar do parapsiquismo na ciência da vida. Sente-se, logo de início, sua dificuldade em explicar o fenômeno biológico 
da formação do corpo físico, que para nós, espíritas, está luminosamente claro 
desde que se revelou a existência do perispírito. Pergunta o Dr. Rhine: “Que forças, 
por exemplo, organizam as substâncias que constituem os organismos vivos e 
criam as formas que eles apresentam? Como podem tomar as características 
das espécies e como são elas conservadas e transmitidas em potencial, através 
de todos os estágios da reprodução? Para muitas outras questões deste gênero, 
ainda não encontramos resposta.” (Pág. 174.)

       Confessa também seu embaraço para explicar, entre outras coisas, 
a diferença final entre uma célula viva e outra morta. 
Conclui que muito poderá esperar
 a Biologia dos resultados que a Parapsicologia está colhendo. 
Ele próprio acha que os mestres da Biologia têm demonstrado 
menor dose de hostilidade em relação à Parapsicologia, 
que os psicólogos, o que é encorajador.

*
       No capitulo sexto, o Autor estuda parapsiquismo, psiquê e psicologia. Ainda uma vez insiste em falar sobre os psicólogos, que transformaram uma ciência da alma, como a Psicologia, em uma ciência sem alma, de vez que passaram a se interessar mais pelo comportamento da pessoa humana que pela estrutura imaterial dessa mesma pessoa. Mais além, protesta contra o postulado materialista de que toda a vida mental 
está contida implicitamente nos princípios físico-químicos da Neurologia. 
Nesse caso,  bastaria conhecer bem o cérebro humano 
para decifrar todo o mistério da vida mental. 
E os fenômenos comprovados que desafiam explicações físicas? 
Que fazer com eles? Ignorá-los, à maneira da avestruz, 
não é solução, nem mesmo seria atitude científica.

       A página 213, numa espécie de profissão de fé, o Dr. Rhine confessa que não é 
espírita nem espiritualista, em nenhum sentido rias palavras, “mas que, sem dúvida, “existe uma realidade que domina o Universo em toda a sua importância e 
não há outro recurso senão chamar a essa realidade espírito humano”.

*
       Na terceira parte do livro, o Dr. Rhine analisa a importância do parapsiquismo 
para a vida humana. Em seguida, no sétimo capítulo, 
trata de sua importância para o mundo da religião.

Recorda que, em seu livro “The Reach of the Mind”, sugeriu que a Parapsicologia está para a Religião como a Biologia para a Medicina ou a Física para a Engenharia. 
Não tem ilusões, porém: sabe que “será vão esperar que as organizações religiosas estabelecidas realizem tais pesquisas. Os principais objetivos das organizações
humanas de toda natureza são os de se conservarem e se perpetuarem. 
Seria vão perder tempo em imaginar que elas pudessem ser realizadas dentro de uma religião, sob a direção de sua hierarquia estabelecidas. Quanto a mim 
vou mais longe, em face do que temos presenciado: as religiões não 
somente evitarão a todo custo dar um passo para esclarecer o assunto, como, ainda, farão o possível para retardar a marcha das pesquisas 
que trazem a verdade em sua esteira.

E ainda acrescenta, o professor Rhine esta advertência de profunda significação e oportunidade: E, contudo, eu acho que a Religião tem hoje necessidade - e 
uma necessidade urgente - de toda a ajuda que lhe possam fornecer os melhores métodos de descoberta da verdade, nos domínios aparentados das pesquisas 
com ela relacionadas. Um desses, e o mais lógico, é o da Parapsicologia, 
sua parente natural.” (Pág. 227.)

       Segundo o Autor - em sua insuspeitíssima opinião - uma crise desse gênero 
está causando sérios danos à Religião. A verdade, continua, é que as religiões 
não estão mais à altura das contingências do mundo atual; encontram-se num 
estado de impotência para realizar seu grande objetivo social: paz e fraternidade.
 O próprio Comunismo, segundo o Autor, é uma conseqüência da, ou por outra, 
tornou-se possível somente à vista do fracasso das religiões, 
pois que um povo religioso não se deixaria levar pela ilusão comunista.


Por outro lado, “há uma grande coisa que a Ciência pode fazer pela Religião: 
é descobrir, por métodos científicos. um elemento extra-físico no ser humano” 
(pág. 231). Não resta dúvida de que, pelo menos no mundo ocidental, 
a maior inimiga da Religião é a filosofia materialista. Pois bem. “
É impossível - diz o Dr. Rhine – deixar de concluir que, no ser humano, ocorrem fenômenos que transcendem as leis da Matéria, o que implica, por definição, uma lei imaterial ou espiritual.” (Pág, 231.)

       Muitas questões embaraçosas para as religiões são discutidas neste capitulo, 
mas seria impraticável comentá-lo mais extensamente. 
Não se pode, no entanto, deixar de referir algumas, como, 
por exemplo, a que afirma a necessidade de evolução das ideias religiosas; 
se a Humanidade teve que abandonar o cabriolet a cavalo 
e a vela de sebo, porque não abandonaria 
conceitos filosóficos e religiosos inteiramente obsoletos.
Outro: “sobre que bases sólidas de conhecimentos uma religião funda um dogma? 

“Salta aos olhos que grande parte das ideologias, nas quais a Humanidade tem depositado sua confiança, não têm mais valor.”

       É agora que podemos acrescentar que não somente os psicólogos, mas também os representantes das religiões estão serrando o galho em que se acham sentados.

*

       No capitulo seguinte – “Relações com a saúde do espírito - o Dr. Rhine volta a 
insistir de ponto de vista de que as faculdades parapsíquicas nada têm a ver com a histeria e com as moléstias mentais. No século passado - o que de certa forma ainda persiste neste - acreditava-se que havia qualquer coisa de anormal nas referidas faculdades. É impressionante a insistência do Dr. Rhine neste ponto. 
Ninguém revelou qualquer relação de causa e efeito entre
 a patologia e a percepção extra-sensorial”. (Pág. 250.) Ou ainda: 
“se houvesse (alguma relação), os parapsicólogos concentrariam
 suas pesquisas nos hospitais de doenças mentais, 
onde encontrariam terreno mais vantajoso para suas investigações.” (Pág. 251.)

       Nas páginas finais o Dr. Rhine lança uma respeitável parcela de crédito à conta do Espiritismo, quando afirma: “Seja o que se possa pensar hoje, o movimento 
espírita contribuiu poderosamente para a organização do estudo dos fenômenos 
psíquicos e para a fundação de sociedades que se têm ocupado disso, 
desde o último quartel do século XIX.”

       É de se lamentar o precário conhecimento que o Autor tem da Doutrina Espírita. Algumas de suas observações são até mesmo incongruentes de modo especial 
quando discorre a respeito do problema da sobrevivência. Acha ele que o
 interesse do público e o dos próprios cientistas se tem concentrado mais na 
faculdades parapsíquicas que na mediunidade. Poderíamos recomendar 
ao Dr. Rhine os magníficos trabalhos de Aksakof e Bozzano, sobre Animismo e 
Espiritismo, pois que está evidenciado que o Autor não conseguiu ainda estabelecer distinção entre esses dois fenômenos, misturando-os lamentavelmente. Daí tirar 
esta conclusão que a verdade dos fatos de forma alguma poderia sustentar:
 “No conjunto, a hipótese da sobrevivência se encontra na situação mais 
desfavorável de sua história. 0s antigos estudos da mediunidade não são 
concludentes e não têm nenhuma “chance” de serem repetidos.”  Onde foi o 
Dr. Rhine buscar os fatos para essa afirmativa tão extravagante, 
sem substância e anti-científica? Continua dizendo que, a seu ver, 
questão da sobrevivência não constituirá o objeto principal das 
pesquisas futuras, que se concentrarão em assuntos mais promissores.

       No entanto, reconhece que o problema não pode ser enterrado sumariamente . Ele próprio tem catalogados mais de 3 mil casos que, segundo suas próprias palavras: “... sugerem fortemente a ação de qualquer fator espiritual... ((Pág. 306.) “Muitos não parecem explicáveis, tal como estão relatados, senão por um agente 
desencarnado, admitindo-se que tais fatos tenham sído bem relatados. (Pág. 306.) 
Em um dos casos, confessa o Dr.Rhine, “a intenção manifesta, atrás do efeito 
provocado, é tão própria de uma pessoa defunta, que não saberíamos 
razoavelmente atribuir-lhe outra origem.” Há ainda; prossegue o Autor, 
casos em que o médium é uma criança ou um estranho, ignorantes de toda a
 filosofia espiritualista e desprovidos de toda motivação ostensivas”.

Ou então: “casos desta natureza (ele acabou de citar alguns) fazem pensar 
num agente pessoal dum gênero que não pertence verossimilhantemente a
 nenhum indivíduo vivo. Eles levam a perguntar se um comportamento 
post-mortem ou espiritual é mesmo possível.” (Página 310.)

            Logo a seguir (pág. 312) informa que, a seu ver, a descoberta de “alguma coisa” cujas propriedades sejam inteiramente diferentes do corpo é fundamental à 
hipótese da sobrevivência. Mal sabe o Dr. Rhine que essa “alguma coisa” existe comprovadamente, para quem quiser ver". Falta-lhe conhecer ou admitir, à vista 

dos fatos observados, a existência do corpo perispiritual, que certamente lhe forneceria o elo faltante em suas pesquisas sobre o assunto.

*

 A nota final do livro contém certa tintura de humildade, que ficou bem. Diz o Autor que ainda é muito pouco o que se fez no domínio da pesquisa parapsíquica. 
Há, porém, um vasto mundo a ser explorado e os novos mundos “suplantam sempre os sonhos mais magníficos do aventureiro que os descobriu.  É nesta consciência de superioridade da verdade, sobre as mais queridas esperanças, que a Parapsicologia encontra encorajamento e confiança.” (Pág. 318).

E assim, amigos, procuramos, dentro da humilde condição de nossos 
conhecimentos, dar uma ideia do estado das pesquisas no domínio do espírito humano. Vemos que os cientistas ainda estão tateando 
nas profundezas desses domínios. Quem conhece porém, 
a revelação dos Espíritos, sabe, com segurança, 
quais serão as conclusões finais da Ciência, 
porque o homem precisa ficar com o ônus de seus erros 
e com o mérito de suas vitórias; ele tem o direito de errar porque isso é de sua própria condição humana, mas não dispõe de poderes para 
retardar indefinidamente a marcha da verdade.

Graças a Deus, acrescentamos tranquilos e confiantes.