Pesquisar este blog

terça-feira, 3 de setembro de 2013

'Médiuns, ontem e hoje'

‘Médiuns,
ontem e hoje’


            Decididamente você tem razão ao se reportar à felonia sutil dos adversários gratuitos do Espiritismo, quando expõem os médiuns da atualidade a toda sorte de injúrias.

            “Basta que alguém se disponha a servir entre as duas esferas, para que se lhe amargue a vida, que passa, então, a ser criticada e policiada por toda a gente” - afirma você com larga dose de pessimismo.

            Entretanto, se meditar demoradamente, cotejando, a posição dos médiuns de hoje com os médiuns de ontem, reconhecerá que as dificuldades modernas são simples operações do campo opinativo, resultando sempre em propaganda maior das verdades eternas, enquanto que os entraves do pretérito emolduravam invariavelmente a asfixia da revelação e a morte dos medianeiros.

            Há pouco mais de duzentos anos, Espíritos notáveis, quais Voltaire e Benjamim Franklin, já se encontravam no mundo trabalhando pela libertação mental do povo; todavia, quem nessa época se atreveria a falar na sobrevivência da alma, sem os figurinos teológicos? quem poderia enunciar conceito mais amplo da fraternidade humana ou referir-se aos fundamentos da evolução?

            Perseguidores sistemáticos mantinham-se a postos.

            Tudo o que escapasse ao metro estabelecido para os assuntos da fé transpirava heresia. E desde o Tratado de Paris, em 1229, assinado sobre o sangue dos albigenses, a Inquisição havia nascido para depurar os hereges e acomodá-los às trevas da intolerância.

Albigenses sendo queimados



            Quem procurasse enxergar a verdadeira posição de Jesus, quem se propusesse à livre interpretação das letras sagradas, quem admitisse a dignidade individual nas vítimas da escravidão e quem se abalançasse a mostrar faculdades medianímicas era chamado a inquéritos aviltantes, padecendo, de imediato, a segregação em masmorras inacessíveis, sob o capricho delituoso de príncipes e sacerdotes, magistrados e qualificadores inconscientes. E consumada a detenção da criatura infeliz, que se dispunha a pensar por si, começava o suplício lento pelo qual as autoridades caridosas disputavam a Satanás a alma cândida e valorosa que persistia em acreditar na liberdade do pensamento. Iniciava-se o processo condenatório, a preço de confissões extorquidas à fome, quando os instrumentos de martírio não funcionavam em recintos infectos, nos segredos da noite. Encarceravam-se lhe os parentes, para informes especiais. Arrancavam-se depoimentos de réus contra réus para que as indicações caluniosas alcançassem o objetivo. O ódio começava as sentenças para que o medo as completasse. E estabelecida a suposta criminalidade da vítima, confiscavam-se lhe os bens, que passavam, quase sempre, ao domínio dos delatores, erguidos à condição de profissionais da mentira e da infâmia, com vistas a escusos fins.

            Se o condenado era homem, mais depressa era arrancado à cama podre do cárcere para a fogueira conveniente; mas, se fosse mulher, ampla demora experimentava no calabouço, para que se lhe profanassem os sentimentos, pelos aguilhões da necessidade, ou pelo acicate do desespero, antes que fosse entregue ao socorro da morte.

            Aos padecimentos físicos e morais, nas celas apertadas e fétidas, acrescentava-se o estigma sobre os descendentes que, fora das grades, eram compelidos a exílio certo pelo sarcasmo do populacho, e a muitos deles, para que se lhes terrificasse o ânimo, enviavam-se, de antros invioláveis, os cabelos e os olhos, as orelhas e as mãos de pessoas queridas, quando os prisioneiros se extinguiam de dor, sem possibilidade de exibição pública nos solenes autos-de-fé.

Cátaros sob tortura


            A degradação extrema e o flagelo irremediável constituíam, em quase todas as linhas da Civilização, há somente dois ou três séculos, resposta legal a todo impulso de emancipação religiosa, com os mais celebrados tribunais de tortura, em nome do Cristo, o divino condenado à morte por haver ensinado a paternidade de Deus, a responsabilidade da consciência e o amor puro entre os homens.

            Como vê, não precisamos desenterrar o passado para evidenciar as novas e sucessivas conquistas da Humanidade e exaltá-las com a nossa admiração.

            Não podemos negar que os médiuns da atualidade estão expostos à incompreensão é à ironia de muitos, pois a ignorância é joio habitual na lavoura do progresso; entretanto, a lógica vem subindo de cotação entre os homens e todo intérprete dos desencarnados, no Espiritismo, pode responder, com a palavra inarticulada do dever nobremente cumprido, às campanhas de insulto e difamação, reconhecendo-se que a criatura humana não vale simplesmente pelos princípios que exponha, mas, acima de tudo, pela vida que se decide a viver.

            Dito isso, meu caro, e para que não nos alonguemos em ociosa argumentação, conduzamos nossa bandeira de imortalidade para diante, oferecendo ao Cristo e ao próximo o melhor de nós mesmos, a cavaleiro da calúnia e da crueldade, porque, enquanto o mundo não se houver convertido em Reino de Deus, a boca da maledicência na Terra é como a boca da noite que não se fecha para ninguém.


Irmão X
por Chico Xavier

in Reformador’ (FEB) Outubro 1958

'Confissões Negativas de Médiuns'

O Rei Midas e sua filha de ouro


Confissões
Negativas de Médiuns
Cristiano Agarido / (Ismael Gomes Braga)

Reformador (FEB) Outubro 1958

            De tempos a tempos os adversários do Espiritismo fazem publicidade em torno da confissão de um médium que teria dito ser fraude tudo que ele fez como médium.

            Examinemos um pouco mais profundamente o valor que têm tais confissões, sejam elas reais ou imaginárias.

            A primeira, e também a mais sensacional, foi a de Margarida Fox, há quase um século, confissão aliás posteriormente anulada por ela mesma.

            Teria dito aquela moça que os “raps” eram produzidos por fraude. Mas por meio daquelas pancadas ou “raps” um Espírito contou sua história que ficou registada na literatura do tempo e pode ser resumida assim:

            Ele havia sido um vendedor ambulante e fora assassinado na cabana de John Fox, anos antes, quando lá residia o casal Bell. Seu cadáver e seu baú de mercadorias teriam sido enterrados no porão daquele barracão, informava ele por meio de pancadas.

            Feitas escavações no porão, não se encontrou o cadáver nem o baú.

            Meio século mais tarde, em 1904, naquele barracão abandonado e em ruínas desmoronou uma parede falsa interna do porão, pondo à vista o esqueleto do antigo vendedor ambulante e seu baú, lá escondidos uns sessenta anos antes.

            As Irmãs Fox já haviam desaparecido do cenário da vida física, mas a revelação recebida por elas, quando mocinhas, ficou perfeitamente comprovada, contra toda e qualquer confissão em contrário. Que valor teria tal confissão? Tal confissão teria sido inteiramente falsa, em oposição a fatos reais e indestrutíveis.

            Imaginemos que um belo dia, lá pelo ano de 1990, o Sr. Francisco Cândido Xavier, já velho e caduco, diante de um tribunal inquisitorial ou não, declarasse que toda a sua obra mediúnica foi simulação, que ele era 100% materialista, etc. etc.

            Quantas pessoas, como o autor destas linhas, teriam o dever de negar qualquer valor a essa confissão e de demonstrar com fatos que ela faltava com a verdade!

            Contam-se por milhares as criaturas que receberam mensagens particulares de parentes e amigos, com nomes próprios de pessoas e lugares desconhecidos do médium, em estilo e grafia que identificam esses mortos, dos quais não poderia o médium possuir nenhuma informação.

            Nos conselhos recebidos desses parentes e amigos falecidos, por vezes há assuntos totalmente desconhecidos do' mundo, absoluto segredo do Espírito comunicante.

            Essa documentação, formada por milhares de comunicações particulares, é absolutamente indestrutível. Contra ela não há confissão que valha.

            Os livros por ele recebidos, e que formam uma biblioteca enciclopédica, revelam conhecimentos perfeitos de Biologia, Anatomia, Filosofia, Religião, História, Literatura, que reclamariam a colaboração de uma dezena de estudiosos.

            Os sacrifícios pessoais do Sr. Francisco Cândido Xavier, em favor de sofredores, revelam uma convicção, uma fé religiosa inabalável, fundada em fatos de sua própria observação; demonstram que o primeiro convertido pela sua mediunidade é ele mesmo.

            Seu alto nível moral, seu absoluto desapego pelas coisas materiais, sua conduta sempre irrepreensível, em perfeita harmonia com a doutrina recebida, revelam que ele é um espírito superior, incapaz de enganar a quem quer que seja.

            Se um dia esse homem enlouquecesse e desdissesse a obra imensa e construtiva de toda a sua vida, a demência ficaria evidentemente demonstrada, mas a obra permaneceria inabalável como está hoje, produzindo sempre os melhores frutos.

            Tais confissões não têm valor algum no caso dos grandes médiuns espíritas e muito menos quando partidas de verdadeiros irresponsáveis; destes, não valem afirmações nem negações: a palavra deles, em qualquer sentido, não merece fé.

            Mesmo os mais cépticos experimentadores já não admitem há muito tempo a grosseira hipótese de fraude universal a que nos levariam tais confissões negativas. A realidade dos fenômenos está universalmente aceita por todos os estudiosos, e, se discussões ainda existem, são sobre a interpretação dos fenômenos, mas não sobre a sua realidade.

            Examinando essas discussões que ocorrem entre materialistas, vemos que se baseiam sempre sobre observação incompleta, parcial, dos fatos. O conjunto de todos os fatos já bem verificados conduz inevitavelmente ao Espiritismo.

            Convém lembrar sempre que o total dos fenômenos abrange sonambulismo, clarividência, clariaudiência, voz direta, escrita direta, incorporação, psicografia, materializações e desmaterializações, fotografias de extras, sonhos premonitórios, levitação, telecinesia, aparições fantasmáticas, moldagens em parafina, tiptologia, diversas manifestações a moribundos, correspondência cruzada, bem como muitos fenômenos anímicos da natureza da telepatia, fantasmas de vivos, reencarnações verificadas, etc..

            Esse conjunto todo, imponente, eterno, universal, prova o Espiritismo e esmaga todas as hipóteses parciais e todas as teorias negativistas. 

            Os livros mediúnicos se divulgam rapidamente pelo seu valor literário e pelos ensinos que encerram. Em cada uma de suas páginas há revelações interessantes e, acima de tudo, as mais belas regras de conduta, a mais elevada moral evangélica que já foi ensinada aos homens.

            Lendo essa literatura, o homem se transforma: a mente se esclarece, o coração se enche de ardores novos pelos grandes ideais da Humanidade: a vida eterna se torna uma realidade concreta, palpável, encantadora; os interesses materiais passageiros perdem sua obsessora importância; o homem renasce para uma nova vida mais alta, mais digna; sente uma segurança perfeita quanto ao porvir; sabe que para todos os males há remédio infalível; a morte perde seu aspecto de pavor e se revela uma entrada em vida melhor, é libertação do encarcerado da matéria.

            Essa leitura edifica. Essa literatura é a descoberta da pérola preciosa da parábola evangélica: quem a encontra despreza todos os bens menores e passageiros só para possuí-la; é o tesouro enterrado num campo: quem o descobre, vende tudo que possui para comprar aquele campo.  

            Diante de tanta beleza, de revelação tão majestosa, que valor têm as estultas teorias negativas que falam de pastichos, de imitação de estilos, de fraude e desonestidade imaginária que os desonestos veem em si, em tudo e em todos?

            Que valem as tais confissões, reais ou fantásticas, de médiuns ou de pseudo-médiuns?

            Podem os negadores de todos os tempos, os mesmos que deram cicuta a Sócrates, que crucificaram a Jesus, que queimaram a Joana d'Arc, desfazer a obra espírita que se edifica nos corações e depois se materializa por toda a parte em construções de pedra e cal, em favor dos que sofrem, das crianças abandonadas, dos velhos sem abrigo, dos enfermos e dementes, dos desajustados e infelizes?

            Como é fraca e inepta toda a argumentação contra o Espiritismo!

            Em cem anos de lutas renhidas das maiorias “onipotentes” contra minorias insignificantes, não conseguiram impedir um único passo na marcha ascendente da Terceira Revelação. Repete-se o episódio dos primeiros séculos do Cristianismo, combatido pela “onipotência” do Império Romano.

            Não houve calúnia demasiado grosseira de que não lançassem mão contra os primeiros cristãos: diziam que eles matavam as crianças, envenenavam os poços e as fontes, praticavam a devassidão, assaltavam os lares, rebelavam os escravos, eram os maiores monstros de todos os tempos. Não houve violência que se não praticasse contra eles: o circo das feras, decapitações, a luta de extermínio, tudo foi inutilmente praticado. Mas aquelas forças da cruel reação eram apenas materiais. O Paganismo, religião oficial de Roma, estava completamente podre por dentro: ninguém mais cria nos seus deuses, nos seus sacerdotes e tudo ruiu como um castelo de cartas.

            O mesmo vai ocorrendo de novo com o Catolicismo: seus bolorentos dogmas e o antigo sacerdócio perderam a força espiritual e passaram a ser força apenas política e econômica.

            Duas formas de materialismo econômico lutam entre si pela conquista do mundo, sem calcular, nenhuma delas, com as forças espirituais, como se estas não existissem, porque realmente as negam em nome da ciência materialista e das igrejas igualmente materialistas; mas essas forças espirituais são invencíveis e o Espiritismo se revela de novo, como a vida mesma que enche o Universo.


            O triunfo final do Espiritismo é fato tão certo como o triunfo da luz do dia após as trevas da noite.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

2a 2b 'Regressão de Memória'


.......

2a. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Julho 1972



            Em artigo anterior, ficou a promessa de prosseguirmos no estudo do fascinante problema da regressão de memória apoiado nas pesquisas do engenheiro e coronel francês Albert De Rochas que, sem aderir aos postulados do Espiritismo, deixou impressionante relato de suas experiências de magnetização.

            De Rochas era homem de profunda cultura e variados interesses. Os livros que escreveu abordam com extraordinária lucidez os assuntos mais diversos. Muitos deles foram premiados com medalhas de ouro, prata e "vermeil", como "Poliorcétique des Grecs" (história militar), "Le Patois du Queyras" (linguística), "Principes de Ia Fortification Antique" (arqueologia), "Les Vallées Vaudois" (geografia) e "La Campagne de 1692 dans le Haut-Dauphiné" (história). Essas obras se esgotavam rapidamente e não poucas, já em vida do autor, haviam sido traduzidas para o alemão, sueco, espanhol e russo. A despeito de toda essa atividade, ainda era ele professor da Faculdade de Engenharia.

            É, pois, autor altamente qualificado para as tarefas que realizou, pela sua objetividade, cultura e espírito científico, tanto quanto pela sua absoluta insuspeição, dado que jamais se filiou ao movimento espírita, que na sua época já alcançara notável desenvolvimento e atraíra sábios e pensadores de grande projeção.

            Esse é o homem. Agora, vejamos um pouco da sua obra. Ficaremos limitados, nesta oportunidade, ao exame do seu magnífico estudo intitulado "Les Vies Successives" ("As Vidas Sucessivas"), do qual possuo um exemplar da primeira edição de 1911, da Bibliothèque Chacornac.

            O livro é iniciado com a declaração de que a imortalidade da alma tem ocupado através dos tempos a atenção dos filósofos, mas o problema das vidas sucessivas não tem merecido a mesma atenção, a despeito da sua extraordinária importância na definição de "condições mais justas para recompensar ou punir, no contexto da eternidade, as boas ou más ações cometidas durante o lapso de tempo infinitamente curto que é a vida terrena". O autor parte, assim, de uma especulação filosófica para a qual as religiões ortodoxas nada têm a oferecer, a não ser a incongruente doutrina do céu e do inferno. Que acontece com a pessoa que praticou crimes inomináveis? Vai para um inferno eterno, sem mais uma única "chance" de recuperação pelos erros praticados no curtíssimo espaço de uma existência terrena? E, no reverso da medalha, será que a criatura humana toma o "céu" de assalto pelos simples méritos de uma só vida e lá se instala entre os espíritos perfeitos por todo o resto dos tempos eternos? Não, não deve ser assim, e realmente não é.
  
            Procurando expor primeiro os aspectos históricos e filosóficos da questão, De Rochas resume o pensamento de antigos e modernos, dando notícia do que achavam egípcios, caldeus, hindus e gauleses, tanto quanto Platão, Jâmblico, Cícero e Virgílio, este nos versos imortais da "Eneida":

"Meu filho, disse o velho, tu vês aqui aparecerem
Aqueles que em outros corpos devem um dia
renascer
Mas que antes doutra vida, doutros trabalhos
duros,
Buscam as águas impassíveis do Letes
E no longo sono das paixões humanas
Bebem felizes o esquecimento de antigas penas..."

            São mencionados, a seguir, os textos evangélicos que narram a indagação acerca da identidade de Elias e João Batista, bem como as dúvidas de Nicodemos. Quanto aos pais da Igreja, ou seja, os seus primeiros teólogos, muitos dos mais eminentes tinham o princípio da reencarnação como pacífico e nele não viam nenhum conflito com a doutrina do Cristo. No entanto, os dogmas posteriores e alguns artigos de fé entraram em choque com a doutrina das vidas sucessivas e, no Concílio de Constantinopla, em 553, essa e outras questões ficaram liquidadas em favor da rigidez cadavérica da fé cega, das penas eternas; da predestinação e do julgamento inapelável.

            Entre os mais modernos, Pezzani, Lavater, Voltaire, Reynaud, Victor Hugo, François Coppée, Tolstoi e outros também admitiram, sem dificuldade, o princípio de que o ser humano vive muitas existências na Terra. Lavater, por exemplo, em carta de 1º de agosto de 1798 à Imperatriz Maria Feodorovna, da Rússia, escrevia o seguinte: "A alma se aperfeiçoa a si mesma, vivendo na Terra as qualidades do corpo espiritual, veículo através do qual ela continuará a existir depois da morte do corpo material e que lhe servirá de órgão para conceber, sentir e agir na sua nova existência."

            E o verso tão belo de François Coppée, sob o título de "La Vie Antérieure"? Contemplando a figura da amada, diz o poeta:

"Tu deves vir, criança, desse país de luz
Ao qual minhalma há pouco devia pertencer.
Porque tu me trazes a vaga recordação,
Porque ao te contemplar, loura donzela ingênua,
Gemi como se te houvera reconhecido...
E assim que meu olhar mergulhou no fundo
[do teu
Senti que no passado já nos amamos..."

* * *




2b. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Julho 1972


            Tudo isso, porém, são apenas crenças, especulações e a maravilhosa intuição dos poetas, dos místicos, dos sonhadores. Mas, e a verdade dos fatos, qual é? Será que o homem vive realmente muitas vidas sobre a Terra? Como pesquisar? A esse trabalho se propôs o engenheiro AIbert De Rochas e o seu livro dá conta de seus estudos e de suas conclusões, em 504 páginas compactas.

            O autor empregava a técnica da magnetização do paciente por meio de passes longitudinais, combinados com a imposição da mão direita sobre a cabeça, estando o paciente sentado confortavelmente diante dele. Às vezes tomava o sensitivo pelos polegares e o encarava fixamente nos olhos, para provocar um adormecimento preliminar. Observou logo, no decorrer de suas experimentações, que o paciente atravessava estados característicos e sucessivos, sempre na mesma ordem, sempre separados por uma curta fase de letargia. Disso extraiu uma classificação que apresenta da seguinte forma:

            1º estado: Vigília.

            I fase de letargia

            2º estado: Sonambulismo - o paciente parece acordado, encontra-se na posse de seus sentidos, mas é muito suscetível à sugestão e apresenta o fenômeno da insensibilidade cutânea, que persiste durante os estados seguintes. A memória é normal. 

            II fase de letargia

            3º estado: "Rapport" (Afinidade) - o paciente somente percebe a presença do
magnetizador e das pessoas que este colocar em contato com ele. Notável sensação de bem-estar. Diminuição da memória normal e da sugestibilidade. Diz De Rochas que neste ponto começa a se "exteriorizar a sensibilidade". Diríamos nós que se inicia o desprendimento do perispírito. De Rochas comprovou que a sensibilidade à picada de agulha fica a cerca de 35 milímetros da pele do paciente. Nesse estado, o paciente vê "os eflúvios exteriores dos corpos organizados e dos cristais", isto é, a chamada aura dos seres e dos corpos inanimados.

            III fase de letargia
           
            4º estado: Simpatia ao contato - a sensibilidade (perispírito) continua a se exteriorizar, podendo ser encontrada uma segunda camada sensível a 6 ou 7 cm da primeira de 35 milímetros. O paciente experimenta as mesmas sensações que o operador, quando este se põe em contato com ele. A sensibilidade cutânea desaparece e também a memória dos fatos. Esta não retorna nos estados subsequentes, mas a memória da linguagem permanece, dado que o paciente é capaz de conversar com o magnetizador.

            IV fase de letargia

            5º estado: Simpatia à distância - o paciente percebe todas as sensações do
magnetizador, mesmo sem contato, desde que a distância não seja grande. Não vê mais a aura, mas é capaz de ver os órgãos internos dos seres vivos. Não está mais sujeito à sugestibilidade e esquece-se por completo de sua existência atual. Não conhece senão duas pessoas: seu magnetizador e ele próprio, mas nem os nomes sabe repetir. A partir desse momento, um pouco mais ou um pouco menos, conforme o paciente, a sensibilidade (perispírito), que até então se exteriorizava em camadas concêntricas, na periferia do corpo, se condensa para formar, a cerca de um metro à direita, uma coluna nebulosa de cor azul e um pouco atrás, e depois à esquerda, uma coluna análoga de cor vermelha. Em alguns pacientes - esclarece De Rochas em rodapé - essa formação é em ordem inversa. Ao cabo de algum tempo, as duas colunas se fundem numa só, que vai se definindo até constituir o "fantasma" do paciente, ou seja seu perispírito. Essa figura fluídica permanece ligada ao corpo físico por um fio luminoso e sensível, como um cordão umbilical. (1) A figura desprendida se eleva acima do corpo e o paciente fica em tal estado de euforia que, com frequência, detesta a ideia de retornar ao corpo físico.

            (1) Já tive oportunidade de ver fotografias notavelmente nítidas desse fenômeno, algumas das quais estão reproduzidas aqui.

            É nesse estado último que o paciente penetra com maior ou menor segurança - dependendo da sua posição evolutiva e de suas condições espirituais - nos vastos domínios da lembrança de vidas anteriores. Albert De Rochas prosseguia daí em diante com os passes longitudinais, recuando o paciente no tempo, de vida em vida, aprofundando-se no passado remoto. Nessas condições, o sensitivo parecia  reviver todas as cenas de dor e alegria, plenamente entregue às antiquíssimas e esquecidas sensações que a elas se ligavam. Se a experiência era repetida em outra oportunidade, o paciente repassava pelos mesmos pontos, pelas mesma sensações, na mesma sequência, sem enganos, sem contradições, sem hesitações.
           
            Para despertá-lo, o coronel dava passos transversais, enquanto o paciente voltava pelos mesmos caminhos percorridos, repassando, em sentido contrário e em maior velocidade, suas dores e alegrias.

            As experiências de De Rochas começaram em 1893 e foram até 1910. Durante esses anos testou 19pacientes, homens e mulheres de diversas idades, ocupações e tendências. Confessa que ao começar ignorava o trabalho de outros magnetizadores, mas que verificou depois que as conclusões a que chegaram eram análogas às que ele próprio alcançou.

            Diz que foi por acaso que deu com o fenômeno, na pessoa de Laurent, jovem de 20 anos de idade, paciente precioso porque, dono de alguma instrução, era não somente sensível à magnetização, mas também de “viva curiosidade científica e de acurado espírito de análise”. Além disso, dispunha da faculdade de observar as suas próprias reações, em condições de relatá-las posteriormente com toda a clareza.

            Ao escrever seu primeiro depoimento, em 21 de julho de 1893, Laurent confessa um “vago sentimento de temor”. “A ideia de um sono durante o qual minha vontade seria anulada me fazia quase recusar-me à experiência, se o receio de me acreditarem medroso não se opusesse. Sentimento muito complexo: pavor do desconhecido, respeito humano, no fundo muito banal e – o que predomina de repente – confiança encorajadora no experimentador. No entanto, é com vivíssima emoção que me entrego às mãos do senhor De Rochas, sem esperança de que eu seja suscetível de adormecer.”

            Este relato é aqui reproduzido porque, com ligeiras variações pessoais, o comportamento do paciente se assemelha notavelmente a todas as experiências até hoje realizadas: o temor, a confiança, a euforia, a verificação de que à medida que se aprofunda o estado de desprendimento o paciente vai ficando menos suscetível à sugestão e, portanto, mais seguro de si mesmo. Esta última impressão, no entanto, é falsa. Somente em estado de completa alienação mental, disparado por um de fuga e autodefesa, o espírito perde consciência de si mesmo. O que acontece nos estudos avançados de desprendimento do períspirito é que a memória espiritual não está mais na dependência do cérebro físico, ou seja, o estado de consciência vai com o espírito desprendido, tanto que este continua a conversar  - e com extraordinária segurança e equilíbrio – com seu operador. Só que ao despertar, regressando ao amortecimento do corpo físico, não se lembra do que se passou e do que disse enquanto esteve exteriorizado, para usar a terminologia de De Rochas.

            Esse foi o caso número 1, ou seja, o do jovem Laurent. Até então, as experiências foram apenas tateantes e totalmente limitadas aos procedimentos da existência atual do paciente.

            Somente em 1904, o ilustre engenheiro retomaria suas pesquisas, desta vez com Joséphine, uma jovem de 18 anos. Adormeceu-as por meio de passes longitudinais, “para saber que fenômenos ela apresentaria e fiquei surpreendido ao verificar que, sem nenhuma sugestão, eu a fazia percorrer em sentido inverso o curso de sua vida, tal como Laurent, coisa que eu não observava desde 1893.” O grifo é meu, porque, em casos de meu conhecimento pessoal, também observei a desnecessidade de dar sugestão para reconduzir o paciente ao passado. Logo que desprendido, parece ele na plena posse de sua memória integral e, com algum treinamento, em condições de discorrer sobre qualquer uma de suas existências, apenas com o reforço de mais alguns passes, de vez em quando.

            Joséphine recuava com facilidade à infância. “Ei-la aos sete anos” – diz De Rochas. “Pergunto-lhe o que faz – Vou à escola – Você sabe escrever? – Sim, estou começando.”

            Note o leitor o tempo do verbo: estou começando, como se o paciente estivesse novamente na sua infância, a responder a uma pessoa que lhe perguntava coisas. De Rochas põe lhe uma pena na mão e ela escreve algo a seu pedido; duas sílabas apenas: pa-pa.

            “Após algumas sessões destinadas a treiná-la  e a diminuir o tempo necessário a leva-la ao estado de sua primeira infância, a responder a uma pessoa ao estado de sua primeira infância, tive a ideia de prosseguir com os passes longitudinais. Interrogada, Joséphine respondeu por sinais às minhas perguntas; e foi assim que ele me comunicou, pouco a pouco, em diferentes sessões, que não havia ainda nascido, que o corpo no qual deveria encarnar-se estava ainda no ventre de sua mãe, em torno de quem ela permanecia, mas cujas sensações tinham pouca influência sobre ela.”

            Com o aprofundamento do sono, manifestou-se uma nova personalidade, “com a qual experimentei, de início, alguma dificuldade em determinar sua natureza". É que a pessoa que ali falava agora não queria se revelar, dizendo quem era e onde se encontrava. Respondia com voz de homem, desconfiado, e que estava ali presente, pois que falava; quanto ao mais, nada via, estava no escuro.

            Foi assim, confessa o autor, em extensa nota de rodapé, que se viu lançado "numa ordem de pesquisa que estava longe de suspeitar" e na qual tinha de prosseguir ele próprio, aprendendo com as reações e informações dos seus pacientes.

            Por fim, Joséphine, adormecida, ao cabo de muita tergiversação, começou a responder às perguntas do seu magnetizador. Chamava-se Jean-Claude Bourdon, vivia num lugarejo por nome Champvent, na comunidade de Polliat. Esclareceu que havia dois lugares com esse nome; o dele ficava perto de Nézériat, e que ele costumava ir sempre a St. Julien sur Reyssouse. Com essas informações, foi possível ao coronel De Rochas localizar o vilarejo de Champvent, no Departamento de Ain.

            Foi difícil vencer a sua resistência, captar sua confiança e sacar-lhe os pormenores da sua história. O experimentador usou de um artifício: "envelhecia" o paciente, a despeito dele próprio, para puni-lo da resistência; e o "rejuvenescia", fazendo-o recuar no tempo, para recompensá-lo e estimulá-lo nas respostas. A biografia de Jean-Claude era modesta. Nascera em 1812, frequentou a escola até aos 18 anos, porque "não aprendia grande coisa", serviu no 7º Batalhão de Artilharia, em Besançon. Para testar esta informação, o coronel apurou que o 7º realmente esteve sediado em Besançon de 1832 a 1837, fato que Joséphine não tinha meios de saber, pois era de instrução primária. O comportamento de Jean-Claude com as mulheres não foi muito correto; em vez de desposar a antiga namorada, que deixara quando foi servir ao exército, tomou-a por amante. Envelheceu solitário e morreu aos 62 anos de idade, ao cabo de longa enfermidade. Não acreditava na sobrevivência do ser. Ao reviver para De Rochas os últimos instantes, recusou a sugestão de chamar o padre. Na sua opinião, quem morria ficava morto, e pronto. Em seguida, sente-se preso ao seu corpo físico, e, flutuando em torno dele, assiste ao seu próprio enterro. Ouvia vagamente alguns comentários dos circunstantes. Durante a cerimônia religiosa na igreja, antes do enterro, observou que, quando o padre deu uma volta em torno do seu caixão, formou-se uma parede algo luminosa que impedia que "os maus espíritos" se precipitassem sobre ele. As preces do sacerdote infundiram-lhe calma, mas tudo isso foi de pouca duração. No cemitério, ficou nas proximidades do corpo e o sentia decompor-se, com o que muito sofria. Passou a viver mergulhado em penosa escuridão, mas suportável, porque não tinha grandes crimes a lhe pesarem na consciência - nunca roubou nem matou. A morte não é, pois, o que ele julgava que fosse. Ao cabo de indefinível espaço de tempo, tem a inspiração de renascer num corpo feminino, para expiar as faltas que cometeu contra as mulheres. Aproxima-se de uma senhora que será sua mãe e aos poucos tem a sensação de ir-se apossando do corpo da criança. Até aos 7 anos percebia em torno de si uma espécie de cerração, na qual via muitas coisas que não conseguiu rever mais tarde.

            Reconstituída a história de Jean-Claude, De Rochas recomeçou os passes longitudinais, provocando, durante três quartos de hora, uma prolongada magnetização. Nova personalidade. Desta vez é uma mulher "três méchante" - muito perversa. Língua ferina, divertia-se em praticar o mal. Tinha dores horríveis e às vezes se contorcia no sofrimento revivido. Ao morrer, sente-se envolvida em trevas, à mercê de Espíritos terríveis que a atormentam e aos quais ela acaba por se misturar para, por sua vez, atormentar os encarnados. Chama-se Philomène Carteron. Nasceu em 1702 como Philomène... Charpigny; seu avô materno era um certo Pierre Machon e morava em Ozan. Casou-se em 1732, em Chevreux e teve dois filhos que morreram. Antes dessa, viveu uma existência em que foi um homem violento que matou e roubou, um verdadeiro bandido. Por isso, sofria nas trevas, nos intervalos de suas vidas.

            A experiência não pôde ser aprofundada porque a magnetização durava já três horas, a paciente dava sinais de cansaço e ainda era preciso fazê-la percorrer o caminho de volta. por meio de passes transversais, a fim de despertá-la. No entanto, numa das experiências subsequentes, pressionando com o dedo um ponto no meio da testa, ordenou-lhe o magnetizador que regressasse mais longe ao passado. "Ela me disse, então - escreve De Rochas -, com hesitação e girando a cabeça com um ar confuso, que havia sido um macaco, um grande macaco quase parecido com o homem. Diria mais tarde, em outra experiência, que entre a vida como macaco e a que vivera como bandido havia tido muitas encarnações: lembrava-se de ter vivido nos bosques matando lobos - e ao dizer isso assumia um aspecto feroz."

            Foi com esse mesmo paciente que De Rochas tentou, pela primeira vez, reverter o processo e em vez de penetrar no passado, incursionar pelo futuro, por meio de passes transversais de dispersão, mas as experiências não foram conclusivas. As predições a curto prazo não se realizaram e as que se projetaram a prazo mais longo não foram verificadas, porque depois que a moça deixou Paris nunca mais o experimentador teve notícias dela. Há um pormenor curioso, porém. Numa das sessões, ela diz que já se encontra no futuro e se reencarnara como uma menina chamada Marie. Seu pai é um negociante de calçados em Saint-Germain-du-Mont-d'Or e se chama Edmond Baudin. Sua mãe chama-se Rosalie. Marie declara estar com 12 anos de idade, mas recusa-se a responder qual o ano em que se encontra, alegando que seu pai não gosta de folhinhas. Aos dezesseis anos informa, afinal, que está no ano de 1970 e escreve seu nome. É uma sexta--feira, mas ela não sabe dizer de que mês. O regime político é republicano. Que tal se tentássemos localizar agora, em 1972, a jovem Marie Baudin, em Saint-Germain-du-Mont-d'Or, aos 18 anos?

            Há outra experiência interessante com Joséphine e que confirma observação que também tive oportunidade de fazer. Uma vez alcançado o estado de desprendimento, o paciente pode viajar quase que à vontade no tempo, sem necessidade de magnetização contínua. De Rochas deixou a jovem entregue a si mesma e de vez em quando "conferia" o tempo, fazendo-lhe perguntas. À uma e trinta da tarde, depois de magnetizada, Joséphine é abandonada aos seus próprios recursos, numa fase de suas recordações em que conta 15 anos de idade. Dez minutos depois, perguntada, responde que tem 10 anos. Não vê o experimentador, mas ouve a sua voz. Encontra-se em companhia de outras criança, que não ouvem a voz do coronel e dizem que ela, Joséphine, está louca. A sensibilidade - ou seja, o perispírito - está exteriorizada. Às duas e dez tem 5 anos, às duas e vinte e cinco não sabe da idade. Parece sugar o seio materno. Às duas e trinta e cinco agita-se e parece sofrer. Está passando pelo episódio da morte de Jean-Claude. O coronel dá-lhe passes longitudinais e novamente a deixa só, a partir do momento em que a paciente alcança os dois anos de idade, em sua vida atual. Em suma, Joséphine precisa de uma hora e quarenta e cinco minutos para percorrer 14 anos (dos 4 aos 18) e deverá acordar naturalmente às quatro e meia; mas, de certo ponto em diante, há uma aceleração no processo e ela desperta espontaneamente às quatro horas e oito minutos.

            Para fazê-la recordar-se do que se passou com ela, o coronel faz-lhe uma pressão no meio da testa.

            Seria impraticável reproduzir, num breve trabalho como este, experiências e comentários de um livro de mais de 500 páginas. Tomemos algumas características dominantes e que se reproduzem, de uma forma ou de outra, em outros pacientes. Eugénie (caso nº 3) vê ao seu lado, depois de desprendida, os Espíritos de sua avó e de uma de suas tias. Com esta paciente, são bem sucedidas as experiências de progressão. De Rochas tenta chegar a acontecimentos futuros por meio de passes transversais. A paciente tem 35 anos de idade na vida presente. Ao chegar aos 37, levada pela magnetização, manifesta os sinais do parto e sente-se envergonhada por não ser casada. Isto deveria passar-se no futuro ano de 1906. Alguns meses depois, apresenta sintomas de afogamento e De Rochas leva-a dois anos à frente. Novos sintomas de parto. O experimentador lhe pergunta onde se encontra naquele momento.

            - Em cima d'água, diz ela.

            A resposta pareceu estapafúrdia e ele concluiu que a moça divagava. Em seguida, despertou-a. Não obstante, tudo quanto ela predisse realizou-se. Em 1906 teve um filho de um amante. Pouco depois, desesperada, atirou-se ao rio Isère e foi salva. Enfim, em janeiro de 1909, novamente grávida, sentiu as dores do parto quando se achava exatamente em cima d'água, numa ponte do rio Isère...

Platão


***

domingo, 1 de setembro de 2013

1a 1b 'Regressão de Memória'

                                                           Albert de Rochas



1a. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Junho 1972



            Amigos e confrades familiarizados com algumas experiências de regressão de memória que realizei, me sugerem a elaboração de um artigo, no qual fiquem resumidas as impressões colhidas e exposta, em suas linhas gerais, a técnica empregada.

            A expressão parece vir da língua francesa "régression de Ia memoire", dado que em inglês o fenômeno se intitula "age regression", ou seja, regressão de idade. Consiste em submeter o sensitivo a um dos processos que provoquem o desdobramento ou desprendimento do perispírito, de modo que, parcialmente liberto das limitações impostas pelo corpo físico, possa o espírito ter acesso à sua memória integral.

            Ensina o Espiritismo que sob condições normais o espírito recupera, ao desencarnar, sua memória de existências anteriores. Note bem o leitor que está dito "sob condições normais", porque muitas vezes isso não acontece, ainda que o espírito tenha alcançado elevado grau de evolução intelectual. As razões são por demais complexas para serem especuladas num breve trabalho como este, por quem certamente não está qualificado para fazê-lo. Ao que parece, o esquecimento das vidas pregressas é disparado por um mecanismo de autodefesa, que livra o espírito da insuportável aflição de contemplar as loucuras e crueldades que cometeu. Com o passar do tempo, à medida em que ele se arma de recursos morais mais sólidos, as lembranças começam a emergir para que ele possa contemplar a extensão dos seus erros e promover o reparo dos danos que causou ao próximo e, em última análise, a si mesmo. Há, pois, razões de sobra nas leis divinas que nos vedam normalmente o acesso à memória integral, ou seja, à lembrança do nosso passado ao longo de inúmeras existências, até onde alcança a consciência que adquirimos ao ingressar no chamado reino hominal. É justo que Deus tenha criado dispositivos de proteção às nossas lembranças anteriores, para que em cada nova existência possamos todos partir de uma posição em que não pesem, em nossa consciência de vigília, as aflições de um passado de culpas que nos poderiam desencorajar diante da gigantesca tarefa de recuperação e de ressarcimento de nossas dívidas perante as leis divinas. Ainda há pouco presenciamos, em sessão do nosso grupo, a angústia de um Espírito que, ao cabo de mais de um século no mundo póstumo, conseguiu recuperar a consciência de sua individualidade e sentiu-se de tal maneira esmagado diante da tarefa que lhe compete realizar que não via nem por onde começá-la. Cercado de paciente e fraterno amor e dotado de elevadíssima potência intelectual, retomou seu equilíbrio e partiu cheio de esperança para o trabalho de reconstrução. Nem todos, porém, dispõem de uma estrutura psíquica capaz de suportar dores como essa e podem ceder ao peso das suas angústias, recaindo na alienação. Aliás, o desequilíbrio mental não é mais do que uma forma de fuga empreendida pelo espírito que não consegue enfrentar uma realidade dolorosa.

            São poucos, assim, os encarnados e desencarnados em condições de se confrontarem com o seu próprio passado.

            Estas especulações nos levam, por conseguinte, a uma pergunta de vital importância: Será lícito despertar em alguns seres a lembrança de suas vidas anteriores? A pergunta não se pode responder prontamente sim ou não. Digamos que, como regra, a resposta seja não, mas que não é essa, evidentemente, a única resposta para todos os casos. A opção é difícil e delicada, porque, além do já mencionado problema de suportar a lembrança dos erros cometidos, há ainda o risco de enfrentar a séria questão da vaidade exacerbada, quando, ao afastarmos a cortina que encobre o passado, descobrimos que fomos também gente importante e poderosa, cujo nome a História guardou. Como se portaria um modesto trabalhador mergulhado no anonimato e na pobreza ao saber que foi, no passado, um rei europeu ou um potentado asiático? Continuará tranquilamente, sem revolta, a viver do seu salário mínimo?

            Graças a Deus, no entanto, o mundo espiritual não vive à matroca. Para tudo há um tempo, como dizia o salmista, e aqui e ali sempre houve para alguns espíritos encarnados oportunidade de acesso a uma parte de suas memórias passadas. Além do mais, como lembra o coronel Albert de Rochas, o problema da imortalidade da alma tem sido, através do tempo, objeto de especulação dos filósofos e as próprias religiões a afirmam ao proclamarem a existência do céu e do inferno; no entanto, a questão das vidas sucessivas tem permanecido como assunto marginal, a não ser para aqueles que "não se contentando com uma fé cega e simplista", procuram saber em que condições reais o mal é punido ou o bem recompensado. É, pois, legítima a especulação, quando orientada num sentido elevado, por quem tenha algum conhecimento das leis divinas que regulam a vida espiritual. Isso porque a pesquisa bem conduzida, que comprove inequivocamente a preexistência do Espírito, abre uma perspectiva inteiramente nova para o ser humano, ao mostrar-lhe não apenas que já existia antes de nascer, mas que continuará depois da morte a contar com novas oportunidades de renascer para dar prosseguimento ao seu aprendizado e à sua evolução. Vale dizer, portanto, que não há destinação definitiva do ser após uma curta existência na Terra, à qual, segundo a ortodoxia, ele teria vindo sem nenhum passado. Em outras palavras: não há céu nem inferno, mas um contínuo ir e vir de almas, da vida no invisível para a vida na matéria, sempre a vida, exuberante, rica, imortal, evoluindo sob as bênçãos de Deus.

            Além do mais, a técnica da regressão de memória oferece recursos terapêuticos e inestimável valor para os mais complexos problemas espirituais. Tais recursos, praticamente inexplorados ainda pela ciência oficial, poderiam resolver satisfatoriamente inúmeros conflitos e disfunções espirituais que a psicanálise e psiquiatria ainda não conseguiram abordar com êxito. É que a ortodoxia científica continua na firme convicção de que vivemos apenas uma existência e que a raiz dos desacertos íntimos deve ser buscada regressivamente até à infância e principalmente nesse período crítico da história do ser; quando, porém, o conflito se prende a uma causa anterior à vida presente a perplexidade da ciência é total, a despeito das elaboradas e contraditórias teorias imaginadas para explicá-lo. Isso não quer dizer que a identificação das causas, mesmo numa existência anterior, resolva todos os problemas psíquicos do indivíduo; às vezes, são necessárias várias vidas para isso, porque a dor continua sendo a moeda universal com que resgatamos os erros cometidos contra o próximo. Muitos problemas, no entanto, desaparecem com o simples processo de "arejamento" de suas causas provocadoras, técnica, aliás, de que a psicanálise se tem aproveitado. Neste sentido, devo citar um caso de meu conhecimento, para exemplo. A pessoa, cursando faculdade, experimentava anormal dificuldade no aprendizado da Matemática, entrando em verdadeiro pânico por ocasião das provas. Esse fenômeno inexplicável em quem, para tudo o mais, demonstrava inteligência bem acima da média, teve explicação lógica ao se revelar, numa pesquisa de regressão de memória, que em existência anterior o sensitivo se havia dedicado profundamente à Matemática, não tanto no desejo de aprender somente, quanto na esperança de conquistar renome com a descoberta de novas leis científicas. Falhando nos seus propósitos, trouxe para a existência atual a frustração que o estava impedindo de caminhar, nesse ramo do  conhecimento, tão bem como nos demais. Racionalizado o "impasse", sua vida universitária teve curso normal.

            Em outro caso, uma senhora experimentava medo irracional de cobra. Não podia sequer colocar macarrão cozido na travessa ou no prato, porque o movimento da massa a levava a um estado de pavor incompreensível. Várias formas de tratamento falharam, até que a pesquisa de regressão de memória deu a explicação que a libertou da sua aflição: numa existência anterior, fora atirada viva ao poço de serpentes, onde morreu, em tremendo estado de terror, picada por cobras vorazes.

            Diante desse quadro, o pesquisador que desejar dedicar-se a esse fascinante trabalho deverá estar munido de algumas credenciais mínimas, tais como, rígida moral, conhecimento das principais leis que regem os fenômenos da alma - e para isso terá que recorrer à Codificação Kardequiana -, paciência, boa dose de intuição e uma técnica apropriada à obtenção do fenômeno do desprendimento do perispírito.

* * *



1b. "Regressão de Memória"
por Hermínio C. Miranda
in Reformador (FEB) Junho 1972



            Em que consiste, no entanto, a técnica de regressão de memória? Em primeiro lugar,  preciso considerar que o espírito encarnado está limitado às possibilidades e recursos do seu cérebro físico. Se este for deficiente, não há gênio espiritual que consiga fazê-lo funcionar satisfatoriamente. O cérebro físico funciona durante a encarnação como um redutor de voltagem, uma estação abaixadora, que traz a tremenda energia psíquica contida nos registros do perispírito a um nível de tensão que o ser encarnado possa suportar em equilíbrio. Tudo o mais fica retido no inconsciente, em esquecimento protetor. Para usar uma velha imagem já um tanto repetida, diríamos que a memória integral é um vasto iceberg mergulhado nas águas da eternidade e do qual apenas emerge uma diminuta porção - o consciente; o resto está abaixo do nível de flutuação e, portanto, no inconsciente. Ao que parece, em cada vida recebemos um novo "rolo" de fita magnética, representado na contraparte física do ser pela camada cortical e no qual gravamos minuciosamente o "vídeo tape" de tudo quanto se passa conosco no decorrer da existência. Talvez seja por isso que durante o processo da morte, ou no momento em que corremos graves perigos - afogamento, quedas, etc. -, todas as imagens de nossa vida passam rapidamente diante dos nossos olhos atônitos, comprimidas, porém nítidas, em poucos segundos. É possível que o fenômeno se dê pela passagem do "vídeo tape" para os registros permanentes do ser, onde se incorporam ao patrimônio da memória integral. Claro que isto é apenas uma hipótese de trabalho ainda sujeita a verificação, mas aí fica para exame.

            Para se chegar, então, aos arquivos dessa memória é preciso contornar certas barreiras criadas com o objetivo de proteger o ser encarnado. Sabe-se, no entanto, que tanto o sono fisiológico comum, como o provocado, dissociam, separam temporariamente o perispírito do correspondente corpo físico, mantendo-os ligados apenas por um cordão fluídico, também ainda muito pouco estudado. Nesse estado de desprendimento, avivam-se as memórias passadas do ser, dado que não está ele totalmente subordinado ao seu mecanismo material. O problema consiste, pois, em provocar o desprendimento do espírito e, em segundo lugar, fazê-lo falar.

            Quanto ao desprendimento, não há grande dificuldade, a não ser algum temor da parte do sensitivo, que usualmente só se entrega à experimentação quando confia sem restrições no experimentador. Esse temor parece decorrer da antiga e errada noção de que a pessoa adormecida fica à inteira mercê do experimentador, que pode fazer dela o que desejar. Embora isto seja parcialmente verdadeiro para os estados superficiais do desprendimento, não é absolutamente válido para os estados mais profundos. Pode-se obter a separação desejada entre corpo físico e perispírito por meio de drogas, de hipnose por sugestão verbal ou por meio de passes magnetizadores. O sensitivo tem de estar em estado de completo relaxamento, confiante no seu operador, em ambiente silencioso e tranquilo, à meia luz, de preferência na presença de uma ou duas pessoas também de sua inteira confiança, mas não de uma assistência maior. É importante, para segurança dos trabalhos, uma prece inicial. Nem sempre as primeiras experiências alcançam pleno êxito. Parece que o espírito do sensitivo vai aos poucos se acostumando com o processo, tateando o caminho à medida em que o percorre. Se prestar demasiada atenção às alterações que se vão processando em si mesmo, dificulta o desenvolvimento dos trabalhos, porque cria um estado de tensão. Obtido o desprendimento, que somente a experiência do operador poderá determinar com segurança, ainda resta o problema de fazer falar o paciente. Aí também nem sempre se alcança êxito nas tentativas iniciais. Mesmo nos melhores pacientes, as primeiras palavras saem com certa dificuldade, muito espaçadas, nos intervalos de longos haustos respiratórios. Com um pouco de prática, a palavra se desembaraça e o pensamento se expressa com nitidez, segurança e tranquilidade, demonstrando equilíbrio, serenidade e senso de perspectiva bastante acima do nível de vigília do sensitivo. No estado de desprendimento, no qual uma agradável sensação de euforia é experimentada, o paciente se encontra em condições de examinar seus próprios problemas com admirável lucidez, colocando-os no contexto da eternidade, como situações transitórias que cumpre enfrentar da melhor maneira possível, não revelando nenhum estado de angústia ou de pânico. Ao contrário, parece compreender perfeitamente sua situação e a razão de ser de suas aflições. Cabe ao operador tirar partido dessa disposição para trazer para a vigília tal segurança e fazê-lo racionalizar seus problemas, de modo a vencê-los, se possível, ou suportá-los, se ainda não puder contorná-los, colocando-os, porém, sempre na perspectiva do espírito eterno e não dentro de um mero ciclo de vida física. Em outras palavras, o espírito desprendido sabe perfeitamente que é um espírito eterno e não um ser transitório e que, portanto, suas dores também são transitórias e decorrentes de um quadro espiritual que ele próprio criou no passado. Essa visão ampliada de si mesmo termina por tranquilizá-lo, pois ninguém nos cura das nossas mazelas espirituais senão nós mesmos, muito embora não possamos dispensar a ajuda inestimável de amigos superiores.

            Dessa forma, pode-se resumir o processo como uma sessão de comunicação anímica, ou seja, uma situação na qual o espírito encarnado transmite uma mensagem através do seu próprio corpo físico. Tal como na mediunidade, em alguns fica nos registros da mente a lembrança do que disseram; outros, porém, não guardam da conversação mantida em estado de desprendimento nenhuma lembrança. É conveniente, pois, ter à mão um bom gravador de som, para que o interessantíssimo diálogo possa ser reproduzido e suas lições aproveitadas pelo sensitivo.

            Creio que é tempo de introduzir aqui alguns comentários sobre a expressão "sensitivo", que vem sendo usada nesta exposição. É que o fenômeno tem suas semelhanças com a mediunidade propriamente dita e isso é relativamente fácil de explicar-se desde que, tanto numa forma como na outra, o espírito encarnado deve dispor de aguda sensibilidade e da faculdade de exteriorizar seu perispírito. No caso da mediunidade, a exteriorização é necessária para que o espírito desencarnado comunicante possa atuar sobre o médium através do perispírito deste; no caso do desdobramento, o espírito precisa afrouxar os liames que o prendem ao corpo físico a fim de entrar na posse de sua memória integral. Por conseguinte os médiuns já desenvolvidos e experimentados oferecem menor resistência aos métodos de desdobramento provocado. Já estão habituados ao fenômeno. Isso não quer dizer que somente os médiuns nessas condições sejam suscetíveis de obter o desdobramento do perispírito por meio de passes ou de sugestão verbal repetitiva, mas, usualmente, são os melhores pacientes, porque já estão, por assim dizer, preparados para a tarefa. Com frequência, porém, o experimentador é surpreendido com pronta resposta em pessoas das quais não espera obter resultado imediato. É comum a verificação de que a prática do desdobramento espiritual acaba por desenvolver ou aperfeiçoar a mediunidade nascente ou já a meio caminho.

            São também uma constante as manifestações de extremo bem-estar, que em alguns casos se traduzem em certa resistência em voltar à posse integral do corpo físico. Também aqui posso citar um exemplo de que tomei conhecimento, retirado do acervo de experiências de Luís J. Rodriguez. O paciente, cidadão porto-riquenho de cor e que vivera no passado uma vida de certo relevo na corte real italiana, não desejava mais voltar à prisão de um corpo que detestava, numa condição social que seu espírito, ainda orgulhoso, desprezava e na qual sofria os horrores da miséria em terra estranha, pois vivia em Nova York.

            Quanto à regressão de memória propriamente dita; somente é obtida depois de colocado o sensitivo em estado de sono profundo. Alcançado esse estágio, dirige-se o paciente para o passado, fazendo-o recuar no tempo, a partir de sua presente idade biológica. Assim, se ele tem 30 anos, sugere-se a ele que volte aos 29 anos, depois aos 28, 27 e assim sucessivamente e cautelosamente, até ao primeiro dia de vida. Nesse ponto, o paciente mergulha nas suas memórias anteriores, seja ainda provocado pelo operador ou espontaneamente. Algo maravilhoso então ocorre. Qualquer que seja a sua posição filosófico-religiosa, suas crenças ou descrenças no estado normal de vigília, o que ele vai dizer daí por diante não foge um milímetro aos ensinamentos contidos na Doutrina Espírita. Ele reafirma a reencarnação como lei natural, reporta-se a suas vidas anteriores, muitas vezes comprovadas e confirmadas por pesquisas posteriores. Demonstra que as nossas vidas se encadeiam umas nas outras, inexoravelmente, e que o sofrimento é inevitável depois de uma existência de erros, e que a paz espiritual se conquista na luta incessante contra as nossas paixões inferiores e no serviço desinteressado ao próximo. Que entre uma vida e outra o espírito fica no mundo espiritual, em estado de aflição e desespero, cercado de sombras se ainda não se ajustou às leis divinas e à moral. ou em regiões de indescritível harmonia em companhia de seres superiores, se já alcançou um estágio evolutivo mais elevado. Nos mundos inferiores, os seres desencarnados são atormentados por Espíritos infelizes, até que sejam socorridos ou encaminhados à reencarnação. Muitas vezes, não têm conhecimento muito claro do processo mas sentem quando se aproximam de suas futuras mães e pouco a pouco o manto do esquecimento desce sobre o pobre Espírito atribulado. O conhecimento, ainda que rudimentar, da Doutrina Espírita é de grande valia ao Espírito que regressa às condições da vida póstuma, ao mesmo passo que ideias religiosas ortodoxas - como a crença no céu ou no inferno - dificultam sobremaneira a adaptação do ser à sua nova condição.

            Esse é o quadro que emerge dos repetidos pronunciamentos de espíritos encarnados em estado de sono profundo. Tais ensinamentos conferem  sistematicamente, sem um desvio, com os princípios fundamentais da doutrina ordenada por Allan Kardec sob orientação dos seus amigos superiores. Tanto faz hipnotizar um católico, um ateu, um materialista ou um espírita; todos afirmarão a imortalidade do ser e a doutrina das vidas sucessivas como processo aperfeiçoador do indivíduo.

            Por isso, leva grande vantagem sobre os demais pesquisadores aquele que conhece os postulados do Espiritismo. Terá muito maior segurança no desenvolvimento do processo de pesquisa e noção mais nítida do terreno em que pisa, dado que sua responsabilidade é grande ao manipular os controles do delicado e precioso computador divino que é a memória integral, onde se encontram gravados todos os segredos, todas as misérias e grandezas do Espírito, desde o momento em que lhe começou a bruxulear a primeira luzinha modesta da consciência.

            Ainda uma observação. Como seria de esperar-se, no estado de desprendimento o ser encarnado entra na posse de sua visão espiritual. Dessa maneira, distingue à sua volta os Espíritos desencarnados que assistem aos trabalhos, nele colaborando ou procurando interferir com propósitos inconfessáveis. Não vê, porém, formas fantasmagóricas criadas pela imaginação e sim pessoas vivas que se apresentam normalmente e com ele falam pelo pensamento. Sabe o sensitivo desprendido que esses seres são desencarnados, porque muitas vezes reconhece neles parentes e amigos que já se foram para o lado de lá da existência. É possível também, sob condições especiais, fazer com que tais Espíritos se manifestem através do sensitivo adormecido que temporariamente lhes cede o seu corpo físico, tal como no fenômeno da mediunidade; o mais comum, no entanto, é que os desencarnados se limitem a transmitir seu pensamento ao sensitivo para que este o retransmita ao operador. Em experiências de meu conhecimento, tais mensagens se apresentam sob forma escrita, num tabuleiro ou numa espécie de cilindro que vai se desenrolando diante do sensitivo adormecido. É comum tais mensagens serem apresentadas em línguas desconhecidas do sensitivo. Em um caso desses que presenciei, a mensagem se apresentava em árabe, língua desconhecida da pessoa adormecida, mas que, no entanto, foi capaz de interpretá-la, depois que lhe foi dito que o texto não passava de representação visual de um pensamento e que o paciente poderia perfeitamente reproduzir o teor desse pensamento, ainda que desconhecendo as palavras em que vinha expresso. Em outro caso, o sensitivo vê nomes de pessoas escritos em grego diante de seus olhos. Numa destas ocasiões, o nome seria o do próprio experimentador, numa encarnação bastante recuada, na Grécia, ao tempo de Aristóteles. Apesar de inteiramente desconhecido dos presentes, que jamais ouviram falar daquela personalidade, o homem realmente existiu, foi contemporâneo de Aristóteles e até seu discípulo, como afirmara o sensitivo. Foi o que revelou a pesquisa posterior.

            Tais identificações, aliás, são constantes na prática da regressão de memória. Frequentemente encontramos sensitivos que reconhecem o experimentador de uma existência anterior. Há exemplos abundantes disso. Conhecemos um caso dramático em que o sensitivo adormecido, que já identificara no passado o experimentador, descobriu também, entre os poucos presentes, dois antigos companheiros de encarnações vividas na França.

            Muitas perguntas suscita o desenrolar desse extraordinário fenômeno. Como se realizam tais identificações e reconhecimentos? Como são produzidos os textos que a pessoa adormecida vê diante dos seus olhos? De que maneira o perispírito guarda tão minuciosamente fatos, cenas, cores e sons de uma época que se perdeu há muito nos corredores extensos da História?

            Há momentos em que a pessoa adormecida parece apenas recordar, buscando localizar datas e nomes para corroborar a sua história. De outras vezes, porém, e com maior frequência, parece viver novamente as cenas esquecidas, passando outra vez pelos estados de angústia ou felicidade ligados aos episódios que revive. Como se opera tudo isso? Por que razão esquecemos o que almoçamos ontem e, sob condições especiais, podemos recordar, em todos os seus pormenores, o diálogo fugaz que mantivemos com um amigo há dois ou três mil anos atrás?

            São esses os mistérios que Deus colocou nos mecanismos da mente humana. O dia em que deles nos aproximarmos com humildade e desarmados de preconceitos e dogmatismos, começaremos a entendê-los para compor o maravilhoso quadro da história evolutiva do ser, através das suas vidas sucessivas, desde as formas mais primitivas até àquele ponto último em que não mais precisará da muleta da matéria para caminhar na direção de Deus.


               PS - Era minha Intenção apresentar neste artigo um estudo baseado no magnífico trabalho do eminente engenheiro e coronel Albert de Rochas. Tenho a ventura de possuir quase todas as suas obras, mas especialmente o seu precioso "Les Vies Successives", edição de 1911, que resume as experiências que realizou entre 1893 e 1910, com 18 sensitivos. O livro merece estudo à parte, pela sua importância e seriedade. Voltaremos, pois, a conversar sobre o assunto em outro artigo.