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sábado, 7 de abril de 2018

Uma estrela que se apaga...



... Uma estrela que se apaga ...
por José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Setembro 1947

Naquela tarde morna, quando ia em meio o crepúsculo, a prece do muezim (aquele que do alto dos minaretes conclama os muçulmanos à oração)  Habhallad, com o coro dos crentes, era levada pelos ventos através das calcinadas terras da Arábia... Estranho encantamento provinha de suas palavras. Lá em baixo, na praça estreita e mal calçada, os fiéis, contritos, a face lavada por sentidas lágrimas, prosternavam-se diante da mesquita e erguiam os braços ao céu, tartamudeando os salmos. 

O Sol agonizava ao longe, lentamente, como que buscando ocultar-se atrás dos inumeráveis lençóis de areia do deserto imenso. Seus últimos reflexos se perdiam no horizonte longínquo, pintalgando o firmamento de rubros e violáceos tons. Os instantes finais da prece foram comovedores, levando aos crentes ali reunidos as puras e fortes emoções daquela hora inolvidável.
  
O muezim também chorava ... Ao render graças ao Todo Poderoso Alá (*) sentira-se transfigurado, presa de místicos arroubos. Sua voz se dulcificara, como se nela repercutissem sonoridades divinas. O muezim também chorava ...
  
Dentre os fiéis, um havia, o jovem Afhir-al-Baghid, cujo rosto triste denotava a preocupação que íntimos problemas alimentavam. Erguendo-se, Afhir--al-Baghid enxugou os olhos avermelhados pelo pranto, saudou Alá e Maomé, e encaminhou-se para o minarete, onde o muezim se aprestava para recolher. Ao avistá-Io, Afhir arrojou-se ao chão, de joelhos, e, reverente, deprecou-lhe pronta ajuda na crise espiritual em que se debatia. O sacerdote ouviu em silêncio sua história. Afhir-al-Baghid esvaziou o coração dolorido, depositando suas mágoas aos pés do generoso servo do Profeta. Em seu olhar refletia-se a ansiedade da alma aflita. Que lhe diria
Habhallad ? Que remédio lhe indicaria para a inquietude que o consumia?
  
Por fim, o muezim falou, o rosto esquálido espelhando singulares fulgores:

“Filho: A bondade de Alá é maior que a sua sabedoria, mas a sua sabedoria é muitas vezes maior que os grandes desertos do leste... Toda a sua glória é cantada na Cidade Santa, a Meca dos crentes, terra eleita do Profeta... De Riad a Adém, de Adém a Hofuf, os fiéis celebram a glória eterna de Alá. Ouça, filho: Só Alá é amigo. Abre teu coração a ele, mas nunca te esqueças de que o homem nada mais é, na face da Terra, do que um pobre proscrito. Sua maldade exilou-o das regiões de bem-aventurança. Se estás aqui, carregando o pesado fardo de tuas dores, é porque - tu também - és um egresso do paraíso ... "
                                                                                                                                   
Habhallad emudeceu por instantes. Fechou os olhos e inclinou a cabeça para a frente. Assim permaneceu alguns segundos. Depois, prosseguiu, voz pausada e meiga:

- "Ouvi tuas queixas, Afhir. Se teu amigo não te compreendeu, paciência; não te revoltes contra ele. É mais digno de tua piedade do que de tua reprovação. A tolerância bem usada é um bálsamo que multiplica as forças de quem a utiliza. Cada amigo que trai outro amigo, é um ídolo que tomba, um vácuo que se abre em nossa alma. Aproveita esse vácuo: enche-o de perdão. Assim tua alma será salva... Quando vires uma noite escura, um céu sem estrelas, procura a solidão, faze tua prece, ungindo-a, porém, com o mais puro sentimento de amor de que sejas capaz. Um amigo que trai outro amigo, podes crer, é uma estrela que se apaga no céu... Mas Alá é magnânimo em toda a sua onipotência e onisciência, porque enfeita de esperanças novas a alma dos crentes. Quando uma ilusão fenece, sufocada pela ingratidão, a esperança renasce para curar as chagas causadas pelo sofrimento..."

Afhir-al-Baghid soluçava baixinho, não mais de dor, porém de comovido reconhecimento ao bem que lhe prodigalizava Habhallad. Agarrou-lhe nervosamente a destra macilenta e, osculando-a com indizível respeito, murmurou, ofegante:

- "Alá falou pela vossa boca, mestre!"

E silenciou de novo. 
  
Então, erguendo-se, o muezim despediu Afhir com estas últimas palavras de conforto:

- "Vai, filho, vai! Aprende a receber o sofrimento com serenidade e paciência. Aprende a dominá-lo pela resignação consciente. E perdoa, perdoa sempre, porque nenhum de nós sabe até onde vai a nossa culpa e a daqueles que nos magoam. Alá é sábio e nada ocorre sem estar conforme às suas leis. Vai, filho, vai! Não te esqueças, entretanto, do que te digo: aprende a receber o sofrimento com corajosa serenidade. Habitua-te a dominar a dor pelo cultivo da resignação fortalecida com prece sincera. Sofre corajosamente, perdoa humildemente, recolhido sempre no santuário do teu coração. Não te apartes do amigo infiel: ele precisa mais de ti do que supões. Lembra-te do sândalo: quando recebe um golpe, deixa escapar pela chaga aberta o mais suave perfume que Alá já derramou sobre a Terra... Ora pelo amigo que te traiu: pede a Alá que o proteja, mas que não te desampare a ti..."

Afhir-al-Baghíd tinha os olhos rasos de pranto. Compreendeu que o amigo infiel é um desgraçado. Está sem guia, perdido no meio de ideias fragmentadas que sua mente não pôde concatenar. Não deve ficar ao abandono, mas assistido e orientado. Afhir deixou o minarete, dirigindo-se vagarosamente para os lados do sul. Caminhou alguns passos, estacou e, pela vez derradeira, voltou-se para olhar a mesquita distante, semi-esbatida (de tom ou colorido pálido) na noite que já descia sobre a cidade velha. Ergueu o braço e passou a manga da túnica amarfanhada nos olhos molhados.
  
E num suspiro extenso, recordou as palavras de HahhaIlad:

- "O amigo infiel é um ídolo que tomba... um vácuo que se abre em nossa alma ... Aproveita esse vácuo: enche-o de perdão... Perdoa, perdoa sempre... Um amigo que trai outro amigo, podes crer, é uma estrela que se apaga no céu..."


E esta última frase foi-lhe bimbalhando (soando) nos ouvidos: - Uma estrela que se apaga no céu ... uma estrela que se apaga ... uma estrela que se apaga..."

Nota do Blog: Os trechos em negrito não existem no original. Foram destacados na estória acima pois resumem os ensinamentos nela contidos.

Plano Satânico


Plano Satânico
Editorial
Reformador (FEB) Setembro 1947

Um comentador publicou um artigo no qual, parecendo defender a Doutrina, lança maldosamente Allan Kardec contra os Evangelistas com finalidade remota e diabolicamente inteligente de destruir o Espiritismo.

Cita trechos de Kardec e os interpreta como negando o Codificador que Jesus tenha sido um Agênere, mas que teria sido um homem de carne e ossos, gerado e nascido como qualquer de nós. Como, porém, os Evangelistas dizem que Jesus nasceu de uma virgem, sem contato carnal; que seu corpo se fazia e desfazia à sua vontade que ele andou sobre as águas, desapareceu do sepulcro e reapareceu com o mesmo corpo, havendo comido peixe à beira do lago, partido e comido pão com os dois discípulos a caminho de Emaús, fez que um dos discípulos (Tomé) lhe examinasse o corpo para verificar que era tão material como antes da morte e, finalmente,
que se tornou mais etéreo e se elevou, pelos ares até desaparecer por trás de uma nuvem. Como os evangelistas, relatando os fatos observados, deixam fora de dúvida que Jesus foi um Agênere, o astucioso articulista, pondo em oposição aos Evangelhos a opinião pessoal de Kardec, lança o descrédito contra os Evangelhos; e como Kardec baseou a Doutrina exatamente sobre esses mesmos Evangelhos, fica fora de dúvida que se os Evangelhos não merecem fé, o Espiritismo não tem fundamento e há de cair com o Novo Testamento.

É esse o caminho tenebroso já seguido em França e outros países para lançar a dúvida e matar o Espiritismo. Não são os Evangelhos que caem, porque estes são  defendidos pelas Igrejas e se conservam; eles são muito mais velhos e têm muito mais autoridade no mundo do que a opinião de quem quer que seja; o que pode cair como caiu na França, nessa luta artificial contra os Evangelhos, é a codificação de Kardec, o Espiritismo.

Sempre que um suposto espírita lança Kardec contra os Evangelhos, está fazendo a tenebrosa obra de demolição da Doutrina.

O Destino



O Destino
Emmanuel por Chico Xavier
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Destino e livre arbítrio sempre coexistem nas atividades humanas.

O Criador Infalível estabelece a Vida Universal. O homem falível traça os roteiros da vida que lhe é própria.

O Pai organiza as leis eternas.

O filho vale-se das experiências.

Não há fatalidade para o mal e sim destinação para o bem.

É, por isso, que a todas as criaturas foi concedida a bênção da razão, como luz consciencial no caminho.

Se o Senhor Supremo estatui diretrizes e recomenda aos homens a execução dos princípios formulados, o homem é compelido a cooperar em sua obra divina.

Da desobediência da alma aos supremos desígnios procedem as desarmonias no serviço universal. E quanto maior a expressão de entendimento no Espírito rebelde, mais agravo de responsabilidade caracteriza a intervenção indébita do colaborador humano que abusa da magnanimidade das Leis Divinas.

Quanto maior a capacidade do discernimento, mais vasto o débito.

Que a alma encarnada, pois, compreenda o transcendentalismo das divinas concessões e desempenhe os deveres que lhe competem no caminho diário. Ninguém fugirá ao doloroso trabalho individual de recomposição dos elos quebrados na corrente da universal harmonia.

Cada devedor será defrontado pela própria dívida, agora ou mais tarde, atentos à realidade de que nem todas as sementes produzem frutos dentro de alguns dias ou de algumas semanas. Se os minúsculos grãos de vida dos legumes oferecem resultados em alguns dias, plantas existem que só fornecem a multiplicação de valores no curso de longos anos. Assim, nossos atos e compromissos. Nem todos proporcionam efeitos em tempo breve. Daí a necessidade dos indivíduos e dos agrupamentos, quanto à real observação da vigilância no círculo de si mesmos.

O Pai concede a bênção da oportunidade. Mas ao filho compete a cooperação.

Há, portanto, leis que regem a vida e, consequentemente, destinação de homens e coletividades a essa ou àquela tarefa, a esse ou aquele trabalho nas edificações da experiência humana; entretanto, nesse campo, permanece o homem - colaborador de Deus - com a sua capacidade de execução c também de influenciação ou interferência.

Que todos nós, portanto, usando dos sagrados dons da liberdade interior, colaboremos com o Pai no maior engrandecimento de sua obra, a fim de que, no esplendoroso amanhã do futuro, venhamos a integrar as fileiras dos servidores fiéis, a caminho da justa e real glorificação na Eternidade.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Propaganda Original



Propaganda Original
A Redação
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Todos os homens sabemos que não há melhor propaganda que a discussão. Sem lutas e discussões dificilmente um ensinamento poderá atravessar os séculos. O próprio Evangelho sofreu e sofre ainda ataques e é motivo de discussões.

Da discussão nasce a luz, dizemos todos, e realmente isso é uma verdade.

Kardec vem sendo discutido em todos os países anglo-saxônicos e, dia a dia, o chamado dogma da reencarnação vem conquistando adeptos naqueles países, nos quais não reeditaram as obras do Codificador, agora a eles levadas através das edições brasileiras, em Esperanto.

Roustaing, da mesma forma, vem sendo discutido apaixonadamente, quase diríamos fanática e estacionariamente; todavia, pela procura sempre crescente de sua obra, verificamos que os resultados têm sido excelentes.

Agradeçamos, pois, aos nossos adversários.


Frederico Fígner



Frederico Fígner
A Redação
Reformador (FEB) Fevereiro 1947

Em nosso número de Fevereiro anunciamos a desencarnação de nosso querido companheiro de trabalhos espíritas, Frederico Figner, e dizíamos, então, que ele foi o espírita mais perfeito que já existiu no Brasil. Não quisemos com isso diminuir o brilho da ação de outros pioneiros da Doutrina, como foram Bezerra de Menezes, Antônio Luiz Sayão, Cairbar Schutel, Guillon Ribeiro, Batuira e outros. Fígner possuía todas as grandes virtudes cristãs que mais enobrecem as almas privilegiadas por alto grau de progresso e tinha ainda o espírito prático do homem moderno que sabe reunir meios materiais para ajudar em grande escala a divulgação das ideias e os necessitados. Esse conjunto raro de capacidades espirituais, intelectuais, sociais e materiais fez dele realmente um espírita modelar, dentro da vida social, em pleno século vinte. A faculdade de desenvolver capacidades tão variadas que no Espírito sem elevação se chocam e tendem a destruir-se reciprocamente, predominando umas somente pelo aniquilamento de outras, é o que em Fred Fígner revela grande superioridade espiritual. Saber ganhar fortuna sem se prender a ela, mas, ao contrário, fazendo-a serva obediente de serviço social, e conservar a candura do crente, a fé que transporta montanhas, sem cair no fanatismo religioso, e, ao mesmo tempo, instruir-se em letras e línguas, sem desviar o pensamento de uma série complexa de deveres; cultivar as mais altas relações sociais, sem esquecer o convívio com os infelizes e sofredores, essa multiplicidade de atividades não é dada ao comum dos homens, mas somente aos Missionários, aos Espíritos de escol.

O Brasileiro

Toda a imprensa diária regista o passamento de Fígner como a de um grande brasileiro. Adquiriu ele a cidadania brasileira há 25 anos e desposou uma dama de nossa melhor sociedade, criou uma família brasileira e amou ao Brasil como os que mais o amem. Sua obra de unificação espiritual de nossa gente é maior do que
em geral se pensa. Gravando ele em pessoa discos fonográficos de músicas populares brasileiras e divulgando-as por todo o território nacional, tornando-as assim patrimônio comum de toda a gente desde o extremo Norte ao extremo Sul, de Leste a Oeste do Brasil, Fígner realizou um trabalho de unidade espiritual do nosso povo
como poucos o podem hoje compreender. Mais tarde, quando a indústria de gravação fonográfica progrediu, ele soube orientar o progresso. Já não executava o trabalho como simples técnico, mas montava oficinas modernas de gravação as quais, em maior escala, operavam nessa obra sentimental de distribuir por todo o Brasil o patrimônio artístico, genuinamente brasileiro. Meio século de trabalho desse pioneiro fonográfico representa uma obra imensa de unificação nacional. A ação industrial de Fred Fígner, no tempo em que não existia o rádio, tem o valor de nobre apostolado patriótico.

Como divulgador das máquinas de escrever, do mesmo modo contribuiu grandemente para o progresso material do Brasil. Trabalhou no Brasil 56 anos.

Seus serviços de beneficência e assistência social exemplificando pela ação a Doutrina que pregava pela palavra e pela imprensa, são outra modalidade de serviço que não poderia ficar esquecida de quantos o conheceram, daí toda a grande imprensa prestar-lhe reverente homenagem por ocasião de seu passamento. Dentre todos os jornais, temos que destacar o serviço de "A Noite Ilustrada" que lhe consagrou duas páginas de encômios e compreensão da sua obra, classificando-o de "o mais brasileiro de todos os estrangeiros, o cidadão dos mil amigos, o protetor dos necessitados, filantropo dos mais legítimos e dedicados.

O Espírita

Israelita de nascimento, bebeu no lar paterno os preconceitos de sua raça contra o Carpinteiro de Nazaré, cujos supostos seguidores tão cruelmente perseguiram durante séculos o povo eleito, os descendentes de Abraão e dos Profetas. Na verdade, porém, Fígner, como muitos outros judeus, não tinha religião alguma, era cera virgem sua alma na infância e na juventude.

Foi no Brasil e quando já negociante próspero, com seu estabelecimento comercial e industrial nesta Capital e uma sucursal em S. Paulo, que Fígner foi chamado a conhecer a Verdade... 

Nos últimos anos do século passado ou nos primeiros deste século, Fígner travou relações de amizade com Pedro Sayão, filho do saudoso doutrinador Antônio Luiz Sayão, pai da célebre cantora Bidu Sayão. Pedro Sayão, durante cerca de dois anos, lhe frequentava a loja e palestrava sobre Espiritismo e Cristianismo, sem que Fígner se impressionasse muito pelo assunto; porém, numa de suas visitas ao seu estabelecimento de S. Paulo, Fígner ouviu a dolorosa história de um seu empregado, cuja esposa se achava gravemente enferma e necessitada de melindrosa intervenção cirúrgica. Ao regressar ao Rio, Fígner pediu a Pedro Sayão lhe obtivesse receita para
a cura da enferma de S. Paulo. Veio a receita e a cura da doente, sem intervenção alguma dos médicos. Foi esse fato que impressionou Fígner a favor do Espiritismo.

Já Impressionado com a cura da doente mediante uma receita mediúnica, Fígner foi procurado em sua loja por um pobre, pai de família desempregado, em penosa situação econômica. Ouviu-lhe o relato de suas aflições, deu-lhe um pouco de dinheiro e disse-lhe que voltasse oito dias mais tarde. Ao sair o necessitado, pela primeira vez na vida Fígner fez um pedido ao Carpinteiro de Nazaré: "Se é como dizem os cristãos que tu tens muito poder, ajuda a esse pobre par de família; arranja-lhe trabalho e meios de vida!"

Oito dias mais tarde, voltava o homem com o sorriso dos felizes e lhe narrava: "Já estou trabalhando e brevemente virei restituir seu dinheiro, Sr. Fígner. Fui procurado por uma pessoa que me convidou para um emprego inteirramente inesperado".

O Fígner se entusiasmou e repetiu semelhantes pedidos, com resultados sempre positivos. Em vez de pedir a Jesus, passou a pedir a Maria e igualmente os resultados não se faziam esperar. Encheu-se da fé que transporta montanhas e estudou com entusiasmo o Espiritismo e o Cristianismo. "Passou a consagrar sua vida ao 
serviço dos outros.

Não se sabe ao certo quando se deu essa conversão, mas em 1903 já se encontram vestígios das atividades espíritas de Figner na Federação Espírita Brasileira.

Por ocasião da gripe "espanhola", em 1918, com 14 doentes em seu próprio lar e ele mesmo adoentado e febril, passava os dias inteiros na Federação, atendendo a doentes e necessitados que lá iam, em avalanches, buscar recursos para situações aflitivas.

Sua vida normal durante longos anos consistia em ir de manhã e à tarde à Federação tomar ditados de receitas de diversos médiuns, chegando a tomar 150 a 200 receitas por dia e a dar passes em numerosos doentes. Levantava-se às cinco horas da manhã e, antes de ir à loja, ia à Federação, de onde só saía quando terminava esse serviço de tomar ditados de receitas. Às quatro horas da tarde lá estava de novo para orar e dar passes em doentes. E curava mesmo os enfermos, pois que seus "fregueses", como ele lhes chamava na intimidade, cresciam sempre de número.

            Escreve-nos pessoa digna de toda fé:            

“Eu ainda não conhecia o Figner nem frequentava os meios espíritas, mas sabia pelos jornais que ele dava passes em doentes. Fui procurado por um Sr. Lima, funcionário do Serviço Nacional de Fiscalização da Medicina, que me narrou um caso doloroso: Em Engenho de Dentro jazia num leito, abandonada, uma doente em 
estado grave e na mais absoluta miséria. Perguntou-me o Sr. Lima, se conhecia algum médium que pudesse dar passes na doente; facilitando-lhe a desencarnação que se eminente. Pelos jornais eu sabia que o Fígner dava passes e dei essa informação ao Sr. Lima, adiantando-lhe que no índice dos telefones talvez encontrasse o endereço do médium.

"Três meses mais tarde, encontrei-me novamente com aquele funcionário do S.N.F.M. e lembrei-me do caso. Perguntei se havia recorrido ao Fígner. Fui, então, informado que o Sr. Lima havia procurado o médium em seu escritório e que, durante dois meses, o Fígner visitara diariamente a enferma, levando-lhe remédios, gêneros, dando-lhe passes, até que ela se restabeleceu."

São inumeráveis os casos como esse na longa vida desse apóstolo da caridade. Agora, por ocasião de sua partida para a pátria espiritual, cada espírita se recorda de um ou mais fatos dessa natureza.

Franco, leal, por vezes rude, repreendia frente a frente a qualquer companheiro que ele supunha ou fora informado haver cometido erro grave em detrimento da Doutrina. Mas se o caso se esclarecia e verificava ser injusta a recriminação, penitenciava-se com a mais comovedora humildade cristã.

Contrariamente à primeira impressão que causava, era extremamente humilde e cordato. Deu disso um exemplo quando andava aceso o Caso Humberto de Campos. Com entusiasmo deu muitas entrevistas a jornais e prometera outras; mas o advogado da defesa da Federação fez-lhe ponderações no sentido de silenciar, para que os Julgadores conhecessem primeiramente o caso no seu aspecto jurídico, sem campanhas jornalísticas que poderiam parecer desrespeitosas à serenidade da Justiça. Com uma disciplina digna de todos os louvores, Fígner negou as entrevistas prometidas e guardou absoluto silêncio até ao pronunciamento dos Juízes que deram ganho de causa à Federação.

Como propagandista da Doutrina, manteve sempre uma secção no "Correio da Manhã" que era lida no País todo; promoveu a publicação de muitos livros, custeando as edições. Foi a Inglaterra visitar o célebre "Circle of Crew", onde o médium WiIly Hope obtinha as famosas fotografias de extras; visitou, então, Sir Arthur Conan Doyle e outros grandes vultos do Espiritismo inglês.

Em 1920 perdeu a filha primogênita e sua esposa ficou inconsolável. Ouvindo ele falar da médium de Materialização D. Ana Prado, de Belém do Pará, decidiu-se a partir para o Norte. No dia 1º de Abril de 1921, partiu para ali com toda a família. O que sucedeu naquelas sessões acha-se relatado no livro do Dr. Noguelra de Faria, intitulado O Trabalho dos Mortos, pela Sra. D. Esther Fígner, esposa de Frederico Fígner, a qual apenas regressando das sessões e assistida por sua filha Leontina, escrevia relato minucioso de tudo que ocorrera.

Trouxe ao Brasil o famoso médium de vozes diretas, Valiantine, e aqui realizou com ele sessões em rodas de amigos.

Presidia diversos grupos na sede da Federação e em seu lar.   

Foi Vice-Presidente da Federação e depois Membro do Conselho Fiscal, função que exerceu até à desencarnação. Era Tesoureiro da Comissão pró livro Espírita.

Consumia vultosas rendas em obras de beneficência. Possuía sólidos conhecimentos da Doutrina e defendia com ardor as obras de Allan Kardec e a de J. B. Roustaing. Por ocasião de sua viagem pela Inglaterra, pasmou-se de não encontrar nas livrarias essas obras fundamentais. Percorreu pacientemente as mil casas de livros de segunda mão, em Londres, e lá encontrou alguns exemplares de ambos os Autores. Comprou-os todos e ofereceu a instituições espíritas. Relatava-nos, depois, com entusiasmo: “Três exemplares da obra de Roustaíng, em perfeito estado, em boa tradução inglesa, encontrei numa livraria e ofereci a três sociedades espíritas!"

O Homem

Frederico Fígner nasceu na madrugada de 2 de Dezembro de 1866, na casa humilde nº 37 da rua Teynska, em Milevsko, perto de Tabor, Tcheco-Eslováquia, então Boêmia e parte do Império Austro-Húngaro.

Era, portanto, compatriota de outro missionário que como ele vinha cumprir sua tarefa no Brasil, durante longa existência como brasileiro, entre os melhores, Francisco Valdomiro Lonrenz, nascido em Zbislav, perto de Tcháslav, e chegado ao Brasil dois anos depois de Fígner. Ambos vinham da Pátria dos grandes mártires
do Cristianismo, Jan Hus e Jerônimo de Praga, divulgar aqui os ideais superiores que conduziram os dois heróis aos tormentos da Inquisição. Fígner c Lorenz gravitaram para a Federação Espírita Brasileira que era muito jovem quando eles chegaram ao Brasil. O primeiro já concluiu sua missão visível na Casa de Ismael, o segundo
está em plena atividade através de livros que já lhe perpetuaram o nome na obra da Federação, com vistas ao futuro Milênio. Fígner venceu galhardamente a escorregadiça e perigosa prova da riqueza, Lorenz vai vencendo com igual bravura os tormentos da pobreza.

Filho de pais pobres, Fígner tinha que emigrar para o Novo Mundo, como faziam os jovens da Europa Central, naquele tempo. Aos treze anos sai do lar paterno e vai para a cidade de Bechim aprender um ofício. E em 1882, aos 16 anos, deixa definitivamente a terra natal. Parte com sua maleta de emigrante para Bremershafen,
de onde, a bordo do vapor "Elbe" (como passageiro de terceira classe), ruma para os Estados Unidos, só levando dinheiro para a travessia. Contava Fígner um pormenor interessante dessa viagem. Sua mãe fizera e lhe dera para a viagem uma trança de pão doce. Chegando a bordo, nota que a alimentação de terceira classe é absolutamente insuportável. Divide, então, o seu pão doce, de sorte a bastar para todos os dias da travessia que durou 14 dias. Foi essa a sua única alimentação durante duas semanas.

Levava como modelo de conduta a tenacidade dos pais. Era o exemplo a imitar para vencer na vida.

Uma tempestade violenta foi o único incidente da travessia, mas foi-lhe rude a luta para adquirir estabilidade econômica de sorte a manter-se e ajudar os pais e irmãos. Estados Unidos, México, América Central e, finalmente, América do Sul, foram seus campos de luta econômica. No Brasil, esse filho de Israel encontrou sua
Canaã. Estabeleceu-se, prosperou, conheceu uma jovem de peregrinas virtudes e alma de artista, D. Esther de Freitas Reys, filha de família ilustre.

Em 1897, Frederico Fígner e D. Esther de Freitas Reys fundavam, pelo matrimônio, seu lar feliz. Recebia ele o prêmio de suas grandes lutas de trinta anos, mas não sonhava repouso que não era ideal de seu caráter vibrante e que de certo nem Átropos lhe dará. Desse feliz enlace nasceram seis filhos: Rachel, Aluízio, Gabriel,
já desaparecidos do mundo antes do venerando pai; Leontina, Helena e Lelia, vivas e muito devotadas ao seu velho pai.

O serviço de Fígner nas obras de assistência e no trabalho profissional afastava-o muito do lar, mas isso não prejudicava o cultivo de um afeto extremado entre pai e filhas. Amavam-se com ardor e respeitavam reciprocamente as ideias e crenças particulares de cada um.

Ainda nos últimos dias de sua Vida distribuía ele principescamente donativos por Instituições e pessoas pobres de sua amizade, guiando-se pelo coração e nem sempre pelo cérebro, e só respeitando a fortuna das filhas.

Trabalhou e serviu abnegadamente até que a enfermidade o prendeu ao leito, poucos dias antes da partida. Completou oitenta anos em 2 de Dezembro e em 19 de Janeiro, às 20 horas, partiu para o mundo espiritual, deixando abertos caminhos de luz sobre a Terra que pisara por tanto tempo.

Ao funeral compareceu uma multidão de amigos e admiradores. Diante da câmara mortuária, o Presidente da Federação pronunciou algumas palavras de despedida e o Vice-Presidente fez uma prece. Ao descer o ataúde ao jazigo no Cemitério São Francisco Xavier, falaram com sentimento os Drs. Miranda Ludolf e
Lins e Vasconcelos e o Capitão Silva Pinto.

O Crente Preparador do Futuro

Na intimidade e geralmente pela hora das refeições, Fígner recitava uns versinhos em língua alemã, nos quais o poeta ensina que o homem que não passou dores nem faltas; não sofreu privações, não conheceu o Poder de Deus:

Wer nie sein Brod in Tränen ass,
Der kennt Euch nicht die heilige Macht.

Foi depois de muito lutar e muito sofrer que lhe desceram do Sinai da vida os Mandamentos que o tornaram feliz e útil em todas as situações.

Seu caráter resoluto, ao compreender a Terceira Revelação, adquiriu aquela fé que transporta montanhas e não se detém diante de nenhum obstáculo. Tornou-se o crente modelar e ativo que põe a fé em obras e as eterniza no mundo.

O futuro pertence a Deus, mas o grande crente deixou edificados altares em numerosos corações de jovens que lhe continuarão o trabalho de construção de um mundo novo, mesmo entre as procelas que tudo ameaçam tragar. A família espírita sente-se órfã com o desaparecimento, do mundo objetivo, de um vigoroso trabalhador; mas seu Espírito nos continuará inspirando e seus exemplos hão de dar frutos e sementes que se reproduzirão pela eternidade em fora.             

As grandes obras não podem ser compreendidas no século em que viveu seu Autor. Só as consequências futuras lhes revelam a grandeza. Não somos nós, seus contemporâneos e amigos, que poderemos compreender a obra de Fred Fígner; só a posteridade terá essa compreensão pelos desdobramentos que a obra engendrará. Mais do que ninguém, Fígner deu o exemplo de viver a Doutrina, de praticá-la a cada Instante, enquanto outros brilhantemente a pregam em belas palavras e conservam frio o coração. Não deixou um grande livro com as suas ideias, como não o deixaram Sócrates nem Jesus, que se limitaram a deixar o exemplo, a vida da ideia que vieram ensinar aos homens, Socrates e Jesus foram incompreendidos totalmente pelos seus coevos e até pelas Suas famílias - Fígner foi um pouco mais feliz: sua família e a sociedade em que viveu compreenderam--lhe parte da obra e saberão conservar-lhe a lembrança.

O Espírito

Frederico Fígner não teve escola superior. Foi autodidata sem tempo nem calma para estudar, pois que em lutas econômicas desde a infância; no entanto, sua missão reclamava grandes conhecimentos e ele os revelou. Possuía e manejava com segurança línguas de três famílias mui diversas entre si: eslavas germânicas e latinas. Adquiriu conhecimentos jornalísticos suficientes para colaborar num dos maiores diários do País. Demonstrou raras capacidades técnicas em sua indústria e no comércio.

Essa posse de conhecimentos universitários, inexplicavelmente adquiridos, revela a elevação de seu Espírito, demonstra que ele não era um simples habitante da Terra, mas, sim um Missionário descido ao Planeta para colaborar em sua transformação predita e anunciada para o nosso tempo.

Fora um Espírito comum da Terra e ter-se-ia limitado à sua profissão, sem cogitar da sorte dos outros; ter-se-ia perdido nos meandros da fortuna, sem saber aproveitá-la; ou, ao conhecer as sublimidades da Doutrina, teria abandonado a fortuna, esse precioso instrumento de trabalho sem o qual sua obra teria sofrido tristes limitações.

Um exame atento na obra, nos conhecimentos, na ética, no caráter de Frederico Fígner nos leva à convicção de que ele foi missionário e cumpriu sua missão com perfeita segurança.

Que lá das esferas de luz, para onde se elevou, continue ele nos ajudando no cumprimento das mesmas tarefas que iniciou, e que teremos de continuar!


quarta-feira, 4 de abril de 2018

As (5) Encarnações do Codificador



As 5 (?) Encarnações do Codificador
             Luciano dos Anjos
Reformador (FEB)
Agosto  1974
           
            Não tendo sido um agênere, como Jesus o foi, é curial que Kardec houvesse tido várias outras encarnações, antes de renascer pela última vez, em Lyon, no ano de 1804. É precisamente no rastro delas que segui, visando à redação deste artigo. O que se sabe vulgarmente é que o Codificador fora um sacerdote druida, na Gália antiga, ao tempo em que Júlio César imperava no mundo. Essa notícia, quem no-la dá é Henri Sausse, aliás, o melhor biógrafo de Kardec, seu contemporâneo. As duas biografias são muito curtas e pouco nos dizem do biografado: uma, de Camille Flammarion, constante do discurso que pronunciou à beira do túmulo do mestre (‘Obras Póstumas’, págs. 17 a 26 da 11ª edição da FEB); e a outra, divulgada pela ‘Revue Spirite’, de maio de 1869 (apud ‘Obras Póstumas’, págs. 9 a 16, idemibidem). Henri Sausse, porém, fez excelente trabalho, agora inserto na obra ‘O que é o Espiritismo’, à págs. 7 e segs. da 11ª edição da FEB.  A certa altura, afirma o biógrafo:

            “Uma noite, seu espírito protetor, Z., deu-lhe, por um médium, uma comunicação toda pessoal, na qual lhe dizia, entre outras coisas, tê-lo conhecido em precedente existência, quando, ao tempo dos Druidas, viviam juntos nas Gálias. Ele se chamava, então, Allan Kardec, e, como a amizade que lhe havia votado só fazia aumentar, prometia-lhe esse Espírito secundá-lo na tarefa muito importante a que ele era chamado, e que facilmente levaria a termo.”

            Isto ocorreu na casa de Emilie Charles Baudin, e Z., como se sabe, era a abreviatura de Zéfiro. Àquela época, nas Gálias, Allan Kardec era superior a Zéfiro, na hierarquia sacerdotal. Em termos de evolução espiritual, Kardec também lhe estaria acima, conforme se lê em ‘Obras Póstumas’.

            Noutro trecho de seu trabalho biográfico, Henri Sausse registra:

            “Sendo o seu nome muito conhecido do mundo científico, em virtude dos seus trabalhos anteriores, e podendo originar uma confusão, talvez mesmo prejudicar o êxito do empreendimento, ele adotou o alvitre de o assinar com o nome de Allan Kardec que, segundo lhe revelara o guia, ele tivera ao tempo dos Druidas.” (apud ‘O que é o Espiritismo’, pág. 19, 11ª edição da FEB).

            E aqui chamo a atenção do leitor para um fato bastante curioso e ignorado de muitos. Ele  mesmo, Kardec, parece não haver deixado nada escrito sobre essa encarnação entre os druidas. Digo parece, por questão de prudência, mas a rigor eu a afirmaria. A revelação, porém, sabe-se que foi feita em 1856, através da cestinha escrevente de Baudin, com a médium Caroline. As notas sobre o fato estavam, em 1921, na Livraria de Leymarie. Em 1925 eram transferidas para o arquivo da ‘Maison des Spirites’, onde em 1940 foram afinal destruídas pelos alemãos, durante a invasão de Paris. Entretanto, enquanto estiveram na Livraria de Leymarie, chegaram a ser copiadas quase totalmente pelo nosso estudioso confrade Canuto Abreu.

            Outro fato curioso; ignora-se completamente quem alvitrou a Kardec subscrever seus livros com aquele nome. A respeito, meu particular amigo e colega Indalício Mendes escreveu no ‘Reformador’ de outubro de 1954, pág. 227 (“Tri-Cinquentenário do Codificador”):

            ‘Ignora-se, porque isto não consta das obras que tratem da vida do Codificador, quem deu o alvitre, se a idéia foi sua ou se a recebeu de alguém encarnado ou desencarnado. Todavia, não há negar que foi felicíssima a sugestão, por se tratar de dois nomes curtos e eufônicos, de pronta retenção pela memória.’

            Nada obstante, o próprio Indalício Mendes admite, mais adiante, que o alvitre partira do Espírito Zéfiro, mentor do Codificador:

            ‘A revelação de Zéfiro, Espírito guia de Rivail, fora altamente benéfica ao movimento que se iniciava. Talvez dele tenha partido o toque intuitivo que levaria o famoso discípulo de Pestalozzi a adotar o nome que usara em encarnação precedente: Allan Kardec.’   
    
            Pretendendo homenagear o movimento druídico, Allan Kardec escreveu, um ano depois do aparecimento de ‘O Livro dos Espíritos’, interessante artigo sobre o Espiritismo entre os druidas, divulgado na ‘Revue Spirite’ de abril de 1858. André Moreil também chama a atenção do Codificador ao druidismo ( vide ‘Vida e Obra de Allan Kardec, pág. 67 da tradução brasileira de Miguel Maillet).

            Antes de passarmos ao exame de outra encarnação do grande missionário de Lyon, vejamos rapidamente quem eram os druidas. Professavam eles uma doutrina muito semelhante à cristã. Os autores da Antigüidade consideravam-nos muito mais sábios do que propriamente sacerdotes. Não chegavam a formar uma casta. Para tornar-se druida eram necessários estudos especiais; mas a condição sacerdotal não proibia a participação ativa na vida pública de relações. Apenas ficava dispensado de fazer o serviço militar e de pagar impostos. A função religiosa dos druidas consistia em presidir aos sacrifícios. Acredita-se que dessas funções também fazia parte o exercício da magia. A eles recorrias inclusive as autoridades, a fim de julgar processos. Quem recusasse submeter-se a seus laudos era ameaçado de excomunhão religiosa e social. Os druidas praticavam o voto eletivo para escolha de seu chefe. Disputavam a dignidade, não raro pelas armas. Só existiram druidas, segundo atesta a História, na Grã-Bretanha, na Irlanda e numa parte da Gália. Nesta última, o druidismo foi abolido pelo Imperador Tibério, persistindo porém ainda por muito tempo na Irlanda e no País de Gales.

            Allan Kardec era um dos sacerdotes druidas. Considerando que Júlio César imperou na Gália de 58 a.C. a 44 a.C., é nessa faixa que temos de localizar a encarnação do Codificador, àquela época. Isto porque, conforme esclareci antes, pela médium Caroline fora revelado que tal existência ele a vivera ao tempo em que aquele notável guerreiro imperava sobre o mundo, inclusive a Gália.

            Vejamos agora a sua existência no século XIV, encarnando a figura estóica e varonil de Jean de Husinec (Jan Hus, que em tcheco quer dizer ganso ou pato). A notícia dessa outra encarnação foi dada psicograficamente, através do médium Ermance Dufaux, no ano 1857. O registro do fato também se achava na Livraria de Leymarie e foi copiado por Canuto Abreu. Teve, com a invasão nazista, o mesmo destino da outra nota.

            João Huss foi um reformador tcheco. Filho de camponeses, nasceu em Husinec, cerca de 1369. Após ser queimado vivo pela Igreja, em Constança, no ano de 1415, acabou tornando-se herói da Boêmia Herética. Sua fama não é apenas literária, decorrente das suas preciosas obras. João Huss simboliza o ponto de partida dum movimento de idéias. Muitas de sua obras foram escritas em latim, deixando porém alguns tratados e algumas cartas em língua tcheca. Essas cartas (sobretudo as últimas, que escreveu na prisão, em Constança) são duma comovedora singeleza. João Huss foi ainda o simplificador e normatizador da ortografia tcheca, estabelecendo o uso dum alfabeto quase completamente fonético. Seu estilo inaugura uma época nova e suas frases, secas e precisas, vão direto ao alvo.

            Duas principais obras escritas em tcheco objetivaram a reforma dos costumes, do Clero e do povo: ‘O Espelho do Pecado’ e ‘Tratado da Simonia’. Nesta, o próprio papa é violentamente atacado.

            Petr Chelcicky (cerca de 1390-1460), camponês livre do Sul da Boêmia, levou as idéias de João Huss ao extremo da lógica, despojando-as de toda teologia especulativa. Seu programa era a volta ao Cristianismo primitivo, o que lhe representava a não resistência ao mal e a abolição do direito de propriedade. Foram ainda as idéias de João Huss que inspiraram as obras do bispo Rokytsana (1397-1471), célebre pregador e comentador dos Evangelhos. Também o ‘Regulamento do Exército’, de Jan Jijka de Trotsnov, general dos exércitos taboritas (nome dos partidários de João Huss), no qual se encontram amalgamados preceitos religiosos e instruções militares, sofreu grande influência das idéias de João Huss.

            Estudante em Praga, onde se bacharelou em Artes e Teologia, João Huss acabou sendo nomeado deão da Faculdade de Filosofia e, mais tarde, reitor da Universidade. Deixou-se empolgar pelo escritor Wycliffe, professor da Universidade de Oxford, considerado um dos maiores sábios da sua época e autor da obra ‘De Domínio Divino’, na qual procurava provar que a autoridade é Deus, com Quem a criatura entrava em relação direta, sem necessidade da intermediação da Igreja. Combateu e ironizou o papa, negou os dogmas, criticou os santos. Só não acabou também na fogueira, qual João Huss, dada a sua grande habilidade e astúcia.

            Por volta de 1400, João Huss sofreu terrível crise religiosa, com o que aprofundou os seus estudos do Cristianismo. Foi nomeado então pregador da Capela de Belém, em Praga, capital da Boêmia. Carlos IV subiu ao poder e, alimentando as aspirações dos tchecos, acabou favorecendo a revolta de Praga contra os abusos eclesiásticos. João Huss era abertamente pela reforma e pela preponderância nacional da Boêmia, embora sem entrar em conflito com o Clero. Decidiu, porém, publicar um tratado no qual a tese de que um cristão não deve correr atrás de milagres. O Clero irritou-se e tomou-lhe o cargo que lhe havia dado, de pregador sinodal. A rainha Sofia, porém, gostava dele e daí ter-se João Huss transformado em chefe do partido nacional. O rei Vaclav, filho de Carlos IV, decidiu ficar neutro entre os dois papas que aspiravam à chefia do mundo católico: Gregório XII e Alexandre V. Este último acabou sendo eleito pelo Concílio de Pisa, e então, pela bula de 1409, exigiu a retratação dos wiclifitas e a apreensão dos livros de Wycliffe. Mas o Clero inferior, a Universidade, o rei e o povo ficaram com João Huss, que continuou suas prédicas na Capela de Belém, apesar da bula.

            O tempo correu. Mais tarde João Huss vai entrar em luta contra o papa João XXIII, atacando a venda das indulgências e a política agressiva do Vaticano. Jerônimo de Praga se engajou também na liça, mas o rei de Nápoles estabeleceu a pena de morte para quem ofendesse o papa. Os hussitas (seguidores de João Huss) fizeram, em represália, um enterro simbólico do papa, que ameaçou a Boêmia de excomunhão. João Huss foi aconselhado a deixar a capital e obedeceu. Mas fez uma apelação (Apellatio), enquanto em seu retiro escrevia o tratado ‘De Ecclesia’. A situação se agravou. O imperador Sigismundo prometeu um salvo-conduto a João Huss, se ele consentisse em comparecer ao Concílio de Constança, convocado para a pacificação religiosa da Boêmia. João Huss acedeu. Ao chegar a Constança, recebeu de fato o salvo-conduto onde se lia que ele podia ‘transire, stare, morari et redire libere’. Não obstante, foi traiçoeiramente preso e internado no Convento dos Dominicanos. Instauraram processo contra ele, cabendo a Etienne Palec a acusação. Como medida de maior segurança, transferiram-no para o Castelo de Gottlieben, e deste para o Convento dos Franciscanos. O Concílio condena as teorias de Wycliffe e de João Huss. Não o deixaram sequer defender-se. Em meio ao tumulto, Huss mantém corajosamente as suas idéias e se compadece dos seus inimigos, escrevendo-lhes cartas de devotamento. No dia 6 de fevereiro de 1415, foi afinal condenado e logo executado, mas antes o degradaram publicamente, colocando-lhe à cabeça um chapéu de papel com a inscrição: ‘Hic est hoeresiarcha’. Conduzido a um terreno baldio, despiram-no, amarraram-no a um poste e queimaram-no vivo. Ouviram-no cantar a litania: ‘Christo, Fili Dei vivi, miserere nobis’. Quando ia entoar o segundo verso ‘Qui natus es ex Maria’, foi envolvido pelas chamas e pela fumaça. Suas cinzas foram lançadas no Reno.

            Atestam os historiadores que João Huss era uma alma boa, sensível, piedosa, pulcra e honesta. Dera grande importância à pureza do Cristianismo, pregando sempre que a verdadeira Igreja era a do Cristo. Tinha rara inteligência e sua lógica era impressionante.

            Terminado esse breve escorço biográfico do pregador religioso João Huss, convido o leitor a meditar nos muitos pontos de correlação entre suas idéias, suas reações, suas lutas, e as de Allan Kardec. Não há por que duvidar da estreita ligação entre as duas figuras, no que obviamente nenhum reencarnacionista se surpreende, já que o espírito de ambos seria ou era um só...

            Mas, e as outras vidas do professor Hippolyte-Léon Denizard Rivail? A rigor, nada ou quase nada se sabe. Entretanto, vejamos algumas interessantes referências que merecem ser meditadas, tendo em vista as fontes onde fui buscá-las. São registros que passam despercebidos a muita gente, mas que me proponho a ressaltar, embora sem nenhuma preocupação de coonestá-los.

            Remontemos ao pequeno período que vai do ano 30 ao ano 33 de nossa era. Período curto, é bem verdade, mas que encerra as mais profundas e gratas recordações de toda a cristandade. De 30 a 33 Jesus exerce seu celeste mandato. (Mantenho aqui os anos 30/33 apenas por tradição, pois hoje é sabido que nosso calendário gregoriano tem um erro de 4 anos para trás.) Foram 3 anos de surpresas, de deslumbramento, de paixão e de glória. Ter podido reencarnar nesse período, nessa faixa histórica, é merecimento e prêmio até mesmo para os que houveram de suportar terríveis provações. É natural também que se aceite como apanágio razoável a importância de terem os principais Espíritos responsáveis pela Terra participado dum modo ou doutro da pregação de Jesus, da época de Jesus. Em outras palavras: é muito sensato que Kardec, Ghandi, Francisco de Assis, Emmanuel (este, com certeza), etc. tenham tido a ‘sorte’ de estar na Terra quando o Cristo nela se materializou, embora, evidentemente, isto não seja essencial à evolução de ninguém. Certo é que, se me afirmarem que Kardec viveu aqui no tempo de Jesus, em princípio aceito-o de bom grado.

            Ora muito bem. Entre 30 e 33 teria reencarnado neste planeta um Espírito que se chamou Quirílius Cornélius. Seu pai fora soldado. A mãe e os tios habitavam a casa do avô, um rico e sábio filósofo. Esse avô quis fazer de Quirílius Cornélius um sábio também, mas o pai acabou conduzindo-o à carreira das armas. Estagiou pela primeira vez em Massília, nas Gália. Dali foi destacado para servir em Jerusalém, na Judéia, província então governada, como é sabido, pelo procurador romano Pôncio Pilatos. Quirílius Cornélius tinha grande facilidade de aprender línguas. Em Jerusalém, passou a ocupar um cômodo na casa de certo galileu, homem pobre, de numerosa família, mas muito honesto. Uma de suas filhas, jovem muito bonita chamada Abigail, veio a agradar sobremaneira a Quirílius. Foi ali, naquela casa e naquele ambiente, que ele ouviu falar pela primeira vez em Jesus, com quem irá posteriormente ter contato pessoal. Quem era Quirílius Cornélius? Seria Allan Kardec. Onde se encontram essas informações? Numa obra seríssima, muito bem feita, de grande repercussão mundial, ditada por respeitável autor espiritual, psicografada por médium de excepcionais recursos e, finalmente - o que é importantíssimo - editada sob a chancela da Federação Espírita Brasileira, em tradução de Manuel Quintão. Trata-se do livro ‘Herculanum’, do conde J. W. Rochester (na realidade, o poeta inglês John Wilmot, desencarnado em 1680, boêmio e cortesão de Carlos II, da Inglaterra), livro recebido pela médium mecânica Wera Krijanowsky, de nacionalidade russa. A informação sobre Allan Kardec é apresentada de forma muito clara e muito explícita. O ponto essencial se contém à pág. 351, da 4ª edição, e está vazado nos seguintes termos:

            ‘A esses, como conquistá-los? Como encontrar a pista de suas almas? Tu mesmo, tu, valoroso centurião que não há muito foste Allan Kardec; tu que na última encarnação foste Allan Kardec; tu que na última encarnação te devotaste à fundação de uma doutrina que esclarece e consola a Humanidade, quantos dissabores não amargaste?’

            Mais adiante, à página 353:

            ‘Depois, o Espírito Kardec ascendeu aos páramos infinitos.’

            Com a revelação sobre Quirílius Cornélius podemos seguir curto fio de ariadne e bater noutra figura referida naquele mesmo livro. Trata-se do eremita João, que, aliás, na narrativa de Rochester, é a personagem que interessa. Quirílius só surge porque João recorda sua encarnação anos atrás, ao tempo do Cristo. A rigor, a personagem de ‘Herculanum’ é João, o eremita. Vivia ele no ano 79, época da erupção do Vesúvio, numa espécie de gruta, perto da cidade de Herculano. Era um homem alto que comumente aparecia envolto num hábito cinzento. Tinha idade avançada, porém denotando vigor e porte. Na história, é uma figura austera, centro dos principais acontecimentos, embora surgindo muito poucas vezes no enredo. A referência principal de Rochester está contida a partir da pág. 191 da edição citada. João, o eremita, aparece narrando, à personagem central da história, passagens de sua vida pretérita, quando tinha sido o centurião Quirílius Cornélius.

            Era então o responsável por Jesus, na prisão, mas, como não acreditava na culpa do Salvador, propôs-lhe uma troca: tomaria o seu lugar, deixando que Jesus se evadisse; morreria pelo Cristo. Este, porém, lhe teria respondido:

            -“Agradeço-te e muito aprecio o teu devotamento, mas não posso aceitá-lo. Acaso consideras menor o meu sacrifício, se houvera de permanecer neste mundo em que me é tão difícil praticar o bem? Não, amigo, eu deploro a minha sorte, a mesma que tiveram os profetas que me precederam, mortos pelos homens. Mas, não suponhas, também, que eu desdenhe o sacrifício da tua vida (parou com os olhos no vácuo, dando à fisionomia uma feição singular), pois tu hás de morrer por mim e estou a ver as chamas da fogueira que te espera... Mas, isso não será por agora... (...)

            -“Que dizes com isso, meu pai João? Será que estejas mesmo fadado a morte assim horrível? - atalhou Caius.

            -“Filho, certa feita, cheguei a crer-me destinado à glória do martírio, quando milhares de irmãos tombaram imolados à sua, à nossa fé; e foi quando tive um sonho profético que me assinalou essa glória para existência futura. (1)

            Há aqui uma nota de rodapé, no livro. Vou transcrevê-la:

            “(1) João Huss, queimado em Constança em 1415.”

            Resumindo, para entendimento maior do leitor: o eremita João está se recordando da sua vida na pessoa do centurião Quirílius Cornélius, ao tempo de Jesus. Quer morrer no lugar do Mestre. Este lhe diz então que seu sacrifício será aproveitado no futuro, quando reencarnar como João Huss. Dessa encarnação, também o eremita João já tivera um sonho profético. Assim se interligam e têm seqüência encarnatória as personagens de Quirílius Cornélius (o eremita João), de João Huss e de Allan Kardec, todas referidas por Rochester em seu curioso trabalho aqui citado, diante do qual, porém, sempre caberá uma indagação: seria apenas uma ficção?

            Mas vamos um pouco mais adiante. Sabemos que as obras do conde Rochester (‘O Chanceler de Ferro’, ‘Sinal de Vitória’, ‘Romance de uma Rainha’, ‘A Vingança do Judeu’, ‘Herculanum’) mantém entre si o contexto dum plano concatenado e cronológico. Trata-se quase dos mesmos Espíritos que desencarnam e reencarnam, vivendo diferentes épocas e variegadas situações cármicas. Assim, é possível que Kardec esteja citado noutros livros. Num deles, por exemplo, há passagem que se refere de certa forma à aurora da Terceira Revelação, na qual alguns estudiosos pretendem ver, também ali, alusão implícita a outra encarnação do Codificador. Contudo, como o texto não me pareceu absolutamente claro e positivo, preferi não considerá-lo neste trabalho, visto que a referência tem cunho muito impessoal, podendo ser identificado nela não apenas Allan Kardec, mas qualquer líder espírita... [1]

            A título de curiosidade (curiosidade?) e apenas para que este trabalho não omita nenhum detalhe constante das obras sérias até aqui conhecidas, vou levar o leitor até o livro de Camille Flammarion ‘Narrações do Infinito (Lúmen)’, 2ª Edição FEB, 1963, no qual, em tom dialogal, Lúmen explica a Quaerens inumeráveis aspectos do passado longínquo da Terra e de outros tipos de vida existentes na Criação há milhares de anos.
            Na ‘Quinta Narrativa’, que é a última, escrita por Flammarion em 1869, Lúmen descreve a constelação de Órion, onde há um planeta em que “os seres não têm a natureza vegetal, nem animal;  não poderiam mesmo caber em nenhuma das catalogações terrenas, ou ainda, em uma das grandes divisões - reino vegetal e reino animal. No encontro verdadeiramente maneira de os comparar, para vos dar uma idéia da forma respectiva. Vistes, acaso, nos jardins botânicos, o aloés gigantesco, o cereus giganteus? (...)  Pois bem! os homens de Theta Orionis oferecem alguma parecença com essa forma’(pág. 160). Mais adiante, à pág. 164, temos então a informação capital:

            “Lúmen - Esse mundo de Theta Orionis, com os sete sóis rodantes, é povoado por um sistema orgânico análogo ao que vos defini. Vivi ali há vinte e quatro séculos.

            “Foi lá que conheci o Espírito (encarnado no presente na Terra) que publica seus estudos sob o nome de Allan Kardec. Durante nossa vida terrena, não nos recordamos, mas nos sentimos, por vezes, atraídos um para o outro por singulares aproximações de pensamentos. Agora que retornou, tal qual eu, ao mundo dos Espíritos, ele se lembra também da singular República de Órion e pode revê-la.”

            Ficção? Fantasia?  Ou revelação? Ao leitor transfiro a opção. Meu cuidado foi apenas o de levantar os dados, sempre tomados à literatura respeitável e, portanto, desprezada toda aquela que escape a essa adjetivação.

            No limiar do final deste artigo e diante dos informes aqui coligidos, podemos agora estabelecer a seguinte linha encarnatória para aquele Espírito a quem tanto ficaremos eternamente devendo, pelo muito que nos legou, com a vitória da sua missão excelsa:

            Ano 531 a.C. (vinte e quatro séculos antes de 1869): Ser extraterreno, num planeta da constelação de Órion.

            Ano 58 a.C./44 a.C. ( faixa que vai desde a chegada de Júlio César à Gália até a sua morte): Allan Kardec sacerdote druida, na Gália, hoje França.

            Ano 30/33 (faixa que vai, tradicionalmente, desde o início do ministério de Jesus até a sua crucificação): Quirílius Cornélius, centurião romano, em Jerusalém, Palestina, hoje Israel. Mais tarde, no ano 79, era João, sábio eremita, em Herculano, Roma, hoje Itália.

            Ano 1369/1415 (faixa aproximada, pois não é absolutamente certa a data de 1369): João Huss, filósofo, reformador religioso, na Boêmia, hoje Tchecoeslováquia.

            Ano 1804/1869: Hippolyte-Léon Denizard Rivail, pedagogo, em Lyon, na França.

            Apenas como Hippolyte-Léon Denizard Rivail os anos acima traduzem rigorosamente encarnação e desencarnação. Nos demais casos aqueles anos representam apenas um período, uma faixa, durante a qual se tem notícia da passagem do Codificador pela Terra.

            E por falar em passagem do Codificador pela Terra, penso que vale também, como registro, reproduzir a informação (de caráter geral ou particular?) dada pelo Espírito da Verdade ao próprio Allan Kardec e contida na obra mais importante do Pentateuco: ‘O Livro dos Espíritos’. O Codificador encarnara, por mais de uma vez, como ... antropófago. É o que esclarece a questão 787, letra ‘b’:

            “Assim, pode dizer-se que os homens mais civilizados tenham sido selvagens e antropófagos?”

            “Tu mesmo o foste mais de uma vez, antes de seres o que és.”

            Finalmente, desejo voltar a chamar a atenção do leitor para um aspecto já mencionado, e em seguida aludirei a outro, mais grave e muito mais importante. As referências foram colhidas em trabalho respeitabilíssimo, de autor e médium irreprocháveis, editado pela Federação Espírita Brasileira. Mas - e aqui entra o outro aspecto - não tenho, nem ninguém terá, a necessária certeza que baste à comprovação dos fatos. Rochester romanceou?  Não vejo nem afirmo nada, embora as fontes unanimemente aceitas sobre as figuras do sacerdote druida e do precursor do Protestantismo talvez sejam tão frágeis quando as de Rochester, já que do Codificador, dele próprio, nada tenho escrito. Por outro lado, uma indagação ficará sempre em suspenso: por que apenas Rochester sabia dessas coisas?

            Assim, apresento o tema à guisa exclusivamente de estudo, até que outras informações se alinhem e possamos documentar, sem receio de enganos, as vidas terrestres do grande missionário da Terceira Revelação. Uma coisa é certa e indiscutível e, é óbvio, foi alguém no passado distante, tanto quanto o será ainda, no futuro próximo, se porventura já  não o é... Resta saber apenas se desta feita estará voltando ainda para resgatar faltas do passado ou - por que não? - na condição exclusiva de missionário, a exemplo da encarnação de Maria, quando o Cristo fluídico se manifestou.



[1] ‘Le Pharaon Mernephtah’. Confronte-se com a ‘Revue Spirite’ de 1890, pág. 184