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segunda-feira, 2 de maio de 2011

01 ' Helil, o encarregado dos problemas sociológicos na Terra'




Helil


com base em um artigo de Ismail Gomes Braga
 publicado em Reformador(FEB)  em Dezembro 1937

            “O aparecimento do nome de Hilel (levemente modificado para Helil), no livro de Humberto de CamposCoração do mundo...”(FEB) tem significação muito especial para os esperantistas que conheçam o Hilelismo”.

            “Presumimos que só os esperantistas conheçam o Hilelismo, porque não nos consta tenham sido traduzidos em outra língua os escritos do Dr. Zamenhof sobre este assunto.”

            “Hilel foi notável pensador contemporâneo e conterrâneo de Jesus Cristo. Sábio mestre em Israel, chegou a ser presidente do Sinhedrin, função em que desencarnou, cerca de dez anos depois de Jesus. Seus ensinos eram demasiados elevados para o seu tempo e ainda o são para os nossos dias; contudo, estão escritos para vigorar em futuro que se aproxima, como se depreende  da mensagem “O coração do mundo...”

            “Os ensinos de Hilel foram resumidos pelo Dr. Zamenhof em 12 dogmas e alguns comentários, trabalho esse que não seria oportuno publicar-se em língua portuguesa, presentemente, e talvez, não o seja nunca, pois que o próprio Dr. Zamenhof mais tarde refez esses dogmas, retirando-lhes o nome primitivo de ‘Hilelismo’, por parecer-lhe que tal nome dava um aspecto sectarista ao trabalho.”

            “Não desejando traduzi-los, limitamo-nos a indicar as páginas 313 a 343 do livro Origina la Verkalo (obras originais) de L. L. Zamenhof, edição de Ferdinand Hirt e Sohn, Leipzig, Alemanha, 1929, onde se encontram na íntegra esses escritos.”

            “A doutrina de Hilel é uma tentativa - hoje ainda utópica - de universal confraternização humana. Ensina o respeito máximo à verdade e o culto constante do amor entre os homens. Para alcançar essa finalidade, estabelecer-se-iam templos neutros, nos quais todas as formas de culto e adoração seriam igualmente respeitadas, sem sectarismo algum. As falsidades históricas, nacionalistas, racistas, gentílicas, tudo, enfim, que separa os homens, seria pacificamente abolido pelo esclarecimento recíproco, feito com sinceridade, sem embustes, nem preconceitos. Abolir-se-iam pela solução mais humanitária todos os problemas sociais, religiosos, nacionalistas, de classe, etc.”

          “Na mensagem de Humberto de Campos, Hilel (ou Helil) aparece como o ‘encarregado dos problemas sociológicos da Terra’.



            Passados quase 20 anos encontramos outra referência a Hilel, mais uma vez assinada pelo douto Ismael Gomes Braga:


      Hilel


Ismael Gomes Braga
Reformador (FEB) Janeiro 1955
             
            Justa e natural é a curiosidade do espírita brasileiro sobre a personalidade do célebre mestre de Israel que aparece no livro de Humberto de Campos, “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”, como o ‘encarregado dos problemas sociológicos da Terra’ e preposto de Jesus para o descobrimento do Brasil, missão que desempenhou integralmente, na encarnação em que nos reapareceu como o Infante de Sagres, Dom Henrique, filho de D. João I  e de Dona Filipa de Lencastre.

            Já tivemos ocasião de explicar que a forma hebraica do nome é Hilel que podemos aportuguesar para Hilel; e que a forma Helil, como aparece no livro, é a árabe. é a mesma alteração que há em Ishmael que os árabes lêem Ishmail.

            Hilel é um dos precursores do Cristianismo: trouxe à Terra, alguns anos de Jesus, os mesmos ensinamentos que o Divino Mestre viria confirmar e vivificar pelo exemplo. É precursor igualmente do Espiritismo e quinze séculos após a vinda do Cristo cumpriu a missão de precursor da descoberta do Brasil.

            Vamos hoje traduzir do hebraico, dos livros ‘Ivrith Hayá’ (Hebraico Vivo) e ‘Pirkêi Avot’ (Ética dos Pais), e do inglês, da ‘Enciclopaedia Britannica’, anedotas, pensamentos, dados biográficos que esperamos sejam estudados com carinho pelos nossos irmãos, enquanto não apareça obra mais completa e de autor competente sobre esse grande Espírito que está tão ligado à nossa Pátria, sem que os brasileiros o saibam.

            Do volume 11, pág. 558 da ‘Enciclopaedia Britannica’, traduzimos:

            “Hilel nasceu no ano 70 a.C. e morreu no ano 10 de nossas era.(1)

            Nasceu na Babilônia, da família de Davi, e quando tinha quarenta anos de idade foi para Jerusalém, a fim de estudar com os mestres Shemaiáh e Abtalion. Entrou para o número dos líderes dos escribas farisaicos, e a tradição lhe atribui a mais alta dignidade do Sinhedrin, com o título de Nasi (Príncipe), por volta do ano 30 a.C.

            Dizem que Hilel estabeleceu sete regras para a interpretação das Escrituras, regras que se tornaram o fundamento da hermenêutica dos rabinos. Ele fundou uma escola de mais compaixão do que a do seu colega Shammai, e criou a instituição bem conhecida como Prosbol, que tinha por finalidade prevenir as más conseqüências da lei das Escrituras sobre o repouso do sétimo dia. (Deuteronômio 11:1)

            Hilel viveu na memória da posteridade como o grande instrutor que reunia e praticava as virtudes de caridade, humildade, paciência e piedade.

            Dentre os ditos atribuídos a ele, e que tem notável semelhança com os ensinos do Cristo, são típicos os seguintes:

O meu rebaixamento é a minha exaltação”,
O que seja desagradável para ti mesmo, não o faças ao teu vizinho; isto é toda a Lei; tudo o mais é exposição da Lei”,
Se eu não existir por mim  mesmo, quem existirá por mim?”
Não te separes da congregação”,
Não julgues o teu próximo enquanto não estiveres no lugar dele”,
Quem quer fazer para si um nome, perde seu nome”,
Quem não aumenta (sua cultura, sua virtude), diminui”, “Quem não aprende, merece morrer”,
Quem trabalha por amor a uma coroa, está perdido”,
Quem adquiriu as palavras da doutrina, adquiriu a vida no mundo futuro.”

            Alguns destes pensamentos serão repetidos adiante, com outra tradução, porque os reencontraremos no livro “Pirkêi Avot”.

            Na literatura clássica hebraica há muitas lendas histórias, anedotas, sobre a personalidade de Hilel. Permitimo-nos traduzir do original as duas que se seguem e que encontramos no livro didático “Ivrith Hayá”.


Hilel e o Estrangeiro

            Um estrangeiro foi a casa de Shammai.
            Interrogou Shammai: “-Que desejas?”
            Disse o estrangeiro: “-Eu desejo aprender toda a Bíblia (2) enquanto eu ficar em pé num pé só.” (3)
            Shammai viu que o homem queria zombar dele. Shammai se encolerizou e o expulsou de casa. Então o estrangeiro se dirigiu para a casa de Hilel.
            “-Paz!”, diz Hilel.
            “-Paz!”, responde o estrangeiro.
            Diz o estrangeiro: “-Eu desejo aprender toda a Bíblia enquanto eu ficar em pé num pé só.”
            Hilel percebe que o homem quer zombar dele, mas não se encoleriza e diz:
            “-O que achares odioso para ti, não o faças ao teu próximo.”
            “-Isto é toda a Bíblia?” - pergunta o estrangeiro.
            “-Sim - responde Hilel - isto é o fundamento, tudo mais são explanações.”
            Diz o estrangeiro: “-Obrigado, Hilel. Se isto é o fundamento, eu quero aprender a Bíblia toda.”

Hilel como Estudioso

            Hilel era um homem bom, prudente e gostava de estudar. Morava na Terra de Babel e lá ouvia a fama dos grandes mestres Shemaiáh e Avtalion. Tomou sua família e mudou-se para Jerusalém a fim de estudar a Bíblia. Todas as manhãs ia ele para o trabalho, e depois do meio dia ia para o Templo estudar.

            Junto da porta do Templo permanecia de pé um guarda, a quem os alunos davam diariamente a paga das lições.

            Certo dia Hilel não encontrou trabalho e não tinha dinheiro para pagar ao guarda. Que fez ele?

            Foi para o Templo, subiu ao telhado e ficou escutando a lição da janela da clarabóia. O dia estava muito frio e caía neve sobre o telhado, mas Hilel não se movia, escutando a lição.

            No dia seguinte era sábado e os mestres Shemaiáh e Avtalion foram para o Templo. Disse Avtalion:

            “-Shemaiáh, todos os dias esta casa tem luz e hoje está sombria.”

            Respondeu Shemaiáh: “Estou vendo o vulto de homem na janela.”

            Subiram ao telhado e encontraram Hilel debaixo da neve. Carregaram-no para dentro do Templo e o puseram diante do fogo.

            Disseram os mestres: “-Como é grande o amor dele pela Bíblia”.

            Desde então Hilel entrou no Templo sem pagar ao guarda.

            Transcrevemos aqui do “Pirkêi Avot” alguns pensamentos de Hilel:

Hilel e Shammai receberam deles (de Avtalion e Shemaiáh) a tradição.”

Hilel dizia: 

Sede discípulos dele Aarão, amando a paz, edificando a paz e amando as criaturas e aproximando-as da lei.”
“Nome engrandecido é nome destruído.”
“Quem não aumenta, diminui.”
“Quem não estuda, merece morrer.”
“Quem faz uso mundano na Doutrina, definha.”
“Se eu for só meu, que serei eu?”
“Se não for agora, quando será então?”
Um dia ele viu um crânio boiando sobre a água e lhe disse:
“Porque afogaste outros, foste afogado, e os que te afogaram serão finalmente afogados.”

            Ele costumava dizer:

“quanto mais carne, mais vermes”,
“quanto mais propriedade, mais ansiedade”,
“quanto mais criadas, mais libertinagem”,
“quanto mais criados, mais roubo”,
“quanto mais Bíblia, mais vida’,
“quanto mais estudo, mais sabedoria”,
“quanto mais conselho, mais compreensão”,
“quanto mais caridade, mais paz”.
“quem adquiriu um bom nome, o adquiriu para si mesmo; quem adquiriu para si mesmo palavras da Lei, adquiriu para si mesmo vida no mundo vindouro.”

            A concisão das máximas de Hilel tem muita semelhança com a das máximas de Jesus. Umas e outras se destinam a diversas interpretações no correr dos séculos, de conformidade com o adiantamento das inteligências e o progresso da Revelação divina.

            Como se vê dos pensamentos de Hilel, foi ele um dos precursores do Cristianismo e do Espiritismo, quinze séculos antes de ser destacado por Jesus para ser o precursor da descoberta do Brasil. É um dos grandes Guias da Humanidade e um dos líderes da missão histórica do Brasil. Não temos conhecimento de outras encarnações dele depois do século 15, mas é muito provável que tenha representado papel de relevo na História do Brasil e que seja um dos Guias do movimento espírita em nossa terra.

            A seu tempo viremos a receber outras revelações a respeito desse grande Espírito que é quase totalmente desconhecido dos brasileiros com o nome de Hilel.
           
           
(1) Havendo morrido no ano 10, vinte anos antes de Jesus começar sua pregação pública, Hilel não conheceu o Cristianismo.
(2) Traduzimos aqui por Bíblia a palavra “Torah”, que realmente significa o Pentateuco, mas é elástica, empregada também nos sentidos de a Lei, a Doutrina, a Cultura Religiosa.
(3) A expressão hebraica “num pé só”, significa: enquanto se está apoiado em um pé só, porque o outro está no ar para a mudança do passo, logo, num abrir e fechar de olhos.


domingo, 1 de maio de 2011

05 Trabalhos do Grupo 'Ismael'



05/60   

Já que nos propusemos a historiar a marcha do Espiritismo no Brasil, não nos podemos furtar ao desejo e à obrigação de falar de um grupo que serviços relevantissimos tem prestado à doutrina de Jesus. Queremos referir-nos ao ‘’Grupo Sayão’’.
Esse grupo, composto de espíritas educados e dedicados ao amor do próximo, é um rebento viçoso da frondosa arvore ‘’Deus, Cristo e Caridade’’ que, como já vimos, não tendo sido cuidadosamente conservada pela maioria dos que se obrigavam à sua sombra, feneceu e, do belo fanerógamo que era, se transformou no estéril criptógamo denominado ‘’Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade’’ Esse grupo, cuja alma era, e ainda é, Bittencourt Sampaio, se compõe de espíritas que, não aceitando a Academia, como elemento desordenadamente revolucionário  e contraproducente, se propuseram a uma ordem de trabalhos especiais, quais sejam o estudo profundo e meticuloso dos Evangelhos e a publicação de uns tantos livros nele recebidos e a ele dados mediunicamente por Espíritos superiores. Tal foi o compromisso sagrado que tomou o ‘’Grupo Ismael’’
Semelhante tarefa, que apenas teve começo em vida de Bittencourt, está sendo agora concluída, por graça de N. S. Jesus Cristo, que não se cansa de velar pelo bem das suas ovelhas tresmalhadas.
Em vida, Bittencourt Sampaio deu lume a ‘Divina Epopéia’; assistiu ao começo dos ’Estudos dos Evangelhos’ confeccionados e publicados pelo membro do Grupo Dr A. L. Sayão, e depois de sua partida para os páramos etereos, forneceu ao grupo mais dois, tendo em elaboração um terceiro, que será, disse ele, o termo do compromisso tomado pelos seus companheiros para com o Divino Mensageiro do Senhor.
Esses cincos livros, que representam um período de lutas titânicas, constituem um compêndio de estudo acurado dos Evangelhos, o mais completo de que temos noticia e que pode comportar a inteligência humana, nesta fase da nossa existência terrestre, pois ocupam-se dos ensinamentos morais e religiosos desde Moisés até ao Apocalipse, a divina profecia que até hoje ainda se acha velada pela sombra carregada da letra:
Os membros do Grupo, na quase totalidade, fizeram parte da ‘’Fraternidade’’ e hoje pertencem à Federação.
À primeira vista, parece que, ocupando-nos com esse Grupo, fazemos uma seleção contraria ao nosso propósito; mas o leitor  consciencioso e imparcial saberá avaliar a sua importância e não nos acoimará de parcial na justa menção que dele fazemos. Pela sua natureza singular, entendemos ser imprescindível tratar desse Grupo no histórico sintético, que tentamos esboçar, do Espiritismo no Brasil; pois, por isso mesmo que é todo particular e íntimo, não é conhecido dos espíritas senão pelos livros que a espaços vem publicando.
Quem tem acompanhado a marcha da Doutrina Espírita no nosso pais deve ter notado que nestes últimos tempos apareceu um verdadeiro prurido de propaganda. Os médiuns, particularmente os receitistas e curadores pululam aos milhares, sendo que alguns desta última espécie tem imprudentemente feito ruído em torno de si mesmos.
Coitados! Esquecidos das múltiplas recomendações do Divino Mestre aos seus apóstolos e aos crentes, quando a estes restituía a saúde, promovem reclamos nos periódicos profanos sempre ávidos de escândalos e maravilhas, para melhor se tornarem conhecidos e com mais proveito poderem explorar materialmente a mediunidade que lhe foi dada  para o exclusivo fim da pratica da caridade.
Esquecem-se da recomendação expressa de Jesus quando ordenou a seus discípulos que dessem de graça o que de graça recebessem! Não se lembram da sentença implacável, que de antemão já está lavrada, pois sabem que quem vende a mediunidade vende o próprio Mestre, troca Jesus pela vil moeda. Escândalos de toda ordem surgem de todos os pontos, do setentrião ao meio dia, do nascente ao poente.
Nota-se como que um propósito manifesto de apresentar a doutrina salvadora como produto anômalo de dois fatores heterogêneos; como oriunda de cérebros desequilibrados e, neste caso, merecendo seus adeptos a proteção da sociedade que os deve reter num instituto próprio aos cretinos; ou como artimanha de especuladores imorais e execrandos que procurem, encastelados num falso sistema doutrinário, dar curso às suas concepções desvairadas e saciar seus ignóbeis vícios.
Desgraçadamente, é certo, há irmãos que, pelo seu procedimento, sancionam o despeito e o rancor dos inimigos do Espiritismo, pois tais crimes cometem, que dão ensejo às autoridades policiais de os chamarem à barra dos tribunais como espíritas!
Como vemos, parecia que a santa e pura doutrina de Jesus rolava pelo plano inclinado do desprestígio e da desmoralização.
Mas, quando a divina revelação chegava ao extremo de se confundir com a magia negra por exclusiva culpa dos seus adeptos que, divididos, procuravam, cada um, exercitar o Espiritismo em suas casas, o que sem duvida, é cômodo porém pouco produtivo; quando tudo parecia perdido (se porventura possível fosse perder-se o que é de Deus), eis que acima de todas essas misérias paira a figura patriarcal de Bezerra de Menezes, cercado da auréola de uma moral puríssima, à frente de pequeno grupo de homens orientados, que o aclamaram chefe e mestre.

A Força da Humildade




A Força da Humildade

          
  por Vinícius
Reformador (FEB)  Julho 1938

            A humildade é cheia de excelência e de uma certa nobreza, que o homem material ignora, que os mundanos de alto e baixo coturnos não podem perceber.

            Por isso mesmo, conceitua o Evangelho: aquele que se humilhar será exaltado.

            O amor, virtude única, da qual as demais são meras cambiantes, é humilde.

            Na dedicação com que a mãe vela pelo filho, predomina um cunho indelével de humildade. Ela desiste de prazeres, priva-se de conforto, abre mão de tudo, quanto possa proporcionar-lhe satisfação aos sentidos, em benefício daquele em quem concentra os seus afetos.

            Dessa submissão de ‘eu’ ao ‘ser’ amado desprende-se a luz suave e doce da humildade como complemento do Amor. Nessa concentração de cuidados e desvelos, nessa consagração de todas as faculdades, visando um só e único objeto, com esquecimento de si própria, está a renúncia verdadeira, que só a humildade, na expansão do seu poder incoercível, pode gerar.

            A humildade é uma força que se disfarça na fraqueza. Só os fortes podem ser humildes. Jesus comprovou, para os que tem olhos de ver, a sua fortaleza varonil através dos mais nobres gestos de humildade, em várias conjunturas que enfrentou durante o seu atribulado contato com a fátua e orgulhosa sociedade humana.

            Dentre os vários episódios que com ele se passaram, citaremos um que, por sua natureza, revela eloqüentemente o alto valor moral que caracteriza o meigo Rabino.

            No decurso do sumaríssimo processo a que o submeteram, era levado, ora à presença de Anás e Caifás, sumos sacerdotes, ora para Pilatos, ora ainda para Herodes. Numa das vezes que o conduziam, certo esbirro deu-lhe uma bofetada. O Cordeiro de Deus, calmo e sereno, volta-se para o seu grosseiro agressor e o adverte do seguinte modo: Se agi mal, dize em que; se, porém, tenho procedido bem, porque me feres?

            Semelhante atitude, diante de tão brutal agressão, atesta a varonilidade do Mestre, num grau elevadíssimo. Sua energia, nesse caso, é sobre-humana. A força despendida em suportar a ofensa é muito maior do que a revelada na represália ou na vingança. Demais, o deixar de reagir, quando não podemos, quando o nosso adversário é mais forte e mais poderoso do que nós, é medida de prudência. Deixar de reagir por motivos subalternos e razões de interesse é covardia e vileza. Abster-se, porém, de reação, dispondo de todos os meios e possibilidades de derrotar e confundir o ofensor, é divino. Só os anjos e os deuses procedem assim.

            E que Jesus podia, se quisesse, aniquilar os seus gratuitos inimigos, verificamos no que se deu com Ele no momento da sua prisão, no Jardim das Oliveiras.

            Judas ia à frente, capitaneando a soldadesca armada de espadas e varapaus. O Filho do Homem, saindo de retiro onde se achava em oração, apresenta-se e interroga a malta alvoroçada: A quem procurais? Respondem os guardas: A Jesus de Nazaré. Retruca o Senhor: Eis-me aqui, sou eu mesmo. Logo em seguida, usando do poder que possuía de deixar e reassumir a forma corpórea, dissipou esta, mostrando-se em todo o magnífico esplendor do seu Espírito refulgente. Diante da luz intensa que então se irradiou daquele que é o caminho, a verdade e a vida, a soldadesca toda, confusa, perturbada e trêmula, cai por terra, inerte, incapaz do mínimo movimento.

            De novo Jesus encobre o seu divino ‘ser’ ocultando aquilo que é nele, como aliás em todos nós, a centelha procedente do Pai, e, só então, os beleguins romanos, voltando a si, lograram aprisioná-Lo.

            Portanto, Jesus, sem tocar em nenhum deles, podia inutilizá-los; mas não o fez, para que se cumprisse a soberana vontade de Deus.

            Tal é a força da humildade, da qual os homens, em sua orgulhosa fraqueza, vivem divorciados, deixando que, a cada passo, se confirme, entre eles, a sabedoria do provérbio: Quer conhecer o vilão, ponha-lhe o bastão na mão.

Não seremos loucos?




Não Seremos Loucos ?


com base em original de Rodolpho Calligaris
   sob título ‘Loucura  Espiritista’
publicado no Reformador (FEB)  em  Junho 1941

             ...Não constitui, porventura, sinais evidentes de alienação mental, estarmos nós a repetir o ‘Amai-vos uns aos outros’ a uma sociedade que se entredevora animalescamente, surda aos chamados da razão e do bom-senso, insensível a todos os apelos, impassível ante todas as desgraças e indiferente a todas as misérias?

            Não será loucura cremos na ‘força do direito’ quando o que impera é o ‘direito da força’?

            Não será loucura sermos humilhados, escarnecidos, ridicularizados por causa da doutrina que professamos e perdoarmos aos que assim nos ofendem, continuando a trabalhar, imperturbavelmente, para que essa mesma doutrina tenha acesso em seus corações e os ilumine com as suas suaves e reconfortantes claridades?

            Não será doidice vermos nos animais colocados abaixo de nós na escala evolutiva das espécies seres perfectíveis, destinados a ocupar, um dia, a mesma posição em que hoje nos encontramos?

            Não seremos loucos por combater prejuízos racistas, considerando todos os homens, brancos e pretos, vermelhos e pardos, como filhos de um só Pai, e dignos, todos, do mesmo respeito e de igual consideração?

            Não seremos loucos por vermos em nosso semelhante um irmão e não um inimigo a combater - no delinqüente vulgar uma alma a redimir e não um quisto a eliminar?

            Não será loucura preocuparmo-nos com os problemas do espírito, quando a humanidade se inclina a prestar vassalagem ao ouro e à carne - os deuses da atualidade?

            Não será loucura rompermos com os formalismos sociais e religiosos, vazios de sentido, quais o uso do luto, coroas mortuárias, velas, missas, batizados, crismas, jejuns alimentares, etc., a que ainda estão escravizadas tantas e tantas criaturas?

            Não será loucura construir, fundar e manter asilos, hospitais, creches, albergues, abrigos, escolas de alfabetização, etc., lutando para isso com mil e uma dificuldades, quando tal tarefa é de competência do Estado?

            Não será loucura esforçarmo-nos por vencer as nossas paixões, corrigir os nossos defeitos, desenvolver as virtudes ativas a cristãs, a fim de criarmos dentro do nosso próprio ‘eu’ o nosso céu, quando outras religiões nos oferecem o mesmo céu por processos muito mais cômodos e muito menos sacrificantes?

            Não será loucura dizermos ‘até logo’ aos nossos mortos queridos, na convicção de os revermos no outro lado da vida?

            Não será loucura deixarmos os nossos lares, descurarmos os nossos interesses materiais, renunciarmos a certos prazeres que a vida nos oferece, e sairmos por aí tentando aliviar sofrimentos físicos e morais, gratuitamente, como o recomendou o Cristo Jesus?

            Não será loucura bendizermos da Dor que excrucia, reconhecendo nela o instrumento que vem de lapidar a nossa alma e torná-la um diamante capaz de produzir mil cintilações?

            Não será loucura encararmos a Morte como anjo libertador e não como um espantalho terreno?

            Não será loucura admitirmos a existência de outras humanidades noutras esferas além da Terra?

            Não será loucura crermos na pluralidade das existências, como meio de depuração e perfectabilidade das almas, em sua marcha ascensional para Deus?

            Oh! somos loucos, sim, porque concebemos um Deus diferente dos outros deuses, um Deus que não tem iras e nem rancores, que não se vinga nem destroi suas criaturas, mas que é todo amor e bondade e faz justiça com misericórdia, enseja aos culpados a oportunidade de se remirem com seu próprio esforço, conquistando méritos, através da lei bendita dos renascimentos!

            E mais loucos ainda por termos certeza que, num futuro que talvez não esteja muito distante, a humanidade inteira há de se tornar louca como nós.

            Mas, então, já os homens terão outra mentalidade e as nações se regerão por outros sistemas de vida, baseados na Paz, na Justiça e na Fraternidade!


'Aos Filhos do Povo'




Aos
 Filhos
do Povo


por D. José Amigó y Pellícer
 Fonte: “Roma e o Evangelho” (FEB)

            “Vós, filhos do povo, pobres filhos do povo que nasceis envoltos na atmosfera insalubre do infortúnio, que viveis na obscuridade e na miséria, que trabalhais e não podeis com o vosso trabalho matar a fome dos vossos filhos, que tiritais de frio por falta de abrigo, que gemeis de febre por falta de alimento, e que desesperais pensando no vosso futuro, se chegardes à velhice, e no futuro das vossas infelizes famílias, se uma morte prematura lhes arrebatar o vosso amparo, vinde conosco, vinde para o lado dos outros filhos do povo que vos amam como irmãos, e que lamentam as vossas necessidades e amarguras. Vinde, e as vossas lágrimas se enxugarão e os vossos trabalhos se tornarão mais suportáveis, e não temereis mais pela sorte dos vossos filhos, porque recebereis inefáveis consolos para o presente e a esperança de um porvir seguro, livre das misérias e das penas que consomem as forças do vosso corpo e a atividade do vosso espírito.

            Sabeis que sois iguais em dignidade e em direitos aos privilegiados da Terra, e sabereis igualmente que sois filhos amados do Pai Celestial, que vos espera com os braços abertos para dar a recompensa que merecerdes pela vossa resignação e pelas vossas virtudes.

            A felicidade entrará nas vossas pobres moradas e possuireis no coração um tesouro inesgotável que a sombria mão da morte não vos poderá roubar. Nós vos chamamos, porque a caridade no-lo prescreve, porque sois nossos irmãos, porque, como vós, choramos, queremos e devemos fazer-vos participantes das riquezas e da alegria que a providência pôs em nosso caminho...”

Cartas a meus Filhos




Carta a meus Filhos

por Philemon
Reformador (FEB) 16.01.1937
            Meus caros filhos,

            A paz do Senhor esteja convosco,

            Tendes visto que tem sido interpretada como contrária à lei natural do trabalho e do esforço próprio, no sentido do progresso, a sentença de Jesus que nos manda buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, pois que o mais virá por acréscimo. Isso prova que nem todos os estudantes das sagradas letras têm uma compenetração perfeita do espírito do Evangelho, segundo o qual sabemos que aí se acha oculto o pensamento do Mestre para que, gradativamente, possa ir sendo desvendado, compreendido, pelos seus discípulos. Á proporção que crescem no entendimento das coisas espirituais. Aliás, é natural que haja dificuldade na interpretação dos textos evangélicos, porquanto, se o conhecimento das coisas materiais é gradativo, com muito mais razão deve ser o das coisas espirituais que, pela sua transcendentalidade, mais difíceis se tornam de compreensão.

            Confiai porém, vós outros, na divina autoridade do Mestre e, com humildade e espírito, concordai, meus filhos, em que Ele deve saber mais do que os seus discípulos e, assim, muito ensinamento que nos deixou não pode ser entendido imediatamente, à primeira leitura do Evangelho; mas, com o tempo e mais claro discernimento, irá sendo por nós admitido como Expressão da Verdade.

            Porventura, não ocorreu, muitas vezes a mesma coisa durante os vossos diferentes cursos, em busca do conhecimento científico?

            Não é verdade que muitas lições de tratados e muitas afirmativas de professores vos pareceram obscuras, equívocas a princípio e que depois, com o constante cultivo da inteligência e mais amplas explicações dos mesmos professores, fostes verificando que eram procedentes, exatas, verdadeiras?

            Como quereríamos, pois, que não se verificasse o mesmo neste curso muito mais difícil que vimos fazendo das coisas transcendentes, que dizem respeito ao conhecimento espiritual?

            Guardemo-nos, portanto, de precipitações, de idéias preconcebidas. Confiemos em nosso Divino Mestre, implorando luz para o nosso entendimento, com humildade, ao Eterno Pai, prossigamos no trabalho de gradativa cultura a que nos consagramos, para saber das coisas do espírito.

            Não vos poderia eu dar a beber, desde já, toda a linfa preciosa da verdade eterna que se contém na palavra do Mestre, ainda mesmo que vosso pai já pudesse dela dispor na plenitude que nos é reservada quando tivermos atingido a perfeição espiritual, de que nos encontramos tão distanciados!

            Contudo, como tenho, de alguma sorte, o meu espírito orientado no rumo que nos conduzirá a verdade, quero indicar-vos também esse rumo.

            Vejamos o de que se trata.

            O conceito de Jesus, a respeito do princípio básico da sua doutrina, é o seguinte: “Buscai primeiro a sua justiça e todas estas coisas se vos acrescentarão.” (Mt 6:33)

            Quais são todas estas coisas? Procuraremos sabê-lo.

            No mesmo capítulo do Evangelho segundo Mateus, em que se encontra a afirmativa de Jesus, pode-se ler o seguinte, antecedendo-a:

25. “Portanto vos digo: não andeis cuidadosos da vossa vida, que comereis, nem para o vosso corpo, que vestireis. Não é mais a alma do que a comida e o corpo mais do que o vestido?
26. “Olhai para as aves do céu, que não semeiam nem segam, nem fazem provimentos nos celeiros e, contudo, Vosso Pai celestial as sustenta. Porventura não sois vós muito mais do que elas?
27. “Qual de vós, discorrendo, pode acrescentar um côvado à sua estatura?
28. “Porque andais solícitos pelo vestido? Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam.
29. “Digo-vos, mais, nem Salomão em toda a sua glória se cobriu jamais como um destes.
30. “Pois, se ao feno do campo, que hoje é e amanhã é lançado no forno, Deus veste assim, quanto mais a vós, homens de pouca fé?
31. “Não vos aflijais, pois, dizendo: - Que comeremos, que beberemos ou com que nos cobriremos?
32. “Porque os gentios é que se cansam por estas coisas. Porquanto vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas elas.
33. “Buscai pois, primeiramente, o reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas se vos acrescentarão.”

            Ocultando embora o profundo sentido filosófico desta passagem evangélica, o qual nos desvendaria a completa verdade, a que chegareis um dia, se prosseguirdes no caminho encetado, busquemos o sentido humano  desses versículos, que também nos dá um pouco dessa verdade, proporcionado ao nosso atual grau de discernimento espiritual.

            Agora, com a enunciação de todos os versículos que se referem ao assunto tratado por Jesus e a que se refere essa parte do Evangelho, isto é, da prioridade das coisas do espírito sobre as do corpo, estamos aptos a saber de que coisas falava Jesus, ao dizer-nos que nos seriam elas dadas por acréscimo. Das coisas perecíveis, não é, meus caros filhos? Vede bem: Jesus dá um lugar secundário ao comer e ao vestir.

            E qual homem, de mediana cultura e de mediano sentimento, não dará lugar secundário a essas coisas?!

                E quanto à sua aquisição, o que diz o Mestre? - Que elas virão naturalmente (por acréscimo - como uma conseqüência natural), se cogitarmos das coisas que correspondem ao reino de Deus e á sua justiça.

            Ora, se Jesus apenas excetuou destas coisas o comer e o vestir (a que por analogia podemos incorporar tudo quanto for perecível), isso quer dizer que o Mestre considera como pertinentes ao reino de Deus e à sua justiça a cultura da inteligência e do sentimento, tudo o que corresponde ao conhecimento da ciência, da arte, da filosofia, da religião - das coisas espirituais, em suma.

            Que homem haverá, bastante desassizado, que, desejando ganhar a vida como professor, não procure, antes de ir em busca do cargo, instruir-se para que possa desempenhar convenientemente as respectivas funções? E qual seria o loco que pretendesse ser engenheiro, fazer as coisas relativas a essa profissão, ganhar a vida como engenheiro, sem primeiro estudar todos os ramos das ciências matemáticas?

            E qual o que quisesse ter à sua disposição o sustento e a roupa que a Nação lhe dá sem primeiro preparar-se intelectual, moral e tecnicamente para o exercício de suas funções?

            Pois isso não é claro como água, meus caros filhos? As coisas espirituais (as que pertencem ao reino de Deus e à sua justiça) têm precedência sobre as de ordem material, para os que querem viver dignamente. Só os que podem submeter-se à pior escravidão prescindem desses requisitos para a aquisição dessas coisas que Jesus define como pertencentes à classe das que nos vêm por acréscimo; enunciando, assim, um conceito humaníssimo e singelo para os que têm a mente pouco trabalhada ainda pelo raciocínio filosófico - conceito que se eleva, em grau mais espiritualizado do discernimento, ao mundo transcendente, em qualquer dos casos encerrando sempre a verdade, menos ou mais amplificada em suas luminosas perspectivas.

            As aves não semeiam nem segam, mas têm o instinto que as leva a procurar os lugares onde podem encontrar nutrição.

            A semente do lírio precisa de terra fértil para vicejar.

            O homem cultiva primeiro a inteligência e, depois, utilizando-se dos seus recursos, busca as coisas perecíveis (as que se lhe acrescentarão, portanto).

            E tanto têm caráter secundário, de acréscimo, todos os bens terrenos (comer, vestir, etc.), que eles nos podem ser dados por herança, sendo-nos, assim, facultado tê-los sem trabalho, ao passo que os bens do espírito, quer no domínio da inteligência, quer no do sentimento, não nos chegam  senão com o nosso próprio esforço - o que os caracteriza imediatamente como essenciais, inalienáveis e intransferíveis.

            Nada pode haver mais compreensível, mais prático, mais lógico do que esse ensinamento de Jesus.

            Penso, meus caros filhos, que não tereis nenhuma objeção a fazer a este arrazoado. Entretanto, se o vosso poder de raciocínio ou a vossa dialética acadêmica  ainda vos sugerirem quaisquer restrições à evidência desta interpretação, usai de franqueza para com o vosso pai, que aspira somente a vossa felicidade, pela libertação da vossa mente das sombras opressoras do materialismo aviltante.

            Dei-vos o que corresponde ao meu grau de discernimento espiritual. A outro mais profundo conceito, como declarei no começo, se dirige o pensamento do Mestre; mas, para esse não teremos ainda, talvez, a precisa intuição que só a experiência da vida proporciona. Tudo é gradativo:  Natura non facit saltus.

            Adeus, meus caros filhos. Vosso pai e verdadeiro amigo. 

O Pai e os Filhos




O Pai os Filhos

baseado em texto de 
Pedro de Camargo,
 o Vinícius
            Reformador (FEB)  pág. 404 ano 1932

Pai: Que queres filho? Procura-me com tanta insistência.

Filho: Quero riquezas, meu Pai. Desejo possuir bens, muitos bens, ouro e prata. Aspiro a ser muito rico.

Pai: Dar-te-ei o que pretendes, filho; porém, previno-te que de novo me buscarás, porquanto não te sentirás satisfeito.

.............................................

Pai: Aqui estou, filho, que desejas de mim, uma vez que me buscas com tanto interesse?

Outro Filho: Quero saúde, força, vigor físico, resistência. Invejo os Hércules, os “Super-Homens”.

Pai: Terás o que solicitas de mim, filho. Não obstante, advirto-te: de novo me procurarás, porque não te sentirás satisfeito.

.....................................................

Pai: Eis-me aqui, filho. Porque estás assim aflito e me chamas com tamanha impaciência?

Um Outro Filho: Pai, tenho desejo é de governar, é ter  serviçais, dominar nações imperando discricionariamente sobre povos e raças. Tenho por modelos Napoleão e Júlio César.

Pai: Será deferida a tua petição, filho. Contudo, permite que te observe: de novo me demandarás, porque não te sentirás satisfeito.

.................................................

Pai: Porque bates assim sofregamente nos tabernáculos eternos? Sossega, acalma-te e fala.

Mais outro Filho: Pai, sou ávido de glórias, a fama me fascina, a notoriedade me arrebata. Nenhuma alegria terei, enquanto não lograr este meu intento. Quero receber sobre a fronte a coroa de louros que ostentaram os sábios, os grandes poetas, os escritores célebres. Anseio ser como Camões, Cícero, Hipócrates.

Pai: Serás atendido, alcançando o que tanto ambicionas. Todavia, aviso-te que de novo voltarás à minha procura, por isso não te sentirás satisfeito.

..................................................


Pai: Aqui estou, filho. Pede o que desejas, diz o que pretendes de mim.

Ainda Outro Filho, finalmente: Pai, quero amar e ser amado. Sinto um incontido anseio de expandir o meu coração. Vejo-me constrangido numa atmosfera asfixiante. Meu sonho é amar amplamente, incomensuravelmente. Meu maior desejo é sentir palpitar em mim a vida de todos os seres. Quero o amor sem restrições, ilimitado, infinito. Quero amar com toda a capacidade de meu coração, assim como os pulmões sadios respiram na floresta, nos montes, nos campos e nos bosques! Meu ideal, Pai, é o Filho de Maria, o Profeta de Nazaré, aquele  que  morreu  na  cruz  por amor  da  humanidade.

Pai: Sê bendito, meu filho. Terás o que tão sabiamente aspiras. Não me procurarás mais, porque sentirás em ti a plenitude da vida: de ora em diante serás uno comigo.



A 'Salvação'




A Salvação 
segundo Bittencourt Sampaio

Bittencout Sampaio
por Frederico Jr. em “Do Calvário ao Apocalipse” (FEB)
            
            Em Lucas, cap. 18, v. 10-12, se diz: Subiram dois homens a fazer oração no templo: um fariseu e outro publicano. - O fariseu, relata o evangelista - impávido e orgulhoso, orava lá no seu interior, dizendo, graças vos dou, Senhor, porque não sou como os demais homens e como o é também este publicano, um ladrão, um caluniador e, mais do que tudo isso, porque ao César paga o dízimo!

            Cumprindo esses deveres, julgava-se ele a salvo de toda e qualquer increpação do mundo e com direito à salvação, quando soasse o momento de sua passagem desse mundo, em que ainda vos achais, para a verdadeira vida, em que me encontro agora. E, pensando tudo isso, fitava o publicano!

            Este, no entanto, sem fazer referências ao fariseu, ou a quem quer que fosse, porque a verdadeira oração absorve todo o espírito, dizia lá consigo: - “, meu Senhor, propício a mim, que sou pecador!”

            Fazei, pois, o confronto, ó homens para quem escrevo! Eis a salvação falada por Paulo! Vede como vós, criaturas cheias de pecados e de erros, poderíeis distribuir o salário entre o fariseu e o publicano!

            Se toda a doutrina de Jesus tem por base a humildade; se Ele próprio, aparecendo ao mundo veio, desde o berço, dando-nos o exemplo de que só há uma opulência, só existe uma riqueza - a riqueza moral; se toda a sua doutrina traduz o amor de que Ele nos deu tantas provas à sua passagem pela Terra, de verdadeiros cofres de ouro tirando palavras de conforto para todos os oprimidos, para todos os desgraçados; - se a doutrina de Jesus tem por base a caridade, da qual foi Ele o mais esforçado arauto, buscando a dor nos seus redutos, a lágrima furtiva, recôndita na pupila dos infelizes; se Ele foi a Caridade, às mães restituindo os seus anjinhos, como o fez à Viúva de Naim, valendo-a na suprema agonia de ver partir da Terra o filho estremecido, penetrando na gruta de Lásaro e, pela fé que tinham Marta e Maria, despedaçando o lajeado de um sepulcro e mostrando à face do mundo o seu poder divino, a força incoercível de que jamais espírito algum baixado a Terra dispusera; se Ele era a Luz, se era o Sol das nossa almas, que ainda hoje, no firmamento do amor, brilha e refulge, embora conserves os ouvidos cerrados à voz de Jezabel, serás salva!

            E serás salva, porque disse o Senhor que não se perderia uma só das suas ovelhinhas, que nenhuma ficaria desgarrada nesse medonho torvelinho de paixões, onde se desencadeiam tormentas, imensos parcéis formando, e onde o espírito, transviado por meras fantasias, que logo se esvaecem, poderia bipartir-se entre a aspiração de ser eterno e a vontade de ser imortal, aspiração e vontade que as paixões que o subjugam lhe despertam.



A 'Salvação'




A 'Salvação' segundo Emmanuel


Emmanuel
por Chico Xavier
  em “Palavras de Vida Eterna” (FEB)

            “Palavra fiel é esta e digna de toda a aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores...”  Paulo em  I Timóteo 1:15

                É digna de nota a afirmativa do Apóstolo asseverando que Jesus veio ao mundo salvar os pecadores, para reconhecermos que salvar não significa arrebatar os filhos de Deus à lama da Terra para que fulgurem, de imediato, entre os anjos do céu.

            Assinalemos que. logo após a passagem do Senhor entre as criaturas, a fisionomia íntima dos homens, de modo geral, era a mesma do tempo que lhe antecedera a vinda gloriosa.

            Mantinham-se os romanos no galope de conquista ao poder, os judeus permaneciam algemados a racismo infeliz, os egípcios desçam à decadência, os gregos demoravam-se sorridentes e impassíveis, em sua filosofia recamada de dúvidas e prazeres.

            Os senhores continuavam senhores, os escravos prosseguiam escravos...

            Todavia, o espírito humano sofrera profundas alterações.

            As criaturas, ao toque do exemplo e da palavra do Cristo, acordavam para a verdadeira fraternidade, e a redenção, por chama divina, começou a clarear os obscuros caminhos da Terra, renovando o semblante moral dos povos...

            Salvar-se, pois, não será subir ao céu com as alparcas do favoritismo religioso, mas sim converter-se ao trabalho incessante do bem, para que o mal se extinga no mundo.

            Salvou-nos o Cristo ensinando-nos como erguer-nos da treva para a luz.

            Salvar é, portanto, levantar, iluminar, ajudar e enobrecer, e salvar-se é educar-se alguém para educar os outros.