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domingo, 18 de abril de 2021

A perda de um filho

 A perda de um filho

             Difícil escrever, difícil falar, difícil consolar, difícil vivenciar a perda de um filho. Todos imaginamos conhecer o mecanismo que envolve tais resgates mas, contidos na carne e ainda muito grosseiros na apreciação de sentimentos, temos, neste caso, um sofrimento muito grande que só encontra reparo na certeza absoluta do reencontro futuro. Transcreveremos abaixo a manifestação de sentimentos de um pai que muito amava seu filho, amigo de meu filho mais velho, e que desencarnou ainda jovem num acidente. A omissão de nomes se faz necessária.

“O Senhor já sabe, é claro, mas não custa lembrar que estou lhe enviando hoje, dia 20, meio de repente, o meu filho mais velho,... Sei que ele é muito moço para fazer essa viagem, mas o Senhor sabe como são os adolescentes. Disse um representante Seu por aqui que, apesar de sua pouca idade, ele já havia completado sua missão. Até aí tudo bem, mas acho que deveria haver uma lei que impedisse que as missões dos filhos fossem menores que as dos pais, pois a carne de que fomos feitos não se dá bem com filosofias, alimento do espírito; o cérebro entende e o corpo geme. Mas estou lhe escrevendo a fim de que possa preparar tudo para recebê-lo bem: ele aí só conhece a avó e, tenho que lhe dizer, é tímido e difícil de fazer amizade. Devo ainda lhe dizer outras coisas para que o convívio de vocês não seja atrapalhado por picuinhas de menor monta: ele demora muito no banho, joga as toalhas pelo chão e não tem o menor cuidado com a roupa; dorme até tarde e, por favor, nunca apague a luz, pois sente medo; nunca fale de suas orelhas, pois as acha grandes demais, assim como o nariz. Para que o Senhor não diga que só lhe mando problemas, tenho que lhe dizer que é bem humorado, como eu, bonito e bem informado. Se houver discussões políticas ou esportivas, evite falar mal do PT e do S. Paulo, pois vira uma fera. Compre a Folha, nunca o Estado. Se for possível, encaixe-o no setor de informática, não só porque era o que estudava aqui como também - acredito - porque Sua organização está precisando modernizar-se. Ah, outra coisa, ele se pendura no telefone, mas se for preciso, fale com ele, porque é bom menino e certamente vai atendê-lo. E por ser bom menino é que vamos sentir muito a falta dele; consola-nos saber que, finalmente, terá aí uma vida nova, bem melhor que a nossa, e como o Senhor é homem de palavra, certamente lhe dará as alegrias prometidas. Minha missão aqui ficou meio capenga, mas vou levá-la até o final, confiando no contrato que temos. Cuide bem dele.”


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