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Na exaltação de meu espirito, saltava de alegria e logo
a minha forma e o meu vestuário me chamavam a atenção.
De repente notei que podia ver uma
tênue costura nas costas do vestuário.
- E como posso ver as minhas costas? refleti eu...
De novo o verifiquei, olhando para
as costas do vestuário e parte posterior das pernas até aos calcanhares.
Levei a mão à cara para tocar nos
olhos, encontrando-os no seu lugar; mas seria como o mocho, que pode dar meia volta
completa à cabeça'? Tentei faze-lo, sem resultado. .
Ocorreu-me então que, saindo do corpo
por um Instante, teria talvez a faculdade de ver pelos olhos materiais dele, c
voltei, olhando para trás pela porta entreaberta, a verificar se a cabeça do
meu corpo, podia ver-se em linha reta donde estava.
Nesse instante descortinei um fio tênue como uma teia
d'aranha saindo-me de trás dos ombros e ligando-me com o meu corpo, por inserção
na base do pescoço. Fiquei nesta conclusão: que em virtude de tal laço, podia
servir-me dos olhos do corpo e tornei a descer para a rua.
Dados apenas alguns passos, perdi de
novo a consciência. Quando voltei a mim, estava no ar, sustentado por mãos que
levemente me apertavam.
O dono dessas mãos, se acaso o
tinham, estava por trás de mim e impelia-me para cima de modo rápido mas agradável.
Com o tempo compreendi melhor a minha situação; fui elevado e deposto à vontade
na entrada de um caminho estreito, bem construído e que subia com uma
inclinação de 45 graus.
Levantando os olhos, o céu e as
nuvens pareciam à altura habitual; abaixando-os, vi os cimos verdejantes dos
bosques e pensava que as árvores em baixo ficavam à mesma distância que as nuvens em cima. Examinei os materiais
do caminho, sendo quartzo cor de leite e de bonita areia.
Tomei um grão e examinei-o atentamente; recordo-me
muito bem de que tinha no centro uma
pequena mancha preta, e aproximando-o dos olhos, vi que era uma pequena
cavidade, aparentemente causada pela ação química de qualquer metal.
Tinha chovido, fazendo-se sentir o
fresco.
Notei que, apesar da inclinação,
nenhuma fadiga sentia na marcha, sendo os meus pés leves e os passos incertos
como os de uma criança.
Ao subir, acudia-me a lembrança da
minha doença recente e alegrava-me da atual saúde e força nova. Depois
invadiu-me um grande sentimento de desolação, e, desejando a sociedade,
raciocinei que, morrendo gente a cada instante; era muito provável que em meia
hora alguém viesse aquelas montanhas, e assim teria companhia.
Aguardando-o, examinava a paisagem em volta de mim. Ao
nascente havia uma longa cadeia de montanhas, e em baixo estendia-se a floresta
até aos flancos e para além dos seus cumes. A meus pés desdobrava-se um vale
guarnecido de árvores no qual corria um soberbo rio, cujas águas se quebravam
em flocos de espuma de encontro a pequenos cachopos. Comparava-os ao rio
Emeraude e às montanhas se assemelhavam muito ao pico de Waldron.
A escarpa das rochas negras à
esquerda do caminho fazia-me lembrar Lookont Mountain, no sítio em que a via férrea
passa entre o rio Tennessee e a montanha.
Assim as três grandes faculdades do espírito,
memória, juízo e imaginação, funcionavam ainda na sua integridade.
Esperei um companheiro durante quase meia hora, mas não
veio.
Lembrou-me então que talvez cada um, ao
morrer, fizesse sua jornada individualmente, obrigado a viajar só; pois que,
não havendo duas pessoas absolutamente iguais, podia suceder que no outro
mundo, não se encontrassem dois viajantes na mesma estrada.
Conquanto
não pensasse em pessoa determinada que de preferência desejasse ver, tinha para
mim como certo que alguém viria ao meu encontro.
- Anjo ou demônio, refletia eu, um
virá, e tenho curiosidade de ver qual.
Recordava-me de que não nutrira fé nos
dogmas ortodoxos, tendo verbalmente professado urna crença livre, que julgava
melhor. Todavia ponderei comigo: - nada sei; há aqui lugar para a dúvida, lugar
para o erro? Quem sabe se sigo o caminho dum destino terrível? - Aqui ocorre uma
coisa difícil de descrever; em volta de mim e de diferentes pontos, sentia a
invasão de pensamentos expressos:
- Não tenhas receio! Tu estás
salvo!"
Nenhuma voz ouvia nem via pessoa alguma; tinha, porém,
perfeita consciência de que, a diversas distâncias, de pontos diversos alguém pensava
estas coisas a meu respeito.
Como tinha eu disso consciência? - O
fato era tão misterioso que duvidava quase da sua realidade. Um sentimento de dúvida
e de receio me invadiu e já me julgava um ente bem infeliz, quando um rosto
cheio de inefável amor e ternura me apareceu um instante, fortificando a minha
fé.
Na minha frente, a alguma distância,
aparecem de súbito três prodigiosos rochedos, cortando-me o caminho; à sua
vista me detive, admirado de que estrada tão bela pudesse estar assim bloqueada.
Enquanto perguntava a mim mesmo o que
devia fazer, uma nuvem sombria, cuja extensão avaliei em mais de 2000 pés, apareceu
por cima da minha cabeça. Em breve essa nuvem era sulcada de traços duma chama viva
e movediça, que não se apagavam ao contato da nuvem, porque eu os via
atravessando-a, como se veem os peixes na água profunda.
A superfície da nuvem abriu-se como
uma tenda imensa e volveu lentamente em volta do seu eixo vertical. Logo que
voltou três vezes, tornei-me consciente da presença de um ser, que eu não podia
ver, mas que eu sabia vir da parte meridional. Sua presença não era como uma
forma, era como
uma vasta inteligência que enchia a nuvem.
Não era como eu pensava: minha forma enche um pequeno espaço, que fica vazio
quando me desloco, enquanto que ela pode encher a imensidade quando quiser e
mesmo sem deixar a nuvem.
Então dos flancos dessa nuvem foram
projetados dois jatos, semelhantes a línguas de vapor, suspendendo-se docemente
de cada lado da minha cabeça.
Logo que me tocaram, pensamentos que não eram os meus
entraram-me no cérebro.
- São, disse eu, os seus pensamentos
e não os meus; poderiam ser em grego ou hebraico e do mesmo modo os
compreenderia. Mas quanto devo agradecer na minha língua materna por poder
compreender assim toda a sua vontade!
Contudo, ainda que a minha percepção
fosse em inglês, essa linguagem estava tanto acima do que posso exprimir, que
difere da realidade como a tradução duma língua morta difere do original.
Assim, para exprimir: - É este o caminho que conduz ao mundo eterno, a frase só tinha quatro palavras. Nem uma única
frase, se houvesse de escrever-se, podia se conter num só período, tal era a
complexidade do sentido.
Eis a súmula como a posso dar:
"É este o caminho que conduz ao
mundo eterno. Os rochedos marcam a fronteira
entre os dois mundos e entre as duas vidas. Uma vez passada a meta, não poderás
mais voltar ao corpo. Se o teu fim é escrever as coisas que viste e dar ao
acaso a sua publicação, relatando-as particularmente, no segredo da intimidade,
se é isso apenas, tens concluído e podes passar além daqueles rochedos. Se,
porém, concluis, depois de teres visto e refletido, que é preciso publicar e
escrever o que presenciaste e que isso deve atrair e instruir, tua missão não está
cumprida e podes voltar ao teu corpo ... "
Encontrei-me em frente e junto dos rochedos onde havia
quatro passagens: uma muito escura, à esquerda, entre a escarpa e o último
rochedo desse lado; outra, em arco abatido, entre a rocha da esquerda e a do meio;
uma semelhante entre esta e a da direita ; e enfim um atalho muito estreito,
contornando o rochedo da minha direita, sobre a borda do caminho...
Pensava eu ver em breve anjos ou demônios,
ou uns e outros talvez, quando vi essas duas formas, tais quais muitas vezes a
minha imaginação as criou.
Examinando-as de perto, reconheci
que não eram reais, mas uma simples imagem de meus pensamentos e que qualquer
forma podia ser produzida desta maneira.
- Que mundo maravilhoso, refleti eu
comigo, em que o pensamento se torna tão intenso que reveste formas visíveis!
Quanto vou ser feliz neste reino do pensamento!"
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